100% acharam este documento útil (2 votos)
343 visualizações423 páginas

Conflitos Agrários em Minas Gerais

Este resumo descreve como a ocupação de terras na Comarca do Rio das Mortes em Minas Gerais no século XVIII e início do século XIX levou a conflitos com povos indígenas, quilombolas e colonos pobres à medida que a importância econômica da região cresceu. O texto analisa a conquista de sertões e a distribuição de sesmarias em terras indígenas, bem como conflitos envolvendo grandes proprietários de terras.

Enviado por

Dermeval Marins
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
100% acharam este documento útil (2 votos)
343 visualizações423 páginas

Conflitos Agrários em Minas Gerais

Este resumo descreve como a ocupação de terras na Comarca do Rio das Mortes em Minas Gerais no século XVIII e início do século XIX levou a conflitos com povos indígenas, quilombolas e colonos pobres à medida que a importância econômica da região cresceu. O texto analisa a conquista de sertões e a distribuição de sesmarias em terras indígenas, bem como conflitos envolvendo grandes proprietários de terras.

Enviado por

Dermeval Marins
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE CINCIAS HUMANAS E FILOSOFIA


PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM HISTRIA

FRANCISCO EDUARDO PINTO

POTENTADOS E CONFLITOS
NAS SESMARIAS DA COMARCA DO RIO DAS MORTES

NITERI
2010
FRANCISCO EDUARDO PINTO

POTENTADOS E CONFLITOS
NAS SESMARIAS DA COMARCA DO RIO DAS MORTES

Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao em


Histria do Instituto de Cincias Humanas e Filosofia
da Universidade Federal Fluminense como requisito
parcial para a obteno do Grau de Doutor em Histria.
rea de concentrao: Histria Moderna.

Orientadora: Profa. Dra. MRCIA MARIA MENENDES MOTTA

Niteri
2010
FRANCISCO EDUARDO PINTO

POTENTADOS E CONFLITOS
NAS SESMARIAS DA COMARCA DO RIO DAS MORTES

Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao em


Histria do Instituto de Cincias Humanas e Filosofia
da Universidade Federal Fluminense como requisito
parcial para a obteno do Grau de Doutor em
Histria. rea de concentrao: Histria Moderna.

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________
Profa. Dra. Mrcia Maria Menendes Motta - orientadora
Universidade Federal Fluminense

_____________________________________________
Prof. Dr. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo
Universidade Federal Fluminense

_____________________________________________
Prof. Dr. ngelo Alves Carrara
Universidade Federal de Juiz de Fora

_____________________________________________
Profa. Dra. Jnia Ferreira Furtado
Universidade Federal de Minas Gerais

_____________________________________________
Prof. Dr. Rafael Ivan Chambouleyron
Universidade Federal do Par

_____________________________________________
Profa. Dra. Sheila de Castro Faria - suplente
Universidade Federal Fluminense

Niteri
2010
Aos meus pais, que no tendo nada, deram-me tudo.

Dona Lourdes do Nh, que me ensinou a ler e a escrever.

A todos os trabalhadores rurais que morreram na luta pela


reforma agrria no Brasil.
Agradeo:

professora Mrcia Maria Menendes Motta, que orientou esta pesquisa. Seu rigor intelectual
e suas leituras meticulosas contriburam no s para a realizao da pesquisa e a elaborao
deste texto, como tambm para a minha prpria formao como historiador. Espero que esta
tese possa estar altura de sua orientao, permeada com estmulos instigantes com os quais
sempre soube tornar frteis nossas discusses;

ao doutor Jos Vicente Serro da Universidade Nova de Lisboa/ISCTE, co-orientador da


minha pesquisa em Portugal, pelas preciosas sugestes de fontes, pelos contatos
proporcionados com outros pesquisadores portugueses e pela participao nos seminrios de
Histria Moderna do ISCTE;

Laninha, que comigo compartilhou as alegrias e os desesperos do trabalho feito em to


escasso tempo. Ela prpria muitas vezes me ajudou a melhorar este texto com a bagagem
trazida de sua formao acadmica;

aos colegas da rea de licitaes do Banco do Brasil Valria Becker, Azambuja e Vera
Bustamante que, generosos, souberam compreender a importncia desta pesquisa;

ao doutor Gilson Barros, pela ajuda na cura das dores do corpo, resultado das inumerveis
horas de estudos e trabalhos;

ao meu irmo Rosalvo, que to generosamente revisou todo o meu texto, deixando nele as
marcas da sua inteligncia e sabedoria;

aos servidores do Arquivo Regional do IPHAN de So Joo del-Rei, que gentilmente me


permitiram digitalizar toda a documentao de sesmarias, especialmente a seus diretores
Ftima e Jairo e estagiria Marizlia Gontijo que, com muita gentileza, facilitou meu rduo
trabalho. Aos funcionrios do Museu Regional do IBRAM de So Joo del-Rei,
especialmente ao seu diretor Joo Barbosa e estagiria Vanessa;
aos funcionrios do Arquivo Pblico Mineiro, que por diversas vezes me acolheram com toda
a solicitude, especialmente ao Dnis e Milena;

aos funcionrios da Torre do Tombo (doutora Odete Martins, doutor Paulo Tremoceiro e dona
Maria do Cu), da Seo de Manuscritos da Biblioteca Nacional de Portugal (dona Maria
Helena e dona Joaquina), do Arquivo Histrico Ultramarino (doutor Jos Sintra Martinheira)
e do Arquivo do Tribunal de Contas em Lisboa, que me acolheram com extrema simpatia e
competncia ao longo de quatro meses de prazerosas pesquisas em Portugal;

Coordenao de Aperfeioamento do Pessoal de Nvel Superior (CAPES) do Ministrio da


Educao, que me concedeu uma bolsa de estudos atravs do Programa de Doutorado no Pas
com Estgio no Exterior (PDEE). Foi graas aos recursos dessa bolsa que pude complementar
a documentao necessria pesquisa e ter a oportunidade, sonhada por qualquer pesquisador
da histria colonial do Brasil, de frequentar os indescritveis arquivos portugueses;

ao Instituto Cultural Amlcar Martins (ICAM) e USIMINAS, pela concesso de uma bolsa
ao longo de seis meses, com cujos recursos pude adquirir equipamentos e livros necessrios
pesquisa;

aos professores Sheila de Castro Faria e Luciano Raposo de Almeida Figueiredo, pelas
criteriosas crticas durante o exame de qualificao;

ao Programa de Ps-Graduao em Histria da Universidade Federal Fluminense, um dos


mais prestigiados do pas, por ter me acolhido ao longo desses quatro anos;

aos amigos historiadores Antnio Gaio, Jos Antnio Dab-dab, Marcos Andrade e Daniel
Domingues os quais, cada um sua maneira, ajudaram-me a trilhar este longo caminho e
fizeram aumentar em mim o gosto pelo ofcio de historiador. Os professores Gaio (na
graduao) e Dab-dab (no mestrado) ensinaram-me que possvel ser, ao mesmo tempo, um
excelente professor e uma excelente pessoa;
aos colegas pesquisadores do Ncleo de Referncia Agrria da Universidade Federal
Fluminense, pelas constantes oportunidades de interlocuo e troca de experincias nos
diversos encontros que temos realizado no decorrer dos ltimos anos;

aos professores do curso de Histria da Universidade Federal de So Joo del-Rei (UFSJ),


onde comecei minha trajetria de pesquisador, especialmente, professora Lenia Resende,
que muitas vezes me prestou esclarecimentos e disponibilizou preciosos materiais de
pesquisa;

ao Luiz Carlos Villalta, professor e amigo. Foi durante um curso por ele ministrado na UFMG
que nasceu a ideia do projeto desta tese. Agradeo-lhe ainda a ateno dispensada durante o
perodo no qual pesquisamos juntos na Torre do Tombo. Ao professor ngelo Carrara, pela
gentileza com a qual me socorreu em algumas dvidas sobre a histria econmica de Minas
colonial;

aos professores ngelo Alves Carrara, Jnia Ferreia Furtado, Luciano Raposo de Almeida
Figueiredo, Rafael Chambouleyron e Sheila de Castro Faria que gentilmente acederam ao
convite para participar da banca examinadora desta tese;

ao Jos Campos de Resende, nascido e criado na roa, dono de uma cultura e de uma viso de
mundo invejveis. Com esse amigo tenho aprendido muitos segredos do campo e do dia-a-dia
dos camponeses;

aos meus pais, Antnio e Trindade, j falecidos, que com pobreza e dignidade educaram e
fizeram de todos os seus onze filhos cidados trabalhadores, honestos, justos e ticos.
Esforaram-se para proporcionar a todos ns a melhor educao formal, mesmo sem recursos
financeiros, alegrando-se imensamente com os nossos xitos na escola primria, no antigo
ginsio, no seminrio, no colgio de freiras, na escola tcnica, na universidade, pois sabiam
que a nica herana que teriam a nos legar eram os princpios fundamentais de uma educao
humana e religiosa;

ao sofrido povo brasileiro, sobretudo aos negros, ndios, trabalhadores sem-terra, bias-frias,
operrios, desempregados, muitas vezes marginalizados e analfabetos os quais, como
humildes contribuintes, sustentaram a minha formao escolar, sempre em escola pblica, do
ensino fundamental universidade. Alm do agradecimento, quero de alguma forma retribuir
o seu sacrifcio com o meu trabalho, tanto na docncia responsvel, como na militncia
gratuita nos movimentos sociais.
Resumo

Nesta tese ns nos propomos a investigar a ocupao territorial das regies mais remotas da
extensa Comarca do Rio das Mortes, em Minas Gerais, na segunda metade do sculo XVIII e
no primeiro quartel do XIX atravs das doaes de sesmarias. Observamos que medida que
a comarca foi ganhando destaque no abastecimento do Rio de Janeiro acirrou-se a disputa
pelas terras de agricultura resultando em conflitos com as populaes marginais da capitania:
ndios, quilombolas e colonos pobres. Para isso, abordamos o processo de conquista dos
sertes das nascentes do rio So Francisco, a oeste, e dos sertes dos rios Pomba e Peixe, a
leste, avanando sobre as terras indgenas, imediatamente distribudas em sesmarias.
Estudamos ainda as partes dos autos de medio e demarcao de algumas sesmarias da
comarca e os conflitos judiciais da decorrentes. Para a percepo desses conflitos
focalizamos alguns poderosos proprietrios de terras. Procuramos entender o funcionamento
dos processos de medio e demarcao das sesmarias, marcados pelo inevitvel
envolvimento das autoridades judiciais e administrativas em benefcio desses potentados.
Apontamos as dificuldades enfrentadas por sesmeiros absentestas para a conservao das
suas propriedades usurpadas por administradores e ocupadas por posseiros, como foi o caso
dos nobres portugueses da famlia Souza Coutinho. Por fim, observamos a disputa pela posse
de uma grande sesmaria entre diversos moradores da freguesia da Campanha do Rio Verde e
o coronel Incio Jos de Alvarenga Peixoto, ouvidor da Comarca do Rio das Mortes e um dos
homens mais ricos e influentes da capitania.

Palavras-chave: sesmarias, sesmeiros, Minas Gerais, conflitos agrrios, histria colonial do


Brasil
Rsum

Cette recherche examine loccupation territoriale des rgions les plus lointaines de
limportante commune (Comarca) do Rio das Mortes, dans la province (capitania) de Minas
Gerais, qui sest donn par le systme de donation de terres, appel sesmarias, dans la
seconde moiti du XVIIIme. et le premier quart du XIXme. Nous avons pu observer que, au
fur et mesure que la Comarca do Rio das Mortes gagnait de limportance dans le
ravitaillement de la ville de Rio de Janeiro, la dispute des terres sest accentue, dbouchant
sur des conflits avec les populations de la priphrie de la province: des indiens, des
communauts de noirs (quilombolas) et des colons pauvres. Dans cette approche, nous
examinons le processus de conqute des rgions peu peuplieus, les sertes, partir des
sources du fleuve So Francisco, louest, et des sertes des fleuves Pomba et Peixe, lest,
jusquaux terres indiennes, qui ont t distribues en sesmarias depuis le dpart. Notre tude a
port galement sur la documentation de lpoque contenant les registres de mesure de surface
et de bornage des sesmarias de la Comarca do Rio das Mortes, ainsi que les conflits
judiciaires qui en dcoulrent. Nous nous sommes particulirement intresss aux conflits
dont lune des parties tait un gros propritaire de terre. Nous avons cherch comprendre le
fonctionnement des procdures de mesure et de bornage des sesmarias, marqu par
linvitable parti-pris des autorits judiciaires et administratives en faveur des gros
propritaires. Nous montrons aussi les difficults vcues par des propritaires des sesmarias,
les sesmeiros absentistes, pour conserver leurs proprits prises par des administrateurs et
occups par des envahisseurs, comme cela a t le cas des portugais de la famille noble Souza
Coutinho. Finalement, nous avons observ le conflit pour la possession dune grande
sesmaria entre plusieurs habitants du lieu-dit Campanha do Rio Verde et le colonel Incio
Jos de Alvarenga Peixoto, juge dans la Comarca do Rio das Mortes et lun des hommes les
plus riches et plus prestigieux de la province.

Mots-cls: sesmarias, sesmeiros, Minas Gerais, conflits agraires, histoire coloniale du Brsil.
Lista de Figuras
Figura 1
Mapa das comarcas de Minas Gerais (1821)............................................................................ 21
Figura 2
Mapa da Comarca do Rio das Mortes (1821)........................................................................... 21
Figura 3
Mapa da Comarca do Rio das Mortes (1809)........................................................................... 52
Figura 4
Recolhimento das Macabas, edificao do sculo XVIII (2009). .......................................... 55
Figura 5
Mapa da Conquista do mestre-de-campo, regente Incio Correia Pamplona (cerca de 1784). 68
Figura 6
Fazenda do Engenho Velho dos Cataguases: casa, capela, coberta grande e muros (2008). ... 93
Figura 7
Fazenda do Engenho Velho dos Cataguases: casa e capela (2008).......................................... 94
Figura 8
Distribuio geogrfica dos mineirdios................................................................................. 108
Figura 9
Mapa da sesmaria da fazenda da Fortaleza do alferes Manoel Freire (1797). ....................... 213
Figura 10
Mapa de toda a extenso da Campanha da Princesa (1799)................................................... 298
Figura 11
Carta de confirmao da sesmaria de Francisco Xavier Correia de Mesquita (1741). .......... 307
Figura 12
Fazenda da Paraopeba, termo da vila de So Jos, de Alvarenga Peixoto (2007). ................ 319
Figura 13
Mapa da sesmaria da fazenda da Boa Vista, apresentado por Alvarenga Peixoto (1778). .... 341
Figura 14
Mapa da sesmaria da fazenda da Boa Vista, apresentado por Gaspar Vaz da Cunha (1778).342
Lista de Quadros

Quadro 1

Mapa geral das sesmarias nas quatro comarcas de Minas Gerais (1700-1768)......... 53

Quadro 2

Posse de escravos por proprietrio no termo da vila de So Bento do Tamandu


(1818)....................................................................................................................... 102

Quadro 3

Posse de cativos por proprietrio escravista no termo da vila de So Bento do


Tamandu (1818)..................................................................................................... 102

Quadro 4

Declarao da forma de aquisio da terra no termo da vila de So Bento do


Tamandu (1818)..................................................................................................... 103

Quadro 5

Planejamento do padre Francisco da Silva Campos para aldear 3.000 ndios no rio
Pomba (1801)........................................................................................................... 123

Quadro 6

Mapa dos portugueses existentes com cultura nas vertentes do rio Ub, territrio dos
ndios Coroados (1819)............................................................................................ 153

Quadro 7

Esquema comparativo das medies e demarcaes da sesmaria do capito Jos


Veloso Carmo (1758 e 1773)................................................................................... 185

Quadro 8

Rendimentos remetidos da fazenda do Registro para Portugal (1733-1771) .......... 260


Lista de Abreviaturas

ACL/ANTT: Arquivo dos Condes de Linhares/ Arquivo Nacional da Torre do Tombo

ADIM: Autos de Devassa da Inconfidncia Mineira

AHBTCP: Arquivo Histrico e Biblioteca do Tribunal de Contas de Portugal

AHCMSJDR/BMBCA: Arquivo Histrico da Cmara Municipal de So Joo del-Rei/ Biblioteca


Municipal Batista Caetano de Almeida

AHCMSJT: Arquivo Histrico da Cmara Municipal de So Jos e Tiradentes

AHCSM: Arquivo Histrico da Casa Setecentista de Mariana IPHAN

AHET/IPHAN-MG/SJDR: Arquivo Histrico do Escritrio Tcnico II da 13 SR/IPHAN/So Joo


del-Rei

AHET/IPHAN-MG/SJDR/BDS: Arquivo Histrico do Escritrio Tcnico II da 13 SR/Instituto do


Patrimnio Histrico e Artstico Nacional Minas Gerais/So Joo del-Rei/ Banco de Dados de
Sesmarias

AHMI: Arquivo Histrico do Museu da Inconfidncia/Casa do Pilar IPHAN

APM: Arquivo Pblico Mineiro

APM-CC: Arquivo Pblico Mineiro - Documentos Avulsos da Casa dos Contos

APM-SC: Arquivo Pblico Mineiro - Seo Colonial

BNP: Biblioteca Nacional de Portugal

IANTT: Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo

IBRAM/MRSJDR: Instituto Brasileiro de Museus/Museu Regional de So Joo del-Rei

IHGB: Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro

IPHAN: Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional

RAPM: Revista do Arquivo Pblico Mineiro

SM; S.M.: Sua Majestade

SM-MPT: Sesmarias-Mapoteca do Instituto Brasileiro de Museus/Museu Regional de So Joo del-


Rei
Critrios utilizados nas transcries

Com vistas a facilitar a leitura e a compreenso dos trechos de documentos transcritos nesta
tese, adotamos alguns critrios para atualizao ortogrfica. Tais critrios seguiram, de perto,
o que preconiza Emanuel Arajo em A construo do livro, p. 213-246, para textos da histria
do Brasil:

1. desdobramos as abreviaturas, como nos seguintes casos: govor = governador, Pe =


padre, Lx = Lisboa, mce = merc, do = dito etc.;
2. visando a facilitar a compreenso, fizemos interpolaes no interior do texto de
algumas transcries atravs do acrscimo de palavras. Essas interferncias foram
registradas entre colchetes;
3. atualizamos diversos arcasmos, como, por exemplo, cousa = coisa, cropos =
Corops, croatos = Coroados, dous = dois, Joz e Joseph = Jos, Menezes =
Meneses, Mathias = Matias, Vellozo = Veloso, Igncio = Incio, Anna = Ana etc.;
4. conforme recomenda ARAJO (2008, p. 244), empregamos inicial minscula na
titularidade profissional (capito, governador, coronel, alferes, padre, diretor,
ouvidor, juiz, doutor etc.) e na nobilirquica (visconde, conde, marqus, dom etc.)
e, da mesma forma, nas designaes administrativas (capitania, freguesia, termo,
distrito, arraial etc.). Em alguns casos foram mantidas as iniciais maisculas, tais
como Corte, Casa, Principal etc.
Sumrio

Introduo ..................................................................................................................... 14

Captulo 1

Incio Correia Pamplona e as sesmarias do serto do rio So Francisco ............... 43

1.1 O serto e suas representaes............................................................................. 46


1.2 A Comarca do Rio das Mortes e a conquista do serto do Campo Grande ......... 51
1.3 Pamplona: um rebelde dissimulador (1789) ........................................................ 69
1.4 Morre um delator atormentado (1810)................................................................. 74
1.5 Os primeiros colonos da conquista do Campo Grande........................................ 81
1.5.1 Pamplona distribui sesmarias no caos do serto (1769) ............................ 83
1.5.2 Ordem no caos: o serto esquadrinhado/mapeado (1818) ......................... 96
Captulo 2

Terra de ndio, terra de ningum: conquista e civilizao da banda oriental da


capitania de Minas...................................................................................................... 107

2.1 A delimitao oriental da comarca pelo serto inculto habitado pelo


brabo gentio Puri.................................................................................................... 109
2.2 A crescente poltica de incorporao dos sertes orientais da capitania de Minas
por parte dos governadores dos perodos josefino e mariano .................................. 111
2.3 Padre Manuel de Jesus Maria: um fazendeiro na catequese e aldeamento dos
Corops e Coroados .................................................................................................. 126

2.4 Padre Manoel Lus Branco: letrado, sertanista e fazendeiro ............................. 135
2.5 Francisco Pires Farinho: fazendeiro e diretor dos ndios................................... 139
2.6 As sesmarias do Pomba e Peixe distribudas nos aldeamentos indgenas ........ 141
2.7 Paragem do Faco: um conflito levado ao juzo das sesmarias ......................... 164
Captulo 3

Medir, demarcar, esquadrejar: conflitos e fraudes no inexato do exato............... 170

3.1 Transferir a posse da terra: momento de tenso ................................................ 174


3.2 Embargo da remedio das terras de um rico Cavaleiro da Ordem de Cristo ... 180
3.3 Vertentes do Inga e Morro da Fortaleza: paragem da confuso e da discrdia 196

Captulo 4

A Hidra de Sete Bocas: as sesmarias dos Souza Coutinho nas Minas setecentistas225

4.1 A famlia ............................................................................................................ 231


4.2 A riqueza que veio do ouro e a rede de correspondentes................................... 236
4.3 A herana e suas longas demandas .................................................................... 246
4.4 As fazendas ........................................................................................................ 254
4.5 Os insucessos na administrao das fazendas e as dvidas ................................ 279

Captulo 5

Conflitos nas terras do ouvidor Alvarenga Peixoto................................................. 296

5.1 A revelao de um documento........................................................................... 296


5.2 A Campanha do Rio Verde ................................................................................ 298
5.3 Autos de remedio da sesmaria de Joo Crisstomo: uma fraude cartorial?... 303
5.4 Alvarenga Peixoto: leal vassalo, desleal vizinho, desleal vassalo ..................... 314
5.5 A sesmaria da Boa Vista: muitas terras, muitos donos...................................... 326
5.6 As testemunhas e os testemunhos...................................................................... 349
5.7 O desfecho ......................................................................................................... 356

Consideraes Finais .................................................................................................. 364

Fontes........................................................................................................................... 369

Referncias Bibliogrficas ......................................................................................... 394

Anexos.......................................................................................................................... 410
Introduo

1. O sistema sesmarial portugus

A legislao que regulou a distribuio de terras devolutas no Brasil colnia teve suas
origens em Portugal, no baixo medievo. Criada por D. Fernando I,1 em meados do sculo
XIV, a Lei das Sesmarias2 no s regia o domnio das terras incultas e abandonadas, como
tambm obrigava os mendigos, vadios, ociosos e os que tivessem hereditariamente o ofcio de
lavrador a se vincularem terra. A modificao substancial que essa lei sofreu foi somente a
supresso desse vnculo por ocupao, que restringia a liberdade pessoal, como se fosse um
tipo de servido, prevalecendo somente o domnio do solo. Alm disso, de acordo com Cirne
Lima, entre as Ordenaes de D. Manuel e as de D. Filipe II, nenhuma modificao
substancial se operou na instituio das sesmarias, e tanto se pode verificar, ou confrontando
os respectivos textos, ou consultando a compilao das leis intermedirias, aprovada pelo
Alvar de 14 de fevereiro de 1569".3 No Brasil, para se ter uma ideia do quanto a legislao
sobre a posse da terra pouco evoluiu, no hiato de vinte e oito anos entre a abolio das
sesmarias, em 1822, e a promulgao da Lei de Terras, de 1850, nas contendas judiciais
envolvendo a posse da terra prevaleceram as Ordenaes Filipinas.4

1
GUIMARES. Quatro sculos de latifndio, p. 43: Quando, no reinado de D. Fernando I escreve Cirne
Lima [Terras Devolutas] se publicou a Lei das Sesmarias, era velha j a praxe de se tirarem aos donos as terras
cultivadas, que estes desleixavam, para entreg-las, mediante foro ou penso devidamente arbitrada, a quem as
quisesse lavrar ou aproveitar. FAORO. Os donos do poder, p. 42, d uma data aproximada para a Lei das
Sesmarias: 1375. RAU. Sesmarias medievais portuguesas, p. 89-90 confirma o ano de 1375.
2
Para esclarecimento do significado do termo sesmaria, sugerimos a leitura de Rui Cirne Lima. Segundo esse
autor: Dentre aquelas sugestes filolgicas, a mais amplamente aceita a que tem a voz sesmaria por derivada
de sesma (seisma) ou sesmo (seismo), sua vez derivaes do baixo latim seximus-a, ou sextimus-a.
Procederia sesmaria de sesma, ou sesmo e, enfim, de seis ou sex, por isso que, j se acenou ao fato, as dadas de
terras, assim designadas, eram feitas com o foro da sexta parte dos frutos. (grifos do autor) p. 20. LIMA.
Pequena histria territorial do Brasil, p. 19-22. Pode-se valer tambm dos esclarecimentos de COSTA PORTO.
O sistema sesmarial no Brasil, p. 30-33.
3
LIMA. Pequena histria territorial do Brasil, p. 24.
4
MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 52-53.
15

Quando de sua criao, a Lei das Sesmarias parecia ser necessessria e um tanto
quanto ousada, ao desafiar interesses de proprietrios de terras no cultivadas. No Portugal do
sculo XIV, assolado pela fome, pela peste e pela queda demogrfica, a ao de D. Fernando I
denota claramente a boa inteno de um governante para com seu povo. O esprito da lei era
bastante claro: visava ao abastecimento e ao repovoamento do pas.

D. Fernando refere Duarte Nunes de Leo nas suas crnicas vendo que,
nos tempos passados, este reino era um dos mais abundantes de Espanha de
trigo, cevada, e mantimentos, e por falta de ordem e polcia, era pelo
contrrio no seu tempo, em Cortes que para isso ajuntou, fez algumas leis,
mui teis repblica e queles tempos mui necessrias. [...] E que quando os
donos das herdades as no aproveitassem, ou dessem a aproveitar, que as
justias as dessem a quem as lavrasse por certa coisa; a qual seu dono no
houvesse, mas fosse despesa em proveito comum do lugar, onde a herdade
estivesse. [...] E no querendo o dono da herdade convir em coisa razoada,
que perdesse a herdade para sempre, e fosse para o comum do lugar, em cujo
termo estivesse.5

No Brasil, o escopo da lei no poderia ser exatamente o mesmo. A partir da diviso da


colnia em capitanias hereditrias, o que existia era uma imensido de terras para se povoar
de portugueses, no repovoar. As terras no tinham donos como em Portugal e os povos
indgenas que as habitavam no eram vistos como seus legtimos proprietrios.6 No se
tratava, ento, de repassar a terra no cultivada de um dono para outro. Em Portugal,
sesmarias so propriamente as dadas de terras, casaes ou pardieiros, que foram, ou so de
alguns Senhorios, e que j em outro tempo foram lavradas e aproveitadas, e agora o no so.7
Esse no era o caso do Brasil, onde as terras, quase todas devolutas, estavam sob a jurisdio
eclesistica da Ordem de Cristo, e lhe eram tributrias, sujeitas como lhe ficavam ao
pagamento do dzimo, para propagao da f.8 Terras da Ordem de Cristo9 seriam, na

5
LIMA. Pequena histria territorial do Brasil, p. 17-18.
6
SANTOS. Direito agrrio, p. 40-45. O autor faz um apanhado muito incipiente do direito indgena sobre a
posse da terra. Seria bom ressaltar que o conceito de propriedade pode parecer anacrnico, em se tratando da
ocupao da terra pelos povos indgenas do Brasil colnia. Mesmo no Imprio e na Repblica essa questo no
tinha muita definio e os povos indgenas remanescentes so como que tutelados pelo Estado. Sobre os
conflitos com povos indgenas pela posse da terra, no Brasil colnia, conferir o artigo de FARIA. A questo da
terra livre no Brasil colnia e conflitos sociais.
7
LIMA. Pequena histria territorial do Brasil, p. 25.
8
Idem, ibidem, p. 35.
9
Fundada por D. Diniz em 1319 para substituir a Ordem dos Cavaleiros Templrios, a Ordem de Cristo foi
sendo gradativamente absorvida pela Coroa desde os tempos do Infante D. Henrique. A partir desse reinado, por
bula papal, os reis portugueses passaram a ser os governadores e administradores perptuos da Ordem. A
divulgao da f crist nas novas conquistas era um dos princpios basilares da Ordem. A Coroa, para cumprir a
sua misso apostlica, pois tinha a convico de que Portugal era a nao missionria por excelncia no mundo
16

prtica, da Coroa portuguesa que tinha uma grande ascendncia sobre a Ordem.10 Por outro
lado, mesmo sendo menor a existncia de terras devolutas em Portugal, as Ordenaes
Manuelinas e Filipinas j previam seu uso e destinao,11 como tambm a Lei das Sesmarias
de D. Fernando I. Segundo Cirne Lima, salvas as modificaes provenientes da diversidade
entre o aparelho administrativo da colnia e o do reino, a instituio das sesmarias no Brasil
se regia pelo teor das Ordenaes.12

Os primeiros sesmeiros da colnia, responsveis por distribuir as sesmarias, foram os


donatrios das capitanias hereditrias. Mais tarde, coube aos capites-generais das capitanias
essa prerrogativa, em nome do rei de Portugal. Na colnia, com o passar do tempo, a palavra
sesmeiro passou a designar, quase que exclusivamente, aquele que recebia a sesmaria, no
mais quem a distribua.

O esprito da legislao previa que as sesmarias fossem dadas queles que fossem
capazes de cultiv-las. Todavia, h notcias de doao de grandes extenses a uma s famlia.
Alberto Passos, citando Felisbello Freire, d ideia dos exageros cometidos: as concesses no
norte abrangiam em geral uma maior extenso territorial do que no sul. Com exceo feita da
donataria do visconde de Asseca, em Campos, as sesmarias no sul no excediam de trs

ocidental, teria grandes despesas (BOXER. O imprio martimo portugus, p. 245). Para compensar esses
elevados encargos, em contrapartida, detinha os privilgios do Padroado. Com isso, a Coroa passou, ento, a ter
direito sobre todos os postos, cargos, benefcios e funes eclesisticas no reino e nos territrios ultramarinos
conquistados e por conquistar. Poderia arrecadar os dzimos do que se produzia nas terras ocupadas para
compensar as suas despesas com os encargos missionrios. A arrecadao nem sempre era suficiente, mas o
Padroado dava-lhe considervel poder poltico.
Se, na origem, a ideia fundamental era a dilatao da f crist, com o passar do tempo, a Ordem de
Cristo foi se transformando numa instituio de nobilitao, distino e prestgio no seio da sociedade do Antigo
Regime, mais do que as outras duas ordens militares de Avis e de Santiago. Os reinis e colonos, para
ingressarem como membros da prestigiosa Ordem de Cristo, passavam por um rigoroso crivo cujas exigncias
variaram de intensidade ao longo do tempo. Se, por um lado, poderiam ser considerveis os trabalhos e as
despesas para tornar-se cavaleiro, por outro, eram compensadores os prestgios, privilgios e rendas pecunirias
que auferiam os que ingressavam na Ordem. O que se pode afirmar, sem sombra de dvida, que a concesso
das mercs da Ordem de Cristo funcionou como uma importante moeda de troca entre Coroa e vassalos durante
toda a sua existncia. H, porm, uma condio nessa contabilidade que rege a relao rei/vassalo no Antigo
Regime: se o monarca no for liberal na recompensa dos servios prestados pelo sdito, este desgosta de fazer
cousa lustrosa. SILVA. Ser nobre na colnia, p. 76.
Como um maior entendimento dessa instituio extrapola a finalidade da nossa pesquisa, sugerimos a
leitura de SILVA. Ser nobre na Colnia, no seu todo e, em particular, as p. 76-81, 96-122 e 198-212; BOXER. O
imprio martimo portugus, p. 242-245 e COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 35-38. Temos
notcia de que a pesquisadora portuguesa Fernanda Olival uma das mais respeitveis investigadoras sobre o
tema na atualidade. OLIVAL. As ordens militares e o Estado moderno.
10
FAORO. Os donos do poder, p. 141: [...] O rei, em nome da Ordem de Cristo, j longamente absorvida pela
Coroa, distribuiu, por meio dos donatrios, o cho arvel sem nenhum encargo a no ser o dzimo. [...].
11
LIMA. Pequena histria territorial do Brasil, p. 35, nota 71.
12
LIMA. Pequena histria territorial do Brasil, p. 39.
17

lguas de extenso, quando no norte havemos de encontrar concesses de 20, 50 e mais


lguas. Basta assinalar as concesses de Garcia dvila e seus parentes que se estendiam da
Bahia at o Piau em uma extenso de 200 lguas (grifos nossos).13 Processo diferente
ocorreu na colonizao da Amrica do Norte, onde os colonos ingleses disputavam acres e
no lguas de terras.14

Foi do gigantismo dessas propriedades rurais que veio a ideia, defendida por diversos
autores clssicos brasileiros, da permanncia do feudalismo na colnia.15 Ideia superada,
considerando-se a insero da colnia no mundo mercantilista:

Para evitar o risco das inteis repeties, sem pretender solucionar a


polmica, definitivamente instaurada na historiografia brasileira, a tese mais
convincente em nossa histria repele o chamado feudalismo brasileiro. A
empresa de plantao teve ntido cunho capitalista dentro do capitalismo
mercantil e politicamente orientado do sculo XVI portugus.16

Considerando essa polmica tambm resolvida, uma boa razo para desenvolver as
pesquisas cujos resultados ora apresentamos justamente a carncia de estudos especficos
sobre a distribuio das sesmarias em Minas Gerais, durante o perodo colonial. Conhecemos
abordagens pontuais, artigos em revistas de histria, captulos de dissertaes ou teses.
Desconhecemos, porm, um trabalho que tenha se dedicado integralmente ao assunto. O que
tem sido feito com maior frequncia para Minas, em matria de histria agrria, so estudos

13
GUIMARES. Quatro sculos de latifndio, p. 51.
14
FAORO. Os donos do poder, p. 137-139: O contraste com as colnias inglesas, um sculo depois fundadas,
sobressai de modo patente. [...] A Inglaterra dispunha, no momento da transmigrao, de um arsenal de homens e
mulheres acostumados ao duro trabalho agrcola, sem que o desdm do cultivo da terra pelas prprias mos os
contaminasse, desdm aristocrtico e ibrico. Uma classe mdia o yeomen - proprietria de pequenas
fazendas, industriosa e de esprito livre, fornecia o modelo das ambies do proletariado agrcola, liberto da
servido h dois sculos. (grifos nossos)
15
GUIMARES. Quatro sculos de latifndio, p. 34: O monoplio feudal e colonial a forma particular,
especfica, por que assumiu no Brasil a propriedade do principal e mais importante dos meios de produo na
agricultura, isto , a propriedade da terra. [...]. DUARTE. A Ordem Privada e a Organizao Poltica Nacional,
p. 24: Donatrios, donos de sesmarias, senhores de engenhos e de fazenda e de currais, embora s os primeiros
detivessem, por outorga legtima, a jurisdio civil e a governana, continuaram a desenvolver longe e
indiferentes, ou refratrios a um poder de Estado to distante, a ndole feudal ou feudalizante da sociedade.
(grifos nossos)
16
FAORO. Os donos do poder, p. 148 passim. Inmeros estudos atuais sobre o escravismo tm demonstrado no
ser a terra o fator determinante do modelo econmico do Brasil, tanto na colnia quanto no Imprio. O prprio
Faoro, p. 150, afirma o seguinte: A terra, em si, pouco valia no conjunto da empresa, valor relativo no sculo
XVI, como ainda no sculo XIX: a riqueza necessria, para a empresa, era o escravo.
18

sobre agricultura, escravismo e abastecimento.17 Os trabalhos sobre o escravismo talvez sejam


os mais presentes. Tais estudos so de extrema importncia e o objeto que decidimos estudar
certamente estabelece um construtivo dilogo com esses trabalhos.

Para qualquer historiador interessado em pesquisar sobre o sistema sesmarial, a


primeira leitura obrigatria o j clssico livro de Virgnia Rau, Sesmarias medievais
portuguesas. No entanto, esse texto, como o prprio nome diz, trata, exclusivamente, das
origens do sistema na pennsula ibrica antes da expanso martima.18 Em estudo recente,
Carmen Alveal, faz um levantamento panormico sobre as sesmarias da Amrica portuguesa.
E, no nosso entendimento, seu maior mrito foi explicar com bastante clareza o processo de
transio desse instituto da metrpole para a colnia atravs dos experimentos feitos nas ilhas
atlnticas: Aores, Cabo Verde, So Tom e Prncipe e Madeira.19

Os primeiros trabalhos mais gerais e clssicos sobre as sesmarias no Brasil foram


desenvolvidos por Jos da Costa Porto e Ruy Cirne Lima.20 Ambos os textos so referncia
indispensvel para quem se prope estudar o assunto. So escritos de elevada erudio e
saber. H, contudo, algo importante a se considerar para o ofcio do historiador: a pesquisa em
fontes primrias tem um peso menor na elaborao desses trabalhos. So ensaios sem o rigor
da pesquisa historiogrfica. O prprio Costa Porto, em um excesso de modstia, revela essa
limitao. Isso de forma alguma ofusca a relevncia do seu trabalho e abre espao para novas
pesquisas:

ocioso realar que estas notas descosidas no visam a preencher a lacuna


[da histria das sesmarias]. Ao lado das nossas limitaes pessoais, h de se
levar em conta a dificuldade de consultar fontes, na carncia franciscana dos
nossos arquivos e bibliotecas da Provncia, bastando atentar em que, em
esforo penoso de vrios anos, nunca pudemos ir alm das consultas de
segunda mo... E estas, ainda assim, vasqueiras e pobres.21

17
ZEMELLA. O abastecimento da capitania das Minas Gerais no sculo XVIII; SILVA. Subsistncia e poder: a
poltica do abastecimento alimentar nas Minas setecentistas; LENHARO. As tropas da moderao: o
abastecimento da Corte na formao poltica do Brasil 1808-1842; GUIMARES e REIS. Agricultura e
caminhos de Minas (1700-1750); GUIMARES. Quilombos e brecha camponesa Minas Gerais (sculo XVIII)
e CARRARA. Agricultura e pecuria na capitania de Minas Gerais (1674-1807), entre outros.
18
RAU. Sesmarias medievais portuguesas.
19
ALVEAL. Converting land into property in the Portuguese Atlantic World, 16th-18th century. Para as
sesmarias nas ilhas atlnticas, ver o captulo 3, p. 124-151.
20
LIMA. Pequena histria territorial do Brasil; COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil.
21
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 7.
19

Costa Porto, todavia, enganou-se. Ele no tinha, talvez, um conhecimento maior de


nossos arquivos, que no so de uma carncia franciscana.

Entre os raros especialistas atuais sobre o assunto encontramos a Professora Mrcia


Maria Menendes Motta, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. Mrcia Motta,
fazendo uso de um instrumental terico mais refinado e desenvolvendo as suas prprias
teorias a partir de pesquisas em fontes primrias no Brasil e em Portugal, vem publicando
resultados de seus estudos referentes, sobretudo, interface entre a histria e o direito. Trata-
se do direito que regulou a doao das terras pelo instituto das sesmarias. Mrcia Motta leva
em considerao, inclusive, as frequentes relaes de conflito pela posse das terras, em geral
vista como mansa e pacfica pela historiografia tradicional.

A tese de doutoramento de Mrcia Motta, publicada na obra Nas Fronteiras do Poder:


conflito e direito terra no Brasil do sculo XIX, tomada como principal referncia para a
interpretao das fontes que constituem a base fundamental de nossas pesquisas: os processos
de medio e de demarcao das sesmarias. Tratando dos conflitos pela posse da terra no Vale
do Paraba, provncia do Rio de Janeiro, em meados do sculo XIX, sua discusso dos
processos judiciais e a metodologia que emprega na sua anlise fornecem inmeros elementos
para a compreenso dos litgios pela posse da terra em outras regies da colnia, no sculo
XVIII. No captulo dois, por exemplo, ela aponta para a importncia que tinham as
testemunhas nos processos e desvela os artifcios usados pelas partes envolvidas na tentativa
de provar a legitimidade de suas posses. Nos captulos seguintes, aprofunda o estudo da
gnese da Lei de Terras de 1850, demonstrando que sua formulao ia muito alm das
relaes expressas pelo binmio propriedade fundiria/mo de obra cativa. Demonstra que a
lei, votada pela elite proprietria, tambm foi utilizada para a conquista de direitos por
pequenos posseiros:

verdade que a maior parte dos posseiros era, de fato, grandes fazendeiros
muitos deles com prestgio e poder em sua localidade. Mas tambm
verdade que havia um sem-nmero de pequenos posseiros que poderiam se
beneficiar com a nova lei. Assim, em certo sentido, ela abria uma brecha no
processo de concentrao fundiria em curso, permitindo uma possibilidade
de democratizar o acesso terra, ao salvaguardar os interesses dos
lavradores que haviam ocupado pequenas parcelas de terras, antes da
aprovao da lei.22

22
MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 142.
20

Recentemente, a partir de suas pesquisas em arquivos nacionais e portugueses, alm de


discutir a legislao que norteava o instituto das sesmarias, com destaque para o Alvar de
1795, Motta traz luz importantes consideraes de autoridades coloniais, memorialistas e
jurisconsultos em Portugal e no Brasil, os quais, como fontes contemporneas, muito
contribuem para a compreenso da espinhosa seara das sesmarias.23

2. A Comarca do Rio das Mortes e o recorte temporal da pesquisa

Escolhemos como recorte geogrfico para a pesquisa a Comarca do Rio das Mortes, ao
invs de tomar como base toda a capitania das Minas Gerais. Nossa opo se deve s razes
seguintes: o excessivo volume de fontes disponveis, a indefinio geogrfica da capitania ao
longo do sculo XVIII e, sobretudo, a inconvenincia de se trabalhar com um recorte muito
amplo, conforme sugerem historiadores considerados referncia em histria agrria.24

A prpria Comarca do Rio das Mortes no tinha limites muito claros durante o sculo
XVIII. Foi criada em 1714, junto com as de Vila Rica e do Rio das Velhas, seguidas pela do
Serro Frio, em 1720. Durante o sculo XVIII permaneceram somente as quatro. A do Paracatu
s foi estabelecida em 1815. J em 1818, Auguste de Saint-Hilaire, profundo conhecedor da
regio, dizia ser a do Rio das Mortes, com cabea em So Joo del-Rei, a mais meridional das
cinco que compunham a Provncia de Minas Gerais. Assim o viajante francs descreveu seus
limites: a leste a comarca de Vila Rica; ao norte as de Sabar e Paracatu; a oeste as
Provncias de Gois e So Paulo; ao sul esta ltima e a do Rio de Janeiro. O mesmo autor
aponta que, em sua poca, havia controvrsias quanto aos limites das comarcas mineiras.25

23
MOTTA. Direito terra no Brasil: a gestao do conflito, 1795-1824. Mrcia Motta tambm responsvel
pela criao e articulao do NRA Ncleo de Referncia Agrria. Trata-se de um grupo de pesquisadores de
diversas partes do pas cujos objetos de estudo e pesquisa giram em torno da histria agrria desde o sculo XVI
at o sculo XX. O conjunto da obra de Mrcia Motta livros e artigos publicados um importante
instrumento terico e metodolgico para os pesquisadores preocupados em estudar a ocupao da terra no Brasil,
dando a necessria ateno aos conflitos que marcaram esta ocupao.
24
LINHARES; SILVA. Estudos histricos. p. 17-26. Regio e histria agrria.
25
SAINT-HILAIRE. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil, p. 105, nota 1. Essas indefinies,
contudo, no devem causar grandes embaraos ao pesquisador. Quem nos tranquiliza a respeito Marc Bloch:
[...] absurdo aferrar-se a fronteiras administrativas tomadas da vida presente, e no o muito menos utilizar
fronteiras administrativas do passado [...] necessrio que a zona escolhida tenha uma unidade real; no sendo
necessrio que tenha fronteiras naturais dessas que no existem mais do que na imaginao dos cartgrafos.
LINHARES; SILVA. Estudos histricos, p. 21.
21

FIGURA 1 Mapa das comarcas de Minas Gerais (1821).


Fonte: Ducumenta UFSJ, 2010.

FIGURA 2 Mapa da Comarca do Rio das Mortes (1821).


Fonte: Ducumenta UFSJ, 2010.

A Comarca do Rio das Mortes se enquadraria bem no conceito de regio trabalhado


por Ilmar Mattos para a colnia. Segundo ele, bastante afinado com o pensamento de Marc
22

Bloch, o que constitui uma regio no espao colonial a sua localizao numa colonizao de
explorao, nos quadros do Antigo Sistema Colonial:

Isto , quando impe o cruzamento das dimenses espacial e temporal e


procura apreender a regio como algo dinmico. E isto porque, se a regio
possui uma localizao espacial, este espao j no se distingue tanto por
suas caractersticas naturais, e sim por ser um espao socialmente
construdo, da mesma forma que, se ela possui uma localizao temporal,
este tempo no se distingue por sua localizao meramente cronolgica, e
sim como um determinado tempo histrico, o tempo da relao colonial.
Deste modo, a delimitao espcio-temporal de uma regio existe enquanto
materializao de limites dados a partir das relaes que se estabelecem
entre os agentes, isto , a partir das relaes sociais.26

Quando recorremos a Saint-Hilaire para estabelecer os limites da regio da Comarca


do Rio das Mortes, estamos cientes de que esses limites, imprecisos at mesmo para o viajante
francs, foram se delineando medida que o processo de colonizao avanava ao longo do
sculo XVIII. Os antigos caminhos que partiam de So Paulo, pelo sul de Minas, na segunda
metade do sculo XVII, o Caminho Novo aberto por Garcia Rodrigues Paes, no princpio do
XVIII, a abertura da Picada de Gois, a conquista dos sertes das cabeceiras do rio So
Francisco por Pamplona e sua gente, dos rios da Pomba e Peixe, a nordeste, e dos rios Verde e
Sapuca, ao sul, j na segunda metade do XVIII, que vo delinear, entre outros fatores, a
regio que convencionalmente chamamos de Comarca do Rio das Mortes. Sabemos que a
comarca no manteve a mesma configurao desde que foi criada em 1714 at o momento em
que Saint-Hilaire descreveu seus limites. Essa regio foi se configurando medida que suas
fronteiras foram sendo abertas para o oeste, nordeste e sul. Incio Correia Pamplona e sua
gente, partindo dos arredores das vilas de So Joo e So Jos, aprisionando ou dizimando
negros quilombolas e ndios, incorporaram um grande territrio a essa regio. Enfim, foi a
ao colonizadora desses homens, como de outros no passado, que configurou essa grande
regio.

Quanto ao recorte temporal, adotamos o ano de 1750 para incio e 1822 para trmino.
O ano de 1750 foi marcante para a histria de Portugal e de suas colnias, pelas considerveis
mudanas de cunho econmico e poltico, fruto da ascenso do marqus de Pombal ao poder.
Segundo Francisco Falcon e Fernando Novais,27 o perodo que se inicia com a Viradeira de

26
MATTOS. O tempo saquarema, p. 23-25.
27
FALCON. A poca pombalina: poltica econmica e monarquia ilustrada, p. 225. NOVAIS. Brasil e Portugal
na crise do antigo sistema colonial (1777-1808), p. 224 passim.
23

1777 e vai at 1820 caracterizava-se pela continuidade e pela adaptao da ilustrao da era
pombalina, sem grandes rupturas.28 Em 1822, Portugal perde definitivamente o Brasil, sua
mais importante colnia, e o regime das sesmarias, j demasiadamente catico, suprimido
pelo novo governo brasileiro, sem, contudo, deixar de servir de instrumento para a
legitimao das posses at que, em 1850, fosse promulgada a Lei de Terras.

3. A problematizao, a abordagem metodolgica das fontes e a estrutura


da tese

Estudos iniciados na dcada de 1970 tm apontado a importncia da Comarca do Rio


das Mortes como abastecedora do mercado do Rio de Janeiro, bem como salientado o
aumento de sua populao e o seu enriquecimento a partir da segunda metade do sculo
XVIII. Desejamos saber em que medida os projetos de ocupao dos sertes dessa comarca e
a distribuio de suas terras em sesmarias estariam associados a essa mudana econmica da
regio. Havia uma relao imediata entre essa distribuio de sesmarias e os projetos de
ocupao e civilizao dos sertes da capitania, levados a cabo pelos governadores dos
perodos josefino e mariano?

Pretendemos verificar se a ampliao das fronteiras agrcolas da capitania, ocupando


os sertes, especialmente na Comarca do Rio das Mortes, teria obedecido a critrios
propositais e racionais das autoridades portuguesas para povoamento e cultivo que
aumentavam a arrecadao de impostos ou se teria acontecido de forma desordenada.
Independente da forma como tenha acontecido, quem teriam sido os principais beneficiados?

Com a expanso das fronteiras agrcolas, o que teria acontecido com os povos
indgenas que ocupavam essas reas? provvel que eles tenham sido simplesmente expulsos
ou sua mo de obra foi explorada pelos colonos que se apossavam das terras. Se isso de fato
ocorreu, queremos conhecer quais foram as justificativas usadas pelo Estado portugus e
pelos colonos para ocuparem a terra indgena.

28
Apesar da inexistncia de grandes rupturas, achamos necessrio relativizar essa continuidade entre os dois
perodos. Jnia Furtado salienta que a crescente presso da elite metropolitana pelo fortalecimento dos laos
coloniais levou derrubada de Pombal e a chegada ao poder de Martinho de Mello e Castro, que tentou
implantar uma poltica mercantilista clssica e bastante rgida. FURTADO. O livro da capa verde, p. 32.
Segundo Maxwell, com Martinho de Mello e Castro, a proteo dos interesses da poderosa oligarquia
comercial-industrial metropolitana significava o abandono do flexvel sistema pombalino e a implantao, em
seu lugar, de um neomercantilismo mais rgido e efetivo. MAXWELL. A devassa da devassa, p. 98.
24

Pretendemos perceber a partir de quando e at que ponto o processo de


mercantilizao da terra acelerado na Europa aps o perodo feudal, sobretudo na Inglaterra,
esteve presente na regio que serviu de base para nossas pesquisas. No nosso entendimento,
h uma relao direta entre a valorizao das terras da Comarca do Rio das Mortes da as
disputas pelas melhores sesmarias e a proximidade de um mercado consumidor em
expanso no Rio de Janeiro.

Os instrumentos jurdicos que regiam a distribuio das sesmarias, apesar de


embasados no esprito da Lei das Sesmarias de 1375 e nas Ordenaes do Reino de Portugal,
eram dispersos, confusos e, muitas vezes, contraditrios e inaplicveis. Ento, no emaranhado
dessa legislao, pretendemos perceber as estratgias usadas pelas partes interessadas na
legitimao da posse de suas terras. E compreender, sobretudo, os motivos pelos quais a
Coroa teria relevado ou no cumprimento da legislao que regulava a doao das terras por
parte dos sesmeiros.

Uma das exigncias fundamentais das doaes de sesmarias era o cultivo da terra e a
necessidade de confirmao dos ttulos pelo rei, atravs do seu Conselho Ultramarino, aps
cumpridas todas as obrigaes prescritas nas cartas. Em Minas Gerais, menos de 15% dos
sesmeiros requereram e receberam a confirmao de seus ttulos. Quanto ao cultivo, torna-se
mais difcil mensurar, mas sabemos, inclusive por depoimento de fontes contemporneas,29
que era humanamente impossvel cultivar as enormes glebas dadas em sesmaria. Como a
Coroa e os sesmeiros contornaram essas dificuldades?

A posse da terra, smbolo de distino social e de poder, no era dada a qualquer um.
Em geral, os que a requeriam alegavam ser detentores de cabedais para o seu amanho.
Desejamos verificar quais foram os critrios adotados pela Coroa para agraciar seus vassalos
com as glebas de terra e at que ponto as redes de relaes clientelares interferiam nesses
critrios, determinando o tamanho das propriedades, a sua localizao mais privilegiada ou a
sua manuteno no caso de ocorrerem conflitos pela posse. Pretendemos perceber as relaes
de poder ou redes de influncia entre as partes interessadas nos processos de medio e
demarcao e as autoridades que representavam a coroa portuguesa na capitania e na Comarca
do Rio das Mortes.

29
MOTTA. Direito terra no Brasil, p. 103-126. O Governador Francisco Maurcio de Souza Coutinho e o
sistema de sesmarias.
25

Alguns documentos trazem indcios de que tambm colonos pobres alcanavam a


posse de pequenas glebas. Desejamos observar em que situaes ou momentos isto se tornou
possvel numa sociedade marcada pelo mandonismo, pela violncia dos poderosos, pela
possvel venalidade das autoridades e pela complicada administrao de um extenso territrio
pelo Estado, sobretudo nos sertes indmitos.

Dos aproximadamente 1.150 processos de medio e demarcao das sesmarias da


Comarca do Rio das Mortes que esto sob a guarda do Arquivo do IPHAN de So Joo del-
Rei, algo em torno de 80%, no aparentam indcios de conflitos pela posse da terra. Esses
processos limitam-se aos ritos jurdicos comuns a todos os autos de sesmarias. Nos demais,
cerca de 20%, os conflitos esto evidentes com embargos e contestaes s medies e/ou aos
encaminhamentos jurdicos dos autos. A ocupao da terra foi to tranquila assim nesses 80%
dos autos, ou podemos desconfiar da imparcialidade da justia ou da dificuldade de acesso a
ela pelos mais fracos? E quando os conflitos estavam evidentes, quais seriam as partes
envolvidas?

Dado que esses cerca de 80% de autos de medio e demarcao, em que os conflitos
de interesses parecem ausentes, tm uma estrutura processual relativamente simples e formal,
acreditamos que eles seriam uma corriqueira formalidade jurdica, ficando a maior parte das
terras, de fato, sem demarcao e medio, sujeitas mais fora econmica e poltica dos seus
proprietrios.

A partir dos problemas apresentados adiantamos, a seguir, algumas hipteses cujas


fontes por ns consultadas tm confirmado.

A expanso da Comarca do Rio das Mortes em direo aos sertes anteriormente


ocupados por quilombolas e ndios acompanhou o crescimento econmico da regio que, a
esta altura, estava centrado mais na agricultura do que na minerao, tornando as cartas de
sesmarias ttulos cobiados por muitos. Alguns potentados se beneficiaram dessa expanso
territorial encabeando as expedies de conquista e favorecendo seus parentes e suas
clientelas. A fronteira agrcola foi ampliada em prejuzo dos povos indgenas. Na capitania de
Minas Gerais, os indgenas que resistiram ocupao foram exterminados. Os que
transigiram com a colonizao portuguesa, foram incorporados como mo de obra barata e
semi-escrava, encoberta pelo discurso de sua civilizao e cristianizao.
26

medida que aumentava a valorizao das terras da Comarca do Rio das Mortes, o
seu carter de propriedade mercantilizada ficava mais patente, acompanhando o que ento j
havia se consolidado na Europa ocidental.

Considerando a complexidade, ou mesmo a ambiguidade, do aparato jurdico


portugus, a legitimao da posse da terra, quando ocorria, estava determinada pela
imperfeio. Sinal evidente disso so as pouqussimas cartas de confirmao de sesmarias
existentes para as sesmarias doadas em Minas Gerais. Para muitos sesmeiros qui para as
autoridades que administravam a justia , medir e demarcar, no mbito da comarca, j era
suficiente para considerar a posse legtima, no cumprindo a obrigatoriedade da confirmao.
Tambm no possvel afirmar se todas as medies e demarcaes ocorriam de fato nas
paragens das sesmarias ou se algumas delas eram feitas somente nos cartrios. Os laos de
parentesco, clientela e compadrio entre as partes envolvidas nos autos sesmeiros, posseiros,
embargantes, embargados e funcionrios da justia ou os privilgios de alguns colonos junto
Coroa poderiam ditar os rumos que os processos de medio e demarcao tomariam, caso
descambassem para disputas judiciais.

No nosso entendimento, a Coroa teria relevado o no cumprimento das exigncias


estabelecidas em lei por aqueles que receberam as mercs de sesmarias. Na administrao de
um to largo e inquieto Imprio com to parcos recursos, as autoridades portuguesas
viam-se na necessidade de relevar o no cumprimento de dezenas de normas despachadas de
Lisboa. O extenso Alvar de 1795, que pretendeu colocar ordem nas doaes de sesmarias,
esbarrou em tantas dificuldades que foi revogado logo no ano seguinte.

No perodo colonial, a terra no era dada a qualquer um. Se os cabedais alegados nas
peties das sesmarias nem sempre existiam e estavam ali escritos somente para cumprir as
formalidades da lei, os peticionrios teriam de ser portadores de, no mnimo, algum ttulo ou
cargo, possuir relaes clientelares ou de parentesco com as autoridades ou ter prestado
servios Coroa pelos quais cobravam a retribuio. Poderia haver ainda o interesse maior da
Coroa em povoar os sertes e, portanto, doar as terras queles que tivessem concorrido com
suas fazendas ou com o risco de suas vidas. Neste ltimo caso, poderia acontecer que
alguns intrpidos entrantes sem cabedais recebessem alguma terra. No geral, os ricos e
27

abastados fazendeiros30 que financiavam as entradas eram os que ficavam com as maiores e
melhores parcelas.

No era incomum acontecer que colonos pobres se estabelecessem nas franjas e


indefinies das sesmarias imprecisamente medidas e demarcadas (ou, qui, nem medidas
nem demarcadas). Brechas na prpria legislao portuguesa favoreciam posseiros31 que
provassem estar cultivando as terras, aos quais os tribunais costumavam assegurar a posse das
mesmas.

Devido ao fato de se tratar de uma regio de expanso, a posse das terras no era
tranquila. Dentre todos os autos de sesmaria da Comarca do Rio das Mortes, os prprios
processos que se limitam medio e demarcao das terras, que so a maioria, so
resumidos e parecem cumprir somente uma formalidade, sem deixar explcito qualquer
questionamento sobre a terra medida e demarcada, podem estar mascarando outras realidades.
O estudo mais pormenorizado desses processos pode indicar, por exemplo, a dificuldade de
acesso justia formal por parte dos posseiros mais pobres. Para tanto, analisar as custas
processuais poderia indicar at que ponto um pequeno proprietrio poderia arcar com elas.
Conhecer as autoridades envolvidas (juzes, escrivos, meirinhos, medidores) tambm tem

30
Ao longo do texto, fazemos uso da palavra fazendeiro, que, de fato, no encontramos na documentao do
perodo colonial. Na documentao so usados os termos sesmeiro, lavrador, roceiro, proprietrio etc.
Em geral, queremos designar fazendeiro ao grande lavrador, grande criador de gados e grande proprietrio de
terras. J quanto palavra fazenda para designar a propriedade rural, seu uso no incomum nos autos de
sesmaria e outros documentos do perodo colonial. Por exemplo: Diz Manoel Lopes da Cruz, morador da
freguesia da Itaverava, que ele senhor e possuidor da sua fazenda chamada o Paraso (1773) e Digo eu,
abaixo assinado, Joo Moreira que verdade que eu vendi, que com efeito tenho vendido, desde hoje para todo
sempre, a Manoel Lopes da Cruz uma fazenda cuja [ilegvel] rio da Piranga acima (1758) (grifos nossos).
Autos de sesmaria do padre Jos de Oliveira cessionrio e do padre Manoel Nunes Ascensso cedente, 1758,
caixa 25, fl. 23 e 25. Tambm na Seo de Manuscritos da Biblioteca Nacional de Portugal pudemos localizar
diversas cartas do marqus do Lavradio com o uso corrente da palavra fazenda designando a terra, a
propriedade rural. Entre as que coletamos, transcrevemos trechos de duas: Recebo a carta de V. Merc com a
relao dos paus de Peroba que [se] acham nos matos das fazendas dessa vila [...] e Os moradores do distrito
no querem dar conta dos mantimentos que plantaram e colheram nas suas fazendas, receosos de alguma finta,
aos quais V. Merc far certo que toda esta diligncia s para eu saber se eles tm cultivado todas as terras que
possuem, na forma das condies que lhes foram concedidas para, do contrrio, as dar por devolutas [...]. Cartas
do marqus do Lavradio ao capito mandante da vila de Paraty, Rio de Janeiro, 4 de setembro de 1773 e ao
mestre-de-campo Alexandre lvares Duarte Azevedo, Rio de Janeiro, 17 de junho de 1774. Cartas do
Expediente do Ilmo. e Exmo. Sr. marqus do Lavradio, vice-rei e capito-general de mar e terra do Estado do
Brasil, BNP, Cdice 10.614, fls. 142 e 218. Mais um exemplo a INSTRUO por que se deve governar Joo
Pedro Fortes sendo encarregado da administrao da minha Fazenda chamada o Registo de Matias Barbosa. D.
Francisco de Souza Coutinho, Luanda, 1764. ANTT/ACL, mao 56, doc. 64.
31
Consideramos necessrio explicar que o termo posseiro no era usado no perodo colonial. Todavia, faremos
uso frequente no sentido de caracterizar a pessoa que ocupava a terra sem nenhum ttulo, exclusivamente pela
posse pura e simples. J o termo posse, este sim, era usual na colnia. MORAIS E SILVA. Diccionario da
Lngua Portugueza. POSSE: o ato de ocupar lugar, herdade, ofcio; o logro destas coisas e o t-las em seu
poder: v.g. estou de posse da quinta, da fazenda, do benefcio.
28

muito a dizer da tranquilidade desses processos. Arno Wehling, recorrendo s observaes


feitas por Saint-Hilaire, relaciona uma gama de problemas que poderiam afastar os
interessados em recorrer justia colonial: duvidosa qualidade da magistratura, corrupo do
processo legal, distncia entre o soberano e as autoridades subalternas, distncias geogrficas,
morosidade, alto custo, impunidade e outras deficincias estruturais.32 Antnio Manuel
Hespanha aponta que estudos recentes no campo da historiografia jurdica, considerando a
contribuio, quer da antropologia centrada no estudo de problemas em pases no europeus,
quer da teoria poltica, tm constatado a baixa percentagem de conflitos resolvidos pelo
sistema judicial oficial, tanto ao nvel das primeiras instncias, como ao nvel das instncias
de recurso; o que apontava para a alargada vigncia e eficcia social de outros sistemas de
resoluo de conflitos.33

Duas questes fundamentais permeiam a nossa investigao. Uma delas entender o


processo de ocupao da capitania e, em particular, da Comarca do Rio das Mortes, atravs
das doaes de terras feita pela Coroa aos seus vassalos. A segunda diz respeito
compreenso dos conflitos que teriam ocorrido nesta comarca atravs dos processos de
medio e demarcao das sesmarias. Para o estudo das fontes e a elaborao do texto temos,
para nortear nosso trabalho, trs referenciais tericos bsicos: as ideias de construo do
Estado portugus de Antnio Manuel Hespanha e as teorias de Edward Thompson e as de
Pierre Bourdieu que nos permitem uma leitura diferenciada da lei e do direito. No segundo
referencial, a teoria de Thompson figura como suporte principal para o estudo das fontes
primrias. O terceiro referencial constitudo pelos estudos e pesquisas de Mrcia Menendes
Motta, indispensveis ao entendimento dos conflitos de terra tanto na colnia quanto no
Imprio e, mais especificamente, reflexo sobre o complicado aparato jurdico luso-
brasileiro no que toca s questes agrrias.

No que diz respeito primeira questo acima levantada, so fundamentais os estudos


que tratam das relaes entre as duas faces do Imprio portugus que poderia,
metaforicamente, ser comparado a um monstro de cabea diminuta e corpo gigantesco. No
haveria outra maneira de as autoridades metropolitanas administrarem um territrio to

32
WEHLING e WEHLING. Direito e justia no Brasil colonial, p. 114-117.
33
HESPANHA. As vsperas do Leviathan, p. 440.
29

extenso e disperso, sujeito a frequentes rebelies,34 com to parcos recursos, seno atravs de
uma constante negociao de cargos, favores e benefcios. Essas relaes, obviamente,
davam-se em vias de mo dupla: receber mercs e prestar servios, mantendo, na medida do
possvel, os vassalos quietos e a realeza tranquila. liberalidade do rei que poderia traduzir-
se na distribuio de cargos e na doao de terras deveria corresponder a retribuio de
servios o desbravamento dos sertes e a prestao gratuita de servios militares. Era a
economia do dom estabelecendo complexas redes de relaes polticas e econmicas.35
Segundo Jnia Furtado, interpretando e citando Hespanha:

O universo poltico, marcado pelas redes clientelares, estruturava-se com


base na concesso de benefcios, que se instituam valendo-se de regras
bastante precisas de conduta, que lhe tirava toda a espontaneidade e o
transformava em unidade de uma cadeia infinita de atos beneficiais. [...] As
categorias desta economia do dom estavam na base de mltiplas prticas
informais de poder. Desta forma os poderosos, aproveitando-se do poder
que dispensavam na Corte, distribuam uma srie de concesses a seus
apadrinhados e parentes que, ao receb-las, deveriam retribuir. Essa
economia do favor relacionava dois plos desiguais e servia para
reproduzir os indivduos em hierarquias e a confin-los.36

Jnia Furtado destaca a importncia do ato de doar da economia do dom para a


compreenso da sociedade mineira setecentista e do entrelaamento das esferas poltica e
econmica. Nessa sociedade, a Coroa e suas autoridades eram os doadores e seus leais
vassalos, os agraciados. De acordo com Furtado:

Ao dispensar um favor ou uma graa, o ofertante se colocava numa posio


superior ao que recebia, o que lhe conferia magnificncia. Se por um lado,
o recebedor se beneficiava de algum bem de natureza material em troca de
submisso poltica, o ato de dar em si honorificava o prprio ofertante.
Numa sociedade na qual a honra distinguia os homens, ofertar era forma de
torn-la pblica, extraindo da status social e ganhos polticos. Esse era o
primeiro ganho imediato da economia do dom, para aquele que fazia um
gesto aparentemente desprendido.37

34
Sobre as rebelies na Amrica portuguesa existe uma bibliografia que desejamos destacar: ANASTASIA.
Vassalos rebeldes; FIGUEIREDO. Revoltas, fiscalidade e identidade colonial na Amrica portuguesa;
FIGUEIREDO. Furores sertanejos na Amrica portuguesa; MAXWELL. A devassa da devassa; MELLO. A
fronda dos mazombos; SOUZA. Motins, revoltas e revolues na Amrica portuguesa sculos XVII e XVIII.
35
HESPANHA. A Fazenda e As Redes Clientelares. In: MATTOSO, Jos (org.) Histria de portugal: o
Antigo Regime, v. 4, p. 203-239 e 381-393. Sobre a economia do dom ver tambm GURY. Finance et
Politique: le Roi Dpensier: le don, la contrainte, et lorigine du systme financier de la monarchie franaise
dAncien Rgime.
36
FURTADO. Homens de negcio, p. 49.
37
Idem, ibidem, p. 63.
30

Da ser fundamental saber quem eram os sesmeiros, que relaes mantinham com o
poder e as autoridades portuguesas, por que eram doadas sesmarias alm da medida limite e
por que algumas famlias ou parentelas recebiam diversas doaes, contrariando a legislao
que no permitia o acmulo. O caso emblemtico o do mestre-de-campo Incio Correia
Pamplona e de sua parentela. Grandes glebas lhes foram doadas na extremidade oeste da
Comarca do Rio das Mortes. De certa forma isso se deve ao poder acumulado por esse
poderoso chefe de um cl feudal ou parental, no dizer de Oliveira Vianna.38 Mas Pamplona
no era o nico. Havia outros pequenos Pamplonas espalhados pela comarca.

Nas primeiras dcadas da colonizao havia maior liberalidade do poder metropolitano


na doao das sesmarias, porque um dos seus objetivos era povoar e, com isso, impedir o
assdio de estrangeiros. Havia tambm uma abundncia de terras a doar nas regies de maior
interesse, como no litoral, e uma populao escassa. Esse quadro se altera no sculo XVIII. A
populao cresce e o litoral, mais cobiado, j se encontra repartido. Com a descoberta das
minas o interesse se volta para o interior. A populao da capitania das Minas Gerais tambm
aumenta, mas, mesmo abundante, a terra no seria dada a qualquer um. A terra seria uma
moeda de troca das autoridades metropolitanas. Passa a existir, ento, segundo Costa Porto,
uma poltica de restries das reas para ficar lugar de se acomodarem outros pretendentes
de igual merecimento, como se fez em parecer de 1685.39 Havia, inclusive, a exigncia de se
possuir cabedais para receber a sesmaria.

Enfim, Norbert Elias estudando o processo de formao do Estado desde o perodo


medieval, apontava a distribuio de terras como uma das alternativas, por vezes a nica,
disposio dos monarcas europeus para a consolidao do seu poder poltico. Segundo ele,
este processo no se limitou Europa e nem ao perodo medieval. Para Elias, o poder da
realeza estava diretamente relacionado com a riqueza e as propriedades que a famlia real
tivesse em disponibilidade para cooptar ou dominar seus adversrios.40

Para auxiliar no encaminhamento das duas questes principais apontadas acima,


trabalhamos, subsidiariamente, com as abordagens metodolgicas de autores como Giovanni
Levi. Possibilitando-nos uma reduo da escala de anlise, suas abordagens permitem
transitar com maior desenvoltura entre a histria mais global da capitania e as situaes

38
VIANNA. Instituies polticas brasileiras, p. 161-215.
39
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 70 (grifo nosso).
40
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formao do Estado e civilizao, p. 26.
31

individuais que so focalizadas na segunda questo, mencionadas no pargrafo inicial deste


item, quando tratamos da ocupao da Comarca do Rio das Mortes e dos conflitos que dela
resultaram. Entre a Coroa e as camadas mais baixas da sociedade estendia-se uma ampla rede
de hierarquias que mediavam as demandas tanto do Estado, quanto das diversas classes, na
busca de servios e de mercs. Giovanni Levi sinaliza que o papel de mediadores entre a
periferia e o Estado, desempenhado pelos grupos locais de importncia, um aspecto
fundamental da realidade poltica em muitas naes modernas.41 Ao estudar os ncleos
parentais e a reciprocidade e comrcio da terra, Levi traz elementos metodolgicos que, se
no podem ser aplicados ao todo de nossa pesquisa, servem para iluminar alguns de seus
aspectos mais singulares.

Todavia, a partir da viso thompsoniana do direito e da lei como espao dialtico de


luta, no qual as classes subalternas nem sempre saram derrotadas, que analisamos as fontes.
Nas refregas judiciais pela posse da terra estiveram presentes como partes em conflito no
somente os ricos sesmeiros, mas tambm os pequenos proprietrios, posseiros ou
arrendatrios, que aproveitavam as brechas da lei para conquistar seu direito terra. Bourdieu
tambm til, pois defende um conceito dinmico do campo judicirio.

[...] Os produtores de leis, de regras e de regulamentos devem contar sempre


com as reaes e, por vezes, com as resistncias, de toda a corporao
jurdica e, sobretudo, de todos os peritos judiciais (advogados, notrios, etc.)
os quais, como bem se v, por exemplo, no caso do direito das sucesses,
podem pr a sua competncia jurdica ao servio dos interesses de algumas
categorias da sua clientela e tecer as inmeras estratgias graas s quais as
famlias ou as empresas podem anular os efeitos da lei. A significao
prtica da lei no se determina realmente seno na confrontao entre
diferentes corpos animados de interesses especficos divergentes
(magistrados, advogados, notrios, etc.), eles prprios divididos em grupos
diferentes animados de interesses divergentes, e at mesmo opostos, em
funo, sobretudo, da sua posio na hierarquia interna do corpo, que
corresponde sempre de maneira bastante estrita posio da sua clientela na
hierarquia social.42

Na tentativa de elucidar a segunda questo, ou seja, os conflitos pela posse da terra,


indispensvel recorrer aos estudos de Mrcia Motta. Estamos lidando com processos de
medio e demarcao das sesmarias massa documental que consideramos o cerne de nossa
pesquisa , documentos de natureza jurdica. Ao analisarmos esse tipo de fontes, no basta

41
LEVI. A herana imaterial, p. 51.
42
BOURDIEU. O poder simblico, p. 217.
32

entender da legislao da poca, preciso ter alguma noo da geografia dos locais onde as
medies e demarcaes aconteciam: relevo, hidrografia, vegetao, vias de acesso,
existncia de povoaes nas proximidades. preciso, com o auxlio de documentos e estudos
j realizados, ter conhecimento da presena de quilombos e povos indgenas na regio.
necessrio procurar saber quem eram os vizinhos de determinada sesmaria que tenhamos
elegido para anlise e se havia minerao nas proximidades. No possvel a compreenso de
um processo de sesmaria isolado da sua conjuntura. Por fim, o historiador, com o auxlio de
outras reas do conhecimento, precisa ser capaz de compreender como se fazia a medio.43
Para tanto, bom estarmos atentos para o que Motta aponta:

Demarcar impor limites ao de outrem e o governador do Par


[Francisco Maurcio de Sousa Coutinho] reconhecia que este trabalho
desnudava o fato de que seu resultado final a demarcao propriamente
dita era fruto de um processo detalhado em ateno a formas mltiplas de
ocupao. No era, portanto, tarefa a ser posta em prtica por ouvidores,
bacharis, e nem podia estar inserida nas justias ordinrias. No se tratava
de demarcar uma propriedade isolada.44

Demarcar um quadriltero quase perfeito, isolado e de pequena extenso no seria


algo impossvel. O problema continua Motta eram as demarcaes em terras contguas e
de grandes extenses. Nestes casos, o piloto ainda que sem malcia no pode fazer se no
injustias, termina citando Francisco Coutinho, para o qual medir e demarcar exigiria
pessoas com conhecimentos tcnicos de matemtica e astronomia, ainda escassos no Imprio
portugus. O processo de medio e demarcao de terras era algo extremamente complexo,
que envolvia vrios campos de conhecimento, para alm do direito.45

A crescente importncia que a Comarca do Rio das Mortes vai adquirindo como
regio de abastecimento medida que avana o sculo XVIII, especialmente por sua
proximidade com o Rio de Janeiro, torna-se um dos fatores da disputa pelas suas terras. Isso
pode explicar, inclusive, a razo de se limitarem as doaes a meia lgua de terra em quadra

43
Uma boa leitura auxilar para o estudo dessa questo COSTA. Roteiro prtico de cartografia. Auxilia-nos
ainda um curioso documento localizado na Torre do Tombo o qual ajuda a compreender como se faziam e como
deveriam ser feitas as medies e demarcaes de sesmarias no Brasil colonial. O autor annimo usou como
exemplo uma sesmaria de uma lgua de frente por trs de fundo concedida no Rio de Janeiro em 1750. No seu
estudo, com desenhos e clculos, ensinava a localizar esse retngulo de terra com o uso da bssola ou agulho
relacionando a sua localizao com a escala de graus, minutos e segundos da cartografia da poca. Erros
sobre as sesmarias das terras da Amrica: verdadeira forma de os emendar e regular. ANTT, coleo Papis do
Brasil, cdice 4, fls. 292 a 294, microfilme 699 A.
44
MOTTA. Direito terra no Brasil, p. 118.
45
MOTTA. Direito terra no Brasil, p. 119, 121-122.
33

nas proximidades das vilas de So Joo e So Jos por volta de 1759, enquanto ainda se
doavam trs lguas de terra por ser serto nas cabeceiras do rio So Francisco em 1767.
Fato tambm indicativo da valorizao das terras desse serto das cabeceiras do So Francisco
que, em 1796, ali se concedeu sesmaria de meia lgua em quadra a um filho de Incio
Pamplona.46 um caso isolado, mas no deixa de ser um indcio de que, passados trinta anos,
a terra j havia valorizado naquelas paragens, visto que algum de famlia to poderosa tenha
recebido um lote pequeno. O que estamos tentando compreender o valor da terra, o tamanho
das glebas e, naturalmente, o prestgio necessrio para receber em doao mais ou menos
terras, mais prximas ou mais distantes dos centros de poder poltico e econmico.

Se nem todos os colonos eram merecedores das doaes, muitos possivelmente


estariam ocupando a terra na condio de agregados, arrendatrios ou simples posseiros.
Estamos aventando a hiptese de que as sesmarias tambm estariam sendo distribudas em
terras j com algum tipo de ocupao. A documentao tem mostrado que a ocupao e a
posse das sesmarias no foi to mansa e pacfica. Os conflitos entre posseiros, arrendatrios e
sesmeiros de grandes glebas j foram apontados em outras regies da colnia:

Nas queixas levadas a D. Joo V, aludiam os moradores s opresses e


prejuizos, em decorrncia das contendas e litgios que lhes moveram os
chamados sesmeiros de um excessivo nmero de lguas de terras de
sesmaria que nulamente possuem, por se no cumprir o fim para que se
concederam, acentuando virem sofrendo grandes vexames nas execues
das sentenas que contra eles alcanaram para expulso de suas fazendas,
cobrando rendas e foros das ditas terras.47

Costa Porto afirma que, a partir de 1753, a Coroa interveio a favor dos indivduos,
isolados ou em grupos, determinando que entre cada sesmaria deve mediar uma lgua de
terra para logradouro de herus e confinantes.48 Isso seria um indicativo da preocupao ora
com conflitos de divisas, ora com outras categorias de ocupantes do solo que no os sesmeiros
legalmente constitudos pelas cartas de doao.

46
Arquivo Pblico Mineiro (daqui para adiante APM), Seo Colonial (SC), cdice SC 125, fls. 5 a 6 verso,
microfilme 28 para a carta de sesmaria passada a Jos de Resende Costa em 12 de junho de 1759; cdice SC
156, fls. 61verso e 62, microfilme 34 para a primeira carta de sesmaria passada a Incio Correia Pamplona em 1
de dezembro de 1767 e cdice SC 265, fls. 140 verso a 142, microfilme 56 para a carta de sesmaria passada a
Joo Jos de Correia Pamplona em 23 de setembro de 1796.
47
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 73.
48
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 124.
34

Como fatores geradores de conflitos pela posse da terra, acreditamos ter havido um
frequente desrespeito s dimenses doadas pelas cartas de sesmarias, ficando as medidas
somente no papel. Devido a esse fato, estariam os sesmeiros apossando-se de muito mais
terras do que receberam, at mesmo atravs do esbulho de seus vizinhos, sem deixar de
considerar tambm a possvel sobreposio de doaes.49 A legislao, a partir de 1744,
previa que as cmaras seriam responsveis pela informao de que as terras que estavam
sendo doadas estavam desocupadas.50 Sabemos que as reas de jurisdio das cmaras das
vilas de So Joo e So Jos eram enormes. Era praticamente impossvel que os homens
bons dessas cmaras tivessem total conhecimento e controle destes vastos territrios.

As prticas de mover os marcos, modificar as divisas e fechar os caminhos de uso


pblico foram comuns nas disputas entre sesmeiros, arrendatrios e posseiros. No foi
gratuitamente que a Coroa inseriu no texto das cartas de sesmaria, a partir de 21 de maro de
1744 o respeito servido de passagem assegurando-se ao morador trnsito fcil, donde o
cuidado em conservar os caminhos, as estradas, as praias, as margens dos rios navegveis.51
Assim o percebemos na carta passada a D. Maria da Cruz em 4 de maio de 1745:

[...] As quais no compreendero ambas as margens de algum rio navegvel,


porque, neste caso, ficar livre de uma delas o espao de meia lgua para o
uso pblico, reservando os stios dos vizinhos com quem partirem as
referidas terras e suas vertentes, sem que eles, com este pretexto, se queiram
apropriar de demasiadas, em prejuzo desta merc que fao suplicante, a
qual no impedir a repartio dos descobrimentos de terras minerais que no
tal stio hajam ou possam haver, nem os caminhos e serventias pblicas que
nela[s] houver, e pelo tempo adiante, parea conveniente abrir para maior
comodidade do bem comum [...]52

Alis, essa doao a D. Maria da Cruz merece especial destaque. Um nome comum e
uma pessoa bastante incomum. D. Maria da Cruz havia desafiado a autoridade metropolitana
em 1736, nos conhecidos Motins do Serto, em que a populao e os potentados se

49
REQUERIMENTO de Isabel Maria Guedes de Brito, viva do coronel Antnio da Silva Pimentel, solicitando
a D. Joo V a merc de ordenar ao governador de Minas no conceda sesmarias em terras que lhe pertenam.
AHU - Projeto Resgate MG, caixa 2, doc. 62. O plural do termo que grifamos um indcio de que as terras de
Isabel seriam to extensas que comportariam vrias sesmarias nos seus limites. O documento 47, da caixa 15,
vem confirmar essa hiptese ao indicar que a requerente era filha do mestre-de-campo Antnio Guedes de
Brito, descobridor dos sertes da Bahia, rio de So Francisco e rio das Velhas. AHU - Projeto Resgate MG,
caixa 15, doc. 47.
50
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 120-121.
51
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 122.
52
Revista do Arquivo Pblico Mineiro (daqui para adiante RAPM), ano III, 1898, p. 891.
35

levantaram contra a cobrana das taxas de capitao. J era povoadora antiga das terras que
pedia em sesmaria. Diz a carta de sesmaria que lhe foi dada, no Arraial do Tejuco, em 4 de
maio de 1745, que era D. Maria da Cruz, moradora do serto do rio de So Francisco,
comarca da Vila Real, que ela era senhora e possuidora de uma fazenda chamada o Capo,
situada no serto do rio So Francisco, que compreenderia trs lguas de terra [...].

A doao da terra a esse vassalo rebelde vem confirmar a tese de Carla Anastasia de
que nos motins reativos, ocorridos nas minas, pode ser detectada uma forte disposio do
Rei, ou dos seus representantes na colnia, de acatar as reivindicaes da populao.53 Essa
doao poderia tambm ser interpretada como uma simples legalizao do espao j ocupado
pela requerente, como diz a prpria carta. mais provvel que a requerente j se encontrasse
anistiada, em 1745, quando lhe foi concedida a carta de sesmaria. D. Maria da Cruz foi uma
das cabeas desses motins, tendo sido, inclusive, presa junto com seu filho, Pedro Cardoso, e
outros envolvidos em 1738. Essa doao nada mais era do que a legitimao pelo ttulo de
uma posse antiga que a Coroa, usando de suas prerrogativas, concedia a esse potentado
rebelde no intuito de coopt-lo.

O Estado portugus, dado o seu alto grau de burocratizao, produziu um volume


considervel de documentos, especialmente para as Minas Gerais, que tanto desejava manter
sob o seu mais estrito controle ao longo do sculo XVIII. Segundo Caio Boschi, ncleo vital
do vasto Imprio portugus no sculo XVIII, Minas Gerais, pela atividade econmica que lhe
deu nome e origem, atraiu para c a presena de um Estado onipotente e onipresente, que se
corporifica em um multifacetado aparelho burocrtico, fiscal, militar e judicirio, o que por si
s pressupe um elevado nvel de produo e de circulao de documentos.54

No meio dessa volumosa documentao que encontramos as fontes fundamentais da


pesquisa que desenvolvemos: as cartas de doao de sesmarias e os processos de medio e
demarcao dessas posses. A tambm esto outros documentos com os quais dialogamos,
com os quais cruzamos informaes e dados tais como: cartas patentes e de nomeaes,

53
ANASTASIA. Vassalos rebeldes, p. 138. Sobre D. Maria da Cruz e seu filho, Anastasia nos d as seguintes
informaes: Pedro Cardoso era filho de D. Maria da Cruz, moa da famlia da Torre [Garcia dvila], educada
pelas carmelitas e figura lendria no Serto, considerada nas devassas como pea fundamental da sedio de
1736, e sobrinho de Domingos do Prado Oliveira. Pedro Cardoso possua extensa fazenda de gado, alm de se
ocupar do comrcio de sal, ferragens e gneros da Bahia. Era considerado um dos principais potentados do
noroeste de Minas e possuidor de uma fortuna incalculvel., p. 80.
54
BOSCHI. Os cdices coloniais do Arquivo Pblico Mineiro, p. 24.
36

inventrios e testamentos, cartas trocadas entre os dois lados do Atlntico e documentos das
autoridades da capitania que tratam da ocupao do territrio e da distribuio das terras por
sesmarias.

Para tanto, indispensvel analisar essa documentao luz dos textos de Hespanha,
Thompson e Bourdieu, que nos do as chaves de compreenso das estratgias tanto do Estado,
quanto da sociedade colonial para a ocupao do territrio das Minas. Tais textos servem,
outrossim, para questionar as generalizaes histricas que veem a conquista dos sertes
exclusivamente como produto de intrpidos fazendeiros e a reduo da terra condio de
propriedade privada e sua transformao em mercadoria como processos pacficos e naturais.
Para Karl Polanyi, por exemplo, a terra, que apenas outro nome para a natureza, que no
produzida pelo homem, no mercadoria, sendo sua descrio como tal inteiramente
fictcia.55 Detalhando essas fontes de pesquisa:

H no Arquivo Pblico Mineiro 7.985 registros de cartas de sesmarias.56 um


universo muito grande. Trata-se, seguramente, do maior conjunto de cartas de sesmaria de
toda a colnia. O catlogo da Revista do Arquivo Pblico Mineiro, ano XXXVII, traz uma
relao alfabtica nominal dos sesmeiros. Esses registros, alm dos nomes, contm
informao de local, freguesia, distrito, termo e comarca. A despeito de as indicaes
toponmicas serem diversas das de hoje, de estarem incompletas ou nem sempre explicitadas,
ou ainda confundindo geograficamente Minas com outras regies, possvel garimpar essas
imprecises. Para uma correta utilizao dessas fontes, tendo em vista suas indefinies
toponmicas, recorremos aos trabalhos de Waldemar de Almeida Barbosa e Joaquim Ribeiro
Costa,57 a outras fontes secundrias ou mesmo comparao de documentos.

A leitura global e minuciosa dos cdices relativos s sesmarias da Seo Colonial do


Arquivo Pblico Mineiro nos deu a impresso de que as doaes obedeciam a uma certa
lgica, concentrando-se ora numa regio, ora noutra. evidente que no fizemos o estudo
pormenorizado das quase 8.000 cartas de sesmaria, o que teria sido impossvel para o tempo
disponvel para esta pesquisa. O nosso objetivo era to somente observar as doaes em bloco
para cada regio, que parecem esclarecer o processo de ocupao da capitania.

55
POLANYI. A grande transformao, p. 94.
56
RAPM, Catlogo de sesmarias, ano XXXVII, 1988, p. 11.
57
BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais e COSTA. Toponmia de Minas Gerais.
37

A Coleo dos Documentos Avulsos da Casa dos Contos, cuja parte guardada no
Arquivo Pblico Mineiro contm cerca de 15.000 documentos microfilmados, ao contrrio do
que se poderia imaginar, no se limita a fontes de natureza fiscal. Possui documentao a mais
diversificada possvel, tendo, evidentemente, um maior volume de documentos fiscais.
ngelo Carrara, no II Colquio de Histria Agrria de Juiz de Fora, em outubro de 2007,
chamou-nos a ateno para a importncia desse acervo no qual, alis, j vnhamos
pesquisando. Percorremos todo o seu banco de dados e seus 17 livros de catalogao na busca
de documentao que nos fosse til. Os documentos que localizamos nos foram de grande
valia. Sobre essa imensa e valiosa coleo, da qual o Arquivo Pblico Mineiro possui somente
uma parte, escreve Luciano Figueiredo:

Engana-se, porm, aquele que supe tratar este acervo exclusivamente de


matria fiscal, contbil e administrativa. Coexistem valiosas e inusitadas
referncias sobre a cultura estabelecida na Idade do Ouro do Brasil. Em seus
documentos avulsos e cdices localizam-se referncias cultura material da
populao, sua religiosidade, funcionamento da justia, disperso dos
presdios e seu cotidiano, prticas mdicas e curativas, vesturios, devassas
de contrabando de ouro e pedras preciosas, contato com as populaes
indgenas, dentre muitas outras.58

As fontes cartogrficas tambm so imprescindveis para qualquer trabalho que


pretenda discutir a ocupao da capitania de Minas e a distribuio de sesmarias. O uso dos
mapas e dos estudos toponmicos indispensvel para localizar as sesmarias. Em escala
micro, a cartografia tambm pode facilitar a compreenso dos processos de medio e
demarcao das terras. Na pesquisa que fizemos no Arquivo do IPHAN de So Joo del-Rei,
percebemos a existncia de mapas topogrficos junto a processos litigiosos de sesmarias.59
Sabemos do grau de complexidade do uso dessa documentao, mas o dilogo com os
documentos cartogrficos , indubitavelmente, muito rico.

58
FIGUEIREDO. [CEDEPLAR 2006], p. 6.
59
Arquivo Histrico do Escritrio Tcnico II da 13 SR/Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional
Minas Gerais/So Joo del-Rei (daqui para adiante AHET/IPHAN-MG/SJDR) AUTOS de sesmaria de Joo
Chrisstomo da Fonseca Reis, 1778; AUTOS de sesmaria do alferes Manoel Freire, 1797, e Luza Felcia
Sinfroza de Bustamante, 1799. Devido recente separao entre IPHAN e IBRAM, tais mapas ficaram sob os
cuidados do IBRAM no Museu Regional de So Joo del-Rei. Todos eles foram reproduzidos nesta tese.
38

Francisco Carlos Teixeira da Silva e Maria Yedda Linhares, na busca de uma


definio para o conceito de regio nos alertam para as vantagens e, principalmente, para os
riscos de se formular esse conceito com base puramente geogrfica.60 Nossa pressuposio
de que esse tipo de documentao cartogrfica pode contribuir mais no sentido de localizar e
compreender a distribuio das sesmarias e seus processos de medio e demarcao, do que
na formulao do conceito de regio propriamente dito.

Dois outros tipos de fontes que nos foram de grande valia so a coleo Documentos
Histricos da Biblioteca Nacional e as Revistas do Arquivo Pblico Mineiro. Nessas
publicaes encontram-se fontes primrias cujos manuscritos foram transcritos e impressos. O
primeiro permitiu o acesso a diversas cartas rgias e de sesmarias anteriores a 1700 que foram
importantes para entender o sistema sesmarial na colnia. O segundo trouxe centenas de
cartas de sesmarias: um trabalho de transcrio zeloso e paciente dos primeiros funcionrios
do Arquivo Pblico Mineiro at o ano de 1933. Nelas, h doaes feitas por diversos
governadores desde Antnio de Albuquerque, em 1710. A grande maioria dos documentos
transcritos na Revista concentra-se no perodo de governo de Gomes Freire de Andrada,
conde de Bobadela, o que no de se estranhar, visto que foi ele quem governou Minas por
mais tempo, de 1735 a 1763, segundo Joo Camillo de Oliveira Torres.61

Nos fundos documentais do Arquivo do IPHAN de So Joo del-Rei, encontra-se a


documentao que desejamos considerar como cerne ou ncleo dessa pesquisa. Em um fundo
denominado SESMARIAS esto 1.150 maos de documentos.62 Em geral os autos tm, em
mdia, 15 folhas. Alguns chegam a ter 274 folhas, como o caso da contestao de medio
da sesmaria de Vicente Pereira da Cunha e pedido de nulidade por parte de Francisco da
Costa e outros.63 Os autos geralmente possuem um termo de abertura, o traslado da carta de

60
LINHARES; SILVA. Regio e histria agrria. Estudos Histricos, p. 17-26.
61
TORRES. Histria de Minas Gerais.
62
Arquivo Regional do IPHAN de So Joo del-Rei - Banco de Dados de Sesmarias (arquivo formato Excell).
Daqui para adiante AHET/IPHAN-MG/SJDR/BDS. Os autos de medio e demarcao de sesmarias esto
guardados em 44 caixas, das quais nove, com cerca de 120 processos, ainda no estavam catalogadas. Para
indicar esta parte da documentao nas notas de rodap usamos a referncia NC (No Catalogada) 01 a 09.
Fotografamos, ento, o fundo inteiro. So cerca de 17.000 fotografias, cada uma reproduzindo duas pginas,
posteriormente gravadas em 45 CDs. Todo esse trabalho de digitalizao foi entregue ao Arquivo para uso de
outros pesquisadores.
63
AHET/IPHAN-MG/SJDR/BDS.
39

concesso de sesmaria, atos de nomeao e juramento de louvados,64 termos de medio,


demarcao e posse, alguns mapas (muito raros), entre outros documentos. De todos os
processos, 1.100 so do perodo de 1750 a 1822, correspondente ao nosso recorte temporal, o
que d um percentual de 95,65% do total.

Nessa pesquisa nos arquivos de So Joo, duas questes nos chamaram a ateno. A
primeira o perodo compreendido por essa documentao: 1746-1819. A outra a aparente
baixa incidncia de litgios. Embora no includos em nosso recorte temporal, resta-nos a
curiosidade de saber em que arquivos estariam os processos anteriores a 1746. Eles
certamente existem, visto que encontramos aproximadamente 125 cartas de sesmaria para a
Comarca do Rio das Mortes no Arquivo Pblico Mineiro entre os anos 1714 e 1745. Seria
bom lembrar que s estamos considerando as doaes posteriores a 1714, ano da criao da
comarca.

Quanto ao trato da segunda questo, considerada fundamental para esta pesquisa, a


aparente pequena ocorrncia de litgios entre os autos de sesmarias catalogados, preciso
cautela. Apesar de no serem muitos os processos cujas descries (embargo, remedio e
contestao de medio) se acham anotadas no banco de dados do Arquivo sugerindo a
existncia de conflitos sobre a posse das terras, os conflitos existiram. Acreditvamos que
pudessem existir processos dessa natureza arquivados em outros fundos do mesmo arquivo,
tais como Diviso de Terras, Embargo e Despejo, porm, quando da consulta a esses
documentos verificamos que, em sua maioria, referiam-se ao sculo XIX em diante.
Voltando, ento, ao fundo de sesmarias, descartamos a hiptese de que seja baixo o ndice de
litgios por duas razes. A primeira que os cerca de vinte por cento dos autos nos quais os
conflitos esto explcitos so um ndice considervel, sobretudo levando-se em conta a baixa
percentagem de conflitos resolvidos pelo sistema judicial oficial, como defende Antnio
Manuel Hespanha, sobre cujo posicionamento j discutimos anteriormente. A segunda razo
que no universo dos demais autos de sesmaria sem conflitos explcitos, a simples existncia
de uma petio de algum queixando-se das medies, mesmo essa no sendo acatada pelo

64
DE PLCIDO E SILVA. Vocabulrio jurdico. LOUVADO indica ou designa o prprio perito escolhido
pelas partes, num processo judicial. importante informar que, no Brasil, devido, sobretudo, carncia de
agrimensores com formao tcnica, a figura dos louvados leigos permaneceu e teve ou ainda tem f pblica
nos processos de medio e demarcao de terras at os nossos dias, desaparecendo medida que suas funes
vo sendo assumidas por profissionais de formao tcnica ou superior. Ns, pessoalmente, conhecemos alguns
deles em atuao no municpio mineiro de Resende Costa. Um deles, semi-alfabetizado, o senhor Onsimo de
Sousa Lima, falecido aos 90 anos em 2006, foi, por muitos anos, avaliador oficial da comarca local.
40

juiz sob os mais variados motivos, um sinal de insatisfao ou discordncia com os


procedimentos de medio e demarcao. Nesses casos, os autos poderiam seguir
tranquilamente com as peties desqualificadas pelo juiz, principalmente se os queixosos
no insistissem nas suas queixas.

Outros dois fundos consultados esporadicamente neste arquivo foram os de inventrios


e testamentos. A pesquisa desse tipo de documentao contribui para dirimir dvidas quanto
sucesso na posse da terra. Chamamos de espordica essa consulta, porque temos conscincia
do embarao que nos pode causar a opo por uma anlise mais ampliada desses documentos,
principalmente os inventrios. J havamos trabalhado com esse tipo de fonte nas pesquisas de
mestrado e temos conhecimento de seu volume e complexidade. No entanto, ao estudar as
doaes de sesmarias na Comarca do Rio das Mortes, nos deparamos, por exemplo, com as
concesses feitas ao mestre-de-campo coronel Incio Correia Pamplona e no havia como nos
esquivar de analisar as peas de seu testamento e de seu inventrio.

Na Biblioteca Municipal Batista Caetano de Almeida foram consultados 23 cdices


coloniais da cmara de So Joo del-Rei. Percorremos 6 livros de Aforamentos e concesses
de terras (1724-1868), 2 livros de Provises (1766-1801) e 15 livros de Papis da cmara
(1722-1796), buscando documentao sobre sesmarias, j que era a cmara que informava ao
governo da capitania se as terras requeridas pelos colonos estavam desocupadas ou sem
cultivo. O mesmo no pudemos fazer na cmara de So Jos, atual Tiradentes, devido
completa ausncia de catalogao e ao precrio estado de conservao dos documentos,
mesmo que j se encontrem digitalizados.

Um outro tipo de documentao necessria nossa pesquisa so as cartas de


confirmao das doaes de sesmarias. Nos cdices coloniais do Arquivo Pblico Mineiro s
localizamos 279 cartas de confirmao. Confirmar a doao em um prazo determinado de
um a quatro anos, dependendo de quando foi feita a doao era uma das exigncias da
legislao constantes da carta expedida pelos governadores pela qual se tornaria nula a
doao, caso no fosse cumprida. Mas no foi o que aconteceu. A se confiar nos dez cdices
do Arquivo Pblico Mineiro em que esto registradas as confirmaes,65 no haveria mais do
que quatro por cento de cartas de confirmaes das doaes de sesmarias para Minas Gerais.

65
APM-SC, cdices 02, 12, 30, 31, 43, 96, 120, 132, 146 e 299.
41

De grande utilidade para quem pesquisa temas referentes ao perodo colonial mineiro
so os registros do Arquivo Histrico Ultramarino relativos a Minas Gerais/Projeto Resgate.66
No seu inventrio h 1.163 documentos diversos referentes a sesmarias. Desses documentos,
1.001 referem-se a requerimentos de confirmao. curioso observar que desses
requerimentos, 487, ou seja, 48,65%, partem da Comarca do Rio das Mortes. Fizemos uma
pesquisa por amostragem (10%) nesse universo de 1.001 peties de confirmao.
Percebemos que 87,25% das peties obtiveram ratificao das doaes de sesmaria pelo
soberano, atravs do Conselho Ultramarino. Na melhor das hipteses, o ndice de
confirmaes tambm no passaria de 15% do total das cerca de 8.000 doaes para a
capitania.

Por fim, resultado de nossa pesquisa em arquivos lisboetas, patrocinada pelo Programa
de Doutorado no Pas com Estgio no Exterior PDEE/Capes, percorremos todos os 114
maos do Arquivo dos Condes de Linhares, com cerca de 12.000 documentos, guardado na
Torre do Tombo. A pesquisa minuciosa buscou levantar dados das propriedades rurais que a
famlia Souza Coutinho possuiu em Minas Gerais por mais de cem anos. Uma grande parte
dessa documentao constituda de cartas trocadas entre os membros da famlia Souza
Coutinho ou entre esses membros e os representantes dos seus interesses no Rio de Janeiro e
Minas Gerais.67 Alm desse fundo, quase indito porque foi recentemente incorporado aos
arquivos da Torre do Tombo, coletamos documentos esparsos na Biblioteca Nacional de
Portugal, no Arquivo Histrico Ultramarino e no Arquivo Histrico e Biblioteca do Tribunal
de Contas que tratassem das sesmarias do Brasil. A partir da anlise de toda essa
documentao, estruturamos a tese da seguinte forma:

No primeiro captulo analisamos o papel desempenhado pelo potentado coronel Incio


Correia Pamplona, mestre-de-campo e regente da conquista do Campo Grande da Picada de
Gois na abertura dos sertes do oeste, nas nascentes do rio So Francisco. O mando que
exerceu por quase 30 anos, o volume de terras que acumulou e com o qual beneficiou seus
parentes e protegidos e seu envolvimento na Inconfidncia Mineira, de cuja condenao
escapou ileso, fazem dele uma figura extremamente significativa para entender a sociedade

66
BOSCHI. Inventrio dos manuscritos avulsos relativos a Minas Gerais existentes no Arquivo Histrico
Ultramarino (Lisboa). Para nossa comodidade, adquirimos tanto os trs volumes do Inventrio quanto os 54 CDs
dos documentos.
67
Jnia Ferreira Furtado ao estudar as cartas comerciais de Francisco Pinheiro, negociante portugus da primeira
metade do sculo XVIII, salienta a importncia desse tipo de documentao como fonte de pesquisa.
FURTADO. Homens de negcios, p. 21-22.
42

colonial mineira. Ao mesmo tempo, o estudo da trajetria desse potentado permite reconstruir
a histria da ocupao da regio oeste da comarca, cujos sertes frteis, extensos e bem
servidos de gua, muita riqueza trariam para engrossar os cabedais que fariam do sul de
Minas o principal abastecedor do Rio de Janeiro.

No segundo captulo tratamos da distribuio de sesmarias nas terras indgenas do


serto oriental da capitania de Minas Gerais, principalmente no vale do rio Pomba. No
desconsiderando que um de nossos principais problemas de investigao o processo de
ocupao da capitania e, em especial, da Comarca do Rio das Mortes, confirmamos que ele
redundou em prejuzo dos povos indgenas, como at hoje acontece.

No terceiro captulo consideramos os autos de medio e demarcao de sesmarias da


Comarca do Rio das Mortes, analisando casos isolados, com vistas a perceber os conflitos e os
seus encaminhamentos jurdicos. Nossa inteno verificar em que medida as reformas
levadas a cabo em Portugal, no perodo pombalino, trouxeram ou no mudanas significativas
na conduo desses processos.

No quarto captulo fazemos uma incurso nas propriedades rurais que os fidalgos
portugueses da famlia Souza Coutinho possuam em grandes extenses em Minas Gerais,
inclusive na Comarca do Rio das Mortes. O interessante atentar para alguns aspectos: a
riqueza que essas terras, juntamente com a minerao, lhes proporcionaram; a decadncia das
propriedades devido ao absentesmo dos donos; o relaxamento de seus correspondentes e
advogados; a m conduta dos administradores; a invaso de posseiros e o trato com os
escravos, entre outros. Analisamos as cartas desses nobres portugueses com as autoridades
metropolitanas e coloniais, seus correspondentes comerciais e os administradores de suas
fazendas. Dessa anlise, percebemos as relaes de poder que permitiam que a Casa Senhorial
dos Condes de Linhares ainda tivesse um lucrativo negcio com as fazendas na colnia,
apesar dos prejuzos causados por administradores e representantes devido ao distanciamento
dos donos.

No quinto captulo observamos a disputa entre 58 posseiros e o segundo homem mais


rico da Inconfincia Mineira: o coronel Incio Jos de Alvarenga Peixoto, ouvidor da
Comarca do Rio das Mortes, pela posse de uma sesmaria de trs lguas de comprido por uma
de largo. Entre os anos de 1778 e 1783, os posseiros travaram uma grande disputa judicial
com o poderoso ouvidor pela posse da fazenda da Boa Vista, em So Gonalo da Campanha
do Rio Verde, termo da vila de So Joo del-Rei, limites da comarca com a capitania de So
Paulo.
43

Captulo 1

Incio Correia Pamplona e as sesmarias do serto do rio


So Francisco

De mil datas minerais


com engenhos de socar
de lavras lavras e mais lavras
e sesmarias
de bestas e vacas e novilhas
de terras de semeadura
de caf em cereja (quantos alqueires?)
de prata em obras (quantas oitavas?)
de escravos, de escravas e de crias
[...]
da auriflgida comenda no ba
enterrado no poo da memria
restou, talvez? este pigarro.

Carlos Drummond de Andrade


Herana

Neste captulo elucidaremos alguns aspectos de uma figura emblemtica e paradoxal


da histria colonial mineira, o mestre-de-campo coronel Incio Correia Pamplona, seu
enriquecimento, seu envolvimento na Inconfidncia Mineira e as consequncias dessa ao
para os ltimos anos de sua vida. Ao mesmo tempo, pretendemos iniciar uma discusso sobre
o processo civilizatrio do serto da Comarca do Rio das Mortes e a distribuio de suas
terras em sesmarias pelo coronel Pamplona. Para tanto, faremos algumas consideraes sobre
o serto em geral, visto pelo mundo dito civilizado como espao de barbrie e rebeldia, numa
perspectiva que vai da colnia at o Imprio.

Laura de Mello e Souza j havia realizado um estudo interessante sobre a expedio


capitaneada por Pamplona, em 1769, com o objetivo de identificar e destruir os quilombos do
serto do So Francisco, analisando seu carter civilizatrio.68 Todavia, debruamo-nos outra

68
SOUZA. Norma e conflito, p. 111-137. Captulo Violncias e prticas culturais no cotidiano de uma
expedio contra os quilombolas. Minas Gerais, 1769. AMANTINO. O mundo das feras, p. 182-205, tambm
estudou o carter civilizador das expedies militares organizadas por particulares e/ou pelo Estado em Minas
44

vez sobre a mesma documentao69 com vistas a explorar aspectos no considerados pela
pesquisadora. Desejamos, outrossim, luz de novos documentos possivelmente por ela
desconhecidos , traar uma trajetria maior da vida desse potentado colonial que foi
Pamplona, indo alm do ano de sua morte, no rastro da riqueza que acumulou.

possvel reconstituir parte de sua histria pessoal e familiar a partir de dois


documentos: a carta de testamento e o inventrio. A primeira est datada de 13 de agosto de
1810 e o segundo foi aberto no final do mesmo ano. O testamento, tal como os dos grandes
moribundos com contas a prestar a Deus e aos homens, extenso e detalhado em dezoito
pginas manuscritas. O inventrio, com 160 folhas, para a nossa infelicidade, parece estar
incompleto. Provavelmente ele seria muito maior, considerando os muitos bens a declarar e,
sobretudo, os litgios que ocorreram entre os herdeiros e a demora na sua concluso: em 1834
ainda eram juntados documentos ao processo. Faltam partes importantes, como o termo de
abertura e de encerramento. O rol de bens com sua avaliao sugere que algumas
propriedades da famlia no foram arroladas, como a famosa fazenda do Capote, de onde
Pamplona partiu, em 1769, para a conquista do serto. No sabemos se essas partes foram
consumidas pelas traas e intempries que assolavam ou assolam nossos arquivos, ou se
por advogados, solicitadores de causas, rbulas ou parentes, na faina de se apropriarem dos
bens j bastante dilapidados do famigerado coronel Pamplona ou at mesmo por genealogistas
cata de linhagens nobres para si ou para seus clientes. Desaparecido tambm est o
inventrio do seu testamenteiro e principal herdeiro, o padre Incio Correia Pamplona Corte
Real, que parece ter prejudicado suas cinco irms co-herdeiras. Para perceber at onde foi a
riqueza da famlia, localizamos o testamento e o inventrio do filho do padre Incio, tambm
padre, Jos Maria Correia, que morreu na mesma fazenda do Capote, em 1854, deixando oito
filhos legtimos entre os quais outro padre, o padre Incio Correia Pamplona.70

Gerais durante o sculo XVIII, sobretudo, a partir de 1750. Tratou especialmente da entrada que fez Incio
Correia Pamplona em 1769.
69
NOTCIA diria e individual das marchas e acontecimentos mais condignos da jornada que fez o Senhor
mestre-de-campo, regente e guarda-mor Incio de Correia Pamplona, desde que saiu de sua casa e fazenda do
Capote conquista do Serto (1769). In: Anais da Biblioteca Nacional, v. 108, 1988, p. 53-113. Daqui para
adiante NOTCIA diria.
70
uma sucesso to grande e confusa de Incios na famlia do coronel Pamplona que nos veio mente a saga
da famlia do coronel Aureliano Buenda, em Cien aos de soledad, com seus inmeros Arcdios e Aurelianos.
diferena da histria dos Pamplona, a brilhante fico com fundo de realidade, fruto da genialidade de Gabriel
Garca Mrquez, no encadeia tantos padres filhos de padres, fato to costumeiro na sociedade brasileira da
colnia e do Imprio. Curiosamente, tambm em torno da famlia Buenda, desdobrada em inmeras geraes,
45

Quanto ao uso dos testamentos e inventrios, citamos as palavras encantadoras de


Alcntara Machado em Vida e Morte do Bandeirante, a respeito das fazendas dos
bandeirantes paulistas, nos sculos XVII e XVIII, sem nos esquecermos de que, de certa
forma, Pamplona foi um deles:

luz que se irradia dessas laudas amarelecidas pelos anos e rendadas pelas
traas, vemo-las surgirem vagarosamente do fundo indeciso do passado e
fixarem-se nas encostas vermelhas da colina fundamental, as casas
primitivas de taipa de mo e de pilo. Recompe-se por encanto o mobilirio
que as guarnece. Sobre as mesas se dispem as baixelas de prata suntuosa ou
de estanho plebeu. Mos invisveis abrem as arcas e arejam as alfaias
domsticas e o fato de vestir. As paredes se enfeitam de espelhos, armas ou
painis. Logo, porm, as cores empalidecem, as linhas se dissolvem, a
miragem se desmancha; e no horizonte alargado outro cenrio emerge pouco
a pouco e ganha forma e colorido. o stio da roa, que aparece, com o
casaro solarengo, posto a meia encosta, protegido do vento sul; as palhoas
de agregados e escravos; os algodoais pintalgados de branco; o verde
anmico dos canaviais, em contraste com o verde robusto e lustroso da mata
convizinha; e, arranhando o silncio, cantiga montona de um moinho
moente e corrente.71

No inventrio do mestre-de-campo Incio Correia Pamplona, um recibo de 17 de


setembro de 1810 que o padre coadjutor Manoel Antnio de Castro passou dos gastos feitos
em suas exquias diz muito da riqueza do morto. Foram gastos 255$212 ris. Envolvido no
hbito de irmo terceiro do Carmo da vila de So Joo del-Rei, Pamplona foi sepultado dentro
da capela mor da igreja da mesma ordem, acompanhado pelos irmos do Carmo, do
Santssimo Sacramento, de So Miguel e Almas, do Senhor dos Passos e da Senhora da Boa
Morte e por mais trinta e dois reverendos sacerdotes. Foram pagas a dois coros de msica
cinquenta oitavas de ouro e a todos se distribuiu a cera na forma do costume desta
freguesia, [no valor de] 70$537 ris.72 Cinco anos antes de sua morte, em 1805, Pamplona
tinha na sua fazenda do Mendanha 765 cabeas de gado vacum, cavalar, muar e ovino e 61
escravos. Por ocasio do seu testamento, em 1810, declarara a posse de outros 18 cativos na

que gira um ficcional processo civilizador dos sertes de um pas imaginrio que deve ser a Colmbia de
Garca Mrquez.
71
MACHADO. Vida e morte do bandeirante, p. 23.
72
INVENTRIO post-mortem (daqui para frente IPM) do coronel Pamplona, fl. 13. AHET/IPHAN-MG/SJDR,
caixa 100
46

sua chcara de So Joo del-Rei.73 No pudemos apurar se tinha outros escravos e gados nas
sesmarias do serto do rio So Francisco, mas provvel que sim.

1.1 O serto e suas representaes

A gente devia mesmo de reprovar os meios de bandos em armas invadir


cidades, arrasar o comrcio, saquear na sebaa, barrear com estrumes
humanos as paredes da casa do juiz-de-direito, escramuar o promotor
amontado fora numa m gua, de cara para trs, com lata amarrada na
cauda, e ainda a cambada dando morras e a soltando os foguetes! At no
arrombavam pipas de cachaa diante da igreja, ou isso de se expor padre
sacerdote nu no olho da rua, e ofender as donzelas e as famlias, gozar
senhoras casadas, por muitos homens, o marido obrigado a ver?

Joo Guimares Rosa


Grande Serto: Veredas

O serto brasileiro sempre foi um espao que gerou inquietao na mente de viajantes
estrangeiros e dos moradores da colnia e do Imprio. Ora na condio de estrangeiros ou
autoridades, ora na condio de simples sditos da Coroa portuguesa ou cidados do Brasil
independente, as pessoas muitas vezes olharam para o serto como um espao multifacetado:
maravilhoso, paradisaco, promissor de riquezas, repleto de gentios a evangelizar ou
pestilento, indmito, inspito, habitado por feras, sem lei... Vises negativas e positivas se
alternavam nesses olhares, muitas vezes carregados de preconceitos.

Nos primrdios da colonizao, sculo XVI e primeira metade do XVII, a primeira


viso que se tinha era a de paraso, muitas vezes trazida de uma Europa j castigada pelos
milnios de ocupao, extenuada pelas pestes, fomes e guerras. Viso ednica muitas vezes
compartilhada por nossos primeiros cronistas como Gabriel Soares, Frei Vicente do Salvador,
Pero de Magalhes Gandavo e outros. Estudo clssico sobre o assunto continua sendo o de

73
IPM do coronel Pamplona, fls. 17 a 19. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100. Esses nmeros so
considerveis se levarmos em conta os dados coletados por Andr Figueiredo Rodrigues nos sequestros dos
inconfidentes de 1789. Os maiores proprietrios de animais eram Francisco A. de Oliveira Lopes e Jos Aires
Gomes com 430 e 378 cabeas, respectivamente. As maiores escravarias pertenciam a Alvarenga Peixoto, Jos
Aires Gomes e Francisco A. de Oliveira Lopes com 134, 133 e 74 cativos, respectivamente. RODRIGUES.
Estudo econmico da Conjurao Mineira, p. 146 e 190.
47

Srgio Buarque de Holanda, que nos d a exata dimenso do quanto durou esta ideia de uma
terra sem males:

[...] No s a supremacia crescente do saber racional ou emprico, mas


tambm um caudal maior de conhecimentos acerca das antigas terrae
incognitae, fazem desbotar-se ou alterar-se uma fantasia, herdeira de
tradies milenares, que se infundiu nas almas dos navegantes e de quantos
homens largaram a Europa na demanda de um mundo melhor, ao contato
com os bons ares e boas terras do novo continente. E que, mesmo passado o
deslumbramento inicial, ainda se mantm longamente por fora dos
costumes e da inrcia, conseguindo sobrepor-se tranquilamente aos
primeiros desenganos.74

medida que essa viso foi sendo superada, de forma lenta e gradativa, como
salientou Srgio Buarque de Holanda, o que se comeou a construir nas mentes foi o inverso.
A Amrica portuguesa e, sobretudo, o seu hinterland foram assumindo forma e figura no to
agradveis s vontades e aos sentidos. Os primeiros desbravadores desse misterioso interior
foram os bandeirantes, em sua maioria paulistas, e os padres da Companhia de Jesus. Foram
tambm eles os primeiros a padecer sob as flechas, as feras e as febres. Isto para no falar da
sede, da fome, dos insetos sobretudo os mosquitos e as formigas de variadas espcies, causa
de variados males, e os bichos-de-p , das cobras peonhentas e traioeiras, das regies
excessivamente midas ou abrasadoramente trridas. Para dificultar ainda mais, esses
sertanistas encontravam os obstculos naturais dos caminhos praticamente inexistentes: rios
intransponveis e encachoeirados, florestas fechadas, terrenos alagadios ou ridos e serras
elevadas. Nos primeiros tempos, as longas distncias s podiam ser vencidas a p, atravs de
picadas na mata que muitas vezes no permitiam a passagem de montarias ou cargueiros, ou
de canoas pelo perigoso leito dos rios. Ora, com o tempo, para minorar os sofrimentos dos que
desbravavam o serto, remdios, alimentos e tcnicas foram sendo aprendidos com o gentio
que nele habitava. Disso tudo tambm nos d notcia Srgio Buarque de Holanda em
Caminhos e fronteiras.75

Talvez, entre as feras, os homens da colnia incluam os gentios bravos e,


posteriormente, os negros aquilombados, contra os quais travaram encarniadas campanhas,

74
HOLANDA. Viso do paraso, prefcio segunda edio, p. XXV.
75
HOLANDA. Caminhos e fronteiras, especialmente o captulo 7: Frechas, febres e feras.
48

verdadeiras caadas.76 Ainda no alvorecer do sculo XIX, sob a regncia de D. Joo, moveu-
se cruenta guerra contra os ndios Botocudos,77 habitantes relativamente prximos do litoral e
da capital do reino. Com as feras tambm eram identificados mestios e homens brancos de
vida instvel, os vadios e facinorosos, termos recorrentes na documentao colonial.

O serto podia estar a centenas de lguas do litoral ou a umas poucas lguas dos
maiores e mais importantes centros urbanos coloniais. A cidade do Rio de Janeiro no estava
muito distante das imensas e ininterruptas matas que separavam a capitania fluminense das
capitanias das Minas Gerais e do Esprito Santo, onde viviam os ferozes Botocudos. Vila Rica
tambm ficava poucas lguas a oeste dessas mesmas matas e a antiga cidade do Salvador
conviveu durante vinte anos com um quilombo de tamanho considervel a menos de seis
lguas de seu centro.78

O serto, para as autoridades metropolitanas portuguesas na colnia e para os


bacharis do Imprio representava um mundo a civilizar. Civilizao que deveria ser feita
dentro dos padres culturais que a elite importava da Europa. Para eles era a luta entre o
centro e a periferia, entre a civilizao e a barbrie.79

76
SOUZA. Norma e conflito, p. 83-110.
77
VARNHAGEN. Histria geral do Brasil: antes da sua separao e independncia de Portugal, v. 3, t. V, p. 99.
Na grafia dos nomes indgenas, a conveno estabelecida pela Associao Brasileira de Antropologia, em 1953,
recomenda que os nomes e lnguas de povos indgenas sejam empregados de forma invarivel, sem flexo de
gnero e nmero. Revista de Antropologia, 2(2), 1954. p. 150-154. No entanto, respeitando a forma que aparece
nas fontes histricas e por considerarmos que no h comprometimento de qualquer natureza, recorremos, neste
texto, aos padres da Lngua Portuguesa e optamos por utilizar iniciais maisculas.
78
SCHWARTZ. Escravos, roceiros e rebeldes. Sobre a proximidade dos quilombos dos centros urbanos ver o
captulo 5 Repensando Palmares: resistncia escrava na colnia, e para o caso de Salvador, especialmente o
trecho Etnografia dos mocambos: o caso do Buraco de Tatu, p. 235-242.
79
Essa questo se prolonga no perodo republicano e aparece refletida em duas obras monumentais da literatura
nacional, as quais retratam a resistncia desse mundo ao processo civilizador vindo do centro: Os sertes e
Grande serto: veredas. Convm destacarmos a diferena de estilos e o contexto histrico peculiar de seus
autores e das duas produes literrias. A primeira, da pena de Euclides da Cunha, claramente localizada no
tempo, mostra a garra e a fibra do sertanejo no enfrentamento com um projeto de nao construdo
artificialmente de cima para baixo. As campanhas contra o arraial de Canudos e o Conselheiro, seu lder
milenarista, demonstraram o quanto o aparato tcnico se mostrou frgil em um meio hostil e diante de uma
populao muito diferenciada daquela que habitava o litoral. Ficou tambm escancarada a inexistncia de uma
nao nica, de uma s comunidade poltica republicana. Ficou patente que o projeto positivista de repblica que
derrubou a monarquia levaria alguns anos para ser aceito por um serto que ainda guardava a imagem paternal
do imperador. CUNHA. Os sertes. A segunda, obra maior de Joo Guimares Rosa, que no tem a preocupao
de definir uma temporalidade, descreve a longa durao de valores de honra, coragem, lealdade: permanncias
de uma sociedade nos moldes da Europa medieval em pleno Brasil republicano. Aponta a sobrevivncia do
Sebastianismo e o apelo figura paternal do imperador Pedro II, tal como em Canudos. Coronis e jagunos, em
andanas e guerras por aqueles sertes, como que querendo colocar ordem no caos. Esse mundo estaria
delimitado pela margem esquerda do rio So Francisco. Na outra margem, estaria a civilizao, com seus
progressos e suas instituies. O rio seria o divisor dos dois mundos. Guimares Rosa enxergava o serto e o
sertanejo com olhos mais compreensivos. Os moradores da margem esquerda tinham uma tica prpria e um
49

No Imprio, os Relatrios da Presidncia da Provncia de Minas Gerais, ao longo do


sculo XIX, so prdigos na descrio e no balano das aes tomadas ou por tomar no
sentido de difundir a civilizao na Provncia. H detalhadas estatsticas de criminalidade,
constantes referncias construo de cadeias pblicas, estradas e pontes, sees especficas a
respeito do Aldeamento e Catequese dos ndios, especialmente dos temidos Botocudos. A
preocupao das autoridades mineiras fazia eco s tentativas de normatizao da sociedade
que emanavam do centro de Imprio, sobretudo no perodo Saquarema, no qual se consolidou
o projeto poltico das elites cafeicultoras do centro-sul. Em meados do sculo XIX, a regio
que mais carecia desse sopro de civilizao era o territrio mineiro confrontante com o
Esprito Santo e norte do Rio de Janeiro. Esse espao, coberto por vastas e intocadas florestas,
cuja poltica de isolamento das minas de ouro e diamante a Coroa portuguesa fez questo de
manter, comeou a ser ocupado mais sistematicamente com a criao da Companhia de
Navegao e Comrcio do Mucuri em 1847. Foi uma iniciativa de Tefilo Otoni, poltico
liberal que sintetiza bem o esprito conciliador da poca. Pretendia-se incrementar o comrcio,
colonizar a terra com imigrantes europeus derrubando a mata, abrir caminhos para o litoral,
navegar o rio Mucuri e submeter os ndios. A empresa, que teve apoio do Governo Imperial,
enfrentou inmeras dificuldades e faliu em 1861. De qualquer maneira estava dado o passo
inicial para a devastao da mata atlntica que cobria a regio falava-se em 70 lguas de
mato virgem do interior at a costa e para a dizimao dos ndios.80

senso de justia e autoridade que no eram os mesmos dos moradores da outra margem que os queriam
civilizar. ROSA, Joo Guimares. Grande Serto: veredas.
J Euclides da Cunha, mesmo se indignando com o massacre do arraial e concluindo que o sertanejo ,
antes de tudo, um forte, via Canudos como o homizio de famigerados facnoras [que] ali chegavam, de
permeio com os matutos crdulos e vaqueiros iludidos, sinistros heris da faca e da garrucha. Ali, o sertanejo
simples transmudava-se, penetrando-o, no fantico destemeroso e bruto. Compartilhando o esprito do
darwinismo social do seu tempo, o escritor acreditava que a mistura de raas diversas , na maioria dos casos,
prejudicial e que a mestiagem extremada um retrocesso. Mesmo considerando que aquela rude sociedade,
incompreendida e olvidada, era o cerne vigoroso da nossa nacionalidade, a descrio feita dos sertanejos que
seguiam o Conselheiro est eivada de esteretipos. Para ele, o sertanejo de Canudos era um agitador, do qual a
revolta era um aspecto da prpria rebeldia contra a ordem natural, adversrio srio, estrnuo paladino do extinto
regime, capaz de derruir as instituies nascentes. CUNHA. Os Sertes, p. 99, 161, 159, 93, 87, 166 e 171.
Em ambos os casos, mesmo que Guimares Rosa tenha um olhar mais benevolente, o serto e seus
moradores esto colocados como um mundo rebelde, uma anttese e uma negao do governo e da ordem
republicana.
Sobre a ideia de que os moradores do serto eram feras, Guimares Rosa tem ainda um texto
interessantssimo, considerado obra prima e por alguns, como uma das duas maiores do autor ao lado do Grande
Serto. Trata-se do conto (ou mesmo obra, segundo alguns crticos) MEU TIO O IAUARET, do livro
Estas Estrias: monlogo/dilogo no qual o interlocutor (o tio - sertanejo) identifica-se a si mesmo diante do
outro (o sobrinho moo da cidade) como ona, ser personificado da ona iauaret. ROSA, Joo Guimares.
Estas Estrias, p. 126-159.
80
DUARTE (org.). Tefilo Otoni: notcia sobre os selvagens do Mucuri.
50

Na colnia, Minas era um imenso serto. Um serto j pouco paradisaco e


sabidamente rebelde, povoado de ndios bravos, negros quilombolas e vadios, verdadeiros
terrores da boa sociedade branca. At mesmo essa boa sociedade, quando vista pela Coroa,
levantava desconfianas. J clssico o desabafo do conde de Assumar, que parece envolver
natureza e sociedade num nico invlucro pessimista:

Os dias nunca amanhecem serenos; o ar um nublado perptuo; tudo frio


naquele pas, menos o vcio, que est ardendo sempre. [...] a terra parece que
evapora tumultos; a gua exala motins; o ouro toca desaforos; destilam
liberdades os ares; vomitam insolncias as nuvens; influem desordens os
astros; o clima tumba da paz e bero da rebelio; a natureza anda inquieta
consigo e, amotinada l por dentro, como no inferno.81

Essa ideia de uma capitania rebelde permaneceu at o fim do sculo XVIII. O ministro
Martinho de Melo e Castro em carta ao visconde de Barbacena, datada de 24 de janeiro de
1788, s vsperas de mais uma rebelio, a Inconfidncia Mineira, registrava sua queixa:
Entre todos os povos de que se compe as differentes capitanias do Brasil, nenhuns talvez
custaram mais a sujeitar e reduzir devida obediencia e submisso de vassalos ao seu
Soberano como foram os de Minas Geraes.82 Ao longo desse perodo, por diversas vezes as
autoridades metropolitanas se viram assombradas pelo territrio infestado de quilombos e
pelos levantes de seus sditos. Dentre os maiores movimentos de insubordinao, podemos
citar: a Guerra dos Emboabas (1707-1709), os motins de Pitangui (1717-1719), de Catas Altas
(1718) e da Barra do Rio das Velhas (1719), a Sedio de Vila Rica (1720), os Motins do
Serto (1736), a Inconfidncia de Curvelo (1776) e a Inconfidncia Mineira (1789).83 O
drama do longo processo e das condenaes que resultaram desse ltimo movimento parece
ter mergulhado a capitania num longo perodo de letargia. Somente os anos turbulentos da
Regncia e do Segundo Reinado voltaram a esquentar os nimos com a Revolta do Ano da
Fumaa, em 1833, e com a Revoluo Liberal em 1842.

81
SOUZA. Norma e conflito, p. 88.
82
MAXWELL. A devassa da devassa, p. 108.
83
Para maiores detalhes sobre essas rebelies vide ANASTASIA. Vassalos rebeldes; VASCONCELOS. Histria
Antiga; Histria Mdia de Minas Gerais; MAXWELL. A devassa da devassa; SOUZA. Motins, revoltas e
revolues na Amrica portuguesa sculos XVII e XVIII; FIGUEIREDO. Revista Oceanos, p. 128-144.
FIGUEIREDO. A poesia dos inconfidentes, p. XIX-L.
51

1.2 A Comarca do Rio das Mortes e a conquista do serto do


Campo Grande

Durante todo o sculo XVIII existiam somente quatro comarcas na capitania de Minas:
Vila Rica, Rio das Velhas, Serro Frio e Rio das Mortes. Cada uma delas com enormes e
imprecisas extenses territoriais para administrar. Poucas vilas contavam com o aparato
administrativo e militar necessrio disseminao e manuteno da ordem: os senados das
cmaras, as cadeias, as estruturas judicirias, a tropa paga. Com a escassez de recursos, o
aparato militar, como no resto da colnia, dependia em larga escala das milcias e ordenanas
que, apesar das hierarquias, estavam, de certa forma, sob o controle do poder local, com o
qual a Coroa nem sempre podia contar e que em diversas ocasies se insurgiu contra ela. A
nica instituio que tinha uma penetrao maior no territrio era a Igreja que, sob o regime
do padroado, cumpria diversas funes de carter administrativo.

A Comarca do Rio das Mortes, com cabea na vila de So Joo del-Rei, ocupava
quase um quinto do que hoje conhecemos por Minas Gerais. Durante quase todo o sculo
XVIII, seu imenso territrio estava subordinado s nicas duas vilas: So Joo e So Jos
(atual cidade de Tiradentes). O termo dessa segunda que se estendia em direo ao serto do
oeste mineiro. A vila, ento, estava localizada bem na extremidade leste, distante duas lguas
de So Joo e a uma centena de lguas de seus indefinidos limites ocidentais, nas margens do
rio So Francisco. A administrao eclesistica dessa regio era, inclusive, disputada entre as
arquidioceses de Pernambuco e Mariana. A maior parte do territrio do termo da vila de So
Jos era o serto.84

84
A ideia de serto, para essa extensa regio do termo da vila de So Jos permaneceu na memria e no uso
coloquial dos moradores da regio de So Joo del-Rei e Tiradentes at as dcadas de 1950 ou 1980. Muitos
trabalhadores rurais que se deslocavam das cidades desse entorno para os municpios do oeste mineiro, at a
dcada de 50, diziam que estavam indo para o serto de Santo Antnio do Amparo, de Bambu..., mesmo
sabendo que a regio j possua centros urbanos desenvolvidos como Divinpolis, Arax, Uberlndia e Uberaba.
Tambm a moderna locomotiva a leo da E.F.O.M. partindo de So Joo del-Rei e atingindo Uberaba, j no
Tringulo Mineiro, acompanhando o vale do rio Grande, que circulou at o princpio da dcada de 1980, era
conhecida por todos como o Trem do Serto.
52

FIGURA 3 Mapa da Comarca do Rio das Mortes com os termos das vilas de So Joo del-Rei (cor) e So Jos
(branco) (1809).
Fonte: COSTA et al. Cartografia das Minas Gerais, 2002.

A documentao do Arquivo Histrico Ultramarino (AHU), referente a Minas Gerais,


nos d uma ideia da importncia que vinha assumindo a Comarca do Rio das Mortes ao longo
do sculo XVIII. Um quadro estatstico elaborado pelas autoridades da capitania, em 1768,
53

que reproduzimos abaixo, assinala que das quatro comarcas existentes, a do Rio das Mortes
era que detinha a maior quantidade de sesmarias doadas desde o ano 1700 at 1768. Vejamos
o Mappa geral das sesmarias, com declarao das legoas, que se tem dado em as quatro
commarcas pertencentes ao Governo de Minas Geraes desde o anno 1700 at 17 de Julho de
1768:

Quadro1
Mapa geral das sesmarias nas quatro comarcas de Minas Gerais (1700-1768)
Comarcas Sesmarias Legoas
Villa Rica 842 481 1/4
Rio das Mortes 1.072 693 1/2
Rio das Velhas 920 951 1/2
Serro Frio 218 153 1/2
Total 3.052 2.279 3/4
Fonte: AHU - Projeto Resgate MG, 1768, caixa 93, doc. 58. (grifos nossos)

O nmero de sesmarias na Comarca Rio das Mortes superava o de todas as demais.


Superava mesmo a soma das comarcas de Vila Rica e Serro Frio. Em extenso de lguas, s
perdia para a Comarca do Rio das Velhas, o que no muito difcil de compreender. A
localizao dessa comarca, bem no hinterland da capitania, deve ter favorecido a doao de
sesmarias de maior rea, diferentemente da do Rio das Mortes, regio mais prxima do Rio de
Janeiro e do litoral.

Alguns pesquisadores tm demonstrado o papel de destaque que a Comarca do Rio das


Mortes vinha gradativamente ocupando na produo agro-pastoril a partir do ltimo quartel
do sculo XVIII, vindo a se tornar uma das regies economicamente mais prsperas da
colnia e cumprindo o papel de abastecedora da Corte na primeira metade do sculo
seguinte.85 O prprio crescimento populacional nessa regio, especialmente da mo de obra
escrava, indicativo desse enriquecimento. De acordo com Maxwell:

85
LENHARO. As tropas da moderao; GRAA FILHO. A Princesa do Oeste.
54

A comarca de Vila Rica, nas quatro dcadas seguintes ao censo de 1776,


apresentou um declnio demogrfico. Rio das Mortes, entretanto, no mesmo
perodo quase triplicou sua populao: de 82.781, em 1776, para 213.617 em
1821. A mudana da populao para o sul indicava profunda alterao das
funes e da economia de Minas Gerais, aps a dcada de 1760. O declnio
de Vila Rica e a ascenso do sul refletiam a queda do papel dominante da
minerao e a crescente importncia das atividades agrcolas e pastoris [...].86

Foi nessa comarca promissora e em expanso, cuja vocao parecia ser a agricultura e
o comrcio, que chega, por volta de 1760, o portugus Incio Correia Pamplona. Vindo da
Ilha Terceira, arquiplago dos Aores, onde nasceu em 1731, permaneceu por algum tempo
no Rio de Janeiro de onde passou a comerciar com as Minas. Fixou-se na freguesia dos
Prados, termo da vila de So Jos do Rio das Mortes. Tornou-se proprietrio, nessa mesma
freguesia, de duas grandes fazendas nos arredores do arraial de Lagoa Dourada: Capote e
Mendanha.

Casou-se com Eugnia Luza da Silva, que seria negra ou mulata forra, filha de me
africana e pai desconhecido, em data que no podemos precisar.87 Desse casamento teve seis
filhos: o padre Incio Correia Pamplona Corte Real, Teodora, Rosa, Incia, Simplcia e
Bernardina que se casou com um parente, Joo Jos Correia Pamplona. Foi em nome dessa
famlia que Pamplona acumulou um vasto latifndio88 no serto.

Diz o testamento de Incio Correia Pamplona, datado de 1810, que desde o ano de
1771 que recolhi no Recolhimento de Macaba, minhas filhas e uma prima por nome
Teodora, Rosa, Incia, Simplcia e a prima Bernarda, com seus dotes de 3.000 cruzados cada
uma das cinco propinas (sic) e 900$000 de juros enquanto no paguei os dotes e mais selas
[celas?] a 300$000 cada, que com as mais despesas diariamente e assistncias como consta do
dito livro e at o presente importam, salvo erro, em quantia de 14:936$103. Na colnia,
numa sociedade de mentalidade marcadamente patriarcal, na qual a cor da pele era um fator
de forte distino social, entre seis filhos legtimos ter cinco filhas mulatas era um grande

86
MAXWELL. A devassa da devassa, p. 110.
87
SOUZA. Norma e conflito, p. 116.
88
Faz-se necessrio explicar que o termo latifndio no do perodo colonial. Eventualmente ser usado no
texto, quando nos referirmos a grandes propriedades. Para uma informao mais ampliada desse conceito
sugerimos a consulta a MOTTA (org.). Dicionrio da terra, p. 272-276.
55

problema que Pamplona tinha nas mos para resolver. As filhas de um potentado no se
casariam com qualquer um. Alm de encontrar algum de boa famlia, era preciso bem dot-
las para o casamento. Cas-las todas significava dividir o patrimnio da famlia, transferindo a
maior parte para genros estranhos em prejuzo do nico filho varo. Era preciso tambm
manter a sucesso hereditria da famlia. Casou ento a filha Bernardina com o parente Joo
Jos Correia Pamplona e importou o seu dote em que entrou uma fazenda chamada Tapada
com escravatura, gados, guas, burros e burras e o enxoval que se lhe deu para o seu
casamento [...] o que tudo importa em 6:573$500. As outras quatro, junto com uma prima,
enclausurou-as no Recolhimento das Macabas,89 o que, na prtica lhe custou muito menos do
que cas-las, pois parece que no pagou todas as despesas. Quanto ao filho, foi enviado para o
clero, o que no impediu que tambm ele perpetuasse a linhagem do pai. Seu filho padre, por
sua vez, teve um filho, tambm destinado ao sacerdcio, o padre Jos Maria Correia
Pamplona, o qual, em 1822, veio a substituir seu pai como inventariante do falecido av, o
coronel Pamplona, perpetuando-lhe ainda mais a linhagem.

FIGURA 4 Recolhimento das Macabas, edificao do sculo XVIII (2009).


Fonte: Arquivo particular do autor.

89
BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais, p. 191. O autor traz maiores informaes sobre
esse antigo convento na regio de Sabar, fundado em 1714. Uma grande ala do convento foi construda pelo
mestre-de-campo Incio Correia Pamplona. No nosso entendimento, essa foi uma forma por ele encontrada para
conseguir a recluso de suas filhas mulatas e para o pagamento de parte dos dotes. De acordo com Mary del
Priore, garantia de sustento de quem ingressasse na vida religiosa, o dote podia ser parcelado ou ainda
convertido em escravos, animais, propriedades ou na construo de celas e cmodos na prpria instituio.
PRIORE. Histria da vida privada no Brasil, v. 1, p. 289.
56

A atividade comercial que comeou no Rio de Janeiro parece ter sido constante em sua
vida e a exerceu em diversos pontos da capitania. Declarou no seu testamento que mais se
me devem outras [dvidas] que parecem incobrveis e so as seguintes: pelo importe do que
me devem vrias pessoas da Comarca do Serro Frio por crditos e contas que se acham em
um mao em meu poder: 1:330$575; pelo que me devem vrias pessoas de Vila Rica e de
Sabar por crditos que se acham em meu poder 509$387; pelo que me devem vrias pessoas
dessa Comarca do Rio das Mortes por crditos que se acham em outro mao em meu poder
344$700.90 Pamplona tambm lucrou com o fornecimento de vveres s tropas que se
deslocaram do Rio para as Minas para sufocar a Inconfidncia Mineira.91

Quando realizou sua marcha para o serto, em agosto de 1769, Pamplona residia na
fazenda do Capote. Seu inventrio no a descreveu, mas ela permaneceu na posse de seus
herdeiros at pelo menos 1855, quando foi avaliada pela morte de seu neto, o padre Jos
Maria Correia Pamplona, e se tratava de uma rica propriedade. No apareceu na avaliao por
j ter sido vendida ao seu filho e inventariante, o padre Incio em 1805.92 Da outra fazenda,
Mendanha, temos uma descrio bastante pormenorizada. Foi minuciosamente descrita em
seu inventrio, em virtude de ter sido vendida de porteira fechada,93 logo aps sua morte, em
1814. No h referncia sua rea, como era comum nas descries das propriedades rurais
da poca. Somente so apresentadas suas confrontaes e a escritura assim a descreveu:

[...] Terras de cultura em capoeiras e algum mato virgem, campos de criar e


pastos fechados por valos [ilegvel] prprios com casas de residncia trreas
e de sobrado, capela de pedra, dois engenhos correntes de moer cana, um de
gua e outro de bois com os utenslios da fbrica, um paiol, dois moinhos,
um monjolo, senzalas, tudo coberto de telhas, currais de pedra, pomares,
horta e tudo o mais de oficinas [ilegvel] pertencentes da mesma fazenda que
confronta a leste com a fazenda do Capote [...].94

A escritura de venda continua descrevendo, em detalhes, os trastes da casa, todos os


variados utenslios de cobre e madeira do engenho, diversas ferramentas, 819 cabeas de gado
vacum, cavalar, muar e ovino, as plantaes por colher e sessenta e um escravos de um e

90
IPM do coronel Pamplona, fls. 08-09. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
91
Autos de Devassa da Inconfidncia Mineira, vol. 10, p. 39.
92
IPM do coronel Pamplona, fl. 17. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
93
Expresso usual no meio rural dos dias atuais no na colnia para significar que a propriedade rural foi
vendida com tudo que dentro dela havia.
94
IPM do coronel Pamplona, fl. 17. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
57

outro sexo, de maiores e menores, que por seus nomes, qualidades naes, idades, oficios,
defeitos e preos em que foram avaliados. Tudo importou em 19:558$200. A descrio
completa impressiona pelos nmeros e pela sugesto de auto-suficincia da propriedade com
sua carpintaria, sua tenda de ferreiro, sua fbrica de acares e aguardente e todas as demais
benfeitorias de uma grande fazenda. Dentre as benfeitorias da fazenda, a capela, segundo
Sheila de Castro Faria, estaria ligada diretamente ostentao de poder e riqueza.

Qualquer senhor de engenho, ainda sem maiores possibilidades, j se


descontenta de procurar a missa de sua freguesia e afetando dvidas de
longas distncias de sua habitao, solicita licena, levanta altar no seu
oratrio para a ter em casa, e desta forma cresce o luxo sem o menor limite.95

Ningum mais do que Pamplona se preocuparia com a ostentao e isso se pode


perceber nos relatos de sua marcha para o serto em 1769. Tinha no s capela, mas tambm
filho padre, o qual convenceu a ficar na fazenda em sua companhia desde que este recebeu as
ordens no seminrio. Toda essa estrutura, somada que pudermos imaginar da antiga fazenda
do Capote, situada ao lado da fazenda do Mendanha, nos d uma clara ideia da situao
econmica de Pamplona alguns anos antes, quando partiu, em nome do rei, para a conquista
do serto. Como proprietrio rural, alm das fazendas de Lagoa Dourada, Pamplona tomou
para si e seus filhos, nas entradas que fez para o serto entre 1765 e 1769, oito sesmarias:

[...] Da parte de l do rio So Francisco pertencentes a Bambu, a primeira de


So Simo que povoei de 3 lguas de terra, a segunda de Santo Estvo com
3 lguas de terra e, unida a esta, a terceira do Desempenhado com 3 lguas
de terras e a quarta na beira do rio So Francisco chamada das Perdizes com
3 lguas de terras; e da parte de c do dito rio de So Francisco do termo da
vila de Tamandu, beira do mesmo rio, outra sesmaria chamada Tapada
com 3 lguas de terras e, unida a esta seguindo a estrada, outra chamada So
Julio com 3 lguas de terras e, imediata a esta, se acham mais 2 sesmarias
de meia lgua de terras cada uma denominadas Arco e a Lagoa dos Servos.96

Como a legislao da poca no permitia que se desse mais de uma sesmaria a uma
mesma pessoa, o artifcio que usou foi colocar uma em seu nome a do Desempenhado e as
outras sete em nome dos seis filhos e do genro.97 Na prtica, controlava tudo, porque quatro
filhas estavam recolhidas em Macabas e os demais filhos andavam debaixo de sua

95
FARIA. A colnia em movimento, p. 361, citando os Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reys - 1785.
96
IPM do coronel Pamplona, fls. 02-03. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
97
MOTTA. Direito terra no Brasil, p. 182-188.
58

influncia. Era um imenso latifndio. Para se ter uma ideia de sua extenso, uma lgua
quadrada representa 43,56 km. Cada sesmaria de trs lguas ocupava uma rea de 130,68
km. Eram seis sesmarias de trs lguas: 784,08 km e duas de meia lgua: 21,78 km.
Pamplona tinha nada menos do que 805,86 km em terras. Eram, aproximadamente, 80.586
hectares98 de terras nessas sesmarias do oeste de Minas. Nos arredores de Lagoa Dourada
tinha as fazendas do Mendanha, Capote e Glria, cujas extenses desconhecemos.

A legislao da poca tambm ordenava que se medissem e se demarcassem as


sesmarias. Pamplona em seu testamento declarou que toda a dita despesa com as entradas, e
com as sesmarias tiradas na secretaria com as medies de juiz, escrivo, piloto, e dos que
andavam com a corda importaram em quantia de 3:772$273.99 Ainda no podemos afirmar
categoricamente, mas mais provvel que ele no tenha medido e nem demarcado essas
terras. Talvez ele tenha declarado essas despesas para que elas fossem debitadas, em
inventrio, s suas filhas e ao genro, titulares nominais das ditas sesmarias, como artimanha
para beneficiar o padre Incio, seu predileto. Deixar de medir e demarcar era uma estratgia
que muitos adotavam para manter a gleba indefinida e com isso avanar sobre as posses dos
mais fracos.100 Pesquisando os processos de sesmaria da Comarca do Rio das Mortes no
encontramos nenhuma referncia a Pamplona, a seus filhos e genro.101

Em 18 de agosto de 1769, aps ter recebido instrues oficiais do governador Jos


Lus de Meneses Castelo Branco, conde de Valadares, Pamplona parte de sua fazenda do
Capote em direo ao oeste mineiro. A regio do Campo Grande no era de todo
desconhecida. Por l passava a Picada de Gois. J se tentara a sua ocupao com a
distribuio das primeiras sesmarias em 1737, logo abandonadas devido aos ataques de
quilombolas e ndios Caiaps. Entre 1740 e 1760, tropas custeadas pelo governo da capitania,

98
O hectare (ha), correspondente a 10.000m, uma medida do sistema mtrico decimal do perodo napolenico.
Esse sistema no era adotado no Brasil colnia e creio que nem fosse usual durante o Imprio. Ainda hoje,
algumas comunidades rurais do interior do pas continuam se referindo terra em alqueires, que variam de
tamanho conforme a regio: 2,42 para o entorno de So Joo del-Rei e 4,84 para o oeste mineiro.
99
IPM do coronel Pamplona, fls. 02-03. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
100
Tal prtica persistiu por muitos anos, mesmo depois da promulgao da Lei de Terras de 1850. Mrcia Motta
nos diz que preciso entender por que as medies e demarcaes das terras feriam os interesses dos grandes
fazendeiros, fazendo com que eles insistissem em descumprir as Ordens Rgias. MOTTA. Nas fronteiras do
poder, p. 37. Essa ideia tambm compartilhada por FARIA. A colnia em movimento, p. 251. Segundo essa
autora, os limites imprecisos de sesmarias serviam como justificativa para apropriaes, que s o poder
individual instauraria. Tambm Hebe MATTOS (apud FARIA, A colnia em movimento, p. 251) considera que
as propriedades poderiam alargar-se ou reduzir-se, no decorrer do tempo, na dependncia dos recursos de poder
de seus proprietrios legais.
101
Sesmarias - AHET/IPHAN-MG/SJDR.
59

cmaras e particulares foram enviadas regio para a destruio dos quilombos.


Compunham-se tambm de paulistas, ndios mansos e negros. S o quilombo do Ambrsio, o
maior e o mais famoso, foi destrudo duas vezes: em 1746 e em 1759.

Na expedio organizada por Gomes Freire de Andrada, em 1746, as armas, plvora e


balas foram por conta de El-Rei. Os demais gneros necessrios ao empreendimento estavam
orados em 2.750 oitavas de ouro. As cmaras de Vila Rica, Mariana, So Joo del-Rei, So
Jos e Sabar deveriam concorrer com 500 oitavas cada uma e a de Vila Nova da Rainha com
250. No rol de gneros para a campanha estavam relacionados, com os custos detalhados por
item:

22 arrobas de chumbo grosso; 24 tachos de 12 libras cada um que so 9


arrobas; 4 peas de cordas para pontes de rios; 20 machados; 600 alqueires
de farinha conduzidos a 40 lgoas; 60 alqueires de feijo; 80 capados; 2
barris de acar; 8 barris de vinagre; 1 carga de farinha do reino; 6 bruacas
de sal; 8 ditas para salgar os porcos; 40 cavalos de aluguel; 1 cirurgio; 10
couros crus para rodelas [?]; 15 barris de aguardente do reino; 652 varas
deniage [de aniagem?] e algum ministrio mais que no corre com botica
[sacerdote, p.e.] Soma........2750.102

De acordo com Waldemar Barbosa, o devassamento da regio e seu povoamento


mais intenso s tiveram lugar depois das entradas de Pamplona.103 A fase das grandes
campanhas militares envolvendo de 300 e 400 homens contra ndios e quilombos j estava
encerrada no final da dcada de 1760. A marcha empreendida por Pamplona, entre agosto e
dezembro de 1769, com cerca de 200 homens, entre brancos e escravos, j encontrava uma
regio pacificada. Os ndios bravios estavam dizimados ou afugentados para o interior e os
grandes quilombos destrudos.

Riscos sempre correriam os que agora entravam, pois quilombos menores ainda se
formavam a partir dos que foram atacados e o serto sempre reservava surpresas, da constar
o trem do dito Senhor de 58 escravos seus, com armas de espingarda, clavinas, faces,
patrona, plvora, chumbo e bala.104 Mas, nos cinco meses de entrada, os relatos de encontro
com negros fugidos so fortuitos e de pouca monta.

102
Revista do Arquivo Pblico Mineiro, ano VIII, fascculos I e II, 1903, p. 619-621.
103
BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais, p. 39.
104
NOTCIA diria, p. 53.
60

Incorporar o territrio ao domnio da autoridade rgia, disciplinar os brancos que j se


encontravam instalados pelos caminhos de entrada, impedir o surgimento de novos
quilombos, atacar os pequenos que se encontrassem, erigir arraiais e capelas, abrir novos
caminhos, construir pontes, pesquisar minerais preciosos e, sobretudo, distribuir as frteis
terras em sesmarias, em resumo, foram essas as atribuies de Pamplona que podemos
abstrair do relato da campanha de 1769.

Como bem sugere Laura de Mello e Souza, expedies dessa natureza tambm faziam
parte dos projetos de ocupao da Amrica portuguesa iniciados no final do governo de D.
Joo V e continuados pelo marqus de Pombal aps os tratados de definio de fronteiras com
a coroa espanhola em 1750.105

As expedies, tambm chamadas de conquistas, eram entregues a pessoas que fossem


da confiana do rei e de seus governadores e que tivessem cabedais para empreend-las.
Poderiam ser realizadas a partir de cabedal prprio ou da reunio de recursos de um grupo de
senhores. Aquele que fosse de maior prestgio, coragem e riqueza assumiria o seu comando.
De acordo com Laura de Mello e Souza, todos os governadores das dcadas de 1760, 1770 e
1780, com exceo de D. Antnio de Noronha, devotavam grande confiana em Pamplona.106
Ele havia recebido a investidura de altas patentes: mestre-de-campo, regente e sargento-mor.
Em 1784, por determinao de Lus da Cunha Meneses, foi criada uma Legio sob as ordens
do mestre-de-campo que compreendia oito companhias de cavalaria com 50 praas cada
uma, e seis de infantaria, com 150 praas cada uma, e mais catorze esquadras de vinte
soldados pedestres cada uma, perfazendo um total superior a 1.500 homens da conquista, isto
, Bambu e seus anexos.107 No h dvidas de que tenha acumulado um grande poder.

Uma das formas de pagamento pelos servios prestados ao rei por Pamplona, em suas
entradas no serto, foi sua nomeao como sesmeiro. Pamplona foi sesmeiro nos dois sentidos
da palavra: recebeu e concedeu sesmarias. Distribuir terras em sesmaria era um privilgio do
rei que, no Brasil, foi facultado aos governadores. O governador das Minas, conde de
Valadares, estendeu essa regalia a Pamplona. Waldemar Barbosa informa que em 1769 ele

105
SOUZA. Norma e conflito, p. 114.
106
Idem, ibidem, p. 116.
107
BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais, p. 40.
61

havia doado cento e tantas sesmarias.108 O relato de sua campanha de 1769, que parece ser
desconhecido por esse autor, relaciona 234 sesmeiros.109 Para administrar um Imprio to
grande e com to parcos recursos, a Coroa portuguesa necessitava, inmeras vezes, da
colaborao de seus sditos. Esses, por sua vez, no se cansaram de solicitar mercs para
compensarem o quanto arriscaram de suas vidas e fazendas em prol da Coroa.

Pamplona, ao enfeixar em suas mos o poder de distribuir as sesmarias do Campo


Grande, nas nascentes do rio So Francisco, separou para si uma parcela muito maior do que a
dos outros sesmeiros.110 H diversas referncias ao papel assumido por Pamplona de
distribuidor de terras e regulador de conflitos agrrios ao longo do relato de 1769. Em oito de
outubro, a Pamplona chegaram vrios sujeitos, como Brs Lopes, seu vendedor desta, Joo
Loureno, e outros mais a fazerem seus requerimentos em que pediam as trs lguas de
terras.111 No dia 10 de novembro, prximo serra da Marcela, noite, fez o Senhor mestre-
de-campo chamar a Jos Gonalves e a Jos Pinto, que andavam entre si com grandes
dvidas, em termos de se matarem por umas poucas terras. Em 11 de novembro, mandou
tocar as caixas para se ajuntar o povo [...] dizendo que estava a todos os Senhores muito
agradecido, da boa e fiel companhia que lhe tinham feito, e que quando fosse ocasio se no
esquecessem de ir povoar as suas fazendas, porquanto era melhor o possu-las ali de graa do
que em outra parte como era ordinrio costume por muitos mil cruzados.112 J na viagem de
volta, em 23 de novembro, no arraial da Senhora de Oliveira, estavam os homens
terrivelmente ainda mais teimosos que os tamandoanos, sendo a sua maior bulha por causa de
terras.113

108
Idem, ibidem, p. 40.
109
NOTCIA diria, p. 96.
110
Norbert Elias, analisando as estruturas de poder do perodo medieval e considerando a sua sobrevivncia em
algumas sociedades modernas, nos traz elementos importantes para compreender os motivos que levaram o
Estado portugus a delegar poderes bastante amplos a um sdito do perfil de Incio Correia Pamplona: Os reis
eram forados a delegar a outros indivduos poderes sobre parte de seu territrio. As condies dos meios
militares, econmicos e de transporte na poca no lhes deixavam alternativa. A sociedade no lhes
proporcionava fontes de receita tributria que lhes permitissem manter um exrcito profissional ou delegados
oficiais remunerados em regies remotas. A nica forma de pag-los ou remuner-los consistia na doao de
terras em volume grande o suficiente para garantir que eles seriam realmente mais fortes que todos os demais
guerreiros ou donos de terra da regio. ELIAS. O processo civilizador: formao do Estado e Civilizao, p. 26.
111
NOTCIA diria, p. 64.
112
NOTCIA diria, p. 80.
113
NOTCIA diria, p. 58, 80 e 88.
62

Algumas vezes, uma das partes envolvidas nos conflitos pela terra era o prprio
regente que no se esperaria outra coisa , deliberava em seu favor. Isso fica notrio na
refrega que teve com Alexandre Pereira Brando. Alegava Brando:

Que ele suplicante era Senhor de uma fazenda intitulada as Perdizes, e que
agora a achava medida e demarcada em nome dele, Senhor mestre-de-
campo, j com benfeitorias feitas, gados de estabelecimento e gentes de
moradia, e que tinha dispendido quatrocentos e tantos mil ris em duas
entradas que fizera, uma ou primeira havia seis anos e a segunda havia trs, e
que vista disto vinha ver se o Senhor mestre-de-campo lhe dava a sua
fazenda, e quando assim no [o] fizesse logo lhe pedia licena para se
queixar disto ao Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Conde General.114

O relato, em extensas duas ou trs pginas, o mximo que se escreveu sobre qualquer
assunto no texto todo, mostra Pamplona tentando negociar com o suplicante, que no
concordou com os termos da negociao. Pamplona props entregar-lhe a metade das terras o
que, segundo o relato, Brando no aceitou. Isso depois de desqualificar Brando como
proprietrio, alegando que ele no possua a concesso da sesmaria e no tinha beneficiado a
terra: so as terras suas, sem haver ali um porco, nem boi, nem vaca, nem gua, nem cavalo,
nem uma pessoa, nem um gro de milho plantado, nem ranchinho de beira no cho, nem
caminho, nem carreira, nem totalmente nada [?].115 Continua com Pamplona enaltecendo os
seus feitos pessoais, a sua urbanidade e seu conhecimento das regras de repartio das
sesmarias. Depois de ter dito ao suplicante: para que vossa merc saiba quem eu sou,116
termina, por fim, com a seguinte fala em tom de sentena:

Est vossa merc desenganado em que [eu] lhe dava a metade daquilo que
era meu, tanto por real concesso, como pelas mesmas chamadas de
posses117 s por conservar o bom nome que sempre tive; e como vossa merc

114
NOTCIA diria, p. 73.
115
NOTCIA diria, p. 74.
116
NOTCIA diria, p. 74.
117
COSTA PORTO. O sistema sesmarial no Brasil, p. 156. As chamadas de posses devem ser as formalidades
e prticas antigas adotadas na hora da demarcao e posse da sesmaria. O exemplo dado por Costa Porto muito
curioso: [...] fui aonde chamam a guarita de Joo de Albuquerque e nela gritei, em alta e intelligivel voz,
dizendo: h pessoa ou pessoas que tenham embargos a esta posse que dou desta terra a Manoel da Silva Pinto? E
logo o dito Manoel da Silva Pinto cavou na terra e a lanou para o ar, dizendo, eu tabelio, uma e repetidas
vezes: h pessoa ou pessoas que tenham embargos a esta posse que dou a Manoel da Silva Pinto? E por no me
sair pessoa alguma, o houve por empossado e lhe dei a dita posse [...]. O texto mais longo e a pergunta era
feita repetidas vezes em diversos pontos da sesmaria. Tal ritual talvez ficasse s no papel, talvez de fato fosse
realizado. Quem teria ouvido Pamplona e algum tabelio gritarem se que gritaram naqueles sertes
inspitos? Sobre como se procedia na Amrica portuguesa nos rituais ou cerimnias de posse, sugerimos a
leitura de Patrcia Seed. A autora reala o quanto havia de impreciso e imaginrio nas demarcaes
portuguesas do Novo Mundo, inclusive das terras de sesmaria. SEED. Cerimnias de posse na conquista
europia do Novo Mundo (1492-1640), p. 143-207.
63

abusou e desprezou este favor que [eu] lhe fazia, agora lhe digo que lhe no
quero mais fazer, visto que se no soube aproveitar da cortesia e ateno
com que o tratei. Nesse dia se mataram algumas perdizes.118

Quem era o legtimo dono da terra no sabemos. Sabemos que ficou na posse de
Pamplona at 1808, quando foi vendida.

Seguramente, pode-se afirmar que Pamplona era um tpico potentado do serto.


Aqueles que o acompanharam serto adentro passavam a fazer parte de sua parentela, de sua
famlia, do seu patriarcado. A narrativa da entrada de 1769 refere-se a muitos brancos como
sendo umas famlias do Senhor mestre-de-campo, digo, agregado do dito Senhor onde se
achavam j de morada, para da pouco a pouco, se irem transportando para o serto, aonde
tm destinadas suas fazendas concedidas na presente distribuio.119 Entre eles e o mestre-
de-campo, que os conduziu para o interior, e mais aqueles que dele receberam as 234
sesmarias estabeleciam-se relaes de poder como as que Maria Isaura Pereira de Queiroz
bem definiu:

Este tipo de solidariedade tinha acompanhado muito naturalmente o modo


pelo qual se processara a ocupao do solo, as grandes propriedades nas
mos de alguns senhores. O recm-chegado numa zona era condenado a se
acolher sombra do mando local e lig-lo fortemente a si se quisesse ter
um apoio (de onde a importncia da instituio do compadrio). A escravido,
reforando o poder do proprietrio rural, deu mais nfase a estas relaes. E
tudo isto junto formou o ndulo duro e resistente do mandonismo local no
Brasil, que fazia os homens se definirem em termos de posse em relao uns
aos outros: - Quem voc? Sou gente do Coronel Fulano.120

Ocupao das terras e combate aos quilombos eram as duas principais razes da
entrada de 1769. Nos quatro meses de durao da campanha, somente nos relatos de nove de
outubro percebemos evidncias de combates com quilombolas e sem muito xito. Duas
bandeiras formadas por parte da entrada e comandadas pelos capites Jos Cardoso e Jos
Vieira de Faria voltavam com a notcia dos negros que tinham morto, dos que lhe tinham
fugido e de um que trouxeram amarrado. Pamplona reclamou do pouco tempo que

118
NOTCIA diria, p. 74-75. O escrivo da marcha termina o trecho com ironia, porque a sesmaria em disputa
era exatamente a denominada Perdizes.
119
NOTCIA diria, p. 81.
120
QUEIROZ. O mandonismo local na vida poltica brasileira e outros ensaios, p. 19. Foi graas ao compadrio
com o coronel Carlos Jos da Silva que Pamplona no foi incriminado na Inconfidncia. Uma pesquisa em
arquivos eclesisticos reforaria essa nossa tese, uma vez que poderiam indicar relaes de parentesco ou
compadrio entre Pamplona e os sesmeiros por ele beneficiados.
64

permaneceram no mato e, depois de um largo espao em que contemplou o pouco fruto que
da expedio das duas bandeiras se tinha adquirido, respondeu no estava satisfeito com a
utilidade que tinha percebido de to custosa expedio o ser quase nenhuma. Outros pontos
do relato limitam-se a falar de que acharam rastos de negros que nos andavam espreitando,
os negros talvez tendo nos avistado por meio de suas espias desertaram, h poucos [anos]
se tornou a retificar um quilombo chamado o Catigu, de mais de cento e cinquenta jiraus [...]
e agora de prximo se retiraram timoratos das nossas bandeiras e os negros calhambolas os
tinham andado espiando de noite.121 Havia tambm rumores de grandes aglomerados de
negros, como o do Catigu, e que os quilombos eram muitos para aquela parte, segundo os
sinais dos mesmos fogos e que era publicamente notrio que havia para ali quilombo que se
compunha de mais de duzentos negros.122 Parece-nos que nessa expedio no houve
grandes pelejas com os negros fugidos que estariam adotando a estratgia de espreitar o
invasor e fugir, no lhe dando combate.

Enquanto penetrava no serto com sua gente, em agosto de 1769, Pamplona ia


resolvendo conflitos entre os moradores que a distncia e o isolamento das autoridades
deixavam pendentes. Nos arredores da capela de Oliveira acudiram vrias pessoas, por causa
de suas dvidas, a quem o Senhor mestre-de-campo debateu com algumas persuases de que
se seguiu o ficarem muitos em paz.123 A trs lguas do rio So Francisco, em 28 de agosto,
nas estncias de So Simo, se ajuntaram muitas e diversas pessoas, a fazerem queixas uns
dos outros, por respeito de terras, e mais trapaas, que se contaram em uma ocasio mesa 87
pessoas brancas fora a mais pardagem e negraria em quantidade.124 De todos os lugares, o
arraial de So Bento do Tamandu, ltima povoao de tamanho considervel antes do serto,
parecia ser um caldeiro de desavenas: aqui entram logo a ferver os requerimentos, as
bulhas, as queixas e as controvrsias em tanta variedade que pareciam um labirinto, de sorte
que em 24 horas, mal teve sossego para comer um bocado apressadamente e dormir duas
horas, porque o povo era muito, as dvidas muito mais, e o Senhor mestre-de-campo via-se

121
NOTCIA diria, p. 64, 74, 75 e 79.
122
NOTCIA diria, p. 71.
123
NOTCIA diria, p. 57.
124
NOTCIA diria, p. 58.
65

perplexo, porque a todos queria satisfazer, a todos queria aquietar e pr em paz.125 A maior
parte dos conflitos relatados estavam ligados questo distribuio da terra.

Divulgar a f catlica era um imperativo no mundo portugus desde as grandes


navegaes. Da a presena de um capelo entre os entrantes, o padre Gabriel da Costa
Resende,126 que todos os dias, na alvorada, oficiava a missa e ministrava os sacramentos,
acompanhado de uma pequena orquestra de sete escravos e um branco e tambores tocados por
dois pretos. Essa orquestra, alm de levar queles sertes inspitos as prticas civilizadas,
como v Laura de Melo Souza,127 tinha tambm o objetivo de imprimir marcha um carter
marcial e revesti-la de autoridade. Os tambores eram comumente utilizados para o anncio de
proclamas e sentenas das autoridades rgias. Seu uso por Pamplona revestiria,
simbolicamente, suas decises desse carter. Em 26 de agosto, em Pium-i, depararam com
uma capela transformada em curral de gado. Pamplona se irritou contra gente to brbara e
indmita, que abusavam de Deus e de seus santos, por no conservarem um templo; em o qual
tributassem ao mesmo Senhor os devidos cultos, ordenando que, em trs meses, se
levantasse uma nova igreja. Havia, nesse mesmo lugar, pela falta de padres, um homem por
nome Valentim, oficial de alfaitate, muito porco, e muito sujo, que dizem era o que
encomendava os defuntos. O capelo ainda batizou duas crianas que estavam para lhes
nascer os dentes.128

Meteram-se tambm os entrantes rdua tarefa de ampliar os caminhos da antiga


Picada de Gois. Em 12 de setembro, Pamplona entrou a distribuir gente de trabalho, uns
abrir picadas e endireitar caminhos, outros abrir caminhos de carro, outros a cortar
madeiras129 para construir uma ponte sobre o So Francisco. No podemos assegurar, mas
muito provvel que esta tenha sido uma das primeiras pontes, seno a primeira, sobre o
grande rio. Nas regies de povoamento mais antigo, no mdio ou baixo curso do rio, as
travessias ainda se faziam com canoas. Consideradas as grandes dificuldades enfrentadas,

125
NOTCIA diria, p. 86, 57, 83, 85, 88 e outras. BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas
Gerais, p. 163-164, a respeito do desassossegado povo de Tamandu.
126
O padre Gabriel no entrou de graa no serto. Foi recompensado pela doao de uma sesmaria e irmos e
parentes seus tambm receberam outras (NOTCIA diria, p. 93).
127
SOUZA. Norma e conflito, 120.
128
NOTCIA diria, p. 58.
129
NOTCIA diria, p. 59-60.
66

tratava-se de uma obra de tamanho admirvel, com extenso de trezentos e tantos palmos de
comprido, e sessenta e tantos de altura, desde o lume dgua at estiva.130

Erigir novos arraiais era tambm uma condio necessria fixao dos novos
moradores no serto. A fundao desses pequenos ncleos urbanos era sempre iniciada com a
construo de uma capela. Atravessado o rio So Francisco, j servido da ponte de madeira,
construiu-se uma matriz feita de novo no novo arraial de Santa Ana de Bambu, em distncia
grande. Depois de subir a serra da Marcela, outro arraial da Senhora da Conceio, passando
outra distncia que diz o Dirio nas lguas, outro arraial demarcado de Santa Maria de
Cortona do Salitre.131 A maioria desses arraiais ficou por muitos anos restrita a um pequeno
nmero de casas habitadas por uma gente pobre e desprezada pelos fazendeiros, que s os
frequentavam aos domingos para os ofcios religiosos. Saint-Hilaire, que visitou a regio j no
primeiro quartel do sculo XIX, percebeu que a populao permanente dessas vilas , com
efeito, composta, tanto aqui como no resto da provncia das Minas, em grande parte, de
homens ociosos e de mulheres de m vida, e debaixo dos ranchos dos mais humildes vilarejos
uma vergonhosa libertinagem se mostra, s vezes, com um impudor de que no h exemplo
nas nossas cidades mais corrompidas.132

O interesse pela descoberta de novas jazidas de ouro e pedras preciosas esteve sempre
presente, alimentado pelo esgotamento das antigas regies mineradoras. No dia 17 de
setembro, entrou o Senhor mestre-de-campo a distribuir a gente da sua comitiva, a metade
para fazerem em todos os crregos e ribeires circunvizinhos midos exames dos socaves e
buracos at o centro dos seus cascalhos e piarra, para se perceber se havia algumas mostras
de ouro.133 A essa altura, no muito crdulos dessa possibilidade, j cuidavam aqueles
fazendeiros de iniciar o cultivo daquelas terras que logo seriam divididas. Para assegurar,
inclusive, sua sobrevivncia no serto, maneira dos antigos bandeirantes paulistas, com a
outra metade da gente foi o Senhor mestre-de-campo roar, queimar e coivarar terra para
plantar milho, andando todo o dia ao sol, trabalhando e lidando e fazendo assim da mesma
sorte, fazendo trabalhar os mais, em cujo violento exerccio suou neste dia 3 camisas.134 No

130
NOTCIA diria, p. 96. Trata-se de uma ponte com mais de sessenta metros de comprimento (na pgina 100,
o escrivo fala em 95 passos) e doze metros de altura da flor da gua.
131
NOTCIA diria, p. 96 e 77.
132
SAINT-HILAIRE. Viagem s nascentes do rio So Francisco e pela provncia de Gois, p. 122.
133
NOTCIA diria, p. 68, 61 e outras.
134
NOTCIA diria, p. 68.
67

se encontrou o ambicionado metal amarelo. Mas o ouro verde, de grande valor, comeava a
brotar naqueles sertes. J iniciando o caminho de volta para casa, em 11 de novembro,
relatam: chegamos ao Quilombo do Ambrsio ainda cedo e tivemos tempo de ir ver o milho
que estava plantado, e o achamos todo nascido e bem bonito.135 Muitas vezes eles
aproveitavam a terra que j havia sido amanhada pelos quilombolas ou, em algumas ocasies,
colhiam as roas plantadas por esses negros que as tinham abandonado. No somente as
plantaes, mas tambm os gados que para o interior foram conduzidos davam sinal da
fertilidade das novas terras.

Tambm estavam em outro curral separado, 16 burros achiotes, que so os


que costumam cobrir as guas, os quais estavam tambm muito gordos,
fortes e reluzentes, de cujas vistas no s o Senhor mestre-de-campo, seno
todos os mais, tiveram grande regozijo e complacncia, e esta vistosa
bizarria dos animais nos ficou servindo de acreditvel indcio da boa
qualidade dos pastos do serto.136

Para melhor sustentar de vveres a entrada, so frequentes as notcias de caadas de


perdizes que deu nome a uma das sesmarias de Pamplona , porcos do mato e veados. Indo
alm do sustento, a atividade venatria ligava-se a ideais senhoriais de nobreza e valentia. Por
mais de uma vez, o narrador, com inteno laudatria, referiu-se habilidade de Pamplona
para a caa: depois de estarmos arranchados, foi o Senhor mestre-de-campo caa, e mais o
reverendo capelo, e mataram 24 porcos monteses de queixada branca.137

Dessa empresa tambm resultou um importante trabalho cartogrfico que foi o Mapa
da Conquista do mestre-de-campo, regente, chefe da Legio Incio Correia Pamplona,138
anterior a 1784, de autoria de Manoel Ribeiro Guimares, que, ao que tudo indica, foi o
escrivo da Notcia diria. Encerrando a Notcia, o autor, faz uma descrio dos pontos
geogrficos que demarcavam a antiga Picada de Gois. E, por fim, resume todo o caminho
percorrido, preocupando-se em destacar pontos geogrficos e distncias em lguas. Retoma a

135
NOTCIA diria, p. 79.
136
NOTCIA diria, p. 81.
137
NOTCIA diria, p. 79, 69 e 76.
138
MINAS GERAIS EM MAPAS: Documentos dos perodos Colonial, Reino Unido e Imperial. Catlogo do
Acervo do Centro de Referncia em Cartografia Histrica CRCH. Belo Horizonte: IGC/UFMG; Diamantina:
Instituto Casa da Glria, 2003. (arquivos em CD). A procedncia/registro desse mapa AHU, 258/1165. No
mapa, h o seguinte cabealho: Fiel cpia do mapa que entreguei ao Ilmo. Luiz da Cunha Meneses que por ele
foi criada a legio com dois regimentos de Cavalaria e Infantaria e 14 Esquadras de Mato, feito na Conquista do
Campo Grande e seus anexos da Comarca do Rio das Mortes no ano de 1784.
68

descrio dos quilombos encontrados, em geral desabitados, como o do Ambrsio.139 Teve o


autor ainda o cuidado de mapear sete desses quilombos, o que permitiria s autoridades da
poca entender sua organizao social, estruturas econmicas e de defesa, elementos
importantes para que fossem pensadas estratgias de controle e destruio do que
consideravam verdadeiras pragas.

FIGURA 5 Mapa da Conquista do mestre-de-campo, regente Incio Correia Pamplona (cerca de 1784).
Fonte: COSTA et al. Cartografia das Minas Gerais, 2002.

Estava dado um passo importante para a ocupao e civilizao daquele serto.


Processo lento, que se arrastaria por mais de cem anos. Em 1871, o inventrio post-mortem do
guarda nacional Jos Venncio de Carvalho, fazendeiro residente na regio de So Joo del-
Rei, ainda se referia a partes na fazenda do Bananal, serto de Santa Ana do Bambu.140

139
NOTCIA diria, p. 97-103.
140
IPM de Jos Venncio de Carvalho, 1871, AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 50.
69

Nesse processo civilizatrio, Incio Correia Pamplona, que havia jurado lealdade Coroa
portuguesa, teve destacado papel. Alguns anos depois, em 1789, essa lealdade era posta sob
suspeio.

1.3 Pamplona: um rebelde dissimulador (1789)

Por aqui passou Pamplona,


homem de fora e de orgulho.
Por aqui passou Pamplona,
grande pressa, cara alegre,
no dia 4 de julho.

Disse que fora mandado


a uns descobertos distantes.
Disse que fora mandado
l para uma serra brava,
atrs de ouro e diamantes.

Ceclia Meireles
Romanceiro da Inconfidncia

Acerca da Inconfidncia Mineira muito j se pesquisou e se escreveu. Embora no seja


um tema esgotado, no nos interessa, nesse momento, entrar em suas mincias. H uma
considervel bibliografia sobre o assunto. No nosso entendimento, o j clssico A devassa da
devassa, de Kenneth Maxwell, o texto que melhor interpreta o processo desse movimento.
Concordamos com o brasilianista quando ele afirma que a conspirao dos mineiros era,
basicamente, um movimento de oligarcas e no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo
invocado apenas como justificativa.141 Foi uma rebelio de elite no corao da Amrica
portuguesa. Mesmo que as minas estivessem decadentes, a colnia no estava. Fernando
Novais e Kenneth Maxwell apontam o quanto o Brasil pesava favoravelmente na balana
comercial de Portugal. A metrpole dependia cada vez mais da colnia.142 Martinho de Melo
e Castro chegou a afirmar em carta, com data de 1779, que sem o Brasil, Portugal uma
insignificante potncia.143 Bem antes disso, a Consulta do Conselho Ultramarino a S. M., no
anno de 1732, feita pelo conselheiro Antnio Rodrigues da Costa j alertava a Coroa sobre a

141
MAXWELL. A devassa da devassa, p. 156.
142
NOVAIS. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808), p. 288-293 e MAXWELL. A
devassa da devassa, p. 24.
70

importncia de se tratar os negcios do Brasil com bastante prudncia, porque bem se deixa
ver que, posto em uma balana o Brasil, e na outra o reino, h de pesar com grande excesso
mais aquella que esta; e assim, a maior parte e a mais rica no soffrer ser dominada pela
menor, mais pobre; nem a este inconveniente se lhe poder achar fcil remdio.144

Justamente por ser uma revolta da elite que a Inconfidncia Mineira preocupava
tanto as autoridades metropolitanas. Desde o final do sculo XVI e incio do XVII tericos
europeus, como Daniel Drouin, j advertiam para os maiores riscos que envolviam uma
rebelio da elite.145 Enquanto as revoltas se circunscreviam arraia mida e ral,
acreditava-se que seriam turbulncias passageiras e sem carter poltico, como fora em
Npoles e Siclia (1647-48). Ao contrrio, a participao direta da elite, como na Catalunha
(1640), ou a sua omisso talvez interessada na represso da revolta popular, como nas
Alteraes de vora (1637), punha em xeque a soberania e a unidade do Imprio.146 Em como
conduzir essas questes, Portugal j acumulara larga experincia desde a Unio Ibrica. Como
monarquia independente, desde a Restaurao de 1640, enfrentou um grande nmero de
revoltas, a maioria delas tendo a elite como participante.147 Outro fator importante a se
destacar que grande parte dessas revoltas tinha entre seus motivos ou era o motivo central
questes de ordem fiscal-fazendria. A Inconfidncia Mineira tambm teve essa
caracterstica.

dentro dessa oligarquia insurgente e endividada que vamos encontrar nosso


personagem. Se pudssemos estimar a riqueza por ele acumulada at os anos da conspirao,
no seria difcil afirmar que estaria entre os mais ricos inconfidentes e tinha muito a perder se
fosse indiciado. Se tivesse sido includo entre os rus de inconfidncia teramos a avaliao de
seus bens pelos autos de sequestros que foram feitos. Joo Pinto Furtado extrai dos Autos de

143
MAXWELL. A devassa da devassa, p. 84.
144
Revista do IHGB, 3. ed. t. 7, vol. 7, 1847, p. 475-482. Este curioso documento nos foi apresentado pelo
Professor Luciano Raposo de Almeida Figueiredo no curso Revoltas na Amrica portuguesa moderna:
historiografia, discursos e prticas, Universidade Federal Fluminense, primeiro semestre de 2006.
145
VILLARI. O rebelde, p. 100-102.
146
ELLIOTT. Revueltas en la monarqua espaola e La rebelion de los catalanes: un estudio sobre la
decadencia de Espaa (1598-1640); VILLARI. Revoluciones perifricas y declive de la monarqua espaola;
OLIVEIRA. Poder e oposio poltica em Portugal no perodo filipino (1580-1640), para as Alteraes de
vora.
147
SOUZA. Motins, revoltas e revolues na Amrica portuguesa sculos XVII e XVIII, para uma viso
panormica dos movimentos ocorridos somente na Amrica portuguesa. frica e sia tambm foram palcos de
diversas revoltas contra a metrpole no mesmo perodo.
71

Devassa a avaliao dos bens sequestrados de 24 rus. As quatro maiores fortunas, segundo
Furtado, so de Alvarenga Peixoto (84:115$260), Jos Aires Gomes (65:066$236), Francisco
Antnio de Oliveira Lopes (22:716$464) e Cludio Manuel da Costa (10:115$540).148 A
nica avaliao que temos em mos dos bens de Pamplona o seu inventrio post-mortem,
iniciado em 1810 e que se arrastou em litgios at 1834. Em 1822, o monte bruto de seus bens
somava 31:802$534.149 Mesmo atentando para a distncia de trinta anos entre as duas
avaliaes e deixando de considerar as enormes dvidas que esses senhores costumavam
acumular, principalmente com o Errio Rgio, no h como no concluir que a fortuna de
Pamplona o colocaria entre os mais abastados inconfidentes.

Inserir Pamplona entre os rebeldes de 1789, nas Minas Gerais, tarefa penosa. Penosa
no pelo fato de se ter ou no certeza de seu papel na inconfidncia, mas sim pela exiguidade
de relatos acerca de seu envolvimento. As fontes oficiais, os Autos de Devassa, atravs dos
depoimentos, deixam fortes indcios de sua participao. Pelo poder militar e econmico que
acumulava, ele teria sido pea fundamental no levante, se ele viesse a se concretizar. Todavia,
os prprios estratagemas utilizados pelo mestre-de-campo e pelas autoridades que o
protegeram, no o arrolando como investigado ou facilitando para que ele se esquivasse dos
depoimentos, deixaram-nos poucos registros nesse corpus documental bsico que so os
Autos. No somente Pamplona, mas outros poderosos ficaram fora do processo como o rico
comerciante Joo Rodrigues de Macedo.150 No caso de Pamplona, para escapar das garras das
autoridades portuguesas, bastaram seus laos de amizade e compadrio ou precisou pagar caro
por esse benefcio? Os Autos e os estudiosos que os organizaram sinalizam que ele foi
protegido por amigos e compadres. O inventrio e o testamento de Pamplona nos trazem
informaes sobre os 20 anos atormentados que ele viveu aps esse processo, indicando que
pode ter pago caro pela liberdade.

O desembargador Jos Pedro Machado Coelho Torres e o ouvidor Marcelino Pereira


Cleto, encarregados pelo vice-rei Lus de Vasconcelos de iniciarem uma segunda devassa,
tentaram por diversos meios incluir Pamplona no processo. Em julho de 1789, informaram ao
visconde de Barbacena que ele era um dos principais que deviam jurar na Devassa.

148
FURTADO. O manto de Penlope, p. 107: Tabela 7: Resumo geral dos bens sequestrados aos inconfidentes
(1788-1792), por avaliao dos bens e volume de riqueza em ris.
149
IPM do coronel Incio Correia Pamplona, fls. 107 verso e 108. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
150
FIGUEIREDO. A poesia dos inconfidentes, p. XLIV.
72

Procurando proteg-lo, Barbacena disse aos ministros repetidas vezes, que o dito mestre-de-
campo tinha ido para a Serra da Canastra, que ficava em grande distncia, a uma importante
diligncia do servio de Sua Majestade, sobre um descoberto de diamantes. Disse, outrossim,
que ele havia jurado na devassa sobre a mesma matria que tirava em Vila Rica o ouvidor e
corregedor da dita Comarca. Os mesmos ministros, de passagem por Lagoa Dourada, em
setembro de 1789, tiveram notcia de que Pamplona estava em sua fazenda do Mendanha e
no tinha ido Serra da Canastra. Mandaram cham-lo para interrogatrio. Pamplona no
obedeceu notificao, dando, segundo os ministros, insuficientes razes atravs de uma
carta.151 Certamente estava orientado a no aparecer para depor na segunda devassa que
escapava ao controle do visconde de Barbacena. Alis, uma das razes para se iniciar o novo
processo foi a desconfiana de Lisboa quanto imparcialidade do governador. Tambm as
informaes sobre a devassa que o desembargador lvares da Rocha prestou ao vice-rei, em 2
de agosto de 1791, indicavam falhas na primeira devassa. O juiz percebeu que tem-se feito
perguntas aos trs ltimos [Jos de Resende Costa e seu filho e Vicente Vieira da Mota], para
desembaraarem o mestre-de-campo [Pamplona] e Baslio de Brito Malheiro.152 O vice-rei,
em carta de 8 de janeiro de 1790, a Martinho de Melo e Castro, j reclamava de seu sobrinho,
o visconde de Barbacena, que criava dificuldades para a devassa, dizendo que nem um
depoimento to necessrio, como o do mestre-de-campo Incio Correia Pamplona se pde
tirar, usando-se de todos os meios, at com incoerncia manifesta, para estorvar essa
diligncia.153

Pamplona, ardiloso e escolado nas prticas polticas de seu tempo, soube muito bem
dissimular sua participao no levante. Primeiro denunciando, depois sendo encarregado da
captura do padre Rolim e de Luiz Vaz de Toledo Piza154 e, por fim, colaborando com as
autoridades ao fornecer mantimentos para as tropas que vinham do Rio para as Minas. De
acordo com Luciano Figueiredo, a leitura dos autos e da documentao permite enxergar a
sede persecutria da administrao e da Coroa portuguesas, reala tambm os expedientes de
dissimulao dos denunciados, envolvidos ou no.155

151
ADIM, vol. 7, p. 36-38.
152
ADIM, vol. 7, p. 95.
153
ADIM, vol. 4, p. 280.
154
ADIM, vol. 8, p. 181. Ordem do visconde de Barbacena ao mestre-de-campo Incio Correia Pamplona para
captura do padre Jos da Silva e Oliveira Rolim e de Luiz Vaz de Toledo Piza. Vila Rica, 10 de junho de 1789.
Esse foi mais um artifcio de dissimulao do envolvimento de Pamplona no levante.
155
FIGUEIREDO. A poesia dos inconfidentes, p. XXVII.
73

Segundo Rosario Villari, a prtica da dissimulao foi um instrumento de ao poltica


utilizado tanto pelos que estavam no poder, da visto positivamente dentro do esprito da
razo de Estado, quanto pelos que se rebelavam contra esse poder. Para Villari era uma
prtica recorrente desde o sculo XVI e uma das chaves mais importantes e mais apropriadas
para decifrar a complexa realidade da poltica barroca e o grande relevo que tem a teoria (e a
prtica) da dissimulao.156 As vantagens concretas da dissimulao seriam: evitar alarmar
os adversrios, tom-los de surpresa, descobrir mais facilmente os seus planos e, reservar uma
boa via de fuga.157 Foi o que fez Pamplona.

As autoridades portuguesas perceberam as manobras de Pamplona. Todavia, como a


prpria concluso do processo demonstrou, era preciso dar castigo exemplar, mas era tambm
mister que a rainha se mostrasse benevolente dando tambm o perdo. Administrar a justia
no Antigo Regime era uma das prerrogativas da realeza. E administr-la com prudncia era
visto como uma virtude e uma necessidade, sobretudo, se os que estavam em julgamento eram
membros da elite da regio mais rica da colnia. No mais, a ideologia poltica construda em
Portugal durante o Antigo Regime, em especial no perodo da Restaurao, estava fundada na
ideia de pacto e na averso tirania. Segundo Lus Reis Torgal, era evidente em todos os
autores a ideia de que o poder rgio se deve subordinar constantemente ao interesse da
comunidade, dentro do clebre princpio medieval regnum non est propter rex, sed rex
propter regnum.158 Era necessria a punio, mas no era prudente a intransigncia.

Com exceo de Tiradentes, que recebeu a pena capital, muitos outros tiveram o
enforcamento comutado para degredo, e mesmo o degredo reduzido em anos. Pamplona foi
poupado no s porque colaborou, mas tambm porque a prtica da represso s revoltas no
era de se condenar todos os envolvidos, principalmente em se tratando da nobreza da terra.159

156
VILLARI. Elogio della dissimulazione, p. 18.
157
VILLARI. Elogio della dissimulazione, p. 42.
158
TORGAL, Lus Reis. Ideologia poltica e teoria do Estado na Restaurao, p. 39.
159
Mesmo nas alteraes de vora (1637), que envolveram algumas milhares de pessoas, em sua maioria do
povo, a represso espanhola executou um reduzido nmero de indivduos. OLIVEIRA. Poder e oposio poltica
em Portugal no perodo filipino (1580-1640), p. 221-225. Para o caso da Amrica portuguesa, Evaldo Cabral de
Mello ilustra bem essa prtica, quando da represso aos mazombos da Guerra dos Mascates, no incio do
Setecentos, aconselhada pelo sempre sbio Conselheiro Antnio Rodrigues da Costa: Reconhecia Rodrigues da
Costa no ser factvel nem aconselhvel punir todos os envolvidos nas alteraes, sendo, como eram, numerosos
e homens de prol. Mas no se devia perder a oportunidade de dar uma lio inesquecvel nobreza. Bastava para
tanto a condenao morte de um total de at oito ou dez indivduos, e a penas extraordinrias, de uns vinte ou
trinta, anistiando-se os demais. MELLO. A fronda dos mazombos, p. 409. Sobre quem participava da nobreza
da terra na Amrica portuguesa vide SILVA. Ser nobre na colnia.
74

Pamplona escapou da forca e do degredo, mas no escapou da decadncia e da


imagem negativa de traidor que a historiografia republicana construiria um sculo depois.
Tambm por causa de sua denncia, viu seus vizinhos prximos e, quem sabe compadres e
amigos, como o padre Carlos Correia de Toledo, o coronel Jos Aires Gomes, o coronel
Francisco Antnio de Oliveira Lopes e o capito Jos de Resende Costa e seu filho, do mesmo
nome, partirem para um penoso exlio do qual poucos voltariam vivos. Tudo indica que no
conseguiu recuperar o prestgio que gozava junto s autoridades portuguesas e, como muitas
vezes a riqueza estava ligada aos relacionamentos, seu grande patrimnio foi sendo
consumido pelas dvidas at que ele veio a falecer em 1810.

1.4 Morre um delator atormentado (1810)

Libera me, Domine, de morte aeterna in die


Illa tremenda quando caeli movendi sunt et terra
Dum veneris judicare saeculum per ignem.

Tremens factus sum ergo et timeo


Dum discussio venerit atque ventura ira
Quando caeli movendi sunt et terra.

Dies illa, dies irae, calamitatis et miseriae,


Dies magna et amara valde
Dum veneris judicare saeculum per ignem.

Requiem aeternam dona eis, Domine,


Et lux perpetua luceat eis.160

Foi nessa atmosfera barroca, carregada de medos, que morreu Pamplona em 1810, em
So Joo del-Rei. Uma liturgia prdiga em admoestaes pesadas visava a frear os vcios dos
crentes. Se sua riqueza, fama e prestgio no foram suficientes para que se entoasse uma missa

160
O Libera me a pea final de uma missa de rquiem. As missas de rquiem eram muito comuns na Europa e
mesmo compositores do barroco brasileiro, como o carioca padre Jos Maurcio Nunes Garcia e o mineiro
Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, compuseram msica para a letra que se seguia liturgia fnebre catlica. A
traduo do texto latino a seguinte: Livra-me, Senhor, da morte eterna, no dia tremendo, quando o cu e a terra
se moverem e vieres julgar os sculos pelo fogo. Tremo e temo, pois o julgamento chegar e tambm a ira,
quando o cu e a terra se moverem. Nesse dia, o dia da ira, da calamidade e da misria, grande e amargo dia,
quando vieres julgar os sculos pelo fogo. D-lhes, Senhor, o repouso eterno, e que a luz perptua os ilumine.
Texto extrado do folheto do Requiem de Francesco Durante (1684-1755) interpretado pelo coral Ars Nova
(UFMG) e pela Orquestra de Cmara do SESIMINAS sob a regncia do maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca
em homenagem pstuma ao maestro Srgio Magnani.
75

de rquiem completa, como a rica sociedade daquela vila faria questo de a ela assistir, no
mnimo, teriam retumbado nas grossas paredes da capela do Carmo as severas palavras do
Libera me que Pamplona tantas vezes teria ouvido no sepultamento de seus contemporneos.
Nos seus ltimos meses, vivia atormentado por vises, talvez alimentadas pelo pavor da
danao eterna que a doutrina catlica infundia no esprito de seus fiis.

E quanto aos meus ouvidos e as representaes e as consideraes de


espetculos que todas as horas se me representam, lhos no posso explicar.
Eu as recebo por misericrdias e por avisos do cu. Sbado dia 14 pelas 9
horas da noite, entrou a tempestade nesta chcara, de sorte [que] at se
representavam serpentes de arrasto pelo sobrado, e at o dia de hoje 21
sbado de manh tm os invisveis continuado de noite e de dia e as horas
que querem [...].161

A data da carta de Pamplona ao filho, 21 de abril, coincidentemente est carregada de


simbolismo. 18 anos antes, no mesmo dia, em 1792, era enforcado e esquartejado, no Rio de
Janeiro, o alferes Joaquim Jos da Silva Xavier. No episdio marcado por medos,
dissimulaes e delaes figura Incio Correia Pamplona, ao lado do coronel Joaquim
Silvrio dos Reis e do tenente-coronel Baslio de Brito Malheiro do Lago, como os primeiros
denunciantes do movimento. Trata-se de uma carta carregada de perturbaes do esprito.
Quem sabe remorsos de uma figura que, a servio de Portugal e de seus prprios interesses,
massacrou negros quilombolas e ndios e denunciou seus companheiros de inconfidncia?
Parece-nos que Pamplona, j octogenrio, tinha a conscincia atormentada com a
aproximao da hora da morte.

Testar para bem morrer: Pamplona no fugiu regra da maioria dos ricos moribundos.
Seu longo testamento possivelmente teve a interferncia do seu filho padre, nomeado seu
testamenteiro. A preocupao com a salvao da alma era bastante comum nos testamentos da
poca. Os temores dos castigos pelos males cometidos em vida faziam com que os
agonizantes se preocupassem com a ira divina. Pamplona mandou que fossem celebradas 374
missas por sua alma e de sua esposa, em diversas igrejas e capelas da comarca, do Rio de
Janeiro, de Lisboa, da Ilha Terceira e determinou o ritual de suas exquias:

161
IPM do coronel Incio Correia Pamplona, fls. 88-89. Trecho da carta do coronel Incio Correia Pamplona
enviada ao seu filho, padre Incio Correia Pamplona Corte Real, em 21 de abril de 1810, quatro meses antes de
sua morte. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
76

Declaro que meu corpo ser sepultado na capela de Nossa Senhora do Monte
do Carmo da vila de So Joo del-Rei e envolto no hbito da mesma Ordem
Terceira de donde sou irmo professo e remido e acompanhado pelos irmos
da mesma na forma de seus estatutos e pelo das Irmandades do Santssimo
Sacramento, das Almas e do Senhor dos Passos da mesma vila de onde sou
irmo remido, e por todos os sacerdotes que se acharem ao tempo do meu
falecimento, e o que se dar a cada um ser de meia Libra e todos celebraro
pela minha alma missa de corpo presente no dia do meu falecimento ou
enterramento, e se lhes dar a esmola do costume.162

Segundo Joo Jos Reis, a morte tambm era um momento de reparao moral e
fazer justia aos que ficavam significava limpar-se para enfrentar a justia divina.163 Talvez
teria sido com esse propsito que Pamplona deixou alforriados, em seu testamento, 14
escravos que o serviram nos ltimos anos de vida. Afinal, em sua memria, poderiam ainda
estar ntidas as atrocidades cometidas nos quilombos do serto do So Francisco. Dos 14
escravos, oito receberam a alforria imediata e seis foram deixados coartados. Segundo
Eduardo Frana Paiva, consisitia essa coartao num acordo que permitia ao escravo ou
escrava parcelar o valor total de sua alforria e saldar as prestaes semestrais ou anuais em
trs, quatro ou cinco anos.164 Depois de nomear cada um dos escravos beneficiados pela
alforria disse que o meu testamenteiro entregar a cada um deles, por meu falecimento, a sua
respectiva carta e ser obrigado a defend-los minha custa quando haja algum mal
intencionado que se atreva a [ilegvel] suas liberdades.165 No temos certeza se essa vontade
testamentria foi plenamente respeitada. Em 17 de junho de 1829, anexou-se ao inventrio
uma certido do padre Joo Rodrigues de Mello, coadjutor de Prados, sobre a liberdade dos
14 escravos de Pamplona, sendo quatro j falecidos naquela data e tendo morrido libertos.166
Seria uma mera praxe de avaliao ou algum estaria questionando a liberdade desses
escravos no processo de inventrio?

Homem carregado de ttulos e patentes acumulados ao longo da vida, desde que


deixou a Ilha Terceira para se fixar na Amrica portuguesa, Pamplona terminou seus dias no
esquecimento. Mesmo conseguindo no ser envolvido entre os rus do crime de inconfidncia

162
IPM do coronel Pamplona, fl. 01. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
163
REIS. Histria da vida privada no Brasil, v. 2. p. 103. PRIORE. Histria da vida privada no Brasil, v. 1, p.
318-328, para uma viso rpida e esclarecedora de como a sociedade colonial preparava-se para morrer,
arrumando bem a sua vida, acertando contas com os santos de sua devoo.
164
PAIVA. Histria de Minas Gerais, v. 1, p. 506 e 509.
165
IPM do coronel Pamplona, fls. 04-05. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
166
IPM do coronel Pamplona, fl. 118. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
77

em 1789, sobre seus ltimos vinte anos de vida pesaram o descaso das autoridades
metropolitanas e as enormes dvidas que consumiriam boa parte de sua fortuna.

Princpio do descaso que passou a sofrer aps a Inconfidncia foi a resposta do


Ministro Martinho de Melo e Castro ao pedido de recompensa pela delao que fez do
levante. Desconfiando do envolvimento de Pamplona na revolta, nada lhe concedeu de
gratificao pela denncia, apesar da solicitao do visconde de Barbacena.167 Melo e Castro,
em carta a Barbacena, chega ainda a dizer que quanto ao mestre-de-campo Incio Correia
Pamplona: atendidas as circunstncias da devassa, no se julga digno de alguma
contemplao. E bastante graa se lhe faz de no ser contado entre o nmero dos
culpados, no obstante a sua denncia excessivamente morosa (grifos nossos).168 Tambm
lhe foram negados favores que pedira para seus filhos.169 Em 1802, Pamplona solicitou que o
ofcio de escrivo de rfos da Cidade de Mariana, do qual era titular, fosse repassado aos
filhos. A resposta de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Secretrio da Marinha e Ultramar, foi
curta e franca: no h o que deferir.170

Pamplona, aproveitando os pavores que se seguiram s denncias de envolvimento


com a Inconfidncia, chantageou e caloteou o contratador Joo Rodrigues de Macedo,
deixando de pagar o que lhe devia.171 Essa fama de caloteiro pode ser confirmada no
cruzamento de informaes do testamento e do inventrio. A quantia vultosa de 14:936$103
que devia ao Recolhimento das Macabas pelo enclausuramento das filhas e de uma prima,
conforme est no testamento, teria que ser paga com o inventrio. Ora, o inventrio indica que
em 15 de fevereiro de 1822 os bens estavam avaliados em 31:802$534. A relao das dvidas
importava em 24:819$138, dos quais 19:481$587 eram com dois credores do Rio de Janeiro
(3:845$910) e com o Errio Rgio (15:636$677).172 O Recolhimento no aparece mencionado
como credor. Se para o monte lquido s sobraram 6:983$396 para ser ainda dividido entre os
herdeiros, como honrar os quase quinze contos devidos ao convento das Macabas?

Sinal tambm de certa decadncia e enfraquecimento do potentado que foi Pamplona,


no ltimo quartel do sculo XVIII, foi a venda de trs das sesmarias do serto. Declara, em

167
ADIM, vol. 8, p. 250.
168
ADIM, vol. 8, p. 328.
169
ADIM, vol. 1, p. 192, nota 1.
170
ADIM, vol. 9, p. 31.
171
MAXWELL. A devassa da devassa, p. 255.
78

seu testamento, que das ditas sesmarias se acham algumas vendidas s pessoas abaixo
declaradas a saber, a 10 de setembro de 1801 vendi a sesmaria de So Simo ao alferes
Antnio Lus de Noronha por escritura pela quantia de 800$000; a 31 de outubro de 1803
vendi a sesmaria do Desempenhado ao alferes Joo Crisstomo de Magalhes, e a seus scios
por escritura e pela quantia de 1:600$000, a qual foi tirada em meu nome; em 16 de julho de
1808 vendi a sesmaria das Perdizes a Maria Alves de Souza, viva de Alexandre Ferreira por
escritura e pela quantia de 1:200$000.173 A carta escrita ao filho padre Incio, em 5 de
setembro de 1809, ilustra bem que o velho Pamplona no tinha mais o poder e o respeito que
gozava dos moradores do serto, logo que ali entrou no ltimo lustro da dcada de 1770.
Nessa carta, escrita na chcara Palestina, no arraial de Matozinhos, subrbios de So Joo del-
Rei, comprada a prazo pelo padre Incio do capito Joo Baptista Machado174 que parecia
estar cobrando de Pamplona as parcelas em atraso e ameaando executar a dvida dava
notcia da invaso de suas sesmarias e sugeria a sua venda para quitar os dbitos:

E quanto a sua ida ao serto, pense na venda, como lhe for possvel, da
sesmaria de Santo Estvo, porque os intrusos ladres, se que l os tem,
ho de vir missa na Matriz e logo se h de saber os nomes para os expulsar.
Assim como da venda do Arco e do Servo, para me poder manter estes
tristes dias.175

Mas a fortuna no evaporou completamente. O que percebemos foram artifcios


tramados pelo Pamplona para favorecer o seu filho predileto, o padre Incio Corte Real em
prejuzo das trs filhas religiosas ainda vivas ou do Recolhimento das Macabas e da que
se casara. Esta menos, porque j recebera um dote no casamento. Como bem frisa Laura de
Mello e Souza, o ilhu nunca foi flor que se cheirasse.176 As atitudes que tomou no fim da
vida para beneficiar o filho foram muito bem pensadas e no foram obra de uma mente senil e
esclerosada. Tudo indica que teria permanecido lcido at bem perto de sua morte. Indcios
fortes disso so duas cartas suas dirigidas ao padre Incio, presentes no inventrio. Uma delas,

172
IPM do coronel Pamplona, fls. 107 verso e 108. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
173
IPM do coronel Pamplona, fls. 02-04. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
174
LUCCOCK. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil, p. 314. bastante provvel que
esse credor de Pamplona seja um dos mais ricos comerciantes de So Joo del-Rei, conhecido pela alcunha de
Meio-Milho. Sobre sua riqueza ver tambm GRAA FILHO. A Princesa do Oeste, p. 81.
175
IPM do coronel Pamplona, fls. 56-58. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
176
SOUZA. Norma e conflito, p. 132.
79

datada de 5 de setembro de 1809, demonstra que Pamplona, com seus 78 anos idade
avanadssima para a poca , ainda d boa notcia de seus bens. A outra, da qual extramos o
trecho citado anteriormente, de 21 de abril do ano seguinte, j o encontra um pouco
perturbado.177 A essa altura as artimanhas j estavam feitas.

Em 27 de julho de 1805, Pamplona vendeu ao padre Incio as fazendas do Mendanha


e do Capote, em Lagoa Dourada, e Glria, nos gerais por 33:000$000,178 com
consentimento legal dos outros filhos do casal interessados.179 Como pagamento o filho
deveria assumir todas as dvidas do pai com credores do Rio de Janeiro e com a Real Fazenda
de Minas Gerais. Em 1814, quando o padre Incio resolveu vender a fazenda do Mendanha,
de porteira fechada, ao intendente geral de polcia da Corte, desembargador e conselheiro
Paulo Fernandes Vianna, as dvidas ainda somavam, respectivamente 3:845$910 e
15:636$677. O contrato de compra e venda rezava que o novo comprador assumiria essas
dvidas. Toda a fazenda foi avaliada em 19:558$200. Na transao restaram 76$613 lquidos.
Perdeu-se o anel para no se perderem os dedos.

Para as demais herdeiras e o genro, a conta no fechava. Dos 33 contos se deduziram


os 19:481$587 das dvidas e 5:400$000 que o padre Incio declarou que, desde 1805, se
achava pagando por consignao anual de seiscentos mil reis180 Real Fazenda. Se de fato
pagou essa consignao, ainda deveria ao esplio do pai 8:118$413. Para se assegurar que
nada deveria pagar, moveu uma ao na justia contra os demais herdeiros e ganhou. Em 11
de abril de 1829 foi anexada ao inventrio uma sentena cvel a favor do padre Incio
Correia Pamplona contra os herdeiros da testamentaria do falecido coronel Incio Correia
Pamplona. O autor do libelo argumentou, ao longo do processo, apresentando clculos
detalhados, que por mais de dez anos, desde que saiu do seminrio, trabalhou para o pai,
administrando suas fazendas sem nada receber. O Desembargo do Pao acatou seus
argumentos e exarou a sentena final a seu favor, considerando que at vinte e cinco de julho

177
IPM do coronel Pamplona, fls. 56-58 e 88-89. A primeira carta parece-nos ser do seu prprio punho. Na
segunda, menos extensa, a assinatura, j muito trmula, diverge da letra da carta que deve ter sido ditada.
AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100. BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais, p. 39,
aponta-nos a prtica de missivista de Pamplona: talvez nenhum outro portugus tenha escrito to copioso
nmero de cartas ao governador e, em todas, nota-se a preocupao do auto-elogio.
178
IPM do coronel Pamplona, fls. 02-03. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
179
IPM do coronel Pamplona, fl. 17. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
180
IPM do coronel Pamplona, fl. 20 verso. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
80

de 1805, dia em que o reverendo autor comprou a seu pai as fazendas, [trabalhou] mediante
dez anos e nove meses em que nada recebera.181

Seria extremamente curioso saber se o desembargador Paulo Fernandes Vianna, alto


funcionrio da Corte, teria quitado as dvidas de Pamplona com o Errio Rgio. Coincidncia
ou no, passados alguns anos, o padre Incio obteve uma sentena favorvel do Desembargo
do Pao contra seus irmos. No estaria a a mo do desembargador Paulo Fernandes Vianna
protegendo seus prprios interesses?182

Em 1854, quando foram inventariados os bens do filho do padre Incio, o padre Jos
Maria Correia Pamplona, ainda constava entre os bens da famlia a fazenda do Capote. Era
uma grande propriedade. O inventrio apresenta um monte bruto de 70:584$230 e lquido de
58:943$740, sendo descritos minuciosamente 61 escravos entre os bens.183 Os herdeiros eram
os oito filhos, cuja legitimidade fora reconhecida pelo padre, sendo um deles, tambm clrigo:
o padre Incio Correia Pamplona.

Ou o coronel Pamplona terminou seus dias pobre, considerando a riqueza que j


possura, ou o seu inventrio era um mar de fraudes ao apontar somente seis contos de ris a
serem divididos. Ou o padre Incio teria usurpado de seus irmos, com o consentimento do
pai, ou do pouco que lhe tocou reconstruiu, junto com o filho clrigo, uma nova fortuna. No
temos como confirmar, mas parte da riqueza pode ter sido consumida na ltima dcada do
sculo XVIII, sendo usada por Pamplona para se livrar do crime de inconfidncia.

Ficamos por entender por que alguns dos inconfidentes condenados, tais como o padre
Carlos Correia de Toledo, os dois Resende Costa e o coronel Francisco Antnio de Oliveira
Lopes inocentaram Pamplona em alguns de seus depoimentos e acareaes. No pairam
dvidas acerca do envolvimento do mestre-de-campo no levante. Isso as prprias autoridades
portuguesas da poca perceberam. Teriam esses inconfidentes produzido seus depoimentos
sob presso para no incriminarem Pamplona? Ou teriam os juzes e escrivos lavrado os

181
IPM do coronel Pamplona, fls. 119-148. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 100.
182
VARNHAGEN. Histria geral do Brasil, v. 3, t. V, p. 92 sobre Paulo Vianna. Desembargador da Relao do
Rio de Janeiro desde 1798, Vianna foi nomeado intendente geral de polcia por D. Joo em 1808, permanecendo
no cargo por doze anos. O cargo era de grande importncia, porque a Intendncia mais do que polcia comum era
polcia poltica. Como o intendente morreu em 1821, e no sabemos exatamente a data de tramitao do processo
no Desembargo do Pao, s podemos conjeturar a respeito da sua interferncia na sentena.
183
IPM do padre Jos Maria Correia Pamplona, 1854. AHET/IPHAN-MG/SJDR, caixa 564. GRAA FILHO. A
Princesa do Oeste, p. 165, para se ter uma ideia da riqueza desse inventrio, cujo monte-mor de 70 contos de
ris. Graa Filho, em sua extensa pesquisa sobre a riqueza de fazendeiros e comerciantes em So Joo del-Rei,
encontrou somente 1,6% de inventrios dentro de uma faixa de 50 a 200 contos de ris entre 1831-1855.
81

autos isentando-o de culpa? Pamplona tambm teria subornado os juzes da Alada do Rio de
Janeiro para no ser inquirido e acareado, como possivelmente o fez em Minas Gerais? So
questes que permanecem ainda abertas. O que nos parece evidente que Pamplona soube
jogar com bastante maestria no tabuleiro da poltica colonial, dissimulando e corrompendo
autoridades venais para escapar da condenao. O preo pago no deve ter sido baixo, porque
os reflexos sobre o seu patrimnio foram sensveis. Nesse tabuleiro, Pamplona jogou nos dois
campos sem ser retirado do jogo: combateu a rebeldia de uma populao indcil a servio da
monarquia e, visando a seus prprios interesses, transitou no meio dos rebeldes de 1789.

No temos dvida, contudo, do enorme papel desempenhado pelo mestre-de-campo na


expanso da capitania das Minas Gerais para o oeste. Que ele o tenha feito no s em
benefcio da Coroa, mas, sobretudo, em benefcio prprio, no temos tambm por que
duvidar. Durante quase 30 anos, entre 1760 e 1790, sua presena nos sertes das cabeceiras
do rio So Francisco foi marcante. Foi o principal responsvel pela integrao daquela grande
rea plena administrao portuguesa. Os quilombos continuaram existindo ao longo do
sculo XIX, mas a presena branca onde s era serto devoluto, diminuiu sensivelmente essa
ameaa.

A investigao da distribuio daquelas terras em sesmarias que a Notcia diria e


individual claramente sinaliza um dos interesses desta pesquisa. Nesse documento so
listados 234 nomes dos que receberam terras do regente dos sertes de Bambu. A localizao
dos processos de concesso, confirmao, demarcao e posse dessas terras, a partir desse rol
de pioneiros, poderia nos trazer informaes preciosas sobre a estrutura fundiria de uma
comarca marcada pela agricultura, como foi a do Rio das Mortes e, quem sabe, de Minas
Gerais. Mas, infelizmente, no foi possvel localizar a maioria desses nomes na documentao
que pesquisamos, tal como veremos adiante.

1.5 Os primeiros colonos da conquista do Campo Grande

O mestre-de-campo Incio Correia Pamplona, desbravador de sertes, figura


detestada, e talvez por isso apagada, pela historiografia ufanista mineira devido ao seu papel
de delator da Inconfidncia Mineira, tambm foi estudado por Laura de Mello e Souza, que
no o viu com bons olhos. Para ela, Pamplona foi um sanguinrio, assassino de ndios e
82

quilombolas.184 Para ns, sem deixar de v-lo com um pouco de antipatia pelos mesmos
motivos, o mestre-de-campo era um homem de seu tempo como muitos outros potentados,
para os quais ndios e negros fugidos deveriam ser caados com chumbo, plvora e balas.
Muita coisa ainda est por se escrever sobre Pamplona, mas o que nos interessa agora
entender a ocupao de largo territrio nos limites ocidentais da Comarca do Rio das Mortes,
nas extremidades do termo da vila de So Jos. Conhecer um pouco de Pamplona
importante para conhecer um pouco daqueles que ocuparam, e de que maneira ocuparam, essa
extensa e ambicionada regio.

Para tanto, partimos de um rol do escrivo da entrada que Pamplona fez no serto do
Campo Grande em 1769, Manoel Ribeiro Guimares.185 No final do documento foram
listados 234 nomes que o escrivo nomeia de entrantes e diz estarem situados,
estabelecidos ou aplicados nos quatro novos ncleos de povoamento criados: freguesia da
Senhora Santa Ana de Bambu; ribeiro das Araras e Andai; arraial de Nossa Senhora da
Conceio da Conquista do Campo Grande e Nossa Senhora do Livramento do arraial do
Pium-hi.

Para nossa surpresa, s conseguimos localizar um tero desses entrantes como


recebedores da merc de sesmarias. Por outro lado, em pesquisa nos cdices que registram os
requerimentos dos colonos ao governador e ao rei, poucas foram as peties de terra
encontradas.186 obvio que centramos nossa ateno nos cdices posteriores a 1760, dcada
de incio da efetiva colonizao do territrio em anlise.

Desconfiamos ainda que a transcrio do manuscrito para publicao nos Anais da


Biblioteca Nacional contenha erros. Por exemplo: na lista transcrita acreditamos que

184
SOUZA. Norma e conflito, captulo Violncias e prticas culturais no cotidiano de uma expedio contra os
quilombolas. Minas Gerais, 1769, p. 111-137.
185
NOTCIA diria. Manoel Ribeiro Guimares foi tambm o cartgrafo da expedio, sendo de sua autoria o
Mapa da Conquista do mestre-de-campo, regente, chefe da Legio Incio Correia Pamplona, de data
imprecisa, porm, anterior a 1784, o qual reproduzimos mais acima.
186
A maior dificuldade que encontramos e o maior risco de erro esto relacionados s imprecises onomsticas,
tanto das toponmias quanto dos antropnimos, destes mais do que daquelas. A prpria lista do escrivo denota
essa impreciso ao se referir a nomes incompletos como Ana de Jesus, Maria Joaquina, Jos Joaquim, Antnio
Batista, Pedro Francisco, Jos Lus, Caetano Jos, Manoel Afonso, para no se falar de Pedro de Tal. O
problema continua com nomes como Manoel da Silva ou Manoel Gonalves, nomes e sobrenomes os mais
comuns. Manoel, como era de se esperar numa colnia portuguesa, o nome mais presente nos ndices de alguns
cdices. H ainda casos de repeties como Felipe Nri, Antnio Afonso e Manoel Gonalves. Esse ltimo
aparece trs vezes e no sabemos se se refere mesma pessoa ou a indivduos distintos. Os topnimos, que
encabeam cada uma das quatro sees que compem a lista, ajudam pouco, como no caso de Antnio Batista
[morador] no ribeiro das Araras, Andai at a barra do rio do Pico, porque designam regies muito amplas.
83

Jernimo da Costa, situado no ribeiro das Araras, seja, na verdade, Jernimo Cardoso. No
cotejo com as fontes que pesquisamos Jernimo Cardoso era confrontante com Gaspar Vaz
dos Santos no crrego das Araras e tambm com Incio Correia Pamplona;187 Jos Nunes da
Cruz poderia ser o cabo Jos Nunes de Carvalho que pediu e recebeu trs lguas de terra
alm do rio de So Francisco, na Perdio e rio Bambu.188 Enfim, a fonte de que partimos
constitui uma constante armadilha.189

O que nos pde assegurar melhor a definio de cada sesmeiro foram duas variveis
das cartas de sesmarias: a localizao da terra e os nomes dos confrontantes. A certeza
aumentava na medida em que o documento situava o peticionrio na Comarca do Rio das
Mortes, termo da vila de So Jos, freguesias de So Bento do Tamandu, Bambu ou Pium-
hi. Os acidentes geogrficos como serra da Marcela, cabeceiras do rio So Francisco e outros
tambm contribuam para esclarecer dvidas. A dvida diminua com a coincidncia dos
confrontantes, tambm recebedores de terras na regio, cujos nomes aparecem na relao do
escrivo da Conquista. Por outro lado, a incerteza aumentava se a carta era datada de trinta ou
quarenta anos aps 1769.190 Entre os cdices da Seo Colonial do Arquivo Pblico Mineiro
que registram sesmarias, deparamo-nos com mais documentos que contriburam para localizar
outros sesmeiros do Campo Grande e alguns conflitos pela posse de terras na regio.

1.5.1 Pamplona distribui sesmarias no caos do serto (1769)

A manuteno de uma estrutura administrativa e militar pesadas e o controle de


territrios extensos e distantes do centro obrigavam a Coroa a adotar estratgias semelhantes

187
APM-SC 289, rolo 61, fl. 156.
188
APM-SC 286, rolo 60, fl. 267.
189
No pudemos deixar de nos lembrar da obra de Jos Saramago, Todos os nomes, e do receio de se perder
entre os infinitos documentos e nomes de vivos e de mortos da Conservatria Geral do Registro Civil.
190
nos impasses dessa natureza que as teorias da micro-histria podem ser extremamente teis ao historiador.
De acordo com Carlo Ginzburg, as linhas que convergem para o nome e que dele partem, compondo uma
espcie de teia de malha fina, do ao observador a imagem grfica do tecido social em que o indivduo est
inserido. GINZBURG. O nome e o como, p. 175. No podemos tambm desprezar a contribuio dos
genealogistas. Para no fazermos um uso arriscado das genealogias, ouvimos os sbios conselhos de Laura de
Mello e Souza que, sem desprez-las, procura us-las com cautela. A autora, na construo da trajetria de
algumas personagens da administrao portuguesa, faz uso de diversos trabalhos dessa natureza. Todavia, o faz
de maneira bastante crtica. SOUZA. O sol e a sombra, p. 19, 20, 146, 356. Maria Beatriz Nizza da Silva
tambm recorre criteriosamente aos genealogistas na escrita de seu texto. SILVA. Ser nobre na colnia, p. 28-
40.
84

s apontadas por Norbert Elias, como j lembramos anteriormente.191 A metfora do sol e da


sombra, de autoria do padre Antnio Vieira, com que Laura de Mello e Souza abre um de seus
mais interessantes escritos, muito apropriada para o entendimento do que se passava nas
relaes entre o centro e a periferia do Imprio.192 Ocupar os sertes, trazendo-os para o pleno
domnio da Coroa era uma ao que precisava ser delegada e recompensada. Foi o que
aconteceu ao se autorizar Pamplona a desbravar o serto dos confins da Comarca do Rio das
Mortes e incorpor-lo autoridade portuguesa. Consolidou-se o poder rgio naquele territrio
e, ao mesmo tempo, criou-se um potentado.

A tentativa de ocupao dessa regio, que remonta dcada de 1740, no teve muito
xito. Algumas sesmarias foram doadas, mas h notcias de que logo foram abandonadas.
Quinze anos aps a ocupao mais sistemtica iniciada em 1765, escrevendo do quartel das
cabeceiras do rio Dourados, em 28 de abril 1781, Pamplona informava que aqui se
encontram nestas vertentes do Parnaba, aonde ns estamos, as fazendas seguintes [cita oito
de trs lguas em quadra] tiradas por sesmarias a mais de trinta anos. Tambm relatava a
explorao [que] pertende V. M. fazer nestas assim como no mbito que V. M. diz vai
explorar de Santa F, aonde pela capitania de Minas e seus moradores se acham pedidas cento
e oitenta e tantas na Secretaria de Minas.193 Toda a sua fala tinha a preocupao de
comprovar a antiguidade e o pioneirismo dos mineiros na posse da regio. Para consolidar
essa ocupao, quatro situaes precisavam ser contornadas: os quilombos, os ndios hostis, a
precariedade dos caminhos e as questes de limites.

A luta contra os quilombolas um captulo parte na histria das Minas Gerais do


sculo XVIII. Grandes expedies envolvendo at quatrocentas pessoas, entre brancos,
escravos e ndios mansos, partiram para o oeste mineiro onde ficavam os maiores quilombos
das Minas , desde a primeira metade do sculo XVIII. Algumas delas despenderam elevados
recursos e a descrio dos trens que as compunham admirvel.

191
ELIAS. O processo civilizador, p. 26.
192
SOUZA. O sol e a sombra, p. 7.
193
CARTA de Incio Correia Pamplona a D. Rodrigo Jos Meneses sobre os progressos na conquista de novos
territrios depois de novas rendies (sic). Novo quartel das cabeceiras dos Dourados, 28 de abril de 1781. APM
- Documentos Avulsos da Casa dos Contos (daqui para adiante APM-CC), caixa 87, planilha 20.256. O curioso
que percorrendo com bastante ateno os cdices de sesmarias posteriores a 1760, no nos recordamos de ver
tantas cartas (180) para essa regio (Santa F), que por estar nas proximidades do nosso recorte espacial teria nos
chamado a ateno.
85

Algumas notcias de destruio de quilombos na regio, porm, chegavam s raias do


absurdo e alguns historiadores as reproduzem sem nenhuma crtica. Pedro Taques descreveu
uma campanha organizada por Gomes Freire de Andrada e levada a cabo pelo capito-mor de
Pitangui, Bartolomeu Bueno do Prado, o qual teria apresentado em Vila Rica 3.900 pares de
orelhas de quilombolas ao final da expedio.194 Sem dvida um exagero. O maior quilombo
da regio era o do Ambrsio, que especialistas apontam no tivesse mais do que 700
negros.195 No mais, os escravos eram mercadorias caras e, mesmo que os quilombos
aterrorizassem a sociedade, levando as autoridades a ordenar medidas violentas contra eles,
no acreditamos que os capites-do-mato fossem to ingnuos a ponto de no pensar em
salvar a vida de alguns negros para aumentar os seus lucros.

Os remanescentes de tribos indgenas causavam menor inquietao que os negros


fugidos. Os mais comuns, de nao Caiap e Bororo, no eram to temidos, talvez pelos j
constantes contatos com os paulistas desde princpio do sculo XVII, frequentadores daqueles
sertes para pre-los ou a caminho das minas de Gois. Os Botocudos das matas dos rios
Doce, Mucuri e Jequitinhonha assustavam mais os povos da capitania.

A disputa pela terra nos confins da Comarca do Rio das Mortes, antes de acontecer
entre fazendeiros, se deu contra negros fugidos e ndios. Afastados esses primeiros
incmodos, desbravados os sertes e abertos os primeiros caminhos, alm da j antiga Picada
de Gois, as frteis terras foram, ento, objeto da cobia dos moradores de capitanias
vizinhas. Alm de alguns descobertos de ouro, como no Desemboque, a notcia de que as
terras eram salitrosas e, portanto, dispensavam a necessidade de dar sal ao gado, tambm
despertou o interesse de muitos fazendeiros.

Aproveitando a confuso de jurisdies, outras comarcas pleiteavam a posse do


territrio. Vindos da Comarca do Sabar e at da distante Comarca de Vila Boa de Gois,
outros colonos ambicionavam as terras descansadas e com promessas de novas datas minerais.

No campo religioso, que nesse momento no pode ser destacado do poltico e do


econmico, o oeste mineiro tambm foi palco de querelas entre as dioceses de Mariana e de

194
A citao, desprovida da necessria crtica, est em artigo de SILVEIRA. Guerra de usurpao, guerra de
guerrilhas, p. 142, nota 20. Incomparavelmente mais lcidas so as pginas de VASCONCELOS. Histria
Mdia de Minas Gerais, p. 188-190, que, criticando respeitosamente Pedro Taques, acredita no terem sido
mortos mais do que cinquenta negros.
195
GUIMARES. Os cabeas e as cabeas, p. 113.
86

Pernambuco. A esta ltima pertenciam, por exemplo, a parquia de Paracatu e boa parte da
margem esquerda do rio So Francisco. No mbito da prpria influncia do bispado de
Mariana, procos, para vexame da populao, travavam embates pelo controle das freguesias
e das rendas que delas poderiam auferir.

O conflito chegou a um grau delicado ao envolver diretamente os governadores das


capitanias de Minas Gerais e Gois, demonstrando, com isso, claras fissuras polticas e
administrativas na Amrica portuguesa. Um extenso documento que inclui uma carta, um
mapa e uma instruo pormenorizada desse mapa, foi endereado a Joo Manoel de Mello,
governador de Gois, pelo conde de Valadares, argumentando a favor dos direitos de Minas
sobre o territrio em litgio:

Ilmo. e Exmo. Sr. Remeto a V. Excia. um mapa e uma instruo dele, dos
confins dessa minha e sua capitania no qual se v o terem entrado, escusado
o pouco tempo, pessoas dessa capitania, o territrio desta, cometendo desta
sorte esbulho, e dano gravssimo ao Real interesse, ao bem dos povos, e
sossego pblico, e Administrao da Justia, e que espero que V. Excia.,
pelo servio de Sua Majestade evite, mandando retirar todas as gentes que
esto no dito territrio, e juntamente declarar na conformidade do mapa e
sua instruo os limites destas capitanias. Deus guarde a V. Excia. Vila Rica,
19 de novembro de 1768. Conde de Valadares // Ilmo. e Exmo. Sr. Joo
Manoel de Mello. (grifo nosso)196

Em meio a esses conflitos de limites, fermentavam conflitos entre os primeiros


povoadores. Em 1791, Francisco da Ressurreio, morador na vila de Tamandu, Comarca do
Rio das Mortes, o capito Francisco Arajo Machado e Joaquim Jos Domingues, moradores
na Comarca do Sabar, apelaram ao governador de Minas questionando a posse de umas
terras que Joo Manoel Baptista, homem preto, de nao Crioulo, por si ou por interposta
pessoa, alcanou na Secretaria da Vila Boa de Gois sesmaria de trs lguas de terra.197

De imediato, os suplicantes procuraram deslegitimar a posse de Joo Manoel


apontando sua cor e tambm a condio social ao afirmarem que ele no poderia as terras

196
APM-SC 143, rolo 32, fls. 185-187 verso. O mapa citado no est junto do documento. provvel que esteja
arquivado em outro fundo. Esse conflito de limites parece no ter sido solucionado imediatamente, pois uma
Planta Geral da Capitania de Minas Gerais, cerca de 1800 (vide Anexo 1), traz a Serra da Marcela como limite
com Gois, ficando, ento, a regio alm e que estava em questo, dentro do territrio goiano. O que sabemos
que o julgado de Arax, localizado nesse territrio, tambm chamado de Serto da Farinha Podre, teria
pertencido a Gois. No princpio do sculo XIX seus habitantes fizeram peties a D. Joo VI para que Arax
fosse incorporado a Minas Gerais, no que foram atendidos em 1816. RAPM, ano IX, p. 875-882.
197
APM-SC 260 (1788-1797), rolo 53, fls. 10 e 11, Requerimento de Francisco da Ressurreio e outros.
87

cultivar por no possuir bens alguns, exceto uma gua em que anda. Procuravam
desqualificar ainda o negro dizendo ser o tal suplicado favorecido do sargento-mor Manoel
Garcia de Carvalho e deixando margem para entendimento de que o dito Joo seria homem-
de-palha do sargento-mor na posse das terras.198

O texto do documento, pela clareza e objetividade da escrita, parece ter sido escrito
por algum que tivesse o mnimo conhecimento do direito, possivelmente um advogado, um
solicitador de causas ou algum clrigo. O manuscrito deixa transparecer, pela argumentao, o
peso do direito costumeiro ou a interpretao da legislao portuguesa para a legitimao da
posse. Alegavam os suplicantes que fizeram as suas posses na forma que por antigo estilo se
tem rompido os muitos e mais diversos sertes e recorreram ao mestre-de-campo regente,
para na forma das Portarias e Ordens deste Governo lhas conceder por sesmarias.
Afirmavam, outrossim, que no tm a menor dvida em fazerem certa a sua primazia pelo
Direito e possesso que lhes assiste e que o sargento-mor ao pretender impedir que eles
cultivassem a terra, agia contra todo o direito e o [que] permite a natural Razo. Os
suplicantes procuravam fundamentar o seu direito pela antiguidade, pela racionalidade da lei,
pela certeza da posse e pela coerncia199 ao imputarem ao suplicado ter sido incoerente ao no
impugnar a posse no tempo legal: se aquele conhecia ser este o lugar da sua sesmaria, dever
mostrar que impugnncia (sic) fez no presente caso aos suplicantes, no tempo de quatro anos,
sendo certo, Exmo. Sr., que no mostrando o suplicado com individuao esta to relevante
circunstncia, bem conhecido est que o tal sesmeiro no tinha posse nem residncia para
fazer justos [os seus] motivos. No conhecemos a verso de Joo Manoel, mas o governador
deu despacho favorvel aos trs peticionrios, acatando suas razes, desprezando o negro ou
desafiando as autoridades goianas.

Na outra extremidade do serto, j mais prxima da vila de So Jos e de suas


autoridades, onde, portanto, se esperaria que os tratos fossem de maior urbanidade, os atos
violentos marcavam a disputa pela terra. Um requerimento, datado de 1796, de Mateus Vaz
Toste, morador na aplicao de Nossa Senhora de Oliveira, dava queixa ao governador da
invaso de sua sesmaria de meia lgua de terra em quadra, comprada ao capito Jos
Fernandes Martins, ao capito Jos Ribeiro Ferreira e a D. Teodora Antnia de Moraes. O

198
Idem, ibidem.
199
THOMPSON. Costumes em comum, p. 422, nota 93. Thompson enumera alguns fundamentos para tornar os
costumes aceitveis.
88

suplicante alegava que j comprara as terras medidas e demarcadas por D. Teodora e seus
herdeiros e nelas fez diversas benfeitorias. Relatou, a seguir, que:

[...] Lhe veio avanar com conhecido dolo e malcia na divisa um Joaquim
Ribeiro de Moraes, estabelecendo o seu stio ou parte dele ainda em terras do
suplicante e sobre o seu aude e rego dgua, que tudo se acha para dentro
das divisas do suplicante [...], inquietando e perturbando o suplicante tanto,
que no ltimo dia do ms de dezembro do ano prximo passado de 1795 foi
o suplicado armado com pistolas, e uma azagaia, e com negros, e vazou o
dito aude e rego dgua da servido do moinho e monjolo do suplicante
[...]. J por duas vezes foi ao terreiro deste armado com pistolas e espingarda
e atirou em um cachorro que estava ao p da mulher do suplicante que, por
pouco a no ofendeu e, tornando segunda vez ao terreiro do suplicante, deu
outro tiro em outro cachorro, desafiando ao suplicante que lhe faria o mesmo
[...].200

O nomeado agressor, Joaquim Ribeiro de Moraes, a julgar pelos seus sobrenomes


devia ser parente de dois dos vendedores. Como, no momento, s temos a palavra do
fazendeiro, que se julgava prejudicado, no sabemos os reais motivos da alegada invaso.
Poderia Joaquim Ribeiro estar sendo prejudicado pela venda da terra ou, a dar crdito s
palavras de Mateus, Joaquim estaria praticando esbulho em sua propriedade por ser pessoa de
m f e truculenta. Mateus segue relatando os crimes do vizinho que, associado a outros
malfeitores, destruiu trs alqueires de suas roas de milho. Esses ainda deram bordoadas e
cutiladas no alferes Antnio Afonso, publicamente, em um domingo logo depois da missa e
tambm ajudados por um ngelo de Oliveira, lhe quebraram o casco da cabea a porretadas
[...].201 No despacho do governador, alguma razo dada ao requerente. Incumbia-se ao
mestre-de-campo Incio Correia Pamplona, depois de ouvidas as testemunhas confiveis, da
priso do dito Joaquim Ribeiro de Moraes, sobretudo, pela morte do alferes, enviando o
acusado ao ouvidor da Comarca do Rio das Mortes. Pamplona havia funcionado como
mediador202 de conflitos internos dos primeiros ocupantes da regio e tambm externos na
defesa dos interesses desses moradores contra os da capitania de Gois ou mesmo da comarca

200
APM-SC 260 (1788-1797), rolo 53, fls. 57 verso a 59.
201
Idem, ibidem.
202
O papel desempenhado por Pamplona casa-se bem com o conceito de mediador que constri Giovanni Levi
em A herana imaterial. Segundo Levi, o papel de mediadores entre a periferia e o Estado, desempenhado pelos
grupos locais de importncia, um aspecto fundamental da realidade poltica em muitas naes modernas.
LEVI. A herana imaterial, p. 51, nota 3. Para uma discusso mais ampla do conceito, ver o captulo IV, A
autoridade de um homem ilustre: Giulio Cesare Chiesa. Levi utiliza tambm o conceito de redes de relaes e
de alianas, que no estenderemos aqui, mas que foi uma das estratgias adotadas pelo mestre-de-campo ao
longo de sua tumultuada vida de comerciante, fazendeiro, militar e funcionrio da Coroa. Foi graas a essa rede
que escapou, inclusive, do processo contra os inconfidentes de 1789.
89

do Rio das Velhas, ambos interessados na posse das terras. Interesses que eram sobretudo
seus, pois era, seguramente, o maior proprietrio e se enxergava como dono de tudo ao seu
redor, por ter sido conquista sua. Em duas longas cartas ao governador de Minas, D. Rodrigo
Jos de Meneses, datadas de maro e abril de 1781, Pamplona repetidas vezes frisava que
forasteiros de Gois, alguns vindos de Paracatu, invadiam a sua conquista. Alm de tentar
preservar os seus prprios interesses, de certa forma, zelava tambm pelos interesses daqueles
que orbitavam em torno de sua pessoa. Aos novos sesmeiros que, em sua maioria, eram
originrios do termo da vila de So Jos e l tambm eram proprietrios, interessava que a
jurisdio administrativa dessa vila estivesse bem definida naqueles sertes. Uma das
preocupaes de Pamplona na carta de 6 de maro de 1781 era com os marcos de demarcao
de limites do termo da vila de So Jos por ele colocados, da qual um extenso trecho merece
ser citado:

[...] fatal a minha consternao que coubesse na cabea destes [os de Paracatu
e de Gois], que o mesmo (sic) era demolir os marcos, como se dissessem que
neles havia poder de mudarem as serras e montes e rios, assim como o fizeram
na ocasio presente, que a estes lugares todos lhes deram novos nomes, para
desta sorte fazerem a confuso de seguirem as suas paixes, e a ocuparem a V.
Excia. como se eles tivessem o poder de rasgar os autos das posses mais antigas.
No souberam eles aonde eu meti o marco em outubro de 1769, nessas
vizinhanas, e auto de posse na serra chamada da Bexiga, seno tambm o
arrancariam. Como ho de eles escurecer os autos possessrios que eu l fiz, os
socaves em crregos e ribeires foram muitos, no lhe do volta as cruzes em
pau sucupira, as posses de roas que mandei roar? [...].203

Alguns trechos da fala de Pamplona, na tentativa de legitimar o direito sobre as terras


em disputa, estariam amparados numa noo costumeira sobre a propriedade, no sculo
XVIII, que dificilmente seria exclusiva da Inglaterra. Thompson, citando Blackstone,
menciona os seguintes fundamentos para tornar os costumes aceitveis: 1) antiguidade (to
longa que a memria dos homens no os desautoriza); 2) constncia; 3) usurio pacfico; 4)
no devem ser irracionais (perante a lei); 5) certeza; 6) obrigatrios: isto , no opcionais; e 7)

203
CARTA do mestre-de-campo Incio Correia Pamplona a D. Rodrigo Jos de Meneses sobre a desordem no
arraial e descoberta de ouro, Bambu, 6 de maro de 1781. APM-CC, caixa 75, planilha 20.023. Sobre a
importncia dos marcos e de sua antiguidade, fala-nos E. P. Thompson em Costumes em comum, especialmente
no captulo Costume, Lei e Direito Comum. Embora estejamos tratando no dos interesses das classes
subalternas, mas dos das classes proprietrias, o conceito de direito costumeiro que Thompson desenvolve,
poderia ser tambm aplicado aqui. O que Pamplona fazia, percorrendo as divisas da Comarca e investido no
cargo de mestre-de-campo, representando os camaristas e os proprietrios do termo da vila de So Jos,
guardadas as devidas propores, era o mesmo que faziam os camponeses ingleses na luta pela preservao dos
direitos comunais: a inspeo seguia os antigos cursos dgua, as sebes das propriedades, e em cada ponto
limtrofe colocava-se no cho uma cruz ou um marco. THOMPSON. Costumes em comum, p. 87.
90

coerncia.204 Ora, se no todos, alguns desses fundamentos aparecem na fala do mestre-de-


campo. O primeiro estaria implcito nos novos nomes dos lugares, em contraposio aos
antigos e explicitado em rasgar os autos das posses mais antigas. A certeza e a coerncia
estariam sendo atropeladas pela confuso de seguirem as suas paixes. A constncia, o uso
pacfico e a racionalidade perante a lei, se no aparecem no trecho citado, esto no corpo do
extenso manuscrito de sete laudas, ao se referir presena dos mineiros na regio desde a
dcada de 1740, ocupao mansa e pacfica exterminar ndios e quilombolas no era visto
como atos violentos com risco de suas vidas, e, por fim, o recurso s cartas de sesmarias que
sinalizavam uma ocupao racional amparada pela lei. Ento, de se perguntar quem seriam
esses sesmeiros cujos interesses Pamplona defendia.

Consideradas todas as dificuldades de trabalhar com a lista dessas pessoas que


esperavam receber terras em 1769, que apontamos pginas atrs, vamos a alguns nmeros
aproximados que conseguimos levantar. Dos 234 nomes, somente de 70 pessoas foi possvel
encontrar ou a carta de sesmaria (62 casos) ou a citao de seu nome como confrontante (8
casos) de um dos outros da lista. Porm dos 70, apenas 53 tinham cartas de sesmaria para o
territrio investigado. 17 pessoas que pediam terras eram sesmeiros em outro lugar da
capitania, em sua maioria, no prprio termo da vila de So Jos. De outros 7 indivduos
localizamos uma referncia imprecisa. Enfim, entre casos mais confiveis (70) e casos
imprecisos (7), nossa busca no conseguiu ultrapassar 77 registros ou um tero do total. No
nos possvel saber o que teria acontecido com os outros nomes. Podemos apenas tentar
algumas respostas provisrias.

Uma hiptese seria o possvel extravio de algum cdice que registrava sesmarias na
Secretaria de Governo. Pesquisamos, inclusive, os quatro livros de registro de peties e
requerimentos para os anos posteriores a 1769 e nada encontramos.205 Porm, restariam ainda
algumas alternativas de buscas: os vinte seis livros de despachos da Secretaria de Governo e
dezessete catlogos de documentos avulsos do fundo da Casa dos Contos. Percorrendo

204
THOMPSON. Costumes em comum, p. 422, nota 93. Mrcia Motta discute esses princpios ao escrever sobre
um conflito ocorrido em 1837 entre pequenos lavradores e Joo Correia Abrao, um grande fazendeiro de
Paraba do Sul. Segundo ela, no caso em questo, dois importantes pilares de sustentao do direito posse
estavam em confronto: posse mansa e pacfica (o que remete antiguidade da ocupao) versus cultura efetiva e
morada habitual. MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 45-53.
205
AMP SC 103 (1752-1771), rolo 34; SC 154 (1766-1771), rolo 34; SC 186 (1771-1787), rolo 40 e SC 260
(1788-1797), rolo 53.
91

todos esses ltimos, percebemos a existncia de registros esparsos de requerimentos de terra,


mas at agora nada localizamos sobre a regio da pesquisa.

A hiptese que mais nos convence a de que a grande maioria dos que ocuparam as
terras no requereram formalmente a sesmaria, por razes vrias que poderamos aventar. A
principal delas seria o interesse em dispor da terra com o menor controle possvel. Como
assevera Mrcia Motta:

O que importava, pois, para os fazendeiros no era a medio e demarcao


tal como a desejavam os legisladores. Medir e demarcar, seguindo as
exigncias da legislao sobre as sesmarias, significava, para os sesmeiros,
submeter-se imposio de um limite a sua expanso territorial, subjugar-se
nestes casos aos interesses de uma Coroa to distante.206

Esse desinteresse, intencional ou no, de requerer formalmente a terra, est manifesto


em alguns dos casos que conseguimos localizar, em que cartas de sesmarias s foram
pedidas/concedidas mais de trinta anos aps 1769, ano da segunda entrada de Pamplona para
o serto. Foi como procederam Jos Nunes de Carvalho, tendo requerido sua carta somente
entre 1798-1800, da qual obteve confirmao em 1 de agosto de 1803,207 Lus Antnio Vilela
da Silva, que s pediu suas terras em 1797, Manoel da Silva Brando, em 1798, sem a devida
confirmao e Miguel Jos Pereira em 1799, obtendo confirmao em 1802.208

O desinteresse est manifesto, com menor evidncia, na inexistncia das cartas de


confirmao ou no seu pedido tardio. Seria tautolgico falar do desinteresse pela confirmao,
uma vez que j apontamos que menos de quinze por cento dos sesmeiros de toda a capitania
pediram e receberam esse documento. H, porm, entre os nossos fazendeiros alguns casos de
confirmao, que por si s atestam a m vontade em atender s exigncias previstas em
ordens rgias, de requerer confirmao no prazo de quatro anos ao Conselho Ultramarino.209
O prprio Incio Correia Pamplona, pelos altos postos militares e cargos que ocupava,
arvorando-se em sesmeiro distribuidor das terras, e que, portanto, deveria dar o exemplo, s

206
MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 38.
207
APM-SC 286 (1798-1800), rolo 60, fl. 267 para as cartas de sesmaria e SC 299 (1801-1825), rolo 64, fl. 19
para a sua confirmao.
208
APM-SC 275 (1797-1798), rolo 58, fl. 10 verso; APM-SC 286 (1798-1800), fl. 122 verso; APM-SC 286
(1798-1800), rolo 60, fl. 192 e respectiva confirmao em APM-SC 299 (1801-1825), rolo 64, fls. 01 a 50.
209
Entre essas exigncias envolvendo prazos, havia as de medir e demarcar, em um ano, povoar e cultivar, em
dois, que provavelmente foram atendidas com extrema m vontade e ao bel-prazer dos beneficiados com a terra.
92

teve a confirmao das terras que pediu em 1 de dezembro de 1767 para si e para suas filhas
Teodsia, Incia, Simplcia, Rosa e Bernardina em 1 de fevereiro de 1802. O mesmo
aconteceu com seu companheiro de jornada, Antnio Afonso Lamounier, que tendo pedido
terras no mesmo dia, s as teve confirmadas em 22 de dezembro de 1806.210 No h,
entretanto, como negar que os sesmeiros tenham manifestado algum interesse pela
confirmao das suas cartas de sesmaria aps o Alvar de 1795 que insistia nessa
obrigatoriedade de confirmao.

Outra hiptese seria terem esses proprietrios se dirigido ao governador da capitania


de Gois. Isso seria pouco plausvel devido enorme distncia que os separava de Vila Boa
de Gois e maior interiorizao que disso lhes adviria, afastando-os dos centros mais
dinmicos da colnia. Devido tambm s suas razes na Comarca do Rio das Mortes e sua
predisposio para se ligarem a Minas Gerais, como j pudemos relatar, no caso dos
moradores do Julgado de Arax, tornam pouco provvel que para l tenham direcionado suas
peties. Tambm bom esclarecer que dos 234 nomes, 149 estariam localizados fora das
terras em litgio com Gois, a leste da serra da Marcela, no entorno de Bambu, Pium-hi e
ribeiro das Araras e Andai. Somente 85 entrantes pediam terras nos arredores do arraial de
Nossa Senhora da Conceio da Conquista do Campo Grande, a oeste da serra da Marcela,
portanto, na suposta jurisdio de Gois.211 Constantes da lista para receber terras no Campo
Grande estavam o padre Gabriel da Costa Resende, o alferes Joaquim Jos de Resende, o
tenente Julio da Costa Resende, o alferes Manoel da Costa Resende, e Ana Alves Pretto,
todos filhos e nora de Joo de Resende Costa.212 A ltima era esposa do inconfidente Jos de
Resende Costa, tambm sesmeiro na freguesia de Prados. Seu pai, portugus vindo dos
Aores, tal como sua me, um dos mais antigos moradores do termo da vila de So Jos,

210
APM-SC 156 (1767-1769), rolo 34, fls. 56-75 para as cartas de sesmaria e SC 299 (1801-1825), rolo 64, fls.
01-50 para suas confirmaes.
211
Para essas definies, como tambm para a localizao de diversas sesmarias, foi fundamental a observao
das reprodues de MINAS GERAIS EM MAPAS: Documentos dos perodos Colonial, Reino Unido e Imperial.
Catlogo do Acervo do Centro de Referncia em Cartografia Histrica. Trata-se de 25 mapas de Minas Gerais de
meados do XVIII a meados do XIX em tamanho 0,40 x 0,50 cm. Segundo BARBOSA. Dicionrio histrico
geogrfico de Minas Gerais, p. 72-73, a denominao Campo Grande muito confusa e sua localizao
bastante controversa. Observando cartas de sesmarias, percebeu que mesmo o entorno do arraial de Oliveira,
bem prximo da vila de So Jos, era conhecido como Campo Grande da Picada de Gois. Para ele, ento, o
Campo Grande poderia ter incio nessa localidade e estender-se para alm da serra da Marcela at encontrar o rio
Paranaba. Todavia, na folha 70 da NOTCIA diria..., o escrivo de Pamplona localiza o recm criado arraial
de Nossa Senhora da Conceio prximo ao rio das Onze Mil Virgens e Quilombo do Ambrsio, portanto,
dentro da rea disputada com a capitania de Gois.
212
SILVA. Genealogia mineira, p. 12.
93

povoou a regio com famlia numerosa 13 filhos , abastada e de prestgio. Joo era
proprietrio de uma das mais antigas fazendas da freguesia de Nossa Senhora da Conceio
dos Prados: o Engenho Velho dos Cataguases. A fazenda do Engenho confrontava com as
terras das fazendas do Mendanha e do Capote, propriedades de Incio Correia Pamplona, que
havia se instalado na freguesia dos Prados em meados da dcada de 1750.

Construda na primeira metade do sculo XVIII, a fazenda do Engenho Velho


impressiona pela solidez e dimenses de sua estrutura. Trata-se de um casaro rstico e
sbrio, em nada comparvel com as suntuosas fazendas cafeeiras do Vale do Paraba em
meados do sculo XIX. O visitante que se aproxima, logo se impressiona com a grandiosidade
da coberta do engenho de 71 metros de comprimento e 12 de largura. Entre o solar e a
coberta, forma-se um ptio encerrado por muralhas de pedra de altura de 3 metros, algo
incomum nas fazendas da regio. Esse conjunto guarda o aspecto de uma pequena fortaleza.
Os muros parecem ter a inteno de proteger os moradores dos perigos externos tais como os
gentios Cataguases que, no princpio do XVIII, ainda perambulavam pela regio, dos homens
vadios e facinorosos e, talvez, dos negros rebeldes foragidos em pequenos quilombos nas
matas da regio. Por volta de 1812, construiu-se, ao lado da casa, uma grande capela, smbolo
do prestgio da famlia ali residente.

FIGURA 6 Fazenda do Engenho Velho dos Cataguases, primeira metade do sculo


XVIII, Santo Antnio da Lagoa Dourada, termo da vila de So Jos: casa,
capela, coberta grande e muros (2008).
Fonte: Arquivo particular do autor.
94

FIGURA 7 Fazenda do Engenho Velho dos Cataguases: casa e capela (2008).


Fonte: Arquivo particular do autor.

Quando Pamplona chegou, Joo de Resende Costa j tinha os 13 filhos e era um dos
moradores pioneiros da freguesia, onde havia chegado em 1716. Dois de seus filhos, Joo e
Gabriel eram sacerdotes. Fortes laos de compadrio ligavam as duas famlias, a antiga e a
nova. A origem era a mesma: o arquiplago dos Aores. As relaes devem ter se estremecido
pela delao de Pamplona na Inconfidncia de 1789, que resultou no degredo do capito Jos
de Resende Costa e de seu filho homnimo. Contudo, por fim, a sorte foi diferente para as
duas famlias. Os Resende se multiplicaram em sucessivas geraes de fazendeiros abastados
na Comarca do Rio das Mortes.213 Os Pamplona no desapareceram, sobretudo, graas
virilidade dos padres da famlia, mas no tiveram a mesma sorte.

Nada menos do que seis membros da primeira gerao dos Resende Costa e seis da
segunda teriam pedido terras na nova fronteira. O capito Jos Antnio da Silva, marido de
Maria Helena de Jesus, outra filha de Joo de Resende Costa, e seis filhos do casal tambm
constam da lista dos que receberiam terras: Manoel, Elias, Julio, Jos, Joo e Gabriel, todos
com o sobrenome da Silva Resende. Quase todos eles deveriam ser muito novos em 1769, j
que seus pais se casaram em 1749. O intrigante que nenhuma das cartas de sesmaria para
esses doze membros da famlia Resende foram encontradas.
95

Acompanhar a trajetria de algumas famlias, como pudemos fazer com a de


Pamplona em outro momento, torna-se um recurso esclarecedor de diversos aspectos da
sociedade colonial. Um deles so as estratgias para acumulao de terras.214

Se agruparmos os nomes dos entrantes por parentesco, os 234 entrantes ficariam


reduzidos, talvez, a algumas dezenas de famlias, pois muitos tinham os mesmos sobrenomes.
Muitas dessas famlias, numerosas como a dos Resende, partiram em direo ao oeste
mineiro, expandindo as fronteiras do termo de So Jos e Comarca do Rio das Mortes, para
no ver suas posses divididas em parcelas pequenas. A essas famlias, herdeiras de uma
mentalidade terratenente cujas razes remontam Pennsula Ibrica, interessavam largos
domnios sobre terras e sobre homens.215

As alegaes dos pioneiros do serto do alto rio So Francisco nas peties das
primeiras cartas de sesmaria poderiam no passar de retrica e estilo. Em uma sequncia de
22 cartas de sesmaria datadas de 1 de dezembro de 1767, repetia-se um mesmo bordo, com
pequenas variaes. Dizia, por exemplo, Antnio Afonso, que ele se achava com escravos e
criaes de vrias qualidades e sem terras para o seu estabelecimento, e por necessitar delas,
entrara com grande risco de calhambolas e outros mais, em companhia de Incio Correia
Pamplona a povoar o serto do rio So Francisco para dentro, serra da Marcela e quilombo do
Ambrsio.216 Tanto Antnio Afonso, como Manoel de Medeiros, Domingos Antnio da
Sylveira, Manoel Bernardes de Christo e tantos outros, j possuam suas sesmarias nos
arredores da vila de So Jos.

Um documento datado de 1818, apesar de distante quase meio sculo da relao a


partir da qual iniciamos nossa pesquisa, poderia preencher lacunas e contribuir para a

213
SILVA. Genealogia mineira.
214
Nesse momento, a micro-histria, sobretudo Giovanni Levi com suas reflexes no campo da histria agrria,
traz elementos importantes para a compreenso das estruturas sociais. Espada Lima, investigando as
contribuies da micro-histria italiana, e, neste caso, de Giovanni Levi, nos lembra que: As histrias das
famlias, permitiam colocar em evidncia o sentido estratgico das alianas horizontais entre as famlias no co-
residentes, de modo a ampliar a possibilidade de previsibilidade das aes alheias. Essa mesma lgica de
interdependncia estava presente nas alianas sociais verticais, que ligavam as famlias camponesas, por
intermdio de redes de clientela, proteo e fidelidade, s famlias de notveis locais: relaes que
funcionavam como um contrapeso s tenses latentes que o conflito de interesses continuamente produzia.
LIMA. A micro-histria italiana, p. 267-268.
215
Como defende Mrcia Motta, o domnio sobre os homens passava tambm pelo domnio sobre as terras,
medida que os grandes proprietrios procuravam impedir no sem resistncia e algum sucesso o acesso
terra por parte de pequenos posseiros. MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 39 passim.
216
APM-SC 156, rolo 34, fls. 56-75.
96

definio e localizao de muitos outros ocupantes do serto que no apareceram atravs das
cartas de sesmarias.

1.5.2 Ordem no caos: o serto esquadrinhado/mapeado (1818)

J em 1780, o desembargador Jos Joo Teixeira Coelho, em sua curiosa Instruo


para o Governo da Capitania de Minas Gerais, dizia que a Comarca do Rio das Mortes a
mais vistosa e a mais abundante de toda a capitania em produo de gros, hortalias e frutos
ordinrios do pas, de forma que alm da prpria sustentao, prov a toda a capitania de
queijos, gados, carnes de porco etc.217 Ao mesmo tempo, tecia um breve comentrio sobre a
desorganizao na distribuio das sesmarias e criticava a forma negligente como as terras
eram doadas por autoridades que no tinham o menor conhecimento delas. Denunciava o mau
uso e o abandono em que se encontravam as sesmarias e a explorao irracional do solo com
derrubadas e queimadas de suas matas. Terminava comentando a ganncia por mais e mais
terras, sem o seu conveniente aproveitamento: H na mesma capitania de Minas centos de
sesmarias concedidas h muitos anos sem a menor cultura; e sempre os povos vo pedindo
novas terras, sem que haja necessidade de se lhes concederem, porque os frutos das atuais so
de sobejo para os habitantes da referida capitania.218 Era o esforo lcido, e s vezes surdo,
de um demiurgo tentando colocar ordem no caos. Uma ordem que s muito lentamente ia se
incorporando no dia-a-dia de uma populao rstica e dispersa por um serto sem fim.

Em 1818, a Relao das pessoas que se acham estabelecidas com fazendas no termo
da vila de So Bento do Tamandu219 faz parte desse esforo de controle do espao da
capitania. Dada a localizao desse documento entre os papis avulsos da Casa dos Contos,
fica tambm razovel perceb-lo como um controle fiscal sobre as propriedades, com o fim de
submet-las taxao. Essa , ento, uma razo, entre outras, para que seus dados sejam
observados com ligeira desconfiana e se desconfie da sua exatido. No conhecemos, no
momento, o motivo que levou a esse cadastramento e nem sabemos ainda se foi feito em
outros termos da capitania. muito provvel que tenha sido uma iniciativa voltada para um

217
RAPM, ano VIII, fascculos I e II, 1903, p. 424.
218
Idem, p 556-558.
219
APM-CC, rolo 526, planilha 20.207. Vide Anexo 2.
97

esforo de organizao fundiria e para o fisco.220 Os cdices coloniais de Minas Gerais so


prdigos em documentos voltados para a organizao da capitania, como os mapas de
populao, de arrecadao e das estruturas militares.

A comparao que possvel se fazer entre as informaes das relaes de 1769 e


1818 contribui para a percepo da ocupao da regio. Mesmo a distncia de duas geraes
entre os documentos no invalida esse esforo. Atravs de informaes genealgicas,221
pudemos notar que alguns dos que pediam terras por intermdio de Incio Correia Pamplona,
em 1769, tinham menos de vinte anos de idade. Uns eram mesmo crianas, como os filhos do
mestre-de-campo. Uns e outros desses nomes reaparecem na relao de 1818. Atravs dos
sobrenomes, podemos identificar seus descendentes, num jogo um tanto quanto perigoso,
dada a repetio onomstica, os erros de registros ou o costume de omitir o nome de famlia,
sobretudo para as mulheres, como foi o caso de trs filhas de Joo de Resende Costa: Maria
Helena de Jesus, Tereza Maria de Jesus e Ana Maria de So Joaquim.222 Apesar desse
distanciamento temporal, mas tratando-se da mesma regio, possvel o cotejo com outros
dados, como o nome ou localizao das propriedades, o uso, mesmo que limitado, dos mapas
de poca etc.223

220
Situao semelhante observou Levi para o caso do Piemonte do final do sculo XVII. Uma de suas fontes
bsicas foi a Perequao realizada no Piemonte, em 1701, por Vittorio Amedeo II. Esse cadastro ou senso visava
cobrana de impostos sobre a terra e a produo agrcola. LEVI. A herana imaterial, p. 139. Para o caso que
estudamos, suspeitamos que a perquirio de 1818 tenha relao com o Alvar de 21 de outubro de 1817.
Levantamos essa possibilidade aps a leitura de recente trabalho de MOTTA. Direito terra no Brasil, p. 237.
221
SILVA. Genealogia mineira, p. 427-582. Citamos, por exemplo, os filhos do capito Jos Antnio da Silva,
genro do patriarca Joo de Resende Costa.
222
SILVA. Genealogia mineira, p. 427-582, p. 12.
223
Segundo Carlo Ginzburg, se o mbito da investigao for suficientemente circunscrito, as sries documentais
podem sobrepor-se no tempo e no espao de modo a permitir-nos encontrar o mesmo indivduo ou grupos de
indivduos em contextos sociais diversos. O fio de Ariana que guia o investigador no labirinto documental
aquilo que distingue um indivduo de um outro em todas as sociedades conhecidas: o nome. GINZBURG. O
nome e o como, p. 173-174. O recurso micro-histria para interpretao das fontes no se limita s classes
subalternas. Giovanni Levi ao reconstruir meio sculo de histria da comunidade de Santena, mesmo
privilegiando os pequenos proprietrios ou arrendatrios, no deixa de considerar as famlias nobres que
dominavam a posse da terra. Levi tambm aplica sua abordagem microanaltica numa comunidade pequena,
cujos terrenos eram medidos e explorados em pequenas unidades pelos camponeses: as giornate, que
corresponderiam aproximadamente a um tero do hectare. Boa parte dessas terras pertencia Igreja e aos nobres
ou estava ligada a eles pelos direitos feudais. Apesar de centrar sua ateno no pequeno territrio de Santena,
no desconsiderava toda uma regio maior do Piemonte, crivada de povoaes, nas vizinhanas de Turim. Ns
estamos tratando de extensas propriedades rurais, num cenrio em que os ncleos urbanos eram poucos e
insignificantes e se afastavam uns dos outros lguas e lguas de distncia. Mesmo considerando a diferena de
escalas, o olhar microanaltico sobre alguns casos pode desvendar situaes individuais que, somadas umas s
outras, compunham uma teia maior do tecido social capaz de esclarecer as relaes de poder pela posse da terra
numa determinada regio da capitania. LEVI. A herana imaterial, sobretudo o captulo VII As aparncias do
poder: a paz no feudo, p. 253-265. Ver tambm as p. 183-186.
98

Baldado nosso esforo, cotejando nome a nome nas duas relaes, para nossa surpresa,
entre os 633 indivduos listados em 1818, s nos foi possvel localizar sete dos entrantes de
1769: o capito Julio lvares de Mendona, o padre Incio Correia Pamplona, filho de
Pamplona, o capito Manoel da Silva Brando, Antnio Jos Bastos, Jos da Silva de
Queirs, Joo Teixeira Camargos e Lus Antnio da Silva Vilella Moo. Alm desses,
buscando pelos sobrenomes, oito proprietrios seriam provveis filhos dos que requisitaram
sesmarias em 1769. No nos foi possvel ir alm desse limitado nmero no momento. Apenas
uma pesquisa detalhada em outras fontes cartoriais batizados, casamentos, bitos,
inventrios e testamentos poderia nos dar a certeza de que muitos outros dos nossos
proprietrios de terras do inqurito de 1818 seriam descendentes diretos daqueles que
ocuparam a regio no ltimo quartel do sculo XVIII. Como veremos a seguir, a maioria dos
proprietrios informou, em 1818, que adquirira a terra por compra, o que pode sinalizar que as
propriedades mudaram das mos dos pioneiros para as de forasteiros adventcios. Seria a
prpria colnia em movimento no entendimento de Sheila de Castro Faria.224

O capito-mor Joo Quintino de Oliveira que era o responsvel pelas informaes e


assinou a lista, apareceu como o segundo declarante. Declarava ser proprietrio de trs
grandes propriedades: uma com trs lguas de terra, sendo 4.500 braas de testadas e 3.000 de
fundos, prxima de Tamandu, outra, da Barra, adquirida por sesmaria e compra, no distrito
de So Roque da Serra da Canastra, com trs lguas, sendo 4.500 braas de testadas e 4.500
de fundos e Babilnia, com duas lguas e meia, tendo de testadas 4.500 braas e de fundos a
mesma medida, no distrito de Nossa Senhora da Luz da Confuso de Pium-hi. Declarava
ainda possuir 54 cativos uma das maiores escravarias da regio e que morava na fazenda
Cachoeirinha, adquirida por compra. Dizia que cultivava as trs fazendas, s que na Barra e
na Babilnia ele s possua 12 escravos para cuidar das cinco lguas e meia de terra. Ele,
como qualquer outro declarante, poderia estar omitindo informaes que pudessem
sobrecarreg-lo de impostos ou que levantassem suspeitas sobre a legitimidade de suas
posses. Ao mesmo tempo, para legitimar essas posses, informava que elas eram cultivadas e
foram compradas. Saint-Hilaire, ao passar pela regio em 1819, conheceu o capito-mor, sua
riqueza e seu modo de vida modesto. Alm disso, colocou em dvida a informao do
tamanho da fazenda que Joo Quintino declarara:

224
FARIA. A colnia em movimento.
99

A propriedade de Cachoeirinha, situada um pouco antes de Tamandu, tem


trs lguas de comprimento por duas de largura. Vi a uma quantidade
considervel de gado vacum, de porcos e de carneiros. Seu proprietrio, o
capito-mor Joo Quintino de Oliveira, vendera, nesse ano, no Rio de
Janeiro, porcos no valor de dois contos de ris. Era um homem educado e
cuja mesa atestava de sobra a sua riqueza. No obstante, a casa que ocupava
era to mal cuidada e modesta quanto as que eu vira em todas as outras
fazendas. (grifos nossos)225

Os maiores proprietrios de terras da regio, de acordo com a Relao, eram o coronel


Manoel da Silva Brando, com seis glebas dispersas que somavam 11 lguas, tendo, ao todo,
17.500 braas de testadas por 23.500 braas de fundos, o que pode ser transformado em nada
menos do que 199.045 hectares de terra. A seguir vinha o capito-mor Joo Quintino com
13.500 braas de testadas por 12.000 de fundos, equivalentes a 78.408 hectares e, por fim, os
herdeiros de Maria Jos Rodrigues da Costa, da fazenda So Miguel e Almas, de seis lguas,
com 12.000 braas em quadra, ou 69.696 hectares. desnecessrio lembrar que os tamanhos
dessas posses deveriam ser superiores a essas medidas. Segundo Mrcia Motta, a Coroa
tambm no podia ignorar que muitos sesmeiros ocupavam grandes extenses de terras
atravs do apossamento das terras limtrofes a suas sesmarias ou mesmo de outras reas,
distantes espacialmente das suas concesses. Ou seja, em muitas ocasies, o posseiro e o
sesmeiro podiam se confundir numa nica pessoa.226

Na Relao de 1818, 17 proprietrios declararam abertamente que o ttulo de suas


terras era posse, e um deles, Antnio da Silva Rocha, apossou-se de duas lguas de terra na
paragem da Perdio, no distrito da freguesia de Bambu. Outros sete associaram aos seus
ttulos de sesmarias, compras e herana uma outra posse sem nenhum ttulo. O curioso que
dos 17 casos envolvendo exclusivamente a posse, dez eram de fazendas grandes, com meia
lgua ou mais e sete eram pequenos posseiros.227

Com que inteno o capito-mor teria informado em seu mapa que o coronel Manoel
da Silva Brando no estava cultivando duas de suas grandes fazendas? Eles no eram
vizinhos nas confrontaes. provvel que os dois maiores proprietrios tivessem

225
SAINT-HILAIRE. Viagem s nascentes do rio So Francisco, p. 74-75.
226
MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 122.
227
Isto vem confirmar a opinio de Mrcia Motta ao acreditar que o processo de ocupao de terras pelo
apossamento praticado pelos fazendeiros permitia que outros agentes sociais reconhecessem o seu direito
ocupao tambm pelo sistema de apossamento. Seria, utilizando a terminologia de Bourdieu, um direito
vivido. MOTTA. Nas fronteiras do poder, p. 102.
100

divergncias e conflitos de interesses que teriam levado um deles a expor a situao


reprovvel do outro aos olhos das autoridades que ordenaram o cadastramento.

Dos os 633 proprietrios, somente quatro afirmaram ou Joo Quintino afirmou por
eles no estar cultivando suas terras. possvel suspeitar que muitos dos outros estariam
prestando informaes falsas. Mesmo sabendo que diversas propriedades eram cultivadas com
o brao livre, s vezes com famlias numerosas, o maior peso do trabalho estaria nas mos dos
cativos.228 Possivelmente, seria tambm por essa razo que a Relao pedia que se informasse
a posse de escravos. Cruzando o nmero de cativos com as extenses das reas declaradas,
encontramos uma quantidade considervel de propriedades de tamanho nada desprezvel com
nenhum ou com um nico escravo. Antes de apontar alguns casos concretos, convm
compreender um pouco o complicado sistema de agrimensura das datas de terra.

Uma lgua em quadra de sesmaria (3.000 braas de testada por 3.000 de fundos)
corresponderia a 4.356 ha. Porm, nem sempre as sesmarias eram medidas em quadra e, por
exemplo, meia lgua poderia no ser 1.500 braas em quadra (1.089 ha) e sim, tal como
aparece na Relao de 1818, 750 x 750 (272,25 ha), 750 x 500 (181,50 ha), 675 x 500 (163,35
ha), 1.125 x 1.125 (612,56 ha) ou outras variaes. Por outro lado, quase certo que no
havia essas precises de medidas, sobretudo nos lugares em que existiam terras devolutas.

Entre os 633 proprietrios 120 no possuam nenhum escravo e 54 tinham um nico


cativo cada. De todas as propriedades, apenas 15 tinham reas to insignificantes que no
alcanavam cem braas de terra, como o stio Bom Jardim, herdado por Maria Pereira, no
distrito de So Francisco de Paula, da freguesia de Tamandu, com 25 braas (12 x 12). Lado
a lado com os latifndios, existiam aqueles que sobreviam ou vegetavam sobre litros ou
quartas de terra.229 Outras 20 propriedades tinham meio quarto de lgua, uma rea pequena,
mas no miservel, podendo atingir 68 ha. Todas as demais variavam de um quarto a trs
lguas e meia (7.000 x 10.000 braas), como a do coronel Manoel da Silva Brando,
denominada Mata do Rio So Francisco, no distrito de Nossa Senhora do Livramento de
Pium-hi. Dessas ltimas, 69 tinham no mnimo meia lgua de sesmaria, ou seja, 1.089 ha, se
as testadas e os fundos tivessem (porque as medidas no so sempre uniformes) 1.500 braas.
de se duvidar que estariam realmente cultivadas essas grandes propriedades, sem a mo

228
SAINT-HILAIRE. Viagem s nascentes do rio So Francisco, p. 75.
229
MOTTA (org.). Dicionrio da terra, p. 289-290. O litro corresponde rea necessria para o cultivo de um
litro de sementes de milho, cobrindo uma rea de 605m e a quarta corresponderia quarta parte de um alqueire,
ou seja, 10 litros ou 6.050m, se o alqueire for de 2,42ha.
101

de obra necessria para isso. bom lembrar que no estamos considerando as demais posses,
com dois ou mais escravos. Com to escassa mo de obra, provvel que o valor dessas terras
no mercado fosse pequeno. Tal valor difcil de ser mensurado, salvo com uma minuciosa
pesquisa em escrituras de compra e venda ou inventrios dos proprietrios.

Com os recursos da poca, a nica explorao que justificaria estar sendo a


propriedade cultivada seria a pecuria extensiva. O aproveitamento dessas terras era, ento,
muito baixo. Saint-Hilaire, observando a regio despovoada de gente e de gados, que os
roceiros diziam estar escondidos nas matas, acreditava no ser menos verdade, entretanto,
que toda a parte ocidental da Provncia de Minas poderia alimentar rebanhos infinitamente
mais numerosos do que os que nela existem.230

As tabelas abaixo, compiladas da relao, nos do uma ideia da explorao do trabalho


escravo na regio.231 O que fica evidente, na tabela 2, a predominncia dos pequenos e
mdios proprietrios de cativos, o que no quer dizer, necessariamente, que eles sejam
pequenos ou mdios proprietrios de terras. Seria preciso cruzar o nmero de escravos com os
tamanhos das propriedades para fazer qualquer afirmao. Todavia, fica a impresso,
corroborada pela pequena amostragem que fizemos acima, de que a terra era subaproveitada.
Confirmando a nossa impresso, Saint-Hilaire, depois de afirmar que a carga do trabalho era
reservada aos negros, nos diz o seguinte:

Companheira de todos os vcios, a indolncia uma das principais chagas dessa


regio. Fiz esforos inauditos para encontrar um tocador numa extenso de 60
lguas, e no entanto, existe ali uma multido de homens pobres e sem ocupao!
Os que so casados cultivam terras alheias, e se resignam a trabalhar alguns dias
para viver sem fazer nada o resto do ano. Os solteiros, que so em menor
nmero, perambulam de casa em casa, vivendo custa de compadres e
comadres, ou ento saem para caar, ausentando-se durante meses.232

230
SAINT-HILAIRE. Viagem s nascentes do rio So Francisco, p. 97.
231
Sobre a questo do trabalho escravo em Minas Gerais no perodo colonial, sugerimos a leitura de Carlos
Magno Guimares, Douglas Cole Libby, Eduardo Frana Paiva, Liana Maria Reis e Tarcsio Botelho.
Resumidamente, adiantamos que tais autores trabalham com quilombos, populao, religiosidade, criminalidade
e estrutura familiar, respectivamente. Uma amostra de seus trabalhos pode ser vista em RESENDE; VILLALTA
(org.). Histria de Minas Gerais, v. 1, p. 401-521.
232
SAINT-HILAIRE. Viagem s nascentes do rio So Francisco, p. 76.
102

Quadro 2
Posse de escravos por proprietrio no termo da vila de So Bento do Tamandu (1818)
Escravaria: nmero de Total de proprietrios Percentual
escravos
Nenhum 120 18,96
1 54 8,53
2 70 11,06
3 62 9,79
4 59 9,32
5 29 4,58
6 a 09 115 18,17
10 a 20 94 14,85
21 a 30 16 2,53
31 a 40 9 1,42
41 a 49 1 0,16
50 ou mais 4 0,63
Total 633 100,00
Fonte: APM Casa dos Contos rolo 526, planilha 20.207.

Se aplicarmos os critrios de classificao adotados por Clotilde Paiva233 somente para


os senhores escravistas, teremos o seguinte perfil, em que fica evidente o predomnio dos
pequenos e mdios proprietrios de cativos:

Quadro 3
Posse de cativos por proprietrio escravista no termo da
vila de So Bento do Tamandu (1818)
Escravaria Total de proprietrios Percentual
Pequenos: 1 a 3 186 36,26
Mdios: 4 a 9 203 39,57
Grandes: 10 a 49 120 23,39
Muito Grandes: 50 ou + 4 0,78
Total 513 100,00
Fonte: APM Casa dos Contos rolo 526, planilha 20.207.

A partir da informao prestada sobre qual era a titulao que os proprietrios tinham
de suas terras, foi possvel estabelecer o seguinte quadro:

233
PAIVA. Populao e economia nas Minas Gerais do sculo XIX, p. 211. Clotilde Paiva professora da
Faculdade de Cincias Econmicas/UFMG e referncia obrigatria para os estudos de populao e economia
em Minas Gerais. A pesquisadora trabalhou pioneiramente com os Mapas de Populao de 1831-1832 e 1838-
1840, as famosas e muito conhecidas Listas Nominativas.
103

Quadro 4
Declarao da forma de aquisio da terra no termo da
vila de So Bento do Tamandu (1818)
Modalidades de Ttulos Total de propriedades Percentuais

Compra 331 52,29


Herana 152 24,01
Herana e compra 77 12,16
Sesmaria 16 2,53
Sesmaria e compra 23 3,63
Sesmaria e posse 3 0,47
Posse 17 2,69
Posse e compra 3 0,47
Posse e herana 1 0,16
Dvida 1 0,16
Patrimnio 2 0,32
Doao 6 0,95
Ilegvel 1 0,16
Total 633 100,00
Fonte: APM Casa dos Contos rolo 526, planilha 20.207.

Analisando a compilao dos dados do documento, percebemos fortes indcios da


existncia de um mercado de terras no final do perodo colonial na regio estudada. Das 633
propriedades arroladas, 331, ou 52,29%, declararam que a terra foi adquirida por compra. Se
as essas adicionarmos outras que, em parte, juntamente com herana, sesmaria e posse, foram
adquiridas tambm por compra, obteremos 434 propriedades, ou 68,55% em que a compra
esteve presente. J os processos de ocupao por sesmaria que configurariam um estilo mais
antigo de apropriao so apenas 42, ou 6,63%, se considerados os casos de associao com a
compra e a posse. O nmero das propriedades declaradas como posse menor ainda: 24 ou
3,79% do total, percentual com possvel tendncia de crescimento a partir de 1822, quando foi
extinto o instituto das sesmarias.

Infelizmente no possumos parmetros de anos anteriores a 1818 para comparao e


bom considerar que a regio de ocupao mais recente, cerca de 1770. Poderamos, pelo
menos, sugerir que o processo de apropriao das terras teria entrado efetivamente no mbito
do mercado. Isso no descarta a possibilidade de que algumas posses estivessem acontecendo
nas vizinhanas das propriedades relacionadas, sem registros oficiais, margem desses dados
informados na relao. O ttulo de compra, declarado pela maioria, poderia, em muitos
casos, estar mascarando uma ocupao por simples posse. Algo que podemos afirmar, com
pequena probabilidade de erro, que a aquisio por meio das cartas de sesmaria estava
caindo em desuso, o que levou supresso desse procedimento legal em 1822. No estamos
104

considerando as informaes sobre a aquisio por herana, para pensar sobre a


mercantilizao dessas terras, porque ainda no temos como precisar se em momento anterior
essas terras foram ocupadas por sesmaria, posse ou compra.

Estamos apontando a existncia desse mercado de terras somente com base nessas
declaraes de 1818.234 Para que tivssemos maior certeza, seria necessrio o estudo de outros
documentos cartoriais.235 Mas esse, sem dvida, no deixa de ser um forte indcio. At mesmo
a reduo dos direitos comuns de uso das camadas mais baixas no impossvel de ser
percebida na regio que estudamos. Saint-Hilaire nos arredores da serra da Canastra,
observou a existncia de um chapado despovoado e sem cultivo. Segundo ele, suas terras
nem mesmo tm dono [1819], mas os proprietrios das fazendas localizadas na base da
montanha levam seus animais para pastarem ali.236 Seriam terras de uso comum que
desapareceriam medida que o conceito de propriedade rural exclusiva se incorporasse
plenamente entre os proprietrios. Seria interessante saber quem as ocuparia. E saber tambm
se os cursos dgua necessrios e suficientes para movimentar moinhos, monjolos, engenhos e
engenhocas caberiam nos contornos das 25 braas de Maria Pereira, no distrito de So
Francisco de Paula, ou se ela teria que recorrer fazenda do capito Manoel de Sousa
Resende, seu vizinho, deixando l parte de sua j minguada colheita.

Nas franjas, ou no meio dos enormes latifndios, como os trs exemplos dados mais
acima, e das mdias e grandes propriedades, viviam, de acordo com a perquirio de 1818,
160 proprietrios com at um quarto de lgua de rea. Esse um quarto poderia, na melhor das
hipteses, medir 750 braas em quadra, ou 272,25 ha. Tambm poderiam ser 375 braas em
quadra, equivalentes a 68 ha, ou at menos. At o limite desses 68 hectares encontravam-se
86 proprietrios, alguns com umas poucas braas. Confrontando com a enorme fazenda de
So Miguel e Almas, dos herdeiros do capito-mor Jos Rodrigues da Costa e donos de 70

234
Se, de fato, pudermos considerar, a partir das declaraes de titularidade da terra por compra, a existncia
efetiva de um mercado de terras, Thompson tinha toda razo ao afirmar que o conceito de propriedade rural
exclusiva, como uma norma a que outras prticas devem se adaptar, estava ento se estendendo por todo o globo,
como uma moeda que reduzia todas as coisas a um valor comum. E ainda, segundo ele, para os proprietrios
de terra, a propriedade fundiria estava se tornando cada vez mais subordinada ao contrato, isto [...]
assumindo as qualidades e funes de capital pela liquidez das hipotecas e pelas formas complexas de dotes de
casamento, fideicomissos, vinculao de bens de raiz etc. Porm, ao mesmo tempo, em nome da propriedade
individual e absoluta, os direitos comuns e de uso das camadas mais baixas eram minados. THOMPSON.
Costumes em comum, p. 134 e 132, respectivamente.
235
Sobre a existncia desse mercado de terras em Minas Gerais vide CARRARA. Minas e currais, p. 166 e
MOTTA. Direito terra no Brasil, p. 161.
236
SAINT-HILAIRE. Viagem s nascentes do rio So Francisco, p. 108.
105

escravos, estava Joo Ferreira, com seu meio quarto 375 braas em quadra e nenhum
escravo para ajudar nas suas lidas. Espremido entre o rio So Francisco e o coronel Manoel da
Silva Brando, maior proprietrio de terras declarado, estava Lus Jos de Medeiros lavrando
sozinho ou com seus familiares suas 200 braas em quadra ou quatro alqueires de terra.

***

Estudos recentes, amparados por pesquisas documentais mais amplas, tm apontado o


interior de Minas Gerais, em especial a Comarca do Rio das Mortes, como uma importante
regio fornecedora de produtos agrcolas para o mercado do Rio de Janeiro, sobretudo na
primeira metade do sculo XIX, superando a ideia de uma agricultura exclusivamente de
subsistncia.237 Essa nova interpretao, entre outros motivos de igual importncia, justifica a
pesquisa sobre os processos de apropriao da terra em Minas Gerais.

Temos a convico de que as cartas de sesmaria so uma fonte de grande importncia


para a histria agrria. Entretanto, o seu uso exclusivo insuficiente para responder a muitos
problemas colocados ao longo da pesquisa. Isso se deve, principalmente, tipologia desses
documentos: so como um modelo, em que partes encontram-se em branco para serem
preenchidas com o nome do sesmeiro e sua origem, a localizao da terra, sua extenso, suas
confrontaes, a data do documento etc. Se tomadas num grande conjunto, por exemplo, todas
as cartas passadas para a capitania das Minas Gerais podem desenhar a ocupao do territrio,
o perfil dos sesmeiros, os momentos de maior ou menor distribuio das terras, a ocupao
dos sertes, maiores obrigaes a serem cumpridas pelos sesmeiros etc. Mas se tomadas
isoladamente, ou em conjuntos menores, talvez respondam a poucas das questes que
inquietam o historiador das estruturas agrrias.

Naturalmente, este texto no esgota a discusso centrada nos documentos bsicos


utilizados neste captulo: a Notcia diria e individual com o seu rol de entrantes de 1769, as
cartas de sesmaria e a Relao das pessoas que se acham estabelecidas com fazendas no

237
LENHARO. As tropas da moderao; GRAA FILHO. A Princesa do Oeste. Caio Prado Jnior considera a
segunda metade do sculo XVIII como o perodo de renascimento da agricultura no Brasil. Culturas como a do
algodo, alavancadas pelos progressos tcnicos da Revoluo Industrial na Europa, espalharam-se,
principalmente pelo interior, onde o clima seco era mais propcio ao seu cultivo. Mas, segundo sua opinio, em
geral, a agricultura voltada para a exportao desenvolvia-se mais nas regies litorneas, ficando o interior mais
envolvido com a pecuria. Mesmo que ele esteja coberto de razo ao apontar o final do Setecentos como o
perodo do ressurgimento da agricultura, as novas pesquisas indicam a presena da agricultura voltada para o
comrcio tambm no hinterland. PRADO JNIOR. Histria econmica do Brasil, p. 79-93; Formao do
Brasil contemporneo, p. 119-156.
106

termo da vila de So Bento do Tamandu de 1818. Esta ltima, principalmente, possui uma
gama enorme de dados a serem explorados. Para tanto, seria ainda necessria a elaborao de
um banco de dados que permitisse uma maior visualizao das informaes nela contidas. Do
rol de entrantes de 1769, muitos nomes no puderam ser localizados e dos que o foram, sobre
poucos foi possvel tecer maiores consideraes. Tambm ele deixa em aberto espao para
novas buscas nos arquivos, para as quais as teorias da micro-histria poderiam muito
contribuir.

No foram localizados muitos dos nomes constantes nos documentos de 1769 e de


1818. Este ltimo, com mais de 600 proprietrios listados, abre a possibilidade de uma nova
pesquisa, que ora foge ao escopo principal da tese, que tentar entender a distribuio das
terras no todo da comarca e os conflitos que dela resultaram. Todavia, consideramos atingidos
os objetivos centrais deste captulo que eram dissertar sobre as ideias e representaes a
respeito do serto, tema recorrente em todos os demais captulos da tese, e contribuir para o
esclarecimento do processo de conquista e ocupao dos limites ocidentais da Comarca do
Rio das Mortes, mais especificamente nas nascentes do rio So Francisco, pelos primeiros
sesmeiros capitaneados pelo mestre-de-campo Incio Correia Pamplona, personagem central
dessa conquista.

No captulo seguinte estudaremos a ocupao e a distribuio de sesmarias nos sertes


orientais da capitania e da Comarca do Rio das Mortes, atravs da expulso e explorao dos
povos indgenas que neles viviam. De certa forma, o captulo seguinte nos permitir fazer
alguns contrapontos com este que aqui encerramos.
107

Captulo 2

Terra de ndio, terra de ningum: conquista e civilizao


da banda oriental da capitania de Minas termos de
Mariana e Barbacena: sertes dos rios Pomba e Peixe

Nessa terra tudo d, terra de ndio.


Nessa terra tudo d, no para o ndio.
Quando algum puder plantar, quem sabe ndio.
Quando algum puder plantar, no ndio.

Djavan
Cara de ndio

Continuando o nosso escopo de compreender o processo de ocupao da capitania de


Minas e, em particular, da Comarca do Rio das Mortes, atravs da doao de sesmarias,
voltamos agora nossa ateno para a sua banda oriental. Considerando que a regio, antes da
presena dos colonos, era majoritariamente ocupada por ndios de diversas etnias,238 no h
como estudar a colonizao dessas terras sem trazer cena seus primeiros moradores: os
ndios. Estamos conscientes do alcance limitado desse estudo, sobretudo, pelo apagamento da
memria indgena, tanto na historiografia quanto na prpria documentao. Como buscamos
tambm perceber os conflitos pela posse dessas terras, uma das grandes dificuldades est na
identificao dos ndios como parte desses conflitos. A documentao em geral registra para
os ndios quando registra nomes e sobrenomes portugueses, quando muito os apresenta em
designaes um tanto quanto confusas como carijs e bastardos. Mas os conflitos pela
posse das sesmarias ocorriam no s com os ndios, como tambm entre os colonos.

238
OLIAM JOS. Indgenas de Minas Gerais, p. 14-15.
108

FIGURA 8 Distribuio geogrfica dos mineirdios.


Fonte: OLIAM JOS. Indgenas de Minas Gerais, 1965.

Apesar da proximidade com os centros administrativos da capitania de Minas Gerais e


da Comarca do Rio das Mortes e de divisar com a capitania do Rio de Janeiro, a ocupao das
terras no limite leste dessa comarca aconteceu, efetivamente, um quarto de sculo aps a
conquista do serto do So Francisco. Os requerimentos de sesmarias concentram-se no
ltimo lustro do sculo XVIII e, posteriormente, no terceiro quinqunio do XIX, j com a
regio pacificada. Nem mesmo a vizinhana do Caminho Novo, a mais importante via de
acesso s minas, facilitou a povoao dessa regio. Motivos vrios podem ser citados: a densa
floresta, as terras montanhosas, o clima extremamente quente e mido, as febres, os bravos
ndios Corops, Coroados, Puris e Botocudos (sendo as duas ltimas naes as mais temidas)
e, sobretudo, o desinteresse inicial da metrpole em franquear entradas para as minas, que
foram sendo permitidas gradativamente at o incio do sculo dezenove, quando comeou a se
esvaecer a crena de se encontrar um novo Eldorado na regio.

Com o crescente esgotamento das minas, os demais obstculos, a duras penas, seriam
lentamente removidos. Os projetos de encontrar novos veios aurferos sempre estiveram na
mente das autoridades da capitania. medida que viam-se frustradas as descobertas de metais
109

raros, a riqueza seria a prpria terra que, removidos os obstculos, se manifestaria frtil e
seria, em meados do sculo XIX, rea de expanso da nova riqueza: o caf. A fertilidade era
quase evidente, dada a presena da exuberante mata atlntica, sinal de solo rico e propcio s
atividades agrcolas. Isso tambm era sinalizado por uma rica bacia hidrogrfica formada
pelos caudalosos afluentes da margem direita do rio Doce e esquerda do Paraba, com seus
inmeros rios, ribeires e crregos caudatrios.

Como o foco desta pesquisa so as reas de jurisdio da Comarca do Rio das Mortes,
a princpio procuraremos definir a regio em estudo como de influncia dessa comarca. A
seguir, perseguiremos os projetos e as polticas de expanso levadas a cabo pelos sucessivos
governadores da capitania a partir de 1750 em direo aos sertes orientais. Esses projetos
tiveram como resultado o surgimento de potentados locais e, posteriormente, as disputas pela
posse da terra entre os mesmos e deles com as naes indgenas aldeadas e com os colonos
adventcios que se deslocaram para a regio entre 1790 e 1820.

O estudo da documentao nos d uma ideia inicial de que a conquista da banda


oriental das Minas Gerais foi muito mais rdua que a dos sertes do So Francisco, apesar da
distncia muito maior destes em relao aos centros administrativos da capitania e da colnia.

2.1 A delimitao oriental da Comarca pelo serto inculto


habitado pelo brabo gentio Puri

Esta regio no levantava maiores dvidas quanto aos limites com as capitanias
vizinhas do Rio de Janeiro e do Esprito Santo, como frequentemente ocorreu com as divisas
de So Paulo e Gois. As serras do Mar e dos Aimors e os rios Paraba e Guandu eram claros
divisores geogrficos.

A confuso de limites, no entanto, dava-se, com a comarca de Vila Rica. Para dirimir
tais dvidas e conciliar os interesses dos povos da capitania, o governador D. Antnio de
Noronha, em 5 de outubro de 1779 fez publicar um bando sinalizando, mesmo que de maneira
no muito precisa, a regio de jurisdio da comarca de Vila Rica e, por conseguinte,
definindo as terras dos rios da Pomba e Peixe como pertencentes Comarca do Rio das
Mortes.
110

[...] Fao saber aos que este Bando virem, que sendo incertos os limites das
comarcas de Vila Rica, Sabar, Rio das Mortes e Serro Frio, pela parte do rio
Doce e mais rios que dele fazem barra, [...] a esta mesma comarca de Vila
Rica ficam pertencendo todas as vertentes do rio Doce que emanam da parte
do sul do mesmo rio e formam os rios Piranga, Chopot, Turvo, Casca,
Matip, Sacramento, Cuyet, Mayguassu, Guandu e outros que vo
finalmente desaguar no mesmo rio Doce.239

Os distritos espalhados pelos vales dos rios Pomba margem direita e Peixe
aparecem nitidamente incorporados ao Termo de Barbacena quando da Organizao Civil da
Provncia de Minas Gerais do ano de 1823, reproduzida por Thephilo Feu de Carvalho:
Mercs do Pomba, Pomba e Peixe, Mello, Santo Antnio de Ub e Rio Novo. Os distritos de
Piranguinha, Lamim e Morro do Chapu, distribudos pelos vales dos rios Piranga e Chopot,
surgem registrados no termo de Queluz (1790), vila que, juntamente com a de Barbacena
(1791), foi criada na ltima dcada do Setecentos, ambas sob a jurisdio da Comarca do Rio
das Mortes.

Todavia, necessrio dizer que a questo de limites das comarcas continua sendo
polmica entre os estudiosos que se detm sobre o assunto. Consultando o rol de sesmarias
concedidas em Minas Gerais, percebemos que a localizao referida por quase uma centena
de peticionrios relaciona diversas paragens requeridas nos rios Pomba, Peixe, Chopot e
Piranga, ora com o termo de So Jos (os mais antigos), ora com o termo de Barbacena (os
mais recentes) ou simplesmente com a Comarca do Rio das Mortes.240 Exemplos disso so as
sesmarias requeridas por Jos Fernandes Teles no serto do rio Chopot, termo da vila de So
Jos, em 1758, por Manoel da Motta de Andrade no ribeiro de Nossa Senhora da Conceio,
freguesia da Pomba, termo da vila de So Jos, em 1789 e por Carlos de Abreu Ferrugento na
margem direita do rio da Pomba, termo de Barbacena em 1813.241 Essas pessoas reconheciam
esses lugares como pertencentes Comarca do Rio das Mortes. Alguns autos de medio e
demarcao de sesmarias tambm foram conduzidos pelas autoridades de So Joo del-Rei,
como o de Francisco Soares Maciel na paragem do Bom Retiro da freguesia do Mrtir So
Manoel do Rio da Pomba, em 1784 ou o de Jos Gonalves Viana na paragem do ribeiro de

239
CARVALHO. Comarcas e termos: criaes, supresses, restauraes, incorporaes e desmembramentos
de comarcas e termos em Minas Gerais (1709-1915), p. 64 e 65, 71-96. Feu de Carvalho adota o topnimo
Chopot, ao passo que Waldemar de Almeida Barbosa utiliza Xopot, como costuma aparecer nos
documentos coloniais. Seguiremos a forma usada por Feu de Carvalho, atualizando, inclusive, outras formas
antigas de escrita que surgem na documentao pesquisada tal como Xipot.
240
RAPM ano XXXVII, 1988, vol. 1 e 2.
241
RAPM, ano XXXVII, 1988, vol. 1, p. 49 e 263, e vol. 2, p. 206.
111

So Joo, Matos Gerais do Pomba em 1782.242 Por outro lado, muitos tambm informaram
que as terras solicitadas estavam no termo de Mariana. A confuso de limites era tamanha que
ocorria, inclusive, entre os termos de uma mesma comarca. Por volta de 1800, a vilas de
Barbacena e de So Joo del-Rei entraram em disputa pelas terras que divisavam com o Rio
de Janeiro, no serto dos rios Pinho e Preto.

Grosso modo, poderamos dizer que a regio em foco estaria localizada no tringulo
formado pelas terras compreendidas direita de quem vinha do Rio de Janeiro pelo Caminho
Novo, pela margem direita do rio da Pomba e esquerda do Paraba. Antes, porm, de
cuidarmos de traar as linhas gerais da ocupao dos sertes do Pomba e a distribuio de
suas terras em sesmarias, examinaremos as aes empreendidas pelos governadores da
segunda metade do Setecentos para efetivamente incorporar toda a regio ao sul do rio Doce
capitania. Estendemos o estudo a essa regio mais ampla, em sua quase totalidade pertencente
ao termo de Mariana, pois entendemos que as vertentes dos rios Pomba e Peixe tambm
recebiam influncia da colonizao que se dava mais ao norte, nos afluentes do rio Doce.

2.2 A crescente poltica de incorporao dos sertes orientais da


capitania de Minas por parte dos governadores dos perodos
josefino e mariano

A conquista deste territrio se inicia na dcada de 1760, recebe maior flego a partir
de 1780 e se consolida na virada do sculo e primeiro quartel do XIX. emblemtica a fala
do governador D. Rodrigo Jos de Meneses, quando escreveu para os comandantes dos
distritos de ordenanas dos mais diversos pontos da capitania requisitando braos para a
conquista dos sertes orientais. Ordenava aos oficiais que recolhessem os vadios, malfeitores,
libertinos, desordeiros e desocupados de suas jurisdies e os enviassem presos para Vila
Rica. Ali, teriam esses vagabundos duas alternativas: a farda para o Rio Grande ou a foice
para o Cuiet. Na verdade, no s para a Conquista do Cuiet, mas tambm para o serto do
rio da Casca e serra dos Arrepiados, serto dos rios da Pomba e Peixe, enfim, para toda a mata
geral margem direita do rio Doce. A margem esquerda ainda esperaria quase cem anos para

242
AHET/IPHAN-MG/SJDR autos de sesmarias.
112

ser desbravada e foi, ento, o refgio dos ndios bravos que no quiseram se submeter aos
aldeamentos.

Foi tambm com os homens socialmente discriminados da capitania que os


governadores quiseram abrir estradas, derrubar matas e civilizar os ndios. Em cumprimento
da ordem de D. Lus da Cunha Meneses, de janeiro de 1784, os degredados partiam, sob
ferros, dentre muitos outros lugares, dos arredores de Mariana, do Inficcionado, de Suassuy,
do Rio do Peixe e do arraial de Papagaio, dos Olhos dgua, da distante freguesia de Santo
Antnio do Curvelo, de onde, por exemplo, o alferes Francisco Moura Magalhes despachou
doze condenados para cumprirem penas de seis meses a um ano de degredo.243

Para se ter uma ideia do perfil dos degredados, em dois de julho de 1784 saam de
Mariana, para serem entregues a Antnio Veloso de Miranda, coronel-regente da Conquista
dos Arrepiados, Jos Manoel, pardo, Manoel Jos, pardo, Flis de Arajo Silva, pardo e
Francisco Pinto, crioulo, que sendo ferrador, no trabalhava pelo seu ofcio, mas sim, andava
desencaminhando vrias negras, fazendo-as fugir de casa de seus senhores, tendo-as ocultas
por algum tempo sem cuidar em outra vida mais do que passear, beber e jogar, o que foi por
um ano.244 A maioria das listas encontradas apresenta o mesmo perfil. Em geral
compunham-se de homens negros, pardos ou cabras e solteiros. O estado de casado, a
princpio, livraria o vadio do recrutamento forado. O alferes Magalhes, acima citado, do
Papagaio, que mais condenados enviou, levantou esta questo: Tambm neste distrito vivem
vrios vadios compreendidos na mesma ordem, casados, que supondo-se privilegiados pelo
estado, costumam utilizarem-se dos gados alheios, vivendo com procedimentos escandalosos.
Eu desejo que V. Excia. sirva determinar-me se estes tambm so compreendidos na dita
ordem [...]. Mais rigoroso foi o capito do Inficcionado que degredou por um ano os casados
Martinho Jos, pardo, e Alexandre, cabra, alegando que se encontravam divorciados de suas
mulheres.245 Mas nem todos os comandantes seguiram a determinao do governo.

243
Vide Anexo 3.
244
CARTA de Joo Caetano de Almeida, Mariana, dois de julho de 1784. APM-CC, caixa 150, planilha 21.454.
245
CARTA do alferes comandante do distrito de Papagaio Francisco de Moura Magalhes, Santo Antnio de
Curvelo, seis de julho de 1784. APM-CC, caixa 151, planilha 21.480. CARTA do capito comandante Manoel
da Silva Souza, Inficcionado, 20 de junho de 1784. APM-CC, caixa 153, planilha 21.509.
113

Foram consultadas cerca de trinta cartas dos comandantes distritais acusando terem
recebido as ordens de remessa de degredados no ano de 1784. Em pelo menos dezesseis
respostas, os oficiais de ordenana afirmaram no existirem vadios nos seus distritos, oito
listaram os degredados e os demais esquivaram-se, dizendo que receberam as ordens em
atraso ou somente acusaram o seu recebimento, no tomando nenhuma providncia. Assim, o
capito Antnio Nunes de Resende, da Capela da Laje, afirmou que no seu distrito no
consta nenhum com este perfil.246 Ora, o relativo sucesso desses recrutamentos deveu-se ao
fato de que nos povoados, em regra, os vadios mais nocivos eram rapazes protegidos por
figures, criados em casas ricas, e muitos filhos bastardos de gente poderosa.247 Os
poderosos no poderiam ficar de todo desprevenidos de seus marginais que, em alguns
momentos, lhes poderiam ser teis. Outra possvel explicao para no ter sido o
recrutamento de maior xito, foi que nos anos de 1781 e 1782 o governador anterior, D.
Rodrigo de Meneses, j havia adotado a mesma prtica para povoar o Cuiet, o que, de fato,
pode ter deixado os distritos livres de muitos indesejados. Como informa Diogo de
Vasconcelos, s do Serro lhe vieram 53 recrutas, como consta da lista fechada no ofcio de 4
de setembro de 1782.248

As penas arbitradas aos vadios foram de seis meses a um ano de degredo, mas muitos
no voltavam do desterro. Teriam seu tempo de servio dilatado, morreriam de fome, febres
ou flechas ou, simplesmente, desertariam, internando-se naqueles matos.249 O pardo Flis de
Arajo Silva foi degredado de Mariana por um ano pelo capito Joo Caetano de Almeida
por ser sua vida furtar bestas e cavalos e ainda outras coisas de mais considerao. Lus
Gomes Pereira, do Papagaio, teve um pouco mais de sorte e foi mandado a ferros por seis
meses por ser vadio desencaminhador de gados alheios.250 Na Inglaterra, a Lei Negra de

246
CARTA do capito comandante Antnio Nunes de Resende, Laje, cinco de junho de 1784. APM-CC, caixa
154, planilha 21.535.
247
VASCONCELOS. Histria Mdia de Minas Gerais, p. 254.
248
VASCONCELOS. Histria Mdia de Minas Gerais, p. 254.
249
Coincidncia ou no, em muitos municpios da regio leste de Minas Gerais, sobretudo na divisa com o
Estado do Esprito Santo, ainda hoje assustadora a presena de pistoleiros, com os quais se pode encomendar
mortes por motivos diversos (polticos, disputas por terras, limpeza da honra etc.).
250
CARTA de Joo Caetano de Almeida, Mariana, dois de julho de 1784. APM-CC, caixa 150, planilha 21.454.
CARTA do alferes comandante do distrito de Papagaio Francisco de Moura Magalhes, Santo Antnio de
Curvelo, seis de julho de 1784. APM-CC, caixa 151, planilha 21.480.
114

1723, que existia para preservar a propriedade e, incidentalmente, as vidas e liberdades dos
proprietrios condenava pena capital aqueles que roubassem cavalos ou gados.251

Alm dos subterfgios que os oficiais de ordenanas encontravam para no remeter os


facinorosos de seus distritos, as autoridades enfrentavam outro problema: a desero. Ao se
verem em lugares to ermos e amedrontadores, muitos desertavam, desaparecendo pelos
matos. O coronel-regente da Conquista dos Arrepiados, Antnio Veloso de Miranda,
informava ao governador, em carta de 26 de julho de 1782 do Presdio da Casca:

[...] Neste meio tempo se me avisou dos Arrepiados da desero dos


pedestres da relao junta, originada de mau exemplo e orgulho dos
primeiros seis do Sumidouro. [...] As principais causas destas desordens so:
o nenhum cuidado dos comandantes em fazer prender os desertores, pois de
quarenta e nove que no meu tempo tm desertado, nem s um aqui tornou,
sendo outra causa a vizinhana do povoado.252

Os governadores e as autoridades que administravam as novas conquistas no


desistiram dos degredados como alternativa para ocupar os sertes. Ainda em 1807, 23 anos
aps a iniciativa de D. Lus da Cunha Meneses, Manoel Rodrigues escrevia da Barra do
Cuiet ao governador Pedro Maria Xavier de Atayde e Melo, pedindo que lhe fossem
remetidos remdios, plvora e degredados.253 Remdios para os males do serto, plvora
contra os gentios bravos e vadios para a rdua tarefa de abrir picadas nos matos.

A construo de estradas foi uma das principais estratgias de ocupao dos sertes
orientais. Antes de sua abertura, o acesso queles sertes s era possvel descendo o rio Doce
em canoas e subindo pelos seus afluentes da margem direita que em alguns pontos eram
encachoeirados. Estradas que, a princpio, no passavam de picadas na mata por onde s
poderiam transitar pedestres, tais caminhos foram sendo alargados permitindo a passagem de
cavalos e mulas, facilitando o transporte das cargas que antes seguiam na cabea dos escravos
e dos ndios mansos.

251
THOMPSON. Senhores & caadores, p. 21-25.
252
CARTA de Antnio Veloso de Miranda, Presdio da Casca, 26 de junho de 1782. APM-CC, caixa 150,
planilha 21.446.
253
CARTA de Manuel Rodrigues [corrodo] para Pedro Maria Xavier de Atade e Melo, Barra do Cuiet, 14 de
maio de 1807. APM-CC, caixa 17, planilha 10.358.
115

As dificuldades eram as mais variadas. Para os pioneiros a alimentao talvez fosse


um dos maiores problemas, atrasando e limitando a extenso das viagens. Joo Pereira
Martins e Antnio Lopes dos Santos, que j eram fazendeiros estabelecidos em suas sesmarias
prximas barra do rio da Casca desde, pelo menos 1773 e 1768,254 relataram a D. Rodrigo,
em 13 de setembro de 1780, a expedio que fizeram no rio da Casca e barra do rio S. Ana em
busca de ouro.

Em o dia treze do presente ms de setembro recebemos a esmola do


mantimento que V. Excia. foi servido mandar. Esta se foi buscar ao rio da
Casca e barra do S. Ana pelos carregadores que c se acham, acompanhados
de oito soldados para sua guarda. Nesta jornada, por ida e volta, gastaram
oito dias e, por falta de carregadores que so s dezoito, no veio de uma vez
tudo, motivo este porque tornamos a mandar parte dos mesmos barra de S.
Ana e rio Casca buscar o resto do provimento e que, de caminho, plantassem
a roa que j l est queimada [...].255

Aos governadores e expedicionrios, nunca deixou de ser o motivo principal a busca


de novos descobertos minerais, cujas experincias, que em alguns casos pareciam
promissoras, logo mostraram-se frustrantes. provvel que o nico descoberto de maior vulto
tenha sido o das cachoeiras de Macacu, j no territrio do Rio de Janeiro, mas suas principais
ligaes e picadas encontravam-se em Minas, visando a garantir a sua clandestinidade.

Sobre o descoberto do Macacu e sua principal liderana, Manuel Henriques, por


alcunha o Mo de Luva, j escreveram Diogo de Vasconcelos256 e Carla Anastasia. Esta inova
ao abordar a questo dos conflitos entre as autoridades portuguesas o vice-rei Lus de
Vasconcelos e Lus da Cunha Meneses, governador de Minas. Cunha Meneses era acusado
pelo vice-rei de transigir com os criminosos e criar empecilhos explorao oficial daquelas
minas.257 O descoberto do Macacu, considerado rea proibida para minerao, foi atacado
pelo sargento-mor Pedro Galvo, em 1786, por ordem do governador Lus da Cunha Meneses,
sendo suas lideranas presas e seus bens sequestrados. O Mo de Luva, acusado de
facinoroso, gozava de bastante crdito junto ao coronel-regente da Conquista dos Arrepiados

254
CARTA de sesmaria de Joo Pereira Martins. APM-SC 172, fl. 167 verso; CARTA de sesmaria de Antnio
Lopes dos Santos. APM-SC 156, fl. 111 verso.
255
CARTA do padre Manuel Lus Branco, Joo Pereira Martins e Antnio Lopes dos Santos para D. Rodrigo
Jos de Meneses, 13 de setembro de 1780. APM-CC, caixa 146, planilha 21.379.
256
VASCONCELOS. Histria Mdia de Minas Gerais, p. 277-281.
257
ANASTASIA. A geografia do crime, p. 96-104.
116

Antnio Veloso de Miranda que, em 18 de abril de 1782, escreve da Barra do Bacalhau ao


governador nos seguintes termos:

Ponderando, agora, a necessidade, principalmente, de pessoas aptas para


dirigirem e capitanearem as bandeiras, a utilidade que resulta, quando com
satisfao exercitam este emprego, e a [ilegvel] escolha que exigem certos
passos impreterveis e da primeira importncia, dos quais V. Excia. me fez a
honra [de] encarregar, devo por na presena de V. Excia. a capacidade e
atividade de Manoel Henriques, vulgo Mo de Luva. Ignoro se tem lugar
distrair-se dos seus primeiros passos, mas me figura assaz interessante a sua
entrada na Conquista, sendo possvel.258

Apesar dos insucessos do descoberto do Macacu, a sua existncia estimulou a abertura


de caminhos para a sua manuteno e, inclusive, destruio. Interessam-nos no tanto os
relatos sobre os descobertos, mas o considervel trnsito de pessoas, animais e mercadorias
para o sustento dos mineradores. Na noite do dia 12 de maio de 1784, o sargento-mor Pedro
Afonso interrogou trs homens que conduziram mantimentos para as pessoas que se acham
no novo descoberto do rio Veado. O rio Veado no existia. Tratava-se de um nome fictcio
do Macacu, para enganar as autoridades. Joo Batista Ferreira, morador no Rio da Pomba,
disse ter gasto oito dias de viagem por serem vinte quatro lguas de mau caminho e que a
picada terminava antes de chegar ao descoberto. Joo Batista, Joo Carneiro e Francisco Jos
haviam conduzido 84 bestas carregadas e 17 escravos. O sargento-mor ainda foi informado
que Manoel Gonalves mandara dois negros para o novo descoberto. Disse-lhe Joo
Ribeiro, morador no ribeiro da Pacincia, ao p da capela das Mercs que mandou dois
filhos e quatro bestas com mantimentos na companhia de Francisco Machado de Miranda,
morador na mesma capela, que entrou com um filho, um escravo, um camarada e oito bestas
carregadas. Na companhia de Miranda foram tambm um irmo e um filho de Francisco de
Barros, um negro e trs bestas carregadas. Joo Ribeiro declarou ainda que tambm sabe
foram para o dito descoberto o alferes da ordenana do distrito da Pomba Antnio Francisco
Ribeiro, o alferes Jos lvares Maciel do distrito do Chopot e levaram em sua companhia o
alferes Rodrigo Moreira do distrito da Piranga, e que levaram escravos e cargas de
mantimentos que dizem ser trinta bestas.259

258
CARTA de Antnio Veloso de Miranda, Barra do Bacalhau, 18 de abril de 1782. APM-CC, caixa 150,
planilha 21.446.
259
CARTA do sargento-mor Pedro Afonso Galvo de [So] Martinho para Luiz da Cunha Meneses, So Manuel
do Pomba, 12 de maio de 1784. APM-CC, caixa 13, planilha 10.266.
117

Pelos relatos transcritos acima, possvel se ter uma ideia parcial da movimentao
pelas picadas do serto do Pomba. Picadas largas que j comportavam o trnsito de alimrias
carregadas. Importante observar que certamente no seriam picadas abertas com patrocnio do
Estado, j que conduziam para as mineraes clandestinas. Transitaram por essas picadas, a
darmos crdito a esses relatos, no mnimo 129 bestas carregadas e 21 escravos. Bestas e
escravos que levavam farinha, feijo, arroz, toicinho e outras fazendas mais, secas e
molhadas. A denncia da presena dos alferes de ordenanas demonstra o quanto o poder
oficial no poderia confiar nos milicianos, prontos para se aventurar, em busca de riquezas,
pelos matos vedados contra as ordens do Estado portugus. Isso foi o que disse o prprio
sargento-mor Pedro Afonso, nos seus preparativos para atacar o Macacu: necessrio que V.
Excia. me mande doze soldados [...] que se no devem (sic) fiar de auxiliares e
ordenanas.260

Os experimentos minerais indicavam que a vocao da regio no seria para a


minerao, apesar de as entradas para a descoberta de ouro continuarem at os ltimos anos
do sculo XVIII e primeiros XIX.261 Porm, j em 1784, por ocasio dos inquritos que o
sargento-mor Pedro Afonso Galvo de So Martinho fazia nas localidades entre os rios
Pomba e Paraba, com vistas a controlar o descoberto do Mo de Luva, o padre Manoel de
Jesus Maria dissera que o feitor do guarda-mor Manoel da Motta de Andrade tem entrado em
algumas suas (sic) nos sertes do rio da Pomba, com escravos e mantimentos at o sul do rio
Novo, explorar se h ouro e at o presente no tem achado ouro que faria conta e que tudo
muito pobre.262 No mesmo inqurito, o sargento-mor Pedro Afonso ouviu do alferes Joaquim
Jos, o Tiradentes, que:

260
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 13, planilha 10.266.
261
CARTA de Jos de Deus Lopes, do Presdio de So Joo Batista, relatando exploraes feitas no rio Pomba e
Buruye. 1797. APM-CC, microfilme rolo 506, planilha 10.349; REQUERIMENTO do capito do distrito do Rio
da Pomba e Peixe, do termo da vila de Barbacena, Manoel Monteiro de Pinho, solicitando licena para entrar,
procurar e descobrir ouro neste serto do Rio da Pomba e Peixe at s margens e barrancas da Paraba. Petio
indeferida pelo governador, face proximidade com a capitania do Rio de Janeiro. 14 de novembro de 1806.
APM-CC, microfilme rolo 544, planilha 21.390.
262
CARTA do sargento-mor Pedro Afonso Galvo de [So] Martinho para Luiz da Cunha Meneses, So Manuel
do Pomba, 12 de maio de 1784. APM-CC, caixa 13, planilha 10.266.
118

O capito Francisco Gonalves Lage, dono da dita fazenda de Medeiros, por


cuja picada passavam bestas de carga para o prover de mantimentos,
procurando terras de cultura e de ouro, na suposio de que se dariam estes
sertes assim como se davam os sertes da Mantiqueira e que no acharam
ouro nos ditos sertes do Pomba.263

As entradas s foram sendo franqueadas lentamente na regio do Pomba, medida que


as autoridades percebiam o esgotamento das minas e a falta de sentido em se restringir a
ocupao das reas antes consideradas proibidas. A poltica de restrio para algumas
localidades continuou at o princpio do XIX. Enquanto se estimulavam os experimentos
minerais no Cuiet, nos Arrepiados e no rio da Casca, por serem mais interiores, proibiam-se
as entradas com este mesmo fim no Rio Pomba. Acreditavam as autoridades que ali, pela
proximidade com as estradas do Rio de Janeiro, o risco do descaminho do ouro no s o que
ali se achasse, como tambm o de outras regies mineradoras era muito maior. Essa
proibio era relativa, uma vez que as entradas oficiais, em parte patrocinadas pelo governo e,
na maioria das vezes, custa das fazendas particulares, no deixavam de acontecer.

Em 23 de julho de 1797, o cabo Jos de Deus Lopes partiu com quarenta homens do
Presdio de So Joo Batista. Percorreram dez lguas at o Porto das Canoas e mais 12 de
canoa at a barra do Pomba com o Paraba. Relatou ao governador, em pormenores, as
distncias que percorreram, o encontro com gentios Puris e com os religiosos Barbonos (sic)
no aldeamento de So Fidlis. O principal objetivo de sua entrada seria dar informaes sobre
caminhos, distncias e povoamento, tanto que ao final, mapeou toda a distncia que separava
o litoral do Rio de Janeiro de Vila Rica.264 Seu relato demonstra como as sesmarias foram
sendo distribudas nas terras antes ocupadas pelo gentio Puri. Sesmarias cujas doaes feitas
pelo governador Bernardo Jos de Lorena seriam mais tarde contestadas e algumas anuladas
por terem sido dadas em terras indgenas. Os sesmeiros deixaram as terras? mais certo que
no, conforme escreveu o cabo ao governador.

263
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 13, planilha 10.266.
264
Distncias e sesmarias medidas da parte do sul, dadas pela Capitania do Rio de Janeiro. Vide Anexo 4.
CARTA de Jos de Deus Lopes sobre o relato das exploraes feitas no rio Pomba e rio Buruy, Presdio So
Joo Batista, julho de 1797. APM-CC, caixa 17, planilha 10.349.
119

Acha-se povoado de So Fidlis para cima 2 lguas da parte do sul [da]


capitania do Rio de Janeiro e sesmarias medidas [a]t acima da Barra do
Pomba; e da parte norte desta capitania [a]t acima de So Fidlis, lgua e
meia, pouco mais ou menos, acha-se j povoado e com sesmarias medidas e
pedidas [a]t a cachoeira grande do rio da Pomba, que fica acima da barra 5
lguas, pouco mais ou menos. Pelo [rio] Buruye acima, j se acham 12
engenhos com sesmarias de lgua e os ndios Puris ficam pelo mesmo
Buruye acima [...].265

As dificuldades em se estabelecer e permanecer no serto levaram muitos dos que


entravam e pediam sesmarias a fazerem-no exclusivamente no intuito de acumular terras,
como foi possvel observar na conquista empreendida por Incio Correia Pamplona e seus
seguidores nos sertes do So Francisco. O relato do coronel Antnio Veloso, para os
Arrepiados, s vem a confirmar a tese de que a terra era dada, muitas vezes, queles que dela
no precisavam. Como era de se esperar, os nomes dos degredados, de forma alguma,
aparecem como requerentes de sesmarias. O coronel, sempre queixoso dos enormes trabalhos
para fazer aquele serto produzir frutos agrcolas, mesmo representando a elite rural,
desabafou:

No devo tambm calar a V. Excia. que quase todas as terras daquela


Conquista [Abre Campo] e grande parte tambm desta [Arrepiados], se tem
tomado por sesmaria, no s por pessoas de medianas posses, mas pelos
mais ricos e da primeira graduao, sem que tenham jamais cultivado
palmo de terra, ainda sendo-lhes ordenado pelo Ilmo. e Exmo. Sr. D.
Rodrigo Jos de Meneses, por ambio as tomaram. No as cultivam nem as
deixam cultivar outros que o fariam certamente. (grifos nossos)266

Havia, porm, um certo descompasso entre as autoridades da capitania e os colonos


quando o assunto era a abertura ou no dos sertes. Em dois de junho de 1780, o capito
comandante do distrito de Ibitipoca, Manoel dos Santos e Castro, escreveu a D. Rodrigo Jos
de Meneses, dizendo que tinha publicado o edital do governo proibindo aos moradores do
distrito de entrarem para o serto do rio da Pomba. Na mesma carta, todavia, o capito
informou que mais de 80 pessoas j haviam passado para o serto a partir de Simo Pereira,
distrito que margeava o Caminho Novo, prximo ao Rio de Janeiro.267 O mesmo comandante,

265
CARTA de Jos de Deus Lopes sobre o relato das exploraes feitas no rio Pomba e rio Buruy. Presdio So
Joo Batista, julho de 1797. APM-CC, caixa 17, planilha 10.349.
266
CARTA de Antnio Veloso de Miranda, Presdio de So Loureno, 20 de novembro de 1783. APM-CC,
caixa 75, planilha 20.023.
267
CARTA do capito comandante Manoel dos Santos e Castro para D. Rodrigo Jos de Meneses, Ibitipoca, dois
de junho de [Link]-CC, caixa 147, documento 01, planilha 21.384 .
120

em 26 de maio daquele ano, havia publicado em edital, que tinha recebido ordens do ouvidor
geral e corregedor da Comarca do Rio das Mortes, doutor Luiz Ferreira de Arajo Azevedo,
para que se informasse das faisqueiras e pintas de ouros (sic) que h em os Gerais Vedados,
acometidos proximamente pelos povos, para a vista do que houver se deliberar tal
acometimento. O edital ainda mandava que fossem fechadas todas as entradas aos Gerais
Vedados. Em 27 de julho de 1780, tomou essa providncia o sargento Joo de Souza
Monteiro que, aps feita a leitura do edital em voz alta na entrada das missas de Ibitipoca e
Santa Rita, informou que havia fechado todas as entradas que haverem (sic) para os matos
gerais vedados, derrubando matos sobre elas e entupindo no modo possvel.268

Em 1803, Antnio Coelho de Souza requeria autorizao para minerar no rio da


Pomba. A cmara de Mariana, atendendo a consulta do governador, desqualificou a petio
do suplicante nestes termos:

Ilmo. e Exmo. Senhor,

Suposto seja til aos reais interesses e ao pblico a extrao do ouro e o


descobrimento dos lugares que abundem dele, contudo, no convm, por ora,
conceder-se ao suplicante Antnio Coelho de Souza a autoridade que
pretende, porquanto da freguesia da Pomba aos Campos dos Goitacases h
uma pequena distncia e, abertos por a os caminhos, que com muita
facilidade se abriro, havendo concurso de povo para o dito descobrimento,
se facilita o extravio do ouro em p, no s que se extrair na dita freguesia,
mas em a maior parte das Minas, lesando-se, assim, a Sua Alteza Real; e no
se poder acautelar com muita facilidade o dito extravio, por serem muito
vastos os sertes da Pomba e, quando procedidas todas as cautelas
necessrias, se houvesse de conceder a dita explorao, tambm seriam
outras as providncias que se incumbiriam a sujeitos mais idneos que o
suplicante. Mariana em Cmara de 12 de novembro de 1803. (grifos
nossos)269

Em 1807, o governador j no mais se reportou cmara e indeferiu imediatamente a


petio do capito do distrito da Pomba e Peixe, Manoel Monteiro de Pinho, que solicitava
permisso para procurar ouro at a barra do Paraba.270

268
CARTA do sargento Joo de Souza Monteiro, 27 de julho de 1780. APM-CC, caixa 147, documento 03,
planilha 21.384.
269
CARTA dos oficiais da Cmara de Mariana, Vila Rica, 12 de novembro de 1803. APM-CC, caixa 75,
planilha 20.024.
270
REQUERIMENTO do capito do distrito do Rio da Pomba e Peixe, termo da vila de Barbacena, Manuel
Monteiro de Pinho, quatro de fevereiro de 1807. APM-CC, caixa 102, planilha 20.502.
121

Restava, ento, ocupar a terra e fazer o seu amanho, transformando as matas em


roados, ampliando as fronteiras agrcolas da capitania. O padre Manoel Lus Branco, capelo
da entrada que se fez nos Arrepiados, por volta de 1780, j dizia que o serto sadio, tem
muitas aguadas e boas, as terras lavradias no so to boas beira-rio, tendo-as bem boas para
os lados.271 No princpio, at mesmo o extrativismo de plantas medicinais puayas272
esteve presente, aproveitando-se o conhecimento que os povos indgenas tinham da mata. O
padre Manoel de Jesus Maria queixava-se ao governador de que os comerciantes de puayas
engabelavam os ndios com cachaa e os afastavam de suas aldeias, desamparando suas
famlias, para que pudessem coletar as plantas para eles.273 O extrativismo de plantas
medicinais, nos sculos XVII e XVIII, tambm foi uma das fontes de receita dos padres
jesutas em suas misses pela colnia afora. A exuberante mata atlntica que dominava o
serto oriental das Minas era um viveiro natural de puayas e ningum melhor do que os
gentios para conhecer sua flora e sua aplicao. O valor comercial dessas plantas no pode ser
desprezado, como bem nos informa Srgio Buarque de Holanda.

No largo aproveitamento da fauna e flora indgenas para a fabricao de


mezinhas, foram eles [os paulistas] precedidos, aparentemente, pelos
jesutas. Estes, antes de ningum, souberam escolher, entre os remdios dos
ndios, o que parecesse melhor, mais conforme cincia e superstio do
tempo. Mas s a larga e contnua experincia, obtida custa de um insistente
peregrinar por territrios imensos, na exposio constante a molstias raras,
a ataques de feras, a vinditas do gentio inimigo, longe do socorro dos fsicos,
dos barbeiros sangradores ou das donas curandeiras, que permitiria ampliar
substancialmente e organizar essa farmacopia rstica.274

No ano 1801, o padre Francisco da Silva Campos, proco do Presdio de So Joo


Batista, da futura freguesia de mesmo nome, que seria desmembrada da freguesia de So

271
CARTA do capelo Manuel Lus Branco. APM-CC, caixa 76, planilha 20.058.
272
A palavra puaya no foi encontrada nos dicionrios de lngua portuguesa, sendo consultado, inclusive,
Antnio de Morais Silva. Acreditamos tratar-se de palavra de origem tupi-guarani. O seu significado foi-nos
revelado em um requerimento de sesmaria que o padre Jesus Maria fez em 1783: [...] puayas que so razes que
produzem os matos do dito serto que so medicinais e muito procuradas e, por isso, atualmente seguem
negociando aos mesmos ndios para com eles negociarem as ditas puayas. REQUERIMENTO do padre Manuel
de Jesus Maria, 1782. APM-CC, caixa 87, planilha 20.251.
273
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do Mrtir So Manuel dos Sertes e Rio da
Pomba e Peixe, sem data. APM-CC, caixa 35, planilha 30.054.
274
HOLANDA. Caminhos e fronteiras, p. 76. Para uma viso maior do assunto, confira o captulo 6 Botica da
Natureza. AMANTINO. O mundo das feras, p. 62-63, ressalta a importncia que as autoridades metropolitanas
e coloniais, sobretudo o governador, conde de Valadares, davam ao aproveitamento e estudo das plantas e
animais do serto, certamente imbudos dos ventos iluministas que sopravam sobre Portugal na segunda metade
do sculo XVIII.
122

Manoel do Rio da Pomba em 1810, relatava ao Prncipe Regente sobre o estado miservel em
que se encontravam os ndios Coroados. Propunha ao Prncipe um projeto audacioso de
recuperao dos decadentes aldeamentos.

Em 12 folhas, apresentava a D. Joo a localizao da freguesia, a topografia, os rios,


os caminhos e, sobretudo, a riqueza da terra. Descrevia com detalhes as riquezas naturais que
a floresta oferecia em madeiras de lei, plantas medicinais, resinas, leos para tinturaria, frutas,
peixes e pedras preciosas. Mas apontava que o mais importante objeto desta empresa
segurar todos aqueles contornos das invases dos gentios que tm tornado desertas grandes
fazendas que seus donos abandonaram por no poderem resistir aos contnuos assaltos, roubos
e mortes. Dizia que a cristianizao dos Puris, apesar de sua resistncia, era possvel e
necessria, porque o ndio Puri principia a mostrar-se propenso ao nosso trato, e, estando ns
seguros da sua amizade, senhores do seu terreno, e ajudados da sua fora, poderemos
repulsar seno domesticar o ndio Botocudo, que de todos o mais feroz e antropfago
(grifos nossos).275

Propunha transformar, pela educao, o ndio Tapuia, talvez de todo selvagem


conhecido o mais estpido e rude, que, segundo ele, s seria reduzido ao trabalho se se
conseguisse inspirar-lhes amor pelas comodidades da vida e inocular nas suas almas, pelos
verdadeiros prazeres, o amor da propriedade, que eles no conhecem e que s [assim se]
capaz de faz-los sair da apatia natural em que vivem.276 No seu discurso ilustrado, chamava
o Prncipe Regente para a responsabilidade de colaborar na empresa que se propunha
encabear, pois, considerava que tudo quanto se dirige felicidade de uma nao, por isso
mesmo dirigido ao Prncipe, que pela Providncia lhe foi dada para reger; o Bem Pblico, que
o mais interessante objeto de um Prncipe, deve merecer-lhe toda a ateno.277

Oferecia-se, ento, para aldear 3.000 ndios. A proposta previa aldeamentos com 150
ndios cada. A construo de casas, igrejas e escolas dar-se-ia, a princpio, com o auxlio de
72 escravos, sendo 62 homens e 10 mulheres. Do total, 60 seriam rudes e novos para o

275
AVISO do secretrio do Conselho Ultramarino Jos Gomes de Carvalho aos governadores e vice-
governadores do Brasil referente criao de escola para catequizar os ndios de Minas Gerais sobre a
coordenao do padre Francisco da Silva Campos, Lisboa, 18 de setembro de 1801. APM-CC, caixa 109,
planilha 20.626.
276
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 109, planilha 20.626.
277
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 109, planilha 20.626.
123

trabalho no eito, e doze que tenham alguma instruo de lavrar madeiras de machado e enx
debaixo do risco de um mestre, necessrios para as edificaes.

Tudo era matematicamente calculado. At que os ndios estivessem civilizados, sua


alimentao seria garantida pelo trabalho escravo. Esse trabalho, ao final de dois anos, deveria
tambm ser suficiente para pagar o custo da compra dos cativos. Esta compra se daria com um
emprstimo da Real Fazenda, tanto quanto lhe for necessrio, de oito a dez contos de ris,
dando fiadores abonados dita quantia. Propunha pag-la deduzindo os gastos que teria com
o sustento dos ndios, ou seja, no pagaria, pois, conforme seus prprios clculos, os escravos
gerariam recursos suficientes para este sustento. Uma outra alternativa que apresentava era
que os cativos fossem cedidos pelo governo que os traria de sua fazenda em Santa Cruz, no
Rio de Janeiro e, uma vez estabilizada a empresa, poderia o Prncipe vend-los com lucro.

O raciocnio matemtico do cura ilustrado estende-se, minuciosamente, por mais de


trs folhas. Sua previso de investimentos iniciais e gastos anuais por conta da Coroa, para
cada aldeamento de 150 gentios, em sntese, seria a seguinte:

Quadro 5
Planejamento do padre Francisco da Silva Campos para aldear 3.000 ndios no rio
Pomba (1801)
Investimentos Valor em ris
60 escravos rudes e novos a 100:000 ris 6:000$000
12 escravos ladinos a 200$000 ris 2:400$000
Total de 72 escravos 8:400$000
Engenhos de fazer farinha e fiar e moinhos de serrar madeiras 710$000
Total geral de investimentos 9:110$000
Despesas anuais com salrios por conta da Real Fazenda Valor em ris
Cura 300$000
Regente 300$000
Ajudante do regente 200$000
Mestre de leitura 250$000
Dois feitores 200$000
Cera, hstias e vinho 30$000
Total das despesas anuais da Real Fazenda 1:280$000
Fonte: APM-CC, caixa 109, planilha 20.626.
124

Fazia dois clculos rpidos da auto-sustentao da empresa, que tambm chamava de


companhia. Cada escravo cultivaria um alqueire de planta de milho que d, ordinariamente,
naquele terreno 125 alqueires + uma quarta de feijo que d dez ou 12 alqueires + dois pratos
de arroz que do 12 ou 13 alqueires. Tudo isto seria suficiente para sustentar trs ndios e o
cultivador, ou seja, quatro pessoas durante o ano e criarem-se quatro ou cinco cevados e
galinhas. Cada cativo tambm cultivaria algodo suficiente para os 4 se vestirem. Vai alm,
ao pensar numa escala proto-industrial de tecelagem com teares movidos a fora hidrulica.
Afirmava que um escravo novo fiaria em um engenho tocado por gua 200 varas de pano que
seriam suficientes para vestir 12 pessoas. Pensando no comrcio dizia que cada vara de pano
naquele pas, custa trezentos ris que, multiplicados por 200, importa em sessenta mil ris e,
em dois anos, est pago o valor do escravo com vinte mil ris de lucro.278

A Coroa deveria ainda concorrer com sal, ferramentas, pregos e ferros para as
construes e arcar com os salrios anuais dos padres, mestres das escolas e inspetores.
Calculava um custo anual de oito a dez contos de ris. O curioso era que a empresa, como
ele mesmo dizia, deveria se auto-sustentar e ser capaz de pagar o investimento real. Se a
proposta fosse do agrado do Prncipe Regente, seria, ento, apresentada ao governador.
Amparado nos insucessos anteriores, que acreditava terem sido fruto da improbidade dos
administradores, e na superao dos escandalosos, horrorosos e notrios abusos que se tem
cometido sobre a educao dos Tapuias, apresentou:

O seu plano da administrao e educao, que compreende as pessoas a


empregar, os ofcios de cada um, o trabalho dos ndios, o ensino de artes e
ofcios respectivos, a agricultura do pas e civilizao deles, fundado tudo
sobre a probidade e boa f mais abalizada para atrair os nimos daqueles
brbaros que, uma vez escandalizados se tornam indomveis, quando o amor
e a caridade fazem sempre mais do que a fora das armas. (grifos nossos)279

Tudo parecia muito perfeito e desinteressado at que terminou a exposio suplicando


para sua famlia o monoplio da negociao do tabaco e do fumo por dez anos em toda a
capitania e, at a sua morte, nas comarcas de Vila Rica, Cidade de Mariana, So Joo del-Rei
e Sabar. Alegava que todo o interesse da dita negociao [era] em razo de poder
estabelecer a dita colnia e fazer as despesas necessrias. Pede ainda a nomeao dos seus

278
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 109, planilha 20.626.
279
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 109, planilha 20.626.
125

irmos Joo Romeiro Furtado de Mendona como diretor dos ndios, com a graduao de
coronel ou capito-mor, e de Joaquim da Silva Campos como tenente-coronel ou capito
comandante do distrito.

Em 18 de setembro de 1801, D. Joo, aps despachos do Conselho Ultramarino de trs


e 21 de agosto do mesmo ano, e de ter se informado com o visconde de Barbacena, ordena ao
vice-rei do Brasil e outras autoridades da capitania de Minas que informassem sobre este
estabelecimento de que faz meno, para catequizao, civilizao e arranjamento dos ndios
da capitania de Minas Gerais, sobre o merecimento do suplicante, qualidades e luzes e sobre
frutos esperveis do que prope.

Parece que o audacioso projeto, como planejado, no saiu do papel. Waldemar


Barbosa, sempre bondoso com algumas figuras nebulosas da colnia, escreveu que o religioso
foi outro extraordinrio apstolo, que dedicou sua existncia catequese e defesa dos ndios,
cujo nome deveria constar entre os benfeitores da ptria.280 Que teria catequizado e ensinado
a agricultura aos ndios, intercedendo por eles diversas vezes junto s autoridades no se pode
negar. Acontece que, segundo Waldemar Barbosa, a freguesia foi visitada, em 29 de agosto de
1823, pelo bispo de Mariana, D. Frei Jos da Santssima Trindade, que l encontrou 3.190
almas, das quais somente 104 ndios. O que teria acontecido com os trs mil selvagens que
padre Francisco Campos pretendia educar? Seria um nmero fantasioso? Continuaram pelas
matas, internando-se cada vez mais para o norte, fugiram dos aldeamentos ou passaram pelo
processo de branqueamento, transformando-se nos muitos empregados, agora sem terras, que
comearam a aparecer nas listas de portugueses fazendeiros da regio no final da segunda
dcada do sculo XIX?

O que outro documento, sem data, apontou foi que o padre que desejava educar os
gentios, caminhava na contramo de alguns religiosos e autoridades locais que condenavam o
uso da cachaa pelos ndios. Ao defender a construo de engenhos justificava, entre outras
razes, que:

280
BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais, p. 370.
126

A produo de aguardente, to necessria no uso domstico e em cura dos


feridos em que faz toda a consolao dos pobres cativos e dos mesmos
ndios, que facilmente e de muito boa vontade a permutariam pela
preciosssima puaya, cera, mel, blsamos e outros gneros em que negociam
e, de ordinrio, bem tola e perdidamente, e tambm pelo algodo e
galinhas e pelo mais para que a experincia lhes daria indstria e estmulo e
ambio. (grifos nossos)281

Diferentemente dos sertes do So Francisco, as caractersticas da conquista das matas


orientais no favoreceram o surgimento de potentados e proprietrios de terra da envergadura
do mestre-de-campo Incio Correia Pamplona, do capito Manoel da Silva Brando e do
capito-mor de Tamandu Joo Quintino de Oliveira. O exame inicial da documentao nos
indica um maior fracionamento do poder entre diversos potentados, dos quais destacaremos
alguns, sobretudo, pelo papel que desempenharam no enfrentamento com os povos indgenas
e desbravamento das matas.

2.3 Padre Manuel de Jesus Maria: um fazendeiro na catequese e


aldeamento dos Corops e Coroados

Mesmo que possamos dar algum crdito s boas intenes originais de civilizao dos
ndios promovida a partir do perodo pombalino, possivelmente, resultado dos ventos
iluministas que sopravam sobre Portugal, houve, por trs de tudo, outros interesses que no s
o bem estar dos selvagens. O aldeamento dos ndios e a criao dos Diretrios282 para
administr-los datam, na regio, de 1768.

A princpio, os governadores e colonos investidos de alguma autoridade praticaram


uma poltica diferente da que se praticou nas Minas da segunda metade do sculo XVII para a

281
REQUERIMENTO do padre Francisco da Silva Campos, sem data. APM-CC, caixa 110, planilha 20.645.
282
Sobre o Diretrio dos ndios de 1757 e demais legislao indigenista portuguesa, sugerimos a leitura de
PERRONE-MOISS. Histria dos ndios do Brasil, p. 115-132. No caso especfico do Diretrio dos ndios,
elaborao do perodo pombalino, um de seus princpios bsicos foi a assimilao definitiva dos ndios aldeados,
incentivando a presena de brancos nas aldeias para acabar com a separao entre uns e outros, com vistas
civilizao dos ndios e explorao do seu trabalho. necessrio esclarecer que o Diretrio dos ndios foi
abolido em 1798, ainda que muito de seus preceitos continuassem vigorando em algumas regies, at o sculo
XIX. O prprio padre Manoel de Jesus Maria continuava a recorrer a ele, no ano de 1805, na sua queixa contra o
alferes Eugnio Jos da Silva e outros. REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do Mrtir
So Manuel dos Sertes e Rio da Pomba e Peixe, sem data. APM-CC, caixa 35, planilha 30.054.
127

primeira do XVIII. Poltica que acabou descambando para a explorao da mo de obra,


aculturao forada, ocupao das terras e, por fim, a guerra de extermnio que o Prncipe
Regente D. Joo declarou, em 1808, aos Botocudos que resistissem aos aldeamentos.

No alvorecer das Minas, a prtica levada a cabo, principalmente por bandeiras


paulistas, foi a do apresamento dos gentios mais dceis e o extermnio dos mais resistentes.
Na banda ocidental da capitania, regio do So Francisco, os povos indgenas que escaparam
das razias dos paulistas, fugiram mais para o interior do continente e foram caados como
feras ou se transformaram nos sequazes dos potentados que ali existiram. Quando D. Maria da
Cruz desafiou a Coroa portuguesa nos motins do serto do So Francisco, em 1736, ela e seus
parentes tinham sob seu comando um bando de ndios flecheiros. S o rgulo Domingos do
Prado Oliveira, seu cunhado, administrava 500 arcos.283 Da mesma forma agia o padre
Antnio Curvelo de vila, vigrio colado do arraial de Matias Cardoso que, segundo Diogo
de Vasconcelos foi energmeno terrvel e reclamava a posse e a jurisdio paroquial sobre
uma extenso redonda de mais de 300 lguas.284 Tambm o Estado portugus arregimentava
gentios nos corpos militares. Foi o prprio Incio Correia Pamplona, em suas andanas pelas
cabeceiras do rio So Francisco, que se deparou diversas vezes com esquadras de soldados da
capitania de Gois formadas por ndios de nao Bororo.285

As prprias condies ambientais dos sertes orientais criariam uma situao


diferenciada de enfrentamento dos selvagens. Se, a partir do macio do Espinhao para oeste,
predominavam os campos com suas faixas de florestas nem sempre contnuas, do Espinhao
para leste as florestas densas e de rvores de grande porte, em um terreno acidentado, por si s
facilitavam a resistncia dos ndios e atrasavam a conquista dos brancos. Os ndios que
habitavam as margens do So Francisco j tinham dois sculos de contatos frequentes com os
europeus, diferentemente dos selvagens da regio que ora estudamos, cujo isolamento era,
sem dvida, maior. As notcias que vinham dos sertes muitas delas aumentadas pela
ignorncia da populao de pessoas mortas a flechadas ou devoradas pelos Botocudos,
povoavam as mentes dos colonos e os amedrontavam. Essas empresas arriscadas e temidas
por muitos faziam com que aqueles que as enfrentavam ganhassem o respeito dos demais

283
ANASTASIA. A geografia do crime, p. 84.
284
VASCONCELOS. Histria Antiga das Minas Gerais, p. 338.
285
CARTA do mestre-de-campo Incio Correia Pamplona para D. Rodrigo Jos de Meneses, Desempenhado,
quatro de junho de 1781. APM-CC, caixa 144, planilha 21.333. Nesse extenso relato, Pamplona queixava-se da
presena de soldados de Gois na rea que considerava de sua regncia.
128

povo e autoridades e cobrassem o seu preo pelas despesas de conquista e pelos riscos a que
estiveram expostos.

Os ndios Corops e Coroados foram as naes que primeiro se submeteram


catequese e aldeamento. provvel que sua aproximao com os brancos se deva a
desvantagens que sofriam nos enfrentamentos com os Puris e Botocudos, naes mais
belicosas e hostis. Estes, por sua vez, internaram-se nas matas e foram mais avessos
catequese e civilizao. Muitos deles, principalmente os Botocudos, permaneceram no estado
primitivo at a segunda metade do Oitocentos, quando deles nos informa Tefilo Otoni
atravs da Notcia sobre os selvagens do Mucuri, escrita em maro de 1858. Os Corops e
Coroados j encontravam-se habitando regies mais prximas dos ncleos urbanos da
capitania, dentro do termo de Mariana. curioso observar que, em meados do sculo XVIII,
sua presena podia ser notada a menos de vinte lguas a leste de Vila Rica, onde
amedrontavam os fazendeiros que viviam nas franjas do serto devoluto do termo de Mariana.

O padre Manoel de Jesus Maria foi o responsvel pela criao da freguesia do Mrtir
So Manoel do Rio da Pomba e Peixe dos ndios Corops e Coroados, desmembrada da
freguesia de Guarapiranga.286 O religioso, que exerceu forte influncia por quase cinquenta
anos nesta freguesia, pode no ser somente o grande apstolo dos ndios, como escreveu
Waldemar Barbosa ou o novo Anchieta nas selvas, implantando o Evangelho e vencendo o
demnio do gentilismo na fala do catlico conservador que foi Diogo de Vasconcelos.287
Apesar de Diogo de Vasconcelos no citar as fontes a partir das quais constri a herica
histria do padre Jesus Maria, trabalhamos com os mesmos registros entre os documentos
avulsos da Casa dos Contos. De uma anlise mais atual dos documentos, com toda a
considerao pelo historiador que foi Vasconcelos, uma outra figura do religioso pode ser
revelada, mesmo que concordemos, at certo ponto, com a imagem positiva que dele ficou
registrada.

Padre Jesus Maria, de acordo com o esprito de seu tempo, catequizou e reduziu os
ndios Corops e Coroados em aldeamentos. Desses aldeamentos resultou a aculturao
forada desses povos da floresta, a ocupao silenciosa de suas terras e a sua transformao

286
Para a uma rpida notcia da histria remota da freguesia de Guarapiranga, sugerimos a leitura da
Informao das antiguidades da freguesia de Guarapiranga. Cdice Costa Matoso, p. 255-260.
287
BARBOSA. Dicionrio histrico-geogrfico de Minas Gerais, p. 370; VASCONCELOS. Histria Mdia de
Minas Gerais, p. 208.
129

em mo de obra barata para os colonos que em sucessivas levas repartiram o espao antes
ocupado pelos ndios em sesmarias. Coube aos aldeamentos capitaneados por uma autoridade
religiosa (padres seculares ou regulares) e outra civil (o diretor dos ndios) domesticar e tornar
dceis os antes brabos gentios. So eles, provavelmente, a curiosa categoria denominada
empregados que aparece, ao lado dos escravos, lavrando a terra de 69 famlias
portuguesas arroladas por Guido Thomas Marlire, capito diretor geral dos ndios nas
vertentes do rio Ub em 1819.288 Famlias de portugueses, alis, contra os quais os ndios
fizeram diversas queixas ao governador de que estavam invadindo suas terras.

Mais do que mo de obra barata, os indgenas podem ter sofrido um processo


dissimulado de escravido: a administrao. Segundo Maria Lenia Chaves de Resende,
usada como pretexto para inserir as populaes nativas no mundo civilizado e catlico, por
meio da catequese, a administrao funcionava como apropriao indiscriminada da fora de
trabalho das populaes nativas.289 Ainda de acordo com Lenia Resende:

Em vista das restries legais escravizao dos ndios, previstas por uma
srie de leis, os colonos em Minas Gerais acabaram reproduzindo o costume
secular do instituto da administrao. Isso significava que os colonos
assumiam a posio de curadores particulares dos ndios dados como
incapazes. Em contrapartida, obtinham a prerrogativa de, sob o pretexto de
catequizar os nefitos, exercer sobre eles todo o controle, sem que isso
pudesse ser caracterizado como escravido, que, como se sabe, feria os
princpios legais. De fato, contornavam, assim, os problemas de ordem
jurdica e moral, justificando a sujeio pela necessidade de administrar a
doutrina aos ndios infiis. Na prtica, escamoteavam a manuteno das
relaes escravistas.290

O padre Jesus Maria, se foi o defensor dos ndios, foi tambm dos brancos que com ele
entraram para o serto. Talvez a melhor qualificao que podemos atribuir ao religioso fosse a
de mediador.291 Protegeu os gentios da cobia desmedida dos colonos por terras e mo de
obra, protegeu os colonos aplacando a ferocidade dos ndios e auferiu vantagens para si
prprio. Acumulou terras e escravos. Das terras que recebeu gratuitamente, depois de
benefici-las com benfeitorias, vendeu quatro fazendas entre 1775 e 1790 como veremos

288
MAPA dos portugueses com cultura nas vertentes do rio Ub, territrio dos ndios Coroados, aplicao da
Capela de So Janurio. Guidoval, 1 de abril de 1819. APM-CC, caixa 80, planilha 20.131.
289
RESENDE. Histria de Minas Gerais, v. 1, p. 225.
290
RESENDE. Histria de Minas Gerais, v. 1, p. 224.
291
LEVI. A herana imaterial, p. 51, nota 3. Vide, sobretudo, o conceito de mediador discutido por Giovanni
Levi ao longo do captulo IV, p. 173-201.
130

adiante , vendeu outra parcela em data que no sabemos precisar292 e ainda morreu
proprietrio em 1811. Tambm foi mediador entre aquela sociedade composta, de um lado,
por ndios, escravos e colonos e de outro por um Estado incapaz de dar conta da
administrao colonial sem a participao de sujeitos como ele.

Um bom exemplo desse papel de mediador ns encontramos na petio que fez


diretamente a Lisboa a D. Rodrigo de Souza Coutinho em 27 de agosto do ano de 1799. Neste
documento, alegava defender os interesses dos ndios, mas em contrapartida, propunha usar os
ndios civilizados como escudo contra os renitentes Botocudos e Puris. Se os ndios mansos
no fossem inquietados em suas terras pelos sesmeiros, lucraria tambm o Estado porque,
segundo o padre, a quota anual de alguns mil cruzados que percebe Sua Majestade de
dzimos, que para o [ar]rematante j excede a seis mil cruzados, incomparvel ao interesse
que pode produzir a navegao, comrcio e extrao de gneros suprfluos pelo rio da Pomba
que se une ao Paraba do Sul e desgua no mar oceano. Depois de discorrer sobre todas as
promessas de riquezas daqueles sertes e sobre os riscos dos descaminhos dos impostos reais,
afirmava serem os ndios Corops e Coroados o melhor guarda das Minas naquele lado
contra as naes ferozes dos Puris e Botocudos, e por isso, os melhores soldados e
marinheiros para navegao e defesa dos rios da Pomba e Paraba. Continuava o padre
dizendo que, no obstante serem as terras indgenas indispensveis ao seu sustento e ao fato
de que a concesso de sesmarias dentro delas feria o disposto nos pargrafos 19 e 81 do
Diretrio dos ndios e mais ainda, que a ltima lei sobre as sesmarias, de 1795, encontrava-se
suspensa pelo Decreto de 10 de dezembro de 1796, a requerimento de partes, tem concedido
o governo atual das Minas no poucas sesmarias nas terras do Uv [Ub] em prejuzo dos
ndios. O documento tambm denuncia os conflitos de interesses do padre com os de outros
colonos invejosos que s aspiram desmembrar a sua freguesia, dividir os ndios e usurpar as
suas melhores terras.293

Mesmo que a ocupao das terras indgenas fosse inevitvel, o vigrio dos ndios tinha
em seu poder, desde dois de maro de 1768, um documento que lhe dava amplas garantias
para ocupar as ditas terras, no s a ele mas tambm aos seus protegidos. Esse despacho que

292
CARTA de sesmaria de meia lgua em quadra do padre Francisco da Silva Guerra, 26 de outubro de 1818. Na
referida carta, o peticionrio declarou serem terras devolutas que compem de capoeiras e matos virgens entre o
dito rio de So Manoel e as quais o suplicante houve por compra feita ao falecido vigrio Manoel de Jesus
Maria. APM-SC 377, fl. 223.
293
CARTA de Manuel Jesus Maria, vigrio dos ndios Corops e Coroados, para D. Rodrigo de Souza Coutinho,
27 de agosto de 1799. AHU - Projeto Resgate MG, caixa 149, doc. 062.
131

alcanou do governador Lus Diogo que foi quem lhe deu a tarefa de catequizar os ndios
era para ele to importante que teve o cuidado de requerer de cada um dos sucessores de Lus
Diogo a sua confirmao. Referendaram a petio o conde de Valadares em 29 de junho de
1768, Furtado de Mendona em 27 de setembro de 1773, D. Antnio de Noronha em 31 de
maio de 1775, D. Rodrigo em 22 de fevereiro de 1780 e Luiz da Cunha Meneses em 21 de
novembro de 1783. Talvez receoso de problemas com esta constante necessidade de
confirmao, Jesus Maria, por volta de 1780, dirigiu-se diretamente Coroa e, trs anos
depois, em 23 de janeiro de 1783, recebia de D. Maria I, por seu Conselho Ultramarino, a
ratificao do que requeria desde 1768 e que tinha o teor seguinte:

[...] Sejam atendidos em situar-se e possurem terras gratuitamente, dentro


dos sertes da nova freguesia ereta a favor dos ndios, aquelas pessoas que
tm trabalhado e ho de trabalhar em abrir o caminho que se est fazendo
para o novo aldeamento e aos que cooperaram e com grande trabalho
ajudarem em coisas conducentes ao aumento do aldeamento e cristianizao
dos ditos ndios, e para o suplicante poder persuadir que continuem em
ajudar com a certeza de no serem inquietados. (grifos nossos)294

O vigrio ganhava carta branca para si e para os seus e reclamava de quem mais
quisesse estabelecer-se na terra dos ndios. Assim fez nas diversas peties que encaminhou,
ora ao governador, ora a Lisboa, queixando-se dos muitos colonos que no s invadiam as
terras dos gentios, como tambm os escravizavam, ludibriavam, molestavam e os levavam
degradao pela cachaa. Em 1784, pedia providncias para que o alferes Eugnio Jos da
Silva e Joo de Almeida tirassem as suas criaes das capoeiras295 e plantaes dos ditos
ndios, que Joo Gracia sasse das invases que fizera e que o guarda-mor ngelo Gomes
no se fizesse senhor das terras da aldeia dos ndios herdeiros do falecido ndio Toms, que
se compem de muitas capoeiras e um grande laranjal.296

muito difcil saber at que ponto o religioso defendia as causas e, sobretudo, as


terras dos ndios. Ele, na verdade, atuava nos dois campos: ora defendia os colonos, ora

294
REGISTROS relativos posse de terra por parte do padre Manuel de Jesus Maria na freguesia de Mrtir So
Manuel, dos Sertes do Rio da Pomba e Peixe, aldeamento e catequizao dos ndios no perodo de 1768 a 1813.
APM-CC, caixa 109, planilha 20.629.
295
GUIMARES. Dicionrio da terra, p. 90. Capoeira a denominao empregada para as terras que j
haviam sido utilizadas para a produo de uma lavoura de gneros ou do produto de exportao e que se
encontravam em pousio. No perodo de descanso, essas terras desenvolviam uma vegetao secundria. Depois
de seis ou sete anos de pousio, a vegetao era derrubada cedendo lugar a uma nova cultura de alimentos.
296
APM-CC, microfilme rolo 504, planilha 10.266.
132

defendia os ndios, s que o fiel da balana inclinava-se discretamente para o lado dos brancos
quando estes eram seus protegidos.

Exemplo semelhante e que confirma essa pressuposio a petio de sesmaria que


fez o padre Toms de Aquino Ferreira Quinto no ano de 1797. Nela, o reverendo alegava que
havia recebido proviso de capelo na aplicao de Nossa Senhora da Conceio do Turvo
Grande do Chopot, filial da freguesia do Mrtir So Manoel dos Sertes do Rio da Pomba e
Peixe dos ndios Corops e Coroados. Dizia que o ordenado que lhe havia sido fixado era
limitado e os aplicados, pessoas miserveis, por serem em sua maioria ndios, no tinham
como pagar os seus servios. Solicitava, ento, meia lgua de terras, ainda que no seja em
quadra, por sesmaria prxima da dita capela, para nelas poder cultivar, para melhor se poder
sustentar. Havia, porm, um entrave: as terras estavam compreendidas dentro da rea da
reserva indgena demarcada pela Portaria de 1770. Foi aconselhado pelo padre Jesus Maria e
pelo diretor Francisco Farinho a se dirigir diretamente ao governador:

Por esse motivo, o diretor deles e o reverendo vigrio persuadiram ao


suplicante para que recorresse a V. Excia., a quem s compete o poder de
conceder ao suplicante terras dentro da dita Portaria, mandando ao diretor
que acrescente para outro lado, motivo porque recorre a V. Excia. para que
em ateno utilidade que se segue aos ditos ndios, sua civilizao e
cristianizao.297

Para sua sorte quem governava era Bernardo Jos de Lorena, conde de Sarzedas, que,
como percebemos, foi quem mais distribuiu sesmarias nas terras indgenas, desrespeitando,
inclusive, a referida Portaria de 1770 e as disposies do Diretrio dos ndios de trs de maio
de 1757. No seu despacho, de oito de maio de 1798, o governador foi taxativo: passe carta de
sesmaria. Antes, porm, como de praxe, Sarzedas consultou a cmara da Cidade de Mariana
que, em dez de maro, assim exarou seu parecer:

No pode haver dvida na concesso das terras que pretende por sesmaria o
reverendo Toms de Aquino Ferreira Quinto [...], por quanto esto
devolutas, posto que dentro das terras da Portaria dos ndios, mas sem que
prejudique a estes, antes til atual residncia do pretendente para a sua
civilizao.298

297
REQUERIMENTO do padre Toms de Aquino Ferreira Quinto, capelo na capela de Nossa Senhora da
Conceio do Turvo Grande do Chopot, 23 de dezembro de 1797. APM-CC, caixa 101, planilha 20.494.
298
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 101, planilha 20.494. CARTA de sesmaria do padre Toms de Aquino Ferreira
Quinto. APM-SC 285, fl. 01.
133

Como estratgia de aculturao e incluso no grmio da Igreja Catlica, os ndios


eram batizados e recebiam nomes e at sobrenomes portugueses, o que dificulta,
sobremaneira, sua identificao nos documentos em que aparecem citados, quando a sua
origem tnica no est evidenciada. medida que a catequese e os aldeamentos vo se
consolidando, outra estratgia de cooptao era a incorporao dos ndios nas milcias e at
mesmo no clero. Certamente foram poucos os casos, mas o prprio padre Jesus Maria, por
volta de 1780, suplica e alcana da Coroa proviso para o padre Pedro da Motta, ndio de
nao Coroado, no lugar de mestre de ensinar a doutrina, a ler e escrever aos ndios Corops e
Coroados [...] com ordenado, como tambm a continuao do lugar de mestre da matriz como
acrscimo de trinta e seis mil ris em a quantia de noventa mil ris anualmente.299 Jesus
Maria tambm relatou, num requerimento de terras rainha, que poca do governo do
visconde de Barbacena, durante algum tempo, Antnio de Arruda e Cmara e Joo Dias da
Rocha, ndios que saram da casa do suplicante sabendo bem ler e escrever, assentaram praa
no Regimento Pago.300 Os cargos e empregos no clero, na tropa e nas milcias, em que o
padre Jesus Maria parecia acreditar que promovessem os ndios, aos olhos dos brancos pouco
valiam. De nada adiantou ao ndio capito Pedro o ttulo, pois, quando o alferes Eugnio o
mandou atirar, nunca mais o procurou [ao padre] e se mudou e [disse] que no torna sua
aldeia enquanto a morar o dito Eugnio.301

No entanto, preciso que no nos esqueamos de que o padre Jesus Maria, como
praticamente todos os outros sacerdotes, era um funcionrio pago pela Coroa. Cumpriu
perfeitamente o papel que dele esperavam as autoridades coloniais e mesmo as de Lisboa.
Mesmo considerando que ele tenha acreditado profundamente na cristianizao dos ndios,
como um novo Anchieta, o fato que pacificou e civilizou os ndios tambm com o
objetivo de transform-los em mo de obra barata e, ao reuni-los nos aldeamentos, liberou a
grande rea que ocupavam para que os sesmeiros se espalhassem pelo serto do Pomba.

No mais extenso requerimento de sesmaria de que j tivemos notcia, o padre Jesus


Maria resume, em dez folhas, o trabalho que at ento teve no serto j penetrado com mais

299
REGISTROS relativos posse de terra por parte do padre Manuel de Jesus Maria na freguesia de Mrtir So
Manuel, dos Sertes do Rio da Pomba e Peixe, aldeamento e catequizao dos ndios no perodo de 1768 a 1813.
APM-CC, caixa 109, planilha 20.629.
300
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do So Manuel dos Sertes do Rio da Pomba
e Peixe, 1782. APM-CC, caixa 87, planilha 20.251.
301
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do Mrtir So Manuel dos Sertes e Rio da
Pomba e Peixe, sem data. APM-CC, caixa 35, planilha 30.054.
134

de trs mil pessoas de toda a qualidade e j dando utilidade a Nossa Alteza Real nos seus
dzimos e na extrao de ouro, o que no podia o povo fazer enquanto o suplicante, por ordem
do dito general Lus Diogo no passou com grave risco de sua vida a residir nos incultos
matos entre gentios (grifos nossos). Depois de desfiar esse longo rosrio, terminou pedindo
a poro de terras em que planta sem ttulo de sesmaria. A essa altura, j havia vendido trs
pores de terra a Manoel Vieira de Souza por 180$000 ris, em 1775, a Antnio Vieira de
Souza por 160$000 ris, em 1778, e a Pedro Lemes Duarte por 350$000 ris em ano no
declarado, como tambm no declarou a roa das guas Claras vendida a Andr do Couto
Pereira em 1781 por 100$000 ris. Recebeu a merc desejada atravs de parecer do Conselho
Ultramarino de 20 de janeiro de 1783.302

A venda dessas terras, que renderam 790$000 ris, deve ter sido motivo de grandes
desassossegos para o reverendo. Seus inimigos o inquietavam e o acusavam de vender a terra
dos ndios. Queixava-se o padre de que estes servios que o suplicante tem feito a Vossa
Alteza Real se acham em esquecimento para com alguns que se atrevem a desabonar ao
suplicante, porque vivem fartos e cheios de vcios e no pesam nem ponderam o quanto custa
domar gentios (grifos nossos). Ele prprio procurava justificar-se dizendo que as vendas
tinham sido necessrias para cobrir grandes despesas que tivera com a cristianizao dos
ndios: fez o suplicante as ditas vendas para satisfazer parte de seu empenho, pagando juros e
ameaado de ser executado. Disse ter feito essas dvidas com a compra de bestas para levar
mantimentos aonde os tropeiros no iam por medo dos gentios, nas primeiras entradas, bem
como com a compra de escravos para plantar mantimentos e tudo quanto plantam at o
presente se consome no lugar, no s com os ndios, mas com todos os que entram para
povoar o serto, e nada vende, antes compra. Tinha o padre no somente o Evangelho a
proteg-lo, pois alegava que fizera tambm despesas para pagar camaradas para abrir picadas
e para defesa do suplicante, porque o medo natural em toda a gente.303 Nesse requerimento,
que data de 1782, bem no princpio da sua ao missionria, dizia que a escola do aldeamento
j estava fechada por falta de recursos. Quando morreu, em 6 de dezembro de 1811, deixou
uma fazenda. Seria necessrio localizar o seu testamento e o seu inventrio para que se
pudesse apurar sua riqueza ou saber se continuou sendo a miservel criatura de 1782,
quando se queixava das dvidas, tentava explicar a venda das terras e pedia outra sesmaria.

302
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do So Manuel dos Sertes do Rio da Pomba
e Peixe, 1782. APM-CC, caixa 87, planilha 20.251.
303
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do So Manuel dos Sertes do Rio da Pomba
e Peixe, 1782. APM-CC, caixa 87, planilha 20.251.
135

2.4 Padre Manoel Lus Branco: letrado, sertanista e fazendeiro

O padre Manoel Lus Branco nos deixou um curioso relato de suas expedies aos
sertes do rio da Casca e serra dos Arrepiados. Seguiu como capelo da entrada capitaneada
por Joo Pereira Martins e Antnio Lopes dos Santos, em setembro de 1780. Cartas
caprichosamente redigidas em um portugus refinado e enviadas a D. Rodrigo Jos de
Meneses a partir do serto, dizem mais respeito a um letrado a servio da Coroa ou a um
fazendeiro a servio de si prprio do que a um religioso preocupado com a catequese dos
ndios.

As cartas ou relatrios ao governador evidenciam ser o capelo da Conquista dos


Arrepiados um bom conhecedor da lngua escrita, o que no seria to comum entre os padres
e autoridades coloniais. O destinatrio de suas missivas era D. Rodrigo de Meneses que, para
Diogo de Vasconcelos, foi dos administradores o mais instrudo, assim como foi o que
menos arrepiou nossos nervos com algaravias e disparates.304 Tais documentos demonstram
tambm ser o padre um arguto observador da natureza, j conhecedor dos costumes indgenas,
das caractersticas dos terrenos e rios. Era dotado de um considervel senso de orientao,
qualidade indispensvel queles que se dispunham a entrar para sertes muito pouco
palmilhados pelos brancos. O reverendo escreveu que gastamos dois dias de subir a serra [...]
que em Minas no pode haver outra semelhante a esta.305 Do cume da serra dos Arrepiados,
deslumbrado pelo que via, observou o capelo a paisagem que se lhe descortinava e fez uma
descrio hidrogrfica da regio bem prxima do real:

Para a parte do leste, do alto, se avista muito serto de matos gerais at


finalizar a vista. O ribeiro do Mayguau corre para o leste, o crrego dos
Arrepiados corre para o norte e inclina-se algum tanto para leste. No se
sabe donde faz barra. O de So Loureno corre para norte e o dos Estouros,
ou de So Joo Batista, tambm para norte. Todos fazem barra em Santa
Ana. Este corre para oeste e faz barra no rio da Casca e este corre para o
norte at fazer barra no rio Doce.306

304
VASCONCELOS. Histria Mdia de Minas Gerais, p. 240.
305
CARTA do padre Manuel Lus Branco, Joo Pereira Martins e Antnio Lopes dos Santos para D. Rodrigo
Jos de Meneses , 13 de setembro de 1780. APM-CC, caixa 146, planilha 21.379.
306
MAPA da viagem realizada pelo padre Manuel Lus Branco para a serra dos Arrepiados por ordem do
governador Rodrigo Jos de Meneses. APM-CC, caixa 79, planilha 20.110.
136

primeira vista, poderamos considerar que suas observaes seriam meras anotaes
do que observaram os capites ou demais membros das entradas que acompanhou. Mas no,
ali esto as impresses de um homem conhecedor dos sertes e pessoalmente interessado em
explor-lo, tanto que, dois anos aps a primeira entrada, galgou novamente a abrupta serra dos
Arrepiados, acompanhando o sargento-mor Antnio Rodrigues da Costa, e cuidou de algumas
roas nas matas vizinhas ao rio Manhuau, conforme escreveu ao governador o coronel
Antnio Veloso de Miranda em sete de junho de 1782.307

Passados alguns anos, em 1790, o capelo, mesmo tendo terras para alm da serra dos
Arrepiados, j se encontrava estabelecido em sua sesmaria situada no morro e vertentes do
crrego do Sabo na barra do Bacalhau, freguesia de Guarapiranga. Essa sesmaria, alis, foi
medida e demarcada debaixo do protesto dos confrontantes e posseiros instalados naquelas
terras. Em 27 de setembro de 1790, ao fazer a citao, o escrivo Francisco de Paula Oliveira
e Silva listou diversos nomes, uns confrontantes e outros empossados das terras para
medio e demarcao. Entre eles estavam D. Ana Maria do Nascimento e seu filho Manoel
Caetano da Silva e Sousa. Ambos tentaram embargar a posse. D. Ana Maria era viva do
sesmeiro Jos de Sousa Borges que havia recebido carta de sesmaria naquela paragem em
1772. O doutor Antnio Jos Ferreira da Cunha Muniz, juiz das sesmarias do termo de
Mariana, no acolheu os embargos e deu a posse ao padre Manoel Lus Branco declarando na
sua sentena que os embargantes no apresentaram ttulo algum que sufragasse os seus
requerimentos nem as suas chamadas posses, totalmente nenhumas pelas referidas Ordens
Rgias. O juiz referia-se s Ordens Rgias de 13 de abril de 1738 e 27 de maro de 1757.
Tais ordens determinavam a medio e demarcao das posses no prazo de um ano.
Provavelmente, as terras mencionadas na carta de sesmaria que o falecido Jos de Sousa
Borges recebera em 1772 no haviam sido medidas e demarcadas, ficando, assim, a viva sem
o ttulo que exigia o juiz. D. Ana Maria denunciava, na sua petio, que o reverendo sesmeiro
j possua, alm da sesmaria que estava medindo e demarcando, uma na nova conquista dos
Coroados, outras na conquista dos Arrepiados.308

307
CARTA de Antnio Veloso de Miranda, Arrepiados, sete de junho de 1782. APM-CC, caixa 150, planilha
21.446.
308
AUTOS de sesmaria do padre Manoel Lus Branco, 1790. Casa Setecentista de Mariana, cdice 3, auto 116,
cartrio do 1 ofcio. Citaes das folhas 2 verso, 17 verso e 18 e 10 verso, respectivamente. CARTA de
sesmaria do padre Manoel Lus Branco, 1790. APM-SC 256, fl. 100. CARTA de sesmaria de Jos de Sousa
Borges, 1772. APM-SC 172, fl. 149.
137

Antes, porm, em 1780, entrou em atrito com o capito Francisco Farinho que o havia
impedido de acompanhar seu irmo, Manoel Farinho, em experincias minerais no rio
Chopot. Na troca de acusaes entre eles, Farinho enviou uma extensa carta ao governador
em que colocava em dvida a ao apostlica do padre e o acusava de invadir as terras
indgenas e de explorar a mo de obra dos nativos. Acusao que deve ser vista com reservas,
uma vez que Farinho, diretor dos ndios, tambm abusava de seu cargo, como veremos
adiante.

A fim de introduzir os seus amigos em todo o serto, sem ordem alguma,


quando na forma das Ordens se deve meter entre ndios, brancos com modo;
e tenho por notcia que anda fazendo squito e justificando servios feitos a
ndios e vertendo os servios que faz sua fazenda, para ndios que tenho
certeza que nada fez por eles; e como o dito padre se oferece para
desembaraar o serto, para todos entrar a tomar as terras dos ndios, no
falta quem o siga, movidos do interesse [...].309

Da catequese dos ndios, por obra sua, temos parcas informaes, atravs dos relatos
das entradas. Parece-nos que mais do que a cruz, desejava oferecer aos ndios o machado e a
foice, a confiarmos nas queixas que o capito Farinho fazia dele. Nas duas ltimas semanas de
setembro de 1780, aps terem feito uma coivara e plantado a roa no meio das cinzas,
registrou o seguinte:

Antes que dela [da roa] nos apartssemos, resolvemos deixar sobre o altar
em que eu celebrava o sacrossanto sacrifcio da missa, um presente de
ferramentas que constou de um machado, uma foice, duas facas grandes e
trs pequenas, para que os gentios que sempre rodeavam a nossa comitiva o
viessem achar e recebessem com um sinal de ramo verde atado a cada pea,
e venha (sic) no conhecimento de que a nossa inteno toda cheia de
humanidade e que amamos a paz e s queremos, com afabilidade, reduzi-los
nossa Santa Religio.310

O zelo pela Santa Religio parece ter ficado nas bem traadas linhas. No final do ano
de 1783, o coronel-regente dos Arrepiados, escrevendo do Presdio de So Loureno,
queixava-se ao governador da falta de assistncia religiosa por onde o padre andava

309
CARTA de Francisco Pires Farinho, Rio Pomba, 28 de abril de 1780. APM-CC, caixa 36, planilha 30.072.
310
MAPA da viagem realizada pelo padre Manuel Lus Branco para a serra dos Arrepiados por ordem do
governador Rodrigo Jos de Meneses. APM-CC, caixa 79, planilha 20.110.
138

procurando ouro e terras: devo lembrar a V. Excia. que h grande necessidade de sacerdote
para desobrigar do preceito da quaresma passada a muitas pessoas desta Conquista.311

Mrcia Amantino pesquisando e estudando a ocupao dos sertes mineiros durante o


sculo XVIII, tem uma opinio muito parecida com a que estamos defendendo sobre a
participao dos religiosos na civilizao dos ndios. Para ela:

Os religiosos tiveram um papel muito complexo no que se refere s atitudes


em relao aos ndios. Em vrios momentos aproveitaram-se de uma
situao no muito bem definida, e obtiveram algum tipo de controle sobre
uma mo de obra bastante significativa. Muitos conseguiram autorizao e
ajuda para entrar nos Sertes e catequizar os ndios. Todavia, na maioria dos
casos, estes religiosos passavam a controlar via doao de sesmaria para o
aldeamento uma enorme faixa de terra. Usavam os ndios como mo de
obra, compravam escravos africanos, recebiam ajuda do governo e acabavam
por arrendar partes das terras que pertenciam aos ndios aos colonos. Estes,
alm da terra, obtinham tambm os indgenas como trabalhadores mediante
um aluguel pago ao religioso.312

A explorao dos servios de ndios aldeados pelos religiosos j foi observada para
outros lugares da colnia. Em So Paulo, ao longo dos sculos XVII e XVIII, os padres
jesutas fizeram uso constante dos aldeamentos para, alm da catequese, disciplinar e
incorporar nos povos indgenas uma nova concepo do tempo e do trabalho, na qual a
diviso sexual do trabalho e a organizao rgida do tempo produtivo necessariamente
esbarravam nos conceitos pr-coloniais. Da mesma forma procederam os padres carmelitas,
franciscanos e beneditinos nos seus conventos e fazendas paulistas.313

Do padre sertanista e sesmeiro passemos agora a um de seus desafetos: o capito


Francisco Pires Farinho. Tal desafeio estava ligada, sem dvida, a disputas pela posse da
terra e pelo servio dos ndios.

311
CARTA de Antnio Veloso de Miranda sobre a situao da regio do presdio. Presdio de So Loureno, 20
de novembro de 1783. APM-CC, caixa 75, planilha 20.023.
312
AMANTINO. O mundo das feras, p. 72.
313
MONTEIRO. Negros da terra, p. 36-51, 47, 217 passim.
139

2.5 Francisco Pires Farinho: fazendeiro e diretor dos ndios

O capito Francisco Pires Farinho entrou para o serto com seu irmo Manoel Pires
Farinho como parte da escolta do padre Manoel de Jesus Maria. Sua presena e autoridade na
regio do Pomba e Peixe foram, a partir de ento, marcantes. Foi de 1768 a 1812 o diretor do
aldeamento, mas ele mesmo informa que desde novembro de 1757 j tivera os primeiros
contatos com os ndios Corops e Coroados. Segundo ele, em carta, com bastante risco de
vida e despesa de sua fazenda, despojado dos seus arrimos reduziu os referidos ndios paz,
que andavam matando e queimando casas, causando vrios distrbios na freguesia de Nossa
Senhora da Conceio de Guarapiranga.314 Farinho era, outrossim, quem informava cmara
de Mariana a respeito dos requerimentos de sesmarias.

De que Farinho j estava no serto do rio Pomba no final da dcada de 1760 no h


dvida. Em diversos requerimentos aos governadores e rainha, dizia o suplicante que havia
acompanhado o vigrio e proco Jesus Maria na cristianizao dos ndios. O curioso que o
religioso refere-se a ele poucas vezes como o fez em 1782, no longo requerimento de
sesmaria em que relata detalhadamente seus trabalhos com os ndios. Dizia que com
proviso de primeiro vigrio, entranhando-se nos ditos matos para onde por ordem do dito
general foi introduzir[-se] o suplicante com os gentios o capito Francisco Pires Farinho e seu
irmo; estes saram e o suplicante se foi estabelecendo entre os mesmos ndios com risco de
sua vida e muito trabalho.315 Esse relativo silncio, distanciamento ou apagamento do outro
tambm pode ser evidenciado em um importante documento, de dois de maro de 1768, em
que o padre procurava obter do governador Lus Diogo a garantia de que aqueles primeiros
conquistadores que o acompanharam no seriam inquietados nas suas terras. O vigrio citou
doze pessoas e o nome dos irmos Farinho no apareceu.

As relaes entre eles no deveriam ser muito tranquilas. Nas cartas que o padre Jesus
Maria enviou, em 1799, ao governador e a Lisboa, o religioso atacou Francisco Farinho, ento
diretor dos ndios, ao reclamar da doao de sesmarias nas terras indgenas, o que vem
dividir os ndios e usurpar as suas melhores terras, observando a inao e silncio do diretor,

314
REQUERIMENTO do capito comandante Francisco Pires Farinho, diretor dos ndios Coroados no Mrtir
So Manuel do rio Pomba e Peixe, sem data. APM-CC, caixa 79, planilha 20.113.
315
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do So Manuel dos Sertes do Rio da Pomba
e Peixe, 1782. APM-CC, caixa 87, planilha 20.251.
140

assaz agravado de anos e trabalhos.316 Alis, essa idade provecta foi um dos motivos para
que, em 1806, fosse, a princpio, recusado o pedido de Farinho para sua manuteno no cargo
que vinha ocupando havia quase quarenta anos. Informou o capito-mor Antnio Alves
Pereira ao governador D. Pedro Xavier de Atade e Mello que a decrpita idade do
pretendente e mesmo o no estar livre de um crime e morar muito distante do lugar de que
capito e diretor, no pode o continuar em empregos de tanta ponderao.317 Mas ele
continuou, pois, ainda em 1812, o alferes Felisberto Antnio Leal reclamava contra o diretor
dos ndios Coroadoss, o capito Francisco Pires Farinho, que o perturba e inquieta da posse
das suas terras e de outras que possui por ttulo de compra.318 No sabemos com exatido se
Farinho perturbava o alferes, que era portugus, para proteger os ndios, ou se era porque os
antigos moradores, como ele, no viam com bons olhos a chegada dos portugueses freguesia
do Pomba.

Apesar de Francisco Farinho ter ocupado o cargo de diretor dos ndios por muitas
dcadas, ainda no tivemos acesso a documentao que pudesse melhor esclarecer sua
presena nos sertes dos rios da Pomba e Peixe. Talvez a consulta a outras fontes, tais como
inventrio e testamento se existirem , contribua para nos trazer uma imagem mais ntida
desse potentado. Talvez os mais de trezentos cdices da Seo Colonial do Arquivo Pblico
Mineiro, cujos contedos s em pequena parte esto inventariados, possam elucidar outros
aspectos dessa ainda plida figura. Todavia, at que as fontes digam o contrrio, no que afeta
s questes indgenas, sobretudo as relativas s suas terras, ficou-nos uma impresso positiva
do diretor Farinho, se comparada com a imagem estampada pela documentao em outros
colonos que se diziam civilizadores dos gentios. Entretanto, uma outra busca na
documentao colonial de Minas e a localizao do seu inventrio podem apagar de vez essa
primeira impresso.

316
CARTA de Manuel Jesus Maria, vigrio dos ndios Corops e Coroados para D. Rodrigo de Souza Coutinho,
1799. AHU - Projeto Resgate MG, caixa 149, doc. 062.
317
REQUERIMENTO do capito Francisco Pires Farinho, freguesia de So Manuel do Rio da Pomba e Peixe,
11 de janeiro de 1806. APM-CC, caixa 81, planilha 20.148.
318
CARTA do brigadeiro e deputado Antnio Jos Dias Coelho, Vila Rica, 24 de abril de 1812. APM-CC, caixa
34, planilha 30.030.
141

2.6 As sesmarias do Pomba e Peixe distribudas nos aldeamentos


indgenas (1790-1821)

Reduzidos os ndios em aldeamentos, demarcaram-lhes sesmarias para que, uma vez


deixada a vida nmade, pudessem cultivar a terra em locais determinados, prximos das
igrejas e escolas que servissem sua catequese e civilizao. No necessrio dizer que a
resistncia e as fugas devem ter sido frequentes. Entre as primeiras sesmarias demarcadas
para os ndios estava a da paragem do ribeiro do Turvo, vertentes do rio Chopot, na
freguesia do Mrtir So Manoel do Rio da Pomba. Ali, por portaria do conde de Valadares do
ano de 1770 foi servido mandar separar duas lguas e meia de terras [de comprido] e trs
quartos de lgua de largo na dita paragem.319 Tal era a rea que abrigaria cento e tantos
ndios aldeados como diz o prprio relato do seu diretor, o capito Farinho. Fica visvel que
a demarcao da terra reservada aos ndios era muito limitada para que os gentios pudessem
ali, uma vez civilizados, adquirirem o amor pela propriedade como mais tarde, em 1801,
defenderia o padre Francisco Campos. Basta recordarmos que centenas de sesmarias de uma
ou trs lguas em quadra foram distribudas em Minas Gerais em reas de serto, tendo
algumas famlias acumulado diversas.

Como se no bastasse a limitada extenso de terra demarcada para esse aldeamento, o


capito Farinho queixava-se ao governador, em documento no datado, de que foram vrios
homens, sem ateno dita portaria, tirar sesmarias dentro das terras dos ndios e outros
correram com as sesmarias sobre as ditas terras e meteram-lhes cismas, dizendo-lhes que as
terras que andavam medindo eram do suplicante [Farinho] e no deles, e que depois, o
suplicante os havia de lanar fora.320

J o padre Francisco Campos, em 1801, no Presdio de So Joo Batista, no definia


no seu detalhado plano de catequese, civilizao e educao dos gentios, sobre o qual j
discorremos anteriormente, que espao estaria demarcado em sesmarias para os aldeamentos.
Disso resultariam duas consequncias: ou os ndios, depois de civilizados, estariam livres para
ocupar qualquer extenso de terra, desde que pudessem tambm requerer sesmarias, ou eles
no teriam terra alguma, a no ser pequenos lotes nos povoados o que mais provvel.

319
REQUERIMENTO do capito comandante Francisco Pires Farinho, diretor dos ndios Coroados no Mrtir
So Manuel do rio Pomba e Peixe, sem data. APM-CC, caixa 79, planilha 20.113.
320
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 79, planilha 20.113.
142

Mesmo que o religioso no tivesse previsto a demarcao da terra indgena, ela deve ter
acontecido, caso o seu projeto tenha vingado, mas, como de costume, mais provvel que
tenha sido invadida.

A proposta do diretor dos ndios Corops, capito Silvestre Antnio Vieira, 42 anos
depois da portaria de 1770, de reunir os gentios no distrito da freguesia de So Manoel do Rio
da Pomba tambm era complicada. A sesmaria que propunha reservar para todos os ndios
seria de sete lguas em quadra, acompanhando as duas margens do rio da Pomba. No
requerimento datado de 1 de junho de 1812, fazia uma proposta um tanto quanto complicada.
Por um lado, previa a incorporao dos ndios no mundo civilizado e nas rotinas do trabalho,
por outro conferia ao seu diretor poderes para castig-los caso no cumprissem suas
determinaes. O documento deixa transparecer tambm que a sesmaria de sete lguas, rio
Pomba abaixo, principiando a sua medio na divisa da fazenda do falecido vigrio Manoel
de Jesus Maria at onde inteirar as ditas sete lguas321 j estava parcialmente ocupada por
portugueses, com os quais deveriam ser feitos acordos para sua permanncia tambm na
demarcao. Sugeria que os portugueses s ficassem com quantidade de terras necessrias
para as suas lavouras e que, mesmo essas, fossem indenizadas aos ndios em metade do seu
valor. No defendia a desocupao e sim, esse pagamento:

Vista a sua injusta aquisio, pois que os que aqui se acham no referido
terreno, quando se estabeleceram, j estas terras estavam cultivadas pelos
ndios, a quem uns enganaram com contratos capciosos e lesivos; outros
deitaram fora os ndios possuidores, espancando-os e ameaando-os,
obrigando-os, desta sorte, a entranharem-se mais nos matos, o que
diametralmente oposto sua civilizao.322

O capito Silvestre foi um dos muitos que receberam sesmarias da mo do governador


Bernardo Jos de Lorena nas terras indgenas, nos anos de 1797 a 1803, contrariando o
Diretrio dos ndios.323 Ele pertencia a uma famlia de grandes proprietrios de terras nas
imediaes da reserva estabelecida para os ndios Corops pela portaria de 1770. Diretor dos

321
REQUERIMENTO de Silvestre Antnio Vieira, capito do distrito e diretor dos ndios Corops, 1812. APM-
CC, caixa 109, planilha 20.629. Por tratar-se de documento extremamente curioso e esclarecedor para a
compreenso da mentalidade dos colonos em relao aos autctones, reproduzimos o requerimento
integralmente no Anexo 5.
322
Idem, ibidem. APM-CC, caixa 109, planilha 20.629.
323
CARTA de sesmaria de Silvestre Antnio Vieira, 26 de outubro de 1798. APM-SC 285, fl. 116. Ver tambm
os cdices SC 286, SC 289, SC 293 e SC 299.
143

ndios era cargo a que muitos aspiravam, sobretudo, em se tratando de fazendeiros instalados
nas terras indgenas ou nas suas proximidades.

A famlia Vieira de Souza instalou-se na recm criada freguesia do Mrtir So Manoel


do Rio da Pomba acompanhando o padre Manoel de Jesus Maria no final da dcada de 1760.
Manoel Vieira de Souza, o patriarca, e seu filho Jos Vieira Moo estavam entre aqueles para
os quais o padre Jesus Maria havia conseguido junto aos governadores e rainha a garantia de
que no seriam inquietados em suas posses. A famlia reunida era dona de uma grande
extenso de terras.

Alm das terras ocupadas logo que chegou nova freguesia nas proximidades do
arraial de So Manoel do Rio da Pomba, a famlia comprou duas fazendas do padre Jesus
Maria. Na primeira compra, em 1775, Manoel Vieira de Souza pagou 180$000 ris por uma
fazenda [que] se compe de terras de cultura com capoeiras e matos virgens e confrontam
pelo dito ribeiro acima com terras de Antnio Vieira e, em certo lado, parte tambm com o
crrego em que mora o ndio Domingos Ferreira, que pertence aos ndios. Trs anos depois,
o irmo Antnio Vieira de Souza comprou, por 160$000 ris, as terras [que] se compem de
matos virgens e partem correndo ribeiro [de So Manoel] acima com Manoel Vieira de
Souza e pelas mais partes, com quem deva e haja de confrontar.324 Em 1797, o reverendo
Jos Vieira de Souza e seu irmo Joaquim Vieira de Souza pediram sesmaria na paragem da
Boa Vista. Como seus confrontantes foram citados os seus irmos Manoel, Antnio e seus
primos ou irmos Francisco Vieira de Souza e Silvestre Antnio Vieira, alm de Sebastio
da Silva e Francisco de Souza Lima, sendo que esses dois confrontantes cujos nomes os
declarantes omitiram foram informados pela cmara de Mariana no seu parecer.325 No
mesmo ano, Francisco e Silvestre tambm pediram sesmaria na paragem do Crrego Novo e
tambm reconheceram seus parentes Manoel e Antnio como confrontantes. Mais uma vez, a
cmara incluiu os nomes dos j mencionados Sebastio da Silva e Francisco Lima e um
terceiro, Alexandre Pereira Caramona.326 Dos trs confrontantes que os irmos Vieira

324
REGISTROS relativos posse de terra por parte do padre Manuel de Jesus Maria na freguesia de Mrtir So
Manuel, dos Sertes do Rio da Pomba e Peixe, aldeamento e catequizao dos ndios no perodo de 1768 a 1813.
APM-CC, caixa 109, planilha 20.629. Entre esses documentos esto algumas escrituras de venda de terras do
padre Manoel de Jesus Maria, cujas cpias foram lavradas em oito de agosto de 1800.
325
APM-CC, caixa 101, planilha 20.494 (documento original).
326
APM-CC, caixa 101, planilha 20.494 (documento original). Segundo OLIAM JOS. Indgenas de Minas
Gerais, p. 19, Caramons eram povos indgenas que habitavam as serras que serviam como divisores entre os
rios Doce e Pomba, exatamente na regio dessas sesmarias, aos quais os portugueses tambm chamavam
caramonas.
144

omitiram nos seus requerimentos, Caramona, com certeza, era ndio e os demais
provavelmente tambm eram. Podemos afirmar que, passados cerca de vinte anos das
referidas compras, os ndios desapareceram, na documentao, como confrontantes das terras
da famlia Vieira de Souza.

No mesmo ano de 1797, os irmos Manoel e Antnio pediram uma sesmaria327 em


terra que j havia sido concedida a Maria Joaquina Caetana da Silveira em trs de abril de
1797.328 Face resposta negativa da cmara, eles pediram outra, que foi concedida, na
extenso de meia lgua em quadra, em nome de Antnio Vieira de Souza, em 26 de outubro
de 1798.329 Ou cometeram um engano ou queriam se apossar das terras de Maria Joaquina. A
segunda hiptese no descartvel, pois Maria Joaquina era viva de Jos Ribeiro Forte que
tinha duas sesmarias antigas fora daquela paragem, na vizinha freguesia de Guarapiranga,
concedidas em 1753 e 1772,330 local em que provavelmente residia a viva.

Sobre a ocupao das terras indgenas pelos portugueses a partir de 1797, so


esclarecedores os pareceres, de 24 de abril de 1812, do brigadeiro Antnio Jos Dias Coelho,
deputado da Junta da Real Fazenda de Vila Rica. Ele assume, por um lado, uma posio
relativamente imparcial nas peties que lhe foram encaminhadas, sem deixar de expressar o
seu descontentamento com os enfadonhos e impertinentes requerimentos que se
apresentam.331 Mas, por outro lado, mostrava-se indignado com a brutalidade com que os
colonos tratavam os ndios. Num desses pareceres, o diretor Silvestre Antnio Vieira
denunciava-lhe que Joo Incio, morador alm do rio da Pomba, pusera em algumas picadas
e veredas, que seguem os ndios para suas caadas, estrepes de taquaras, o que deve (sic)
motivo a estrepar-se um ndio.332

327
REQUERIMENTO do alferes Manuel Vieira de Souza e seu irmo Antnio Vieira de Souza, 19 de dezembro
de 1797. APM-CC, caixa 101, planilha 20.495.
328
CARTA de sesmaria de Maria Joaquina Caetana da Silveira, trs de abril de 1797. APM-SC 265, fl. 165
verso.
329
CARTA de sesmaria de Antnio Vieira de Souza, 26 de outubro de 1798. APM-SC 285, rolo 60, fl. 114.
330
CARTAS de sesmaria de Jos Ribeiro Forte, 1753 e 1772. APM-SC 106, fl. 16 verso e APM-SC 172, fl. 139
verso.
331
CARTA do brigadeiro e deputado Antnio Jos Dias Coelho, Vila Rica, 24 de abril de 1812. APM-CC, caixa
34, planilha 30.030.
332
ATESTADO do brigadeiro e deputado Antnio Jos dias Coelho sobre a compra integral das terras
pertencentes aos ndios na freguesia de So Manuel da Pomba. Vila Rica, 24 de abril de 1812. APM-CC, caixa
01, planilha 10.035.
145

Dizemos que seus pareceres eram relativamente imparciais, j que ele no teria
instrumentos para reverter a avalanche de ocupaes que passaram a ser feitas nas terras
indgenas a partir de 1797. Mostrava-se, no entanto, sensibilizado com a questo e propunha
uma soluo mediadora:

Sou de parecer que todos aqueles portugueses que no inquietarem os ndios,


nem lhes causarem prejuzo, que se achem arranchados, que os protejam,
civilizem e ensinem os dogmas da nossa Santa F, sejam conservados nos
lugares dos seus arranjamentos (sic), pelo contrrio, os que os perturbam,
lhes inquietam e lhes fazem malefcios sejam privados de morarem nas suas
aldeias e terras demarcadas.333

A limitada ao do brigadeiro Dias Coelho ficava clara no seu parecer e denunciava a


presena de colonos dentro das demarcaes de terras indgenas que, conforme j apontamos
acima, no eram de grandes extenses. Os ndios estariam fadados a perderem todas as suas
terras. Os sertes ainda eram vastssimos,334 mas ocup-los era tarefa rdua, da todos
ambicionarem as terras que j estivessem mais aprontadas para a agricultura: com as matas j
derrubadas, prximas dos caminhos e das povoaes, pois ningum queria morar no territrio
sob o domnio dos Botocudos. No mais, o ndio sem terra seria mo de obra barata ou, quem
sabe, gratuita, nas fazendas.

O que visivelmente percebemos, na anlise da documentao, foi o acirramento


gradativo dos conflitos, medida que a colonizao inclusive de portugueses natos
avanava sobre as terras indgenas desde o princpio da dcada de 1760. Aps a virada do
sculo XVIII, os conflitos ainda presentes, embora mais latentes, comeavam a se acentuar,
sobretudo a partir das doaes de Bernardo Jos de Lorena. A entrega do diretrio dos ndios
Coroados ao militar de origem francesa, Guido Thoms Marlire,335 em abril de 1813, no foi
gratuita. Os interesses dos fazendeiros precisavam ser conduzidos com pulso firme e no
atravs de planos de cariz humanista como o do padre Francisco Campos.

333
CARTA do brigadeiro e deputado Antnio Jos Dias Coelho, Vila Rica, 24 de abril de 1812. APM-CC, caixa
34, planilha 30.030.
334
No desnecessrio lembrar que as margens do rio Doce prximas do Esprito Santo, sobretudo a esquerda,
permaneceram devolutas at quase o final do sculo XIX e habitadas pelos Botocudos e muitos trechos at
mesmo meados do sculo XX, como a regio da atual cidade de Governador Valadares, antigo Porto da Figueira
do Rio Doce, somente desbravada a partir de 1930.
335
Sobre o coronel Marlire sugerimos consultar AGUIAR. Memrias e histria de Guido Thomaz Marlire.
146

Em um primeiro momento, as invases de terras indgenas eram denunciadas pelas


pessoas encarregadas de sua proteo: os vigrios e os diretores.

O padre Jesus Maria, numa petio sem data, mas provavelmente de 1805, queixava-
se ao governador de que o alferes Eugnio Jos da Silva, Joo de Almeida Lima, o guarda-
mor ngelo Gomes e Joo Gracia andavam todos [a] tomarem as terras, capoeiras e
plantaes dos ditos ndios e mandando queimar alguns ranchos dos ndios. A queixa maior
do padre era a respeito da fabricao de cachaa entre as aldeias. Dizia ser gnero muito
perniciosssimo (sic) e proibido entre ndios na forma do Rgio Diretrio, pargrafo 41.
Pedia que se proibisse aos suplicados alferes Eugnio e Joo de Almeida Lima de levantar ou
assentar [a]lambique ou fabricar cachaa e que tivessem parol ou pipa de cachaa para
vender aos ndios, pois gnero com que enganam aos ndios e os costumam levar por todo
o serto para ganharem cachaas.336

Em 1805, queixavam-se os ndios Corops Pedro Fernandes, Manoel Incio, Antnio


Vicente, Francisco Vicente, Luciano e outros mais que viviam debaixo do seu patrono
Manoel de Jesus que nas terras que lhe foram demarcadas um alferes Eugnio vive com
muitos criminosos e outro Joo de Almeida, se acham tomando as suas terras, destruindo as
suas povoaes e as suas plantas e expulsando-os com violncia de armas fora dos seus
domiclios.337 Na verdade, tratava-se da mesma queixa que fizera o padre Jesus Maria. Os
invasores eram os mesmos. Uma petio reforaria a outra e, esta segunda seria da pena do
prprio vigrio.

Em 19 de junho de 1810, o diretor Francisco Farinho participava ao brigadeiro Dias


Coelho, da Junta de Vila Rica, que havia notificado ao guarda-mor Lino Jos Moreira para
que suspendesse seus animais das terras e plantas dos ndios. Continuava Farinho relatando
que a fazenda que alega ser dele, V. Sa, viu pessoalmente se pertence aos ndios e o mesmo
rancho em que se acha o dito arranchado, e foi o dito valentona fez os ndios despejar da sua
aldeia e meteu-se de dentro. Acusa o guarda-mor de querer se fazer senhor de algumas trs

336
REQUERIMENTO do padre Manuel de Jesus Maria, freguesia do Mrtir So Manuel dos Sertes e Rio da
Pomba e Peixe, sobre as providncias com relao ao alferes Eugnio Jos da Silva e Joo de Almeida Lima pela
invaso e incndio nas terras indgenas e fabricao de cachaa para os ndios, sem data. APM-CC, caixa 87,
planilha 30.054.
337
REQUERIMENTO de Pedro Fernandes, Manuel Incio, Antnio Vicente e Francisco Vicente sobre a
proteo aos ndios corops contra invasores, 23 de setembro de 1805. APM-CC, caixa 102, planilha 20.506.
147

lguas de terras de ndios.338 Mas o tal Lino Moreira, nem beira da morte, desistia de
instalar-se nas terras indgenas. Dois anos depois, o brigadeiro Dias Coelho continuava a
queixar-se do invasor, que havia sido expulso da primeira localizao e invadira outra:

Igual usurpao acontece com as terras que se acham de posse a viva e


herdeiros do falecido guarda-mor Lino Jos Moreira, o qual sendo, em vida,
obrigado por esta Junta a sair das aldeias do Ub, se foi meter em outras do
mesmo ribeiro, vizinhas s primeiras, como se verifica da parte do diretor
de 28 de janeiro deste ano.339

Essas denncias precisam ser vistas com muito cuidado, porque elas podem revelar
outros interesses alm da defesa dos ndios. O diretor Francisco Farinho ao denunciar a
invaso de terras indgenas pelo padre Manoel Lus Branco, deixava transparecer um conflito
antigo entre ele o sacerdote. As frequentes reclamaes de ocupao das demarcaes de
terras dos ndios por portugueses tambm podem ser resultado de uma inquietao dos mais
antigos moradores com a crescente chegada de adventcios muitos deles portugueses para
disputarem com eles a expanso das fronteiras.

Verifica-se outra mudana significativa em relao s queixas de invaso das terras


indgenas. Se, no princpio, elas eram encaminhadas quase que exclusivamente pelos vigrios
e diretores, como o padre Jesus Maria ou o capito Farinho, j no sculo XIX so os prprios
ndios que representam junto ao governador.

Esse foi o caso ocorrido no ano de 1803, quando 21 moradores do ribeiro de So


Geraldo do Turvo Grande recorreram a Bernardo Jos de Lorena para se queixarem de que
Joo Henriques queria despej-los de suas terras apresentando, para isso, despacho do
governador. Os suplicantes alegavam que moravam naquelas terras h quinze anos, pouco
mais ou menos, por ttulo de posse, por acharem este ribeiro devoluto, com cachoeiras,
barras e fexos [?] sem demarcao alguma e negam se conhea o haver nelas senhorio
algum. Todos aqueles moradores diziam ainda que o suplicado possua outras duas sesmarias
e era acostumado a tirar sesmarias em nome de outros e vend-las, como pblico.340

338
CARTA de Francisco Pires Farinho, Rio Pomba, 19 de junho de 1820. APM-CC, caixa 81, planilha 20.148.
339
CARTA do brigadeiro e deputado Antnio Jos Dias Coelho, Vila Rica, 24 de abril de 1812. APM-CC, caixa
34, planilha 30.030.
340
APM-CC, caixa 102, planilha 20.501 (documento original).
148

Para responder aos suplicantes, Lorena, em cinco de dezembro de 1803, deu o seguinte
despacho na petio: se o suplicado [Joo Henriques] apresentar carta de sesmaria, no tem
lugar o requerimento do[s] suplicante[s], que deve[m] usar dos meios competentes.341 De
fato, Joo Henriques tinha a carta de sesmaria para aquela paragem passada no ano de
1769.342 Nenhum dos suplicantes aparece com requerimento de sesmaria nos livros da
Secretaria de Governo da capitania.343 A paragem estava nas proximidades das terras
indgenas. Os tais meios competentes que o governador sugeriu seriam a justia comum.
No sabemos o desdobramento da histria, mas tudo nos leva a crer que os suplicantes eram
ndios e que tiveram suas terras usurpadas. O indcio que nos leva a essa crena a
coincidncia dos nomes de dois deles, Antnio Vicente e Luciano, com os listados numa
petio de 1805 em que se queixavam contra um alferes Eugnio e Joo de Almeida na
mesma regio.

Quando Joo Henriques recebeu a sesmaria em 1769, sua localizao e confrontaes


primavam pela impreciso, dando margem invaso de terras j ocupadas ou, devido
indefinio, que ela mesma tivesse a sua rea ocupada por terceiros. O sesmeiro, que era
morador em Mariana, parecia nem conhecer a paragem e pedia a concesso da terra
orientando-se pelo requerimento do nico vizinho que sabia citar. Coincidncia ou no, tanto
a sua carta como a do seu vizinho Manoel Carvalho Gonalves so da mesma data: 30 de
outubro de 1769. Joo Henriques, a julgar pelo que disseram os suplicantes, era um
proprietrio absentesta, como muitos sesmeiros o foram na capitania toda. Talvez tenha sido
uma estratgia sua esperar alguns anos, at que aqueles moradores derrubassem as matas e
amanhassem as terras para, ento, aparecer como legtimo dono. Rezava a carta o seguinte:

[...] Principiando a medio donde findar uma sesmaria que tem pedido
Manoel [Carvalho] Gonalves, correndo ribeiro [de So Geraldo] acima,
fazendo pio de qualquer das partes do mesmo ribeiro ou onde e mais
conveniente for, cujas terras e matos correndo ribeiro acima, confrontam
com terras e matos gerais devolutos.344

341
APM-CC, caixa 102, planilha 20.501 (documento original).
342
CARTA de sesmaria de Joo Henriques, 30 de outubro de 1769. APM-SC 172, fl. 20 verso.
343
RAPM , ano XXXVII, vol. 1 e 2 (Catlogo de Sesmarias).
344
CARTA de sesmaria de Manoel Carvalho Gonalves, 30 de outubro de 1769. APM-SC 172, fl. 20 verso e fl.
18.
149

O recurso direto s autoridades tambm aconteceu em 22 de abril de 1814 no qual


Francisco Rodrigues, homem ndio de nao Coroado, morador no Presdio de So Joo
Batista, que desde sua infncia foi nascido e criado com mulher e numerosa famlia, na
paragem chamada o Presdio, onde sempre viveu em um crrego de mato, com suas vertentes,
mansa e pacificamente, sem ofender a pessoa alguma.345 Queixava-se Francisco de que
Antnio Gomes dos Santos e outros mais introduziram-se nas suas terras querendo tomar as
suas terras valentona, chegando a venderem-se algumas. Para expuls-lo, o dito Antnio
Gomes lhe chegou a dar muita pancada e quebrou-lhe a cabea. Ao pedir a intercesso do
governador, Francisco rogava que ele procurasse confirmar as informaes pelas pessoas que
antes deste diretor, que agora est administrando aos ndios, por ser seu inimigo capital e
vendedor das ditas suas terras (grifos nossos). Para a sua infelicidade o governador, D.
Manoel de Portugal e Castro pediu esclarecimentos diretamente ao desafeto do ndio
Francisco, o diretor Guido Marlire.

Marlire, intencionalmente, s respondeu ao governador em 3 de junho de 1815,


passado mais de um ano da representao de Francisco. Agindo dessa forma, dava ao invasor
tempo para se apossar das terras do ndio. Em sua resposta qui para dar-lhe maior
veracidade , comeou por dizer que havia inquirido verbalmente testemunhas entre
portugueses e ndios parentes do suplicante a respeito dos fatos. Aps o que concluiu que
todos so imaginrios (grifo do prprio Marlire). Continuou afirmando que o suplicante
no tinha motivos para ser seu inimigo, visto que nunca este ndio foi por mim repreendido,
nem castigado, antes, pelo contrrio, um dos que mais tem repartido ou participado dos
poucos benefcios que posso distribuir entre eles.346

Para livrar o acusado e a si prprio da acusao de vender as terras de Francisco,


culpou o portugus Francisco de Paula Oliveira. Acusou o portugus de ter invadido uma
lngua de terras virgens sitas entre o suplicado e o suplicante. Marlire disse ter colocado o
tal portugus no tronco, porque este havia tentado suborn-lo com o mimo de um burro
selado e enfreado caso ele o deixasse entrar nas ditas terras que seriam do ndio Antnio da
Silva e no do suplicante cujo milho arrancou, autorizado pelo ex-diretor a quem

345
REQUERIMENTO do ndio Francisco Rodrigues, de nao Coroado, ao governador da capitania de Minas
Gerais, Presdio de So Joo Batista, 1814. APM-CC, caixa 34, planilha 30.030.
346
RESPOSTA de Guido Thoms Marlire representao feita pelo ndio Coroado Francisco Rodrigues contra
Antnio Gomes dos Santos e, indiretamente, contra o prprio Marlire, Quartel do Presdio de So Joo Batista,
trs de junho de 1815. APM-CC, caixa 34, planilha 30.030.
150

confessou dera 30$000 pelas ditas terras, depois de haver entrado nas mesmas com mo
armada e passado um ano dentro, motivo pelo qual foi expulso por ordem do governador
anterior, conde da Palma.

Enfim, o diretor dos ndios fez o maior malabarismo para desqualificar a petio de
Francisco, isentar da culpa a Antnio Gomes, envolver Francisco de Oliveira se que este
de fato existia para, por fim, ficar com as terras como ele mesmo declarou: