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Infância Roubada

Crianças ameaçadas, torturadas e exiladas durante a ditadura civil-militar brasileira. Comissão de Verdade - SP

Enviado por

jcesar coimbra
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© © All Rights Reserved
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Crianças ameaçadas, torturadas e exiladas durante a ditadura civil-militar brasileira. Comissão de Verdade - SP

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Crianas atingidas pela

Ditadura Militar no Brasil

ABERTURA_01_FINAL.indd 3

08/09/14 15:34

Assembleia Legistativa do Estado de So Paulo


17 Legislatura
Samuel Moreira Presidente
Enio Tatto 1 Secretrio
Edmir Chedid 2 Secretrio

Comisso da Verdade do Estado de So Paulo Rubens Paiva


Membros efetivos
Adriano Diogo (PT) - Presidente
Marcos Zerbini (PSDB)
Andr Soares (DEM)
Ed Thomas (PSB)
Ulysses Tassinari (PV)
Suplentes
Joo Paulo Rillo (PT)
Mauro Bragato (PSDB)
Estevam Galvo (DEM)
Orlando Bolone (PSB)
Regina Gonalves (PV)
Assessoria
Amelinha Teles
Ivan Seixas
Renan Quinalha
Ricardo Kobayaski
Thas Barreto
Tatiana Merlino
Vivian Mendes
Coordenao e produo editorial: Tatiana Merlino
Preparao: Ricardo Kobayaski
Produo: Vivian Mendes e Tatiana Merlino
Ps-Produo: Renan Quinalha e Vivian Mendes
Edio de arte e diagramao: Camila Sipahi Pires
Pesquisa iconogrfica: Camila Sipahi Pires e Tatiana Merlino
Tratamento de Imagens: Camila Sipahi Pires e Thais Cechini
Reviso: Pdua Fernandes e Ricardo Kobayaski
Foto de capa: Sheila Oliveira
Imagens: Arquivo Pblico do Estado de So Paulo, acervo pessoal,
Douglas Mansur, Revista Brasileiros

So Paulo (Estado). Assembleia Legislativa. Comisso da Verdade


do Estado de So Paulo "Rubens Paiva"
Infncia Roubada, Crianas atingidas pela Ditadura Militar no Brasil.
/ Assembleia Legislativa, Comisso da Verdade do Estado de So
Paulo. So Paulo : ALESP, 2014.
316 p.
ISBN
1.

Ditadura militar
CDU 321.86(81)

1 edio
So Paulo, 2014

ABERTURA_01_FINAL.indd 4

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Infncia
Crianas atingidas pela
Ditadura Militar no Brasil

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08/09/14 15:34

Sumrio
Prefcio

Samuel Moreira

Apresentao
Adriano Diogo

36

Rita de Cssia Resende

O exlio do meu pai


foi a nossa despedida

ngela Telma Oliveira Lucena

Duas ptrias,
duas mes

asaindy Barrett de Arajo

Que um dia
ningum mais
pense assim

Dora A. Rodrigues Mukudai

Los nios nacen


para ser felices
Ernesto C. Dias do Nascimento

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Andre Almeida Cunha Arantes

13

A felicidade
interrompida
da menina ruim

A inocncia perdida

Filho do Zorro

Amelinha Teles

11

Suely Coqueiro

Introduo

56
82

100
120
138

Por que voc to


tristinha?
Marta Nehring

Faria tudo igual a ele


Clia Coqueiro

Infncia
resgatada

Adilson Lucena

86

O novo arrimo
de famlia
Jaime M. Sobrinho

42

50

62

Adotados pela
Revoluo Cubana

74

Carlos Eduardo Ibrahin

Virglio Gomes da Silva Filh0

89

Adolescncia
perdida

104

26

Priscila Almeida Cunha Arantes

Vivi intensamente
o exlio...

Denise Oliveira Lucena

Edson L. Martinelli

Zuleide Aparecida do Nascimento

Leta Vieira de Sousa

22

Palavras presas

At hoje sou uma


pessoa completamente
sem identidade

A lua de Leta

Identidade, nome
e o paradoxo
da liberdade

128

152

Condenado
morte

90

Ariston Oliveira Lucena

107

Amor
silenciado

109

Rosa M. Martinelli

Fomos levados
para o DOPS. At
hoje doloroso

Luis Carlos Max do Nascimento

O testemunho
do que eu sei, li, vi...
Maria Eliana Facciolla Paiva

134
160

08/09/14 15:34

Sou Ernesto
Guevara, sou filho
de guerrilheiro
Ernesto Jos Carvalho

170

Tive muita dificuldade


com a expresso dos
meus sentimentos
Paulo de Miranda Sipahi Pires

196

A bbe sequestrada
Carmen S. Nakasu de Souza

Ele lutou muito...


Carlos Alexandre Azevedo

ABERTURA_01_FINAL.indd 7

Ivan A. de Seixas

Camila Sipahi Pires

234

256

Di gostar dos
outros

278

Reconstruindo
Gildo

300

A ditadura
nos forou a
virar soldados

O sequestro da
minha memria

Trs geraes
de militncia

Seu pai no era um


ladro, era um heri

Edson Teles

178

216

Paulo Fonteles Filho

Quem essa pessoa


que tem a voz da
minha me?

Irineu A. de Seixas

Crime: ser filho


de resistente

Filho dessa raa


no deve nascer

Grenaldo Edmundo Mesut

O dolo que no
tinha rosto

Andr de Santa Cruz Leite

Ceclia Capistrano Bacha

Janana Teles

Tessa Moura Lacerda

Sou a prova de
que mesmo na
guerra...

Lia Ceclia da Silva Martins

182

Saudade ser
depois de ter
Iara e Isabel Lobo

192

Ainda hoje no
se do conta do
que significou...

212

222

O bbe que
a ditadura
separou da me

228

242

Cuide da me que
um dia eu volto
para te buscar

248

260

A histria que o
menino no queria
ouvir a me contar

270

200

Aritan Dantas

Jos Paulo De Luca Ramos

Clvis Petit

Joo Carlos Grabois

284

No tem luto.
So vazios

292

304

Lembranas

308

Igor Grabois Olmpio

Valter Pomar

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Prefcio
Este livro representa o cumprimento de um compromisso da Democracia Brasileira com uma gerao
pouco conhecida, formada por crianas e adolescentes filhos de perseguidos polticos e desaparecidos
durante o perodo autoritrio, de 1964 a 1985. Seus pais sumiram de uma hora para outra. A espera durou
uma noite, duas, um ms, um ano ou mais. Ningum sabia quando, e se, voltariam. Mesmo com tantas
dvidas, no deveriam comentar nada com ningum.
Cresceram sombra do medo, angustiados pela incerteza e expectativa de reaparecimento do pai ou da
me ou de ambos. Viveram dias, meses, e depois, anos espera deles. Privados de brincar com os pais,
passear, ter um almoo em famlia ou receber ajuda numa lio. Muitos tiveram a vida consumida por esta
dvida, sem que afinal tivessem direito sequer a um esclarecimento oficial sobre o destino de seus pais,
um processo que deixaria marcas indelveis.
O livro traz um olhar diferenciado sobre o perodo ditatorial no Brasil. o olhar das crianas que tiveram
sua Infncia Roubada. Como uma gerao de brasileiros, eles cresceram em um perodo de graves violaes de direitos humanos e agresses ao direito da cidadania. Mas receberam marcas profundas e particulares. No tinham responsabilidade pelas opes polticas dos pais nem pela situao do pas. Seus
relatos, sempre emocionados, traduzem o que conseguiam compreender daqueles dias to difceis para o
pas e para suas vidas.
Os depoimentos foram colhidos pela Comisso da Verdade Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa do
Estado de So Paulo, num trabalho marcado por desafios incomuns. A comear pela sensibilizao dos
depoentes a falar, em sesses pblicas, de momentos dolorosos, que muitos preferiam esquecer. Deix-los vontade para abrir o ba de lembranas foi, com toda certeza, um exerccio de sensibilidade e
pacincia, importante no s pelo respeito a eles devido por todos, mas tambm para que os depoimentos
pudessem ser compartilhados com outras pessoas e geraes.
Este livro tem exatamente esta aspirao: oferecer uma nova fonte de consulta, reflexo, divulgao e
conhecimento sobre o perodo autoritrio. Com este trabalho, o Poder Legislativo Paulista espera contribuir para aprofundar a compreenso tanto do cidado comum, como da sociedade civil, governos, instituies, organizaes sociais, academia, historiadores e estudiosos em geral.
A construo da Democracia Brasileira um processo permanente e vivo, que precisa ser continuamente
semeado. Para que as liberdades duramente conquistadas sejam apropriadas por toda a populao.
O conhecimento sobre o passado capaz de iluminar o presente e abrir caminho para um futuro em
que os direitos sejam respeitados e os deveres cumpridos por todos. O olhar daquelas crianas aponta
na direo do fortalecimento do Estado de Direito Democrtico e da construo de uma cultura de total
respeito aos Direitos Humanos.

Deputado Estadual Samuel Moreira

Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de So Paulo

INFNCIA ROUBADA

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12/09/14 23:38

Apresentao
Esta obra resultado do ciclo de audincias Verdade e Infncia Roubada, realizada pela Comisso da Verdade do Estado de So Paulo Rubens Paiva entre 6 e 20 de maio de 2013. Na ocasio, foram ouvidos cerca
de 40 testemunhos de filhos de presos polticos, perseguidos e desaparecidos da ditadura. Hoje, adultos na
faixa de 40, 50 anos, cujas histrias ainda no haviam sido contadas. Os depoimentos foram marcados por
lembranas da priso, do exlio, do desamparo, de questionamentos em relao s suas identidades, de medo,
insegurana, isolamento, solido e vazio que, em muitos casos, so traumas no superados.
Eles foram sequestrados e escondidos em centros clandestinos de represso poltica da ditadura militar brasileira (1964 1985). Afastados de seus pais e suas famlias ainda crianas, foram enquadrados como elementos subversivos pelos rgos repressivos e banidos do pas. Foram obrigados a morar com parentes distantes,
a viver com nomes e sobrenomes falsos, impedidos de conviver, crescer e conhecer os nomes verdadeiros de
seus pais. Foram, enfim, privados do cuidado paterno e materno no momento mais decisivo e de maior necessidade, que justamente a infncia.
Levados aos crceres da ditadura militar, foram confrontados com seus pais, nus, machucados, recm-sados
do pau de arara ou da cadeira do drago. Foram encapuzados, intimidados, torturados antes mesmo de nascer.
Filhos de guerrilheiros que hoje esto desaparecidos nasceram em prises e cativeiros. Sofreram torturas fsicas e psicolgicas, como Carlos Alexandre Azevedo, que com 1 ano e 8 meses apanhou e foi levado ao Dops.
Anos depois, em fevereiro de 2013, aos 39 anos, no aguentou mais as dores da vida e se suicidou.
Passados quase 30 anos do fim da ditadura, num pas onde a transio para a democracia segue inconclusa,
onde ainda h corpos insepultos, arquivos no abertos, histrias no contadas e uma Comisso da Verdade
tardia, o acolhimento de testemunhos de filhos de ex-presos polticos fundamental para se ter um panorama
da perversidade do aparato implantado pelo Estado de exceo.
A obra nasce dessa necessidade que a Comisso da Verdade de So Paulo Rubens Paiva sente em colocar
luz sobre a dimenso da violncia cometida pela ditadura. Se o inventrio de violaes de direitos humanos
que nos foi legado do regime de 1964 extenso e profundo, fato que esse captulo das violncias contra crianas e adolescentes uma das faces mais perversas desse poder repressor. So crimes contra a humanidade
que devem ser apurados com a devida punio dos responsveis.
Durante esse ciclo de audincias pblicas, nem todos os convidados conseguiram comparecer. s vezes, chegaram a confirmar, mas no apareceram. Alguns vieram, mas tiveram dificuldade de falar sobre o assunto. Assim, na obra, h, tambm, outros testemunhos, colhidos por escrito ou por meio de entrevistas. O livro conta
tambm com dezenas de fotografias da poca que ilustram todos os testemunhos. So imagens obtidas por
meio de extensa pesquisa iconogrfica em arquivos pessoais, familiares, internet e acervos pblicos.
Esperamos que esta publicao, que o leitor tem em suas mos, contribua para o momento privilegiado de
nossa histria, no qual a busca pela verdade, memria e justia em relao ao perodo da ditadura se torna
fundamental para o fortalecimento de nossa incipiente democracia. S assim poderemos garantir um futuro
melhor s novas geraes de crianas e adolescentes de nosso pas.

Deputado Estadual Adriano Diogo


Presidente da Comisso da Verdade do Estado
de So Paulo Rubens Paiva

INFNCIA ROUBADA

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Introduo
por Amelinha Teles

1. Mulheres e crianas inimigas do Estado


... Talvez uns cinco homens me torturaram.
Eu nunca mais voltei a ser a mesma... [...] No h
palavras para explicar [...] Estou tentando agora
superar [...] Quando me sequestraram, meu filho
tinha 10 meses. Fazia pouco tempo que tinha
deixado de amamentar. Quando sai da priso,
meu filho tinha 2 anos. No momento em que
se ps de p, perdeu os pais: eu fui sequestrada
e o pai foi assassinado...
Teresa Meschiatti, Tina,
guerrilheira da Argentina

A Comisso Estadual da Verdade Rubens


Paiva da Assembleia Legislativa do Estado de
So Paulo realizou uma srie de audincias em
que crianas, que sofreram nas mos da represso poltica da ditadura, direta ou indiretamente,
puderam relatar suas experincias e como conseguiram enfrentar e superar tamanha truculncia. Assim, o trabalho que ora apresentamos
visa dar conta dos relatos dessas pessoas que
eram crianas poca da ditadura e da importncia desses depoimentos para a construo

da verdade e da justia. No entanto, como falar


das crianas sequestradas, abandonadas, torturadas ou nascidas nos centros clandestinos da represso sem considerar a questo das mulheres,
militantes mes e das mes no militantes, que
por sua vez eram companheiras de militantes
polticos. Isso porque no houve crianas atingidas pelo aparato repressivo que no estivessem
vivendo com suas mes militantes e, via de regra, tinham um forte vnculo com as suas mes,
sejam militantes ou no. Suas mes de alguma
forma foram perseguidas, presas, sequestradas,
assassinadas/desaparecidas pela ditadura e seus
agentes. Ora, as crianas dependem dos adultos para serem cuidadas, limpas, alimentadas
e precisam de ateno, de amor e devem ser socialmente introduzidas junto a outras crianas
e outros adultos para crescerem em afetividade,
dignidade e cidadania. Essas atividades tm sido
historicamente de responsabilidade das mulheres embora estas tenham convocado os homens
para assumirem tambm essas tarefas, dividindo-as igualitariamente, tanto no mbito domstico como em relao aos cuidados. Tais fatos,
ainda que falte muito da presena dos homens,
vm concorrendo para fortalecer e melhorar a
vida em sociedade, seja para as mulheres, para

os homens e, principalmente, para as crianas.


Quando as crianas foram abruptamente arrancadas de suas mes, como ocorreu com o emprego deliberado da truculncia dos DOI-Codis que
usaram de violncia inclusive contra as crianas, elas perderam tudo isso de uma vez s: a
segurana afetiva e os cuidados mnimos, o que
as marcou profundamente por toda a vida. Cada
uma teve ou tem ainda que lidar com essa ferida,
que muitas vezes sangra, incomoda. Todo esse
sofrimento das crianas foi tambm usado como
forma de torturar as mes militantes ou mes
no militantes. Assim, neste captulo devemos
ressaltar que impossvel falar das crianas
sem tratar do quanto as mes, militantes ou no,
foram afetadas por tudo isso que aconteceu no
Brasil, durante a ditadura.
A ditadura militar (19641985) acarretou radical mudana na poltica brasileira e nos pases
da regio que acabaram tambm por implantar ditaduras similares. A represso atingiu as
foras populares organizadas, sobretudo sindicalistas, camponeses, estudantes, professores,
intelectuais e artistas. Um nmero incalculvel
foi preso, exilado ou passou a viver na clandestinidade. A Editora Vozes publicou2 , em 1988, o
livro Perfil dos Atingidos, organizado a partir de

INFNCIA ROUBADA

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estudos baseados nos processos da Justia Militar, movidos contra presos polticos. Das 7.367
pessoas processadas, 88% eram homens e 12%
mulheres. Estudo feito em 1970, pelo Estado
Maior do Exrcito, a partir de um levantamento dos presos que se encontravam disposio
do Exrcito em todo o territrio nacional, chegou a um total de mais de quinhentas pessoas: 56% eram estudantes ou haviam deixado
recentemente a atividade estudantil. A idade,
em mdia, era de 23 anos. Do total de presos,
20% eram mulheres, sendo que no Rio de Janeiro a porcentagem de mulheres atingia 26%, no
Nordeste 11% e no Sul no era mais do que 2%.
O Dossi de Mortos e Desaparecidos Polticos
apresenta um total de 437 militantes mortos
e desaparecidos, sendo que 11% so mulheres.
Na regio do Araguaia existiram pelo menos
setenta guerrilheiros desaparecidos, dos quais
doze so mulheres, ou seja, 17%.

tica Soledad Viedma Barret (1945 1973)3 foi


assassinada durante o episdio conhecido como
Massacre da Chcara So Bento, em Recife (PE).
Suspeita-se de que estivesse grvida na ocasio
de sua morte. Mas ela teve uma filha antes, asaindy, que na poca estava com um ano e oito
meses. A filha de Soledad no conheceu a me
ou no se lembra, por conta da tenra idade. Mais,
igualmente no conheceu o pai, Jos Maria Ferreira de Araujo, assassinado (e desaparecido) no
DOI-CODI/SP, em 23 de setembro de 1970. De
acordo com Elio Gaspari, no livro A Ditadura
Escancarada4 , [...] a mitolgica Dina (Dinalva Oliveira Teixeira: 19451974) foi assassinada grvida. Ela estava sob o controle do major
Curi [do Exrcito]. Esses so exemplos, outros
apresentamos mais frente, cujos nmeros so
incalculveis, que mostram como a infmia da
ditadura atingiu crianas, roubando-lhes a infncia inclusive ao se abater sobre suas mes.

De qualquer forma, a participao de mulheres no pode ser considerada desprezvel nem


na poca, e muito menos se comparada aos dias
atuais. Ainda hoje, com os resultados eleitorais
de 2012, as mulheres esto sub-representadas
na poltica. Na Cmara de Deputados so apenas 9%, no Senado 10% e nas cidades do Rio de
Janeiro e So Paulo as vereadoras somam 15%
e 10% respectivamente. No Brasil ainda prevalece uma mentalidade de que poltica coisa
de homem. Nesse diapaso, imagine como era
tratada a participao de mulheres nos subterrneos clandestinos da poltica, nas dcadas
de 1960/1970. Segundo o relatrio da InterParliamentary Union organizao que rene
os parlamentos de 162 pases, o Brasil ocupa,
no ranking de 190 pases, o 119 posto em relao participao das mulheres na poltica.
O Brasil tem partidos polticos sexistas que
no oferecem condies mnimas para a participao das mulheres, embora tenhamos uma
mulher de esquerda, militante na luta de resistncia ditadura, na Presidncia da Repblica,
Dilma Rousseff.

Muitas das crianas que aqui tratamos, filhas


de militantes polticas(os) sequestradas(os), foram mantidas em crceres clandestinos, nascidas
em cativeiros, torturadas ou ameaadas de serem
submetidas a torturas, algumas foram arrancadas
dos braos de suas mes, impedidas de serem
amamentadas e afagadas, outras chegaram a ser
torturadas mesmo antes de nascer, ou assistiram
s torturas em seus pais ou, ento, viram os pais
serem assassinados. Quase todas eram filhas e filhos de mulheres militantes polticas.

Quando se olha para o movimento de resistncia ditadura, no existe uma estimativa de


quantas militantes eram mes ou foram sequestradas grvidas. Mas houve militantes polticas,
mes e/ou grvidas que foram sequestradas,
torturadas, bem como crianas que tambm
sofreram os efeitos perversos da atuao dos
rgos pblicos voltados para a represso pol-

caso de Ieda Reis, guerrilheira da VAR-Palmares. Ela ficou exilada durante dez anos logo aps
ter seu filho, que s veio conhecer quando ele j
estava com 10 anos de idade, no momento em
que ela retornou ao Brasil. Ambos tiveram que
passar por um doloroso e inconcluso processo
de reconhecimento e convivncia. Por um longo
tempo, um olhava para o outro e no sabia o que
dizer, o que fazer.
Outras crianas nunca conheceram os pais,
por exemplo, Vansia, nascida na clandestinidade, em 27 de agosto de 1969, filha de Ransia
Alves Rodrigues (19451973) , guerrilheira, presa, torturada e assassinada, cujos restos mortais
nunca foram entregues a seus parentes. Vansia foi criada por duas mulheres que moravam
na comunidade da Mangueira, na cidade de
Recife (PE). Somente aos 23 anos viu uma foto
da me, publicada no Dossi dos Mortos e Desaparecidos Polticos. Igualmente as meninas
Isabel e Iara no souberam de seus pais quando
vivos; poca do assassinato do pai, Raimundo
Gonalves Figueiredo (19391971), em 28 abril de
1971, tinham respectivamente 2 anos e 1 ano de
idade. Um ano depois foi assassinada a me delas,
Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo (1938
1972), em 29 de maro de 1972. Elas no tm
lembranas concretas de seus pais, procuram
preencher as lacunas das memrias afetivas ouvindo relatos de parentes e militantes da poca.

Crianas tambm nasceram em cativeiro. Lia


Ceclia foi uma delas. Hoje com 39 anos, nascida em 1974, na regio da guerrilha do Araguaia,
filha de um guerrilheiro do Araguaia, desaparecido, Antonio Teodoro de Castro (19451974),
que era conhecido na rea da guerrilha como
Raul. Sobre sua me, no h nenhuma informao, mas encontra-se desaparecida desde aquela
poca. Teria Lia nascido no cativeiro e seus pais
mortos em seguida? Haveria outras crianas da
regio do Araguaia com histria semelhante
de Lia? Haveria outras crianas nascidas nos
campos de concentrao, criados pelos militares, na regio da guerrilha? So perguntas para
as quais at hoje no h respostas. So situaes
que no foram devidamente esclarecidas. Cabe
ao Estado brasileiro esclarecer esses fatos.

O absurdo da ditadura produziu, ainda, o absurdo de prender e banir crianas, fichando-as


como subversivas, considerado-as perigosas
segurana nacional. Elas cresceram e se
formaram fora do pas. o caso dos meninos
criados pela tia Tercina Dias de Oliveira,
militante do movimento guerrilheiro na rea
do Vale da Ribeira (SP): Ernesto Carlos Nascimento (nascido em 1968), aos 2 anos de idade
foi preso, em 1970, pelos agentes do DOPS, em
So Paulo; Zuleide Aparecida do Nascimento
(nascida em 1965) estava com 4 anos e 10 meses; Luis Carlos Max do Nascimento, irmo de
Zuleide, nascido em 1963, com 6 anos e 7 meses de idade; e Samuel Dias de Oliveira tinha
quase 9 anos. Todos foram banidos do Brasil
sob alegao de que eram elementos perigosos
e inimigos do Estado.

Algumas crianas puderam ir com suas mes


para o exlio, mas houve aquelas cujas mes partiram sozinhas sem que seus filhos pudessem ir
por questes econmicas ou de segurana. o

No apenas adultos, mas tambm crianas


foram sequestradas e ficaram nas dependncias
dos centros de tortura onde seus pais e outros
presos eram torturados e seviciados. Como, por

Marta Diana. Mujeres Guerrilleras: Sus Testimonios en la militancia de los setenta, Editora Booket, Buenos Aires, 2007, p.44. Traduo livre.
Maria Amlia de Almeida Teles, Breve Histria do Feminismo no Brasil, Editora Brasiliense, So Paulo, 1993, p.64.
Dossi Ditadura: Mortos e Desaparecidos Polticos (1964-1985), Imprensa Oficial, So Paulo, 2009, p. 413.
4
Idem, p. 583.
1

2
3

14

COMISSO DA VERDADE DO ESTADO DE SO PAULO RUBENS PAIVA

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exemplo, os irmos Janana e Edson Teles, de 5


e 4 anos de idade, que estiveram por vrios dias
no DOI-CODI/SP e num centro clandestino da
represso, em So Paulo, onde ouviam os gritos
de tortura de seus pais e de outros presos que ali
se encontravam.
Houve crianas que foram torturadas para
forar seus pais a denunciarem outros companheiros. Gino Ghilardini, poca, com 8 anos
de idade, filho de Luis Ghilardini (19201973),
comunista assassinado sob torturas no DOI-CODI/RJ, foi preso juntamente com a me, Orandina. Ambos foram torturados. O menino Gino
conta que era violentado para o pai falar o que
sabia: Eu ouvia meu pai ali perto gemendo, eu
escutava, mas no podia fazer nada. Passados
uns dias, Gino foi encaminhado e ficou durante
vrios meses na Fundao Nacional do Menor
no Rio de Janeiro.
Pais foram assassinados diante de suas crianas, tal qual ocorreu com a famlia Lucena. Antonio Raimundo Lucena (1922 1970) foi assassinado em 20 de fevereiro de 1970 na frente de
seus filhos de 3 e 6 anos, respectivamente. O filho mais velho, de 18 anos, estava sequestrado
e sofria torturas no DOI-CODI/SP. Sua esposa,
Damaris Lucena, foi presa, torturada e banida
do pas juntamente com os filhos pequenos.
Houve crianas cujas mes foram sequestradas por serem esposas de militantes comunistas. Assim aconteceu com Marilda, esposa do
militante comunista Carlos Nicolau Danielli
(1929 1972), assassinado sob torturas no DOI-CODI/SP. Ela foi sequestrada e seus filhos,
Vladimir, Valdenir e Vladir, com 9, 7 e 6 anos
de idade, sofreram muito por se sentirem sozinhos e abandonados. O mesmo aconteceu com
a esposa de Rafael Martinelli, dirigente do movimento sindical. Enquanto ele foi perseguido
e sequestrado pelos agentes da represso, ela
foi levada para as dependncias do DOI-CODI, do jeito como costumava ficar em sua casa,
descala. A esposa de Martinelli no tinha nenhuma participao poltica. Mas seus trs filhos ficaram ss e abandonados enquanto ela
estava submetida aos interrogatrios e torturas
naquele rgo.
Outro caso emblemtico da violncia da
ditadura sobre as crianas o dos filhos de
Virgilio Gomes da Silva (1933 1969), militante
da ALN Ao Libertadora Nacional , assas-

sinado sob torturas pelo DOI-CODI/SP, sendo


Virglio um desaparecido poltico, pois seus
restos mortais at hoje no foram entregues a
seus familiares para um sepultamento digno.
Os filhos de Virglio eram crianas e foram
presos com a me, que no era militante, Ilda
Martins da Silva. Ilda foi interrogada, torturada e separada dos filhos:
Eu no queria me separar deles de jeito
nenhum, veio uma freira, pegou-os e os levou
para o DOPS/SP. Eles ficaram dois dias l e
depois foram levados para o Juizado de Menores, onde permaneceram por dois meses. Isabel, a mais nova, era um beb de 4 meses, foi
hospitalizada e quase morreu. Eu fiquei presa
por nove meses e estive incomunicvel, no
podia ver meus filhos ou saber deles. E eu no
tinha participao poltica em nada.
Muitas das crianas aqui tratadas se tornaram
adultos atormentados, vtimas de um sofrimento mental permanente, devido tamanha violncia cometida contra eles. No suportaram e
acabaram morrendo. o caso de Carlos Alexandre Azevedo (Cac) que se matou aos 39 anos
de idade. Filho de pai e me, militantes, Cac,
quando tinha 1 ano e 8 meses, teve sua casa invadida por policiais do DOPS/SP, no dia 15 de
janeiro de 1974. Como comeou a chorar, os policiais deram-lhe um soco na boca que comeou
a sangrar. Com o corte nos lbios, sangrando,
foi levado para o DOPS/SP e passou por mais
de 15 horas em poder dos homens da represso.
No DOPS/SP, os pais ouviram relatos de outros
presos de que ele teria levado tambm choques
eltricos. Mais tarde, o beb foi entregue aos
avs maternos, em So Bernardo do Campo
(SP). Como disse o pai anos depois:
Na verdade, em vez de entregue, ele foi jogado ao cho. Acabou com um machucado a
mais na cabea. Isso me foi contado. O certo
que ele ficou apavorado. E esse pavor tomou
conta dele. Entendo que a morte dele foi o limite da angstia7.
A ignomnia de crianas nascidas de estupros
praticados por agentes do Estado existiu, ainda
que no se toque nesse assunto, presas polticas
foram insultadas em sua dignidade e violentadas nos chamados DOI-CODIs e outros centros
de tortura. O silencio permanente em torno da
questo. As razes para o silncio permanente
que paira sobre o assunto so muitas: a profun-

da humilhao de ser uma mulher estuprada e


ainda me de uma criana filha de um estupro
cometido por torturadores. E a questo permanece interdita. Se ainda prevalece a ideia de que
a palavra das mulheres no crvel nos dias de
hoje, o que dizer naqueles anos de chumbo quando mulher era assunto proibido e considerado
subversivo. A revista Realidade, de janeiro de
1967, n. 10, teve sua edio especial dedicada
situao das mulheres apreendida pela censura.
O jornal Movimento, n. 45, foi totalmente censurado, por realizar uma edio voltada para O
Trabalho da Mulher no Brasil. So exemplos
mostrando que o fato de falar sobre as mulheres,
revelando dados de sua realidade na famlia, no
trabalho, na educao e na sociedade causava
muita preocupao s autoridades militares que
eram extremamente misginas. Tanto que
um dos ditadores (General Figueiredo, 19781985) chegou a dizer em pblico que: ... mulher
e cavalo a gente s conhece quando monta.
Deve-se ressaltar, tambm, que a violncia
sexual acarreta consequncias de longo prazo
no s s vtimas como para todo o grupo social a que elas pertencem, inclusive pode levar
infertilidade.
Ainda nos dias atuais, as militantes que sobreviveram no se sentem fortalecidas e com
garantias para denunciar os torturadores/estupradores e ver a apurao de tais crimes. H
uma ausncia de aes polticas no sentido de
oferecer oportunidade para uma narrativa pblica sobre o estupro cometido dentro de rgos policiais. No vamos aqui descrever os
casos, mas no podemos deixar de reconhecer
sua existncia. Registrar que houve o estupro
como prtica de tortura nos rgos de represso
durante a ditadura militar o comeo para desvelar os horrores cometidos contra as mulheres
durante a ditadura.
Embora desde o sculo XV, possam ser encontradas referncias ao estupro como violao das
normas relativas guerra e passvel de punio,
o que ainda se constata so os grandes entraves para se fazer a denncia desses crimes. No
h nenhuma poltica reparatria nesse sentido
no Brasil8.

Idem, p.411.
Revista Brasileiros, n.68, maro de 2013: Subversivos: Acredite. Estas crianas foram presas e banidas do Brasil. Mais de quarenta anos
depois elas contam como sobreviveram. H quem no tenha conseguido, quando meninos so fichados como terroristas, Luiza Villama, p.54.
7
Idem, p.64, matria de Luiza Villama.
8
Adriana Sader Tescari, Violncia Sexual contra a Mulher em Situao de Conflito Armado, Editora Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 2005, p.38.
5
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2. Denncias de mulheres grvidas publicadas


pelo projeto Brasil Nunca Mais
Muitas mulheres que, nas prises brasileiras
tiveram sua sexualidade conspurcada
e os frutos do ventre arrancados, certamente
preferiram calar-se, para que a vergonha
suportada no casse em domnio pblico.
Hoje, no anonimato de um passado marcante,
elas guardam em sigilo os vexames e as
violaes sofridas. No entanto, outras
optaram por denunciar na Justia Militar
o que padeceram, ou tiveram seus casos
relatados por maridos e companheiros.9

O projeto Brasil Nunca Mais consistiu na primeira pesquisa realizada a partir dos processos
contra presos polticos transitados no Superior
Tribunal Militar (STM) no perodo de abril de
1964 a 1979, sob a responsabilidade da Comisso
de Justia e Paz. O contedo do Projeto reuniu
707 processos completos e dezenas de outros incompletos num total de um milho de documentos. O estudo desses processos e a sistematizao
das informaes foram realizados de 1979 a 1985.
No final dos trabalhos, foi publicado um livro com
o nome Brasil: Nunca Mais, que rene denncias
contidas nos autos dos processos de militantes
polticos, mulheres e homens, nas auditorias militares, na poca da ditadura militar.
Militantes ou esposas de militantes, grvidas,
foram vitimas do aborto forado, praticado por
agentes policiais dos DOI-CODIs. Muitos desses
abortamentos foram denunciados nas audincias
da Justia Militar. Eis o relato de alguns desses
casos:
O auxiliar administrativo Jos Ayres Lopes, 27 anos, preso no Rio, declarou em 197210:
(...) que, por vezes, foram feitas chantagem com
o depoente em relao gravidez de sua esposa,
para que o depoente admitisse as declaraes,
sob pena de colocar sua esposa em risco de aborto e, consequentemente, de vida; (...).
O estudante Jos Luiz de Arajo Saboya, de
23 anos, no Rio, denunciou: (...) que durante o
perodo em que esteve no DOPS, em seguida no
CODI, a sua esposa se encontrava em estado de

gestao e permaneceu detida como elemento de


coao moral sobre o interrogando; (...).
Helena Moreira Serra Azul, 22 anos, estudante,
no Conselho de Justia, em Recife (PE) , ao ser
interrogada, relatou: (...) que o marido da interroganda ficou na sala j referida e ela ouviu, do lado
de fora, barulho de pancadas; que, posteriormente,
foi reconduzida sala onde estava o seu marido,
que se apresentava com as mos inchadas, a face
avermelhada, a coxa tremendo e com as costas
sem poder encostar na cadeira; que o Dr. Moacir
Sales, dirigindo-se interroganda, disse que, se ela
no falasse, ia acontecer o mesmo com ela; (...) na
Delegacia, todos j sabiam que a interroganda estava em estado de gestao; (...).
Helena Mota Quintela, vendedora, 28 anos, em
1972, em Recife, denunciou: (...) que foi ameaada
de ter o seu filho arrancado ponta de faca; (...).
Hecilda Mary Veiga Fonteles de Lima, 25 anos,
estudante, ao depor, relatou como se deu o nascimento de seu filho: (...) ao saber que a interroganda estava grvida, disse que o filho dessa raa no
devia nascer; (...) que a 17.10 foi levada para prestar
outro depoimento no CODI, mas foi suspenso e, no
dia seguinte, por estar passando mal, foi transportada para o Hospital de Braslia; que chegou a ler
o pronturio, por distrao da enfermeira, constando do mesmo que foi internada em estado de
profunda angstia e ameaa de parto prematuro;
que a 20/2/1972 deu luz e 24 horas aps o parto,
disseram-lhe que ia voltar para o PIC (Policia de
Investigaes Criminais); (...).
Maria Jos da Conceio Doyle, estudante de
Medicina, em 1971, em Braslia: (...) que a interroganda estava grvida de 2 meses e perdeu a
criana na priso, embora no tenha sido torturada, mas sofreu ameaas; (...).
Maria Cristina Uslenghi Rizzi, 27 anos, secretria,
denunciou Justia Militar de So Paulo: (...) sofreu sevcias, tendo, inclusive, um aborto provocado que lhe causou grande hemorragia, (...).
Olga DArc Pimentel, 22 anos, professora, em
1970, no Rio: (...) sevcias, as quais tiveram, como
resultado, um aborto provocado que lhe causou
grande hemorragia, (...).

Luz Andra Favero, 26 anos, professor, preso em Foz do Iguau, declarou na Auditoria
Militar de Curitiba, em 1970, o que ocorrera a
sua esposa: (...) o interrogando ouviu os gritos
de sua esposa e, ao pedir aos policiais que no
a maltratassem, uma vez que a mesma se encontrava grvida, obteve como resposta uma
risada; (...) que ainda neste mesmo dia, teve o interrogando noticia de que sua esposa sofrera uma
hemorragia, constatando-se posteriormente, que
a mesma sofrera um aborto; (...).
Regina Maria Toscano Farah, estudante, 23
anos, ao depor, no Rio, declarou: (...) que molharam o seu corpo, aplicando consequentemente
choques eltricos em todo o seu corpo, inclusive
na vagina; que a declarante se achava operada
de fissura anal, que provocou hemorragia; que se
achava grvida, semelhantes sevcias lhe provocaram aborto; (...).
As marcas da tortura permanecem, como mostra o testemunho de Isabel Fvero, ex-militante
da VAR-Palmares, presa em 5 maio de 1970, em
Nova Aurora, cuja denncia foi feita, quarenta
anos antes, pelo seu marido, Luiz Fvero11. Ela
relata com detalhes o abortamento sofrido e denunciado pelo seu marido na poca: Eu ficava
horas numa sala, entre perguntas e tortura fsica.
Dia e noite. Eu estava grvida de dois meses, e
eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de
muito choque, pau de arara, ameaa de estupro
e insultos, eu abortei. Depois disso, me colocaram
num quarto fechado, fiquei incomunicvel.
Outra mulher e militante poltica, Ndia Lucia do Nascimento, integrante do MR-8, presa
em So Paulo, em 1974, grvida de seis meses,
no DOI-CODI/SP, foi colocada na cadeira
de drago pelo torturador conhecido por Capito Ubirajara (delegado da polcia civil de
So Paulo, que integrava as equipes de torturadores do DOI-CODI/SP, cujo nome oficial
Aparecido Laerte Calandra). Depois de arrancada a roupa, ela levou choque eltrico por todo o
corpo, o que fez com que abortasse. Ficou durante dias com fortes hemorragias e dores, sem sequer um atendimento mdico12.

Brasil: Nunca Mais, Editora Vozes, 1986, Petrpolis, p.43.


Idem, pp.48-50.
11
Idem, p 50.
12
Testemunho dado Comisso Estadual da Verdade Rubens Paiva da Assemblia Legislativa do Estado de So Paulo
9

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COMISSO DA VERDADE DO ESTADO DE SO PAULO RUBENS PAIVA

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3. Maternidade, infncia, clandestinidade


e terror de Estado
... me espanta a capacidade que se
tem de sobreviver ao horror.13
... ameaa de morte, podemos responder
com uma nova vida.14

A maternidade foi usada, das mais diversas


formas, pela represso poltica como meio de
tortura, para enlouquecer e aniquilar militantes,
o que acarretou uma sobrecarga pesada do ponto de vista emocional e fsico, de forma especial,
s crianas e s mulheres, que, ao serem violentamente reprimidas por sua militncia de contestao ditadura, ou por serem filhas de militantes, eram submetidas s mais vis torturas,
sejam psicolgicas ou fsicas, por serem mes
e terem seus filhos pequenos, ou simplesmente
porque eram crianas, filhas de comunistas.
As militantes na luta contra a ditadura militar,
de um modo geral, pertenciam a organizaes
polticas clandestinas, pois era taxativamente
proibido se organizar e se expressar de maneira
pblica sob a vigncia dos governos militares.
Portanto, as normas dessas organizaes eram
bastante rgidas devido s questes de segurana. A militncia clandestina precisava de esconderijos para se encontrar, planejar atividades
cotidianas. Eram casas/residncias, conhecidas
como aparelhos. Para manter uma fachada legal era conveniente destacar um casal de militantes jovens para cuidar do aparelho. Diante
de um casal com essas caractersticas as suspeitas junto vizinhana eram bem menores.
As mulheres militantes, ao decidirem pela
maternidade, eram advertidas de forma sistemtica sobre o que poderia lhes advir caso cassem
nas garras da represso. Havia reaes negativas em relao escolha pela maternidade. As
organizaes, de um modo geral, no adotavam
nos seus planos de ao o enfrentamento dos
problemas do cotidiano, considerados menores
e que deveriam ser postergados para quando
houvesse o triunfo da revoluo. Por outro lado,
existia o compromisso, nas mais diversas circunstncias, de proteger mulheres e crianas
das garras perversas da represso. Algumas
organizaes excluam as grvidas ou mes de

crianas pequenas das tarefas polticas e/ou militares, no sentido de impedir que acontecesse
o pior: a me ter sua criana torturada e/ou sequestrada, usada como refm pelos agentes da
represso, assim como as crianas assistirem
suas mes ou seus pais sendo torturadas (os). A
relutncia em aceitar as mes como militantes
no era sem razo. A represso poltica no poupou nem crianas nem mulheres grvidas. Muitas mulheres abortaram nas dependncias dos
DOI-CODIs de tanto apanharem e levarem choque na barriga, vagina e demais partes do corpo.
Assim como existiram mulheres que tiveram
seus partos, na mais ferrenha clandestinidade, outras tiveram seus filhos na cadeia, como Hecilda,
Crimeia Schmidt, Linda Tayah. Todas foram presas grvidas e, mesmo sendo muito torturadas,
permaneceram grvidas e seus filhos nasceram
sob a ameaa de torturas sendo que algumas dessas crianas sofreram a tortura ainda na barriga
de suas mes. Nessa seara, temos o caso do Joca,
Joo Carlos Schmidt de Almeida Grabois. Sua
me, Crimia, foi presa com sete para oito meses
de gravidez. Levou choques eltricos, foi espancada em diversas partes do corpo e sofreu socos no
rosto. Quando os carcereiros pegavam as chaves
para abrir a porta da cela e lev-la sala de tortura,
o seu beb ainda na barriga comeava a soluar.
Nasceu na priso e, mesmo anos depois, quando
ouvia o barulho de chaves, voltava a ter soluos.
As crianas que viviam na clandestinidade, de
um modo geral, moravam nos aparelhos que
poderiam ser invadidos, vasculhados e sequestrados os que ali se encontravam, pelos agentes
dos rgos de represso. A perseguio policial,
ora velada, ora aberta, era constante na vida da
militncia. O risco era permanente. As crianas,
na sua maioria, precisavam ter nomes falsos. No
sabiam o verdadeiro nome de seus pais por questo de segurana. As distintas tarefas partidrias
que compunham uma ao poltica ou armada
de maior envergadura se faziam de forma compartimentada e, muitas vezes, era pouco o tempo
para se preparar e tomar conhecimento do perigo
iminente. As mulheres militantes participavam
igualmente da concretizao das tarefas polticas
e militares, o que talvez tenha sido a grande no-

vidade da poca. De qualquer forma, as atividades domsticas recaam mais sobre as mulheres.
O comando era sempre dos homens, mesmo que
as mulheres tivessem desempenho igual ao dos
homens. Eram eles que estavam nas direes das
organizaes, com rarssimas excees, mas as
mulheres agiram com coragem e criatividade.
Dessa vez as mulheres no precisavam vestir-se
de homem para ir guerra como fez Maria Quitria em outros tempos. Embora muitos comandantes esperassem que as mulheres se comportassem como homens. Segundo a ex-guerrilheira
Crimeia, muitas mulheres que optaram pela luta
poltica aprenderam a afirmar a diferena e buscar novas formas de fazer poltica. Afinal, dessa
vez as mulheres foram luta por conta prpria,
por sua prpria deciso e ali entraram para valer.
Suzana Lisboa, militante da ALN na dcada de
1970, considera que (...) era vantajosa, do ponto
de vista do desempenho da organizao, a integrao de mulheres na luta armada (...).
Ela afirma que numa sociedade machista em
que a mulher no era reconhecida e considerada,
uma guerrilheira teria mais facilidade de sair de
uma ao militar e se confundir na multido. As
mulheres tinham mais facilidades de obter documentos falsos. No precisavam de atestado de
reservista. E com isso tornava-se mais fcil conseguir um emprego e manter uma fachada legal.
Muitas chegaram a ser citadas pelos agentes da
represso, que eram pegos de surpresa ao se defrontarem com mulheres dispostas a enfrentar o
inimigo com tanta ousadia e destreza. Eles se assustavam com o fato de que essas mulheres rompiam, sistematicamente, com os papis sociais
que lhes eram e ainda so impostos de submisso, dependncia, falta de deciso e coragem.
A vida poltica realizada s escondidas da
ditadura e da represso poltica aproximava os
militantes e era comum entre eles uma conversa
sobre assuntos mais ntimos. A clandestinidade e a perseguio constante os tornavam mais
afetivos e mais prximos. A igualdade entre os
sexos era, como ainda hoje, uma proposta a ser
alcanada. Cada minuto vivido era intenso, porque o perigo e a morte rondavam por perto.

13 Susel Oliveira da Rosa, Mulheres: Ditaduras e Memrias, Editora Intermeios, So Paulo, 2013, Carta de Danda Prado, p.180. (Coleo Entregneros).
14 Fala de Crimeia Alice Schmidt de Almeida, ex-guerrilheira do Araguaia, publicada no livro j citado: Breve Histria do Feminismo no Brasil, p.72.

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4. Mudanas profundas na vida das mulheres


sob a gide do autoritarismo
... A insero do feminismo no movimento pela
recuperao da democracia passava por uma
critica ao autoritarismo no apenas como
o sistema poltico-militar que governava a
maioria dos pases latino-americanos, mas
ampliava essa crtica identificando o
autoritarismo como sistema de relaes de
disciplinamento e de dominao que
aprofundava a situao de subordinao
e opresso das mulheres no continente...
Lilian Letelier

15

Entretanto, surgiam fatores que aceleravam


mudanas de hbitos e costumes na sociedade
brasileira. O capitalismo se desenvolvia rapidamente com o aumento excessivo da explorao
da mo de obra, o achatamento salarial, o incentivo e os subsdios estatais para a instalao de
multinacionais. A partir da expulso da populao do campo, h uma transferncia abrupta de
um grande contingente da populao da rea rural para as reas urbanas em busca de trabalho e
sobrevivncia. As mulheres, em geral, passaram
a ter novas atribuies, seja na chefia da famlia
ou na competio para o mercado de trabalho,
fazendo crescer a participao da mo de obra
feminina. Elas passaram a ter mais possibilidades de controlar o nmero de filhos que queriam
ter. A plula anticoncepcional, descoberta em
1960, comeou a ser popularizada. As mulheres
comearam a exercer o direito ao prazer sexual
sem necessariamente ficarem grvidas. As mulheres, ento, travaram um movimento de ruptura do tabu da virgindade. Passaram a exercer
uma maior liberdade sexual subvertendo a ordem dada pelo acirramento da represso poltica
e moral. Desse modo, a maternidade comea a ser
exercida como um direito de escolha. A mdia de
filhos por mulher era em torno de seis em 1960
e caiu para cerca de dois, no final do sculo 20.
Assim, as mulheres lograram por se tornar mais
independentes, a assumir mais atividades nos espaos pblicos, seja nas escolas ou no mercado de
trabalho. Aproximavam-se, mesmo sem ter conscincia plena, das incipientes ideias feministas.

Nos anos de 1970, no mundo ocidental, vivia-se


o auge da segunda onda feminista, na qual as mulheres conduziram bandeiras que reivindicavam
o direito de decidir sobre o prprio corpo, que as
questes do plano pessoal deveriam ser tratadas
tambm no campo poltico. Tratavam de temas
como corpo, sexualidade, prazer sexual, aborto e
a maternidade. Queriam desfazer a ideia de que
tinham um nico destino selado, o de serem mes.
Tais ideias circulavam junto s militantes, ainda que com mais dificuldade, devido falta de
liberdade e a perseguio constante que as impediam, muitas vezes, de discutir questes do
cotidiano. Acreditava-se que somente aps a
revoluo socialista haveria oportunidade para
cuidar de assuntos do campo pessoal, cultural.
Portanto, a questo das mulheres ficaria para
depois. Paradoxalmente, as mulheres que decidiram pela militncia de oposio ditadura,
eram, de um modo geral, pessoas que tinham
maior independncia e autonomia. Tiveram que
enfrentar muitas barreiras de ordem pessoal,
familiar, profissional, para assumir a posio
poltica de enfrentamento ao autoritarismo. Assumiram o papel histrico de protagonistas de
aes libertrias, tornando-se sujeitos polticos,
atuantes na construo de uma sociedade justa
e democrtica. A maioria delas exerceu de forma
destemida o direito de escolha nos mais diversos campos da vida inclusive em relao a ser ou
no mes. Mas insistiram em tratar as questes
pessoais no plano poltico das organizaes. Foram, ainda que nem todas estivessem conscientes disso, as pioneiras do feminismo dos anos de
1970 no Brasil e regio.
As militantes tiveram que romper com os esteretipos femininos e se empenharam em aes
que eram restritas a homens, como o manejo de
armas, a elaborao de estratgias de resistncia para driblar o inimigo, entre outras. No se
deixaram intimidar, de ter desejos e manifest-los, no recusaram tarefas por causa da menstruao, de um abortamento, da gravidez ou
aleitamento. E aquelas que caram nas garras
do inimigo, grvidas ou no, de um modo geral,
enfrentaram seus algozes de maneira firme e al-

tiva. As mulheres mes, por sua vez, enfrentaram a dupla ou talvez tripla opresso (enquanto
pertencentes ao sexo feminino, como parte do
povo em luta e como mes) sem deixarem de ser
sujeitos polticos, conscientes de suas aes e
seus significados.
O corpo, a sexualidade e a maternidade ocupam lugares centrais no processo histrico de
discriminao contra as mulheres. A subordinao e opresso das mulheres se d, em grande medida, pelo controle do corpo feminino. A
expresso maior deste controle a violncia
contra as mulheres prtica to antiga e naturalizada que, naqueles anos de ditadura, prevalecia o ditado popular: Em briga de marido e
mulher no se mete a colher, embora fossem
violentadas/espancadas e assassinadas as mulheres. Assim como tambm se entendia que
os homens tinham uma necessidade irrefrevel
e incontrolvel de sexo. Da a justificativa da
prtica da violncia sexual contra as mulheres.
A culpa de serem estupradas recaa sobre as
prprias mulheres vtimas. Da a dificuldade de
se denunciar os estupros. A desigualdade entre
os sexos tem sido estruturalmente estabelecida
ainda nos dias de hoje. O que dizer de quase
meio sculo atrs? Quando nem mesmo havia
sido conquistada a igualdade jurdica e formal.
No Cdigo Civil daquela poca, o homem podia
pedir a anulao do casamento se a mulher no
fosse virgem e no tivesse avisado a ele com a
devida antecedncia e precauo. O pai podia
deserdar a filha desonesta. A honestidade das
mulheres significava uma sexualidade reprimida. Tanta tirania atingia as mulheres como um
todo, reforava e justificava as aes repressivas
nos espaos pblicos como privados.
Some-se a isso o fato de que havia uma campanha de controle da natalidade incentivada pelos
Estados Unidos baseada na ideologia imperialista contra o nascimento de filhos de pobres no
Brasil e em diversos pases, denominados poca
como pases do Terceiro Mundo17.
O estado ditatorial patrocinava iniciativas de
controle da natalidade promovidas pela Bemfam
Sociedade Civil de Bem Estar Familiar , criada

In Maria Betnia vila (org.), Textos e Imagens do Feminismo: Mulheres Construindo a Igualdade, SOS-Corpo, Recife, 2001, p.198. Revista Brasileiros, n.68, maro de 2013.
Hoje creche um direito constitucional da criana pequena educao. Mas h mais de dez milhes de crianas brasileiras que vivem no Brasil, sem poder usufruir deste direito
por falta da construo de creches. (N. da A.)
17
Pases do Terceiro Mundo eram os pases pobres ou subdesenvolvidos. Segundo a teoria terceiro mundista, o mundo era dividido em pases capitalistas (Primeiro Mundo),
socialistas (Segundo Mundo) e os demais eram do Terceiro Mundo. (N. da A.)
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COMISSO DA VERDADE DO ESTADO DE SO PAULO RUBENS PAIVA

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durante a ditadura militar, em 1965, e reconhecida


como rgo de utilidade pblica. O governo militar assumiu um carter ambguo: mantinha uma
postura oficial de no intervencionismo na vida
das pessoas quanto deciso de ter ou no ter filhos. Mas na prtica abria caminhos, com subsdios e facilidades substanciais para aes antinatalistas, com acordos entre as secretarias de sade
e a Bemfam nos diversos estados brasileiros, priorizando os mais pobres, impondo, de forma criminosa e irresponsvel, a esterilizao em massa.
Por outro lado, os servios pblicos de sade
no ofereciam sequer informao e muito menos
orientao quanto ao uso dos meios contraceptivos. Essa postura contribuiu enormemente para
a expanso das esterilizaes femininas e de

doenas gravssimas de hipertenso. Os ndices


apresentados naquela poca j eram altssimos:
em Pernambuco, 18,9% das mulheres de 15 a 44
anos se encontravam esterilizadas (trompas ligadas) enquanto 12,5% usavam plulas; em Manaus,
33% das mulheres estavam com as trompas ligadas; 17% no Piau; e 15% das paulistas. Estavam excludas desses clculos as mulheres esterilizadas
por outros motivos, como abortos mal feitos ou
pelo uso inadequado de plulas ou do DIU (Folha
de So Paulo, edio de 17 jul. 1983). A ao da
Bemfam e de outras entidades congneres, com
o suporte do Estado brasileiro, reduziu drasticamente os ndices de fertilidade no Brasil, inclusive em reas com baixa densidade demogrfica
como na Amaznia.

Nesse contexto, as militantes polticas que


decidiram ser mes, o fizeram em condies desafiadoras tanto por lutarem contra a ditadura
militar como ainda pela ousadia de se engravidarem. Tomaram o caminho da descoberta do
corpo, se apropriaram dele, de sua sexualidade
e das prprias decises tanto em relao reproduo como ao exerccio da sexualidade e da
atividade poltica. Assim tambm como aquelas
que decidiram o aborto e o realizaram em condies de clandestinidade: sem lei e sem recursos
materiais. Foram mulheres que ousaram exercer
o direito de escolha at as ltimas consequncias.

5. Mas afinal, o que gnero?


No se nasce mulher, torna-se.
Simone de Beauvoir, em 1949

Hoje, com o avano das cincias sociais e da


cincia, em geral, pode-se contar com recursos
tericos e polticos valiosos para enfrentar a discriminao histrica contra as mulheres. A categoria gnero, entendida aqui como instrumento
de anlise da construo social e das relaes
entre os sexos, ao ser usada para dimensionar
as causas estruturais e sociais das desigualdades entre mulheres e homens, desconstri como
naturais e/ou prprias da natureza humana, a
subjugao, discriminao e opresso das mulheres. necessrio que no uso da categoria
gnero deva ser incorporado o conceito de diviso sexual do trabalho, pois esta se encontra no
centro do poder que os homens exercem sobre
as mulheres. Observa-se que a diviso sexual do
trabalho uma realidade em todas as sociedades humanas e a base da desigualdade social
entre os sexos. Os homens tm ocupado por um
longo perodo histrico os espaos pblicos, vinculados produo e adquirindo o poder econmico e poltico enquanto as mulheres ficaram
por muito tempo restritas aos espaos privados,
incumbidas de realizar as tarefas domsticas e
de cuidados. As mulheres, ao sarem para ocu-

par o seu lugar no mercado de trabalho e buscar formao profissional e poltica tiveram que
arcar com o nus de exercer, ao mesmo tempo,
as atividades do mundo privado e do pblico, o
que lhes tm ocasionado uma enorme sobrecarga de trabalho e de responsabilidade. Ocorre a
chamada dupla jornada de trabalho (o trabalho
na produo e na reproduo), o que traz dificuldades para sua participao na sociedade.
Assim podemos perceber que a diviso sexual
do trabalho impe uma diviso dos papis sociais masculinos e femininos, que so construdos culturalmente e que determinam uma maior
valorizao dos homens em detrimento das mulheres. As mulheres tm sido, assim, impedidas
de exercerem o poder de deciso. Por exemplo,
tanto a mulher quanto o homem podem dar banho no beb ou trocar sua fralda. No se trata de
um problema fsico ou hormonal. Se as mulheres
tm sido mais eficientes nesse trabalho porque
se capacitaram para isso por muito mais tempo.
Com isso queremos mostrar que as desigualdades entre homens e mulheres no so naturais.
Foram historicamente construdas. A categoria
gnero vem justamente mostrar que as desigualdades podem ser desnaturalizadas e desconstrudas. Empregar a categoria gnero na anlise
da realidade aprofunda o conhecimento e leva
a rejeitar o determinismo biolgico. No so
os aspectos biolgicos e sexuais que criam as

desigualdades sociais, econmicas e polticas.


As desigualdades so fruto da arbitrariedade e
das injustias sociais, o que cria condies de
inferioridade para alguns segmentos e classes
sociais. Enquanto as diferenas so biolgicas e
devem ser respeitadas, as desigualdades devem
ser erradicadas.
O conceito de gnero, articulado s demais
categorias, clssicas ou no, como raa, etnia,
gerao, orientao sexual, classes sociais, aprofunda a compreenso da realidade e desconstri
a ideia de que o homem o paradigma da humanidade. Inscrevem-se, portanto, nos paradigmas
da humanidade, mulheres e homens porque ambos so humanos. Desse modo so constitudos
novos atores e novos sujeitos polticos, revelam-se mtodos transformadores que devem nos levar a mudanas profundas e compatveis com a
diversidade e as necessidades humanas. A submisso das mulheres ao poder dos homens, vista
at ento como processos naturalizados, passa a
ser questionada e ressignificada.
Hoje, graas s lutas feministas de mulheres,
h nos diversos nveis do Estado brasileiro (federal, estadual e municipal) aes e polticas pblicas para efetiva equidade de gnero e igualdade de direitos. Na ditadura, a situao era o
oposto.

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6. A construo da verdade sob a perspectiva de gnero


Os danos e violaes de direitos humanos cometidos contra as mulheres pela ditadura militar
devem ser dimensionados sob a tica de gnero,
para que se alcance com profundidade a verdade
dos fatos, registrando-se que as militantes polticas, ou no, se recusaram a reproduzir o papel social de submisso e de dependncia dos homens,
contribuindo de maneira fundamental para a
construo de uma democracia de fato, e isso num
perodo em que tudo o que faltava era democracia. Desse modo, nossa frgil democracia no se
consolidar, dentre outras coisas, sem que se faa
justia s mulheres e s crianas que lutaram e/ou
foram atingidas pela ditadura.
Nessa seara, constatamos que na atividade
poltica clandestina, houve tambm avanos
nas relaes de gnero. Existiram ocasies em
que se quebrou a lgica at ento aceita como
natural, dito noutras palavras, ao homem o espao pblico e mulher o espao privado. Muitas
vezes, os homens foram obrigados a ficarem escondidos em aparelhos, devido intensa perseguio enquanto as mulheres, devido a levantarem menos suspeio, foram s ruas no preparo
e no desencadeamento de aes polticas e militares. Por consequncia disso, existiram homens
que aprenderam a lavar suas roupas, a fazer sua
prpria comida, tomando frente das atividades
domsticas. Mas foram exceo, infelizmente:
A participao feminina nas organizaes militantes pode vir a ser tomada como um indicador
das rupturas iniciais que estavam ocorrendo nos
papis tradicionais de gnero18 .
De inicio a ditadura, ao considerar que o inimigo se encontrava no seio do povo e ao estabelecer que qualquer pessoa estava sob suspeio,
teve, como alvo principal, os homens guerrilheiros. Com o desenvolvimento da luta contra
a ditadura, a participao das mulheres tornou-se mais incmoda para a represso que usou de
mtodos os mais perversos, reforando o moralismo e preconceito machistas para desmoralizar a participao das mulheres. Na tortura, as
militantes eram tratadas pelos policiais, de um
modo geral, como putas, amantes, amasiadas e
justificavam assim os estupros nas dependncias dos DOI-CODIs. Mesmo assim, no recu18

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aram nem deixaram de defender as liberdades


sejam de ordem pessoal ou de ordem poltica.
As desigualdades histricas entre homens e
mulheres foram reelaboradas e aprofundadas
pela ditadura, que no admitia, em nenhuma
hiptese, que mulheres desenvolvessem aes
no condizentes com os esteretipos femininos
de submisso, dependncia e falta de iniciativa. As mulheres, militantes polticas da poca,
subverteram a ordem patriarcal to solidamente
acomodada na ideologia ditatorial. Ao ingressarem para as lutas da oposio poltica, das mais
diversas maneiras, as mulheres pegaram em
armas ou apoiaram aes polticas de protesto,
sejam armadas ou no, mantiveram a segurana
de aparelhos que escondiam a militncia e o
material de luta, participaram da imprensa clandestina, escreveram, fizeram funcionar as grficas e distriburam as publicaes produzidas de
forma artesanal e em condies muito precrias.
Cuidaram da sade e da segurana de militantes e familiares. Tiveram suas crianas na clandestinidade, nas prises. Viram suas crianas
expostas s sesses de tortura, ameaadas ou
mesmo torturadas. Sofreram abortos dolorosos
devido aos espancamentos e chutes dos torturadores. Foram impedidas de amamentar seus bebs nos crceres, menstruaram de forma excessiva ou escassa conforme as sesses de torturas.
Foram estupradas e sofreram violncia sexual.
Tiveram seus corpos nus expostos para os torturadores espanc-los, queim-los com pontas de
cigarro ou com choques eltricos, enfiarem fios
eltricos em suas vaginas e nus, arrebentarem
seus mamilos e cometerem estupros.

Angel que denunciou insistentemente o desaparecimento do seu filho. Outras enlouqueceram


com tamanha dor e perseguio policial.
Houve muitas e muitas que lutaram no anonimato e que a histria ter de trazer tona a participao para que se alcance a verdade. Junto a
elas, muitas crianas tambm sofreram e no tiveram suas histrias inscritas na histria poltica
do pas, no tiveram o reconhecimento nem reparao. Gostaramos que sua dor e sua tenacidade para resistir se espalhassem na cultura e nas
aes do povo de modo a no mais autorizarem
que tais fatos se repitam.
Ao buscar a verdade, a Comisso deve analisar os fatos e suas circunstncias, numa perspectiva de gnero, ou seja, considerando que as
desigualdades entre os sexos levaram a consequncias e sequelas distintas entre mulheres e
homens, em decorrncia das brutalidades cometidas pela ditadura militar. As mulheres e
as crianas sero no apenas lembradas como
reconhecidas como pessoas com direitos inalienveis dignidade, s manifestaes afetivas,
liberdade e justia.

Houve militantes assassinadas cujos cadveres, em muitos casos, encontram-se desaparecidos at os dias atuais. Muitas dessas mulheres
foram levadas morte, por meio de um assassinato friamente calculado, com atos de estupro,
mutilao inclusive genital. Outras foram assassinadas com o uso da coroa de cristo, como era
chamado um mtodo de tortura, que, por meio
do emprego de uma cinta de ao, apertava-se o
crnio at esmag-lo.
Outras foram mortas em acidentes estrategicamente planejados, como foi o caso de Zuzu

Ingrid Gianordoli-Nascimento, Zeidi Araujo Trindade e Maria de Ftima de Souza Santos, Mulheres e Militncia, Editora UGMG, Belo Horizonte, 2012, p.44.

COMISSO DA VERDADE DO ESTADO DE SO PAULO RUBENS PAIVA

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Depoimentos
44 testemunhos colhidos pela
Comisso da Verdade do Estado de So Paulo
Rubens Paiva, no ms de maio de 2013,
durante o Seminrio Verdade
e Infncia Roubada

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COMISSO DA VERDADE DO ESTADO DE SO PAULO RUBENS PAIVA

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Filho do Zorro
por Andre Almeida Cunha Arantes

Era 1965, meus pais Aldo e Maria Auxiliadora


estavam curtindo o frio do inverno Sul-Americano na praia de Punta Gorda, em Montevidu.
No foi uma escolha voluntria, at porque a
melhor poca para aproveitar as praias uruguaias no vero, entre os meses de janeiro
e fevereiro. Por outro lado, o melhor mesmo
seria ter ido para Punta del Este que a praia
mais bonita e mais procurada desse pequeno
pas. Mas o motivo no era passar frias e sim
uma imposio do momento poltico no Brasil,
que acabava de mergulhar em um perodo de
ditadura militar que duraria aproximadamente
duas dcadas.
Em 13 de junho de 1965, durante esse perodo de frias foradas, no Sanatrio Americano,
minha me ficaria feliz de me ver chorar pela
primeira vez. Moramos no Uruguai quase um
ano. Depois voltamos para o Brasil e fomos
morar em So Paulo. Mais tarde, dentro da poltica de integrao na produo, fomos morar
no Nordeste.
Tinha 3 anos e l estvamos em mais uma
situao estranha. Durante a noite, uns amigos de meus pais vieram nos buscar em nossa
pequena casa que ficava no interior de Alagoas, mais precisamente em Pariconha, distrito
de gua Branca no alto serto. Nos levaram
de jipe para um castelo (Policlnica da PM de
Alagoas), em Macei. Lembro que achei aquilo estranho. Como era noite, o castelo pareceu
meio sombrio. Acreditei que quando acordasse
esquerda, Andre aos 5 anos
e Priscila aos 4 anos
no Parque do Ibirapuera
em So Paulo, 1970

de manh perceberia que o castelo era legal.


Quando despertei no outro dia, estava em
um quarto pequeno e cinza, cheio de grades.
Mudamos algumas vezes de endereo.
Depois do castelo fomos para Escola de
Aprendizes de Marinheiro de Alagoas. Uma
vez por dia descamos para brincar em um
ptio, cheio de lixo e ratos, que minha me
apelidou carinhosamente de Jerry. O Jerry
era o ratinho esperto de um desenho animado da poca que vivia fugindo de seu algoz,
o gato Tom. Como era pequeno, no percebi,
mas o Tom tinha nos pegado. Estvamos
detidos em uma priso da marinha. Comia no
restaurante dos oficiais at o dia em que um
oficial pediu que a minha me me deixasse
com ele e a esposa, j que ela no tinha futuro pra me oferecer. O que o oficial no sabia
que o mundo d voltas. Mais do que depressa, minha me me pegou pela mo e saiu dali.
No dia seguinte, j estvamos comendo no
restaurante dos soldados e dias mais tarde fomos transferidos para outra priso.

Uma vez por dia


descamos para brincar
em um ptio, cheio
de lixo e ratos, que
minha me apelidou
carinhosamente
de Jerry

Eu, minha me e minha irm ficamos quatro


meses presos. Meu pai, que foi preso dias depois, ficou seis meses na priso. No final desse
perodo meus pais foram levados a julgamento, em Recife. Durante a sesso, eu e minha
irm, que nessa poca tinha 2 anos, ficamos
correndo por toda sala e fazendo uma baguna danada. Vendo essa confuso, um militar do
Conselho de Sentena procurou saber o que
estvamos fazendo ali. O escrivo que j estava
sensibilizado com a nossa situao disse que
estvamos presos com nossos pais. Durante o
julgamento no se tocou em nossa presena.
Todavia, o mesmo militar questionou um coronel da PM de Alagoas por que minha me
estava presa. Ele respondeu que em Alagoas
quando no encontravam o marido prendiam
a mulher. Com isso nossa advogada pediu a
libertao de nossa me. Acatado o pedido,
fomos os trs libertados. Meu pai ficou preso
mais algum tempo e depois fugiu da priso durante um jogo de futebol entre os dois principais times de Alagoas.
Depois dessa aventura ficamos algum tempo
em Gois, na casa de meus avs paternos. Assim que as coisas esfriaram fomos para So Paulo, onde um novo captulo comeava. Durante
esses anos de ditadura, o contato com nossa
famlia foi muito pequeno. Era uma questo de
segurana. Conhecia apenas alguns poucos tios
e um casal de primos que moravam em So Paulo, sendo que o contato era espordico. Sempre
passvamos as festas aniversrios, Natal e Rveillon sozinhos, sem contato com outros familiares. Mesmo assim, o Natal era uma grande festa cercada de expectativas.

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Lembro que recebia muitos presentes, mas


nunca sabamos direito quem os havia dado.
Eram dos tios e tias, vrios que no fazia a menor ideia que existiam. Mas no parava para
pensar nisso, s queria curtir os presentes, era
um momento mgico.
O tempo foi passando, fui crescendo e percebia que a gente mudava bastante de casa.
Basicamente, por vrios bairros da periferia
na Grande So Paulo. Aquilo parecia normal,
tinha uma famlia, estava na escola, fazia natao em um clube da prefeitura de So Paulo... Tudo flua bem at que dois acontecimentos me chamaram ateno.
O primeiro foi quando meus pais resolveram
que eu e minha irm tnhamos que conhecer
os nossos primos e tios de Belo Horizonte.
Anualmente, todo esse pessoal ia de trem para
uma casa em Angra dos Reis. Era muita gente.
S de primos de primeiro grau devia ter mais
de quinze na casa. Durante uma brincadeira
em que cada um tinha de fazer sua apresentao, ocorreu um problema. Cada primo reunido ali na sala levantava e dizia o nome e o que
gostava de fazer. Quando chegou a minha
vez, falei meu nome frio. Na verdade, o nome
era Andre mesmo, mas o sobrenome era frio
e bem diferente do dos primos. Quando eu
acabei, um dos primos levantou e disse que eu
falara meu sobrenome errado, pois no guardava relao com sobrenome de nossa famlia.
Como sempre, onde h muitas crianas juntas,
a histria acabou em briga, pois me senti ofendido pelo fato de algum dizer que eu mentia
com relao ao meu sobrenome. J de volta a
So Paulo, relatei o ocorrido em casa. Meus
pais no falaram nada, mas tambm nunca
mais pusemos os ps em Angra dos Reis.
J tinha em torno de 8 anos. No queria
pressionar meus pais, pois tinha muito carinho por eles, mas a certeza de que aquilo que
meus primos falaram em Angra dos Reis a respeito do nome da nossa famlia fosse verdade
foi aumentando.
Mais ou menos nesse perodo, tive uma conversa franca com meu pai. No caminho da escola, ele sempre ia contando histrias sobre
os trs irmos coelhos: Zico, Zeca e o Zoca.
Eram trs coelhinhos espertos e de muito bom
carter. Eram corajosos e nunca mentiam.

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Eu me sentia o prprio Zico. Esses coelhos


eram meus heris. Ento, em um determinado
dia, meu pai insistiu que eu no deveria contar aos primos onde morvamos. A eu disse:
Pai, voc ensina para a gente que no para
mentir e agora est me pedindo para mentir.
Meu pai arregalou os olhos, pensou um pouco
e disse: Olha, filho, voc v o seriado do Zorro, no v? Voc acha que o Zorro pode sair
contando para todo mundo qual a identidade verdadeira dele?. E eu, Lgico que no,
pai, s o Mudinho sabe disso. Se o Sargento
Garcia souber a identidade do Zorro, vai prender ele. Pois , filho, esta nossa situao,
disse meu pai. J entendi, pai, pode deixar
que eu vou guardar segredo, disse. Acompanhado desse dilogo, veio a seguinte explicao: existiam os barrigudes (tipo Sargento
Garcia) e o povo. Havia uma briga entre estes
dois grupos, assim como no filme do Zorro,
ns estvamos lutando do lado do povo contra
os barrigudes. Bom, para mim a explicao
estava mais do que boa. Vi que tinha desvendado o segredo da famlia e ainda por cima
descobri que era filho do Zorro.

Um dia no quarto/
escritrio do meu pai,
achei caneta e li o
sobrenome do meu av.
Percebi que o sobrenome
dele no era parecido
com o nosso
O segundo momento estranho foi quando
meu av paterno faleceu. Eu tinha quase 10
anos. Foi enviado para meu pai a caneta do
meu av que tinha seu nome inscrito na lateral.
Um dia no quarto/escritrio do meu pai, achei
a caneta e li o sobrenome do meu av. Percebi
que o sobrenome dele no era parecido com o
nosso. A disse: Descobri, descobri que o sobrenome do vov Galileu Arantes. O nome
de nossa famlia Arantes. Diante disso, meus
pais contaram a razo de nosso sobrenome trocado. Naquele dia, fiquei sabendo que o nome
de meu pai era Aldo e o de minha me era Maria Auxiliadora. Virei para o meu pai e disse:

Voc no tem cara de Aldo e sim de Roberto.


Este era o nome frio do meu pai.
Entre 6 e 11 anos, moramos na Zona Leste de
So Paulo. Vila Formosa, rua Itaquera, Mooca,
Vila Manchester eram os lugares que frequentvamos. Nesse perodo, fiz natao no Clube
da Vila Manchester. Era um clube da prefeitura de So Paulo, bem equipado com pista de
atletismo, campo de futebol, quadras cobertas
sala de ginstica e a piscina. Passava a tarde
nadando. Fiz muitos amigos, treinei bastante
e, como todos, tinha um sonho : treinar natao no melhor clube da cidade, o Corinthians.
Sonho que no durou muito... explico.
Com essa histria de ser filho do Zorro e
ter que manter a identidade secreta da famlia, eu entendi que no poderia aparecer. Isto
significava que se ficasse bom e fosse para o
Corinthians, ia acabar entregando minha famlia. Ento desenvolvi um certo sentimento
de ir me distanciando deste desejo de melhorar e ir nadar no Corinthians.
No final do ano de 1976, bem perto do Natal, meu pai foi preso em um episdio chamado Chacina da Lapa. Fomos acordados bem
cedo pela minha me, pegamos algumas coisas, colocamos na mochila e nos mandamos
de txi para casa de meu tio em Santo Amaro,
um bairro de So Paulo. Era um tio que eu j
conhecia, irmo da minha me. Ele e minha
tia Tei, tambm irm de minha me, eram praticamente os nicos parentes que vamos de
vez em quando. Minha me no contou nada
para a gente a respeito do ocorrido com meu
pai. Ficamos alguns dias nessa casa imaginando que j estvamos saindo de frias. Certa
manh, minha me me chamou com uma revista na mo e pediu que eu lesse a matria.
Era uma matria que trazia fotos de meu pai
e alguns amigos que foram presos na mesma
reunio. Ele estava com o rosto to machucado que nem o estava reconhecendo.
A partir da, tudo foi devidamente esclarecido. Dias depois, eu e minha irm fomos levados pelo meu tio para Belo Horizonte, onde
moraramos por um ano com minha av materna, enquanto meu pai seguia sendo torturado e minha me foragida da represso, em
algum lugar que no sabamos.

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O perodo em Belo Horizonte foi um momento de transio. Sem meus pais, mas
conhecendo uma infinidade de tios e primos,
que eu nunca soubera que existiam. Estranhei
um pouco, pois alm de estar sem meus pais,
era tudo muito diferente.
Depois de um ano, as coisas se acalmaram e
voltamos a nos encontrar com minha me. Retornamos todos para So Paulo. Mas agora o
endereo era outro, j estvamos na Bela Cintra, uma das boas ruas da capital paulistana.
A rotina era estudar, treinar no Paulistano
ou Pinheiros, sair com os amigos e no final de
semana visitar meu pai na priso. Percebi que
apesar de estar em clubes bons, no tinha muito desejo de competir e vencer. Aos poucos, fui
percebendo que me sentia fazendo parte do
time dos que estavam sendo oprimidos, que
perdiam. Os opressores eram os vencedores,
aqueles que tinham torturado meu pai, nos
prendido, separado a famlia. Tinha este sentimento dentro de mim. O desejo de vencer estava cada vez mais longe, como algo proibido.
Em agosto de 1979, foi aprovada e sancionada a Lei da Anistia. No mesmo dia da sua publicao, meu pai foi libertado do presdio de
presos polticos em So Paulo, o Barro Branco.
A famlia se encontrou novamente e passou a
viver junto. Esse foi um momento muito bom.
Meu pai foi eleito deputado federal por Gois
em 1982 e fomos todos morar em Braslia. Tudo
diferente. Uma situao bem diferente.
Estava com 18 anos e j tinha parado de treinar natao e outros esportes tambm. Como
todo adolescente nesta idade, no sabia muito
bem o que queria. Sentia que as coisas tinham
mudado, mas ainda no tinha entendido o que
havia dentro de mim. Entrei na faculdade, primeiro em Economia, depois em Histria, mas
nada me agradava. Revolvi mudar para So
Paulo. De So Paulo, fui de bicicleta para o Rio
de Janeiro pela recm-inaugurada Rio-Santos.
Nessa viagem, senti gostos que j tinha esquecido. O gosto da liberdade, do esforo fsico,
do contato com a natureza. Acabei ficando no
Rio de Janeiro e fui trabalhar com cinema,
que era uma das paixes que eu tinha. Fiquei
um ano no Rio de Janeiro e acabei voltando
para Braslia.

Estvamos em meados de 1986. Meu pai


fora reeleito deputado federal e morvamos
em uma quadra s para deputados federais na
Asa Norte. Isso tudo deixou bem claro que a
situao mudara e havia se consolidado. Ns
j no ramos do time dos perdedores. Estava liberado para vencer. Essa foi a senha para
voltar para o esporte e tentar vencer. J no
tinha mais amarras, j no precisava mais me
esconder, eu queria agora era aparecer. Foi um
momento de mudana radical em minha vida.
Sentia-me integrado, em casa. Tinha descoberto o que eu queria. Queria vencer.

Olhando para trs, vejo


como esporte e poltica
estiveram entrelaados
em minha vida. Quando
criana, minha leitura
das questes sempre
passou pelo corpo
Resolvi fazer triathlon (natao, ciclismo e
corrida). Treinei muito, consegui ganhar provas
em Braslia, Gois e Esprito Santo. Participei
de campeonatos brasileiros, fui selecionado
para fazer parte da Seleo Brasileira em campeonatos Sul-Americanos, Pan-Americanos e
Mundiais. Estive na Argentina, Estados Unidos,
Canad, Repblica Dominicana, Mxico, Cuba,
Ilhas Virgens, Espanha e Austrlia competindo e representado nosso pas. Sabia que podia,
sempre soube, mas tinha que ser no momento
em que no pusesse minha famlia em perigo.
Acabei entrando no curso de Educao Fsica em 1988 (D. Bosco), fiz especializao
em Treinamento Esportivo em 2001, na Universidade de Braslia, Mestrado em Educao
Fsica pela Universidade Catlica de Braslia,
em 2005, e hoje em dia fao Doutorado em
Cincias do Desporto na Universidade do
Porto em Portugal. De 2000 a 2005 fiz parte
do JGSPINNING, maior programa em ciclismo de academia no mundo, convidado pelo
prprio fundador do programa Johnny Goldberg. Estive representando o programa em
vrios pases da Amrica do Sul e em duas

conferncias mundiais nos Estados Unidos.


Em 2003 fui convidado, pelo ento Ministro
de Esporte do Governo Lula, Agnelo Queiroz, para ser Secretrio Nacional de Esportes
de Alto Rendimento. Nesta funo, estive em
misso oficial nos Jogos Pan-Americanos de
Santo Domingos na Repblica Dominicana
e nas Olimpadas de Athenas, Grcia. Como
Diretor da SNEAR, participei dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007. Hoje,
sou Diretor da Secretaria Nacional de Esporte
de Alto Rendimento do Ministrio do Esporte
e dou aulas de Educao Fsica no Centro Universitrio UniCEUB.
Olhando para trs, vejo como esporte e poltica estiveram entrelaados em minha vida.
Quando criana, minha leitura das questes
sempre passou pelo corpo: algum falava em
superar obstculos e eu me imaginava saltando barreiras em uma pista de atletismo. Diziam
que era preciso ser forte, e eu me imaginava
levantando um grande peso; que era necessrio ser resistente, e eu me imaginava em uma
maratona. Enfim, era um jeito muito particular
de sentir as coisas, como foi tambm relacionar a vitria opresso e o perdedor aos oprimidos. Decidir no aparecer por medo que
minha famlia fosse descoberta. Enfim, cabea
de criana fantasia muito e estas coisas ecoam
na adolescncia. Esta foi a minha histria, com
cicatrizes geradas pela ditadura e com oportunidades criadas pela democracia.
Acredito que no peito da minha me, l no
fundinho, ela tem vontade de encontrar com
aquele oficial da marinha que disse que ela
no teria futuro para me dar e dizer : T vendo, eu tinha certeza que o futuro do meu filho
seria melhor comigo...
ANDRE ALMEIDA CUNHA ARANTES nasceu em 13
de junho de 1965. filho de Maria Auxiliadora de
Almeida Cunha Arantes e Aldo Arantes. Ex-triatleta,
doutorando em cincias do desporto, professor universitrio e diretor de Esporte de Alto Rendimento do
Ministrio do Esporte.

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Identidade, nome e o paradoxo


da liberdade: carta aos meus pais
por Priscila Almeida Cunha Arantes

Antes de iniciar meu depoimento, gostaria


de recorrer a um mito antigo que versa sobre
a histria de um sobrevivente. Refiro-me ao
poeta Simnides, considerado o inventor da
arte da memria na Grcia antiga. Diz o mito
que o poeta teria estabelecido as bases da mnemotcnica a arte da memria em funo de
um acidente vivido por ele prprio. Simnides
foi o nico sobrevivente do desabamento do
teto do salo de um banquete onde se comemorava a vitria do pugilista grego Skopas.
O que importa nessa histria o que aconteceu aps tal tragdia. Os parentes das vtimas,
que queriam enterrar seus familiares, no conseguiam reconhecer os mortos que se encontravam totalmente desfigurados pelas runas.
Recorreram, ento, a Simnides, o nico sobrevivente, que graas sua memria conseguiu
se recordar dos participantes do banquete, na
medida em que se lembrou do local ocupado
por cada um deles durante a comemorao.
Se a histria de Simnides est muito distante do nosso tempo, por outro lado, ilustra bem
o embate contra o esquecimento da histria.
Aquele que testemunha, de certa forma sobreviveu a uma situao limite, traumtica,
no meu caso e de meus familiares: poca da
ditadura militar no Brasil. Como filha de pais
que foram presos, torturados, foragidos e clandestinos e eu mesma presa com minha me
esquerda, Priscila com 4 anos no Parque do Ibirapuera
em So Paulo, 1970

e meu irmo quando tinha 3 anos de idade,


no serto de Alagoas, apesar de no ter lembrana desse episdio deixo aqui meu depoimento na esperana que possa contribuir no
somente para a construo de uma memria
coletiva mas que, de alguma forma, ele possa
servir de dispositivo para que essa histria
no se repita nunca mais no nosso pas.

Muitas vezes quando


ouvia meu pai escutar
a Internacional em seu
rdio pequeno, em seu
quarto, bem baixinho,
ficava uma pergunta no
ar: por que ele tem de
escutar o som to baixo?
Recentemente meu pai me pediu um depoimento sobre as memrias da minha infncia.
Gostaria ento de compartilhar aqui alguns
trechos desta carta que recebeu o ttulo de
Identidade, Nome e o Paradoxo da Liberdade:
Carta aos meus Pais.
Talvez um dos dispositivos mais antigos
da humanidade seja o de dar nome s coisas.
Dar nome s coisas significa dar a elas vida,
histria, identidade. assim que uma criana
recebe um nome ao nascer, carregando-o para

o resto da vida. Escolher, dar um nome a uma


criana fazer uma espcie de doao de uma
histria simblica familiar. Doao que a insere na continuidade de uma filiao, a inscreve
nas linhagens maternas e paternas: uma espcie de fio de Ariadne que lhe indica um caminho, sem tra-lo de antemo.
Priscila Almeida Cunha Arantes. Foi este
o nome que os meus pais me deram em 1 de
maio de 1966 quando nasci, mas no foi este
o nome que utilizei at meus 11 anos de idade,
quando, ento, meu pai foi preso e minha me
ficou foragida, na poca da ditadura militar
em nosso pas.
At os meus 11 anos, sempre fui Priscila
Guimares Silva; uma criana feliz que vivia
como muitas outras de minha idade na periferia de So Paulo com a famlia.
Existia, por vezes, uma sensao velada que
talvez, pela minha idade na poca, no conseguia entender. As janelas da casa na avenida
Itaquera eram forradas de papel e sempre me
davam a impresso que estvamos escondendo algo que eu no tinha muito claro o que era.
Muitas vezes quando ouvia meu pai escutar a
Internacional em seu rdio pequeno, em seu
quarto, bem baixinho, ficava sempre uma pergunta no ar: por que ele tem de escutar o som
to baixo? Mas os natais eram sempre muito
gordos ao meu olhar. Recebia sempre vrias
roupas que, apesar de serem usadas, vinham
sempre envoltas em um lindo papel celofane

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Fui acometida por


uma srie de desmaios,
pequenos lapsos de
conscincia, talvez um
desejo real de esquecer,
por um pequeno espao
de tempo, algo que
me incomodava em
profundidade

vermelho, que somente a minha me sabia fazer. A casa da avenida Itaquera tinha um quintal
grande que, apesar de receber, s vezes, a visita
de alguns amigos indesejveis, enormes ratos
s recentemente vim a saber que vivamos nos
fundos de um aougue , brincava com minhas
bonecas e com meu exrcito de formigas, minhas companheiras inseparveis.
Certo dia, fomos tirados s pressas da avenida Itaquera e levados por meu tio Bruno,
irmo da minha me, de carro, at Belo Horizonte para a casa de minha av materna. No
entendia ao certo porque estvamos indo para
Belo Horizonte e muito menos o que de fato
acontecera. Mas sabia que era algo muito grave, e alguma coisa acontecera ao meu pai. Ele
e minha me tinham combinado de que se o
meu pai no voltasse de uma viagem em uma
determinada poca porque alguma coisa tinha ocorrido. E de fato ocorreu. Meu pai fora
capturado em plena estao Paraso, do Metr
nome engraado! pelos militares, em dezembro de 1976.
No me lembro desse dia com detalhes. Mas
me recordo do desespero de minha me, levando-nos s pressas, eu e Andre, casa de tio Bruno. Na viagem a Belo Horizonte fomos parados
por um policial. Acho que o tio Bruno dirigia
muito rpido e senti um nervosismo grande no
ar. Chegamos casa da minha av. A casa era
muito grande, tinha quase quarenta cmodos, e
fomos acolhidos em clima de festa e com muito
carinho pela famlia de minha me, uma famlia
que, no entanto, eu nunca tinha visto (a nica
exceo era a querida Tia Tei, que nos acompanhou por diversas vezes na poca da clandestinidade). Eu e Andre moramos por l at minha
me poder viver em liberdade.
Encontramo-nos, acho, somente um ano
depois, na casa da tia Diva. Minha me estava magra, plida, fruto da dieta forada em
macrobitica que teve de passar quando ficou
escondida na casa de conhecidos no Rio de
Janeiro. Seu corpo enfraquecido me chamou a
ateno naquela poca. Uma imagem que eu
jamais esquecerei.
Foi em Belo Horizonte que pude de fato me
tornar Priscila Almeida Cunha Arantes. Anos
antes, meu pai, quando ainda morvamos na

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avenida Itaquera, tinha comentado comigo


e meu irmo que nosso sobrenome no era
Guimares Silva. Naquela poca, apesar da
surpresa, o comentrio no teve significado
nenhum para mim. Eu continuava sendo Priscila Guimares Silva, vivendo com meus pais
na avenida Itaquera.
Tambm foi em Belo Horizonte que uma
nova realidade se abriu para mim. Talvez hoje,
mais madura, eu possa reconhecer o paradoxo
daquela sensao. Por um lado pude descobrir
que tinha um nome de fato real, outro, este sim
verdadeiro, que trazia consigo uma famlia, uma
histria; uma outra identidade. Era um mundo
completamente novo que se abria para mim.
Mas ao mesmo tempo, e talvez este fosse o
fator que mais me assustou, assumir a minha
verdadeira identidade e meu nome trouxe a
perda da convivncia com meus pais. E mais
do que isto: a conscincia de que eles estavam
em uma situao de perigo iminente. exatamente no momento que nossos nomes podiam
ser utilizados, que meu pai foi preso e minha
me ficou foragida.
Obviamente este paradoxo de identidade se
tornou mais acentuado em um momento de
adolescncia quando essas questes j so colocadas mesa. Para alm de uma mera crise
de identidade era uma real crise de identidade:
seria melhor continuar sendo Priscila Guimares Silva e poder viver clandestina com meus
pais em liberdade? Ou seria melhor ser Priscila Almeida Cunha Arantes e poder viver em
liberdade com os meus pais presos? Pois, para
mim, os dois estavam presos. S depois soube
que minha me estava escondida no Rio de Janeiro. Independentemente da minha opo na
poca, eu no tinha escolha real a fazer.
Essa sensao paradoxal veio acompanhada
por outra experincia que foi muito marcante
na minha adolescncia. Estvamos em Belo
Horizonte quando dois ou trs homens entraram na casa da vov Isa dizendo que eram amigos de meus pais. No me lembro exatamente
quem foi me avisar das supostas visitas. Olhei
espreita por uma das portas da sala e tendo
a ntida sensao de que aquela visita vinha
carregada de alguma ameaa, me escondi debaixo de uma das mesas redondas que havia

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na sala de minha av. Foi exatamente em volta


dessa mesma mesa que minha av, minha tia e
os dois visitantes sentaram-se para conversar.
Fiquei ali um bom tempo a escutar a conversa
que no vou esquecer nunca mais: a conversa,
em tom de ameaa pois o que eles queriam
saber era onde a mame estava descrevia
com mincias e detalhes a tortura recebida
pelo meu pai: espancamento, pau de arara, corpo inchado... quase morte. Anos depois vim saber que esses visitantes faziam parte da equipe
de torturadores de meu pai.

Mas, talvez, um dos dias mais marcantes de


minha vida, foi o dia em que meu pai foi solto,
o mesmo da aprovao da Lei da Anistia. Ele
descia a rampa do presdio, com uma pequena mala na mo. Estvamos ali, novamente, a
famlia reunida, fora do espao confinado das
quatro paredes da priso.

Nessa poca fui acometida por uma srie de


desmaios, pequenos lapsos de conscincia, talvez um desejo real de esquecer, por um pequeno espao de tempo, algo que me incomodava
em profundidade.

Para muitos, o nome um bem. A continuidade do nome como referente da pessoa pode,
em alguns casos, no se interromper com sua
morte necessariamente. Alguns nomes permanecem vivos na memria de outros homens,
principalmente quando se referem a nomes
que contriburam para a construo de uma
histria coletiva.

Trago comigo esta


histria marcada por
um duplo nome: um
nome clandestino
e um nome verdadeiro
Meu grande refgio, no entanto, eram as aulas de pintura. Certa vez fomos casa da tia
Leda. Em uma das salas de sua casa, vislumbrei uma tela em branco presa num cavalete.
Ao seu lado, um pequeno livro que continha,
na sua capa, a imagem do carteiro de Van
Gogh. No tive dvida: peguei um carvo e desenhei na tela em branco a imagem do pintor
impressionista. A partir desse dia Tia Leda me
matriculou em um curso de pintura. Esse contato com o mundo das artes, nessa poca, talvez tenha sido uma das molas propulsoras de
minha profisso atual e de meu interesse pelo
mundo das artes.

Hoje, tenho 47 anos e com muito orgulho me


chamo Priscila Almeida Cunha Arantes, filha
do Aldo e da Dodora, irm de Andre, casada
com Wagner e me de Tiago e Carolina.

Trago comigo esta histria marcada por um


duplo nome: um nome clandestino e um nome
verdadeiro. Sinto orgulho dos meus pais: pessoas, nomes, que lutaram e contriburam para
a construo de um mundo melhor e que possibilitaram a mim, Priscila Almeida Cunha
Arantes, desfrutar da vida em liberdade!
Priscila Guimares Silva: presente!

Andre aos 5 anos e Priscila aos 4 anos


no Parque do Ibirapuera em So Paulo, 1970

PRISCILA ARANTES, formada em Filosofia pela Universidade de So Paulo, ps-doutora em Arte Contempornea pela Penn State University (EUA). professora
universitria em cursos de graduao e ps-graduao
na Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo e diretora e curadora do Pao das Artes, Museu da Secretaria
de Estado da Cultura de So Paulo. Entre suas publicaes destaca-se Arte @ Mdia: perspectivas da Esttica
Digital, finalista do 48 prmio Jabuti, Arte: Histria, Crtica e Curadoria (org.). e Re/escrituras da Arte Contempornea: Histria, Arquivo e Mdia (prelo).

Assim que voltamos de Belo Horizonte fomos


morar na Bela Cintra. Nessa poca eu, minha
me e meu irmo amos, com frequncia, visitar
o meu pai no presdio Barro Branco. Lembro-me
da ambrosia, dos desenhos em pirogravura, das
conversas com o Ariston, das pinturas do Guerra, da revista da polcia, da greve de fome vivida
pelo meu pai.

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Aldo Silva Arantes nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anpolis (GO). Iniciou suas atividades polticas no movimento estudantil secundarista.

Famlia Arantes

Estudante de direito da Pontifcia Universidade Catlica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da Unio
Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961.

1. Aldo, 25 anos, e Dodora, 24 anos,


em lua de mel, Poos de Caldas (MG), 1963
2. Dodora grvida de Priscila com Andre no
colo em So Paulo, 1966

Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora


de Almeida Cunha Arantes. Aps o golpe militar de 31
de maro de 1964, que derrubou o presidente Goulart,
exilou-se em Montevidu.

3. Aldo com Andre recm nascido,


So Paulo, 1965

De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho poltico
junto aos camponeses no serto de Alagoas, foi preso.
Aps cinco meses e meio fugiu da priso.

Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil
(PCdoB), cujo comit central passou a integrar.
Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunio do Comit Central do PCdoB,
no bairro da Lapa, em So Paulo, episdio conhecido
como Chacina da Lapa.
Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de priso.
Permaneceu preso at agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.
Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrtico Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado
federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988.

Autor dos livros : Histria de Ao Popular da JUC ao


PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a
Nova Dependncia (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento - em busca de um compromisso (2010); Alma em
Fogo memrias de um militante poltico (2013).
[Fonte: Dicionrio Histrico Biogrfico Brasileiro ps 1930. 2 ed.
Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha


Arantes, a Dodora, nasceu em 5 de novembro de

1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras


da organizao Ao Popular (AP), na dcada de 1960.
Em 1968 foi presa em Alagoas junto com seus filhos
Priscila e Andre. Aps sair da priso seguiu com a militncia clandestina de combate ditadura militar.
Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundao do Comit Brasileiro pela Anistia de So Paulo (CBA/SP) e foi dirigente
dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982).
Psicloga, Mestre em Psicologia Clnica e Doutora em
Cincias Sociais pela Pontifcia Universidade Catlica
de So Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanlise do Instituto Sedes Sapientiae.
Foi coordenadora Geral de Combate Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidncia da Repblica (2009-2010). Foi membro das Comisses de Direitos
Humanos do Conselho Regional de Psicologia de So
Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008
e 2011-2013).

4.Dodora e Andre com 2 anos


Guaruj (SP), 1966
5.Dodora e Priscila com 1 ano,
Guaruj (SP), 1966
6. Andre com 2 anos, Guaruj
(SP), 1966
7. Andre com 3 anos e Priscila
com 2 anos, So Paulo, 1968

Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanlise e Clandestinidade Poltica (1994) e Tortura (2013)

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11

11, 12 e 13. Publicao na imprensa sobre a Queda


da Lapa, dezembro de 1976; histrico poltico
produzido pelos orgos de represso; foto
de Aldo, com sua me Maria de Lourdes Silva
Arantes (D. Quita) documentos encontrados
nos pronturios de Aldo do DOPS no Arquivo do
Estado de So Paulo

12

8. Andre com 4 anos, Priscila


com 3, a priminha Ana e os
avs paternos, D. Quita e Sr.
Galileu em Anpolis (GO) dias
aps a libertao da priso em
Alagoas, 1969

13

9. Andre e Priscila na mesma


data acima
10. Histricos escolares com
os nomes frios: Andre e Priscila
Guimares Silva
9

10

Solorio tem fugianis


accum, iscil ipient ut aditatium aut aut unt, que
rest parcilitest pliquis
volupienis sim conse
velitiis dolut officillant
endit pos exererspedi
nis ni oditas ut et fugitat
la dolutem quidus
volore auditaq uodigent
od exceatur?

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direita, Ato Poltico pela Anistia organizado, entre


outras pessoas, por Dodora, em 22 de agosto de 1979
Foto: Ricardo Malta
Abaixo, fichas do DOPS que retratam a vigilncia
sobre os parentes de presos polticos mesmo aps
a Anistia

Ao lado, porto de sada do Presdio do


Barro Branco em So Paulo. Aldo foi
beneficiado pela Anistia foto
publicada no dia 30 de agosto de 1979 na
Capa da Folha de So Paulo

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Uma conversa escrita


por Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes

No incio dos anos 1960 participei da fundao


da organizao poltica Ao Popular, de matriz
catlica, que ampliou suas posies no campo
marxista-leninista e passou a ser denominada
APML (Ao Popular Marxista-Leninista). Mais
frente, a Organizao abraou concepes maostas que influenciaram poltica e ideologicamente
seus militantes e suas prticas. Casei-me com Aldo
Arantes, tambm fundador de AP, em dezembro
de 1963 e recebemos convite para integrar o governo de Joo Goulart em Braslia.

Andre com 3 anos, Dodora com 28 e Priscila com 2, So Paulo, meses antes de
serem presos em Alagoas, 1968

Chegamos a Braslia em janeiro de 1964. No


dia 1 de abril de 1964 ocorreu o golpe militar. Eu
estava dentro da nossa casa em Braslia e, de repente, a casa comeou a tremer, o cho do quintal
tremia, vi ratos correndo na rua, para l e para c.
Um barulho diferente e trepidante provocado por
um desfile de tanques de guerra que seguia para
a Esplanada dos Ministrios. A partir de ento comearam a ser editados os primeiros Atos Institucionais. Aldo poderia ser cassado e preso. Samos
de Braslia imediatamente, deixei tudo na casa.
Samos de Braslia para uma longa noite que foi
terminar somente quinze anos depois. De 1964
at 1979, vivi entre o exlio, a priso e a militncia
clandestina severa. Passei a usar nomes frios com
identidades falsas. Nesse momento no tnhamos
filhos e nossa primeira deciso foi ir para o exlio.
Os exilados de primeira hora que tinham inteno de voltar imediatamente ao Brasil seguiram
para o Uruguai, que era mais perto. Fiquei grvida do meu primeiro filho, o Andre, que nasceu em
Montevidu. Foi um dos primeiros filhos de exilados polticos brasileiros, nasceu em 13 de junho
de 1965. Decidimos voltar logo para continuar no
pas, a luta de resistncia. J no Brasil, na cidade
de So Paulo, em 1 de maio de 1966, nasceu nossa
filha Priscila.

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A situao poltica foi recrudescendo rapidamente e houve uma deciso da APML: os militantes e os dirigentes deveriam partir, como militantes clandestinos, para a integrao na produo.
Aldo e eu seguimos para a integrao na produo no campo. Tomamos um nibus na rodoviria em So Paulo e partimos para o interior do estado de Alagoas. O Andre tinha 3 anos, a Priscila
tinha 2. Fomos para gua Branca. E de l, para
um subdistrito de gua Branca, Pariconha. Era
uma regio de camponeses pobres e meeiros que
plantavam feijo.
Fomos morar com Gilberto, Rosa e a filha Rita,
de 7 anos, que nos antecederam na integrao
nessa regio. Tnhamos diferentes funes. Eu
fui designada para ser professora de alfabetizao de adultos na regio. Era o ano de 1967. Atravessamos o ano e entramos em 1968. Tnhamos
o hbito de ouvir, todas as noites a Hora do Brasil. Anoitece cedo no campo, s 21 horas, j era
noite alta no dia 13 de dezembro de 1968. Ouvimos passos no jardim e no quintal. Na varanda,
vozes de homens. Rosa e eu nos levantamos. As
trs crianas dormiam. A porta da frente foi sacudida com violncia. Abram a porta. Aqui o
Coronel. Tnhamos acabado de ouvir no rdio, o
decreto do A1-5 e mal havamos assimilado suas
implicaes, ao anotar apressadamente seus artigos. No houve tempo. Conhecemos na prtica
seu significado. No abriremos a porta, respondemos. Estamos ss com as crianas. Com os gritos
e as violentas pancadas, na porta da frente, dos
fundos e nas janelas, as crianas acordaram. A
gritaria aumentou, e com nossos filhos nos braos, vimos a porta ser violentamente sacudida
e finalmente arrombada, a pontaps e golpes de
fuzis. Entraram vrios homens, no sabamos a
princpio quantos. As lamparinas de querosene
estavam apagadas. Percebemos que eram muitos.
Nossa casa foi revirada. Colches, armrios prateleiras, tudo vasculhado. Perceberam que havia
apenas roupas, mantimentos e brinquedos. Onde
esto as armas? perguntavam aos berros. Disseram que iam nos levar para gua Branca e depois
Macei. Temos ordens. Agora tudo permitido.
Foi feito um decreto e tudo o que achamos suspeitos, vamos investigar. Gente suspeita, vamos pren-

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der. Vocs so professoras, seus maridos, gente de


So Paulo. Vamos levar todo mundo. Resolveram
que tnhamos que ir presas. Argumentamos sobre
as crianas, que queriam que deixssemos para
trs. Afinal, depois de muita conversa, decidiram
que eu iria s com eles. Rosa ficaria com as trs
crianas.
Partimos para uma viagem que me parecia
interminvel. O tempo todo ouvi gracejos e
perguntas. No disse uma palavra. Chegamos a
Macei. Era dia 14 de dezembro de 1968. Fiquei
dormindo no quarto dos investigadores. Estava
exausta. Entravam e saiam o tempo todo, falavam
alto, faziam comentrios. Perguntavam por Aldo,
quando voltaria de So Paulo. Fiquei quatro ou
cinco dias em Macei. Fui levada de volta para
Pariconha. Um ou dois dias depois, Aldo chegou
tarde da noite. Soube na estrada o que acontecera.
Nesta mesma noite, 22 de dezembro, fomos todos presos: Aldo, eu, Andre e Priscila, Gilberto,
Rosa e Rita. Prenderam tambm toda a liderana
camponesa militante. Passamos o Natal entre as
cadeias de gua Branca e de Macei. Comeou
uma noite longa, para ns, especialmente para os
pequeninos presos. Ficamos todos, nos primeiros
dias no DOPS de Macei, as crianas e eu na mesma cama e no mesmo quarto dos investigadores.
Depois do Ano Novo, Andre, Priscila e eu, fomos deslocados para uma delegacia de bairro.
Apesar de a cela ter uma das paredes totalmente
de grade, ficvamos sufocados, trancados o dia
todo, sem que qualquer brisa ou vento amenizasse o calor. Tivemos problemas gravssimos de
sade. Todos os trs desidratados tivemos estomatite e Priscila teve uma crise aguda de difteria.
Quase no conseguimos nos alimentar. Priscila
ficou magrinha, s aceitava leite em p, s colheradas. Os dois tiveram furunculose. Andre chegou
a ter vinte furnculos enormes e Priscila, outros
tantos. No tnhamos qualquer espcie de atendimento mdico ou de sade. Ficamos, literalmente
depositados, sequestrados at o final de janeiro.
Depois fomos levados para a Escola de Aprendizes de Marinheiros nos arredores da cidade.
Um lugar cheio de coqueiros beira-mar. Alo-

jaram-nos na ala dos oficiais. Na primeira noite


almoamos na sala dos oficiais, a contragosto.
Em um desses dias, ao final da refeio, o oficial
do dia aproximou-se de mim e disse: Estive conversando com minha esposa e como no temos
filhos, resolvi pedir que a senhora me d seu filho. Podemos cri-lo muito bem. Olhe bem para a
senhora. Que futuro a senhora tem? Seu marido
est preso, a senhora est presa, ningum da sua
famlia apareceu, no vai ter condio nenhuma
de educar esta criana. Emudeci, no consegui
responder, no gritei, no chorei, fiquei petrificada. Fui andando para trs, segurando o Andre,
at sair da sala. No voltamos a ver esse oficial,
nunca mais entramos nessa sala. Pedimos para
almoar na cozinha com os marinheiros. O resto
do dia ficvamos no quarto. Depois conseguimos
circular pela escola quando j havia terminado o
expediente. Estvamos profundamente debilitados. Nessa poca, estvamos novamente com a
Rosa e a Rita, duas mulheres e trs crianas. Durou pouco a estadia a. A Marinha no queria se
envolver mais.
Resolveram ento nos levar para o hospital
da Polcia Militar, no centro de Macei. Era um
hospital antiqussimo, cheio de torres, perto da
cadeia pblica conhecida como Presdio da Morte onde Aldo ficou preso com os demais companheiros. Fomos confinados num quarto, sobre o
qual havia uma poro de histrias, era o quarto
onde ficavam os desenganados. Um quarto grande, muito abafado, ao lado de um outro quarto
menor, sem iluminao, sem janela, cuja porta
dava para o quarto do capito Fontes, que saa
cedinho, voltava noite.
Os dias pareciam interminveis. No sabamos
o que fazer com as crianas. S podamos sair
do quarto por quinze minutos para as refeies.
Conseguimos licena para um banho de sol, depois das 16 horas. Nesta hora, o ptio de descarte
do hospital no recebia mais o sol, apenas um facho fugidio que caa sobre os degraus da escada,
onde as crianas ficavam sentadinhas, vendo ratos enormes brincarem de entrar e sair pelos restos de pernas e braos de gesso, entre curativos
usados, caixas vazias, bandagens, cacos de vidro,

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tudo jogado no meio de um mato que crescia. A gente


dizia para as crianas que os ratos eram os primos do
Jerry dos desenhos animados. Mesmo assim, com as
energias recuperadas, no conseguimos cans-los.
Dentro do quarto-cela, inventamos uma programao rgida de ginstica, brincar de roda, joguinhos. Depois vinham as atividades de contar as tampas de borracha coloridas dos vidros de antibiticos, empilhar
caixas de remdio vazias, formar uma carreira com as
serrinhas de seringas. Depois do almoo as crianas
dormiam, e o que sobrava de tempo passavam dentro
de uma banheirinha de plstico debaixo do chuveiro.
s quintas-feiras visitvamos o Aldo na cadeia. Depois de algum tempo apareceu uma advogada contratada pelos nossos companheiros.
Quando finalmente conseguimos ir primeira audincia da Auditoria Militar de Recife, Andre e Priscila fizeram tanta baguna na Audincia que o juiz,
irritado, mandou que se retirassem da sala os trs
menores. Dra. Lygia lhes comunicou: Excelncia, estas crianas so presas. Foram presas em dezembro
juntamente com suas mes. Fomos dispensadas, os
homens continuaram presos. Samos da Auditoria,
voltamos para Macei e de l para So Paulo. Aldo
ficou preso ainda na delegacia de Macei de onde
fugiu juntamente com o Gilberto, em uma operao
montada por APML.

anos. As crianas foram para um parquinho da


prefeitura e depois foram alfabetizadas em escola do estado e da prefeitura. Fizeram toda a escola com nomes frios: Andre e Priscila Guimares
Silva. Esse tempo teve fortssimo impacto sobre
eles, pois j estavam maiores e percebiam que
havia muito segredo e muito no dito sobre as
coisas e as situaes que vivamos. Somente samos da clandestinidade quando o Aldo foi novamente preso no episdio conhecido como Chacina da Lapa que massacrou dirigentes do PCdoB
ento reunidos.
Sobre a vida clandestina, posso afirmar que foi
uma experincia que at hoje reverbera na alma.
Hoje percebo com mais clareza o quanto marcou
o Andre e a Priscila e a mim mesma. Tanto que,
quando retornei universidade, aps a anistia
de 1979, fiz minha dissertao sobre a experincia da clandestinidade poltica, atravs de uma
abordagem psicanaltica. A incidncia que teve
sobre a vida dos meus filhos, somente agora, passados quase quarenta anos que posso perceber
melhor, a partir do que eles mesmos contam em
seus testemunhos. Sempre nos surpreendemos
negativamente com as reverberaes que a ditadura civil-militar imps a todos ns e que ainda
continuam pulsantes.

Exatamente dez anos depois, em dezembro de


1976, Aldo foi preso na Lapa, em So Paulo, no episdio conhecido como Chacina da Lapa. Andre e
Priscila, com 12 e 13 anos, passaram a frequentar novamente os presdios, agora como visitantes de seu
pai, durante dois anos e seis meses at a Anistia de
1979. Eu me integrei de corpo e alma construo da
campanha pela Anistia ampla, geral e irrestrita.
Sobre minha priso com meus dois filhos tenho
hoje a clareza de que fomos sequestrados, no h
qualquer notcia da priso das crianas, no consta
de nenhum documento. Consta meu julgamento e a
absolvio. Sobre eles, nada. Poderiam ter sido sumariamente sequestrados sem papis que comprovassem sua presena no cativeiro. Depois que samos da
priso e do Nordeste, voltamos para So Paulo, continuamos a militncia clandestina, fomos morar nos
bairros mais perifricos, no Morro Grande, Itaquera,
Vila Formosa, e permanecemos clandestinos mais oito

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A felicidade interrompida
da menina ruim
por Rita de Cssia Resende

Em 1968, aos 5 anos de idade, fui morar


com meus pais Gilberto e Rosemary em um
povoado campons chamado Pariconha, no
interior de Alagoas. Ali, eles eram chamados
de Juarez e Rosa.
Minha me me explicou que eles deveriam
ser chamados por esses nomes para a nossa segurana e que isso seria nosso segredo.
Pelo que me lembro, apesar da pobreza do
lugar, as pessoas eram boas e eu brincava
com a meninada como uma criana normal.
Fui feliz ali at o dia que aconteceu algo que
uma criana no pode entender, nem suportar sem sentir pavor e insegurana. Foi
uma noite de pesadelo. Acordei com batidas
fortes na porta, gritos, depois porta caindo,
a casa sendo invadida por soldados fortemente armados. Hoje eu diria que foi um
filme de terror. Depois, a priso. E a falta de
tudo: acabou o sol, as brincadeiras, comida
pouca e ruim.
Eu gostava de correr, mas tinha que ficar
parada. Tnhamos quinze minutos para almoar em um refeitrio que saa para um
pequeno ptio. Corramos para l, a Priscila,
o Andr e eu, crianas presas polticas, querendo brincar. Vamos ratos enormes subin esquerda, Rita quando criana

do pelas calhas do prdio velho. Havia muita


sujeira e hoje sei que era lixo hospitalar jogado a cu aberto no ptio do Hospital do
20 Batalho da Polcia Militar de Alagoas.
Mes e crianas ficamos mais de cinco meses presas. Para mim, representou uma eternidade. Sei que sofri muitas perdas, mas sempre me recusei a aprofundar nesta questo,
talvez por fuga, medo... Apesar dos esforos
de meus pais, depois que samos dali s consegui me alfabetizar aos 9 anos de idade.
Durante anos me fechei e no suportava poltica e polcia. Depois, entendi que a causa de
meus pais era nobre. Lutaram por um ideal de
justia e igualdade social. Quando criana e
mesmo adolescente sentia que me tiravam o
direito vida. A advogada que nos defendeu
falou aos militares no julgamento que ns,
crianas presas, ramos uma ameaa segurana nacional.

Mes e crianas
ficamos mais de cinco
meses presas. Para
mim, representou uma
eternidade. Sei que sofri
muitasp erdas,
mas sempre me
recusei a aprofundar
nesta questo...

O tempo passou e apesar de tudo que me


foi tirado, hoje sou uma pessoa feliz dentro
do possvel. Tenho uma filha, Maria Tereza,
e um neto de 2 anos, Joaquim, que proporcionam muitas alegrias e completam minha
vida. Penso que hoje eles vivem em uma sociedade melhor e que eu inconscientemente
contribu para isso.

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Fragmentos de memria
Em Pariconha lembro que brincava de fazer carro de boi com cacto e palito de dente,
fazia guerra de mamona. Ganhei um pote
de barro para carregar gua na cabea, mas
quebrou. Brincava com coisas simples da
regio, pois no tinha brinquedo.
Na primeira priso, lembro que chegou
uma mala cheia de coisas. Fiquei desesperada para ver o que tinha dentro. Por sorte,
me deixaram pegar alguns brinquedos: um
boneco chamado Bonito, que vestia uma
roupinha azul e era de plstico, fogozinho
e panelinhas. Foi onde minha me achou
cartas de Goinia com a verdadeira identidade de meus pais biolgiocos e escondeu.

Ela falou que eu precisava ir ao banheiro


ento leu as cartas e jogou fora.
No mesmo lugar, andando no ptio da
priso, vi vrias celas pequenas e em uma
delas estava meu pai deitado em um banco de madeira. Tentei a todo custo abrir a
grade da cela, ento no tanque ao lado tinha uma faca enorme. Peguei a faca e falei
para o agente que eu ia matar todo mundo.
Ele olhou pra mim e disse menina ruim.
Fiquei muito brava aquele dia. Nesse dia,
meu pai escreveu uma carta para mim porque era meu aniversrio. At hoje tenho
uma cpia da carta. (Porque a original se
perdeu com o tempo).

No cmodo que ficamos tinha pouco espao. E ainda pisei em um prego enferrujado. Nessa mesma priso, um agente carcerrio deu para mim, para o Andr e para a
Priscila os presentes que ele tinha ganhado
de Natal para seus filhos na Campanha de
Natal. O que eu escolhi foi um barco azul
e branco. Isso significou muito para mim.
Era como se eu visse o brilho de uma jia
na lama.

RITA DE CSSIA RESENDE nasceu em 1 de abril de


1962. filha adotiva de Rosemary Reis Teixeira e
Gilberto Franco Teixeira. funcionria pblica estadual em Gois.

Carta que Gilberto escreveu filha no seu aniversrio de 7 anos.


Pai e filha estavam presos
A Ritinha tem apenas 7 anos de idade e est presa, juntamente
com sua me e seu padrinho, pelo governo. uma ameaa
segurana nacional. Hoje, 1o de abril (seu 7o aniversrio),
decorridos mais de trs meses, voc vem me visitar no
presdio da morte, para onde fomos transferidos. Apesar de
sua proximidade, pois voc se encontra numa outra priso, a
enfermaria da polcia militar de Alagoas, a uma quadra de onde
me encontro, todas as dificuldades so encontradas para que
voc no venha ver-me

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lbum de famlia
1 e 2. Rita com 1 ano de idade,
em Goinia (GO), 1963
3. Aos 9 anos, em Goinia (GO)
4. Em Goinia (GO), 1974
5. Rita e sua irm Uliana,
em Braslia (DF), 1974
6. Rita (ao centro), no dia de seu
casamento, em fevereiro de 1981,
junto com a famlia
7. Rita (ao centro), com a famlia:
a irm Uliana (primeira esquerda), sua
filha Maria Tereza e seu irmo Juarez, em
Goinia (GO), 1990
1

7
6
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2
1

Rosemary
osemary Reis Teixeira

nasceu em 26 de maro de 1944, em


Goinia (GO). Filha de Maria Reis
Resende e Joaquim Resende Barros.
Em agosto de 1962, conhece Gilberto
Franco Teixeira, com quem comea
a se relacionar (o casal segue junto
at os dias atuais). Influenciada pela
militncia do av, Pedro Doca, que foi
do Partido Comunista, iniciou sua militncia na Juventude Estudantil Catlica (JEC), em 1963.
Depois, passou a militar na organizao
Ao Popular. Em 1965, ingressa no curso de Cincias
Sociais da Universidade Federal de Goias (UFG). Em
maro de 1967, com o acirramento da represso, Rosemary e Gilberto casam s escondidas e entram para a
clandestinidade. Em abril do mesmo ano, o casal e a filha adotiva Rita vo viver em Pariconha, interior de Alagoas. L, Rosemary passa a usar o codinome de Rosa e
Gilberto assume o codinome de Juarez Echeverria. Em
Pariconha fazem trabalho de base com os camponeses
do serto alagoano. Rosemary atua na alfabetizao
de camponeses por meio do mtodo Paulo Freire e na
politizao das mulheres da regio. Em dezembro de
1968, presa junto com sua filha e com Dodora Arantes
e seus dois filhos. Seu marido tambm preso. Aps
cinco meses de priso, voltam para Gois e seguem na
vida na clandestinidade.
Em maio de 1971, nasce a segunda filha do casal, Uliana Reis Teixeira. Nessa poca, Rita estava com 11 anos.
No mesmo ano Rosemary retorna faculdade, onde
impedida de colar grau com a turma sob o argumento
de que o histrico escolar dos dois primeiros anos no
foi encontrado. A colao de grau ocorreu somente
em 1988 quando, depois de anos de busca, um amigo
professor encontrou os referidos documentos esquecidos em uma gaveta da universidade. Em 1982 nasce
o terceiro e nico filho homem do casal, Juarez (nome
escolhido em homenagem ao pai Gilberto por sua atuao poltica com esse nome na clandestinidade). Juarez
viveu 10 anos e faleceu em em 1992. Hoje, Rosemary
servidora pblica estadual aposentada.

Gilberto Franco Teixeira nasceu em 18 de


junho de 1941, em Goinia (GO). Filho de Anita Lombardi Teixeira e Adolpho Sindulpho Teixeira. Militante do
movimento estudantil secundarista do Liceu de Goinia. Em 1963 inicia a militncia na JEC junto com sua
companheira Rosemary. No ano seguinte, ingressa na
Faculdade de Direito da UFG. eleito presidente do
centro acadmico XI de Maio, onde atua intensamente.
Com o golpe militar de 1964, participa da luta do movimento estudantil contra a interveno Federal em
Gois e a destituio do Governador. Em 1965, preso
em So Paulo com mais 13 militantes da Ao Popular
e levado ao DOPS. Em 1966, decretada a priso de Gilberto em funo de sua atuao no XI de Maio da Faculdade de Direito. Assim, interrompe o curso e entra para
a clandestinidade para evitar a priso.
Depois do perodo de trabalho de base junto aos camponeses de Pariconha e da priso, j de volta a Gois, Gilberto volta universidade e termina o curso de direito.

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1 e 2. Fichas e fotos de Rosemary e Gilberto


nos rgos de represso
3. Reportagem sobre a militncia do casal
em Pariconha (AL)
4. Esta foto foi tirada em meados de 1984
portanto 16 anos aps termos sido arrancados
daquele lugar pela represso. Quando
resgatamos o nosso direito de ir e vir
voltamos Pariconha para rever o povo
e o lugar. difcil expressar em palavras a
emoo sentida. Foram trs dias de intensa
movimentao. A mulher que est na foto
abraada comigo a Maria Rosa do
Nascimento conhecida como Maria do Antnio
Agostinho que eu vi sair da obscuridade,
se alfabetizar em nossas aulas noturnas e
se transformar em lder das mulheres de
Pariconha, juntamente com Helena de Moa
(que est na foto, na porta do Clube de Mes,
de blusa vermelha). Elas levaram em frente
o trabalho iniciado naquele tempo, com
a garra que somente mulheres forjadas
na adversidade so capazes de ter, diz
Rosemary Reis

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Vivi as dificuldades da minha filha


como se fossem minhas
por Rosemary Reis Teixeira
O ideal de uma pessoa jovem muito forte. Eu
era jovem e possua essa fora. Desejava mudar,
corrigir erros, fazer justia. Lutar por um mundo
melhor, eliminar as diferenas. Ver pessoas desprotegidas doa na minha conscincia de jovem
idealista, que acreditava ser possvel transformar
a sociedade e viver em um mundo mais justo.
Em funo da represso advinda da ditadura
militar, eu e Gilberto [Gilberto Franco Teixeira]
tivemos de optar por deixar a vida normal e viver
na clandestinidade. Isso naturalmente acarretou
mudanas radicais para ns e para nossa filha.
Nessa poca, Rita era uma menina de 5 anos,
saudvel, alegre, vivia em Goinia, em um porto
seguro. Rodeada por uma famlia grande, muitos
primos da sua idade, amigos.
Com a ditadura, para sobreviver represso,
ns, Gilberto e eu tivemos que adotar outra identidade: Juarez e Rosa, e nos mudamos para o
serto alagoano.
Essa mudana de vida, o convvio com pessoas
muito pobres (camponeses sem terra e sem o mnimo necessrio sobrevivncia) foi o lado bom,
o lado benfico de toda essa histria. Aprendi
muito nessa poca, principalmente em termos de
relacionamento humano. Por incrvel que parea,
aprendi com a Rita, a criana que imediatamente
se integrou com todos, com a crianada do lugar,
com a pobreza, com a alimentao diferente e
escassa. Aprendeu a brincar com as coisas que
o lugar oferecia. Para crianas, no existem fronteiras ou obstculos para se viver com as diferenas, seja de cor, religio, situao econmica e
social. A relao social profunda, pura, sincera.
Eu j me norteava por esses princpios, mas vi
atravs da Rita que a prtica vai muito alm da
teoria, tudo muito simples e verdadeiro. Se ns,
adultos, aprendssemos mais com as crianas,
certamente teramos um mundo melhor.
Se eu pudesse, falaria somente do lado bom da
histria mas no seria a histria verdadeira. O estrago foi muito grande. A represso militar destruiu sonhos e projetos de vida que previam uma
vida digna para todos. Causou muitas feridas e
deixou muitas cicatrizes.
Minha experincia de me nessa poca foi
muito sofrida. Sofri por ver a Rita passar por si-

tuaes que foram frutos da minha escolha. Eu


escolhi lutar por uma sociedade mais justa e sabia que isso envolvia risco, mas o ideal nos movia para a frente e o filho parte de ns, no tem
como separar a vida de pais e filhos.
O instinto de proteo de uma me no tem
limites e eu me via impedida de exerc-lo, impotente numa priso com a minha filha sem saber o
que poderia acontecer no dia seguinte. A soluo
foi viver um dia aps o outro tentando minimizar o sofrimento da criana com um suprimento
muito grande de carinho, pacincia, dedicao.
Foi uma experincia muito difcil. Quando a Rita
dormia, eu podia extravasar os meu prprios sentimentos: medo, angstia, ressentimentos, impotncia, receios. Apareceria uma doena amanh?
O dente doeria? E se os militares tirassem a menina de mim? Ou me levassem para longe dela?
Nossa famlia em Goinia no sabia da nossa priso porque fomos presos com outra identidade.
No havia como esperar ajuda. O que restava era
apreenso e temor, dia aps dia. Se os militares
descobrissem nossa verdadeira identidade tudo
poderia piorar ainda mais.
O pai da Rita, Juarez (Gilberto) tambm preso em outra unidade carcerria, conquistou a
confiana de um agente e atravs dele conseguiu uma advogada para nos defender. Essa foi
a fagulha de luz diante daquele futuro incerto.
com agradecimento e grande carinho que falo
dessa jovem advogada, destemida, valente, que
sem obter qualquer vantagem financeira evitou
que o pior acontecesse. O nome dela Maria
Ligia Januzzi Jablonca.
Aps cinco meses de priso, conquistamos a
liberdade, mas no o direito vida normal, pois
tivemos que viver com vrias restries por mais
alguns anos. Tive, como me, que lutar para ajudar
minha filha a vencer seus medos, inseguranas, limitaes, inclusive na aprendizagem escolar pois
ela somente se alfabetizou aos 9 anos de idade.
Muitas coisas ainda poderiam ser ditas, pois a
misso de uma me ver o filho se realizar como
pessoa e o trabalho para alcanar esse objetivo
nos acompanha durante toda a vida.
Vivi as dificuldades enfrentadas pela minha filha como se fossem minhas. As conquistas eu par-

tilhei com ela na mesma intensidade. Em tempos


difceis, vivemos momentos muito marcantes.
Devo registrar aqui um desses momentos. Fao
uma homenagem solidariedade humana.
A solidariedade um sentimento que penetra
fundo na alma e que vive para sempre em quem
foi beneficirio dela. Eu vivi essa experincia.
Ao sair da priso fui orientada a seguir para
So Paulo com minha filha e encontrar, nessa cidade, em uma determinada praa, a pessoa que
me ajudaria naquele momento. Eu estava frgil e
desorientada aps cinco meses de priso e tinha
pouqussimo dinheiro. So Paulo, em 1969, vivia
seus piores momentos de represso.
Sentada em um banco da praa com minha
filha, vi se aproximar de ns e se apresentar,
aquele homem alto, de olhar bondoso que me
inspirou confiana. Seu nome era Joo. Tempos depois soube que se tratava do Paulo Stuart
Wright, ex-Deputado Federal pelo Paran, torneiro mecnico e lder operrio que estava sendo caado por toda a cidade. Andamos a p por
um longo tempo e nos lugares onde o clima de
guerra se acalmava ele carregava a Rita no colo e
demonstrava a ela todo o seu carinho. Em outros
momentos, ele caminhava frente e nos orientava a segui-lo distancia at chegarmos casa de
sua irm onde nos deixou em segurana.
Essa lembrana me emociona muito, principalmente por saber que pouco tempo depois
ele foi preso e torturado at a morte. Deixo minha homenagem ao grande homem Paulo Stuart
Wright que muito lutou pelo povo brasileiro.
Hoje estamos aqui, vivas, minha filha Rita e eu,
para contar essa histria. Quantos ficaram pelo
caminho, quantos tiveram seus sonhos rompidos,
quantas vidas perdidas.
Dizem que o tempo cura todos os pesares.
Acredito que as feridas provocadas pelas atrocidades da represso nos tempos da ditadura permanecero abertas para sempre na lembrana
de todos aqueles que foram atingidos, seja pela
perda da liberdade, pela infncia roubada ou pela
morte prematura de muitos cujos familiares no
tiveram sequer a chance de enterr-los com a
dignidade que o ser humano merece.

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Por que voc to tristinha?


por Marta Nehring

Eu nasci em janeiro de 1964, o ano do Golpe. Minha me, poca, tinha 20 anos e estudava Cincias Sociais na USP, que nessa
poca ficava ainda na Maria Antnia. Meu
pai, tambm jovem, trabalhava na Pfizer,
como tcnico industrial e fazia ps-graduao em Economia, na USP. Ambos eram de
esquerda e militavam juntos, porm apenas
o meu pai partiria para a luta armada.

tria poltica dos meus pais e esta, por sua


vez, trajetria da ALN Ao Libertadora
Nacional. Inclusive, se eu tenho algum av
paterno, o Toledo, Joaquim Cmara Ferreira, que estava sempre em casa e a quem
reencontramos em 1969 em Havana, Cuba.

No que diz respeito represso poltica,


no me lembro de nenhum evento especialmente traumtico. Ainda assim, at hoje
Minha me teve uma criao liberal. Meu
tenho pesadelos horrveis. Com frequncia
av era um livre pensador, foi dono de livraacordo anteontem mesmo aconteceu com
ria. E a minha av, que tivera um pai represa certeza de ter algum
sor e violento, teve por
no quarto. Depois fiquei
princpio jamais levanNo que diz respeito sabendo que, numa das
tar a mo para os filhos.
em que a polcia
represso poltica, vezes
Juntando os dois lados,
esteve em casa, reviranresultou que eles culdo tudo, entraram no
no me lembro de
tivaram a irreverncia
quarto onde eu dormia,
nenhum evento
como modo de ser. Tanacho que devia ter uns
to, que o meu tio Joo,
especialmente
4 anos. E me lembro, na
irmo mais velho da mimesma poca, de chegar
traumtico. Ainda
nha me, tambm entrana vila onde a gente moria para a guerrilha. J
assim, at hoje
rava, no Itaim, e as crianna famlia do meu pai
as virem correndo me
tenho pesadelos
o esprito era outro. Micontar que a polcia tinha
nha av vinha de uma
horrveis
estado na minha casa.
histria triste, perdera
Teria sido quando meu
o marido cedo, quando
pai foi preso? No sei se
meu pai tinha apenas 3 anos de idade ele
tem a ver, mas o fato que at hoje acordo
era o primognito. Meu av paterno morreu
com essa sensao de ter algum estranho
num desastre areo na Baa da Guanabara,
no quarto.
deixando minha av viva e grvida do terNo meu aniversrio de 5 anos, meu pai conceiro filho. Alis, toda vez que eu pouso no
seguiu
sair da priso ele foi liberado, por alaeroporto Santos Dumont, morro de medo.
guma razo. Tinha uma festinha na casa da
Enfim, nasci e logo depois veio o Golpe. De
minha av e eu me lembro dela chamando
forma que minha infncia foi ligada trajeMarta, tem uma surpresa para voc. Ela me
levou at o andar de cima e l estava meu pai.
Guardo a imagem dele ali, de camisa vermeMarta e sua me Maria Lygia
em Cuba, 1970
lha, sorrindo, pronto para me abraar.

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Depois s fui rev-lo em Cuba, para onde


partiu ao fugir do Brasil. Ele fazia treinamento militar e minha me e eu fomos para
l, tambm. Mas mesmo em Cuba, ns demoramos para encontr-lo, pois ele estava
nas montanhas e ns em Havana. Lembro
de uma ou outra cena com ele e de sua preocupao em me passar valores ticos: o que
certo, o que errado; cuide de suas coisas;
ajude a sua me; no d trabalho; faa a sua
ginstica; limpe os seus lpis de cor; no
misture as cores da aquarela. Alis, a aquarela eu guardo at hoje e os lpis de cor tambm. Acredite! Todos limpinhos. E assim o
que mais lembro dele essa tentativa hoje
entendo de ser pai. No meio daquela correria toda, ele tentando me dar um norte.
E teve aquele episdio no Malecn para
quem no sabe, o passeio beira-mar de Havana. Como estava programado que meu pai
voltaria ao Brasil, para retomar a luta, ele deveria mudar de identidade: Teu pai vai aparecer disfarado, me disseram. E toca minha
me, eu e mais um cubano (cujo nome esqueci), esperando meu pai. E a vinha vindo um
nego de dois metros e meio e os adultos
brincavam: Ah, esse o teu pai. Detalhe: o
meu pai era loiro de olho azul. Eles se divertindo minha custa. Eu ficava olhando No.
No o papai. A vinha um ano, Esse o
teu pai. No foi s tragdia. Pensando bem,
at que podia ser muito engraado. E, de repente, para minha surpresa, apareceu meu
pai ali na calada... A nica diferena era o
cabelo pintado de preto.
Finalmente ele viajou e mandou cartas dos
pases por onde passou antes de aportar no
Brasil, Checoslovquia e depois Itlia. A gente no sabe exatamente a data na qual ele desembarcou no Rio, mas sabemos que, na noite em que foi assassinado, eu tive uma febre
muito grande e fui parar no hospital, ainda
em Havana. E essas coincidncias marcam.
A bem da verdade, ultimamente tenho pensado muito sobre quem era meu pai e o tamanho da dor de t-lo perdido, sobre o que
significou ter crescido sem pai. E apesar de
ter negado essa dor a vida inteira, porque fui

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adestrada a no me fazer de coitadinha, a seguir adiante e olhar para frente, hoje me deparo com um rombo enorme. Talvez o mais
terrvel seja que nunca me permiti sequer
imaginar o que teria sido nossa vida se meu
pai no tivesse morrido. Esse o legado mais
estranho: perdi o espao do sonho. certo
que a morte do meu pai uma questo de
Estado: foi morto porque combateu um regime ditatorial. Mas mesmo assim, sem ele... A
vida ficou mais rida.

Tenho pensado muito


sobre quem era meu
pai e o tamanho da dor
de t-lo perdido, sobre
o que significou ter
crescido sem pai
Tempos depois do meu pai voltar ao Brasil,
clandestino, minha me e eu fomos para a
Frana. Ele foi assassinado quando ns ainda estvamos em Cuba, conforme falei, mas
no soubemos. Foi enterrado pela represso
no cemitrio da Vila Formosa, com nome
falso. A polcia s contou da sua morte meses depois, quando j estvamos na Frana,
o reconhecimento foi feito por meio da arcada dentria, no permitiram autpsia. Lembro da minha me e da minha av chorando
e eu, na verdade, acho que estava confusa,
no entendia direito, pois chorvamos um
morto que j estava ausente h meses e sem
um corpo do qual eu pudesse me despedir .
A comeou o exlio e... Sei l, eu tinha que
me adaptar, ponto. Tempos depois o socialista Salvador Allende foi eleito presidente
e l fomos ns para o Chile, minha me, o
segundo marido dela e eu. O Chile era pertinho do Brasil, a famlia poderia nos visitar
e os telefonemas seriam bem mais baratos.
Hoje parece ridculo, mas, na poca, para
fazer uma chamada internacional tinha que
pedir para a telefonista e esper-la completar a ligao, o que podia demorar horas.
Enquanto isso, ficava todo mundo de planto ao redor do telefone de bakelite. Quando

finalmente o lado de l atendia, tinha que falar rpido, porque era muito caro. De forma
que ligar para o Brasil era ao mesmo tempo
uma glria e um tormento: s dava pra dizer
Vov, t com saudade e tinha que desligar.
Era um negcio de louco. Acho que o mais
excruciante, durante o exlio, foi a saudade
da famlia, que ficara no Brasil, e do meu pai.
Foi horrvel. Mas eu me adaptei e afinal fui
feliz, aprendi vrias lnguas, fiz amigos nas
escolas que frequentei. Ento veio o Golpe
de 1973 e tivemos que fugir do Chile.
E assim voltamos para a Frana. Era adaptao o tempo todo: lngua, escola, colega,
vizinhana. Mas eu tambm fui feliz nesse
retorno Europa. Primeiro, era tima aluna e
querida pelos meus colegas. Ademais, ser exilado poltico era bem-visto, eu no precisava
mentir sobre minha identidade, podia dizer
que meu pai era um guerrilheiro que morreu
na luta contra os fascistas. Os pais dos meus
coleguinhas achavam o mximo: Oh, que
legal! Ela filha de guerrilheiro. Mas eu acalentava o sonho de voltar para o Brasil. Tinha
muita, muita saudade da minha famlia. E
mesmo sendo bem quista, continuava sendo
estrangeira. Cheguei a brigar na escola com
uma menina xenfoba. Em suma, o exlio no
era s glria, tambm havia aqueles que no
iam com a sua cara porque voc era brasileira
e, pior ainda, filha de comunista.
Voltamos para o Brasil em 1975, ainda
durante a ditadura. Para minha enorme decepo, foi quando a coisa realmente ficou
horrvel. A comear, no podia dizer quem
eu era. Tinha que mentir que meu pai havia
morrido num acidente de automvel e que
ramos uma famlia de diplomatas, da morarmos no exterior. Se algum perguntasse
mais alguma coisa, mudava de assunto.
Pra completar, em 1974 teve a Revoluo
de Abril, em Portugal, que acabou com a
ditadura do Salazar e libertou as colnias.
Um momento histrico maravilhoso, sem
dvida, porm que redundou na vinda a So
Paulo de levas de direitistas egressos tanto
de Portugal quanto da frica. Ou seja, no
s eu no podia contar quem eu era, como

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tinha que aguentar na minha classe angolanos, moambicanos e portugueses brancos


de extrema direita, que eram vistos como
os coitadinhos obrigados a abandonar suas
casas por culpa dos comunistas. E havia
aquele clima opressivo de ditadura, que
to difcil de explicar para quem no viveu.
Esse no poder dizer quem se fica terrivelmente entranhado na gente.

em portugus, eu respondia em espanhol. Na


poca, tudo isso me parecia muito natural.
Mas voltando ao Brasil, o fato que sobrevivi. Mas difcil avaliar o quanto isso
custou... Eu era menos alegre que os meus
colegas, no conseguia ter aquela coisa
que brasileiro tem, de abraar todo mundo.
Sentia-me terrivelmente francesa. Primeiro,

A Aliana Anticomunista
Brasileira mandou
uma carta minha me
ameaando a mim, caso
ela no parasse com
a militncia

Logo minha me passou a escrever no


Movimento e no Em Tempo, que eram jornais
de esquerda. A AAB (Aliana Anticomunista
Brasileira) mandou para ela cartas ameaando a mim, caso no parasse com a militncia. Ento ela achou por bem me botar numa
escola de rico, acreditando que ali eu estaria
protegida. E l fui para o Nossa Senhora do
Morumbi antigo Des Oiseaux um colgio
de freiras onde o pesadelo bateu o auge, porque convivi com a juventude do milagre brasileiro endinheirado, para quem a ditadura
era uma glria. Enfim, eu era a pessoa errada
no lugar errado.
No primeiro colegial me transferi para o
Colgio Palmares, que pelo menos era uma
escola de esquerda, onde os professores
sabiam mais ou menos quem eu era, o que
facilitou muito minha vida. L eu estudava
com os filhos da Dodora, o Andr e a Priscila Arantes. Mas a gente sequer se cumprimentou no intervalo ao longo dos dois
anos em que estudei l! Eram to srias as
regras de segurana, era tanto o medo, que
nunca trocamos uma palavra. Inclusive, eu
evitava contato para no ser vista perto deles, e vice-versa, acho eu. Convm deixar
claro, eu no me sentia perseguida. Eu me
sinto, at hoje.
Mas as obrigaes dessa quase clandestinidade no eram uma imposio. Era uma
questo de sobrevivncia. Em Cuba, por
exemplo, eu tive nome falso, Sofia, e passava
por portuguesa. De tal forma que eu descrevo esse episdio no filme 15 Filhos eu fui
capaz de encontrar meu pai no elevador do
hotel em que morvamos e fingir que no o
conhecia. Eu tinha apenas 5 anos de idade.
No hotel, quando as pessoas falavam comigo

Carta enviada me com


ameaa Marta Nehring

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porque de fato tinha uma formao europeia,


mais reservada fisicamente. Segundo, no
entendia da onde vinha aquela alegria toda.
Para mim era inconcebvel como as pessoas
podiam estar risonhas, felizes, to abertas
umas com as outras! E assim eu fui me sentindo ainda mais excluda, porque no dava
conta de ser to feliz quanto eram as pessoas
ao meu redor. Eu era aquela que estava sempre de cara fechada. E isso me era cobrado:
Por que voc to tristinha?.
E assim fui tocando a vida at que engravidei da minha primeira filha, a Cleo, em 1991.
Foi quando senti a urgncia de recuperar a
histria do meu pai. No foi a primeira vez
que fizemos essa tentativa, claro. Por volta de
1977, estimulada pelo exemplo da famlia de
Vladimir Herzog, que havia entrado com um
processo contra o Estado, minha me procurou um advogado para provar que meu pai
tambm fora assassinado. Mas este advogado
nos disse que pelas vias da justia criminal
isso nunca seria possvel, porque faltavam
testemunhas. Ou seja, continuei com o atestado de bito de um suicida, no qual constava
que meu pai se enforcara com uma gravata
fantasia no Hotel Piraj. Continuei a carregar
comigo a mentira oficial, literalmente.
Quando fiquei grvida da minha Cleo, surgiu desejo de recuperar a histria da famlia. Cheguei a conhecer o malfadado Hotel
Piraj, que se tornara uma penso. A pesquisa resultou num projeto de filme, no qual contaria a histria do meu pai: Procura-se uma
Testemunha era o ttulo. Mostrei o roteiro
para meu querido padrinho Juca Kfouri, que
deu a dica: o mais interessante seria contar a
histria para os jovens, que ignoravam o que
acontecera durante a ditadura militar. Engavetei o projeto, mas o roteiro acabou sendo
til como o primeiro passo para a realizao
do dossi sobre meu pai, que anos depois
encaminhamos para a Comisso Especial
sobre Mortos e Desaparecidos Polticos.
A criao dessa Comisso Especial, em
1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso, marcou uma nova etapa da recuperao da verdade: ganhramos um foro para
avaliar os crimes cometidos pelo Estado,

46

num regime de exceo. Logo depois de os


integrantes serem nomeados, tornou-se necessria uma presso pblica para que sua
atividade fosse efetivada. Alis, como est
acontecendo em relao Comisso da Verdade, com as devidas diferenas: a sociedade
pressionando o governo por resultados.
Assim foi que a minha me organizou um
evento na UNICAMP, A Revoluo Possvel, para acender o debate. Estavam l organizaes de direitos humanos, familiares
dos mortos e desaparecidos, ex-guerrilheiros
etc. Eu fiquei a cargo de montar uma mesa
para debater a questo dos filhos. O que era
um problemo, porque eu s dispunha das
minhas memrias de infncia. Quem tinha o
que dizer eram nossos pais, que haviam optado pela luta e poderiam fazer um balano
da situao.

Por volta de 1977,


estimulada pelo exemplo
da famlia de Vladimir
Herzog, que havia entrado
com um processo contra
o Estado, minha me
procurou um advogado
para provar que meu pai
tambm fora assassinado
Foi a que entrei em contato com a Maria
Oliveira, filha de um casal de ex-presos polticos, Eleonora Menicucci e Ricardo Prata. Maria e eu ramos do mesmo grupo de
amigos, a gente j tinha at passado frias
na Bahia, na mesma pousada. Os amigos comentavam em baixa voz, para mim, que ela
tinha uma histria parecida com a minha.
E eu sabia, pela minha me, que era filha
de presos polticos. Do lado da Maria, acho
que foi a mesma coisa. Mas, entre ns, nunca tocamos no assunto. O engraado que
os amigos ficavam discretamente espiando
quando a gente conversava, para ver se saa
aquele assunto, e as duas mudas. Porque
essas coisas de clandestinidade, de sigilo,
elas colam. No tem como sair falando.

Mas enfim, quando surgiu a necessidade


de organizar a mesa para debater a questo dos filhos, fui procurar a Maria porque
a gente tinha aquela histria em comum
e ela trabalhava efetivamente com cinema.
Decidimos gravar depoimentos de vrios
filhos e depois editar para, quem sabe, juntando as memrias, que a gente conseguisse
passar para as pessoas da plateia algo que
resultasse no retrato de uma experincia comum que ns mesmas no sabamos qual
era, pois cada uma vivera aquele histria
no mais absoluto isolamento.
Mas uma coisa era certa: todo mundo tinha
as suas memria de infncia. Contudo, a memria uma coisa tortuosa e nem eu, nem
a Maria, amos sentar diante da plateia para
falar das nossas pequenas lembranas. Era
necessria uma sntese. O primeiro passo foi
fazer uma autoanlise: o que, das nossas infncias, tinha a ver com a opo poltica dos
nossos pais? Ou seja, ns tentamos descobrir o que era especfico da nossa experincia sendo a Maria filha de ex-presos polticos
e eu de um guerrilheiro assassinado, que vivera o exlio.
O pessoal da Comisso dos Familiares de
Mortos e Desaparecidos Polticos, sobretudo
a Amelinha e a Crimeia, nos ajudou a contatar outros filhos. Gravamos com quem
pde ir nos dois dias de estdio que a Maria
conseguiu emprestado. Optamos por fundo
neutro e exibir em preto e branco, para uniformizar ao mximo a imagem, aplainando
as diferenas de tipo fsico, cor da roupa,
cenrio de fundo etc. A proposta foi anular
as diferenas para destacar as falas e, assim,
constituir um corpo de depoimentos capaz
de reproduzir uma experincia comum. E a
saiu o 15 Filhos, o filme que no era pra ser
filme, que foi exibido em maro de 1996 na
UNICAMP, e depois percorreu o mundo e
ganhou prmios.
Eu comecei este depoimento falando sobre
a dor, o trauma, o buraco. O 15 Filhos foi o momento no qual os filhos descobriram que
tinham uma experincia coletiva. Faziam parte da mesma tribo. Para mim, foi o primeiro
passo em busca da minha identidade, porque

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ficava sempre a dvida: eu era tristinha porque nasci assim, ou como resultado da clandestinidade, exlio etc.? muito difcil separar o que da ndole e o que da vida. Tem
gente que tmida. Tem gente que bom aluno. Voc no tmido e bom aluno porque o
teu pai morreu na tortura, entendeu?
Quer dizer, qual era a minha identidade? O
que era meu e o que era da histria? Realizar
o 15 Filhos ajudou muito. E acho que foi um
passo importante para entender que a gente,
apesar de no ser ativa na histria a gente
era filho , temos um legado difcil de administrar, exatamente porque ele independeu da
nossa escolha. Na verdade, o 15 Filhos foi um
tremendo alvio. Pelo menos para mim, toda
vez que assisto o filme fico alegre, uma angustia a menos: Ok, eu no estou mais sozinha. Eu fao parte desse grupo. Essa a minha
turma. No sou o nico ET. Tm vrios etezinhos espalhados por a.
Mas um processo. E se nem todo processo
lento, esse em todo caso o foi, e ainda est
em curso. Aps mais de trinta anos de terapia,
descobri que carrego em mim dor e violncia
que no consigo processar. Tendo a crer que
ter vivido uma infncia assombrada por uma
instncia arbitrria a ponto de matar meu pai,
me exps a uma tremenda fragilidade e potencializou todos os medos. E talvez a pior sequela dessa violncia seja a prpria violncia
que sinto em mim agora. A verdade que eu
no aceitei o que foi feito minha famlia. Se
engoli, no digeri.
Hoje, leio minha dor e minha tristeza no
olhar das minhas filhas, toda vez que entro
em erupo. Tanto, que no precisou muito
para convenc-las a participar comigo das
Clnicas do Testemunho. E para mim muito
importante que elas ouam os depoimentos
de outras pessoas do grupo de terapia como
forma delas me entenderem, da mesma forma como eu preciso do olhar delas para me
entender.
Outro dia minha filha caula, Sofia, me
mostrou a biografia do advogado e poeta
Luiz Gama, que estava lendo para a escola.
Ali consta que a me do Luiz Gama mantive-

ra a religio africana, recusando-se a ser batizada. Era uma revolucionria nata, aliou-se
Revolta dos Mals e Sabinada. Quando
Luiz Gama tinha cerca de 10 anos de idade,
ela foi deportada para o Rio e, ao que parece, presa quando fazia um ritual de candombl. Desde ento desapareceu, junto com os
demais participantes do ritual. A verdade
que desaparecido poltico, nesse pas, tem
faz tempo. Mas Luiz Gama logrou superar a
dor e foi ser advogado, mesmo sendo negro
em tempos de escravido. Se hoje no fcil,
imagina naquele tempo?

O 15 Filhos foi o
momento no qual os
filhos descobriram
que tinham uma
experincia coletiva
Mas porque estou falando da questo da
violncia nestes termos? Porque a violncia,
para nossa sociedade, no um detalhe. A
cada gerao somam-se os desaparecidos
da represso gerada por um Estado que tem
por prtica perpetrar o terror, de uma polcia que tortura e some com as pessoas, e o
pior que muitas vezes o policial tambm
negro, tambm bisneto de escravo e carrega dentro de si uma violncia que ningum,
no fundo, consegue engolir, quem dir digerir. E assim vamos, tentando ser felizes. Afinal, no o samba filho da dor?
Essa , acho eu, a natureza profunda da
violncia que est a a nos assombrar. E
por este motivo que eu acredito que vale a
pena falar disso para vocs. Porque se eu
no visse em mim o horror... Talvez no conseguisse entender as suas razes em nossa
sociedade. E acredito que algo que merece ser olhado, a fundo, se pretendemos fazer
do Brasil um pas melhor para se viver.
MARTA NEHRING nasceu em So Paulo, em janeiro de
1964, filha de Norberto Nehring e Maria Lygia Quartim
de Moraes. Estudou literatura e cinema, trabalha como
roteirista de cinema e televiso.

Cenas do documentrio 15 Filhos, de Maria de Oliveira


e Marta Nehring, que retrata a poca da ditadura
militar no Brasil por meio da memria dos filhos de
miltantes presos, mortos e desaparecidos

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lbum de famlia
1. Norberto Nehring, morto em
24 de abril de 1970
2 e 5. Marta e a me Maria Lygia,
em So Paulo, 1964
3. Marta e o pai Norberto,
em So Paulo, 1964
4. Ficha de Norberto do DOPS
6. O casal Norberto e Maria Lygia
com Marta, em So Paulo, 1964

5
4

tasse trabalhar enquanto seguiria os estudos universitrios noite.

Norberto Nehring nasceu em 20 de setem-

bro de 1940, em So Paulo (SP). Era o filho mais velho


de Walter Nehring e Nice Monteiro Carneiro Nehring.
Morto em 24 de abril de 1970. Militante da Ao Libertadora Nacional (ALN).
Era economista e professor da Universidade de So
Paulo. Maria Lygia Quartim de Moraes, sua esposa,
escreveu uma pequena biografia a seu respeito:
Norberto ficou rfo de pai muito cedo, mal chegara
aos 4 anos. Foi criado, assim como seus dois irmos
menores, pela me e pelos avs maternos (...)
Uma pessoa marcante na sua adolescncia foi um vizinho, judeu-comunista e empresrio, Simo, que lhe
revelou as atrocidades nazistas e o despertou para a
causa do socialismo. Norberto sempre foi interessado
e aplicado. Estudou nas boas escolas pblicas da poca. Terminando o ginsio, optou por um curso tcnico
de qumica industrial no Mackenzie que lhe possibili-

48

Norberto foi meu primeiro namorado, aos


16 anos. Juntos comeamos a participar
da vida intelectual nos primeiros anos da dcada dos
sessenta (...)
Em 1963, comea nossa vida adulta: Norberto j trabalhava, entramos ambos na USP (ele, Economia, e eu,
Cincias Sociais) e nos casamos. Em janeiro de 1964
nasceu Marta (...)
Mas 1964 tambm trouxe tristezas: o golpe militar de
1 de abril. (... ) Tnhamos ingressado no PCB assim que
entramos na faculdade.
Filiei-me primeiro, o que era fcil, na medida em que a
esmagadora maioria dos meus colegas j pertenciam
ao PCB. Na Faculdade de Economia as coisas eram bem
mais complicadas: a esmagadora maioria do corpo docente era de direita. (...) Foi atravs do marido de uma
colega minha, que por coincidncia era colega de Norberto, que o contato com o PCB concretizou-se (...)
Norberto militou no PCB at a ruptura do grupo Marighella passou, ento, a fazer parte do grupo que trabalhava diretamente com Joaquim Cmara Ferreira, Toledo ou Velho, na coordenao da ALN em So Paulo.

(...) Especialmente dotado para matemtica, Norberto


se distinguiu na faculdade recebendo vrias ofertas para
ser instrutor (...)
Uma vez formado na USP (...), comeou imediatamente a
trabalhar em planejamento econmico, no Grupo de Planejamento Integrado GPI, um dos primeiros do gnero,
formado por economistas e arquitetos competentes (...)
Ao mesmo tempo, sua militncia na ALN intensificava-se. Integrava o grupo da casa de armas, dado seus conhecimentos de qumica e a enorme confiana pessoal
que nele depositava a coordenao da organizao (...)
Na manh do dia 7 de janeiro de 1969 uma cena inslita
perturbou a tranquilidade da vila em que morvamos:
nossa casa foi cercada por um grupo de policiais do
DOPS, que levaram Norberto preso. Logo que foi solto,
aps mais de dez dias na carceragem do DOPS, Norberto
passou para a clandestinidade sabendo que voltaria a
ser preso e torturado como aconteceu com todos os acusados do mesmo caso.
Muitos dos acusados estavam sendo brutalmente
torturados e houve uma tentativa de suicdio numa tarde em que fui visit-lo. Alm da equipe do DOPS, Norberto foi interrogado por um polcia federal, que j
gozava de grande considerao entre os torturadores do

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7 e 8. Marta em
Itanham, litoral de
So Paulo, 1967
9. Marta e Maria Lygia,
Cuba, 1970
10. Marta e os pais,
Norberto e Maria Lygia,
interior de So Paulo,
1968

DOPS, e que veio a se tornar muito conhecido no pas:


Romeu Tuma.
Em abril de 1969, Norberto saiu do pas com destino a
Cuba. Marta e eu fomos ao seu encontro alguns meses
depois. Ele retornou ao Brasil em abril de 1970, depois
de uma estada em Praga, desembarcando no aeroporto do Galeo. As circunstncias exatas de sua morte
nunca puderam ser estabelecidas (...)
Ficamos sabendo da morte de Norberto na Frana,
atravs de mensagem que recebi de Toledo, segundo a
qual, no dia 24 de abril, um caixo teria sado da OBAN
carregando Norberto, morto na tortura, nas mos
da equipe do delegado Fleury. Um dos documentos
encontrados nos arquivos do DOPS/SP uma nota
imprensa, assinada por Romeu Tuma, confirmando a
verso oficial de suicdio (...)
A verso oficial de que se suicidou, enforcando-se
com uma gravata no quarto que ocupava no hotel Piraj, ento conhecido bordel de policiais no centro de
So Paulo. No foram encontrados a percia de local,
o laudo necroscpico nem as fotos do corpo.
A verso de suicdio consta no inqurito feito pelo
delegado Ary Casagrande, onde h um bilhete que
Norberto fizera famlia. Buscando esclarecer os fa-

10

tos, seu sogro foi at o hotel e l soube que ali ningum se suicidara. O prprio inqurito contribui para
desmentir a verso oficial. Na requisio de exame,
consta que teria se afogado, e no laudo necroscpico ali citado, mas nunca localizado, consta a informao de que a morte se dera por asfixia. Norberto
foi enterrado com nome falso no Cemitrio de Vila
Formosa, em So Paulo, mas a famlia foi comunicada apenas trs meses depois. Aps a exumao do
corpo, realizaram seu reconhecimento por meio da
arcada dentria, comprovando sua identidade. Seus
restos mortais foram transferidos, ento, para o jazigo da famlia.

Maria Lygia Quartim de Moraes nasceu

em So Paulo (SP), em 18 de maio de 1943. Aos 8 anos


de idade conheceu Norberto Nehring que foi seu
maior amigo e primeiro namorado. Em 1963 casaram-se e iniciaram suas vidas universitrias. Ela cursou
Cincias Sociais na Universidade de So Paulo (USP)
(1963-66) e ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) tambm em 1963.
Marta, nica filha do casal, nasceu em janeiro de
1964, antes do golpe de Estado que viria a mudar ra-

dicalmente a vida do pas e de seus pais. O casal integrava a Ao Libertadora Nacional (ALN) e, em janeiro de 1969, Norberto foi preso vindo posteriormente
a fugir do pas. Em julho do mesmo ano, Maria Lygia e
Marta foram se encontrar com ele em Cuba onde permaneceram por quase uma ano. Norberto foi preso e
morto ao regressar ao Brasil, em abril de 1970.
Marta e Maria Lygia viveram no Chile at o golpe de
Estado que derrubou Salvador Allende e depois foram viver na Frana. Retornaram ao Brasil em julho
de 1975.
A partir de ento, Maria Lygia adotou o nome de
Maria Moraes e ajudou a criar o jornal feminista
Ns Mulheres. Tambm foi jornalista na publicao O Movimento e uma das fundadoras do jornal
Em Tempo.
Doutorou-se em Cincia Poltica pela USP (1982) iniciando sua carreira como professora universitria na
Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi professora da UNESP-Ar e ingressou na UNICAMP em 1993.
Publicou livros, captulos de livros e artigos no pas
e no exterior. A partir de setembro de 2013, preside
a Comisso da Verdade e Memria Octavio Ianni da
UNICAMP.

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por Carlos Eduardo Ibrahin

Meu nome Carlos Eduardo Martins


Ibrahin. Sou filho de Jos Ibrahin e Tereza
Cristina Denucci Martins.
Meu pai foi lder sindical e minha me
atuou na luta armada no MR-8. Ela era do
movimento estudantil, foi do grupo do Vladimir Palmeira. Eu nasci no Panam. Era
para eu ser chileno, porque fui concebido
no Chile, mas como houve aquela fatalidade
do golpe contra o [Salvador] Allende, meus
pais tiveram que invadir a Embaixada no
Panam. E ento eu nasci no Panam.
Quando eu tinha quarenta dias de vida, fomos expulsos do Panam e deportados para
a Blgica, que foi o pas que aceitou asilo
poltico do meu pai, da minha me e o meu.
Vivemos ali por cinco anos, at a anistia. O
primeiro marido da minha me foi morto na
ditadura militar. Meu pai o segundo marido dela, eles se conheceram no Chile. Minha
me fugiu e meu pai foi trocado pelo embaixador americano. Todos vocs conhecem
essa histria marcante.
Meu pai comeou a trabalhar com 5 anos de
idade, foi engraxate. E com 14 anos foi trabalhar na Cobrasma. Fez o SENAI, e aos 16 j

esquerda, a chegada da famlia


ao Brasil, aps a Anistia de 1979

era diretor do sindicato. Com 20 anos, ele foi


eleito presidente do Sindicato dos Metalrgicos de Osasco. Nossa famlia comeou a trabalhar muito cedo. Aos 10 anos, sem precisar
trabalhar, eu catava jornal na vizinhana para
vender para o peixeiro embrulhar peixe na
feira. O Gabriel, meu irmo, tambm sempre
teve essa conscincia. Meu pai comeou a luta
poltica muito cedo. Com 20 anos de idade ele
j era presidente do maior Sindicato de Metalrgicos daquela regio, de maior liderana.

Meu pai foi demitido por


justa causa, foi preso, ficou
sete meses no DOPS,
torturado todos os dias,
pau de arara, choque
A estratgia dele de greve era muito singular. Ao invs dele estruturar o Sindicato,
trabalhar o Sindicato de cima para baixo,
ele fez ao contrrio. Procurou montar Comisses dentro das fbricas. Por isso que a
greve dele na verdade foi uma greve geral
de metalrgicos, porque no foi s Osasco
que parou, foi Guarulhos tambm e outras
regies que pararam em solidariedade. A
meu pai foi demitido por justa causa, foi preso, ficou preso sete meses no DOPS, tortura-

do todos os dias, pau de arara, choque e etc.


Foi trocado pelo embaixador americano. Foi
para o Mxico, foi para Cuba. A inteno de
morar em Cuba era justamente se aprimorar
na luta armada, para voltar para o Brasil. De
Cuba, foi para o Chile porque a ideia dele,
depois de trs anos em Cuba, era aprender
como que o Allende estava trabalhando l.
E a aconteceu o que aconteceu. Conheceu
minha me, tiveram que ir para o Panam.
Na Blgica ele coordenou junto com pessoas como [Leonel] Brizola e Cesar Maia, entre
outros, um processo poltico para pressionar
na redemocratizao do Brasil. Desde o Chile ele j vinha fazendo isso.
Ele criou na Blgica, junto com a Organizao das Naes Unidas, a Casa Latino Americana, que tinha como objetivo abrigar, dar
suporte psicolgico, social e financeiro para
os exilados polticos da Amrica Latina. A
partir desse trabalho, a Casa Latino Americana pde salvar muitas vidas, trazer muitos
companheiros que estavam nas ditaduras,
sofrendo com perigo de morte.
Com a anistia, voltamos ao Brasil. Eu no
queria sair da Blgica. Minha me trabalhava no Mercado Comum Europeu, meu pai
estava presidindo a Casa Latino Americana
pela ONU, enfim, ganhando bem, com uma
estrutura. E a Blgica um estado de bem
estar social dos mais exemplares que existe

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na histria do mundo. Ento eu no queria,


mas tive que voltar. Era pequeno, tinha 6 anos.
A minha infncia foi muito difcil. Primeiro, eu s consegui minha cidadania nata aos
23 anos de idade porque entrei com uma
ao contra a Repblica. Minha certido era
provisria. Para eu tirar meu ttulo de eleitor
tive que ser subversivo. Um amigo de Gois me disse: Aqui no Estado de Gois tem
uma cidade chamada Panam. Ento, eu tenho uma carta de identidade que diz que eu

nasci no Panam, Gois. S assim pude tirar


o meu ttulo de eleitor. Inclusive, por conta
disso, por esse argumento eu entrei com um
pedido de Anistia Poltica e indenizao na
Comisso de Anistia do Ministrio da Justia. Por conta de o Estado ter rasgado a Constituio, o direito Constitucional, o meu direito de ser cidado nato, eu tive que entrar
com uma ao, gastei dinheiro com advogado, tudo para receber minha cidadania nata.
Tanto que minha certido de nascimento,

eu vou escanear e mandar para vocs, ela


me d a cidadania nata, mas est escrito assim, Por fora do ato tal, folha tal, folha tal,
folha tal.... Quer dizer, isso foi forado.
Isso aconteceu no s comigo, muitos filhos de exilados sofreram muito. Inclusive
os nossos telefones eram grampeados pelo
SNI. At o governo Collor, a vida do meu pai
e da minha me e a minha eram controladas. S depois do governo Collor que isso
parou. Ento, toda essa conjuntura teve um
impacto muito forte nos filhos dos exilados.
Quando voltamos ao Brasil, eu morei dois
anos em Osasco, com meu pai e minha me
e a eles se separaram. Meu pai estava naquela de montar o PT e a CUT. Ele foi o Primeiro Secretrio Geral do PT, e se preparava
para ser candidato a Deputado Federal, nas
eleies de 1982. E logo depois das eleies
eu fui morar no Rio.
Meu av [Dirceu Martins] tambm era
uma pessoa muito politizada. Durante a
ditadura militar ele foi tesoureiro chefe do
Banco Central. Era uma pessoa tambm engajada politicamente, de um outro lado, mas
engajada. Ele fazia o desenho do passaporte
que vocs tm na mo hoje, porque foi presidente da Casa da Moeda, que fazia o passaporte. O que ele fazia? Ele pegava vrios
passaportes desmontados, levava para casa,
montava direitinho e dava para as pessoas
fugirem. Ele ajudou muita gente a sair do
Brasil pela fronteira.
Depois, eu mesmo tive minha vida poltica. Fui presidente do meu Grmio, diretor
secretrio-geral do DCE da PUC por muito
tempo, vice-presidente nacional da juventude do PSDB durante oito anos, trabalhei
muito tempo com Franco Montoro.
Minha me morreu em 2011. Eu resolvi
dar uma parada, cuidar da minha vida pessoal. Agora em 2013 meu pai falece. Ento
no prazo de um ano e dez meses mais ou menos eu perdi os dois.

esquerda, a certido de nascimento


de Carlos Eduardo

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Minha me morreu de uma maneira que


ningum gosta de morrer, sofrendo, e meu
pai morreu como um anjo, dormindo. Ento,
duas mortes diferentes, completamente diferentes. Mas o fato o seguinte: eu estou disposto, com meu irmo, a dar continuidade
vida pblica do meu pai, a imagem do meu
pai, e eu, particularmente, tanto da imagem
do meu pai quanto da minha me. Dar continuidade ao trabalho que ele estava fazendo.
Minha me, Tereza Cristina Denucci Martins, foi guerrilheira, sabia atirar como ningum. O primeiro marido dela, Paulo Bastos,
foi morto na ditadura, jogado vivo na Baa de
Guanabara. Isso criou uma confuso muito
grande porque eu no consegui minha certido de nascimento de primeira mo, que
era a provisria. Porque o primeiro marido
da minha me era considerado vivo. Estava
morto. E o meu pai era considerado morto e
estava vivo. Logo, eu seria filho do Esprito
Santo. Ento eu s consegui a cidadania provisria depois que saiu o atestado de bito do
primeiro marido da minha me. E at ento
eu tinha j uns 10 anos de idade. Ou seja, at
os 10 anos de idade eu no existia, entendeu?
Hoje, eu tenho 39, mas eu no tenho 39, eu
tenho 39 menos 10, que s com 10 anos eu
passei a existir.
Estamos dispostos a continuar essa luta,
no s na Comisso da Verdade, mas no Movimento Sindical e no Movimento Partidrio.
Meu pai atuou em trs focos: Movimento da
Organizao Social Civil, redemocratizao
e Partido Poltico. Ele foi filiado ao PT, PDT
e o ltimo partido no qual ele militou foi o
PV. Foi fundador, por exemplo, junto comigo
do CEAT, que o Centro de Atendimento ao
Trabalhador. Durante muito tempo meu pai
foi Secretrio Geral do Conselho Consultivo
do CEAT. Tinha esse trabalho na rea das
organizaes no governamentais, e tem
todo o trabalho internacional do meu pai.
At hoje ele o sindicalista mais conhecido
no exterior.
Meu pai foi vice-presidente da Comisso
de Educao para o Trabalho na OIT. Teve
uma atuao grande na disseminao do
trabalho digno. Eu tambm tive a oportunidade de contribuir nisso. Quando eu trabalhei no governo Marcelo Alencar, fiz parte

da Comisso de Erradicao do Trabalho


Infantil no Rio de Janeiro e consegui mandar prender muita gente que fazia trabalho
escravo no Rio de Janeiro.

to amigo do meu pai. Enfim, com o prprio


Lula, em especial tambm o Jos Dirceu,
que at hoje amigo da famlia, enfim, e de
muita gente do Movimento Sindical.

Ento essa questo do mundo do trabalho


foi tambm minha atuao. E eu quero continuar com isso. Eu e meu irmo queremos
continuar com esse trabalho dele. Tanto
que estamos criando um espao vivo sobre
a memria do Jos Ibrahin. E como pano de
fundo, o mundo do trabalho e a democratizao do Brasil. Futuramente, ser criado um
espao do Jos Ibrahin no Museu da Cidade
de Osasco e no Sindicato dos Metalrgicos
de Osasco.

Estou disposto a trabalhar junto com a Comisso para a verdade realmente aparecer.
Muitas injustias foram cometidas aqui neste pas e a justia tem que vir tona para
todos ns.

Estou disposto a
trabalhar junto com
a Comisso para a
verdade realmente
aparecer. Muitas
injustias foram
cometidas aqui neste
pas e a justia tem
que vir tona para
todos ns

Ontem [5 de maio 2013] eu falei para trs


mil pessoas no aniversrio de 50 anos do
Sindicato dos Metalrgicos de Guarulhos,
onde meu pai foi homenageado e fomos receber uma placa. E eu falei para os trabalhadores que meu pai foi torturado fisicamente, mas que a maior tortura psicolgica que
fizeram foi na vida das famlias brasileiras.
Os trabalhadores foram duramente repreendidos nessa poca. Comentei que a ditadura
militar era um cncer, que at hoje a gente
no conseguiu curar porque para muita gente no interessa que a verdade venha tona.

CARLOS EDUARDO IBRAHIN nasceu em 21 de novembro de 1973, filho de Jos Ibrahin e Tereza Cristina
Denucci Martins, formado em Histria (PUC RJ),
Mestre em Engenharia de Produo com foco em Engenharia de Financiamento Social (COPPE/URFJ) e Doutorando em Economia (Universidade de Coimbra Portugal), tem uma empresa de consultoria em projetos.

Eu vivi intensamente o exlio, intensamente a redemocratizao do Brasil. Fui subversivo e tirei meu ttulo de eleitor para votar
no Roberto Freire. Queria votar nele de qualquer jeito. Depois eu me engajei como vicepresidente nacional da juventude do PSDB,
me engajei na eleio do Fernando Henrique. Viajei o Brasil inteiro com essa bandeira. Fui assessor do senador Artur da Tvola.
Fiz histria na PUC e depois fiz mestrado
em Engenharia de Produo na UFRJ.
Eu tive a oportunidade, por ter a sorte de
ter nascido do Jos Ibrahin e da Tereza Cristina, de conhecer no s meu pai e minha
me, mas muita gente que fez, que faz parte
da histria poltica do nosso Brasil. Tive a
oportunidade de ter um relacionamento ntimo com Mrio Covas, com Franco Montoro,
com Brizola, com Jac Bittar, que era mui-

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1. Documento da PM de So Paulo que


relata a vigilncia de Jos Ibrahin durante sua
estada no Chile
2. Fotos de Ibrahin retiradas do relatrio do
CIE, Indivduos Banidos do Territrio Nacional,
1970, distribudo aos orgos de represso, para
reconhecimento dos mesmos
3. Ficha de Ibrahin do DOPS
(Os documentos acima foram encontrados em
pronturios do DOPS, no Arquivo do Estado
de So Paulo)
4. Jos Ibrahin, Carlos Eduardo, Tereza Cristina e
um amigo do casal, em Bruxelas, Blgica, 1977
5.Carlos Eduardo, aos 7 anos, com o pai,
durante fundao do PT em Osasco, 1980

6. Foto dos presos polticos libertados e


banidos, entre eles Ibrahin, na troca do
embaixador americano Charles Burke
Elbrick, 1969
3

Jos Ibrahin nasceu em 3 de setembro de 1947

em So Paulo (SP) e cresceu em Presidente Altino, hoje


municpio de Osasco. Aos 14 anos comeou a trabalhar
como operrio na Companhia Brasileira de Materiais
Ferrovirios (Cobrasma), ao mesmo tempo em que estudava no Ginsio Estadual de Presidente Altino. Aos
17 anos, chegou ao posto de inspetor de qualidade.
Aos 18 anos, em 1965, fundou ilegalmente a primeira
comisso de fbrica, na Cobrasma, experincia que
serviria de base para reorganizao, dois anos depois,
do Sindicato dos Trabalhadores Metalrgicos de Osasco (at ento na ilegalidade).
Entre 16 e 21 de julho de 1968 liderou a primeira greve
de trabalhadores durante a ditadura militar no Brasil, por melhores condies de trabalho e contra a
poltica de arrocho salarial, imposta pelos militares
desde 1964. Alm dos trabalhadores da Cobrasma,
operrios das empresas Braseixos, Barreto Keller,
Granada, Brown Boveri e Lanoflex aderiram ao movimento grevista. Ao todo, 22 mil trabalhadores aderiram paralisao.
Ibrahin tinha apenas 21 anos de idade na poca em
que comandou a greve. Foi demitido e com os direitos
polticos cassados, caiu na clandestinidade e passou
para a militncia armada, ingressando na Vanguarda
Popular Revolucionria (VPR). A VPR o destacou para

54

So Paulo, onde trabalhou na organizao sindical


entre Osasco e So Paulo, at que em 1969 foi preso e
levado ao DOI-Codi, onde foi torturado.
Em setembro de 1969, com o desfecho do sequestro
do embaixador americano no Brasil, Charles Burke
Elbrick, foi um dos quinze presos polticos libertados na troca, tambm foram libertados Jos Dirceu,
Flvio Tavares, Vladimir Palmeira, Ricardo Zarattini,
entre outros. Foi para o exlio, permanecendo por dez
anos fora do pas, vivendo no Mxico, Cuba e Chile.
Em 1979, com a Anistia aos perseguidos polticos da
ditadura, Ibrahin retorna do exlio e foi um dos articuladores da fundao do Partido dos Trabalhadores,
em 1980 e da Central nica dos Trabalhadores (CUT),
em 1983. Em 1991, Ibrahin foi um dos principais articuladores da criao da Fora Sindical. Posteriormente desentende-se com a cpula da Fora Sindical e
filia-se a Unio Geral dos Trabalhadores (UGT), onde
torna-se Secretrio de Formao Poltica. Ibrahin faleceu na madrugada do dia 1 para o dia 2 de maio de
2013, aos 66 anos.

Tereza Cristina Denucci Martins

nasceu em 23 de outubro de 1947, em Arax (MG). Estudou histria na Faculdade Nacional, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Integrou a luta armada, militando no Movimento Revolucionrio 8 de Outubro (MR-8). Participou da organizao do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969.
Foi casada com o mineiro Paulo Costa Ribeiro Bastos,
tambm militante do MR-8, desaparecido em julho de
1972, aps ser de preso por agentes da ditadura.
Exilada no Chile, Tereza passou a viver com Jos
Ibrahin. Com a queda de Salvador Allende, em setembro de 1973, o casal invade a embaixada do Panam
e segue para o pas andino, onde nasce o filho deles,
Carlos. Com 40 dias de vida do beb, a famlia expulsa do Panam e consegue ser recebida na Blgica,
onde ficaram at a Anistia.
Na Blgica, fez mestrado, doutorado e ps-doutorado em cincia poltica e relaes internacionais pela
Universidade Livre de Bruxelas.
No Brasil, trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnolgicas (IPT) coordenando o setor de transferncia
de tecnologia. Criou e coordenou a coordenadoria de
Cincia e Tecnologia da prefeitura do Rio de Janeiro,
hoje Secretaria Municipal de Cincia e Tecnologia.
fundadora da Fundao BioRIO. Foi gestora de projetos no Sebrae-RJ e participou de diversos projetos com
foco na difuso de cincia e tecnologia e transferncia
internacional. Trabalhou na rea de qualificao.

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por Suely Coqueiro

Sou filha de Aderval Alves Coqueiro, assassinado pela ditadura em 1971 e o primeiro preso
poltico banido enviado Arglia a retornar ao Brasil aps o seu exlio. Ele foi um dos
quarenta presos polticos trocados pelo embaixador alemo Von Holleben, em junho de 1970.
Essa a primeira vez que ns filhos somos ouvidos. a primeira vez que temos a oportunidade de abrir o corao e falar sobre essas mazelas
e sobre um momento histrico que para ns,
crianas naquela poca, foi muito difcil.
Ns, como crianas, no tnhamos capacidade
de compreender tudo. Isso um pouco problemtico, e o momento histrico era aterrorizante.
A importncia deste momento conseguirmos relembrar e falar pela primeira vez sobre
os efeitos daqueles momentos difceis nas nossas vidas. Eu nasci em 1960, tinha 4 anos quando se deu o golpe.
Na poca, acho que ainda estvamos em Braslia, porque meu pai era baiano e migrou para
Braslia quando eu era muito pequena. Foi candango l e viemos para So Paulo quando eu
ainda era muito pequena. Em So Paulo, comeou a trabalhar como operrio, no ABC.
Lembro bem da nossa vida a partir do momento que moramos no ABCD, em Diadema.
Ele j era integrado luta, porque foi em Braslia que entrou no movimento. Minhas pri esquerda, Suely e Isaura no Hotel
Havana Libre em Havana, Cuba, 1973

meiras lembranas, apesar de vagas, so dos


desaparecimentos, porque de vez em quando
ele sumia por uns dias, no havia muita explicao para isso. E, por vezes, havia algumas
reunies l em casa. E quando a situao foi
ficando mais aguda e comearam as perseguies mesmo, a comearam a se dispersar.

Comecei a perceber o
que estava acontecendo
quando tivemos que
fugir para valer pela
primeira vez
Foi nessa poca que comeamos a deixar um
pouco de viver a vida familiar, porque cada vez
menos dava para vivermos juntos. E comecei a
ouvir que tnhamos que ter cuidado com o que
falvamos na escola, no podamos brincar com
a amiguinha da vizinha, no podamos ficar fora
do porto na rua brincando. Era uma srie de
coisas que no conseguamos entender na poca. Eu tinha 7 anos e no conseguia entender o
porqu daquela situao.
Comecei a perceber o que estava acontecendo quando tivemos que fugir para valer pela
primeira vez, porque o meu pai j estava sendo procurado. E ns tnhamos que comear a
viver nos chamados aparelhos, que eram casas
e apartamentos clandestinos, considerados
mais seguros.

Ns moramos no Mato Grosso, na Bahia, voltamos para So Paulo. Mudvamos constantemente, no podamos ficar em uma mesma
escola o tempo todo. Tnhamos muito medo,
muita insegurana. Depois comecei a entender que eu podia perder o meu pai. Eu acho que
foi a que comecei a sentir mais medo. Quando
meu pai teve que ir para a clandestinidade, a
vida ficou complicada.
Quando tivemos que nos mudar de Diadema,
eu tinha 7 ou 8 anos. Ns fomos de Kombi para
o Mato Grosso e ficamos na casa de um primo
da minha me ou meu pai, que tinha um stio,
onde moramos por um tempo. Meu pai ficou um
perodo curto conosco, logo depois voltou para
So Paulo. Eu acho que a maior preocupao
dele naquele momento era garantir a segurana
da minha me e das filhas.
No regresso a So Paulo, numa noite, foi alugada uma casa, em Santo Amaro. L no tinha
fogo, camas, geladeira. Porque a gente simplesmente mudava de um minuto para o outro.
Alugamos a casa num dia, e na manh seguinte,
num posto de gasolina, os companheiros foram
avisar que meu pai tinha sido preso. Ns tivemos que sair novamente da casa por questes
de segurana.
Quando meu pai ainda estava preso, me magoou muito eu no poder v-lo em todas as visitas na cadeia porque tinha que estudar. Eu tinha
que avanar no estudo porque estava atrasada.
Quando ele foi preso, passou-se um tempo
sem que ningum soubesse dele. Minha me

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Uma vez perguntei


por que ele estava
de culos escuros.
Ele me respondeu
que era porque tinha
jogado bola e a bola
tinha batido
no rosto

saa constantemente, de delegacia em delegacia, porque ela sabia que ele tinha sido preso,
s que no sabia se estava vivo, morto, em que
lugar ele estava. Lembro-me desta procura
constante.
Foi um alvio quando ficamos sabendo que
estava preso, foi a confirmao de que ainda
estava vivo. Mas ele estava na condio de incomunicvel, no podamos ir visit-lo.
Logo que comeamos visitar o meu pai, ele
tinha sido muito torturado.
As visitas continuaram por um tempo, e depois a troca dele pelo embaixador alemo, junto com outros companheiros, que foram para
a Arglia. E veio o medo novamente, porque
achvamos que como ele havia sido banido e
desterrado, no fssemos v-lo nunca mais.
Alm disso, naquela poca, financeiramente, ao menos para ns, uma viagem, era algo
inalcanvel, no ramos de famlia rica ou de
famlia de classe mdia, que tinha condies
de pagar uma passagem internacional para visitar o pai no exterior.
Quando meu pai foi banido, a sensao foi
de mistura de um sentimento de felicidade,
porque ele no ia mais ser torturado, no ia
ser mais magoado, no ia ser mais ferido, com
uma sensao de perda, porque eu achei que
no o veria nunca mais. Ou, talvez, que fosse v-lo apenas quando fosse uma adulta e
fosse visit-lo, porque ele no poderia voltar
nunca mais.
Para mim, o exlio do meu pai foi uma perda
porque no havia possibilidade de v-lo nunca
mais. Como efetivamente no houve. S tornei
a v-lo j no caixo para enterrar.
Ento, para mim, o exlio do meu pai foi realmente a despedida. Porque a segunda despedida foi a mais cruel, j no caixo, pois ele
foi assassinado depois que retornou ao Brasil
em 1971. O momento do enterro do meu pai foi
muito complicado, porque deu-se a notcia nos
meios de comunicao, com manchetes, como:
Terrorista banido volta ao Brasil e morre.
Meu pai no era terrorista, para mim ele nunca foi terrorista. O choque foi enorme, porque

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para ns ele ainda estava no exterior. Ns no


sabamos que ele tinha voltado. Ele foi banido
em 1970, e demorou coisa de um ano para voltar.
Ns recebamos cartas, no com frequncia.
Eu tenho cpia de vrias cartas que ele mandava para a minha me. Em todas, falava o tempo todo que morria de saudades de ns. Ele era
uma pessoa muito ligada famlia. E os companheiros que encontramos aqui e em Cuba falam
que ele falava muito em ns, constantemente.
Tenho certeza que essa volta rpida para o
Brasil ocorreu porque ele no conseguia viver
longe de ns. Ele tinha uma dificuldade enorme com isso. Quando ele foi assassinado, no
Rio de Janeiro, ns ficamos literalmente perdidos, perdemos o cho. A pessoa est no exterior e de repente voc recebe a notcia que o
ser que voc ama tanto est morto e est no teu
pas e voc sequer chegou a v-lo novamente.
Meu av, que na poca no era perseguido,
nos deu muita fora. Ele falou para a minha
me: Ns vamos enterrar o meu filho. A fomos para o Rio de Janeiro. Acho que por muitos
anos fiz questo de no lembrar desta viagem.
Quando chegamos ao Rio, era Carnaval. Ficamos num hotel pequeno e barato, numa rua movimentada cujo nome tambm no lembro. Meu
av foi ao IML para fazer o reconhecimento.
Tudo aconteceu de forma muito rpida, no havia tempo para fazer o luto. Acho que nenhum
de ns teve tempo de viver o luto na poca.
Meu av reconheceu o corpo, e na hora do
enterro, abriram o caixo, a minha me beijoulhe a mo, eu olhei, fecharam o caixo, levaram,
enterraram e ns voltamos para So Paulo. Foi
uma coisa super rpida, sem tempo de assimilar, sem tempo de trabalhar na cabea sem
tempo de pensar.
Depois, em So Paulo, no demorou muito
para ns recebermos a informao de que estavam procurando a minha me, pelo menos
foi o que ouvimos na poca. Ns no tnhamos
estrutura psicolgica, no tnhamos condies de continuar morando na cidade. A veio
o processo de organizao para nos levar ao
Chile. Este processo tambm foi terrvel. No
tivemos tempo de luto, de nada. Nem tempo de
despedir da nossa famlia.

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Ns sempre tivemos uma dificuldade enorme de relacionamento com a minha prpria famlia biolgica, como tias, tios, primas, primos
porque no tivemos contato com eles.
Nossa viagem para o Chile foi de horror, parte
de Kombi e outra de nibus. E os companheiros
que nos levaram eram clandestinos tambm.
Para chegar ao Chile, passamos pela Argentina.
Eu lembro do vento gelado das Cordilheiras dos
Andes, at chegar em Santiago, isso tudo uma
coisa atrs da outra.
Quando chegamos ao Chile, eu tinha 10 anos.
Quando pensamos que teramos um pouco de
tranquilidade, veio a preparao do golpe militar. Chegamos l um ano e pouco antes do golpe e ficamos por um ano. Tambm no tenho
boas lembranas de quando comecei a estudar,
e nem do pas, por diversas razes, como essa
vida de insegurana, ainda no tnhamos nem
tempo de viver o luto e tivemos que chegar l
e continuar tocando a vida. Esta situao constante de estar de um lado para o outro mais as
inseguranas e os medos, refletiram para o resto de minha vida.
Somos gratos ao Chile da poca do presidente [Salvador] Allende, que foi o nico pas que
naquele momento acolheu muitas pessoas, no
s brasileiros. Mas a nossa experincia anterior
aqui no Brasil tinha sido muito amarga.
Eu, na condio de criana, no estava preparada para nada naquele momento. Voc
no tem infncia e o fato de no ter infncia,
perder referncias, no ter razes verdadeiras.
Quando criana, a gente precisa de uma referncia de pessoas com quem se conversa, que
vo guiar o teu caminho de certa forma.
E, como mudvamos muito, a gente no tinha isso. Porque lugares so referncias. Eu
fui entender muito tempo depois porque passei por isso, o quanto importante para uma
criana seguir o curso, ficar bastante tempo na
mesma escola, com os mesmos amigos, com as
mesmas relaes. A cada mudana rpida na
vida so referncias que voc vai perdendo e
no recupera mais.
Depois, a situao no Chile, a sobrevivncia,
foi ficando muito crtica, porque comearam a
faltar coisas no supermercado, porque a direita

boicotava. Nessa poca, os grandes empresrios estavam junto com a direita, com o [Augusto] Pinochet. E quando se percebeu que no
Chile estava havendo uma articulao de golpe, fomos para Cuba.

fomos entendendo que em Cuba a polcia realmente representava a proteo e no agresso,


no assassinato como acontecia no Brasil. Foi l
que realmente eu comecei a ter infncia porque
aqui no tinha, ns no tivemos infncia.

Um dia noite chegaram em casa e disseram: Vocs vo para Cuba. Com 11 anos, o
que significava ir para Cuba? Eu s sei que
tudo aconteceu muito rpido. Mais uma vez sa
da escola. Ns morvamos em uma casa junto
com outra famlia de exilados, com a tia Ilda
Gomes da Silva e moramos tambm com a tia
Dina (Pedrina Carvalho) A, um dia ns pegamos a Cubana de Aviacin em Santiago e no
outro dia estvamos em Havana.

L, eu comecei a estudar, a ter crculos de


amigos pela primeira vez na vida. Amigos da
minha idade, amigos que podia marcar para se
encontrar embaixo do prdio onde morava, fazer grupinho de teatro juntos. Os sobrinhos do
Guevara inclusive moravam no mesmo prdio
que a gente e faziam parte do mesmo grupinho
de teatro. E onde morvamos tinha muitos exilados da Amrica Latina, os bolivianos, argentinos, tinha chilenos e mais os cubanos.

Meu av reconheceu
o corpo, e na hora do
enterro, abriram o
caixo, a minha me
beijou-lhe a mo, eu
olhei, fecharam o caixo,
levaram, enterraram
e ns voltamos para
So Paulo. Foi uma
coisa super rpida

Comeamos a ter uma vida normal, a aprender como ter uma vida normal, a gente tinha
liberdade de ser criana. Os nossos anos em
Cuba foram maravilhosos. L tnhamos vrios
tios e primas, que a gente foi construindo com
o tempo, porque eram pessoas que viviam as
mesmas experincias, as mesmas dores, viviam nos mesmos lugares e com quem a gente
tinha uma identificao muito grande, como
a tia Ilda, a tia Dina a tia Cida, tem a tia Clara, mulher do Marighella, tia Damaris, enfim
construmos laos.

A chegada em Cuba foi na condio de criana que no sabe o que lhe espera, depois de
tanta coisa que aconteceu. Mas foi a melhor
coisa que aconteceu conosco. L ns fomos
muito bem atendidos, recebidos, acolhidos.
A eu j estava com 11 para 12 anos. Acho que
minha irm tinha 5, 6 anos. Em Cuba, tinha os
companheiros milicianos que usavam cala
verde, camisa azul. Eu tinha medo de polcia
aqui no Brasil, no Chile eu tinha medo de polcia e claro, quando eu cheguei em Cuba, eu
tinha medo de polcia.
Os companheiros brasileiros falavam, Olha,
desta polcia aqui voc no precisa ter medo. A
polcia aqui amiga, eles no fazem nada, ao
contrrio. Mas eu lembro que a gente, eu acho
que no fui s eu, mas na poca a gente queria
manter distncia de polcia. Com o tempo, ns

Ns nunca tivemos antes oportunidade de


conversar sobre isso ou colocar para fora esta
ferida que a gente carregou e estamos carregando h tantos anos. Porque foram momentos de
terror e perda na vida da gente que ns carregamos a vida toda.
Ns no falamos sobre isso porque um processo, quando se uma criana, primeiro voc
quer esquecer. Quando voc j passou por tanto terror, medo, perda, quando voc chega num
lugar onde encontra paz, voc quer esquecer
o que aconteceu, prefere no falar, prefere no
tocar no assunto e quer desfrutar ao mximo
esta paz e segurana que te oferecida.
E foi o que todos ns encontramos em Cuba.
A eu retorno para o Brasil, veio a Anistia, a j
no ramos mais crianas, j ramos todos jovens. Todo mundo tinha 18, 19, 20 anos, maiores.
A vem a proposta do retorno ao Brasil.
A partir de 1979, 1980 comeamos a voltar.
Se tivessem me dado a possibilidade de esco-

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Com o tempo, ns
fomos entendendo
que em Cuba a polcia
realmente representava
a proteo e no
agresso, no
assassinato como
acontecia aqui
no Brasil

lha, eu no teria voltado, porque as lembranas


de quando ns samos daqui no eram boas.
Acho que foram as piores experincias da vida
de cada um de ns, e a volta sem perspectiva
nenhuma, em mim, provocou medo.
Voc volta sem famlia porque perdeu a sua
famlia biolgica, criou novas famlias no exterior, que so os companheiros exilados. E as
crianas dos exilados que esto l que so os
teus primos, os adultos passam a ser seus tios,
passam a ser suas tias. Voc livre, estuda,
aprende, enfim, passa a ser gente, respeitado
e de repente volta para o lugar que teu pas,
mas o lugar que te causou as maiores dores
de sua vida. E esse processo de retorno muito
difcil, para mim foi extremamente difcil.
Depois do nosso retorno ao Brasil, essa moada que foi criana para Cuba e voltaram
jovens, parece que nos dispersamos de novo.
Sempre digo que foi a segunda vez que perdemos a famlia. Porque a famlia que ns tnhamos feito l se dispersa novamente no retorno.
A outra ruptura na sua vida.
Depois de alguns anos a gente comeou a se
procurar, porque cada um viveu as suas experincias, se refez de certa forma, trabalhou, fez
famlia. Cada um criou as suas famlias, casou,
separou. Mas todo mundo conseguiu, achou o
seu caminho, mesmo com dificuldades. Estamos querendo criar uma espcie de grupo dos
Ptrias, da turma que esteve em Cuba. Porque
Cuba, sem dvida, o nosso pas tambm.
Em Cuba, a ltima escola que eu estudei foi
a Hroes de Varsovia. E, antes eu estudei l na
Orestes Gutierrez que era do primrio a secundrio. A Hroes de Varsovia era uma escola
onde eu ficava a semana toda. S aos finais de
semana eu ia para casa. E l ns tnhamos trabalho voluntrio, estudvamos, tinha atividades
culturais, uma escola mesmo. No era s tempo
integral, mas era interna.
E aos finais de semana quando a gente ia
para casa de vez em quando tinha atividade,
porque os companheiros brasileiros exilados
organizavam atividades. Eu no achava nem
muito agradvel ir a essas atividades, ia mais
por uma questo de compromisso poltico em
relao aos companheiros, mas no porque eu

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gostava. Acho que trazia tona muitos traumas e lembranas amargas.


A depois a gente passa para uma etapa que
quer lembrar porque depois de adulto comeo
a tentar entender o que tinha acontecido realmente comigo. Com alguns medos e inseguranas que eu tenho at hoje, eu queria saber
de onde eles tinham vindo. A voc comea a
perceber que so daquela poca. Mas isso nunca foi ouvido por ningum tambm.
Primeiro, foi a sensao de insegurana. No
incio, eu no conseguia me adaptar de todo
aqui no Brasil. Eu tive um problema srio de
adaptao. Mesmo depois que eu voltei de
Cuba, eu morei muitos anos fora do Brasil. Fui
para a Nicargua, como Brigadista de Solidariedade Nicargua. Voltei para o Brasil e recebi uma proposta de voltar para l e trabalhar
com o Centro de Educacin y Promocin Agrria. A trabalhei l por dois anos que foi quando
eu conheci o meu ex-marido. Depois fui para
a Alemanha, trabalhei, estudei, morei l, enfim, vrios anos. Voltei definitivamente para o
Brasil em 2006. Foi a quando eu finalmente
percebi que no tinha uma boa relao com
o Brasil. A eu consegui entender isso, percebi porque comecei sentir uma necessidade de
voltar para o Brasil.
Essa necessidade que eu senti de voltar para
o Brasil no porque eu consegui resolver todos os traumas do passado, porque eu acho
que jamais ningum de ns vai conseguir resolver completamente tudo o que aquela situao nos provocou, mas pelo menos voc entende Eu sou assim por conta de tal situao... a
minha vida ficou muito mal resolvida de tal a
tal poca, por isso... eu nunca consegui resolver
a minha vida naquela poca por tal situao.
Ou seja, todas as experincias ruins que preferimos esquecer por anos e anos refletem-se na
vida adulta, de alguma forma.
Eu acho que esse trabalho que est se fazendo hoje de nos ouvir, para mim especialmente,
est sendo fundamental. Porque a gente consegue falar pela primeira vez com o corao,
sobre isso... sobre aquela poca.
O meu av foi um homem muito especial. Ele
era um operrio e apesar de no entender direi-

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to o que acontecia, ele dava apoio incondicional


ao meu pai, ficamos muito tempo sem contato
com ele. No que precisamos dele, ele esteve presente. Cheguei a v-lo vivo depois que voltamos
de Cuba. Ele ainda estava vivo e ns tivemos a
felicidade de conviver um pouco com ele.
E como eu disse, foi uma pessoa muito
importante na minha vida, que sempre nos
apoiou muito. Inclusive, foram ele e uma prima minha que nos deram o maior apoio depois que ns voltamos de Cuba, porque ns
no tnhamos para onde ir, no tnhamos casa.
Voc volta sem casa, sem famlia, sem razes,
um horror. At hoje eu sinto a sensao e sem
dvida nenhuma Cuba para mim representa o
meu porto seguro. E eu me propus ir a Cuba
todos os anos, se der.
Eu estive l em novembro do ano passado e a
primeira coisa que fiz foi ir em frente ao prdio
que eu morava. Quando eu chego l assim:
grito o nome de um ou de outro e o pessoal
j sai dos apartamentos, vem, abraa, a gente
morre de rir e relembra os velhos tempos. O
mais impressionante para mim que mesmo
com os anos fora de Cuba, cada vez que a gente chega l como se tivesse continuado l.
Essa sensao muito boa.
Se hoje eu pudesse fazer a escolha, eu moraria em Cuba, sem dvida. Tenho grandes amigas l, amigos, e pessoas que so muito importantes para mim.
Eu tenho uma filha, a Janana, que est morando na Alemanha. Ela nasceu aqui mas cresceu l
e ficou difcil para ela voltar quando eu decidi
retornar. Agora moro em Braslia e minha me
em Campinas, no interior de So Paulo.
Acho que sem dvida nenhuma, um dos
pontos fundamentais que levaram volta do
meu pai ao Brasil foram as saudades que ele
sentia. H pouco tempo eu li um livro Seu Amigo Esteve Aqui A Histria do Desaparecido
Poltico Carlos Alberto Soares de Freitas, de
Cristina Chacel, em que um dos companheiros que esteve com ele na poca fala sobre
isso. Ele conheceu bastante o meu pai e disse
que duas coisas que fizeram meu pai retornar
ao pas foram: um era a saudade insuportvel
da famlia e a outra coisa era a necessidade de
continuar a luta. Eu jamais vou culpar o meu

pai por causa disso. Ele fez o que achou certo e


eu o respeito e admiro, mas logicamente se ele
tivesse ficado no exterior e tivesse trabalhado
um pouco mais este sentimento, talvez estivssemos juntos hoje.
Eu no acho que o Brasil seja um pas que
proporciona segurana para ningum. Eu nunca tive a sensao de acolhimento aqui. uma
coisa que eu tento entender at hoje, no conversei isso com o resto dos amigos, dos companheiros da minha gerao que voltamos do
exlio, mas tenho certeza de que cada um de
ns tem esta sensao. Apesar de ter voltado, todos ns tivemos uma dificuldade muito
grande de readaptao.

Eu no acho que
o Brasil seja um pas
que proporciona
segurana para
ningum. Eu nunca
tive a sensao de
acolhimento aqui.
uma coisa que eu
tento entender
at hoje

Primeira dificuldade que ns tivemos que


voc sabe da histria da colonizao da Amrica Latina pelos espanhis, aprende histria
no com Pedro lvares Cabral, mas com Cristvo Colombo. Aprende literatura, mas estuda Rodolfo Becker, Cervantes (literatura espanhola). Ns samos daqui daquela maneira
como crianas, fomos exilados, de forma involuntria e quando voc volta ao seu pas, o seu
prprio Estado, o Ministrio da Educao olha
para voc diz: No, o que voc estudou no
serve, ns no vamos reconhecer. Voc se sente novamente rejeitado, se sente novamente
no filho deste pas. Se voc se forma em Cuba,
reconhecer o diploma aqui uma dificuldade.
Uma coisa para mim foi crucial: a emoo
que eu sinto cada vez que eu volto para o Brasil. Comecei a entender de forma mais profunda porque Cuba para mim muito mais ptria
que o Brasil. O meu sentimento com relao a
Cuba cada vez que eu desembarco l e o meu
sentimento cada vez que eu desembarco no
Brasil so diferentes, emoes diferentes. Porque l eu fui acolhida, eu fui respeitada, aqui eu
nunca fui realmente acolhida.
Quero expressar a minha gratido aos companheiros que ficaram no Brasil e continuaram
a luta de resistncia contra a ditadura, presos ou
soltos e clandestinos, foram parte fundamental
para a redemocratizao do nosso pas.

SUELY COQUEIRO nasceu em Prado (BA), em 29 de


novembro de 1960. Atualmente mora e trabalha em
Braslia (DF).

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por Clia Coqueiro

Meu nome Clia Silva Coqueiro, sou filha de


Isaura Silva Coqueiro e Aderval Alves Coqueiro.
Meu pai era militante. Primeiro ele foi do Partido Comunista, fez um trabalho de base com os
metalrgicos do ABC, participou da Fundao
do Sindicato dos Metalrgicos e com o avano
do golpe ele acabou caindo na clandestinidade
e participando das organizaes armadas. Ento foi para a Ala Vermelha do PCdoB, e depois,
numa divergncia, fundou com o Devanir de
Carvalho o Movimento Revolucionrio Tiradentes (MRT), que foi a ltima organizao na
qual meu pai militou. Ele foi preso em maio de
1969, quando eu ainda no tinha 4 anos completos. Foi preso pelo delegado Srgio Paranhos
Fleury, levado ao DOPS/SP e torturado. Ficou
trs meses incomunicvel, sendo torturado, e
depois foi levado para o presdio Tiradentes,
onde ficou mais uns sete meses.
No total, ele ficou preso um ano e s saiu trocado pelo Embaixador alemo. O rapto do embaixador alemo ocorreu em junho de 1970, um
ano depois da priso de meu pai. O nome dele
foi um dos que foi solicitado entre quarenta
presos polticos trocados pelo embaixador. Banido, foi para a Arglia e de l para Cuba, fazer
treinamento de guerrilha porque a ideia dele
era retornar ao Brasil para continuar a luta.
Depois do treinamento em Cuba, ele retornou ao Brasil num esquema da VAR-Palmares,
que foi comandado pelo James Allen. Foi mor esquerda, Clia no Hotel Havana Libre
em Havana, Cuba, 1973

to fuzilado em 6 de fevereiro, seis dias depois


de sua entrada no Brasil, em 30 de janeiro. Na
verdade, o aparelho onde ele estava no Rio de
Janeiro foi entregue por um dos companheiros
com quem treinou em Cuba e que retornou antes ao Brasil. E, naquele momento, trabalhava
para a represso.
Quando eu nasci, em julho de 1965, meu pai
militava tanto no sindicalismo como na Ala Vermelha do PCdoB. Ele era muito ativo dentro das
atividades polticas e, portanto, muito visado
pelas foras de direita, pela polcia poltica. Lembro-me muito pouco disso porque era muito pequena. Minha irm, que cinco anos mais velha,
deve se lembrar de muito mais coisas do que eu.

As pessoas me perguntam
se me lembro do meu
pai e o que eu posso dizer
que me recordo de
uma visita que fiz a ele
quando foi preso
Acho que o nosso psicolgico muito estranho. s vezes apagamos coisas que no queremos lembrar e lembramos de coisas que queremos. As pessoas me perguntam muito se me
lembro do meu pai e o que eu posso dizer que
me recordo de uma visita que fiz a ele quando
foi preso. Eu fui ao presdio Tiradentes, onde
era proibido receber cigarros e o meu pai fumava muito.

Eu tinha s 3 anos e meio, mas me lembro de uma cena muito clara. Minha me me
conta que isso realmente aconteceu. Estvamos muito prximas do presdio, j quase
entrando. Minha me me vestia com aquelas
calcinhas cheias de renda e ela enfiou os
maos de cigarro na calcinha para poder dar
ao meu pai.
Tambm me recordo que, enquanto meu
pai estava preso, minha me tinha pontos
com os companheiros de organizao de meu
pai, como o Devanir. Ele pedia para a minha
me passar informaes para o meu pai. E,
numa determinada poca, ele passou um bilhete todo enroladinho. Minha me costurou
esse bilhete na barra da saia dela para poder
levar essa informao, que nem ela podia ler,
para o meu pai.
Eu no me recordo da fase em que meu pai
saiu banido, em junho de 1970, trocado pelo
Embaixador alemo. Mas minha me conta
que ns no fomos ao aeroporto. As notcias
saam no jornal, e meu pai escrevia muito
para ns da Arglia. Eu tenho todas as cartas, que anexei junto ao processo de Anistia
dele. Tem uma das cartas, inclusive, que ele
manda para os companheiros do presdio
Tiradentes. Eu as guardo com muito cuidado, j esto todas amarelinhas, se desfazendo.
Ele sentia muitas saudades, e as cartas eram
muito ntimas. Ele sabia que todas as cartas
seriam interceptadas, e por isso no falava
alm do que tinha que falar, de saudades da
famlia, das filhas.

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Num dos meus aniversrios ele me mandou um carto com um cachorrinho. Eu tive
um cachorrinho dado por ele e que se chamava Brinquedo, mas, sem querer, meu pai
acabou o matando atropelado. Tenho esse
carto at hoje. Tenho todas as coisas, como
uma caneta que ele fez para ns no Presdio
Tiradentes. So coisas que a gente guarda
com muito carinho. Na verdade, um tesouro familiar. Papai sabia que as cartas estavam sendo interceptadas. Ele mandou uma
para os companheiros do presdio Tiradentes, principalmente direcionada aos Carvalhos, com quem tnhamos uma relao
muito especial. ramos como uma famlia,
da mesma organizao poltica e tnhamos
um vnculo muito forte de amizade. Meu pai
mandou cartas para minha me mesmo sabendo que seriam interceptadas. Ele enviava as cartas de Cuba para Arglia e de l um
companheiro mandava com endereo da
Arglia para a minha me. Ento ela achava que ele, de fato, estava na Arglia. Ns
nunca imaginamos que eles estivessem
em Cuba treinando. Ele ficou pouco tempo
na Arglia. Foi para l em julho e no final
do mesmo ms, comeo de agosto, j tem
registro dele em Cuba, visitando a Damaris,
a tia Tercina. Ele ficou uns trs, quatro meses
em treinamento em Cuba. Foi um treinamento
meio relmpago e ento ele pediu para o James
fazer um esquema de retorno ao Brasil.
Recebamos essas cartas e realmente achvamos que meu pai estava na Arglia, at porque
dizia que estava preparando a nossa ida para
l: Sinto muitas saudades, mas estou me estabilizando para poder traz-los, uma vez que estou banido. Ele sabia que a represso lia essas
cartas e as escrevia de propsito.
Minha me recebia cartas do meu pai semanalmente e por isso estranhou quando ficou
quinze, vinte dias sem notcias, nem carta, nem
carto. Ela pensou que talvez ele estivesse viajando pelo interior da Arglia. E, ento, ficou
sabendo da morte dele por uma vizinha, que viu
no noticirio, e foi at a casa da minha me e
disse Isaura, o seu marido Aderval Alves Coqueiro? Acabaram de matar ele no Rio de Janeiro, num tiroteio. O Vitor Papa Andreu, que foi a
pessoa que entregou ele, sabia desse esquema.
Inclusive o prprio companheiro de organizao, o Devanir que tambm estava clandesti-

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dele. Voc a esposa dele. E minha me fez


exatamente isso. Lembro-me que foi uma
Kombi que nos levou at a rodoviria para
embarcarmos para o Rio de Janeiro. A nica
coisa que eu me recordo desse dia a minha
me chorando. Quando a vizinha foi avis-la, ela abaixou a cabea e eu deitei no colo
dela para ver porque ela chorava. Eu no
sabia que o meu pai estava morto, a minha
me no falou.

Postal enviado por Aderval para Clia

Uma vizinha foi at


a casa da minha me
e disse Isaura, o seu
marido Aderval Alves
Coqueiro? Acabaram
de matar ele no Rio de
Janeiro, num tiroteio
no aqui no Brasil, no sabia que meu pai estava
retornando. A Pedrina, viva do Devanir, conta
que quando ele soube a notcia no aparelho e
ele levou um susto to grande quanto a minha
me. Ele ficou enlouquecido quando viu a notcia no jornal. Ele jogou o jornal em cima da
mesinha de centro e comeou a chorar. Essa foi
a reao que ele teve.
E a minha me leva um susto tal que a primeira reao dela foi ligar para a Dra. Nina,
advogada que dava apoio Ala Vermelha,
MRT. Ela falou Isaura, pegue as meninas, o
seu sogro, v ao Rio de Janeiro e pea o corpo

Minha me uma pessoa muito forte, raramente chora. Ento eu acho que essa minha reao de deitar no colo dela e olhar
porque eu queria ter certeza que ela estava
chorando. S fiquei sabendo da morte quando chegamos no Rio. Foi uma viagem muito
longa, ns fomos de nibus, chegamos de
madrugada. Logo cedo fomos procurar pelo
corpo do meu pai. Era semana de Carnaval,
dia seis, sete de fevereiro e me lembro que
chegamos e tivemos de retornar para So
Paulo sem ver meu pai. Chegando l, minha me falou: Mataram o pai de vocs. Ele
voltou [para o Brasil] e fuzilaram ele e ns
estamos aqui para poder enterr-lo. No Rio,
disseram para minha me e para o meu av,
pai do meu pai, que no poderiam entregar o
corpo, porque era Carnaval, feriado e eles estavam fechados.
Primeiro minha me foi ao DOPS, onde falaram: Ns no sabemos, ele deve estar ali
no IML em frente. Ela foi ao IML e l disseram que no iriam atender. E quando vocs
podem atender?, minha me perguntou. Ns
podemos atender quando passar o Carnaval,
disseram. Retornamos a So Paulo, esperamos
passar trs, quatro dias e voltamos ao Rio no
primeiro dia til com o meu av. L, falaram
que era melhor o meu av entrar para reconhecer o corpo, porque a minha me estava
muito mal e o corpo estava muito machucado.
Meu av entrou. Acho que ele ficou com essa
impresso na cabea dele at os ltimos dias
de sua vida porque sempre que me via, falava:
Minha filha, quando puxaram a gaveta onde
seu pai estava, tinha sangue embaixo, o sangue estava coalhado. Porque passaram muitos
dias e o corpo dele parecia uma renda.
Meu av comparava o corpo do meu pai
como uma renda. Foram mobilizados cinquenta homens para peg-lo. Foi uma operao to
gigantesca, to absurda para pegar um homem.

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E eles abriram fogo mesmo, como os vizinhos


contam. Ano passado fui visitar o aparelho
onde meu pai estava, e a companheira que levava alimentao no aparelho, contou que procurou os vizinhos, que contaram que ele tentou fugir, pulou o muro, correu e quando estava
subindo, escalando o muro, que era muito alto,
abriram um fogo assim sem tamanho e o fuzilaram. Ento ele estava muito furado mesmo.
Imagino que foi por isso que o meu av ficou
com essa impresso. Ele ficou falando isso at
os ltimos dias de vida. Toda vez que ia visit-lo no aniversrio ou no Natal ele falava isso.
Morreu h cinco anos. Meu pai era o filho caula. Eram duas meninas e um menino e ns,
nem o meu av, nem minha me, nunca mais
fomos os mesmos depois desse fato.
Eu me lembro do meu pai no caixo e da minha me se debruando, se jogando em cima e
passando a mo na testa dele, onde havia um
hematoma muito grande. No sei se bateram
nele depois dos tiros ou se o machucado foi
porque ele caiu. Inclusive o meu av disse que o
corpo tambm estava muito machucado, tanto
que a gente tinha dvidas se no tinham levado ele vivo e o torturado. Depois que ficamos
sabendo que no, realmente ele morreu na hora.
Lembro-me dela se debruando em cima do caixo e me lembro muito claramente da cor dele,
que era violeta escura.
E a ns o enterramos, eu me lembro da
caminhada dentro do cemitrio, o caixo na
frente. Retornamos naquela situao terrvel.
Tambm havia um monitoramento em cima
da casa do meu av. Ns morvamos com ele
em Diadema e ele foi levado, inclusive, porque
achavam que a minha me e o meu av sabiam
do retorno do meu pai. Quando levaram o meu
av para interrogatrio, os companheiros comearam a ficar com medo de tambm levarem a minha me, que estava em frangalhos.
Todos estvamos, mas ela nunca se recuperou, nunca conseguiu recompor a vida
amorosa, nunca mais se casou. Ela ficou com
um trauma muito violento. Guardou por muitos anos uma camisa do meu pai, a ltima
camisa. Ela devia ter essa camisa guardada
at pouco tempo. Temos tambm todos os
documentos do meu pai (carteira de reservista, identidade, carteira de trabalho) at hoje
guardados. Meu pai quando caiu na clandestinidade entregou para a minha me e disse

ela: Isaura, esses documentos no me servem


para mais nada, guarde que para voc talvez
algum dia sirvam.
Ento os companheiros acharam melhor comear a fazer a articulao da nossa sada para
fora do Brasil. O vivel seria o Chile, onde estava o Salvador Allende. O pessoal que corria
perigo aqui no Brasil acabava indo para l, que
era um governo democrtico, muito aberto e tal.
Acabamos indo para l. Meu pai foi morto em
fevereiro de 1971 e ns samos s em novembro
desse mesmo ano, porque a minha me tinha
muita resistncia a sair do Brasil, ela no queria. Na verdade, ela queria ficar com o meu av,
mas os companheiros acharam que era melhor
assim por uma questo de segurana. E fizeram muito bem, afinal depois ficamos sabendo
que muitas vivas acabaram sendo presas e
at torturadas. E tudo porque achavam, embora no soubessem, que as esposas sabiam coisas. Tanto que a minha me conta que quando
o meu pai foi preso, que ela ia ao DOPS pedir
informaes e falavam que ele no estava l. E
eles perguntavam para a minha me Mas voc
sabia das aes do seu marido? No sabia de
nada, ela dizia. A eles chegaram a falar assim:
Ela no sabe de nada agora, mas na hora que
ela cair aqui dentro, fala tudo.

Eu perdi o meu pai,


mas acho que no foi
em vo ele ter lutado
tanto. O preo foi alto,
mas ns ganhamos a
guerra moral.
Perdemos a guerra
blica; mas ganhamos
a guerra moral
Ento existia essa ameaa em cima das esposas dos militantes, at dos prprios filhos. Ficvamos muito vulnerveis, porque no sabamos o que podia acontecer conosco, existia um
medo muito grande. Eu s consegui me sentir
totalmente segura quando cheguei em Cuba.
Nem no Chile me sentia totalmente segura.
Sentia-me to insegura nessa situao de ter
que correr, porque a minha vida foi essa: nasci,

logo depois o meu pai corria de aparelho para


aparelho, porque estava clandestino e a polcia
podia chegar a qualquer momento, toda vez
que caa um companheiro preso, que sabia a
localizao do aparelho, a gente saa correndo,
largava tudo, tinha que procurar outro espao.
A sensao de insegurana me acompanhou
por muitos anos, inclusive no Chile, que era
um lugar em que estava o Salvador Allende, e
a gente podia se sentir segura. Mas s fui me
sentir segura quando cheguei em Cuba, em
1973, por sorte cinco meses antes do golpe do
Pinochet, e foram os cubanos, inclusive, que
providenciaram nossa ida para l.
Meu pai morreu muito cedo, com 33 anos,
mas devo dizer que ele foi muito afortunado,
porque teve os melhores amigos e companheiros que um homem poderia ter. Ns fomos
muito, muito amparados pelos companheiros,
foram a minha famlia. Eu digo que cresci no
exlio, cresci em Cuba e as minhas tias so a
minha famlia da Revoluo, dos companheiros que foram presos com o meu pai, que foram torturados e que lutaram pela mesma causa, uma causa justa. Porque meu pai no era
terrorrista, s queria a justia social, acabar
com a explorao, queria que todos pudessem
ter uma vida digna, que, diga-se de passagem,
naquela poca os operrios no tinham a vida
que tm hoje, porque de l para c j tivemos
muitas conquistas.
Eu perdi o meu pai, mas acho que no foi
em vo ele ter lutado tanto. O preo foi alto,
mas ns ganhamos a guerra moral. Perdemos
a guerra blica; mas ganhamos a guerra moral.
Estamos aqui denunciando os assassinos, facnoras, torturadores, que no respeitaram nem
crianas, porque at as crianas dos companheiros eram presas.
Falamos da famlia da Revoluo porque
crescemos juntos, foi essa famlia que eu conheci. S fui conhecer a minha famlia de sangue com 14 anos, depois da Anistia. Eu no tenho vnculo muito forte com a minha prpria
famlia de sangue porque a ditadura me tirou
isso. Claro que tenho o outro lado, a riqueza
dos companheiros, como eu falei, o meu pai foi
afortunadssimo, porque teve companheiros
que arriscaram as suas vidas para nos tirar dos
aparelhos, quando o meu pai foi preso, como
foi o caso do Roberto, do James Alley, que nos
tirou do aparelho. E temos os companheiros

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que articularam a nossa sada do Brasil, os que


nos receberam no Chile como o Rafael de Falco Neto, figura fantstica. Ele at aconselhou a
minha me, que queria voltar do Chile para o
Brasil: No, Isaura, v para Cuba, l as meninas
vo poder estudar, vocs vo ter tranquilidade.
Um ano, um ano e meio depois da morte do
meu pai a minha me ainda estava totalmente
desnorteada e ficou por muitos anos assim. Estou falando o nome de alguns companheiros,
mas evidentemente temos inmeros, inclusive
os companheiros cubanos, que nos receberam
com tanto amor e nos deram tudo.
Em agosto de 1979, retornei ao Brasil com a
Anistia. Foi incrvel, porque voltamos nos dia
em que foi decretada a Anistia. O advogado
Idibal Pivetta foi a Cuba justamente para poder formatar, estruturar o nosso retorno para
o Brasil, porque como ns no tnhamos nem
passaporte, precisvamos retornar com o salvo conduto da ONU. A Anistia estava para sair
e o Idibal sabia disso. Ele alertou a minha me,
mas ela no queria esperar, No, eu quero retornar, j retornaram outros companheiros,
faltavam cinco meses para a Anistia e a minha
me falou No, pode fazer o meu retorno e a
o Idibal comeou a trabalhar nisso.
Quando samos de Cuba, ficamos uma semana no Peru aguardando o salvo conduto da
ONU, as passagens e tudo. E a chegaram as
passagens e, no dia que amos embarcar, fomos ao centro de Lima, porque a minha me
queria fazer umas compras. E quando retornamos, escutamos no rdio do txi: No Brasil
acabou de ser decretada a Anistia ampla. Ou
seja, ns embarcamos meia-noite, chegamos
cinco, seis horas da manh e fomos os primeiros a pisar no solo brasileiro, j com a Anistia
decretada. E o meu pai foi o primeiro banido
a retornar morto.
A fomos reestruturar toda a nossa vida no
Brasil, que no foi fcil. No meu caso, conhecer
a famlia de sangue, que eu no conhecia, porque sa muito pequena do Brasil. A famlia que
conhecia era a dos companheiros de luta dos
meus pais. Tivemos infncia perdida e meia juventude perdida tambm, porque a gente leva
sequelas, que no so poucas, so muitas.
Voltei de Cuba com 14 anos. J estava terminando o ginsio, cheguei aqui e fui concluir o

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ginsio no Colgio Equipe. Depois continuei


fazendo colegial, fui prestar vestibular, fui
aprender o portugus, porque falava portugus com a minha me em casa, mas no sabia escrever, no tinha gramtica. Fui alfabetizada em espanhol. Ento, a minha primeira
lngua pode-se dizer que foi o espanhol. Dessa
forma, cheguei no Brasil e fui aprender a escrever o portugus, eu fui aprender geografia,
histria brasileira. At ento eu sabia a histria, geografia de Cuba, os heris cubanos,
Antonio Maceo, Jos Marti, mas no sabia
quem era Tiradentes. Ento, com 14 anos comecei a aprender o que era o meu pas. Nos foi
tirada muita coisa, sim.

A ditadura nos
tirou a infncia,
nos tirou metade
da juventude, nos
deixou com sequelas.
Nos tirou nossos
pais guerreiros,
militantes, tios
A ditadura nos tirou a infncia, nos tirou metade da juventude, nos deixou com sequelas.
Nos tirou nossos pais guerreiros, militantes,
tios. Paradoxalmente, nos deu uma bagagem
de vida, que poucos tm, porque ns, hoje,
temos maturidade. Ns, essas crianas, acabamos amadurecendo fora, a ferro e fogo.
Com 13 anos, eu lia A Revoluo dos Bichos e
1984. Porque o povo cubano muito culto. Eles
podem no ser ricos financeiramente, mas
um povo muito culto, porque se promove muito a leitura, o debate. At nisso na escola, na
volta ao Brasil, eu era muito mais madura que
as minhas colegas. Foi muito difcil entender a
linguagem, por exemplo, porque enquanto eu
falava de militncia poltica, elas falavam de
outras coisas que para mim eram totalmente
alheias ao meu conhecimento.
Isso o que me lembro da minha infncia.
Foi uma infncia dolorida. Tivemos uma perda
grande. No s a do meu pai mas a de outros
companheiros. Eu cresci escutando histrias
de companheiros que foram mortos, tortura-

dos (o meu pai, inclusive, porque as marcas das


torturas eram evidentes quando amos visit-lo na priso). Mas nunca se acostuma a escutar. Sempre que escutamos um novo relato
muito dodo, di demais. E uma sequela que
se leva, mas tambm levamos essa experincia, essa bagagem toda.
Postei a foto do meu pai uma vez, tirada
no Presdio Tiradentes, e o Gregrio, filho do
Virglio, que cresceu com a gente em Cuba,
perguntou para mim O que voc diria para
esse jovem, porque hoje voc mais velha do
que ele?. Porque meu pai era jovem, tinha 30
anos quando foi preso. Eu respondi: Faria
exatamente igual a ele, nem um milmetro
diferente, nada. Acho que ele foi um grande
guerreiro. Eu o perdi, mas tenho certeza que
at o momento do ltimo suspiro ele no se
arrependeu, porque estava lutando por aquilo que acreditava. Ele me deixou esse legado
Lute toda a sua vida por aquilo que voc acredita, por aquilo que voc acha justo. Mesmo
que isso signifique a sua morte, nunca deixe
de fazer isso. a entrega total de um ser humano para uma causa, isso no tem preo.
um orgulho total dele e dos companheiros
dele. Faria tudo igual a ele, acho que ele fez
tudo certinho.
CLIA SILVA COQUEIRO nasceu em 25 de Julho de 1965
em So Bernardo do Campo (SP). Filha de Aderval Coqueiro e Isaura Silva Coqueiro, comeou a estudar ballet clssico em Cuba e continuou no Brasil. Trabalhou
na ASTC (Asociacin Sandinista de Trabajadores de La
Cultura) em Mangua/Nicargua durante o processo da
Revoluo Sandinista (1987 a 1990). Trabalhou no Brasil
implantando projetos de formao de tcnicos na rea
cultural focado na dana para crianas carentes no Paran e em So Paulo. Hoje faz faculdade de Gesto de Polticas Pblicas e trabalha no Poder Pblico de So Paulo.

direita, Clia se prepara para


apresentao de ballet clssico

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Aderval Alves Coqueiro nasceu em 18 de julho


de 1937, em Aracatu (BA). Filho de Jos Augusto Coqueiro
e Jovelina Alves Coqueiro. Morto em 6 de fevereiro de 1971,
no Rio de Janeiro. Militante do Movimento Revoluvionrio Tiradentes (MRT). Casado com Isaura Silva Coqueiro,
com quem teve duas filhas, Suely e Clia.
Como candango, participou da construo de Braslia
(DF). Desde 1961, passou a viver em So Paulo, onde trabalhava como operrio da construo civil. Iniciou cedo
sua militncia no Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Desligou-se desse partido e passou a integrar o Comit
Regional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), centrando suas atividades na zona rural. Posteriormente, ingressou na Ala Vermelha, uma dissidncia do PCdoB. Passou a viver em So Bernardo e Diadema, na grande So
Paulo, quando trabalhou como operador de mquinas e
vendedor autnomo.
Preso em 29 de maio de 1969, na 2 Companhia da Polcia do Exrcito (PE), em So Paulo, foi transferido para
o DOPS/SP e torturado pelo delegado Srgio Paranhos
Fleury. Finalmente, permaneceu encarcerado no Presdio
Tiradentes. Em junho de 1970, foi banido do territrio brasileiro, por ocasio do sequestro do embaixador da Alemanha no Brasil, Ehrenfried von Holleben, ocorrido em 11
de junho de 1970, dirigindo-se para a Arglia com outros
39 presos polticos. Deslocou-se para Cuba, onde realizou
treinamento de guerrilha, e retornou ao Brasil como integrante do MRT.
Coqueiro foi o primeiro banido a retornar ao pas. Regressou ao Brasil em 31 de janeiro de 1971, indo morar em um
apartamento no bairro Cosme Velho, Rio de Janeiro, onde
foi localizado e morto em 6 de fevereiro de 1971.

Famlia Coqueiro
1. Foto em famlia, Aderval
em p com a mo no ombro
de Isaura
2. Suely em Braslia (DF), 1961
3. Clia em Braslia (DF), 1961
4.Coqueiro tocando violo com
amigos, em Braslia (DF), 1963
1

Segundo testemunhas, uma grande rea do bairro foi cercada pelos agentes policiais com o objetivo de evitar sua
fuga. Assim que os policiais do DOI-CODI/RJ invadiram o
apartamento, comearam a atirar. Coqueiro foi abatido
pelas costas no ptio interno do prdio.

Isaura Silva Coqueiro

nasceu em Almenara,
pequena cidade de Minas Gerais, em 21 de abril de 1941.
Filha de Jos Amrico Alves da Silva e Amlia Alves da Silva. Ainda pequena mudou-se para o sul da Bahia com a
famlia, onde conheceu e casou-se com Aderval Alves Coqueiro, sendo a cerimnia religiosa realizada quando ela
tinha 17 anos. No final de 1960 nasceu a primeira filha do
casal, Suely. Mudaram-se para Braslia em 1961, cidade na
qual se realizou a cerimnia civil de casamento em 17 de
julho de 1962.
Em 1963 a famlia decidiu se mudar para So Paulo em
busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1965,
em So Bernardo, regio metropolitana paulista, nasceu
a segunda filha, Clia.

Quando Aderval foi preso, em 1969, e banido do pas na


troca do embaixador alemo em 1970, Isaura permaneceu
no Brasil com as filhas.
Saram do Brasil somente um ano aps o assassinato de
seu marido, em 1971. Permaneceram durante um ano no
Chile e, aps o golpe militar chileno, mudaram-se para
Cuba. L ficaram por 7 anos, retornando ao Brasil aps a
da Lei da Anistia em 1979.

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5. Em Diadema, onde
Aderval fundou a
primeira Sociedade
de Amigos de Vila
Nogueira

6 e 7. Fotos de Aderval
Coqueiro tiradas no
DOPS, pouco antes do
banimento

Os documentos
8. Documentos de Aderval entregues
Isaura antes de entrar na clandestinidade: Isaura, esses documentos no
me servem para mais nada, guarde que
para voc talvez algum dia sirvam
9. Fichas de Aderval do DOPS

A manchete
10. Manchete de jornal onde a famlia tomou
conhecimento da volta cladestina de Aderval ao
Brasil e sua morte imediata documento encontrado
em pronturio do DOPS, no Arquivo do Estado
de So Paulo
10

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(Transcrio da carta direita)


Argel, 14 de julho de 1970.
Querida Isaura
Beijos com muito amor para voc, Suely e Clia.
com muitas saudades que passo a escrever-te
esta cartinha, para dar-te minhas notcias e ao
mesmo tempo desejando obter as tuas. Ns
estamos bem de sade.
O tratamento aqui timo, o povo cem por
cento, mas temos o problema de no falar
a mesma lngua, mas j comeamos a nos
adaptar, o que mais prejudica a saudade,
tenho saudades de tudo, tenho saudades at
das visitas, daqueles papos que ns batamos,
no consigo esquecer um minuto de ti, das
meninas, de pai e dona Amlia. Lembro tambm
e sinto saudades dos companheiros que ficaram
presos, enfim sinto saudades de tudo, s no
sinto saudades desta maldita priso, lgico,
no posso sentir saudades de um ambiente to
horrvel, porque gosto muito da liberdade no s
para mim, mas para todos, todo ser humano tem
direito liberdade e tem o direito de ser feliz.
D lembranas a todos os parentes e amigos,
abraos para o velho e dona Amlia, sempre com
esperana, despeo, beijos na Clia e Suely por
mim, e mais beijos de quem tanto te ama.
Aderval

(Transcrio da carta esquerda)


Argel, 16 de julho de 1970.
Prezados companheiros do Presdio Tiradentes, Daniel Jos de Carvalho e mais todos,
Desejo que ao receber esta, estejam todos bem de sade, pois isto para mim motivo
de satisfao. Penso que a situao para vocs deve ter piorado, depois dos ltimos
acontecimentos, mas mantenham calmos, com calma e coragem tudo se vence.
Companheiros, a nossa viagem foi boa, um pouco cansativa devido distncia, muitas
horas de viagem, mas aqui as coisas so diferentes, j estamos todos recuperados quem
estava rebentado foi submetido a tratamento, tambm esto bons. Agora depois das
festas da alegria e da emoo, vem a saudade, a preocupao com a situao de vocs e
de nossas famlias, ainda no recebi cartas de casa, j enviei duas cartas e um telegrama,
tudo isto deixa a gente preocupado, mas espero que tudo seja resolvido. Podem estar
certos de que no esqueo vocs, sofremos juntos um bom tempo e isto deixa na gente
um apego aos companheiros. Envio abraos a todos vocs, um abrao a Pereira, Beto,
Takao, Manoel Cirilo, Fernando, Marujo e mais todos sem exceo. A Joel, Jairo, Ancelmo
e voc. Aquele abrao de um companheiro que podem estar certos no esquece vocs.
Aderval Alves Coqueiro
Um abrao aos dois Srgios, Takaoka, Alpio,
Roque, enfim a todos.

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A vida em Cuba...
1. Clia com Domingos Leon, combatente venezuelano
e amigo da famlia
2. Suely aos 12 anos (fazendo 3 com os dedos), Isaura,
Isabel, filha de Virglio e Ilda Gomes com 3 anos, e Clia
com 7 anos no Hotel Havana Libre onde viveram
ao chegar em Havana, Cuba, 1973
3. Na sequncia, Suely e Isabel, 1973

4. Isaura no prdio onde moravam


em Havana, Cuba, 1973
5. Clia com a Maria Antonia, filha de
Antonio Benetazzo, falecida de choque
anafiltico aos 3 anos e meio, em
Havana, Cuba
6. Festa de 15 anos de Suely e dos
gmeos Denise e Ailton Lucena, em
Havana, Cuba, 1975
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Minhas filhas
por Isaura Coqueiro

O impacto da ditadura na vida das minhas filhas foi muito grande, muito difcil. Vivamos
clandestinos, mudando de um lugar para outro,
nunca parvamos. Foi difcil para a mais velha,
Suely, comear na escola. Ela foi estudar mesmo
s depois que o pai foi preso porque naquele tempo no podia usar o sobrenome dele na escola,
porque ele estava sendo procurado. A outra, Clia, era menor, mas mesmo assim sofreu porque
essas mudanas impactavam nosso sistema nervoso. O marido sendo procurado, a qualquer hora
podia ser preso, como foi mesmo. E gente no
sabia se ele estava vivo ou morto.
Embora minhas filhas no reclamassem, a gente
sentia que no era fcil, ir de um lugar para outro,
elas no tinham liberdade para brincar com outras crianas. Quando a gente alugava uma casa,
aparelho, elas no podiam fazer amizade com os
vizinhos, visitar os vizinhos nem receber visita.
Era assim em So Paulo e no Mato Grosso. Porque
fomos para o Mato Grosso por um ano, antes de
ele ser preso. Meu marido ficava em So Paulo e
nos mandou primeiro para a Bahia e depois para
o Mato Grosso. E ia nos ver a cada trs meses. Depois, na poca que ele estava muito procurado em
So Paulo, fomos de novo para o Mato Grosso. Ficamos l os meses de fevereiro, maro e abril de
1969. No dia 29 de maio de 1969 ele foi preso.
Eu no sabia se ele estava vivo ou morto, s
sabia que tinha tido um tiroteio. Comprei um jornal, onde no se dizia se ele estava vivo ou morto. Depois de muito tempo que eu fiquei sabendo
que ele estava preso, que o pai dele j estava fazendo visitas.

Isaura e Suely em Braslia (DF), 1963

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ficaram numa espcie de priso

Voltamos para So Paulo. Fomos morar clandestinos e as meninas no podiam nem estudar nem
brincar com os vizinhos. E elas se ressentiam de
no poder brincar com as meninas da vizinha.
Durante a clandestinidade elas ficaram numa
espcie de priso. No era em todo lugar que eu
podia lev-las para passear. Isso afetava a gente e
afetava as crianas tambm. Sobre o pai estar distante, eu explicava para as meninas que ele estava
trabalhando. Eu dizia o pai foi para So Paulo.
A Suely comeou a estudar com 8, 9 anos; quando o pai foi preso eu matriculei ela na escola. Meu
marido ficou preso por um ano. Eu levava elas para
visitar o pai na priso. A mais velha ia a cada quinze dias por conta da escola, para no faltar na aula
todas as vezes que amos visit-lo. A pequena eu
levava toda vez que ia, s quartas-feiras.
Elas se ressentiam muito de o pai estar preso.
No podamos falar o motivo da priso, tinha que
inventar uma desculpa, no podia mentir nem
falar a verdade. Quando ns chegamos do Mato
Grosso, j fazia trs meses que ele estava preso. Eu
vi fotos dele no jornal com a cara toda inchada.
Quando algum caa, volta e meia ele ia para
a tortura. Mas quando nos encontramos, senti
ele muito abatido, muito magro, estava com uma
costela quebrada, com problema no ouvido.
Ele ficou um ano na cadeia e quando foi para
a Arglia, banido, conversvamos por cartas.
Quando fez oito meses que ele estava fora do
Brasil, ele entrou clandestino no pas. Eu no sabia que ele estava vindo.
Foi quando foi morto. Fiquei sabendo que ele
estava no Brasil na hora da notcia da morte dele,
no Rio. A gente nem sabia, ele ainda no tinha

entrado em contato comigo ainda, ele estava no


Rio e eu em So Paulo.
Tivemos que ir para o Rio. Levei as crianas,
que viram o pai morto no caixo. A Clia, que tinha 4 anos, fala: Eu no lembro muito do meu
pai, no lembro muito da cadeia. A lembrana
maior que eu tenho dele no caixo.
Foi muito difcil para mim, para as meninas, para
o meu sogro. Foi um susto muito grande, a gente
no esperava que ele estivesse no Brasil e de repente vimos na tev que tinha sido assassinado.
Foi a vizinha que viu a notcia com o nome do meu
marido envolvido e foi em casa me chamar.
Como podiam ficar perseguindo a mim e s
meninas, ns fomos embora do Brasil. Fomos
para o Chile, onde moramos um ano e pouco.
Depois decidimos ir para Cuba, que era o nico
lugar onde eu sabia que estaramos seguros, que
as meninas poderiam estudar e ter tudo que o
governo cubano dava. Mandaram um convite de
Cuba e eu fui com elas. Moramos sete anos l e
um ano e pouco no Chile. Foram, no total, oito
anos fora do Brasil. Quando voltamos, a Clia estava com 14 anos.
J tnhamos muitos amigos que estavam em
Cuba, os Carvalho, a Dina, viva do Devanir, os
filhos da Dina. No comeo, as meninas sentiram,
mas logo aprenderam o idioma, sentiram intimidade com o espanhol, eu que demorei a aprender.
L elas brincavam com as meninas da vizinha.
Tinha aquela saudade da famlia e tal. Para mim
foi difcil. Fui mais por causa delas, mas sinceramente, eu senti muito.

o povo cubano muito solidrio, muito alegre.


L era tranquilo, as meninas puderam estudar, a
gente tinha tudo, os cubanos davam tudo, casa,
moradia, escola das meninas. Foi a poca que ficamos mais tranquilas.
Eu no fui presa, mas no podia voltar para o
Brasil, porque tinha a morte do meu marido e podia ser presa.
A chegou a poca da Anistia e foi quando voltei ao Brasil. Fui a segunda pessoa a voltar, primeiro veio uma amiga nossa, e depois ns. Chegamos no dia da Anistia. Tinha um advogado, o
Idibal Pivetta, aqui no Brasil que esteve em Cuba.
Conversamos com ele, que ficou preparado para
receber pessoas que estavam voltando do exterior, de Cuba. Ele nos recebeu, nos esperou no
aeroporto.
Quando cheguei, houve uma pequena investigao no aeroporto. Me perguntavam o motivo de eu ter ido Cuba, aquelas provocaes.
Falei que tinha sido muito bem tratada em Cuba.
E quando sa, a minha famlia estava no aeroporto nos esperando. Na chegada, a gente leva um
impacto, principalmente as meninas que ficaram
fora do pas por tantos anos. Elas sentiam muita
falta de Cuba e depois, com o tempo, foram se
adaptando.
De tudo que as meninas passaram, a priso do
pai marcou muito. Mas a morte foi o que mais
marcou, para mim tambm. Fiquei sabendo
como ele entrou no Brasil agora quarenta anos
depois. Eu nem sabia como ele tinha entrado,
qual era organizao que ele estava, como ele
tinha morrido.

Em Cuba a sim me senti segura, com as meninas seguras. O clima de l igual ao da Bahia,

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Adotados pela Revoluo Cubana


por Virglio Gomes da Silva Filho

Eu sou Virglio Gomes da Silva Filho, filho


de Virglio Gomes da Silva. H minutos atrs
um companheiro me perguntava se notamos
que tnhamos ficado com alguma sequela por
conta do que aconteceu conosco. Eu falo que
no. Porm, sempre que tocamos nesse tema
eu no consigo falar. Mas vou falar. O que sempre me vem memria a nossa relao familiar. Assim como a vida de qualquer famlia da
classe operria naquela poca, ns tnhamos
poucas coisas, mas ramos felizes. O convvio
era bom e alegre. Foi assim at que comecei
a perceber que o meu pai no estava to presente. Muitas vezes ele tinha que se ausentar e
hoje sabemos o porqu. A luta dele exigia isso
para a segurana da famlia.

Fomos retirados s pressas da casa e levados


para o carro da polcia. Quando passei por um
dos carros, vi uma outra imagem muito forte
que ficou gravada na minha memria. Foi de
uma pessoa que eu no reconheci, que estava
sentada no banco de trs do carro, todo amordaado, ensanguentado. Estava sem camisa, com
uma faixa no peito, olho todo roxo. Depois eu
vim saber que esse era o meu tio Francisco Gomes da Silva, o Chiquinho, irmo do meu pai.
Isso me marcou muito. Acho que me marcou
tanto porque eu percebi que a brutalidade que
eles cometeram entrando em casa iria resultar
no que eu estava vendo dentro do carro. O que
fizeram l dentro com o Manoel Cyrillo ia se tornar aquilo que eu estava vendo dentro do carro.

Na poca, eu tinha 6 anos de idade j completados. Estvamos em So Sebastio num dia


chuvoso, ansiosos para ir praia, mas a chuva
no nos deixava. Na esperana de que o sol aparecesse, eu e meu irmo [Vlademir] estvamos
sentados na varanda da casa quando vimos se
aproximar uma comitiva de trs ou quatro carros pretos. Eles desciam na frente de uma casa,
todos entravam e saam, entravam no carro de
novo, voltavam, andavam mais, desciam em outra casa e assim iam fazendo batidas em cada
casa. Isso at chegar na frente da nossa, onde
entraram. Alguns pela janela, outro pelos fundos, outro pela frente. Foram empurrando tudo.
Estavam todos armados com metralhadoras, revlveres. O que eu mais lembro na poca, o que
mais me marcou foi o jeito que eles entraram
e pegaram o Manoel Cyrillo. Jogaram-no no
cho, comearam a dar chutes nele. Eram cinco
ou seis em cima do Cyrillo e o resto tudo bagunando a casa. Aquilo era um caos na minha
cabea. No sabia o que estava acontecendo. Estvamos minha me, o Vlademir, a Isabel e eu.
No sei o quanto de tempo isso durou.

Eles no se dirigiam
tanto a mim, mas ao meu
irmo, perguntando onde
estavam as armas, onde
estava o meu pai, quem
eram os companheiros
do meu pai, quem visitava
a minha casa

esquerda, Virglio Filho, na casa


dos tios, durante a priso de sua
me, em So Paulo, 1969

Estava chovendo na estrada e a forma imprudente como dirigiam ocasionou um acidente.


O carro rodopiou e capotou. Minha me estava
com a Isabel nos braos e a preocupao com
ela era to grande que minha me se esqueceu
de se proteger. Ao final, ela acabou desmaiando. Isso nos apavorou ainda mais, ver a minha
me desacordada com a Isa nos braos e ns
no sabamos o que fazer.
A me lembro de ns j na Operao Bandeirante. Estvamos sentados numa sala pequena,
eu e o meu irmo Vlademir. Nesse momento, a
Isabel j no estava mais conosco. E uma mulher insistia muito em perguntar onde estava

meu pai. Eles no se dirigiam tanto a mim, mas


ao meu irmo, perguntando onde estavam as
armas, onde estava o meu pai, quem eram os
companheiros do meu pai, quem visitava a minha casa. E obviamente no tnhamos respostas para essas perguntas. totalmente absurdo
pessoas que se diziam profissionais da lei interrogar crianas sobre uma coisa para as quais
elas sabiam que no tnhamos resposta. No sei
qual era o objetivo deles fazendo tais perguntas
em tom de interrogatrio, de intimidao.
Eu tinha 6 anos, o Vlademir 7 e pouco, o Gregrio tinha 2 e a Isabel quatro meses. O curioso que nessa data em que fomos sequestrados pela polcia, o meu pai j tinha sido preso e
provavelmente j estava at sendo morto. Mas
eles continuavam perguntando pelo Virglio.
No d para entender. Acho que era um negcio mrbido, doentio. Eu imagino que quando
prenderam o Virglio automaticamente todo
mundo ficou sabendo do trofu que eles tinham conseguido, mas ainda assim continuaram torturando as pessoas, perguntando por
algum que j tinham matado. Ento, da Operao Bandeirante fomos levados ao Juizado
de Menores, uma casa com muitas crianas.
[Neste instante, Ilda Martins da Silva, me
de Virglio, interrompe e diz:] Acho que antes
vocs estiveram no DOPS por dois dias. O Vlademir diz isso.
Na minha memria de 6 anos, tem coisas que
eu me perco. Lembro que a gente ficou num
lugar que dava para ver o Minhoco, mas no
sei se foi antes ou depois. Mas sempre acompanhado por aquela mulher e outro cara. Mas,
a partir da, o que mais me marcou foi o Juizado de Menores, que era um lugar onde tinha
muitas crianas. Dormamos todos numa sala
onde havia camas separadas. E em outro quarto minha irm ficava num berrio, onde tinha
outras crianas de bero tambm. Era numa
casa, que no sei onde, no sei o endereo.

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Tambm nunca procurei saber onde foi isso,


mas era uma casa grande como se fosse uma
casa normal, com quintal nos fundos, onde as
crianas brincavam. Todos as crianas que
chegavam l tinham a cabea raspada, aquela coisa para no proliferar piolho. Mas eu me
revoltei e no deixei cortarem meu cabelo. Fui
o nico que ficou com o cabelo comprido ali.
L, de dia, as atividades das crianas eram
normais. O ruim mesmo era de noite. Eu no
queria que a noite chegasse, porque tnhamos
que ser separados e tnhamos medo de no
nos vermos mais. Alm disso, era de noite que
batia a saudade da nossa me e da casa, sempre que escutvamos choros e soluos de
outras crianas.
O pessoal que cuidava das crianas nos levava para passear durante o dia, mostrando casas e perguntando se queramos morar numa
casa daquelas grandes, bonitas, com famlias
que podiam dar melhores condies para ns,
onde havia brinquedos mais bonitos. E ns,
na nossa relao, eu e o meu irmo Vlademir,
tnhamos um cdigo natural onde eu sempre
deixava a resposta para ele. Eu sempre optei
pelo silncio. E o meu irmo sempre foi muito
maduro para a idade. Ele conseguia lidar com
essa situao melhor do que eu.
Ento, hoje, depois de muito tempo eu entendo por que de noite ele ia na minha cama, me
levantava e me levava para o bero da Isa. E a
gente dormia debaixo do bero dela. Tambm
lembro que, vrias vezes, como eu era mais gil
que o meu irmo, ele me levava na cozinha da
casa e fazia pegar a lata de leite Ninho, preparava a mamadeira da Isabel e dava de noite
para ela. Ele tinha essa lucidez.
Ficamos l por uns trs meses, at que os
meus tios conseguiram nos resgatar. E como
ramos quatro irmos no dava para ficar todo
mundo com um parente s. Fomos distribudos, repartidos pelos meus tios. Eu fiquei com
a minha tia Nair, irm da minha me, o Vlademir ficou com meus tios Nora e Miguel, tambm irmo da minha me. O Gregrio com a
minha tia Iraci e a Isabel com a minha tia Geni.
Comecei a estudar na escola Carlos Gomes,
em So Miguel Paulista. E comeamos a ver
a crua realidade da sociedade capitalista. Eu
vendia sorvete na rua, depois da escola. Mas s
vezes comia mais do que vendia.
Quando samos do Juizado de Menores eu
j tinha completado 7 anos e o meu irmo 8.

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Eu ainda no tinha noo da morte do meu pai.


E minha me ficou mais nove meses presa. At
nossa sada do Juizado, no tnhamos visto a
minha me, no sabamos dela. Tenho meio que
um bloqueio mental com relao a isso, no sei
em que momento foi, se transcorreu muito tempo para comearmos a ter contato com a minha
me. Ns ramos levados at uma esquina prxima do presdio Tiradentes, de onde minha
me conseguia nos ver desde uma torre do presdio. Ela tirava a mo por uma frestinha, uma
janelinha bem estreita e abanava um jornal. E
minha av ficava ali com a gente naquela esquina. E quando aparecia o jornal a minha av falava: D tchau que a sua me est vendo vocs
agora. A gente dava tchau para a minha me,
mas ns no a vamos. Nessa poca, minha me
estava incomunicvel.

O pessoal que cuidava


das crianas nos levava
para passear durante
o dia, mostrando casas
e perguntando se
queramos morar
numa casa daquelas
grandes, bonitas
O que me lembro de visitas ao presdio foi
de um perodo mais frente. Ns recebamos
presentes e lembranas dos presos polticos,
artesanatos que eram fabricados por eles mesmos l dentro. Teve at uma bicicleta que ganhamos, que foi presente dos companheiros do
presdio. A sim me lembro que amos visitar e
fazer tipo um piquenique l dentro, era como
uma festa para mim l.
Durante esse perodo de priso da minha
me ns permanecemos com meus tios. E
quando ela saiu da priso ns fomos morar
em Po, num terreno que um tio meu tinha
cedido. Comeamos a construir uma casa ali.
Minha me no conseguia emprego em lugar
nenhum e ns tnhamos que tentar sobreviver
de algum jeito. Minha av fazia paoca, amendoim doce para vendermos. Em So Miguel
Paulista, quando a minha me ainda estava
presa, uma das minhas atribuies foi ser engraxate. A gente tinha uma caixinha de engraxate, que depois de vinte e tantos anos, quando

voltei de Cuba o meu primo tinha ela guardada


num canto da sala da casa, envernizada. Aquilo
me emocionou muito.
No tnhamos mais condies de morar no
Brasil com essa forma de sobrevivncia. Assim, companheiros orientaram e falaram para
a minha me que nos ajudariam a sair do pas.
Isso foi em 1972. Samos com destino ao Chile.
Todo mundo com nome frio, documento falso. Moramos um ano no Chile no perodo do
Salvador Allende.
Em maro de 1973 fomos para Cuba. L foi
onde conseguimos ter vida digna, infncia
feliz. Mesmo com a ausncia do pai, ns tivemos todo apoio, todo suporte da Revoluo
Cubana, a solidariedade de todos os cubanos.
Graas Revoluo Cubana hoje somos formados, profissionais. Sou engenheiro mecnico e
engenheiro industrial. Tenho ps-graduao
em construo de maquinrio. Meus irmos
tambm so formados. Vlademir engenheiro
gelogo, hoje concursado da Petrobrs; Isabel
engenheira geloga tambm e Gregrio engenheiro civil. Ou seja, o que todo pai faz pelo
seu filho, o que dever de um pai, dar assistncia econmica e garantir a educao do filho
para se tornar um homem de bem, um homem
produtivo, a Revoluo Cubana fez com a gente. Fomos literalmente adotados pela Revoluo Cubana.
Mesmo l em Cuba, apesar da colnia de
exilados brasileiros, existia a vontade de voltar, de continuar a luta. Comeamos a militar
na juventude do Partido Comunista cubano.
Estudamos, nos prepararmos politicamente para poder continuar a obra daqueles que
tinham cado. O nosso sonho era poder fazer
isso, poder ver realizada aqui no Brasil o que
estvamos vivendo em Cuba. Havia aulas de
portugus, geografia, histria. O Takao Amano, e vrios outros eram nossos professores
naquela poca. Tnhamos a parte poltica e a
parte educacional tambm, aprendamos portugus, porque eu praticamente fui alfabetizado em espanhol. Havia grupos culturais, sendo
que um dos mais entusiastas era o Pedro Prestes, filho de Lus Carlos Prestes. Tambm havia
um grupo musical e assim ramos introduzidos cultura brasileira. Era muito forte e isso
alimentava todo dia a nossa vontade de voltar.
E o retorno aconteceu em novembro de 1993,
quando houve um choque cultural enorme.
Ainda hoje eu no me acostumo.

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Em Cuba, primeiro moramos num hotel durante trs anos, sem pagar um centavo. Minha
me tinha que brigar para trabalhar de voluntria no hotel para poder se sentir til. Mas no
queriam deixar ela fazer nada. Davam escola,
habitao, e tudo no hotel era de graa. Ns
apenas tnhamos que assinar o que consumamos. Depois de trs anos, o governo cubano nos ofereceu um apartamento com quatro
quartos, sala, cozinha, banheiro, totalmente
mobiliado com tudo, sem pagar um centavo.
Nesse apartamento, moramos durante dezoito
anos. Quando falo em choque cultural porque l nunca passamos o trinco na porta, os
vizinhos no precisavam bater na porta nem
anunciar visita, entravam como se fossem da
famlia e o mesmo ocorria na casa deles. Se faltava acar numa casa, na outra tinha. Se faltava caf numa casa, na outra tinha. Todo mundo
se pergunta como a Revoluo consegue, como
o povo cubano consegue sobreviver nesse bloqueio econmico to feroz que tem sobre ele. E
um pas que no tem nada de recursos naturais.
Eles conseguem sobreviver e esto felizes e
isso, a solidariedade alimenta. Ns fomos testemunhas disso da e chegando aqui no Brasil
foi um choque enorme, to grande, que at hoje
a gente no se acostuma. Em Cuba, tinha uma
rua e uma escola com o nome dele. O mais impressionante era isso, o meu pai l em Cuba era
um heri.
Eu acho que o mais importante agora dar
continuidade nesse processo de resgate da
verdade, memria, tomar o exemplo de pases
como Argentina, Chile e Uruguai que conseguiram colocar no banco dos acusados aqueles
que so responsveis por tantas mortes, tantas
torturas. algo que temos que exigir, impossvel aceitar pessoas que mataram ocupem
cargos pblicos, sejam exemplos de cidadania,
para geraes e geraes. Isso ultrajante, humilhante e inaceitvel. E usando da mentira,
da amnsia que a histria brasileira tem a respeito desse perodo.
Outra coisa super importante chegar ao
encontro dos restos mortais dos desaparecidos. Essa luta tem de continuar, no importa
quanto tenha de escavar, algum tem que saber onde esto. No falo s do meu pai, falo de
outros vrios que esto desaparecidos at hoje.
E eu ficaria feliz se nos livros de histria, amanh, eu visse que esto ensinando para as novas geraes que no perodo de 1964 at 1979
se matou muito aqui no Brasil.

1 e 2. Vlademir e Virglio
3. Vlademir, Gregrio e Virglio
4. Virglio, em So Paulo, 1969
Sequncia de fotos feita por
Zilda, amiga da famlia, na casa
dos irmos de Ilda no perodo
da sua priso para que soubesse
que seus filhos estavam bem.

A partir da apario do laudo de necrpsia do


meu pai em 2004, onde dizia que ele tinha sido
encaminhado do IML para o cemitrio de Vila
Formosa, ficou demonstrado que ele realmente tinha sido encaminhado para l. No livro de
entrada dos corpos na Vila Formosa dessa data
h uma pgina arrancada. Ento no se sabe em
que quadra ele foi sepultado e isso propositalmente, claro. Um dos funcionrios do cemitrio
Vila Formosa relatou que h uns tempos atrs
havia sido feita uma remoo de ossos, quando
jogaram cido para corroer os ossos e impedir
a identificao numa das quadras e que provavelmente poderia ter sido a quadra que tinham
sido sepultados os terroristas da poca. E que
tinha sido feito um ossrio debaixo. Mas l h
uma laje, uma escada e um monte de sacos
cheios de ossos, sem identificao nenhuma.
Ali um descaso total, a coisa mais vergonhosa que pode existir.

Impossvel aceitar
pessoas que mataram
ocupem cargos pblicos,
sejam exemplos de
cidadania, para
geraes e geraes
O pessoal acha que est lidando com sei l
o qu, com qualquer objeto, menos com restos mortais E o local impressionante, porque lembra at aqueles ossrios da Segunda
Guerra Mundial, dos campos de concentrao
nazista de to desorganizados que era aquele
negcio, to assombroso... Aquilo me chocou
muito, como pode ser que ainda exista hoje em
dia um negcio desses? Ento, para mim foi
complicado.

VIRGLIO GOMES DA SILVA FILHO nasceu em So Paulo (SP) em 20 de novembro de 1962. Filho de Virglio
Gomes da Silva e Ilda Martins da Silva. Formado em Engenharia Mecnica e Industrial trabalha numa Empresa
metalrgica em Indaiatuba, interior de So Paulo.

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Famlia de Virglio

Virglio Gomes da Silva nasceu em 15 de agosto

de 1933 em Stio Novo, em Santa Cruz (RN), filho de Sebastio


Gomes da Silva e Izabel Gomes da Silva. Desaparecido em 29 de
setembro de 1969, em So Paulo. Dirigente da Ao Libertadora
Nacional (ALN).

1. Ilda e Virglio namorando, em So Paulo, 1960


2. Virglio aos 17 anos, no Rio Grande do Norte
3. Ilda, grvida do Virglio e Vlademir no Zoolgico
em So Paulo, 1962

Era metalrgico e casado com Ilda Gomes da Silva, com quem teve
quatro filhos. De uma famlia pequena e humilde, Virglio e seus
parentes vagaram por vrias partes do pas depois de deixarem o
Rio Grande do Norte. No Par, a famlia trabalhou em um grande
seringal da companhia estadunidense Ford, em Fordlndia. Em
1945, Virglio voltou ao seu estado natal com a me e dois irmos.
A me passou a viver da agricultura de subsistncia em um pedao
de terra em Stio Novo. Em 1951, sem perspectivas, Virglio seguiu
para So Paulo. Na capital paulista, trabalhou como garom balconista, mensageiro e guarda. Comprou um bar com as economias
trazidas pela me, quando ela veio morar em So Paulo. Sua me
no se adaptou ao clima da cidade e retornou ao Nordeste, em
1957. Virglio vendeu o bar e foi morar no bairro de So Miguel Paulista com os irmos, tornando-se operrio da Nitroqumica.
Ainda em 1957, ingressou no PCB e passou a integrar o Sindicato
dos Qumicos e Farmacuticos de So Paulo, exercendo liderana
tambm entre os trabalhadores da Lutfalla. Em 1963, comandou
uma greve de trs mil operrios da Nitroqumica, durante a luta
pela conquista do 13 salrio. Ao buscarem apoio dos empregados
da Lutfalla, foraram a entrada, quando o dirigente da empresa
atirou em um operrio e em Virglio, ferindo-o gravemente. Assim
mesmo, os operrios conseguiram entrar na fbrica e paralisar as
mquinas. Depois disso, Virglio foi transferido para a sede do sindicato, de onde s saiu aps o golpe de 1964. Nessa poca, foi preso
por quinze dias. Seis meses aps sua priso, percebeu que estava
sendo seguido e fugiu para o Uruguai. L permaneceu por pouco
tempo, pois, preocupado com sua atividade poltica no Brasil e
com seus familiares, retornou ao pas. Em 1967, seguindo a orientao de Carlos Marighella, integrou a Dissidncia do PCB. Entre
outubro de 1967 e julho de 1968 fez treinamento de guerrilha em
Cuba como integrante da Ao Libertadora Nacional (ALN).

4. Virglio e Vlademir no bairro de So Miguel


Paulista, So Paulo, 1962
5. Vlademir, na casa onde viviam em Po (SP), 1965
6. Vlademir e Virglio, na mesma casa, 1963

No incio de setembro de 1969, comandou a ao do sequestro


do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Burke Elbrick,
obtendo a libertao de quinze prisioneiros polticos brasileiros.
Foi preso em 29 de setembro de 1969, na Avenida Duque de Caxias,
em So Paulo, por agentes da Operao Bandeirante (OBAN) em
setembro de 1970. Virglio chegou sede da OBAN encapuzado,
vindo a morrer 12 horas depois.

Ilda Martins da Silva nasceu em 30 de maio de 1931


em Lucianpolis (SP). Mudou-se para a cidade de So Paulo em
1941, e foi trabalhar na empresa Nitroqumica de So Miguel
Paulista.

Foi no movimento sindical que ela e Virglio se conheceram. Casados, tiveram quatro filhos.
Em 29 de setembro de 1969, Virglio foi preso, Ilda foi sequestrada em So Sebastio, no litoral de So Paulo, junto trs de seus
quatro filhos: Vlademir, Virglio e Maria Isabel, um beb de quatro meses. Gregrio, ento com dois anos, no foi levado por no
estar em casa. Ilda permaneceu presa por nove meses, ficando
incomunicvel sem qualquer notcia dos filhos por quatro meses.
Na Operao Bandeirante, foi torturada. Depois, foi transferida para o DOPS e, por ltimo, esteve no Presdio Tiradentes. As
crianas foram enviadas ao Juizado de Menores e ameaadas por
agentes da ditadura de serem entregues para adoo.
Perseguida aps sair do Presdio Tiradentes, seguiu um ano depois para o exlio, inicialmente no Chile, por um ano, e depois
em Cuba, de onde retornou aps a formatura dos quatro filhos,
em Havana. Desde ento, Ilda e seus filhos seguem lutando por
memria, verdade e justia. Hoje, vive em So Paulo (SP).

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7. Capa do Jornal ltima Hora, com manchete


que noticia a caa aos sequestradores do
embaixador norte-americano, 1969
8. Francisco, irmo de Virglio, com sua me
Isabel durante visita na priso
9. Virglio em uma manifestao do
Sindicato dos Qumicos de So Paulo
10. Francisco, irmo de Virglio, na priso

10

11. Isabel, 1969. Foto feita pelos tios Geni, irm de


Ilda, e Dagoberto, que cuidaram dela durante a
priso de sua me, em So Paulo
12. Ilda, Isabel, Vlademir, Virglio e Gregrio na rua
onde moravam durante o exlio no Chile, 1972

11

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A vida em exlios...
1. Gregrio, Isabel e Virglio na casa da Iara Xavier, no
aniversrio do seu filho Arnaldo, em Cuba, 1976. Ao fundo foto
de Carlos Marighella coberta por bexigas verde e amarela
2. Ilda e Virglio danando, Cuba, 1985
3. Cdula de Identidade de Isabel Gomes, Chile, 1972
4. Gregrio em Cuba, 1983
5. Vlademir em Cuba, 1982
6. Vlademir, Ilda, Teresa, esposa do Vlademir,
e Isabel em Cuba, 1984
7. Carteira de estudante de Virglio, Cuba, 1978
8. Ilda e Isabel em Cuba, 1986
9. D. Isabel, me de Virglio, em viagem Cuba, com Isabel,
Gregrio, Ilda, Virglio, Niurkis e um amigo da famlia.
Foto tirada em frente ao prdio onde a famlia morava, 1985
10. Gregrio, Isabel, Virglio, Ilda e Vlademir no Brasil, 2010

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Diziam que eu era muito perigosa


por Ilda Martins da Silva

Acho que a minha histria todo mundo j


conhece bem, ento s vou reforar. Fui presa em So Sebastio, com trs dos meus quatro filhos. O Gregrio no foi preso porque
estava com a minha sogra. Foram presos o
Virglio, com 6 anos, o Vlademir, com quase 8 e a Isabel, com quatro meses. No caminho de So Sebastio para So Paulo houve
um acidente sobre o qual eu nunca falei. O
carro capotou, eu desmaiei, os meus filhos
estavam junto comigo e viram o acidente
tambm. Fui levada ao hospital para ver se
tinha me machucado. Depois viemos para
So Paulo e fomos diretamente para a Operao Bandeirante, onde comearam a me
interrogar, fazer perguntas sobre o Virglio.
Eu falei para eles que tinha as crianas
pequenas, que a Isabel precisava se alimentar e eu precisava de alimentao para
eles. Ento deram uma mamadeira para a
Isa e depois fui separada dos meus filhos.
Sei que eles sofreram. E eu sofri ainda mais,
porque no sabia nada e aquela situao
era dura para mim, sozinha na Operao
Bandeirante, sem ter notcias de ningum e
perder o que era mais querido para mim, os
meus filhos.
Fiquei incomunicvel por quatro meses
no presdio. Todo mundo tinha visita, mas
eu no. Diziam que eu era muito perigosa
e no podia ter visita. Meus filhos iam todo
domingo me visitar, mas no deixavam eles
entrarem. At que um dia, depois de quatro
Ilda, ainda solteira

meses, embora eu ainda estivesse incomunicvel, deixaram a Isa entrar no presdio. Ela
era beb, tinha uns oito meses, ainda no
andava. Eu fiquei louca com a minha filha l.
Passeava com ela, mostrava para uma, para
outra. At que ca na escada. Havia uma escada da torre para outras celas e torci o p e
ca. Chamaram a polcia, que veio, me algemou, me colocou numa maca e levou para
o hospital. Na sada, entreguei a Isa para a
minha irm que estava l esperando. Meus
filhos estavam l tambm, mas acho que
eles no me viram deitada na maca.
Tem tambm a histria do lbum de fotografias. Quando me entregaram as fotografias no presdio para ver os meninos, as
carcereiras vieram na hora que terminou a
visita e queriam que eu entregasse as fotografias porque eu estava incomunicvel. Ento as companheiras todas se revoltaram, falaram: Como que iam pegar a fotografias?
Disseram que fotografia no transmitia
nada, que eram apenas os meus filhos. Uma
das carcereiras falou que no, que eu no podia ficar com as fotos deles porque estava incomunicvel. Mas as companheiras todas se
revoltaram e eu consegui ficar com as fotos.
So coisas que vo marcando, a gente vai
lembrando aos poucos e a cada coisa uma
mais dura que a outra, mais triste, e cada coisa que a gente vai lembrando como se desse
uma punhalada. Eu peo desculpas. A gente
chora porque duro mesmo, quem passou
por isso sabe que difcil a gente relembrar
do passado sem chorar.

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A inocncia perdida
por ngela Telma Oliveira Lucena

Sempre que a gente fala desses assuntos,


as pessoas tm uma tendncia a achar que
filho de comunista amargurado, mal-humorado, irritadio. Somos seres humanos
como todos os outros. Passamos por um
processo difcil, sem dvida nenhuma, mas
isso no nos tornou monstros e nem insensveis. Temos a nossa dor, claro. Todos ns
temos. At os filhos dos comunistas. Ao
contrrio do que dizem, que comunista
no tem sentimento.
Sou ngela Telma Oliveira Lucena. Sou
filha do Doutor, que era o apelido do meu
pai. Como ele era um cara de extrema inteligncia, as pessoas o chamavam assim,
apesar de ele ser analfabeto. Minha me,
Damaris Oliveira Lucena, era operria e a
nossa casa sempre foi um ponto de reunio
dos companheiros e de muito movimento.
Assim, eu poderia dizer que ns perdemos a inocncia muito cedo. Porm, perder
a inocncia no significa que ns tambm
no fssemos crianas e tivssemos momentos felizes. O que tnhamos era muita
clareza sobre a atividade dos nossos pais.
Sabamos no que eles estavam envolvidos,
embora no imaginssemos a magnitude
e os desdobramentos que poderiam trazer.
Mas a nossa me sempre dizia: Olha, no
se afastem muito de casa, brinquem aqui
perto, cuidado com o que vocs falam, no
esquerda, Denise, Adilson e ngela Telma, Cuba, 1970

desapaream. Porque se a polcia chegar a


gente tem que sair correndo. Parece maluco dizer isso para crianas. Mas quem
filho de nordestino entende. Nordestino fala
claramente com os filhos. Nossos pais eram
muito claros, muito objetivos quando conversavam com a gente.

Ns perdemos
a inocncia muito
cedo. Porm, perder a
inocncia no significa
que ns tambm no
fssemos crianas
e tivssemos
momentos felizes
Ento, no momento em que ficamos
clandestinos, para l e para c, aconteceu
uma coisa muito curiosa. uma lembrana
muito boa que eu tenho, porque, na verdade, eu tive muitos pais. E tem um pai em
especial que eu quero destacar aqui, que
me tratou com muito carinho, com muito
respeito, que era o Eduardo Leite Bacuri.
Ele frequentava muito a nossa casa, tinha
muita pacincia, me pegava no colo, trocava minhas fraldas, me dava comida. Eu
tive a possibilidade de contar isso para a
Duda [Eduarda, filha de Bacuri]. E ela falou
que tinha uma dor muito grande. E disse:
Eu queria que o meu pai tivesse feito isso

para mim. Ns fomos formando uma famlia. No era uma famlia biolgica, mas
foi mais importante e mais significativa do
que a nossa prpria, com quem ns no
convivemos.
Eu era perdidamente apaixonada pelo
Bacuri, porque ele tinha olhos lindos. Ele
me pegava no colo e eu ficava olhando para
aquele homem. Acho que meu sonho era casar com um homem de olho claro por conta
do Bacuri. Eu olhava para ele, aquele homem to bonito. E falava para minha me:
Ele to bonito, no ? Muitos anos depois, casei com um homem de olhos azuis.
Ento, fomos tendo vrias famlias, vrios
irmos, primos, tios. Para falar a verdade,
de muita gente eu vim a descobrir o nome
recentemente. Eu no sabia como eles se
chamavam. Essa convivncia com os companheiros foi muito forte, muito marcante,
porque eles faziam o papel dos pais que
no estavam ali. Ficvamos nos aparelhos,
dormamos aqui e acordvamos ali. Um
penteava o cabelo e o outro escovava os
dentes. Voc dormia com um companheiro
de noite e quando acordava j era outro.
Tem algo que eu gostaria de destacar.
As pessoas sempre colocam em dvida
se eu realmente consigo lembrar da morte
do meu pai. Foi um fato para mim muito
marcante. Eu tinha 3 anos e meio e as pessoas questionam e dizem: Algum com 3
anos e meio no pode lembrar disso. Eu

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gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha
vida. Mas eu no posso, eu no quero e eu
no consigo. E eu no vou. Porque a nica
memria que tenho do meu pai exatamente o momento da morte. Foi muito violento
para mim. Foi muito triste. Eu tive, daquele
momento em diante, fortes crises de enxaqueca. Eu sonhava todas as noites com uma
coisa que no sabia exatamente o que era.
Eu no conseguia ver filme de guerra, mas
no deixava que minha me percebesse.
No queria que ela percebesse que a gente
estava sofrendo. Porque sofrer tambm fazia parte da nossa histria. Foi difcil? Foi.
Foi duro? Foi. Mas eu no quero apagar. Eu
lembro perfeitamente. Eu lembro como ele
estava vestido. Eu lembro exatamente como
tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava
no colo da minha me, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido.

ngela Telma, Cuba, 1970

Eu gostaria muito
de poder apagar esse
momento do assassinato
do meu pai da minha
vida. Mas eu no posso,
eu no quero, e eu no
consigo. E eu no vou

Eu vivia um conflito entre apagar, riscar


aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que se fizesse isso, estaria riscando a histria da minha famlia. E eu no
queria isso.
Quando ns samos do Brasil, a minha
me teve uma oferta do governo cubano
para que fssemos ao psiclogo. E minha
me disse: Meus filhos no precisam de
psiclogo. Eles prprios vo administrar e
eu vou ajudar os meus filhos a administrar
a situao. Porque eu nunca menti para os
meus filhos. Eu sempre disse para os meus
filhos qual era a nossa atividade. Isso no
uma crtica a quem vai ao psiclogo. De jeito nenhum. Mas eu consegui administrar a
situao minha maneira. Acho que meus
irmos tambm devem ter administrado da
maneira deles.
A morte do meu pai mudou completamente a minha vida. A partir daquele momento sabia exatamente de quem eu era filha,
como meu pai tinha morrido. Eu vi minha
me muito torturada. Ela comeou a apanhar no momento em que meu pai foi morto, ali na nossa frente. Me arrancaram dos

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braos dela. Eu lembro exatamente como


aconteceu. Ento, a nossa inocncia, a minha, particularmente, foi perdida ali naquele momento. Mas isso no me transformou
em uma pessoa amargurada, nem frustrada,
nem triste. Talvez uma pessoa mais introspectiva, talvez uma pessoa com excesso de
responsabilidade, talvez uma pessoa que,
s vezes, raciocina muito porque sabe qual
o peso de levar o sobrenome Lucena. No
fcil ser filha da Damaris e do Doutor. No
fcil fazer parte de uma histria de dois
heris da nao brasileira. De saber que
para estar viva aqui, hoje, contando a nossa histria, muita gente morreu. Quantas
pessoas tiveram que dar a vida para que a
gente tivesse esta democracia? Vivemos um
conflito, mas um conflito que tem um lado
muito positivo.
Quando fomos presos, nos levaram para
o juizado de menores e as pessoas falavam:
Poxa, mas ela muito pequena, ela no
lembra. lgico que lembro. As nossas
camas eram molhadas. A gente dormia na
cama molhada. Os filhos dos terroristas. Ento a gente ficava ali, vamos que todas as
crianas nos olhavam de uma forma estranha e nos sentamos estranhos tambm. Eu
pensava: Puxa vida, eu estou vivendo isso
aqui, que no vai acabar nunca. Eu no tinha noo de tempo, mas tinha muito claro
que tinha muito a ver com a atividade dos
meus pais.
Eu no queria causar mais dor e sofrimento para minha me do que ela j tinha tido.
Ento no conversava sobre esse assunto
com ela, que j tinha sua parcela de dor, de
culpa, de responsabilidade. Por vrias vezes
ela disse para a gente que se sentia mal de
ter colocado os filhos na luta. E um dia eu
disse No se sinta mal. Ns somos produtos do meio e da luta que vocs tiveram e
temos orgulho do que somos. Ns estamos
com vocs. Ns temos orgulho do nome de
vocs. Ns queremos levar a luta de vocs
adiante. Vocs foram capazes de pegar em
armas para defender os ideais de vocs. Vocs acreditaram naquilo. Isso para ns a
coisa mais importante. o maior legado que
algum pode transmitir para os filhos.

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Quando ela diz que nunca disse para a


gente, ah, vocs precisam ser comunistas,
ou revolucionrios ou de esquerda, verdade. Ela nunca disse. O comportamento que
ela tinha, a maneira como ela agia mostrava
para a gente o que ela era, como ela acreditava. A vida inteira ela foi coerente com
o que defendia. Minha me sempre foi uma
pessoa que lutou, compartilhou, dividiu
tudo o que ela tinha com as outras pessoas.
E ela no poderia ter cado em um lugar melhor do que Cuba.
O meu pai, quando era vivo, viu o triunfo
da Revoluo Cubana. E ele dizia para minha me O meu sonho que os meus filhos
estudem em Cuba. Mal sabia ele que ia ter
que dar a prpria vida para que aquilo fosse possvel. Ento, para ns, muito significativo. Dizem que os desejos, s vezes, se
transformam em realidade. Eu acho que no
fundo eles dois sabiam que, de certa maneira, o que eles estavam dando para a gente
era uma nova possibilidade de vida.
Ns perdemos, de fato, a nossa inocncia, perdemos o nosso pai. Fomos parar em
Cuba. Eu cheguei com 3 anos e meio, fui para
creche. Aprendi a falar espanhol, e acho que
hoje falo melhor espanhol do que portugus
porque fui alfabetizada em espanhol. Ento a
gente viu que aquele sonho de liberdade, de
uma sociedade mais justa, era possvel. Tudo
o que o meu pai falava, Existe um pas que se
chama Cuba, que fez uma revoluo, e aquilo era possvel. E a gente via aquilo acontecendo. Ento foi muito representativo.
A solidariedade do povo cubano, a importncia que eles davam para o estudo,
a importncia que eles davam para que a
gente mantivesse a nossa cultura, a nossa
identidade. Ns nunca fomos tratados como
coitadinhos, porque no somos. Somos pessoas que pagamos um preo pela escolha,
pela ideologia dos nossos pais. Isso, de forma alguma negativo. Ao contrrio, eu vejo
de uma maneira muito positiva. evidente
que, cada ser humano tem uma apreciao a
respeito das coisas.
Mas eu lutei muito, tive alguns conflitos
internos, e ns, entre os irmos no falva-

mos disso. Eu acho que a primeira vez que


cada um de ns conta a sua experincia para
o outro. No entanto, o que importante para
ns, primeiro, a oportunidade de falar para
as pessoas o que que ns vivenciamos para
que isso nunca mais acontea. Para que no
se repita. Para que as pessoas saibam que
a nica maneira da gente realmente modificar uma sociedade, transformar, pela
educao. A gente precisa ter conscincia. E
isso foi uma coisa que a Revoluo Cubana
permitiu que a gente tivesse. Conscincia
poltica. Ns temos muito claro o que ns
queremos para o nosso pas.

Somos pessoas
que pagamos um
preo pela escolha,
pela ideologia dos
nossos pais. Isso,
de forma alguma
negativo
evidente que temos alguns momentos de
angstia, de dor. Todo mundo passa por isso.
Isso do ser humano. Mas eu queria deixar
presente uma mensagem em meu nome e dos
meus irmos tambm. Quem deu um golpe,
rasgou a Constituio depois de um presidente democraticamente eleito no fomos ns.
Ns apenas nos defendemos. Em nenhum
momento ns provocamos uma situao que
justificasse a violncia da qual ns fomos vtimas. Uma violncia de Estado. Agora, quando a gente fala de vtima, infelizmente uma
coisa que se repete. Quando a gente vitimiza
o ser humano quando a gente no deixa que
ele se expresse.
O Brasil fala que uma democracia, no entanto, pessoas continuam sendo torturadas,
os desaparecidos continuam desaparecidos,
os arquivos continuam fechados. Ns no
sabemos onde nossos familiares foram parar. Ns queremos, exigimos uma resposta
para isso. Queremos enterrar os nossos mortos. um direito que temos, como seres humanos. Falo aqui, eu acho, que em nome de

todas as famlias que no tiveram a possibilidade de enterrar os seus mortos. Inclusive


meu pai, que desaparecido. Eu no quero
mais que meu pai seja uma estatstica como
tantos outros pais que esto por a. Ns queremos a abertura dos arquivos. Queremos
saber de que forma, em que circunstncias
os nossos pais foram assassinados. Ns temos esse direito. Qualquer nao sria v
dessa maneira. Ento, quando ns dizemos
aqui, viemos a pblico, todos os filhos, falar, o que ns queremos uma coisa muito
simples. Ns queremos saber aonde foram
parar os nossos pais. um direito que ns
temos como seres humanos. Em qualquer
cultura as pessoas tm o direito no somente de chorar pelos seus entes queridos,
mas tambm a possibilidade de saber como
aconteceu.
Ns temos muitos desaparecidos neste
pas. Ns no queremos que eles continuem
desaparecidos. Ento, por favor, eu fao um
apelo aqui, pblico, quem souber qualquer
informao, quem souber qualquer dado
que possa ajudar os familiares a descobrirem as circunstncias da morte dos seus entes queridos, a gente pede, que mesmo de
forma annima, a pessoa mande esses dados para a gente. Ns queremos. Ns precisamos. Enquanto ns no soubermos como
tudo aconteceu, enquanto os arquivos no
forem abertos, enquanto a gente viver com
essa dvida, no podemos ter tranquilidade. um fantasma que nos atormenta.

NGELA TELMA OLIVEIRA LUCENA nasceu em 10


de outubro de 1966. Filha de Antnio Raymundo
de Lucena e de Damaris Oliveira Lucena. Mestre em
Lngua Portuguesa. Graduada em Letras com habilitao dupla Espanhol/Portugus pela Pontifcia
Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP). Estudante de Direito. Trabalha como Jornalista e Tradutora freelance.

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Infncia resgatada
por Adilson Lucena

Eu acho que, de certa forma, esta infncia


roubada que ns tivemos, por conta da ditadura, ns comeamos a recuperar em Cuba
e, com a ajuda da Damaris, que foi esse muro
poderoso, mesmo ela no estando muito bem
de sade na poca em que saiu da cadeia. Ela
nos ajudou muito a superar a nossa infncia
roubada. E, principalmente, eu quero fazer um
agradecimento Revoluo Cubana, que foi a
ptria de muitos brasileiros e a casa de muitos
brasileiros que l estiveram.
A gente comea a relembrar das nossas fases
em Cuba, e me lembro tambm que l, inclusive, ns chegamos a instituir, com a ajuda dos
cubanos, uma escolinha onde a gente aprendia
Portugus, Histria do Brasil, Geografia. Acho
que at conseguiram uns discos. A gente cantava o hino do Brasil e comemorvamos o 7 de
Setembro no ICAP (Instituto Cubano de Amizade com os Povos). Os cubanos sempre lutaram
para que os nossos pais no deixassem a gente
esquecer o nosso idioma ptrio. E nunca faltavam comemoraes ptrias nossas, quando nos
reunamos para cantar as nossas msicas.
Lembro-me que o grande heri da Revoluo
Cubana, das lutas pela independncia, Jos
Mart, dizia que ele queria colocar na Constituio de Cuba, quando triunfasse a luta contra
o colonialismo espanhol, que a lei primeira da
Repblica fosse a dignidade do homem. E isso
ns encontramos em Cuba. O eixo principal daquela sociedade a dignidade plena do homem.
esquerda, Adilson, Cuba, 1970

Ento, todos ns que passamos por l nos


tornamos marxistas, porque Marx uma ferramenta para a gente entender o que acontece
nesta sociedade. Mas acho que, com certeza,
nos tornamos martianos.

Os cubanos sempre
lutaram para que
os nossos pais no
deixassem a gente
esquecer o nosso
idioma ptrio
Quem aqui no escutou a Guantanamera com os versos de Mart? Ento, todos ns
samos de l amantes do Mart. E aprendemos
esse sentido da dignidade em Cuba, de valorizar o ser humano em primeiro lugar. A respeito da nossa vida, no guardo mgoas. Todos
ns somos pessoas muito alegres. Atualmente,
eu agradeo a Cuba porque sou professor de
espanhol. Cuba tambm me deu um idioma,
me deu a cultura. Agradecemos muito, aprendemos muito da cultura cubana, aprendemos
muito do Brasil em Cuba. Os cubanos sempre
tiveram essa preocupao.
E a respeito da nossa vida na clandestinidade,
eu lembro das muitas mudanas de casa quando os meus pais entraram na clandestinidade.
E sempre aquela agitao, muitas reunies nas
casas por onde a gente passou. Estivemos em
Santos, em Embu Guau e outros lugares, at

que a gente foi parar em Atibaia. E como no


conseguamos mais frequentar a escola por
conta dessa clandestinidade, a Damaris estava nos alfabetizando no dia em que a casa foi
cercada. Foi muito rpido. Muito nervosismo.
Todo mundo sabe o que acontecia com os militantes quando caam na mo da polcia. E o
meu pai, de origem nordestina, dizia: Nunca
vou me deixar pegar vivo!. E, de fato, foi o que
aconteceu. Eles entraram e houve um tiroteio
dentro de casa. Acho que eu fui o primeiro a
sair quando cessou o tiroteio. E quando eu
sa, ele estava sentado ao lado do tanque. Acho
que ele j estava praticamente morto. Estava
sem camisa. Tinha tomado muitos tiros. E eu
fiquei desesperado, enlouquecido.
A minha me saiu com a Telma no colo e depois atrs veio a Denise. Depois entramos de
novo e a se gerou aquele impasse dentro de
casa porque eles nos encurralaram em um canto da cama. Uns achavam que deviam matar
a gente ali mesmo. Outros, diziam: No, vamos esperar, vamos aguardar, e ficava aquele impasse, aquela tortura em cima da gente
com as armas apontadas. Talvez, pelo fato
de quererem tirar informao do que estava
acontecendo, naquele momento foi poupada a
nossa vida.
Depois, quando ns samos l da casa, a
regio estava toda cercada de soldados do
Exrcito. Eu nunca tinha visto tantos soldados em minha vida. Inclusive, no caminho
que nos levava at a estrada principal, eles
postaram soldados a cada dez metros. De l,

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ns fomos levados para a delegacia de Atibaia. Parece-me que o fato se tornou pblico e,
quando chegamos delegacia, tinha milhares
de pessoas na porta para ver a gente, como se
fssemos selenitas. Ficamos na delegacia at
a noite. At que nos tiraram de l (primeiro fomos levados para o lar Mariquinha Lopes que
era um orfanato em Atibaia). Posteriormente,
ficamos sabendo que a Damaris comeou a ser
torturada ali mesmo na delegacia. E l permanecemos uma etapa da nossa priso.
E de vez em quando, acho que umas duas ou
trs vezes, a polcia veio me buscar para me levar na casa novamente. Aquilo era massacrante para mim. Eu tinha estado ali uma pequena
parte da minha infncia. Cheguei l e vi toda
a casa revirada. A poa de sangue do meu pai
ainda estava ali. E eles queriam que eu desse
conta de um buraco de lixo que ns tnhamos
num canto da casa. Eles consideravam que talvez tivessem armas ali e eles me bateram com
a bainha de faco do meu pai para eu contar
o que tinha naquele buraco. Como eu no sabia, chorei e acho que, talvez, eles deixaram de
lado porque pensaram que de fato no sabia se
havia alguma arma naquele local.
Posteriormente, ns fomos tirados desse orfanato e levados para So Paulo. Lembro que
percorremos vrias instituies religiosas e
eu via que as irms acenavam negativamente com a cabea. Eles queriam nos deixar naquelas instituies e as irms no queriam
aceitar. E eu escutava os comentrios, que
diziam que ns ramos filhos de terroristas.
Ento, em vrios lugares, realmente, no fomos admitidos.
At que nos levaram para um Juizado de
Menores, em So Paulo. Tive muita m impresso porque quando chegamos l de noite, dormiam trs crianas em cada cama. E
l permanecemos durante toda a priso, com
castigos constantes. s vezes, a gente ficava
na sala de tev, mas tnhamos que ficar com
a cabea para baixo sem poder assistir TV.
Imagine uma criana que gosta de ver TV no
poder ver as coisas que gosta. Foi realmente
muito massacrante.
At que um belo dia, a Valquria, que era a
diretora da instituio, foi nos buscar, nos ba-

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nhou, nos vestiu uma roupa mais ou menos e


disse que a gente ia sair do pas. E fomos em
direo ao DOPS. Pela primeira vez em vinte e
tantos dias de cativeiro, ns vimos a Damaris.
Estava magra, a coitada. E macabra. Acho que
a Telma nem a reconheceu de to magra que
ela estava.
Entramos no nibus. Havia uma escolta muito grande. Estavam os companheiros que saram naquele sequestro e fomos em direo do
aeroporto. Acho que era Congonhas. Quando
ns subimos no avio, estava l o Mario Japa
sentado. Anos depois ficamos sabendo que
entraram escondido com ele por trs do avio
porque ele no conseguia andar, tinha sido
muito torturado. E a tinha outros companheiros tambm a Madre [Maurina Borges da
Silveira], o Digenes [Carvalho de Oliveira], o
Otvio ngelo.

Pela primeira vez


em vinte e tantos
dias de cativeiro,
ns vimos a Damaris.
Estava magra,
a coitada. E macabra
E eu lembro que, tambm, no avio, foram
dez policiais da Polcia Federal para o Mxico. E eles queriam, inclusive, algemar Damaris e ela fez o maior escarcu. E a ela j brigou com eles dentro do avio e at que eles
acabaram no algemando. Ns chegamos ao
Mxico. L, aquela movimentao da imprensa
internacional e houve uma briga dos policiais
brasileiros, inclusive uma pancadaria porque
a gente queria descer do avio para falar com
a imprensa e a Polcia Federal no queria. At
que acabamos descendo e fomos falar com
a imprensa.
A Damaris deu as primeiras declaraes
que, alis, foram muito importantes porque
acabou salvando a vida da Eliana Rollemberg.
Denunciou para a imprensa internacional que
a companheira estava sendo muito torturada.
De l do aeroporto, ns fomos para o hotel.
Lembro-me tambm como foi solidrio aquele

moo que cuidava da gente, o comandante. Ele


encheu uma sacola.
[Neste momento, a me de Adilson, Damaris
Lucena, o interrompe e complementa:]
Era o comandante do avio. Ele encheu uma
cesta de frutas, de doces e disse: A senhora
leva porque no sabe onde vai parar com essas
crianas pequenas. Leva isso aqui para eles e
a senhora comerem. No sei se ele era de esquerda, sei que ele ficou muito penalizado. Ele
ficou com a Telma no colo na hora de descer.
Eu estava to fraca que no aguentava segurar
a menina. A ele pegou a menina no colo e me
deu a cesta de lanche. Para mim, foi uma ao
muito humana.
E a ns fomos para o hotel, onde estava toda
aquela movimentao. E, de repente, a minha
me falou: Bom, agora esto convidando a gente para ir para Cuba. Ns ramos pequenos,
mas imagine o significado para ela, que lutou
toda uma vida, ser convidada para ir para Cuba!
Eu acho importante a gente revelar a nossa
dor s novas geraes, aos jovens, aos que no
vivenciaram essa etapa a histria do Brasil.
Pobre do povo que deixa esquecer sua memria. Fiquei muito contente quando vi recentemente aquela juventude fazendo escrachos na
porta dos torturadores porque a gente pensou:
A nossa causa est garantida, no vo deixar
morrer nossa memria.
O meu consolo que a juventude est carregando essas bandeiras. E deixar aqui para as
novas geraes a memria histrica do pas.
At agora ns tnhamos a verso dos torturadores e estamos aqui para ter a verso do povo,
contar a sua histria e vamos deixar esta memria para as geraes futuras.

ADILSON LUCENA nasceu em So Paulo no dia 2 de outubro de 1960. Graduado em Letras com Habilitao
em Portugus e Espanhol pela PUC-SP (Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo). Trabalha como professor de espanhol. D aulas particulares e atua como
professor voluntrio em vrios movimentos sociais.

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Palavras presas
por Denise Oliveira Lucena

Meu nome Denise Oliveira Lucena. Eu sou


gmea de Adilson Oliveira Lucena. Minha me
engravidou de mim e um ms depois engravidou dele. Ns nascemos no mesmo dia, na mesma hora, mas ele mais novo que eu um ms.
Acho que a maioria das coisas o meu irmo
j falou. Mas foi realmente muito duro para
ns sairmos daqui em 1970 da maneira que foi.
Meu pai foi morto na nossa frente. Eu fiquei
com muito medo. Na hora que eu sa de dentro
de casa, ele estava cado no cho. Fiquei com
muito medo. Foi uma situao muito difcil
para ns porque a gente s tinha 9 anos.
A gente foi para o juizado de menores em So
Paulo. Fomos muito maltratados. Sofremos muito, mas, hoje as coisas mudaram. Ento eu acho
que a gente tem que resgatar a histria deste
pas e a gente tambm faz parte da histria deste pas.
Ento um momento que j passou. E eu no
consigo falar mais.
DENISE OLIVEIRA LUCENA nasceu em So Paulo no dia
2 de outubro de 1960. tcnica de enfermagem e, no
momento, est impossibilitada de trabalhar por uma
questo de sade.

Denise, Cuba, 1970

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Condenado morte
por Ariston Oliveira Lucena

Meu nome Ariston de Oliveira Lucena, nascido em 6 de outubro de 1951 em So Paulo. Sou filho de Damaris Oliveira Lucena e
Antnio Raymundo de Lucena, ambos lderes
sindicais desde a dcada de 1950 e ativistas
polticos da Vanguarda Popular Revolucionria (VPR). Damaris foi txtil e Antnio, metalrgico. Comecei a minha militncia muito
cedo, pois a minha casa era um local de reunies da organizao. Decidi sair de casa aos
17 anos para me juntar aos companheiros da
VPR. No sabia que o meu destino seria o Vale
do Ribeira sob o comando do Capito Lamarca. Os meus pais disseram que eu era muito
jovem para assumir aquela luta. Respondi que
esse era o meu desejo e que a minha ideologia
tinha sido forjada com o exemplo deles dentro
de casa. Fui para o Vale no dia 7 janeiro onde
permaneci at 31 de maio de 1970.
Soube da morte do meu pai e da priso da
minha me pelo rdio. Fiquei transtornado e
quis vir para So Paulo, mas Lamarca me conteve. Fiquei no treinamento de guerrilha por
quatro meses no Vale. Escapamos de um cerco
policial feito pelo coronel Erasmo Dias ao Vale
do Ribeira. Samos dirigindo um caminho do
Exrcito que nos trouxe para So Paulo onde
nos dispersamos. Cada um tomou um rumo diferente e ignorado pelo outro.
Fui preso no dia 20 de agosto de 1970, em
uma batida policial de rua no bairro da Vila
Mariana. Levado para uma delegacia no mesmo bairro, fui espancado pelos policiais de
servio. Isso ocorreu em uma quinta-feira, permaneci na cela at segunda-feira pela manh,
quando fui transferido para DOPS. L chegando, fui encaminhado para uma sala de torturas,
onde o escrivo Samuel Pereira Borba e outro
policial que no sei identificar, comearam a

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me torturar com choques eltricos por todo


o corpo. Eu estava pendurado no pau de arara. Fui torturado por algum tempo, mas no
sei precisar a quantidade de horas. Quando
me tiraram do pau de arara, no podia andar,
contudo, mesmo assim saram comigo em diligncias por So Paulo, para cobrir pontos, com
companheiros da minha organizao. A polcia
no conseguiu nada, pois eu j me encontrava
preso fazia vrios dias. Os meus companheiros
j sabiam da minha priso. Quero esclarecer,
que, no dia em que fui preso, eu estava junto
com um companheiro que conseguiu fugir.

Soube da morte do meu


pai e da priso da minha
me pelo rdio. Fiquei
transtornado e quis vir
para So Paulo, mas
Lamarca me conteve
Na quinta-feira, fui levado para a Operao Bandeirante pelo capito do Exrcito,
Maurcio Lopes Lima. Fui direto para a sala
de torturas e prontamente colocado na cadeira do drago. Comecei a ser torturado
novamente pelo Capito Benoni de Arruda
Albernaz e outros policiais da OBAN. Aos
poucos, fui sendo destroado pelas sevcias.
Passei mais ou menos dois meses na Operao
Bandeirante. Fui massacrado por vrias equipes
de policiais da OBAN. O comandante desse rgo era o Tenente-Coronel Valdir Coelho, que
ordenava as torturas aos presos polticos.
Havia outros torturadores: o Capito Homero
Csar Machado, Pedro Mira Grancieri (tambm

conhecido como Tenente Ramiro, que possua


uma ncora tatuada no brao) Dalmo Lucio Muniz Cirillo, entre muitos outros.
Certo dia, apareceu um homem me inquirindo. Disse-me que se fosse auditoria para
a audincia e se confessasse o que eu estava
passando na Operao Bandeirante, pagaria
as consequncias. Eu disse que faria isso mesmo. Ele me ameaou dizendo que eu iria ver
o que bom. Qual no foi a minha surpresa,
quando fui prestar depoimento na auditoria.
O referido senhor que havia me insultado era
o procurador da Justia Militar, Sr. Durval
Ayrton Moura Arajo que funcionou como
acusador dos militantes.
Em meados de outubro de 1970, fui levado de
helicptero para o Vale do Ribeira, pelo Coronel Antnio Erasmo Dias, para fazer a reconstituio de nossa fuga. L chegando, Erasmo
ameaou de me jogar do helicptero se eu no
contasse fatos que possibilitassem a priso de
outros companheiros meus. Colocou-me na
cova onde havia sido executado o tenente da
Polcia Militar Alberto Mendes Jr., em maio de
1970. Dias simulou um fuzilamento disparando rajadas de uma metralhadora Thompson ao
redor do meu corpo para me intimidar. Alis,
o Coronel assumiu esse episdio em declaraes feitas ao jornal Folha da Tarde.
Fui condenado a trinta anos de priso, condenado tambm pena de morte (posteriormente,
transformada em priso perptua). Acumulei
trinta anos e, por ltimo, mais vinte pelas minhas atividades polticas. Sa em julho de 1979,
portanto fiquei nove anos encarcerado.
Quero reafirmar que no me arrependo do
que fiz. Sinto muito orgulho por ter pegado em

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Aos poucos, fui sendo


destroado pelas
sevcias. Passei mais
ou menos dois
meses na Operao
Bandeirante
armas para lutar contra a ditadura instaurada
no Brasil. Essa conscincia foi adquirida no
convvio com meus pais Antnio Raymundo
de Lucena e Damaris Oliveira Lucena. Meus
velhos, apesar de terem baixo nvel de escolarizao, tinham uma profunda conscincia
de classe. Conheciam muito bem as mazelas
dessa sociedade, onde pobres, negros, e desvalidos, so as maiores vtimas do capitalismo
nacional e internacional.
Minha famlia no possui riquezas materiais, mas, detentora de um excelente capital
intelectual que a plena conscincia dos problemas deste pas. Fizemos a opo pelo povo
e sabemos da necessidade de educar e conscientizar a massa para que possa lutar em prol
dos seus direitos.
So Paulo, 9 de maio de 2013

ARISTON DE OLIVEIRA LUCENA nasceu em So Paulo


no dia 6 de outubro de 1951. Seu ltimo trabalho foi
tcnico do INCRA. Aposentou-se por invalidez em 2012,
pois era diabtico, hipertenso e tinha sido submetido
uma angioplastia. Faleceu em 25 de maio de 2013 de
infarto agudo do miocrdio. Suas cinzas repousam no
assentamento onde residia, em Trememb (SP).

Ao lado, Ariston preso, So Paulo, 1970

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3
2
1

1. Antnio no Maranho, 1947


2. Antnio em So Paulo, 1957
3. Diretrio do Partido Comunista durante visita de Lus Carlos Prestes em
So Joo Clmaco, So Paulo, 1958
4. Damaris e Joana, irm de Antnio, em Caxias (MA), 1945
5. Retrato de Damaris aos 12 anos, em Caxias (MA), 1939
6. Damaris em encontro com Prestes, So Paulo, 1958
5

Antnio Raymundo de Lucena nasceu em 11 de setembro de 1922, em Colina (MA), filho


de Jos Lucena Sobrinho e ngela Fernandes Lima
Lucena. Morto em 20 de fevereiro de 1970. Militante
da Vanguarda Popular Revolucionria (VPR).
Aos 12 anos de idade teve uma lcera ocular que lhe
ocasionou a perda da viso do olho direito. Nessa
poca, comeou a ocupar-se de atividades de instalaes eltricas, servios de pedreiro e mecnica.
Aos 17 anos, assumiu a funo de mestre de oficina
mecnica. Apesar de no ter terminado os estudos,
Antnio era uma pessoa bastante inteligente e habilidosa. Por conta disso, recebeu dos conhecidos a alcunha de Doutor. Ao casar-se com Damaris, Lucena
comeou a trabalhar como mestre de serraria e ela
como fiandeira.
Em maro de 1950, embarcou em um caminho pau
de arara para a cidade de So Paulo. Ainda em 1953, o

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7. Greve por aumento de salrio em So Paulo, Doutor e Damaris esto em


destaque na foto, 1963. Imagem cedida pelo Arquivo ltima Hora/AESP

casal participou da campanha O Petrleo Nosso.


Nessa poca, ele e sua esposa eram operrios na Jafet, indstria txtil localizada no bairro do Ipiranga.
Em 1954, ingressou no Partido Comunista.
Lucena aposentou-se em 1964 por invalidez. Como
era cego de um olho, teve o direito a uma banca na
feira isenta de impostos. Damaris tirou carta de
motorista e logo adquiriu uma perua, para facilitar
o transporte do material de trabalho.
Em 1968, passaram a fazer parte da VPR, tendo Lucena participado de diversas aes armadas. Em
1969, o casal j vivia na clandestinidade com os filhos, em Atibaia (SP), e era responsvel por guardar
os fuzis FAL subtrados por Lamarca quando fugiu
do quartel de Quitana (SP), em janeiro de 1969.
Seu filho mais velho, Ariston, tambm militante da
VPR, foi preso em 1970, aps ter escapado do cerco

militar estabelecido na rea de treinamento de guerrilha da VPR, no Vale do Ribeira (SP).


Em 20 de fevereiro de 1970, por volta das 15 horas,
a porta do stio onde a famlia morava em Atibaia
(SP) foi golpeada violentamente por militares. Lucena dormia. Comearam a atirar. Lucena tombou
gravemente ferido e, logo em seguida, recebeu mais
tiros. Foi assassinado, na presena de sua famlia.
Lucena foi sepultado como indigente no Cemitrio
de Vila Formosa, em So Paulo.

Damaris Oliveira Lucena

nasceu em
22 de agosto de 1925 em Cod, (MA). De famlia pobre, comeou a trabalhar aos 7 anos. O trabalho no
campo estendeu-se at os 16 anos.
Durante cinco anos trabalhou como fiandeira e
depois encarregada de compras na indstria ma-

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nufatureira. Por conta dos baixos salrios, decidiu


mudar-se para So Paulo onde acreditava que as
condies de trabalho seriam melhores. Chegou
cidade onde o marido Antnio Raymundo de
Lucena j estava, em 1 de junho de 1950.
Trabalhou na empresa de tecelagem Jafet por um
ano e posteriormente foi transferida para a creche
como cozinheira.
Damaris filiou-se ao Sindicato dos Txteis em 1950.
Pela sua atuao junto aos trabalhadores recebeu o
cargo de delegada sindical. Participou do Congresso
de Mulheres Operrias realizado no Rio de Janeiro
em 25 de maio de 1956. Na volta, foi demitida por
causar distrbios na populao fabril. Passou a militar no Partido Comunista.
Em 1958, no governo de Jnio Quadros, ajudou na
organizao da greve dos dez dias.

Em 1967, pediu afastamento por tempo indeterminado do Partido Comunista. Tinha uma intensa
militncia mesmo sem estar vinculada a nenhum
partido. No final de 1967 entrou para a Vanguarda
Popular Revolucionria (VPR) e logo seu marido entrou para a clandestinidade. Com a priso de vrios
militantes no incio de 1969, foram obrigados a entrar definitivamente para a clandestinidade.
No dia do assassinato de seu marido, Damaris estava em casa com as crianas. Ela conta que Lucena,
atingido, cara ao lado do tanque, j fora da casa,
quando um ltimo tiro foi disparado em sua tmpora, na presena dela e dos filhos. Damaris foi barbaramente torturada na OBAN e seus filhos foram
levados ao juizado de menores.

nacional: Chizuo Osava, Madre Maurina Borges


da Silveira, Digenes Jos de Carvalho de Oliveira,
Otvio ngelo e Damaris, que seguiu com os trs
filhos menores: Adilson Oliveira Lucena, 9 anos, Denise Oliveira Lucena, 9 anos, e ngela Telma Oliveira
Lucena, 3 anos e meio para o Mxico, onde ficou por
dezenove dias.
Logo depois, recebeu o convite de Fidel Castro para
viver em Cuba. Damaris chegou Cuba e permaneceu internada por vrios meses para se tratar das
torturas sofridas nos crceres brasileiros. Na Ilha
viveu e criou seus filhos. Voltou ao Brasil em maio
de 1980 onde seu filho Ariston tinha permanecido
preso por 9 anos.

Saram da priso por ocasio do sequestro do cnsul japons na capital paulista, Nobuo Okuchi, em
maro de 1970. Assim foram banidos do territrio

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1. Matria Jornal da Tarde do dia 23 de fevereiro


de 1970, aps o assassinato de Antnio e a priso
de sua famlia
2.Adilson, ngela Telma e Denise no DOPS,
So Paulo, 1970
3. Damaris durante sua priso no Brasil
4. Damaris com ngela Telma no colo,
Digenes Oliveira, Adilson, Shizuo Ozawa,
madre Maurina Borges, Denise e Otvio ngelo,
na chegada ao exlio, Mxico, 1970

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5. Ariston em So Paulo, 1953


6. Famlia Lucena no final de 1966
7 e 8. Ariston preso em So Paulo, 1970

10

9. Condenao pena de morte de


Ariston
10. Fichas de Ariston do DOPS
11. Ariston no presdio do Barro
Branco, So Paulo, 1977
12. Salvo conduto de Ariston

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A vida em Cuba
1. Damaris e Adilson em Cuba, 1970
2. Denise, ngela Telma e Adilson, Cuba, 1972
3. Marina Lamarca, Isaura Coqueiro, Damaris Lucena, prefeito da Ilha de
Pios e Ilda Martins Gomes da Silva, Ilha de Pios, Cuba, 1975
4. Damaris nos dias de hoje. Atrs, prmio La Utilidad de La Virtud,
que recebeu da entidade cubana La Sociedad Cultural Jos Mart em
reconhecimento a sua trajetria e vida dedicada militncia
5. ngela Telma, Cuba, 1970
6. ngela Telma, Cuba, 1973
7. asaindy Barrett de Arajo, Trinidad e ngela Telma
Cuba, 1976
8 e 9. Denise, Cuba
10. ngela Telma, Denise e Adilson na festa de 15 anos dos
gmeos Denise e Adilson, Cuba, 1975
11. Adilson, Cuba, 1972
12. Denise e Adilson, Cuba, 1974
13. Adilson, Cuba, 1973

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Revolucionria,
por Damaris Oliveira Lucena

Meus parentes por parte de pais so africanos.


Meu bisav foi vendido aqui no Brasil com toda
a famlia. S ficou um pequenininho com minha
bisav. Ento eu sou de gente que no se conforma
com injustia. Fui crescendo sempre achando que
as coisas no eram daquele jeito. Que era injustia
que se fazia. E me casei com um homem tambm
que no gostava de injustia. No fim, paramos em
So Paulo. A minha histria est a, todo mundo sabe. E a nos envolvemos com a luta armada
e com a reforma deste pas, deste grande Brasil,
desta maravilha que este pas, cheio de riqueza,
cheio de gente boa, cheio de cultura. Mas, infelizmente a riqueza deste pas mal dividida, a cultura mal dividida, tudo aqui mal dividido. Mas
ns vamos tocando. Quem sabe amanh ou depois
de amanh isso ser bem dividido.
Eu cheguei em So Paulo, me envolvi com os
movimentos sindicais, fui para o Rio de Janeiro,
e todo esse itinerrio de vida a no meio de todo
mundo que lutava. Eu assisti Segunda Guerra,
achava aquilo terrvel. Eu lia os jornais para meu
pai. Quando a guerra comeou, eu tinha 12 anos.
Quando terminou, eu tinha 17.
Sempre fui uma mulher lutadora contra a injustia. E graas minha disposio de luta, fui presa,
fui torturada, mataram meu marido, maltrataram
meus filhos, torturaram meu filho. As freiras batiam cabea, no queriam nossos filhos, que eram
os filhos terroristas. As freiras, imagine, as religiosas, as irms de caridade, tudo de chapeuzinho
branco na cabea, se benzendo toda hora.
E eu parei em Cuba, graas Revoluo Cubana.
Estudei, botei meu p dentro de uma faculdade,
que para mim foi uma das coisas mais maravilhosas que eu j vi, entrar em uma faculdade. Uma
faculdade Cubana. Estudei. Faltou s um aninho
para eu me formar. Acho que eu ainda volto l em
Cuba para me formar. De forma que eu sempre fui
uma mulher batalhadora. Procurei educar meus filhos no dizendo para eles serem comunistas, ou
revolucionrios.

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operria, me e companheira
Houve coisas terrveis
na minha vida: quando
eu vi meu marido morto
e eles com a arma em
cima de mim, dizendo:
Mata ela. Mata os filhos
dela. Foi, para mim, uma
coisa muito terrvel.
Uma vez eu vi meu pai conversando com uma
russa e ela falou para ele: Senhor Manoel, os vermelhos tomaram o poder l na Rssia. Os vermelhos? Eu pensei: Ser que eles tinham a pele
vermelha? Eu tinha 7 anos quando saiu a Revoluo Russa.
Eu vim escutar a palavra comunismo aqui em
So Paulo, quando eu cheguei. Eu perguntei: gente, o que comunismo?. Ah, companheira, comunismo as pessoas que querem que as pessoas
tenham escola, tenham alimento, hospital. Ah
bom, ento eu pensei. Eu sou comunista porque
eu quero que tenha tudo isso para todo mundo.
Ento, por isso eu me envolvi com a luta de beneficiar todo mundo.

esto pedindo esmola. E l em Cuba no tem isso,


graas Revoluo Cubana. Ns tnhamos tudo
do bom e do melhor.
Ento, foi uma coisa assim, deram um golpe brutal, mas brutal. Quando ns demos conta, a costa
brasileira estava cheia de navio americano. Olha,
o presidente se no tivesse ido embora ele tinha
sido assassinado como assassinaram o [Salvador]
Allende l no Chile.
Quando chegamos no Mxico, o Mrio Japa,
[codinome de] o Shizuo Osawa, foi ao consulado
cubano e l tinha uma carta do Comandante Fidel
Castro oferecendo asilo para mim e as crianas.
Que se eu quisesse, eu podia ir para Cuba. Quando ele me falou isso, foi uma das maiores satisfaes da minha vida, receber um convite de um
estadista. Eu, que era uma simples trabalhadora,
semianalfabeta. Foi uma das maiores alegrias que
eu tive na minha vida.

Houve coisas terrveis na minha vida: quando eu


vi meu marido morto e eles com a arma em cima
de mim, dizendo: Mata ela! Mata os filhos dela!.
Outra vez quando tiraram meus filhos e disseram
que iam nos matar. Foi muito triste, eu estava presa junto com a Dr Eliana Rollemberg, chegou a
polcia com o Capito Homero [Csar Machado] e
no sei quem mais com os meus filhos. Eu estava
em uma janela, e quando os vi, me deu uma crise
to grande que quase morro. Teve um momento
que eu pensei que eu ia perder o juzo. Eu pensei:
Vieram torturar os meus filhos para eu ver, e falar
onde estavam os meus companheiros. Para mim
foi uma das coisas mais tristes da minha vida. Eu
pensei: Se torturarem os meus filhos aqui, eu
morro. Eu falei para eles: Olhem, me matem e
matem os meus filhos. Est tudo terminado. Para
mim foi muito terrvel. Foi um momento duro da
minha vida. Eu procuro esquecer, mas, de vez em
quando, eu lembro das barbaridades da ditadura.

E para ns foi muito duro. E no governo do Presidente Joo Goulart, todo mundo na rua lutando
por reforma. Reforma agrria, reforma urbana, reforma educacional. Nem ningum falava em comunismo, nem ningum falava em religio. Se falava na reforma. Nosso entusiasmo era to grande
pela reforma, e ningum queria criar partido, criar
religio. A uma boa parte da igreja, com o senhor
Lincoln Gordon, representante mximo daquela
grande potncia norte-americana aqui no Brasil,
dono do mundo, dono da maior riqueza, que hoje
esquerda, Damaris, So Paulo, 2013.
Foto de Celso Imperatrice
direita, famlia Lucena reunida em So Paulo

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Duas ptrias, duas mes


por asaindy Barrett de Arajo

O processo histrico brasileiro da ditadura


me conectou famlia Lucena de uma forma
muito forte. Hoje eu sou uma integrante da
famlia e fico muito honrada.
Eu sou asaindy Barrett de Arajo. J fui
asaindy de Oliveira Lucena. Eu tive uma
certido de nascimento que tinha esse nome.
E foi com essa certido que eu vim para o
Brasil como se fosse filha legtima da dona
Damaris.
Sou filha biolgica de Soledad Barrett
Viedma e Jos Maria Ferreira de Arajo. Os
meus pais se conheceram em Cuba, onde
tambm nasci. Um ano aps meu nascimento, Damaris Oliveira Lucena chegava
com sua famlia em Cuba, no exlio. E foram
colocadas na convivncia em conjunto, na
mesma casa.

Chacina da Chcara So Bento, em Pernambuco, naquele conhecido episdio, devido


traio do Cabo Anselmo.
Em Cuba, as notcias chegavam para ns
assim: Morreu, no morreu, desapareceu,
foi preso, no foi preso. Ou seja, a gente no
tinha uma verdade definitiva. No havia corpos. Ento, eu fui ficando, ficando, ficando
com a Damaris. Ela foi me assumindo como
filha, eu fui assumindo ela como me, e os
filhos dela como os meus irmos. Essa afetividade foi se compondo e se fortalecendo. E
meus pais nunca voltaram.

Ento, a minha me seguiu na militncia.


Isso era fim de 1970. E ela faleceu em 1973, na
asaindy esquerda com 6 anos e, ao centro, com 4.
Ambas fotos em Cuba

E hoje eu continuo convivendo com a minha famlia, com a Damaris, cada vez mais
fortalecendo os nossos laos, que no so
fceis, porque foram muito polmicos em
algumas situaes. Por exemplo, como voc
querer assumir o nome dos seus pais biolgicos e, ao mesmo tempo, no rejeitar o nome
da sua me adotiva. Recuperar a sua identidade no quer dizer que voc v abrir mo de
uma identidade que voc construiu junto, ao
lado dela, como famlia.
Nossa chegada no Brasil, em 1980, foi cheia
de dificuldades. Inclusive a Damaris precisou esticar por mais um ano a permanncia
dela no exlio, justamente porque no tinha
uma soluo muito definitiva para o meu
caso. Foi uma situao complexa. Eu no era
filha legtima, mas tambm no tinha como
dizer que no era filha.

Quando eu tinha 1 ano e dois meses, meu


pai saiu de Cuba e veio para o Brasil dar continuidade sua militncia, na guerrilha. Dois
meses depois, em setembro, ele foi preso e
morreu sob tortura.
Minha me ficou mais um pouco em Cuba
e depois de uns quatro meses, mais ou menos, ou seja, em dezembro do mesmo ano,
1970, ela partiu tambm para dar seguimento sua militncia. Eu permaneci em Cuba,
em companhia da Damaris e dos seus filhos,
j bem integrada, porque j morvamos juntos h alguns meses.

dos meus pais. E a partir da comecei a sofrer


isso com mais fora. E tambm, ao mesmo
tempo, desejei saber quem eram eles, como
eles eram, onde eles estavam, se estavam vivos ou mortos. Mas, mesmo assim sempre
estive muito acolhida com a Damaris, com os
irmos. a minha famlia.

Eu no me lembro exatamente dos fatos,


mas eu sabia que tinha alguma coisa diferente na minha prpria condio de criana em
Cuba com os outros exilados. A Damaris sempre me disse quem eram os meus pais, mas eu
me lembro de um momento em que isso ficou
mais visvel.
Eu tinha 10 anos quando algum fez um
quadro com fotos dos meus familiares. Acho
que foi ali que eu tomei conscincia da perda

Bom, no final das contas consegui vir para


o Brasil, o que para mim foi um choque, para
quem viveu em Cuba e conhecia a dignidade
martiniana e a tica do respeito ao ser humano. Para quem compreendia alguns valores
da vida, da igualdade, da solidariedade.
Quando cheguei ao Brasil, ca na real mesmo do que era ter sado de Cuba. A foi bem
complicado. Eu tinha 11 anos. E vivi dezesseis
anos no pas com uma dificuldade enorme de

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documentao, porque ainda era a ditadura


e havia toda uma dificuldade de acessar os
rgos responsveis pela questo de RG, documento. Ento eu fiquei 16 anos clandestina
no Brasil, desde a data que chegamos. S fui
adquirir minha identidade com meu nome legtimo em 1996.
So trinta e tantos anos de uma terapia autodidata, feita base da experincia, de um
autorreconhecimento, de autoconhecimento.
Eu tenho quatro filhos. Os prprios filhos fazem a gente refletir muitas coisas. Fazem a
gente se sentir criana. E eu tenho muito orgulho de ser filha de Soledad Barrett Viedma,
de Jos Maria Ferreira de Arajo e de Damaris Oliveira Lucena. E de ter meus irmos. Tenho muito a agradecer a eles.

Tudo o que aprendi, a mulher que eu sou


hoje, por causa da Damaris. A Soledad tem
a sua fora. Foi uma mulher incrvel, que
cada vez que eu conheo mais, gostaria muito de t-la conhecido, com certeza. Eu acho
que ela tem aspectos muito contemporneos
que foram calados. Ela era uma mulher muito livre. Estudar a Soledad falar da mulher,
do feminismo, da importncia da educao.
falar de um monte de coisas.
Mas, no dia a dia, na convivncia, na educao, na criao, muitos valores foram
transmitidos pela Damaris, pela famlia. E
eu tenho muito a agradecer.
Quanto questo da Comisso da Verdade, maravilhoso que esteja acontecendo,
que tenham pessoas assistindo, presentes.
Que seja, de alguma maneira, replicado. No
existe situao melhor para a gente refletir,
inclusive sobre a nossa responsabilidade
como testemunhas, como pessoas vivas da
experincia.
Tem essa coisa que incrvel: passam os
anos e, quando se desperta, de repente encontramos algum que fez parte daquele momento com voc, mas que voc no reconheceria na rua. Se no fossem esses momentos,
esses encontros, da gente estar se recuperando, se aproximando, dando as mos... E esse
crculo cresce muito. Cada vez mais, na hora
que voc inclui os netos, os jovens que esto
a hoje e que esto prximos a essa histria
por nossa via. Isso muito importante.

102

Quando a gente pensa na infncia, tem


a questo da ausncia e do exlio, que eu
acho que muito forte. Estar fora da sua ptria, longe dos seus familiares, uma coisa
que marca muito. No caso da Damaris, por
exemplo, ela tinha ainda um filho que estava preso, que o Ariston. A segurana dele
estava sempre em risco, sempre tinha essa
preocupao, como ele estaria vivendo, o
que ele estaria vivendo dentro da priso. J
se sabia de tantas barbaridades.

No momento em que,
ou eu perdi a minha me
ou na minha despedida,
quando eu soube que eu
no veria mais a minha
me, mesmo estando
no colo de uma pessoa
que eu j amava, eu
queria morrer
Essa coisa dela com o filho, essa preocupao, de como ele estaria, isso permeou
a minha infncia. E a ausncia dos meus
pais biolgicos, legtimos, ficou muito presente quando eu tomei conscincia disso.
Isso passando pelos conflitos, de todo um
processo de questionamento das escolhas
deles, a experincia histrica. Eu no tive
essa conscincia, essa memria que a Telma
[Telma Lucena, irm adotiva] tem. Ela era
to jovem e lembra como tudo foi. Ela uma
pessoa que tem uma dimenso, um nvel de
conscincia e de memria muito aflorado.
Eu no. Eu fui diferente. Eu, conscientemente, no tenho nenhuma lembrana. Nem
de estar com meu pai e nem com a minha
me. Mas, nos meus processos teraputicos,
vamos dizer assim, tive oportunidade sim
de me encontrar com o que seria o momento de despedida da minha me. E, pelo que
parece, no sei se memria ou inventado
porque chega uma hora que voc no consegue mais saber identificar muito bem ,
nesse momento eu escolhi morrer. No momento em que perdi a minha me ou na minha despedida, quando eu soube que eu no
veria mais a minha me, mesmo estando no

colo de uma pessoa que eu j amava, eu queria morrer. E isso eu fiquei sabendo depois.
E durante toda a minha vida, e talvez ainda
at hoje seja ainda o que eu ainda quero. Ento muito difcil para a gente lidar.
E tem a forma como ela foi assassinada,
todo esse cenrio, isso tudo tambm, de alguma forma, faz a gente tocar nessa questo
da violncia. muito forte.
Eu tenho certeza e costumo dizer que eu
no tive infncia. Eu sempre fui uma pessoa isolada. Brinquei um pouco, mas no o
quanto poderia, vamos dizer assim. Sempre
me vi, na fase da adolescncia, como um extraterrestre, totalmente distanciada, muito
solitria. Muito, muito, muito mesmo. Eu vivia em um mundo totalmente parte.
Ento, realmente, acredito que filhos [de
perseguidos, desaparecidos e assassinados
pela ditadura] vivenciaram uma dificuldade de adaptao, de identidade, de autoconhecimento. Estamos meio atrasados na
vida. De alguma forma ou de outra voc se
atrasou. Eu pelo menos me considero muito
atrasada. Eu me formei faz dois anos.
E, ao mesmo tempo a gente v que a maioria das pessoas est de alguma forma engajada, comprometida com a sociedade. E,
ns, com certeza, fazemos questo de dar
continuidade a essa luta dos nossos pais.
Isso uma coisa, um comprometimento e,
mais do que isso, uma coisa que est dentro da gente. Pelo menos dentro de mim. O
meu caminho, a escolha principal a educao, com certeza. Educao , a princpio,
um grande caminho. Mesmo assim pode ser
bem desvirtuado. Mas, muito importante
que ns no deixemos de atuar, que a gente
sempre se coloque, se posicione, diante de
todas as situaes. Que mantenha esse carter tico constante de fazer a sua ao a sua
palavra, a sua palavra a sua ao.
ASAINDY BARRETT DE ARAJO nasceu em 4 de abril
de 1969, em Havana, Cuba. Filha de Soledad Barrett
Viedma e Jos Maria Ferreira de Arajo. Filha adotiva
de Damaris Oliveira Lucena. pedagoga e faz especializao em Artes Visuais, Intermeios e Educao. Atualmente trabalhando como capacitadora em um Portal Educativo. me de Yalis Lucena
Drummond, Ivich Barrett Queirolo, Habel Davi de Arajo
Lpez e Diana de Arajo Lpez

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Jos Maria Ferreira Arajo,

ou Araribia,
nasceu em 6 de junho de 1941, em Fortaleza (CE), filho de
Joo Alexandre de Arajo e Maria da Conceio Ferreira de
Arajo. Desaparecido em 23 de setembro de 1970. Militante da Vanguarda Popular Revolucionria (VPR).
Preso em 23 de setembro de 1970 pelo DOI-CODI/SP e levado s cmaras de tortura, morreu em consequncia das
mesmas. Vrios presos polticos testemunharam as torturas a que foi submetido e sua morte, segundo denncia
feita pelos presos polticos de So Paulo enviada CNBB,
em fevereiro de 1973, encontrada nos arquivos do DOPS/
SP. Seu nome constava como Edson Cabral Sardinha, pois
a Comisso de Familiares de Mortos e Desaparecidos Polticos no tinha contato com seus familiares.

Com o nome de Edson Cabral Sardinha, sua morte foi denunciada na carta escrita pelos presos polticos do Presdio do Barro Branco encaminhada ao presidente da OAB,
Dr. Caio Mrio da Silva Pereira, em 25 de outubro de 1975,
segundo a qual foi assassinado pela equipe do capito
Benoni de Arruda Albernaz.

Seu paradeiro foi descoberto por meio de pesquisas realizadas nos arquivos do IML/SP pela Comisso de Familiares de Mortos e Desaparecidos Polticos, onde constava
ter sido enterrado com o nome falso de Edson Cabral
Sardinha na quadra 11, sepultura 119, do Cemitrio de Vila
Formosa I. No laudo necroscpico, o nome de Edson Cabral Sardinha est identificado por um T em vermelho (de
terrorista), recurso utilizado pelos rgos de segurana
para diferenciar os corpos dos ativistas polticos dos demais que por l passavam. Somente com a abertura da
vala clandestina do cemitrio D. Bosco, de Perus, na cidade de So Paulo, em 1990, seu verdadeiro nome foi divulgado e seus familiares localizados.
Jos Maria conheceu Soledad Barrett Viedma em Cuba,
onde realizou treinamento de guerrilha quando era militante do MNR. Soledad foi assassinada em janeiro de
1973, em Pernambuco, junto com outros companheiros
delatados pelo Cabo Anselmo Jos Anselmo dos Santos
, um agente dos rgos de segurana infiltrado nas organizaes de esquerda.

1 e 2. Jos Maria Ferreira de Arajo, pai de asaindy, era militante


da VPR e desapareceu em 23 de setembro de 1973
3 e 4. Soledad Barrett Viedma, me de asaindy, foi morta no
episdio conhecido como Massacre da Chcara So Bento
5. asaindy ainda beb nos braos do pai, Cuba
6. asaindy aos 9 anos com seu cachorrinho de pilha

Soledad Barrett Viedma, ou Viejita, nasceu


em 6 de janeiro de 1945, em Laureles, no Paraguai, filha de
Alex Rafael Barrett e Deolinda Viedma Barrett. Morta em
8 de janeiro de 1973, no Massacre da Chcara So Bento,
municpio de Paulista (PE). Militante da Vanguarda Popular Revolucionria (VPR).
Foi casada com o militante da VPR, Jos Maria Ferreira de
Arajo (desaparecido em 1970), com quem teve uma filha,
asaindy Barrett de Arajo, que cresceu em Cuba e hoje
vive no Brasil.
Soledad vivia com o seu companheiro Cabo Anselmo, cuja
participao como agente policial infiltrado no Massacre
da Chcara So Bento foi relatada de forma detalhada
no documento intitulado Relatrio de Paquera, encontrado no DOPS/SP. Suspeita-se de que estivesse grvida
dele, quando levou quatro tiros na cabea e dois no pescoo, aps ter sido presa e levada chcara. Tinha marcas
de algemas nos pulsos e equimoses no olho direito, o que
desmentiu a verso oficial de morte em tiroteio. Junto com
ela, mais cinco militantes da VPR foram mortos no Massacre. Soledad foi enterrada como indigente, sem qualquer
identificao, no Cemitrio da Vrzea, no Recife.

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O novo arrimo de famlia


por Jaime Martinelli Sobrinho

Eu sou o mais velho dos irmos, portanto o


que no sofreu o que eles sofreram. Eu fui mais
cobrador do meu pai, tinha 15 anos em 1964. Depois do golpe, fomos distribudos na casa de estranhos, depois parentes ficaram com cada um
dos irmos, at que meu av nos reuniu numa
casa de aluguel. E s quando ele [o pai, Raphael
Martinelli] apareceu voltamos a conviver.
Ele era um lder sindical conhecido nacionalmente. Eu, na poca, era s o colecionador de
fotos da revista O Cruzeiro, do homem que parava o Brasil com um telefonema. E no tinha
noo do tamanho da grandeza do meu pai.
Logo ns percebemos que eu tinha que arrumar meu primeiro emprego. E assim aconteceu. Ele, por ser uma pessoa que sempre lutou
contra a ditadura foi preso na sede do Inocoop.
E eu j estava trabalhando.
Ele no foi preso e localizado, ele foi preso e sumido. A histria meio longa, mas foi
atravs de uma tia que conhecia uma pessoa
de alta patente do Exrcito que morava na rua
que ela morava que conseguimos localizar
onde ele estava. Ela pediu para a famlia ir at
a porta da OBAN levando roupa, para ficarem
sabendo que o tnhamos localizado. E assim a
vida foi, para mim, um pouco difcil porque eu
passei a ser arrimo de famlia e comecei a controlar os meus irmos, que em seguida foram
tendo funes tambm na empresa que eles
comearam a trabalhar. E aquela velha histria
de pegar os envelopes de pagamento, pe tudo
aqui na mesa, passei a ser o pai deles.
A gente tem um rompimento de amor por
causa dessas coisas de inverso de papeis. Tem
uma carta, inclusive, que a Rosa me passou, h
pouco tempo, que eu escrevi ao meu pai dizendo isso, que ele precisava, na visita que o Edson
esquerda, Jaime, ao centro, com a me Maria Augusta e o pai
Raphael Martinelli, So Paulo, 1952

fizesse l, conversar com ele e dizer que no


fosse rebelde, porque eu controlava o dinheiro.
[Ele] tinha uma namorada, que a esposa dele
hoje, mas o dinheiro, quem separava para ele ir
ao cinema era eu, o Jaime. Era eu que fazia as
funes ruins da famlia.

Fui filho nico por


quatro anos e pouco
e depois ele j [estava]
metido em poltica.
Meus outros irmos
sofreram, no
conheceram esse
pai que eu conheci
E comecei a ser um questionador do meu pai.
Eu ia visit-lo, mas no tantas vezes. Comecei a
ter revolta pelo fato de ele ter sido lder poltico, cassado, procurado. E passada aquela fase,
ele se envolveu com a luta armada e acho que
ele no pensou tanto na famlia. Ns no sabamos o que ele fazia. Eu no sei se isso foi uma
defesa para a famlia. Se ns tivssemos sido pegos, torturados, no teramos o que falar do meu
pai. Nem a me e nenhum dos filhos sabamos
o que ele estava fazendo.
Fomos descobrindo tudo com o processo, sobre as torturas, eu questionava muito que ele
no devia ter se metido novamente naquilo. Eu
acho que um idealista no devia ser pai. Mas
como ser humano, como algum que o conhea, que conversa, vira f do velho. Ele uma
pessoa rara que passou por altos cargos e no
teve um tosto na vida. A casa que ele teve foi
graas aos filhos pagarem as mensalidades do
Inocoop, ele iniciou, mas ns que pagamos o

carnezinho. Imagine, uma pessoa que foi amigo do Presidente da Repblica, amigo do Joo
Goulart, nessa situao.
Ele nunca quis nada para ele, sempre lutou
pelo bem do povo brasileiro e hoje isso parece
uma utopia. Hoje, a gente v tudo que acontece a, uma pessoa que nem o prprio Lula,
que sai de uma condio de nada e hoje um
milionrio. No que a gente quisesse isso para
ns, mas meu pai merecia um reconhecimento,
meu pai merecia.
E o que eu acho que uma pessoa que graas a Deus temos tempo para consertar todos
esses erros de no entend-lo. Ns passvamos
Natais com todos os irmos dele, aquela farra
de famlia italiana, que ele adorava e ns no
conseguimos ter essa unio pela falta dele.
Eu tive sorte que meu nome no tem a ver
com a poltica dele ainda, pois os outros todos
tiveram. O meu irmo Edson Lenin Martinelli
e carregou isso na escola. Eu acho que meu pai
deveria ter tirado esse carimbo dos filhos. A
gente no merecia isso, mas ele era um idealista, e pacincia. E comigo e meus irmo ele teve,
o que adora, que so os netos. Junto dos netos
a gente v isso. Ele um moleque junto dos
netos, tem uma sade de ferro para brincar, e
eu passei por isso como filho.
Fui filho nico por quatro anos e pouco e depois ele j [estava] metido em poltica. Meus outros irmos sofreram, no conheceram esse pai
que eu conheci. Eu tenho certeza que o maior
cobrador dele de tudo, fui eu. Hoje ns j tiramos algumas barreiras da frente, mas ele sabe
que eu fui o filho mais incompreensvel.
Uma coisa que eu queria deixar claro, e eu
acho que a Comisso da Verdade est batendo
muito nessa tecla, Tortura Nunca Mais. Meu

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pai foi torturado de maneira brbara. Ele era


treinado para isso tambm, no podemos dizer
que era nenhum bobinho. Ele foi treinado para
tudo isso, mas ele esteve em um programa
agora, recentemente, do Antnio Abujamra,
Provocaes, onde falou uma coisa que eu ouvi
pela primeira vez e que marcou muito. Foi perguntado por que ele era da linha stalinista, que
para mim sempre foi um criminoso dos maiores que teve nessa humanidade. Ele foi questionado pelo Abujamra: Mas, stalinista? E
ele falou: Sim, porque Stalin matava, mas no
torturava. Tortura a coisa mais absurda que
existe no mundo. E eu acredito que s quem
tenha passado, e ele passou, pode dizer isso
com todas as letras. muito mais fcil matar
do que torturar. Ento, essa coisa horrvel que
algumas pessoas esto passando aqui pela Comisso da Verdade tentando se defender, as
pessoas no podem ser humanas fazendo torturas com seres humanos.

Tanto que dois de ns, trs se divorciaram,


voltaram para casa adulto, pai de filhos. E a
maior alegria dela foi nos receber, as ex-noras
ficaram horrorizadas ao verem que ela podia
cuidar de ns de novo. Que foi o que ela soube
fazer a vida inteira. Ela no queria nenhuma outra coisa que no cuidar dos filhos. Sobre ns, os
quatro irmos se formaram, trabalhando e pagando seus cursos superiores. E pudemos fazer
o inverso com os nossos filhos, graas a Deus.

No pode ter uma inteligncia, por exemplo,


de uma ditadura colocada naquele momento
que tenha que se fazer dessa coisa absurda,
dessa coisa abominvel para que se possa vencer uma mentalidade contra o atual regime da
poca. Ento, isso que eu queria deixar gravado. A Comisso da Verdade eu tenho acompanhado e espero que tenha bastante frutos.
Tem algumas pessoas a com a idade do meu
pai, que podem dar depoimentos e dizer quem
realmente so torturadores, quem realmente
fizeram essas coisas horrveis.

Sobre o meu pai, ele deve ser uma pessoa


muito decepcionada com amizades, o que
criou para mim um problema serssimo. Eu tenho um amigo s, que meu compadre. No
tenho mais porque hoje em dia uma dificuldade ter amigos. Eu lembro do meu pai falando
bem de Lula em casa, quando era lder sindical
e estava viajando o mundo, sendo acusado por
isso. E meu pai defendendo, dizendo que ele
tinha feito a mesma coisa para os filhos l em
casa. Eu fiz a mesma coisa (quando lder sindical), conheci o mundo sendo convidado sem
ter um dinheiro no bolso, sendo chamado, e o
Lula est fazendo a mesma coisa. E no era.

Acho que a nossa [vida] ainda foi privilegiada.


A nossa no teve nascimento em cela de tortura,
mes dando a luz em crceres, a nossa ainda foi
privilegiada. Graas a Deus estamos todos com
sade, com netos, e a tocando a vida.

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Tortura a coisa mais


absurda que existe no
mundo. E eu acredito que
s quem tenha passado,
e ele passou, pode dizer
isso com todas as letras

Espero maior sucesso para a Comisso da


Verdade e que realmente vocs prestem ateno, esse homem no vai estar mais muito tempo entre ns, apesar de ter uma sade melhor
que a minha, mas uma figura rara, na poltica
brasileira uma figura rara.

Eu fico imaginando a decepo dele com o


Jos Dirceu, com o Genono, com o Luiz Eduardo Greenhalgh. Quando eu estava divorciado,
[morando] na minha me, atendia telefonema
dessas pessoas procurando pelo meu pai. Devem ter usado todo o conhecimento que ele
teve como lder sindical, como tudo que ele
conhecia de ferrovia e conhece at hoje, e est
sempre atualizado. E essas pessoas esto usando isso at hoje.

O meu compadre, que nas ausncias dos


meus irmos um irmo tambm, falou uma
coisa sobre a minha me, uma coisa que me
marcou pelo resto da minha vida. Ele diz que
ela tinha que ser canonizada viva. Ele conheceu ela como frequentador da nossa casa, e ela
no era uma pessoa que por ser apoltica, no
era sem vida. Eu tenho certeza absoluta que ela
era uma me galinha.

Ele, como idealista, uma pessoa com capacidade enorme sem ter feito nenhuma fortuna
alheia, no pegando nada que no era do nosso
pas, e esses sem vergonha dessa bandidagem
toda que ele considerava como pessoas dignas,
e esse papelo. Ento, imagine meu pai, nunca
perguntei isso para ele porque a gente no tem
essa liberdade, mas a decepo que ele tem com
pessoas que ele confiava. uma coisa terrvel.

Eu comprovei que o Joo Goulart era amigo


do meu pai, porque quando ele esteve na lista
para ser trocado pelo cnsul, ele se recusou a ir
porque queria cumprir o que devesse e ele devia
mesmo, porque na ocasio ele lutava contra a
ditadura. Ento ele quis pagar no Brasil o que
estava fazendo de errado, quis cumprir a pena
dele aqui como cumpriu. A gente estava naquela situao muito ruim na Lapa de Baixo [Em
So Paulo], morando de aluguel, sendo ajudado
por parentes. E a um amigo do Joo Goulart
veio em casa conversar com minha me para falar que o Joo Goulart estava chamando para a
gente viver no Uruguai, ter emprego para o meu
pai l, para a gente largar tudo e ir embora. E ele
logicamente como , no aceitou. Mas, teve esse
nico amigo que reconheceu mesmo e sabia
que meu pai estava passando as necessidades.
E essa pessoa subiu na Lapa de Cima, porque
viu a situao que a gente vivia, que no tinha
nada, comprou uma mquina de lavar e mandou
entregar em casa.
Ns nos amamos, mas temos problemas entre irmos. Hoje contei para o Edson uma passagem de como a gente saiu do Rio de Janeiro
e ele no lembrava, porque era bem menor que
eu. Ento, tem algumas coisas que eu conheo
e eles no conhecem. falta da convivncia de
irmos. Mas o que eu queria dizer isso, que
tenho dificuldades para amizades.
Outra coisa que meus irmos talvez no saibam do meu pensamento. Com dificuldades
eu trabalhei em multinacionais, vivi, cresci,
comprei minha casa prpria, meu carro, eduquei meus filhos, tudo, e a gente assistiu que
esse mundo no para pessoas que nem meu
pai, honesto. A gente teve na nossa frente um
monte de caminhos errados para seguir para
ficar muito bem de vida. Eu recusei todos. E tenho certeza que por algumas conversas que eu
tive com o Edson, ele igualmente. Ns tivemos
esse problema de no triar, se for em benefcio prprio, fazer alguma coisa contrria lei,
conforme a honestidade que meu pai nos criou
uma herana fantstica para ns, a gente
no triou. No lamento nem um pouco isso e
graas a deus estou como o Edson falou, estou
feliz com a minha vida. Podendo abraar meu
pai, tendo tempo de falar aqui, eu te amo, pai.
Ainda est em tempo de falarmos isso.
JAIME MARTINELLI nasceu em 15 de maro de 1949.
Filho de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins
Martinelli, economista aposentado.

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Adolescncia perdida
por Edson Lenin Martinelli

Tudo comeou em Jundia (SP). Ns nascemos l, meu pai era ferrovirio, minha me,
domstica. Fomos crianas normais, brincamos na rua, em campos de malha. Enquanto
isso, meu pai iniciava nas causas sindicais e
socialistas. Fomos crianas que curtimos a mudana para o Rio de Janeiro e continuamos a
brincar na rua e passear em Copacabana, para
onde nossos pais nos levavam todos os domingos. Enquanto isso, meu pai se destacava
na federao dos ferrovirios e na greve da
classe ferroviria.
Fomos crianas que viajamos pelas praias
da Bahia, Pernambuco, ficamos hospedados
em casa de frente para o mar enquanto meu
pai era ovacionado nos palanques das ruas e
praas. Fomos crianas que vivenciamos o primeiro terror de ter que fugir na madrugada de
maro em 1964, enquanto meu pai fugia para
outros destinos que no o nosso.
Fomos crianas instaladas em casas de estranhos em cidades desconhecidas ao fim da
fuga. Fomos crianas separadas em casas de
tios diferentes e deles dependentes. Fomos
crianas com dificuldades em diferentes escolas naquele ano. Enquanto, por um ano, no
conseguimos saber onde estava o nosso pai.
E felizes por poder viver com ele novamente
aps essa ausncia assustadora.
Fomos filhos que voltaram a brincar nas vrzeas da Lapa de Baixo, mas fomos crianas que
tiveram que justificar dezenas de vezes o porqu desses nomes e sobrenomes associados
esquerda. Enquanto meu pai continuava na
luta da esquerda brasileira. Fomos pr-adolescentes assustados e horrorizados com a notcia

da priso por quatro anos e tortura de nosso


pai. Fomos pr-adolescentes que tivemos que
ir ao trabalho mais cedo para sustentar a nossa casa. Paramos de brincar e de viver o fogo
da idade. Tivemos que nos policiar no trabalho para no sermos taxados como burgueses,
tambm tinha essa dualidade.

s vezes, no nosso
egosmo a gente achava
que esse amor do meu
pai pela luta no vinha
para ns, s ia para os
outros. E a gente tinha
raiva do meu pai por
causa disso a
Fomos adolescentes e parceiros do meu pai na
formao e campanha do novo partido construdo para ns, o PT. Fui namorado de uma nica
mulher, me apaixonei e com ela casei. Enquanto
meu pai levantava a bandeira do PT e por ela
lutou at a posse do seu lder maior.
Fui eleitor do Jos Dirceu, Jos Genoino e
Lula, enquanto meu pai no conseguiu nenhuma nica funo de liderana dentro do governo do PT. A vida foi acontecendo. Fui, acredito
que sou um bom marido, bom pai e perdi minha
me. Enquanto meu pai perdeu a esposa, perdeu a oportunidade de ajudar intensivamente o
nosso Brasil por no governar, no deixarem ele
participar do processo do PT.

Hoje sou um cidado com 60 anos de idade,


perdendo a esperana em ver o que sobrou do
meu pai, e o que ele e eu sonhamos de alguma
forma para essa vida. Perdi um pouco da infncia, um pouco da adolescncia, e um pouco da
convivncia do meu pai. Perdi um pouco de dinheiro que queria ter, um pouco da convivncia
com os meus irmos, perdi e perdemos muito.
Perdemos partido, perdemos vozes que nos do
a esperana em ao. Perdemos governantes no
sentido eficiente da funo. Perdemos opo de
votos e perdemos os eleitos.
Perdemos o cumprimento das leis e suas
punies. Perdemos sade, gentileza, educao,
decncia e por a afora. Mas ganhamos. Ganhei
meus filhos, minha esposa, minha moradia,
a vida longa do meu pai. Ganhei meus irmos
e amigos, ganhei conscincia, dignidade e
honestidade.
Ganho em viver e poder dizer agora que as
perdas fazem parte da nossa vida e que futuras geraes de filhos e pais sindicalistas, polticos ou no, de alguma forma, contriburam
para a construo de uma vida melhor. Essa
semente sob a forma de tortura, ideal, luta, ou
por simplesmente educar seus filhos de forma
amorosa foram plantadas por mim, minha esposa, meus irmos, minha adorada me, meu
querido pai.
Sou uma clula viva com capacidade de ajudar nas transformaes para um mundo feliz.
No nosso egosmo a gente achava que esse
amor do meu pai pela luta no vinha para ns,
s para os outros. E a gente tinha raiva do meu
pai por causa disso a. Eu principalmente.

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Maria Augusta com os trs filhos, no Rio de Janeiro, 1962. Da esquerda para direita, Luiz Carlos
aos 5 anos, Maria Augusta (grvida de Rosa Maria), Edson aos 8 anos e Jaime com 13 anos

Eu tive que ficar por


vrios anos escondendo
esse Lenin no meu
sobrenome. Eu tive
um professor que era
sargento que me
olhava de uma forma
estranha nas aulas
de educao fsica
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O sobrenome Lenin, por exemplo, hoje voc


v a esttua do Lenin cada no cho. Que homenagem foi essa? Isso confunde at hoje.
Por que derrubaram a esttua do Lenin? Ele
merecia isso a? E eu tive que ficar por vrios
anos escondendo esse Lenin no meu sobrenome. Eu tive um professor que era sargento que
me olhava de uma forma estranha nas aulas de
educao fsica.
Muita coisa se perde. Eu acho que a gente
perdeu a adolescncia, perdeu muita coisa.
Mas a gente idolatra muito meu pai. Apesar
de falhas como pai, porque ns somos rfos
com pai, porque o idealismo dele faz com que

acontea isso a. Prejuzos, a gente teve alguns


prejuzos. Trabalhar muito cedo, vida dura, deixar todo o dinheiro em casa at os 23 anos de
idade. Voc no viver mesmo o fogo da adolescncia, a gente sofre um bocado, mas a coisa
forte que fica como eu coloquei. Fica a dignidade, a honestidade, ter esse exemplo de pai
que no tirou um tosto de ningum. Hoje eu
sou uma pessoa feliz. E feliz de estar do lado do
velho at hoje, com 89 anos. Sofri mas sou feliz,
como diz aquela msica.
EDSON LENIN MARTINELLI nasceu em 21 de agosto de
1953. Filho de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins
Martinelli, formado em Administrao de Empresas, trabalha como consultor em empresas.

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Amor silenciado
por Rosa Maria Martinelli

Na primeira vez que tivemos


que fugir do Rio de Janeiro para
So Paulo, eu tinha s 2 anos.
Meu pai estava sempre viajando,
e quando ele retornava, sempre
tinha uma bonequinha, uma coisa
assim. E da primeira vez, quando
ele foi preso em 1970 eu vi que ele
demorava a voltar, e eu sentia que
as pessoas em volta, as pessoas
prximas queriam me poupar de
saber exatamente o que estava
acontecendo com ele. Eu era muito menina e apegada a ele, sentia
que as pessoas cochichavam e escondiam de mim.
Acho que se tem alguma coisa
que aprendi quando eu era pequenininha, foi silenciar. Silenciar
a palavra que me vem imediato na cabea. Era sempre xiiiu,
no pode falar. Eu perguntava,
e falavam psiu. Era sempre um
silncio e eu chorava muito porque sentia a falta dele. E lembro
quando a minha tia, irm do meu
pai ficou sabendo que ele estava
no DOPS. Eu nem sabia o que era
DOPS, achava que ia visit-lo em
algum lugar, tinham encontrado
meu pai.
Fui com minha tia. Ela me levou porque eu era
uma criana que no estava mais dormindo
noite, e ela quis me aliviar. E eu me lembro que
foi uma cena muito marcante nesse dia porque
eu cheguei num lugar muito escuro, com pare-

ver que aquele homem ali na minha


frente era meu pai, ele era uma pessoa fisicamente diferente.
Ele chegou bem prximo de mim,
colocou a mo na minha cabea e
foi nesse instante que eu vi que era
ele. Eu no entendia nada, mas lembro de uma coisa que me chamou a
ateno, quando eu fecho os olhos e
lembro desse dia, era a camisa dele
abotoada errada. E as mos tremiam
muito. E, novamente, eu caio naquela palavra silncio porque na minha
curiosidade infantil queria perguntar: E a, pai, o que est acontecendo? O que aqui? Me lembro da minha tia falando xiu, e ento, foram
duas coisas muito marcantes.

Rosa Maria e sua professora do


Grupo Escolar, em So Paulo, 1968

des escuras. Cheguei muito feliz porque ia rever meu pai. Essa uma cena muito marcante
na minha memria, porque quando meu pai finalmente apareceu, dois homens o amparavam
e ele estava irreconhecvel. Eu no conseguia

A segunda situao que eu lembro j foi no presdio Tiradentes, eu


passava em revista junto com minha
me. Numa das vezes, meu pai fazia
aniversrio e minha me quis fazer
um bolo, passamos praticamente a
sexta-feira inteira fazendo aquele
bolo. Tnhamos pouco dinheiro e
aquilo era um acontecimento. E o
dia seguinte era um sbado, quando
aconteciam as visitas. Fomos at l,
eu e minha me. E nos meus olhos infantis, era
inconcebvel ver aquela mulher [do presdio]
cortando o bolo em pedaos. Ela praticamente
destruiu o presente que a gente ia dar para o
meu pai. E mais uma vez eu perguntei, Me,
porque ela est fazendo isso? E minha me
me mandou fazer silncio de novo.

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Rosa na horta da casa de sua famlia no bairro da Lapa, So Paulo, 1968

Eu passava na revista
feminina e aquilo
era para mim uma
coisa absurda. Eu era
criana, tinha que
abrir a boca, tinha
que abrir as pernas,
eles vasculhavam
meu corpo todo para
poder entrar
110

Eu passava na revista feminina e aquilo era


para mim uma coisa absurda. Eu era criana,
tinha que abrir a boca, tinha que abrir as pernas, eles vasculhavam meu corpo todo para
poder entrar. Mas ali era sempre uma coisa boa
para mim. Eu ficava feliz de ir at l porque sabia que ia v-lo e podia brincar. Era um ptio
enorme, eu lembro dos dois pavilhes, onde, de
um lado, ficavam os presos polticos e do outro,
os presos comuns. E eu sempre estava perto dos
presos comuns, porque eu fazia umas brincadeiras, eles me jogavam colares, jogavam pulseiras
e eu ficava feliz.
Ali eu conheci outras pessoas como meu pai,
mais jovens, com quem eu tinha afinidade por
histrias. Sempre gostei de ouvir histrias, e

recentemente eu tive a felicidade de reencontrar um senhor que esteve preso junto com o
meu pai. Na poca, ele era estudante, jovem.
Eu pedia que deixassem ele andar comigo pelo
ptio, porque ele era um grande contador de
histrias. Eu tive a felicidade de reencontr-lo
e de promover tambm o encontro dele com o
meu pai, o senhor Luis Paulino. Foi muito emocionante o encontro porque meu pai nunca nos
fala sobre tortura.
Atravs desse senhor eu soube que eles se conheceram exatamente num dia em que meu pai
estava indo para os pores, estavam entrando
juntos para a tortura. Eles no se conheciam e
ele, muito amedrontado, diz ao meu pai: Puxa,
eu tenho uma placa de metal na minha cabea,

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eu fui operado. E eu tenho muito medo que eles


me batam e eu possa morrer. Ele mesmo me
contou essa histria. Meu pai tem uma grande
dificuldade de falar nisso. Ele disse: quando eu
entrei, a primeira coisa que o seu pai fez foi falar: no bata nele. No bata na cabea dele. Ele
tem um problema assim, assim. E ele acha que
ele foi salvo por conta de o meu pai ter dito isso.
O aniversrio dele de 70 anos foi no ano passado e ele quis muito que meu pai fosse. Eu o
levei, e ele colocou essa histria publicamente.
Eu achei muito bacana porque mostra bem a
pessoa do meu pai, que esse cara que sempre pelos outros. Muitas vezes ns, filhos, ficamos muito a parte da vida dele, porque ele
queria nos poupar de saber tudo que estava
acontecendo. Eu, por muito tempo, no quis
saber dessa histria.
Por volta dos meus 30 anos, tive a curiosidade de recolher umas fitas cassete que meu
pai deixava para alguns jornalistas na poca.
Eu praticamente roubei essas fitas para ouvir.
Eram cinco. E na segunda eu j no conseguia
mais parar de ouvir, ele falava muito da histria dele e ali ele contava das torturas. Aquilo
foi to forte dentro de mim, aquele rombo de
imaginar que um ser humano possa ser capaz
de fazer isso com outro que eu tive uma catarse, eu queria entender como isso podia ter
acontecido a ele.
Meu pai fala pouco a respeito disso, mas a
marca que ficou foi muito grande em todos
ns, os filhos. Porque voc tem que recolher
tudo isso para criar uma certa identidade, porque voc veio dali. O que eu posso dizer que
nesse tempo todo eu vim perguntando a ele
toda a histria e fui sempre me interessando
por tudo isso. No s a histria dele, mas a histria da ditadura no Brasil ou em qualquer outro lugar, eu sempre tive um grande interesse,
eu queria saber, esmiuar, esmagar aquilo dentro de mim. Fiz terapia durante muitos anos e
retomei porque eu tinha esse medo, medo da
noite, medo deles irem embora, de pegarem
meu pai, minha me, meus irmos. Eu acho
que eu convivi com esse medo. E acho que s
conseguia colocar esse medo para fora quando
escrevia. E a eu comecei a escrever, muito. Escrevia compulsivamente.
Quando adoeci, em 2007, tive um cncer de
mama e ganhei de presente do meu pai todas
as nossas cartinhas. So quatro anos de cartas,

que recebemos de meu pais e que enviamos


para ele. Eu tinha 8, 9 anos. Ali pude ir formando o meu quebra cabeas. Fui lendo, relendo e
sentindo o tamanho daquilo que era para mim
naquela idade. E posso dizer que foi maravilhoso. Era um privilgio poder ver toda a histria
dos quatro anos que meu pai ficou no presdio.
Meu pai, como todo revolucionrio, tem essa
veia potica. Ele no gosta que fale isso, mas
ele tem. Ele foi o cara que atravs das cartas
me empurrava a escrever, a fazer rimas. E todo
sbado quando eu ia visit-lo a gente trocava
ideias sobre a leitura, sobre o que eu tinha escrito, aquele versinho, enfim. Eu acho que partiu dele isso.

Meu pai tem uma


fragilidade emocional
muito grande. Ele no
quer falar no assunto,
ele sai de cena. Hoje,
com um pouco mais de
idade ele est um pouco
mais flexvel, eu diria
Quando eu olho aquelas cartinhas, vejo a
menina que eu era naquele perodo. Eu dizia:
eu te amo meu papai, papaizinho, voc meu
gal, voc meu prncipe, essas coisas que
uma criana diz ao pai. Ento, como se eu tivesse feito isso naquele perodo, e de l para
c eu no sei como se faz esse caminho. Eu
no sei como se faz esse caminho com irmos,
com filho. Se tem algum lugar que a ditadura,
a histria me alterou, foi a. Eu acho que foi no
amor que eu no sei expressar. Eu no consigo
nem com o amor maior do mundo que amor
de filho e ele sofre com isso tambm. Eu sei
o quanto eu o amo, mas no consigo expressar. Eu tenho essa barreira. Eu acho que a eu
realmente tenho as sequelas desse perodo,
no s pelo distanciamento do meu pai e
tudo mais. como se eu no pudesse falar porque o silncio era a coisa mais importante naquele perodo. Eu aprendi direitinho o silncio,
e eu queria me livrar dele. E difcil conseguir.
At os 50 eu no consegui.
Quando tudo comeou a vir tona na Comisso da Verdade, pensei puxa, que bacana. Esses

caras vo pagar pelo que eles fizeram. Esses caras sdicos, psicopatas, no sei nem que nome
dar para isso. Finalmente eles vo l sentar e ser
julgados pelos crimes que cometeram, a eu me
desiludo. Esse assunto para mim muito visceral. Eu me incomodo profundamente da Lei da
Anistia ter perdoado esses monstros, gostaria
que essa lei pudesse ser novamente revista.
olhar para os vizinhos, Argentina, Chile, eles
julgaram seus atrozes, eles realmente julgaram.
Por que o Brasil no rev isso? Famlias foram
destroadas, ento, falar da gente aqui, falar da
prpria dor sempre muito difcil. Mas eu consigo ver a amplitude disso.
At o que ficou em relao ao meu pai sempre assim, existe uma certa distncia. Existe
algum lugar que d para chegar no meu pai,
e em outros momentos, ele mantm uma distncia que prpria dele, de no querer falar
no assunto, no querer te machucar, mas de
toda forma quem passou por uma tortura, parece que j passou pela pior coisa do mundo.
Ento, para ns que somos filhos, muitas vezes
temos problemas, fica difcil chegar nele com
aquele seu probleminha. Parece sempre pequenininho, porque diante do que ele passou,
no existe coisa pior no mundo. Ento, sempre
colocamos essa distncia em relao a ele.
Meu pai tem uma fragilidade emocional
muito grande. Ele no quer falar no assunto,
ele sai de cena. Hoje, com um pouco mais de
idade ele est um pouco mais flexvel, eu diria.
Ele se preocupa mais, quer que a gente ligue,
enfim. Ento, esse movimento que a gente faz
para se aproximar passa por esse trao que ficou, que um trao pesado. Talvez a memria
daquele perodo tenha um peso to grande que
nos dificulta esse acesso hoje.
Para se ter uma ideia de como eu sempre tive
relacionamentos difceis, casamentos difceis,
alguns terapeutas chegaram concluso de
que quando eu amo, eu amo a distncia, porque
quando meu pai foi preso eu vivia em pleno
dipo. Toda menina apaixonada pelo seu pai,
e exatamente nesse momento ele saa de cena.
Ento, eles chegaram concluso de que eu
amo o distante. Quando esse distante se aproxima de mim, eu no sei o que fazer. At engraado porque nos meus relacionamentos eu
ficava pensando: puxa, esse cara tem o qu? Ele
deve ter alguma coisa muito problemtica para
eu poder estar gostando dele. Enfim, falar de
mim falar um pouco disso porque essa relao

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com o outro sempre foi difcil para mim, e para


o outro, claro, tambm.
Claro que hoje aos 50 anos, eu trabalhei tudo
isso e no estou curada, mas me sinto muito
mais consciente de que isso veio daquela poca,
porque eu amei meu pai distncia. Para se ter
uma ideia, eu nunca disse ao meu pai que eu o
amava. Nunca. No consigo. como se falar de
amor fosse falar de uma coisa muito frgil e que
pudesse quebrar. A histria dele uma histria
toda de amor, pelo seu povo, pelo seu pas, um
cara que teria dado a vida pelo Brasil.

A minha me faleceu em 2003. Ela era descendente de portugus e toda a famlia dela
era de Jundia. Acho que minha me era a pessoa da famlia que mais expressava o amor. Era
a que nos unia. Ela sempre deu a vida pelos
filhos. Ela no queria saber onde estava o meu
pai, ela no queria saber das coisas que meu
pai fazia. Ela no queria saber. Ento, o meu pai
tinha uma vida completamente a parte. Quando ela perguntava, onde voc estava?, ele
respondia melhor no saber por que eu no
quero que eles venham aqui, peguem vocs e
vocs sob tortura, contem.

Ento, ele nunca falava para ela as coisas que


fazia. E ns ficamos muito a parte. Minha me
era quem trazia aquela coisa de famlia, do almoo de domingo, de reunir os filhos, de ligar
para cada um. Depois, os meninos casaram, e
ela sempre estava em constante contato querendo que eles passassem por l. Ela tinha esse
apego, esse amor. Eu no sei por que a gente
no aprendeu com ela.
Ela era a expresso mxima da humildade,
tanto que existe uma histria que meu pai conta que, durante a tortura, em um dos momentos
em que ele estava apanhando muito, os torturadores falaram: J foram l? J viram a mulher
dele? Vamos trazer a sua esposa aqui. E a um
dos torturadores disse: Ela no vale a pena,
uma mulher que anda descala, maltrapilha. E
minha me no era uma maltrapilha, mas andava descala. Era uma mulher humilde, simples,
sem atrativo, uma mulher sem vaidade.
E por conta desse silncio verbal que toda a
nossa famlia tinha que ter, eu posso dizer que
eu me salvei atravs de tudo que eu escrevi.
Para mim, bastante difcil falar sobre isso. Eu
gosto mais de escrever. Ento, eu queria terminar o meu depoimento lendo um conto que foi
o meu primeiro conto publicado.
Quando eu fiquei doente, escrever para
mim foi muito importante. E no meu primeiro conto, eu escrevia coisas para mim mesma.
Coisas que eu guardava. At que um dia resolvi publicar e uma pessoa falou, Rosa, deixa eu
publicar seu conto. E eu deixei. E esse conto
expressa bem a minha viso de menina quando visitava meu pai no Tiradentes. O conto
chama Anos Setenta.
ROSA MARIA MARTINELLI nasceu em 16 de julho de
1962, em Jundia (SP). Filha de Raphael Martinelli e
Maria Augusta Martins Martinelli (falecida em 2003)
formada em Educao Fsica e trabalha como personal
trainer.

Carta redigida por Raphael


Martinelli para sua filha
Rosa, de 8 anos, durante
o perodo de sua priso, 1970

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ANOS SETENTA
Mos firmes a revistavam...tinha apenas
9 anos. Pode abaixar as calas? Afasta as
pernas! Muito bem! Levante os braos,
abra a boca, cabelos...(tudo numa agilidade troglodita e sem pausa).
Pode vestir... a sada por ali...
Por ali era um porto verde de ferro que
dava para outro porto de grade, que dava
para um ptio enorme que tinha cho de
concreto quebrado. Ia feliz, sem entender.
Para o seu tamanho, aqueles dois pavilhes que rodeavam o ptio eram verdadeiros monumentos, cheios de janelinhas
gradeadas e com mos acenando.
Quem seriam aqueles?
Passeava num passo de dana... dois pra
c, dois pra l... at chegar noutro porto
onde a escurido do lado de dentro lembrava os medos de dormir.
Homens fardados barravam a entrada de
um dos prdios grandes e curiosa que era

se enfiava entre os vos das pernas enormes... Posso ver? Perguntava.

So presos comuns... como so chamados.

L vinha ele... um homem baixo, loiro, rosto bonito,msculos fortes... e com aquele
sorriso... um sorriso conhecido e querido,
olhos muito claros que a fitavam com saudades.

O senhor tambm um preso comum?


Pois eu no acho... acho que um preso importante, o mais importante de todos!

O corao ia aos pulos, quase tropeava


entre aquelas fardas... tentando se aproximar. Mas, o que era aquilo? Porque ele
tinha aquelas argolas rodeando seus punhos?

Preso poltico? alguma coisa ruim?

J muito prxima, a menina atnita j no


era feliz, por tentar entender.
Pai!!!! Abraava, pulava no colo, puxava sua
mo... quase o amassava.
Pai, o que era aquilo? Porque aqueles homens prenderam seus braos?
So algemas e servem pra que a gente
no tente fugir.
O senhor quer fugir?
No. Mas eles pensam que sim.
Pai, aprendi um novo passo... quer ver?
Aposto que no sabe fazer... quer tentar?
Dana comigo?
Imagem surreal de alegria, num retngulo
de vidas cortadas.
Gostou?
Nem percebeu que das janelas com mos
desconhecidas lhes jogavam colares, pulseiras... coisas bonitas.
pra mim?
Claro que sim! Pode danar mais pequena
bailarina?
L ia ela fazendo rodas, cantarolando, fazendo estrela e sendo a prpria.
Quem so eles pai?

Neste prdio que estou so s presos polticos... somos divididos.


No no... e sorriu aquele sorriso calmante.
Mas pai, por que t preso?
Ainda pequena pra entender.
Mas no t feliz agora... queria que voltasse pra casa.
Quando for embora, vai parar l na Av.
Tiradentes, sabe qual ?
Sei. Essa que fica em volta do prdio...
Ento, vai contar trs andares, de baixo
para cima e olhar pra janelinha da direita.
Vou acenar pra voc, com uma toalha branca. Vai imaginar um pssaro, que vai voar
at seus ombros... e o levar sempre junto
pra onde quiser.
Puxa! Verdade?
(silncio)
J sei porque t aqui, pai, e nem preciso
crescer tanto. Est preso porque sonha bonito. Eles quiseram trancar suas palavras
assim. Mas isso no roubo?
...
Tenho um pai passarinho poeta preso
mas no conta pra ningum.
O qu?
Que ele tem asas.
O porto do Tiradentes ainda existe, a menina tambm... e o pssaro continua voando"
Rosa Maria Martinelli, Anos Setenta, in: Entrelinhas: Antologia de Contos e Microcontos, Andross Editora, So Paulo,
2008, pp. 123-125.

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Famlia Martinelli
1. Raphael Martinelli, aos 20 anos, ainda solteiro, em So Paulo, 1944
2. Maria Augusta, aos 19 anos, em Jundia (SP), 1944
3. Martinelli aos 23 anos, em So Paulo, 1947
4. Maria Augusta, aos 22 anos, em So Paulo, 1947

1
5

5. Casamento de Maria Augusta e Martinelli,


em 27 de dezembro de 1947, So Paulo

6. Lua de mel do casal, em Santos (SP), 1947


7. Maria Augusta com Jaime, em So Paulo, 1949
8. Jaime em Jundia (SP), 1950
9. Jaime, aos 14 anos, e Rosa, Rio de Janeiro,
antes do Golpe, 1964

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10. Jaime aos 12 anos,


Rio de Janeiro, 1961
11. Luiz Carlos aos 10 anos,
So Paulo, 1966
12. Edson aos 6 anos,
So Paulo, 1958
11

10

13. Rosa aos 6 anos,


So Paulo, 1968

12
13

14

16

15

14. Aniversrio de Rosa, 6 anos, So Paulo, 1968


15. Maria Augusta, Luiz Carlos aos 5 anos, Edson aos 8 anos
e Jaime aos 13 anos, Rio de Janeiro
16. Rosa aos 6 anos, e seu cachorro Fasca, almoando
fora de casa, So Paulo, 1968
17. Martinelli e sua filha Rosa
18. A famlia reunida

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Raphael Martinelli nasceu em So Paulo (SP), em


16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli
Pistorezzi Martinelli.
Comeou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina
(Produtos Qumicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa
Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empresa de produtos de ao Tupi.

Na luta

Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro So Paulo Railway.


Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da
vrzea paulistana at que a ferrovia e a militncia ocuparam
a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista
Brasileiro (PCB) desde a adolescncia, seguindo os passos de
seu pai, filia-se ao sindicato dos ferrovirios.

2. Martinelli preso em So Paulo.


Quando se recusou a sair do pas na
troca do Embaixador

1. Martinelli discursando na frente da


Cmara Federal, Rio de Janeiro, 1963

3. Em Cuba, Martinelli em palestra no


movimento operrio cubano, 1961
4. Foto feita pelos rgos de represso
da ditadura, durante a priso

Foi dirigente da Federao Nacional dos Ferrovirios e um


dos mais importantes lderes sindicais do Brasil at 1964.
Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a
clandestinidade e entrou na luta armada.

Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da


Ao Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado
Operao Bandeirantes (OBAN).
Ficou preso durante trs anos, trs meses e 10 dias.
Hoje advogado e presidente fundador do Frum dos Ex-Presos Polticos e Perseguidos de So Paulo. Tem quatro
filhos, sete netos e quatro bisnetos.

Maria Augusta Martins Martinelli, cau-

la de seis irmos, nasceu em Jundia (SP), em 1925. Filha de


Amlia e Joo Martins, ambos portugueses. Casou-se com
Raphael Martinelli em 1947.
Faleceu em novembro de 2003, aos 78 anos, quando ia
completar 56 anos de casamento com Martinelli. De acordo com Rosa, sua filha, era uma cozinheira maravilhosa.
Quem compartilhou da sua mesa, sabe. Fazia o melhor capeletti in brodo que se tem notcia. O fazia artesanalmente. Sua felicidade era nos ver repetir o prato. Todas as noites, at mesmo quando estava doente, esperava meu pai
para colocar a conversa em dia. Ela nasceu para ser me,
era muito presente e afetiva. De acordo com Martinelli, a
parceria da esposa foi essencial para minha histria como
revolucionrio.

Ao lado, ficha do
Raphael no DOPS

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Os filhos sofrem, mas temos que dar


continuidade vida
por Raphael Martinelli
Aps o golpe de 31 de maro, eu tive que ir para
a clandestinidade. No dia do golpe, fiz um discurso na rdio para a minha rea ferroviria. Se eu
demorasse um pouco mais para ir embora, teria
sido preso, porque os militares tomaram a rdio
tambm. E eu cheguei a ser denunciado como espio russo pelo ministro do trabalho.
Mesmo na clandestinidade eu continuei morando no Rio de Janeiro. Nem pude ir mais para
a minha casa, que ficou cercada o tempo todo.
Eles estavam minha espera, para me prender.
L, moravam minha mulher e meus quatro filhos,
sendo que a mais nova, a Rosa Maria, tinha um
ano e pouco.
Resolvi voltar para So Paulo, apesar da presso dos companheiros do comit central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que me pressionavam, querendo que eu fosse para o Rio Grande
do Sul. Eu disse que no ia a lugar nenhum. Eu
queria ir para So Paulo, porque era a minha rea,
eu comandava a ferrovia Santos Jundia.
Enquanto eu estava na clandestinidade, no Rio,
no conseguia encontrar a minha famlia. Montamos um esquema para levar todos para So Paulo. Com um caminho de mudana, meu irmo
levou todas as coisas da famlia para So Paulo.
Primeiro eles ficaram em Bragana, num stio e
depois foram para Jundia, onde morava a famlia da minha mulher. Depois que fiquei sabendo
as dificuldades que eles passaram.
A minha famlia foi primeiro para So Paulo e
depois fui eu, que fiquei em outra rea clandestina. Fiz todo o esquema contrariando o partido
e fui chamado de irresponsvel. Vim para So
Paulo por minha conta. Eu assumi essa responsabilidade. A minha opinio era que a direo do
partido estava errando, que de 1955 para a frente,
desde a morte do [Joseph] Stalin, no havia mais
educao revolucionria.
Primeiro, fiz um esquema clandestino, sem contato com a minha famlia. E quando fiz contato
com a minha mulher, fui encontr-los e a minha
menina no me reconheceu. Ela tinha um ano e
pouco. Coitadinha, ela me olhou como quem diz

quem esse cara?. Foi um encontro clandestino, no bairro da Lapa. Nessa poca, eles estavam
morando em Jundia.

avisou. A, depois de 24 horas esse que foi preso


abriu o meu nome, como se fosse ter uma reunio
comigo.

Depois fui ficar clandestinamente onde meu pai


morava, no bairro da Lapa, em So Paulo. E meu
filho Luiz Carlos ficava comigo. Combinamos que,
por segurana, ele nunca me chamasse de pai.
Convivi muito com ele. De vez em quando eu dava
uma escapada em Jundia para ver a famlia.

Quem estava l era o [Benoni de Arruda]


Albernaz que era um assassino e era difcil sair
vivo. Mas sobrevivi porque eu entrei como algum
que tinha participado de reunio, de questo de
cooperativa, sindicato. E eu no pau de arara, com
o tira, fazendo esse jogo comigo. A chegou aquele
da Ultrags, o [Henning Albert] Boilesen, eu vi ele.
O cara disse: Agora s falta pegar o Marighella.

Eu nunca parei. Eu e meu irmo compramos


um Ford 29 e eu ia para as reunies clandestinamente com aquele carro. Nosso partido tinha
terminado com a educao revolucionria e eu
viajava explicando que o partido tinha que ter organizao revolucionria.
Nessa poca, eu estava morando no fundo do
quintal da casa do meu pai e meus filhos e mulher tambm vieram para c. A represso sabia
onde eu estava e todo Primeiro de Maio eles iam
me prender, me buscavam em casa e eu ia para
a Polcia Federal. Minhas prises eram s no
Primeiro de Maio, mas eu nunca parei de atuar
na organizao. Havia vrios companheiros que
tinham as mesmas ideias, como o [Carlos] Marighella. Reunimos o comit estadual e perguntamos qual a sada? O comit central no d
mais, a ditadura est a. Ento criamos a Ao
Libertadora Nacional, a ALN.
Na casa do meu pai, a famlia vivia modestamente. Criavam coelho, no quintal tinha cabra,
galinha, tudo. E meus filhos frequentavam o grupo escolar.
As consequncias foram mesmo quando eu fui
preso em 1970, a sim a famlia sofreu, passou dificuldade. Fui levado diretamente para a OBAN.
Eu fui preso onde trabalhava. De acordo com a
nossa organizao, mesmo fazendo organizao
revolucionria, se possvel tinhamos que ter um
emprego. E eu trabalhava na Cooperativa Habitacional Unio Sindical, que era dos ferrovirios.
Quando cheguei no trabalho, a OBAN j estava
l, com metralhadora e o diabo. Fui preso porque
um companheiro caiu e o outro conseguiu fugir.
Ele pediu para outro companheiro me avisar. E ele

O companheiro que me abriu no aguentou e comeou a abrir, abrir, e abriu o trem pagador. Eu estava arrebentado. S abri o trem
pagador quando me mostraram fotos de um cara
morto. Quando vi que todos os compas que participaram estavam mortos, eu acabei abrindo. Eu
s no fui morto porque nunca foi aberto que eu
era dirigente da ALN.
E porque eu tinha uma cunhada, ela falava para
burro. Ela conhecia um oficial e falou de mim:
Poxa vida, ele diretor do sindicato. Ser que
ele est preso, podia ver isso?. A o cara deu o
servio para ela: Ele est na OBAN. A ela foi
me levar roupa na OBAN, para ficarem sabendo
que ela sabia que eu estava preso l.
Fiquei doze dias na OBAN. O meu companheiro falou coisas graves de mim, e eu fui arrebentado. Uma noite, sa da cela forte e encontrei com
ele. Usei aquela posio de dirigente comunista,
disse que ele estava falando demais. A, nessa
madrugada, mesmo eu estando arrebentado, eles
me torturaram de novo. No sei se foi ele que falou ou se tinha microfone.
Depois fui para o DOPS, onde sofri ainda mais.
Apanhei muito mais do que na OBAN. O DOPS
tinha minha vida todinha, viagem URSS, cursos, Cuba, viagem, conferncias. Se eu tinha apanhado na OBAN, me arrebentaram no DOPS.
Costumo dizer que no o pau de arara, e sim o
que eles fazem em cima de ns, no pau de arara,
e isso era diariamente.
Fiquei dezoito dias l, mais doze na OBAN. Foram 30 no total. Minha ltima estada no DOPS

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foi quando arrebentaram o Olavo Hanssen. Depois, ele apareceu morto. Sempre elogiei a posio do Hanssen, a resistncia dele. O DOPS era
isso, uma mquina de matar.
No dia seguinte morte dele, fui para o Tiradentes, era maio. Fui preso em abril de 1970. L,
eu tive visita. Na visita, eu estava arrebentado,
porque na OBAN levei um soco ingls nas costas. Fiquei com as costas arrebentadas. E na cela
forte, sem assistncia. No DOPS, levei pauladas
na cabea. O [Maurice] Politi me emprestou
uma blusa de l para eu me enfaixar com ela. Eu
estava to machucado que a minha famlia no
podia me abraar.
A famlia da gente sofre no lar, sofre na sociedade. Eu recusei sair no sequestro do embaixador suo, e ento minha fotografia saiu no
jornal como terrorista. A ficam achando que
a gente terrorista mesmo e isso mexe com a
famlia.
Com esse troo de terrorista, quem dava as
aulas de educao moral e cvica nas escolas
eram os capites. E um capito colocou meu
filho Edson na frente e comeou a arrebentar
com os terroristas. E ai disse: O Martinelli teve
a coragem de dar o nome de Lenin para esse
menino, vejam s.
Mandei entregar um livro para meu filho,
dizendo: Leia Lenin e veja porque botei seu
nome de Lenin, veja o bandido que ele . Ele
tinha 7 anos, ele nasceu em 1953.
A famlia sofre muito com as consequncias.
Na cadeia, eu fazia cestas de vime, uma por dia,
e eles vendiam para ajudar com as despesas da
famlia.
Minha mulher, filha de portugueses, tinha os
filhos sempre em primeiro lugar. Nesses trs
anos e meio, todos foram muito bons filhos.
Tem uma carta do meu filho mais velho [Jaime] que uma coisa espetacular. Ele escreveu
para o Mdici arrebentando e colocando o pai l
em cima: Onde j se viu, esses homens que deviam estar governando o Brasil. Esse meu filho
quase nunca ia me visitar, ele no aguentava.
Ele no queria me ver preso. Os filhos sofrem,
mas temos que dar continuidade vida.

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Painel fotogrfico feito


por Rafael Rossi
Martinelli, cineasta e diretor
de fotografia, neto de
Raphael Martinelli,
em homenagem ao av.
A obra ficou exposta na
Galeria Olido,
em So Paulo, 2010

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por Dora Augusta Rodrigues Mukudai

Quando recebi a mensagem por e-mail me


convidando para participar [da Audincia
sobre as crianas atingidas pela ditadura],
num primeiro momento pensei que no tinha nada para contribuir, que no tinha
nada que pudesse ajudar porque eu conheci crianas, especialmente quatro crianas,
e diante dessa situao que eu sei que eles
viveram, eu achava que no tinha muito a
acrescentar. Um deles, que tem a minha idade, aos 2 anos de idade foi fichado no DOPS
como subversivo perigoso, o Ernestinho [Ernesto Nascimento] e os seus primos.
Eu nasci em 1968, em Osasco, em plena
greve geral. Uma confuso, um caos no pas,
especialmente na regio de Osasco. O meu
pai, Darcy Rodrigues, servia no quartel de
Quitana. Era sargento na poca e lugar tenente do Capito [Carlos] Lamarca.
Quando eu tinha seis meses de idade, meu
pai, ciente da gravidade da situao, tentou,
e conseguiu, obviamente, poupar a minha
me e eu de qualquer problema que ele sabia que estava por vir e nos mandou para
a Europa no mesmo voo com a esposa do
Capito Carlos Lamarca e seus filhos.
Ento, quando recebi esse convite, pensei:
O que que eu tenho para falar? Eu fui pou-

esquerda, Darcysito e Dora de uniforme escolar, Cuba

pada de tudo. Eu no vi nada. Felizmente


no perdi meu pai, porque apesar de tudo o
que passou, ele est vivo. A minha me fez
de tudo para transformar nossas vidas em
vidas normais.

Felizmente no
perdi meu pai,
porque apesar de
tudo o que passou, ele
est vivo. A minha
me fez de tudo
para transformar
nossas vidas em
vidas normais
Eu estava com seis meses e a minha me
encontrava-se grvida na poca. Ela no sabia, nem meu pai, que meu irmozinho estava chegando. Ns fomos para o exterior,
passeamos por alguns lugares passeamos
entre aspas at conseguir asilo poltico em
Cuba, onde fomos todos, a esposa do Lamarca, os filhos, minha me, eu e meu irmozinho que nasceu l.
Vivi minha infncia inteira em Cuba at
meus 11 anos de idade. um pas que eu amo,
que me deu a base para o que sou hoje. Um
pas onde aprendi que pessoas como meu pai,

como os pais da Priscila [Arantes] e do Andr


[Arantes], da Iara [Lobo], da Raquel [Rosalen], so pessoas que a gente tem de respeitar
e admirar. Que tinham um ideal e passaram
o que passaram para hoje, quarenta e poucos
anos depois, ns termos um pas melhor.
At hoje eu no sei tudo que o meu pai passou. Durante esses onze anos de vida fora do
pas, e depois, quando voltamos, em 1980,
para o Brasil, no sabamos meu irmo e
eu exatamente o que estava acontecendo,
mas sabamos que alguma coisa ruim estava por trs daquela situao toda.
A Iara Lobo mencionou uma coisa muito
importante, que a questo do respeito
imagem dos nossos pais. Hoje, na internet,
tem muita coisa que eu descobri sobre o
meu pai que ele no contou para nos poupar.
Lembro-me que, em 1999, tinha o hbito de ler a revista Isto, pela internet, toda
segunda-feira. Fazia isso no meu horrio de
almoo e no lia a revista inteira porque no
dava tempo. Numa segunda-feira, abri a revista numa reportagem de capa que falava
sobre o assalto ao cofre do Ademar de Barros. Comecei a ler a matria e pensei: No
me interessa. E continuei lendo a revista, as
outras matrias. Mas fiquei com aquilo na
cabea porque eu no sabia o que era o assalto ao cofre do Ademar, mas alguma coisa
me falava que j tinha ouvido aquela histria, que aquilo tinha a ver comigo.

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Era muito difcil


receber informaes
naquela poca, as
correspondncias
chegavam todas
violadas, fotografias
chegavam rasgadas
e demoravam meses
para chegar

Eu li outras partes da revista e quando


acabava minha hora de almoo, resolvi voltar matria. Eu no sabia o que era, mas, de
repente, vi a foto do meu pai naquela reportagem. Dezenove anos depois de eu estar de
volta ao Brasil, ainda no sabia o que tinha
acontecido com meu pai. Eu me assustei.
No sabia de nada daquilo e, por ter passado todos os anos da minha infncia com os
meus pais me protegendo, at hoje no corro
atrs de certas informaes. Eu as descubro
a conta gotas em livros, pela internet.
Alguns sites falam do meu pai de uma maneira muito pejorativa e triste. Isso magoa
demais, porque eu sei que meu pai guerreiro, briguento, bravo. Quando se trata de
justia ele muito bravo. E tenho muito orgulho dele, por saber que no teve medo de
fazer justia. No me interessam os mtodos
que usou, mas ele tentou fazer justia. Meu
pai sempre foi muito honesto. E isso que eu
levo de toda essa histria. Que a esperana,
como disseram os demais nesta Audincia,
e a justia sejam feitas; e a esperana de que
ns no tenhamos mais pessoas que enxergam a verdade que querem enxergar, e no a
verdade de fato.
O Andr [Arantes] comentou que diferentes olhares trazem diferentes vises do
mesmo fato. E a gente sabe que muita gente
neste pas ainda acha que pessoas como os
pais do Andr e da Priscila, os pais da Iara e
da Raquel, os meus pais, os pais das quatro
crianas que eu mencionei, so terroristas.
O que eu mais quero com essa Comisso
da Verdade que um dia ningum mais pense assim.
Ns chegamos em Cuba quando eu tinha
mais ou menos 6 meses de idade. O meu irmo, Darcy, nasceu em Cuba. Meu pai ficou
aqui no Brasil, na clandestinidade, no Vale do
Ribeira. Ele esteve preso, foi torturado e foi um
dos quarenta que foram trocados pelo embaixador alemo. Entre esses quarenta, esto as
quatro crianas que mencionei. E o meu pai
finalmente chegou a Cuba quando eu j tinha
2 anos de idade e o meu irmo j tinha um
ano de nascido.

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Ns passamos dez, onze anos em Cuba vivendo como cubanos. Estudamos em escolas
como cubanos. Mas tinha um grupo grande
de brasileiros exilados que se reunia com alguma periodicidade e ouvia o hino do Brasil
com muita emoo, ouvia gravaes da Voz
do Brasil e trocava informaes. Porque, na
poca, era muito difcil ter notcia do que
acontecia no Brasil, ter notcias dos familiares. Eu lembro que quando chegavam correspondncias dos nossos familiares, elas eram
motivo de muita alegria e de muita apreenso. Era muito difcil receber informaes naquela poca, as correspondncias chegavam
todas violadas, fotografias chegavam rasgadas e demoravam meses para chegar.
Em uma dessas correspondncias chegou a notcia de que eu tinha perdido meu
av materno, que no cheguei a conhecer.
E lembro dessa sensao, que eu acho que
a mesma que a Priscila menciona, de que
a gente no sabia exatamente o que acontecia, mas que a gente sabia que alguma coisa
ruim ainda podia acontecer.
Os meus pais sempre deixaram claro para
mim e para o meu irmo que aquele no era
o nosso lugar e que a qualquer momento podamos ir embora, que precisvamos voltar
para o nosso pas. Ento, ns passamos dez
anos da nossa vida sem poder nos apegar a
amigos, a brinquedos, a lugares, aos professores, a escola, porque a qualquer momento
iramos embora.
Queramos muito ir embora, porque sentamos a paixo dos meus pais pelo pas, a
necessidade que tinham de voltar, alm do
desespero de voltar para o convvio dos familiares aqui.
Em 1980, quando voltamos para o Brasil,
fomos morar no interior de So Paulo, em
Bauru. Eu lembro que foi uma poca muito
difcil porque depois de mais de dez anos
fora do pas os meus pais no tinham mais
casa, no tinham mais nada do que eles deixaram aqui. Alm de que, nenhuma escola
em Bauru queria matricular a mim e a meu
irmo. Por dois motivos: porque era tudo

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muito recente, as pessoas tinham medo


de envolvimento com pessoas perigosas; e
tambm porque o Ministrio da Educao
demorou para validar os estudos que fizemos em Cuba.
Mesmo assim, felizmente, com a ajuda de
companheiros, conseguimos assistir, participar em uma escola como pessoas transparentes. A diretora do SESI de Bauru aceitou
que eu e meu irmo assistssemos s aulas
na srie em que meu pai afirmava que ns
estvamos, independente do MEC validar
ou no. E ficamos por um perodo, eu na sexta srie e meu irmo na quinta srie, sem ter
o nome na lista de chamada, fazendo as provas s escondidas, separadas e, obviamente,
com isso tudo sabamos que ramos vistos
como diferentes, apesar do meu pai e da minha me tentarem nos fazer acreditar que
estava tudo bem.

E eu sou muito grata a ele e minha filha,


porque eles sempre entenderam e tiveram
orgulho dos meus pais e da minha famlia.
E queria tambm agradecer uma pessoinha
muito especial, que meu pai tentou poupar
o tempo inteiro, pela sua fisionomia e seu fsico frgil, delicadinha, professora. Meu pai
poupou muito essa mulher, sem saber que
ela uma pessoa extremamente guerreira.
Ela segurou toda essa onda com muita, com
muita garra e com muita classe, com muita

elegncia. Apoiou o meu pai at hoje, que


minha me. Hoje eles esto separados,
mas so muito, muito amigos, e ela sempre
apoiou meu pai, apesar de no ter sido muito
ativa em todo esse processo.
DORA AUGUSTA RODRIGUES MUKUDAI nasceu em
6 de agosto de 1968. Filha de Darcy Rodrigues e de Rosalina de Freitas Anselmo. bacharel em Cincia da Computao e trabalha com gesto de pessoas na rea de
Tecnologia da Informao.

O Andr tambm comentou sobre a chegada de um momento em que ele podia ser
quem ele era, contar para as pessoas quem
ele era. Da sexta srie at o colegial eu tambm vivi esse momento de no poder falar
muito porque eu tinha morado em Cuba,
quem eu era, quem era meu pai. S depois de
alguns anos que percebemos que as pessoas comearam a entender melhor. E quando
eu entrei no colegial, eu estudei no Colgio
Tcnico da UNESP em Bauru, tinha uma
professora de histria que nos mandou ler o
livro Feliz Ano Velho.
At ento eu tinha muito medo de falar do
meu passado. E fiquei muito feliz de saber
que tinha uma professora que incentivou o
debate e que, finalmente, eu podia falar o que
pensava daquilo tudo, que finalmente eu tinha encontrado pessoas que eram solidrias
a tudo isso e aceitavam toda essa situao.
Ento eu fico feliz de ser a ltima aqui [a falar] porque, juntando o depoimento de todos,
descobri que eu tenho coisa para falar.
Queria comentar que hoje eu sou casada,
meu marido Jorge Mukudai, descendente
de japoneses, pessoas simples, uma famlia
que no tinha, nunca teve participao poltica, nem entendimento poltico nenhum.

Rosa com Darcysito no


colo e Dora, Cuba

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Darcy Rodrigues nasceu em 19 de novembro de 1941, em Ava (SP). Sargento do Exrcito, resistiu ao golpe de 1964 junto com militares resistentes. A aproximao com o capito Carlos Lamarca,
no Quartel de Quitana, em Osasco, fortaleceu o
grupo. Em 1969, j ligado Vanguarda Popular Revolucionria (VPR), abandonou a carreira militar.
Darcy e Lamarca foram os principais atores da fuga
do Quartel de Quitana, em janeiro de 1969.
Foi preso em abril de 1970, junto com Jos Lavechia,
numa rea rural do Vale do Ribeira, onde a VPR fazia
treinamento de guerrilha. Ficou preso por 57 dias,
sendo torturado diariamente. Saiu do pas em 15
de junho de 1970, trocado junto com outros presos,
libertados no sequestro do embaixador alemo,
Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben.

1, 2, 3 e 6. Fotos de Darcy em pronturios


de rgos de represso

Levado inicialmente para a Arglia, depois exilou-se


em Cuba, onde sua mulher e filha j viviam desde
pouco antes de deixar o Exrcito. Morou dez anos
em Cuba, onde trabalhou como professor e estudou
Economia. L, nasceram dois dos seus quatro filhos. A famlia voltou ao Brasil em 1980, onde Darcy
estudou direito. Em 1983 exerceu o primeiro de muitos cargos pblicos na cidade de Bauru, onde vive
at hoje. Em 2010, Antonio Pedroso Junior, lanou
o livro: Sargento Darcy, Lugar Tenente de Lamarca,
sobre a trajetria do militante.

Rosalina de Freitas Anselmo nasceu

em 7 de setembro de 1943, em Trs Lagoas (MS),


onde se formou professora. Casou com Darcy Rodrigues em 1963. Foi para Cuba em janeiro de 1969
onde se especializou em educao infantil e trabalhou como professora. Retornou para o Brasil em
1980 indo morar em Bauru (SP). Tem quatro filhos
e duas netas.

4. Dora fichada no DOPS aos 4 meses,


em 17 de dezembro de 1968
1

5. Ficha de Rosalina no DOPS


6 e 7. Foto e ficha de Darcy em pronturios de
rgos de represso
8. Militantes banidos na troca do
embaixador da Alemanha no Brasil. Darcy
o nmero 11. Imagem do relatrio do CIE,
Indivduos Banidos do Territrio Nacional,
1970, distribudo aos orgos de represso, para
reconhecimento dos mesmos

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1. Darcy, Darcysito com 3 anos,


Rosalina e Dora com 4 anos, Cuba
2. Rosalina com Darcysito, Rosa
e os filhos de Carlos Lamarca,
Claudia e Csar, no parque
Almendares, Havana, Cuba
3. Dora, Darcy, Darcysito e
Rosalina grvida do terceiro filho,
Havana, Cuba, 1979

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A possibilidade de
nunca mais v-los martirizava
nossas mentes
por Darcy Rodrigues

Quando decidi conjuntamente com o Capito


Carlos Lamarca abandonar as fileiras do Exrcito Brasileiro e aderir luta armada contra o
arbtrio e a tirania, instalado em nossa ptria
pelos militares, o primeiro pensamento foi garantir a integridade e a segurana de nossos
familiares.
Em discusso com lideranas da Vanguarda
Popular Revolucionria (VPR), decidimos enviar Rosalina e Dora Augusta, minha esposa
e filha, juntamente com Maria Pavan, Csar e
Claudia, esposa e filhos de Lamarca, para o exterior, mais precisamente para Cuba, mantendo-as afastadas de nosso pas, enquanto durasse a
guerra revolucionria.
Em decorrncia da priso de companheiros
que estavam pintando um caminho com as cores do Exrcito, em uma propriedade rural em
Itapecerica da Serra, fomos obrigados a antecipar a ao expropriatria a ser realizada no IV RI
de Quitana, na cidade paulista de Osasco.
Acabamos a realizando de forma parcial, no
dia 24 de janeiro de 1969, quando o camarada
Lamarca, em companhia do cabo Mariane e do
soldado [ Carlos Roberto] Zanirato, saram com
munio e 63 fuzis daquela unidade militar.

No momento da ao, me encontrava juntamente com o camarada Jos Arajo Nobrega,


tentando resgatar armas, munies que se encontravam no aparelho utilizado pelo companheiro Pedro Lobo, preso em Itapecerica. Por
ironia do destino, o embarque de nossos familiares estava previsto para o dia 24, s 20 horas,
no aeroporto de Congonhas, com o destino
inicial sendo a Itlia. Sem nada combinar com
o camarada Lamarca, decidi ir ao aeroporto,
despedir-me de Rosa e Dora Augusta, e acabei
encontrando com Lamarca, que decidira igualmente despedir-se de seus familiares.
Como relato pitoresco desta nossa ida ao aeroporto, poca a TV Excelsior estava exibindo
uma novela, onde existiam cenas de violncia e
tiroteios, sendo que uma das cenas estava sendo gravada nesta noite no aeroporto de Congonhas. Ao ouvirmos os tiros e policiais correndo,
chegamos a pensar que tnhamos sido localizados pela represso e rapidamente colocamo-nos em posio de defesa, j que no tnhamos
a mnima inteno de sermos capturados.
Para nosso alvio, eram somente cenas de uma
novela. Esta foi a ltima vez que Lamarca viu a
esposa e filhos. Engajados na luta contra a dita-

dura militar, acabei sendo preso em abril de 1970,


durante treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira, tendo sido libertado em 14 de junho, juntamente com outros 39 companheiros em troca
da liberdade do embaixador alemo, sequestrado
por um grupo de combate da VPR, comandado
pelo saudoso camarada Eduardo Leite, o Bacuri.
Fomos levados para a Arglia e de l, pouco
tempo depois segui para Havana, em Cuba,
onde aps um ano e meio de separao, reencontrei com Rosalina, Dora Augusta, e Darcysito. No sabamos, quando Rosa saiu do Brasil
que ela se encontrava grvida de nosso segundo filho, que veio a nascer em territrio cubano.
A separao dos familiares e o pior, a possibilidade de nunca mais tornar a v-los, martirizavam nossas mentes durante todo o tempo.
Decorridos mais de quarenta anos dos fatos,
tenho que necessariamente fazer uma severa
autocrtica, pois por questes de segurana, e
sempre buscando preservar meus familiares,
jamais comentei com eles detalhes de minha
militncia poltica, fazendo com que eles fossem descobrindo somente na adolescncia e na
juventude detalhes de minha atuao poltica.

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por Zuleide Aparecida do Nascimento

Eu sou a Zuleide, uma das miniterroristas,


que a maneira como fomos taxados [pela ditadura]. Nascemos em Osasco, somos filhos de
Sebastio Rivom do Nascimento, que filho da
tia Tercina e irmo do Manuel Dias do Nascimento. Minha me chamava Maria do Perptuo
Socorro do Nascimento, mas ns fomos criados
pela v, Tercina Dias de Oliveira, chamada de
Tia, desde que ramos pequenos.
Na poca da greve [de Osasco], eu tinha
3 anos de idade. Depois dessa greve, a famlia
toda comeou a ser perseguida porque o tio,
o Manuel Dias de Oliveira, o Neto, foi um dos
cabeas, um dos lderes da greve junto com o
Jos Ibrahin. Com muito orgulho eu falo que
a greve de 1968 foi planejada na casa da minha
av, l em Osasco. Ela dava todo apoio.
O meu tio Manuel conheceu o Zequinha
Barreto nas fbricas. A o Zequinha passou a
militar na VPR e meu tio tambm. Depois ele
tambm levou a minha av para a organizao.
O tio Manuel se filiou ao sindicato com 15 anos
de idade, por incentivo da minha av, que tinha
um esprito libertrio. Quem teve a oportunidade de conhec-la, sabe a figura que ela era, o
esprito de luta que tinha.

esquerda, Zuleide fichada antes


do banimento do pas, 1970.
Foto de acervo do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo,
reproduo de Luiza Villama, Revista Brasileiros

Do perodo que ficamos


no Juizado, o que me
lembro que fizeram uma
trana no meu cabelo.
Eu tinha um cabelo de
comprimento abaixo da
cintura e ele foi cortado
Depois da greve, fomos morar no Vale do Ribeira. L, era a v quem dava estrutura para o
Capito Lamarca. Quando as pessoas que sabiam da existncia do aparelho do Vale comearam a ser presas, a organizao fez por bem
nos tirar de l, porque sabia que a qualquer momento o aparelho poderia ser estourado. Quando samos do Vale, o [Jos] Lavechia se separou
de ns e entrou para as tropas do Lamarca, foi
integrado linha de frente da VPR. E ns fomos
levados para um aparelho em Perube.
A estratgia da ditadura, depois que ocuparam o Vale do Ribeira, foi manter a casa com a
mesma rotina de quando estvamos l. De manh, colocavam as roupas das crianas no varal,
davam comida para os bichos, abriam a casa e
ficavam l dentro. Isso servia de armadilha para
outros companheiros que chegavam ao local
pensando que estava tudo bem, que a Tia estava
l. Mas ao chegarem, eram presos.

Quando fomos sequestrados, fomos levados


para uma casa que eu no lembro onde era. L,
ficamos por cinco dias. Meu irmo Luis Carlos
conta que era uma casa grande e bem mobiliada. Ficamos trancados num quarto de onde
no podamos sair. Depois, nos levaram para o
Juizado de Menores. E o Samuel, que era nosso
irmo de criao, foi levado para um local onde
ficavam meninos infratores. Ele apanhou muito, foi torturado.
O Samuel ficou careca porque teve o cabelo
raspado, foi tratado como menor infrator, apanhou. E alm de ter sofrido a agresso psicolgica que todos ns sofremos, ele ainda sofreu
agresso fsica.
Do perodo que ficamos no Juizado, o que
me lembro que fizeram uma trana no meu
cabelo. Eu tinha um cabelo de comprimento
abaixo da cintura e ele foi cortado. Tinha uma
pessoa cortando e outra do lado falando: Me
d essa trana que eu quero fazer uma peruca.
Eu no lembro de muita coisa porque era pequena, mas desse fato eu lembro.
Para mim, foi realmente uma grande violncia. Eu era uma criana de 4 anos de idade. O
que uma menina gosta? De ter cabelo comprido. Para mim, isso foi uma tortura. E foi tambm uma tortura terem me separado da minha
av, que era a nica me que eu conhecia.
E eu tinha que ser forte. Minha av olhava
para mim e falava: Seja forte, resi