0% acharam este documento útil (0 voto)
727 visualizações619 páginas

Revista Teresa

Revista Teresa, FFLCH-USP, 2007

Enviado por

vibessa
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
727 visualizações619 páginas

Revista Teresa

Revista Teresa, FFLCH-USP, 2007

Enviado por

vibessa
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Quando junto de mim Teresa dorme,

Escuto o seio dela docemente:


Exalam-se dali notas areas,
No sei que de amoroso e de inocente!

Eu sei, mimosa, que tu s um anjo


E vives de sonhar, como as Ondinas,
E s triste como a rola, e quando dormes
Do peito exalas msicas divinas!

Corao virginal um alade


Que dorme no silncio e no retiro...
Basta o roar das mos do terno amante,
Para exalar suavssimo suspiro!

Ah! perdoa este beijo! eu te amo tanto!


Eu vivo de tua alma na fragrncia...
Deixa abrir-te num beijo as flores dalma,
Deixa-me respirar na tua infncia!

Nas almas em boto, nesse crepsculo


Que da infante e da flor abre a corola,
Murmuram leve os trmulos sentidos,
Como ao sopro do vento uma viola.

No acordes to cedo! enquanto dormes


Eu posso dar-te beijos em segredo...
Mas, quando nos teus olhos raia a vida,
No ouso te fitar... eu tenho medo!

Diz amor! essa voz da lira interna,


suspiro de flor que o vento agita,
Vagos desejos, nsia de ternura,
Uma brisa de aurora que palpita.

Enquanto dormes, eu te sonho amante,


Irm de serafins, doce donzela;
Sou teu noivo... respiro em teus cabelos
E teu seio venturas me revela...

Como dorme inocente esta criana!


Qual flor que abriu de noite o nveo se-io,
E se entrega da aragem aos amores,
Nos meus braos dormita sem receio.

TERESA revista de literatura brasileira 12 | 13

O que eu adoro em ti no teu rosto


O anglico perfume da pureza;
So teus quinze anos numa fronte santa
O que eu adoro em ti, minha Teresa!

Deliro... junto a mim eu creio ouvir-te


O seio a suspirar, teu ai mais brando,
Pouso os lbios nos teus; no teu alento
Volta minha pureza suspirando!

So os louros anis de teus cabelos,


O esmero da cintura pequenina,
Da face a rosa viva, e de teus olhos
A safira que a alma te ilumina!

Teu amor como o sol apura e nutre;


Exala fresquido, doce brisa;
uma gota do cu que aroma os lbios
E o peito regenera e suaviza.

tua forma area e duvidosa


Pudor dinfante e virginal enleio;
Corpo suave que nas roupas brancas
Revela apenas que desponta o seio.

Quanta inocncia dorme ali com ela!


Anjo desta criana, me perdoa!
Estende em minha amante as asas brancas,
A infncia no meu beijo abandonou-a!

Teresa
revista de literatura brasileira 12|13

UNIVERSIDADE DE SO PAULO
REITOR Prof. Dr. Marco Antnio Zago
VICE-REITOR Prof. Dr. Vahan Agopyan
DIRETORA DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS Prof. Dr. Srgio Frana Adorno de
Abreu
VICE-DIRETOR Prof. Dr. Joo Roberto Gomes de Faria
CHEFE DO DEPARTAMENTO DE LETRAS CLSSICAS E VERNCULAS Profa. Dra. Marli Quadros Leite
VICE-CHEFE Profa. Dra. Paula da Cunha Correa
COMISSO EDITORIAL E EXECUTIVA Augusto Massi, Cilaine Alves Cunha, Ieda Lebensztayn, Vagner Camilo
CONSELHO EDITORIAL Alcides Villaa, Alfredo Bosi, Andr Luis Rodrigues, Antonio Arnoni Prado [unicamp],
Antonio Dimas, Augusto Massi, Csar Braga-Pinto [Northwestern University], Cilaine Alves Cunha, Davi
Arrigucci, Eliana Robert de Moraes, Erwin Torralbo Gimenez, Ettore Finazzi Agr [La Sapienza, Roma], Flvio
Wolf Aguiar, Flora Sssekind [Fund. Casa de Rui Barbosa], Hlio de Seixas Guimares, Ivan Francisco Marques,
Jaime Ginzburg, Joo Adolfo Hansen, Joo Roberto Faria, John Gledson [University of Liverpool], Jos Alcides
Ribeiro, Jos Antonio Pasta, Jos Miguel Wisnik, Luiz Roncari, Marcos Antonio de Moraes, Marcos Flamnio,
Modesto Carone, Murilo Marcondes de Moura, Ndia Battella Gotlib, Priscilla L. G. Figueiredo, Roberto de
Oliveira Brando, Ricardo S. Carvalho, Roberto Schwarz, Simone Ruffinoni, Tel Ancona Porto Lopez, Vagner
Camilo, Valentim Facioli, Yudith Rosenbaum, Zenir Campos Reis
EDITORES RESPONSVEIS Cilaine Alves Cunha e Vagner Camilo
agradecimentos Alberto Martins, Gisele Gemmi Chiari, Mrio Luiz Frungillo, Sandra Vasconcelos, Marcos
Csar de Paula Soares, Pedro Reinato e Srgio Sister
Teresa uma publicao do Programa de Ps-Graduao da rea de Literatura Brasileira do Departamento de
Letras Clssicas e Vernculas, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo.

Ficha catalogrfica elaborada pelo Servio de Biblioteca e Documentao da


Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo.
Teresa revista de Literatura Brasileira / rea de Literatura Brasileira.
Departamento de Letras Clssicas e Vernculas. Faculdade de Filosofia, Letras
e Cincias Humanas. Universidade de So Paulo n 12-13 (2012-2013).
So Paulo: Ed. 34. 2013.
issn 1517-9737-12
1. Literatura Brasileira. Universidade de So Paulo. Faculdade de Filosofia,
Letras e Cincias Humanas. Departamento de Letras Clssicas e Vernculas.
rea de Literatura Brasileira.
cdd 869.9

Teresa
revista de literatura brasileira 12|13

Ruptura e permanncia. Histria, esttica e poticas do romantismo

[Obras de Srgio Sister]

A Maria Claudete S. de Oliveira, in memoriam.

Ruptura e permanncia. Histria, esttica e poticas do romantismo


1 Pg i n a A b e r ta

14

Chopin e os domnios do piano, Jos Miguel Wisnik


2 EN S AI O S

50

94

160

174

192

65
79

112
130
144

205

Romantismo & barroco, Joo Adolfo Hansen


Romantismo das trevas, Walnice Nogueira Galvo
Hermanos e irmos: As relaes literrias entre os romnticos argentinos e
brasileiros durante o romantismo, Maria Eunice Moreira
Teatro romntico e escravido, Joo Roberto Faria
A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes, Roberto Aczelo de Souza
Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte, Slvia Maria Azevedo
As revistas literrias no romantismo francs: a ilustrao, Celina Maria
Moreira de Mello
Projetos para uma ptria imaginada: o Brasil de Jos Bonifcio e Hiplito da
Costa, Isabel Lustosa
A comdia urbana: de Robert Macaire Lanterna Mgica. Representaes
e prticas comparveis na imprensa ilustrada no sculo xix entre o
romantismo e o realismo, Heliana Angotti-Salgueiro
As encenaes do capital no romantismo brasileiro, Vivaldo Andrade dos Santos
Mujeres e Independencia en Chile. La cultura del trato y la escritura de cartas,
Carol Arcos y Alicia Salomone
3 D O S S I : P O TI C A S D O R O M ANTI S M O

226

244

271

287

257

307

Variaes do amor corts em Leonor de Mendona e em O casamento de


Fgaro, Vilma Aras
A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno de Blake, John Brenkman
Sobre o instinto de americanidade da crtica literria romntica brasileira:
Antonio de Macedo Soares (1838-1905), Luiz Roberto Cairo
Da ao folhetinesca cena intimista: um conto romntico de Casimiro de
Abreu, Maria Ceclia Boechat
Edgar Quinet e o romantismo, Arlenice Almeida da Silva
Caramuru, o mito: conquista e conciliao, David Treece

345

362

421

496

373
384

430
455
469
483

508
525

Entre texto e contexto: a ambiguidade do romance Os brahamanes (1866), de


Francisco Lus Gomes, Hlder Garmes
A janela da esquina: E. T. A. Hoffmann, arte e prosasmo, Karin Volobuef
A forma e o infinito, de Diderot a Baudelaire, Marcelo Jacques de Moraes
Entre o Romantismo to gasto e o Realismo to vasto: os tableaux de
Joaquim Serra e o ecletismo, Vagner Camilo
Pai Toms no romantismo brasileiro, Hlio de Seixas Guimares
Poema sem razo, Cilaine Alves Cunha
Jos de Alencar e a floresta do Brasil, Eduardo Vieira Martins
Gonalves Dias, a escravido e o tapete levantado, Wilton Jos Marques
A natureza-morta eloquente de Agostinho Jos da Motta: belas-artes e
literatura no Segundo Reinado, Letcia Squeff
Machado de Assis leitor dos romnticos brasileiros, Andra Sirihal Werkema
Grard de Nerval: poesia e memria, Marta Kawano
O eplogo de O guarani e os caminhos do romance de Alencar, Ricardo Souza
de Carvalho
4 POEMAS

546

OS POEMAS HUMORSTICOS DE PIETRO DE CASTELLAMARE


547 Meio romance
557 O Alcazar
562 Ao acaso
567 Fogo de palha
569 No Jardim Botnico
571 Reticncias
573 Incredulidade
575 Ecletismo
578 Virgens (Parfrase)
5 D O C U M ENTO S

584

Dois poemas de Friedrich Hlderlin: Coragem de poeta (Dichtermut),


Timidez (Bldigkeit), Walter Benjamin
604 Literatura: Da crtica brasileira, Macedo Soares

Ruptura e permanncia. Histria, esttica e poticas do romantismo

Este nmero da revista Teresa, dedicado aos estudos sobre romantismo, partilha, com Paul
Valry, a considerao de que seria necessrio ter perdido o juzo e o rigor paraquerer
definir esse movimento artstico. O nmero procura acompanhar o revigoramento do
interesse pelo assunto, evidenciado desde fins de 1980, em pesquisas acadmicas que
aprofundam a compreenso de seus nacionalismos, da diversidade de suas prticas artsticas e da complexidade de sua teoria esttica.
At por volta da dcada de 1980, a crtica literria, no Brasil, privilegiou o estudo do
nacionalismo romntico oficial, tendendo, s vezes, a reduzir o romantismo s categorias
psicolgicas do sentimentalismo e da pieguice pattica. Alguns estudos de histria da
literatura brasileira adotaram por critrios definidores do perodo o alinhamento de Jos
de Alencar poltica monrquica escravagista e o empenho de seus romances em regular
a conduta civil de acordo com o ethos estamental. Mas como no individualizaram o autor
dessa finalidade da arte, atriburam ao conjunto do romantismo a funo de fornecer um
complexo ideolgico de sustentao da poltica centralizadora do Imprio e da hegemonia do patronato brasileiro.
Esse mal-estar ante o romantismo foi ainda reforado pela adoo a posteriori de
princpios de certo realismo da segunda metade do sculo xix para avaliar a mimese
romntica. Ao empregar a referncia realista como interpretao da verossimilhana anterior, dissolveram-se o modo com que a mimese romntica simboliza o seu tempo histrico
e as prticas discursivas que a modelam. O indianismo de Gonalves Dias, por exemplo,
projetando no passado um diagnstico de seu tempo, bem como propostas para uma
reforma poltica e moral do pas, foi s vezes avaliado como reflexo do grau maior ou menor
com que imita a cultura aborgene. A incorporao programtica, pelos romances de Bernardo Guimares, das tradies e lendas populares do pas j foi lida como documento do
esprito sertanejo do autor e do Brasil.
Essa indisposio com o romantismo brasileiro deixou de problematizar o abolicionismo de Gonalves Dias, Bernardo Guimares, Jos Bonifcio, o Moo, Joaquim Serra e
Luiz Gama, alguns entre eles arredios ao Iluminismo e ao evolucionismo predominantes.
Pressups-se, com isso, que, no momento em que os letrados discutiam a substituio da
mo de obra escrava pelo trabalho assalariado, a totalidade do romantismo brasileiro no
se teria oposto administrao da vida conforme a nova diviso internacional do trabalho,
propagandeada pelo racionalismo e pelo patriotismo oficial.
Em alguns expoentes da historiografia da literatura brasileira, as prticas literrias do
romantismo tenderam a ser compendiadas como continuao do sculo xviii colonial
que, cultivando o didatismo artstico e pressupondo a no diviso do trabalho intelectual
burgus, no previu a autonomia da arte. Ainda que, j desde fins do sculo xviii e, no
Brasil, desde a primeira metade do sculo xix, tendncias artsticas reivindicassem a sua
independncia ante o sistema econmico, tico-poltico e social, constituindo a arte como
fim em si, o romantismo brasileiro teria deixado de valorizar a crtica como pressuposto
definidor de sua feitura artstica, bem como de sua recusa do mundo presente.

Nesse cenrio em que o pretenso estilo srio do nacionalismo oficial e do patetismo romntico ganhou o primeiro plano, a stira irnica ficou na sombra. Esse modo de
enunciao, em geral crtico e autocrtico, foi reinventado como sinnimo de arte a partir
de uma reconfigurao da ironia socrtica e de uma retomada de Aristfanes, Miguel de
Cervantes, Erasmo de Roterd, Franois Rabelais, Jonathan Swift, Laurence Sterne, entre
outros, atualizado de acordo com a recepo da filosofia kantiana por Friedrich Schlegel,
Karl W. F. Solger, Jean Paul Richter, entre outros.
A sua incorporao por alguns escritores do sculo xix, no entanto, desapareceu
em boa parte da histria da literatura brasileira. Perdeu-se, com isso, a legibilidade do
trao polmico da stira ao discurso romntico convencional ou ao nacionalismo oficial,
realizada por lvares de Azevedo, Bernardo Guimares (valorizado, sobretudo, por conta
da adeso de sua obra da maturidade ao regionalismo problematicamente pitoresco),
Joaquim Serra, entre outros. Essa soma de excees constituindo uma srie refora-se
ainda em escritores alijados do tempo romntico caso de Memrias de um sargento de
milcias, de Manoel Antnio de Almeida, e de O Guesa, de Sousndrade, aferido como
suposto antecipador das vanguardas estticas dos anos 1960.
Movimento cultural de longa durao, o romantismo compe uma heterogeneidade
de vertentes artsticas s vezes antagnicas, tendo modificado a arte, a historiografia, a
tica e os costumes. Como ocorre em perodos de profundas mudanas, concentrou em
poucos anos as transformaes conceituais, ticas e estticas que se desenvolveram no
Ocidente desde ento, legando aos movimentos artsticos seguintes alguns princpios que
foram sendo reproduzidos ou modificados enquanto absorviam as transformaes de seu
respectivo tempo histrico.
Para muitos escritores do tempo, o mundo e as relaes humanas seriam regidos por
uma ordem superior que reuniria as diferenas em uma improvvel harmonia universal.
Ainda que pressupondo uma unidade supra-histrica e uma hipottica origem essencial
da conscincia individual e nacional, outros acreditam que aquelas mesmas esferas derivam de um caos original, constitudo como uma justaposio de verdades contraditrias
que preservam a afirmao e a negao, o que elimina a possibilidade de sntese entre
termos contrrios.
Essas distintas posies diante da vida e da histria evidenciam-se ainda nas concepes do fluxo do tempo que se alastraram pelo sculo xix. Nele, alguns reafirmam a antiga
compreenso de que o tempo flui para repor a presena constante de Deus e uma ordem
de valores universais; outros assentam o fluxo da histria na ideia de progresso gradual da
nao rumo civilizao, combinando essa compreenso com a substancialidade crist;
alguns ainda postulam que a histria da humanidade caminha por meio da sucesso da
era da imaginao pela razo e que a cultura de um pas alterna apogeu e decadncia,
quando, ao renascer, ela guarda resduos de culturas anteriores e de povos em contato,
constituindo-se como uma soma de referncias mltiplas.
O reconhecimento da heterogeneidade que norteia o romantismo pressupe que
tambm no Brasil ele no forma unidade, abarcando diferentes posicionamentos ticos,
polticos e artsticos: classicista nacionalista; romntico classicizante, cristo, nacionalista,
monarquista, sentimental e abolicionista; mas ora tambm regressista com traos liberais;

romntico antipatritico e ainda nacionalista republicano, universalista, abolicionista, sentimentalista, ctico, irnico etc.
Esta Teresa contempla a presena do romantismo em algumas regies, reas e tendncias, nas diversas abordagens propostas por docentes e pesquisadores de universidades do pas e do exterior. Em boa parte, o volume publica colaboraes de professores
que participaram de um evento organizado em 2009 pelo Programa de Ps-Graduao
em Literatura Brasileira da Universidade de So Paulo, ento designado como Ruptura e
permanncia: histria, esttica e poticas do romantismo.
Naquele momento, a organizao do evento esperava contemplar a tenso instituda
pelos termos previstos em seu ttulo, pensando a ideia de ruptura e permanncia em relao a tendncias anteriores e concomitantes ao romantismo, bem como as subsequentes
que com ele pudessem ter mantido dilogo. Na ocasio, reuniram-se estudiosos das letras
coloniais e de literatura brasileira, inglesa, portuguesa, goesa de lngua portuguesa, alem
e francesa, do teatro, msica, pintura, filosofia, histria, sociologia e cincias polticas, procurando discutir a presena do movimento artstico em pauta em cada uma dessas regies
e reas, considerando ainda a leitura que certo romantismo nacionalista realizou das prticas letradas que o antecederam, sobretudo as setecentistas. Os ensaios aqui reunidos,
no entanto, no derivam todos das conferncias ento apresentadas. Foram adicionados
outros estudos, de modo que o conjunto possibilite uma compreenso mais ampla da
produo artstico-literria do sculo xix romntico e da configurao de seu contexto
histrico, seja na Amrica Latina, nos Estudos Unidos ou na Europa.
No tempo decorrido entre a realizao do Colquio e a edio deste nmero, as
cincias humanas perderam um de seus grandes expoentes. Ns, da revista Teresa, manifestamos profundo pesar pela morte do Prof. Dr. Manoel Luiz Lima Salgado Guimares, da
ufrj, tambm presente no evento.
Por fim, permanecemos muito gratos pela competncia e generosidade de Ieda
Lebensztayn.

1 pgina aberta

Chopin e os domnios do piano


Jos Miguel Wisnik

Resumo: O esoterismo de Frdric Chopin refere-se complexa trama de acontecimentos simultneos que subjaz a evidncia sedutora e contbile de suas melodias. Suas peas
podem ser seguidas, em geral, por uma escuta linear de superfcie, acompanhando o
caminho de seu fraseado meldico. Ao mesmo tempo, as linhas cruzadas, vozes intervenientes e eventos transversais, incidindo sobre todos os parmetros sonoros, sem deixar
de estar organicamente ligados ao que se escuta na superfcie, incitam a uma escuta total,
superficial e profunda. Palavras-chave: Chopin, imaginao meldica, popularidade,
esoterismo.
Abstract: The esotericism of Frdric Chopin refers to the complex series of simultaneous
events underlying the seductive and cautabile evidence of his melodies this pieces can be followed generally by a linear listening surface, following the paths of his melodic phrasing. At
the same time, crossed lines, intervening voices du cross events, focusing on all sound parameters, while remaining organically connected to what is heard on the surface, induce to a
total, superficial and deep listening. Keywords: Chopin, melodic imagination, popularity,
esotericism.

Popular e esotrico
Incontveis obras de Frdric Chopin esto entre as mais conhecidas e amadas do
repertrio de concerto. Mas ele um desses raros compositores, no mbito da msica
instrumental, cuja extraordinria popularidade no se confunde com simplificao
ou vulgaridade. Ao contrrio, como ressaltou Otto Maria Carpeaux, a gaya scienza
desse troubadour do piano nos confronta com o fato estranho, talvez nico, do
entusiasmo popular por uma arte altamente esotrica.1 Charles Rosen chega a uma
concluso parecida na sua anlise monumental dA gerao romntica, invocando a
mesma expresso, a de um esoterismo musical s acessvel s escutas mais penetrantes e sensveis: A intensidade do detalhe e a maestria da forma polifnica no
possuem paralelos em sua prpria poca, e tornam a sua obra, apesar de sua imensa
popularidade, a realizao mais particular e esotrica do perodo.2
O esoterismo deve ser entendido, aqui, num sentido tcnico e esttico. Em termos
musicais, refere-se complexa trama de acontecimentos simultneos3 que subjaz
evidncia sedutora e cantbile de suas melodias. As peas de Chopin podem ser
seguidas, em geral, por uma escuta linear de superfcie, acompanhando os caminhos
de seu fraseado meldico. Ao mesmo tempo, linhas cruzadas, vozes intervenientes
e eventos transversais, incidindo sobre todos os parmetros sonoros, sem deixar de
estar organicamente ligados ao que se escuta na superfcie, incitam a uma escuta
total, superficial e profunda. Andr Gide, que persegue sem descanso, em Notes sur
Chopin, a escapadia singularidade do compositor, fala no segredo de uma obra em
que nenhuma nota negligencivel, e na qual, apesar de sua reconhecida pujana
sonora, o grau de redundncia no sentido de um mero preenchimento retrico
praticamente nulo.4
Num texto escrito pouco tempo depois da morte do compositor polons, Franz Liszt,
seu amigo e rival, formulava a seu modo a mesma questo, ao dizer que as peas de
Chopin eram de tal modo atrevidas, brilhantes e sedutoras, disfarando sua pro1 CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova histria da msica. 4. ed. Rio de Janeiro: Alhambra, 1977, p. 175.
2 ROSEN, Charles. A gerao romntica. Traduo de Eduardo Seincman. Edio revista e ampliada. So

Paulo: Edusp, 2000, p. 551.


3 A ideia de mltiplos acontecimentos estruturais foi utilizada originalmente por Willy Corra de Oliveira na

anlise de peas de Chopin a partir de uma perspectiva de vanguarda, em seus cursos no Departamento
de Msica da eca-usp, nos anos 1970.
4 GIDE, Andr. Notes sur Chopin. Paris: Arche, 1949, p. 20. Ver tambm pgina 40. Todas as citaes em lngua
estrangeira foram traduzidas por mim.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 15

fundidade sob tanta graa e sua habilidade sob tanto charme, que s a muito custo
conseguamos escapar de seus arrebatadores atrativos para julg-las friamente do
ponto de vista do seu valor terico. Uma vez desveladas, no entanto, chamavam a
ateno pelas invenes entranhadas na sua imaginao meldica sem precedentes,
pela notvel ampliao do tecido harmnico, pela extenso dos acordes, seja blocados, em arpejos ou em cargas de baterias, pelas suas sinuosidades cromticas e
enarmnicas e pelos grupos de notas fulgurantes e imprevisveis com que elevava as
fiorituras da antiga escola de canto italiano quintessncia de seu estilo pianstico.5
Para Liszt, portanto, era a prpria exuberncia instantnea da obra chopiniana que
se levantava como uma barreira ofuscante contra a apreciao reflexiva e distanciada
de outras qualidades que ela ostentava, uma vez ultrapassada a primeira camada de
brilho. Por tudo isso, augurava para Chopin uma recepo pstuma menos frvola
e menos ligeira do que aquela com que foi escutado (e executado) muitas vezes no
seu tempo, j que o entendimento superficial e imaturo realimenta a interpretao
distorcida pelos efeitos sentimentais e virtuossticos externos. Segundo Gide, pode-se interpretar mais ou menos bem Bach, Scarlatti, Beethoven, Schumann, Liszt ou
Faur sem que as imperfeies cheguem a false-los substancialmente, enquanto,
no caso de Chopin, as menores inflexes equivocadas podem levar a tra-lo ntima,
profunda e totalmente.6
Em outras palavras, voltamos a tocar no problema crtico levantado por Otto Maria
Carpeaux e Charles Rosen: como entender (e superar) a dicotomia entre a popularidade e o esoterismo, entre a fruio imediatista e o alto grau de informao esttica,
no entendimento da obra de Chopin? Sua msica tem a tendncia a produzir ela
mesma a distncia entre a percepo superficial e a percepo profunda (pelo efeito
imediato de seu apelo sentimental ou virtuosstico), ao mesmo tempo em que o raro
poder de suspend-la, dada a sua extrema e excepcional organicidade.
A histria da recepo da obra chopiniana confirma, como mostra Jim Samson, essa
ambivalncia. Justamente em pases como a Alemanha e a Inglaterra, onde ele foi
entendido inicialmente em crculos progressistas como um compositor avanado,
operou-se na segunda metade do sculo xix a sua converso esfera da Trivialmusik
e do repertrio domstico vitoriano, com a reduo de suas densamente urdidas
5 LISZT, Franz. Chopin. Paris: Buchet/Chastel, 1977, p. 81. O livro conhecido por abrigar digresses no

assinadas de Carolyne Wittgenstein, que vivia com o compositor na poca de sua escrita. Mas a restrio
no se aplica certamente a essa parte, claramente tcnica.
6 GIDE, Andr. Notes sur Chopin. Op. cit., p. 2.

16 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

texturas aos procedimentos facilitadores do kitsch. Nessa linha, a recepo mdia


da obra de Chopin consagrou a imagem do compositor de salo, meio gua com
acar, sentimental, doentio, feminino e cheio de patritico romantismo polaco.7
um leque de clichs que ajudou a fazer a sua fama e que, por tudo que dissemos, a
realimentou no nvel mais primrio, reforando um tipo de recepo e de interpretao diludas. Mas a imagem do miniaturista enfermio e sentimental para lbum
de moas deve ser virada pelo avesso, para que se identifique a mesmo o contrapelo
dialtico da sua particularidade. Pois no que Chopin no tenha encontrado nos
sales parisienses durante a Monarquia de Julho o seu pblico mais frequente e o seu
nicho social mais tpico, que a sua msica no seja cheia de apelo aos sentimentos
do ouvinte, que ele no tenha sofrido os achaques da doena pulmonar em quase
toda a sua vida adulta, que no tenha sido dependente de uma mulher ao mesmo
tempo viril e maternal, a escritora George Sand, e que no tenha composto peas
apaixonadas que celebravam uma Polnia riscada do mapa pela aliana de Rssia,
ustria e Prssia. Mas que todos esses traos, que carregam o poder diminuidor
dos esteretipos, no limite entre a estima e a caricatura, a depender do ponto de
vista, no dizem nada se no forem confrontados com as foras contraditrias que
os atravessam, e com as dimenses especficas, e de difcil reduo, que caracterizam sua msica.
A partida definitiva da Polnia, em 1831, aos vinte e um anos, passando pela Alemanha e desembocando em Paris, antecede de muito pouco a insurreio popular
fracassada (mais uma) contra o domnio russo, que faz da sua terra natal no resto
da Europa e particularmente na Frana o smbolo cultuado da ptria romntica, desaparecida politicamente, mas vigorosa por isso mesmo no plano do ideal
e do esprito. sua volta, martelavam as cobranas, vindas de seus compatriotas
militantes, exilados em Paris, por uma afirmao programtica e pica da posio
nacionalista, com tudo que isso implica de verbalmente explcito e grandiloquente.
Cobranas s quais o seu temperamento lrico resistiu, extraindo a flama polaca
da memria musical profunda, vazada no em peras ou poemas sinfnicos, mas
em enigmticas Mazurcas e em Polonaises transfiguradas. importante notar que,
independentemente do vigor heroico e trgico que anima essas ltimas, elas timbram por se pronunciar no plano da msica pura, resistente aos apelos e aos clichs
da msica descritiva. Chopin alinha-se ostensivamente a favor da primeira e contra
7

Cf. SAMSON, Jim. Myth and reality: a biographical introduction. In: The Cambridge Companion to Chopin.
Edited by Jim Samson. Cambridge: Cambridge University Press, 1992, p. 1-8.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 17

a segunda, assumindo no debate romntico a posio de que a msica, concebida


tacitamente como a linguagem das linguagens, expressiva no quando imita os
poderes narrativos e descritivos da palavra, mas quando exerce soberanamente a
sua autonomia. A imagem pronta do renitente compositor eslavo esconde, na verdade, uma discreta e firme recusa dos clichs da msica programtica e nacionalista.
A sua relao com a questo nacional pode ser interpretada alm do mais, como
veremos adiante, com base numa figura recorrente no imaginrio intelectual polaco, a do prncipe campons.
A unio com George Sand, poca uma das mulheres intelectualmente mais fascinantes da Europa, em companhia de quem Chopin viveu por quase nove anos, entre
1838 e 1847, deve ser considerada pelo que significa no plano artstico, que , em
ltima anlise, o que nos interessa aqui. Separada de um casamento juvenil que lhe
dera um casal de filhos, herdeira de uma rica propriedade rural na regio de Berry
(onde Chopin veio a escrever parte considervel de sua obra), Aurore Dupin ganhara
a cena literria sob o nom de plume masculino de George Sand, impondo um estilo
de vida marcado pela independncia com que tomava para si as prerrogativas dos
homens: enfileirava amantes, dos quais se mantinha em geral amiga, usando calas
compridas e fumando charutos, vivendo da escrita e atuando por causas sociais
esquerda. No obstante, havia nessa mulher viril, saint-simonista e feminista, um
forte componente maternal e protetor, que se conjugava com a fragilidade e a dependncia chopinianas, quase assexuadas.
Otto Maria Carpeaux comenta, na Histria da literatura ocidental, que os romances
escritos por George Sand so bons (grande literatura, nobre e sincera) mas datados:
embora pioneiros e antecipadores, eles participam da atmosfera ideolgica de um
feminismo e de um socialismo anteriores a 1848, que envelheceram junto com a pgina virada da histria. Soam artificiais e antiquados no seu idealismo humanitarista e
popularista, na elegncia de grande dama com que trata a vida camponesa de modo
supostamente realista, no tom sentimental e retrico das questes amorosas abstradas da trivialidade da vida. Independentemente disso, exerceu influncia com a sua
arte sentimental e algo fcil de verdadeira fabricante de romances, criou o romance
idealista, sobretudo feminino, que dominou os leitores da segunda metade do sculo
xix; e o seu feminismo criou outro ramo novo da literatura. Olhada distncia, no
parece injusto, a Carpeaux, que a sua glria pstuma decorra menos dos romances
que [] escreveu do que daqueles que ela viveu: com Musset, com Chopin.8
8 CARPEAUX, Otto Maria. Histria da literatura ocidental. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1962, vol. iv, p. 1978-80.

18 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

O perodo da Monarquia de Julho, de 1830 a 1848, coincide praticamente com a vida


til de Chopin como compositor em Paris, servindo como a sua perfeita moldura
histrica. Em meio ao fervilhar dos sales parisienses da poca de Lus Filipe, o
salo e falanstrio de luxo que gravitava em torno do casal Sand e Chopin, com
seu contraponto literrio-musical, poltico e de gnero (a mulher ativista, o homem
sensvel e lrico, a romancista dando voz a contedos sociais, o pianista evanescendo-os em msica, ela socialista, ele protomonarquista), j foi analisado como ponto de
cruzamento das correntes sociais e culturais do perodo, num leque mundano que
inclua burgueses e aristocratas, banqueiros e polticos, artistas (Delacroix, Hugo,
Balzac, Lamartine, Adam Mickiewicz) e bomios, socialistas de primeira gerao
e dndis, muitas vezes reunidos em torno do piano, instrumento que se tornou o
fetiche por excelncia do tempo.
Basta dizer, a ttulo sintomtico, que Heinrich Heine, um dos seus mais destacados frequentadores, apresentou o banqueiro James Rothschild (de quem era primo
pobre)9 a Chopin e, em paralelo, o jovem Karl Marx, de quem era amigo, a Georges
Sand (ambos participaram do La Rforme, rgo de imprensa radical em que Marx
escreveu at ser expulso da Frana, em 1845). O bigrafo Tad Szulc chama a ateno
para o fato de que nas noitadas em torno de Chopin e George Sand cruzavam-se ou
alternavam-se, contraditoriamente, membros do mais alto poder poltico e econmico com pensadores de oposio e ativistas polticos radicais (Pierre Leroux, Louis
Blanc, Emmanuel Arago, o padre Lamennais) que subiram ao poder por um breve
perodo em 1848, com a queda de Lus Filipe.10 A desiluso e o fracasso que vieram
a seguir marcam de maneira melanclica, para esse ltimos, o fim das perspectivas
abertas pela queda da Monarquia de Julho. As partes e contrapartes que formavam a
cena dos sales parisienses sob a monarquia burguesa desmembraram-se ao som da
estreia sangrenta da classe operria no cenrio poltico, com a insurreio popular
de junho de 1848 resultando em 3 mil mortos e 15 mil deportados sem julgamento.
O intermezzo de pouco mais de trs anos entre o regime de Luis Felipe e o de Lus
Bonaparte tornou-se objeto, quase no calor da hora, da sinfonia dialtica escrita por
Marx em 1852, O 18 Brumrio de Lus Bonaparte, em que analisa o teatro de foras
polticas e sociais no perodo como uma mquina de moer avanos agindo sobre o
9 Um chiste de Heine sobre a relao familionria do primo rico (o baro de Rothschild) com um primo

pobre veio a ser, a propsito, um dos exemplos-chave dados por Freud em O chiste e sua relao com o
inconsciente.
10 SZULC, Tad. Chopin em Paris Uma biografia. Rio de Janeiro/So Paulo: Record, 1999, p. 290-4.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 19

espectro total do arpejo ideolgico e de classes.11 Dentro e fora dele, o pssaro brilhante a esvoaar sobre os horrores de um abismo, como disse Baudelaire da msica
de Chopin,12 a esfinge esplndida pairando sobre a Monarquia de Julho, continua
em vigor para alm de sua poca e, diferentemente da literatura de George Sand,
resistente reduo aos seus limites datados.
Resistente, em primeiro lugar, aos limites da msica de salo, em meio qual ela, no
entanto, vigorou. Se a msica de salo supe, como gnero, o virtuosismo superficial
e o sentimentalismo, Chopin submeteu esses clichs, segundo Charles Rosen, a uma
dupla estratgia despistadora: enobreceu-os, submetendo-os iridescncia sonora
das complexidades insuspeitadas, ao mesmo tempo em que os tratou com desdm,
ampliando e forando o sentimentalismo de estilo ao limite perturbador da morbidez. Praticou assim a seduo de sua msica sem cair quase nunca nos lugares-comuns que soam grandiosos ou bonitos e que podem ser expressos sem que se tenha
a conscincia perturbadora de seus significados. Isto , sem padecer das limitaes
da msica de salo, embora cercado pela sua forma social, escapou tambm do bom
gosto e do afvel classicismo que danificou a obra de tantos contemporneos seus.13
Ainda o comentrio contextualizador a um ltimo clich: o do compositor doentio.
Como se sabe, uma afeco pulmonar, possivelmente a tuberculose, conhecida na
poca como consumpo, manifesta-se na primeira juventude e o perseguir ao
longo da vida com hemoptises peridicas, febres cclicas, tosses e prostraes. Sempre s voltas com os diagnsticos desencontrados sobre o estado de seus pulmes
e a falta de tratamento efetivo para a doena, a sade frgil de Chopin viveu em
permanente luta com as condies climticas adversas, com as melhoras e as reca-

11 Com a repblica burguesa que sucede imediatamente a monarquia burguesa alinham-se a aristocracia

financeira, a burguesia industrial, a classe mdia, a pequena burguesia, o exrcito, o lumpemproletariado


organizado em Guarda Mvel, os intelectuais de prestgio, o clero e a populao rural. Os devaneios
utpicos da insurreio proletria so esmagados. Os elementos socialistas so rapidamente excludos
do governo provisrio. Os demais degraus do espectro poltico vo implodindo todos at a instalao
nas Tulherias do heri Crapulinski, posto como salvador da sociedade. Crapulinski um personagem de
Heine, trocadilho com a palavra francesa crapule (crpula) e stira aos nobres poloneses estroinas, atravs
do qual Marx aludia a Lus Bonaparte, expresso acabada da ral da sociedade burguesa constituda
em sagrada falange da ordem. MARX, Karl. O 18 Brumrio de Lus Bonaparte. In: Manuscritos econmico-filosficos e outros textos escolhidos, Os Pensadores, vol. xxxv. So Paulo: Abril Cultural, 1974, p. 340-2.
12 BAUDELAIRE, Charles. Loeuvre et la vie d Eugne Delacroix. In: L art romantique. Paris: Louis Conard, 1925,
p. 28.
13 ROSEN, Charles. A gerao romntica. Op. cit., p. 537.

20 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

das, com os estados de irritabilidade ou de franca alucinao, e com o agravamento


declinante que o levou morte aos 39 anos.
A figura romntica do artista doentio corresponde ao imaginrio da arte como
uma projeo direta da enfermidade, da patologia como uma estesia em potencial
e da fragilidade como um dom sensvel que tem no artista o seu privilgio agnico,
extraindo-se de tudo isso um gozo evanescente. Uma conhecida pgina de George
Sand sobre Chopin diz e desdiz esse mito. Trata-se da narrativa de uma daquelas
noites tenebrosas em Maiorca, onde o casal, viajando com duas crianas, o filho e a
filha da escritora, ainda no incio da relao, imaginara iludidamente encontrar, na
temporada de estio mediterrneo, um clima saudvel e regenerador para os pulmes
atacados dele. Ao voltar de uma de suas exploraes noturnas entre as runas,
ela se depara com o compositor plido diante do piano, os olhos alucinados e os
cabelos como que em p. Como um espectro que custa a reconhec-la, ele toca as
coisas sublimes que acabava de compor, ou, melhor dizendo, as ideias terrveis e
dilacerantes que acabavam de se apossar dele, quase revelia, nessa hora de solido,
tristeza e terror.
George Sand no resiste a ouvir no conjunto das peas curtas e poderosas que compe no perodo, e que viro a ser os Preldios opus 28, os ecos descritivos do ambiente
que os cerca, os vagos cantos funreos dos monges, as alternncias climticas da ilha,
o rudo das crianas pela janela, violes longnquos, gorjeios de pssaros e rosas
plidas na neve. Numa ocasio seguinte, ao retornar com o filho de uma ida a Palma
sob forte tormenta, ela encontra o compositor convertido alucinatoriamente num
morto-vivo que a imaginou arrastada pela tempestade junto com o filho, e que toca
o piano como se afogado num lago, sentindo gotas dgua pesantes e geladas carem
sobre seu peito. sugesto dela, de que essas gotas seriam as mesmas que caam
ritmadamente sobre o teto da abadia abandonada onde se hospedavam, ele protesta
exasperado, com todas as suas foras, contra a puerilidade dessas imitaes auditivas e a reduo da msica aos termos descritivos, literrios ou literais, da harmonia imitativa. George Sand aquiesce, no sem insistir num entendimento musical
baseado na imitao expressiva: seu gnio estava cheio de misteriosas harmonias
da natureza, traduzidas em equivalentes sublimes no seu pensamento musical e no
numa repetio servil de sons exteriores, mas por isso mesmo as gotas da chuva
no telhado real teriam se traduzido e se transfigurado na sua imaginao e no seu
canto, segundo ela, em lgrimas caindo do cu sobre seu corao.14
14 SAND, George. Histoire de ma vie. In: Oeuvres autobiographiques. Paris: Gallimard, 1971, vol. ii, p. 419-21.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 21

Se a escritora tende a identificar na msica, de maneira literal ou figurada, os efeitos do contexto imediato que os cerca, junto com a imagem do enfermo possudo
pelo delrio, essas aluses so rechaadas pelo msico que, mesmo mal sado, a
acreditar na descrio, de um estado de transporte alucinatrio, encontra foras
para reagir com o vigor e o rigor de um critrio esttico oposto. Pelo que se pode
depreender deste, h na msica uma fora pulsional obsedante, de tons onricos,
que emerge dos sons sem se distinguir deles, ao contrrio de uma representao
das paisagens sonoras circundantes, independentemente de imitar ou no a gota
dgua que ele escuta sem ouvir, isto , sem a conscincia disto. Note-se que tudo
o que h de doentio, febril e delirante na situao do compositor contrabalanado por sua afirmao sem subterfgios do carter autnomo, no imaginrio
e no imitativo, da msica, que desmente, pelo seu prprio carter reflexivo e
crtico, a mitologia do artista entregue doena e submetido pelas foras obscuras que se apossam dele. Sua concepo de msica a de uma linguagem funda e
sem palavras, ligada intensamente a zonas psquicas insondveis e radicalmente
avessa aos impulsos programticos e descritivos, encontradios entre tantos dos
compositores do seu tempo.15
Para Liszt, exemplo privilegiado, entre todos, da outra vertente da esttica musical
romntica, a da fuso entre as artes, trata-se de embeber a msica em contedos caractersticos, descritivos, pictricos, literrios e filosficos. Inspirado na
Sinfonia fantstica de Berlioz, ele estabelece os princpios do poema sinfnico,
buscando fazer da msica uma trama narrativa, de fantasia, um entrecho literrio e conceitual. O piano quer reproduzir no apenas os efeitos da voz humana
e da orquestra, mas imitar o barulho do vento e dos regatos, o tumulto do mar
e da tempestade, a calma dos lagos, a campana da aldeia, e todo um conjunto
de motivos pitorescos, seja visuais ou auditivos, como o jogo da gua na Villa
dEste, a capela de Guilherme Tell, os sinos de Genebra, o murmrio da floresta.
Pensamos folhear um lbum de aquarelas e ilustraes, mas no se trata seno
de um catlogo de composies piansticas de Liszt, diz Beniamino Dal Fabbro,
em seu Crepusculo del pianoforte.16
Para Charles Rosen, se a inveno lisztiana tem muito de imitativa (ele cria sono15 Sobre o debate romntico entre a msica descritiva e a msica pura, ver: FUBINI, Enrico. El Romanticismo.

In: La esttica musical del siglo xviii a nuestros dias. Traduccin de Antonio Pigrau Rodrguez. Barcelona:
Barral Editores, 1971, p. 137-62.
16 DAL FABBRO, Beniamino. Crepusculo del pianoforte. Torino: Einaudi, 1951, p. 88-9.

22 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

ridades no piano que se assemelham a sinos, cascos de cavalos, fontes, farfalhar de


folhas, ou que imitam os instrumentos da orquestra), Chopin cria sonoridade
pianstica abstrata, estrutura de sutis gradaes, [] contraponto de cor.17 Em
Chopin os ttulos das peas, isto , a sua rea de radiao semntica explcita, limitam-se rigorosamente ao gnero a que pertencem, sejam Baladas, Scherzos, Sonatas ou Improvisos, a Berceuse ou a Barcarola, sem recorrer jamais a uma inteno
narrativa sobressalente. Mesmo a Marcha Fnebre, includa na Sonata opus 35,
comparece ali como um gnero musical,18 e os famosos preldios da Gota dgua
(nomeados como tal a partir da citada narrativa de George Sand) ou da Morte,
assim como as valsas do Adeus, do Minuto ou do Cachorrinho, sem falar no
Estudo Revolucionrio e no vento sobre as campas associado ao movimento
final da citada Sonata opus 35, correspondem a atribuies pstumas, feitas por
outros.
A cena com George Sand merece ser relacionada com o dilogo entre Chopin e
Delacroix durante uma promenade en voiture por Paris, registrado no Journal do
pintor a 7 de abril de 1849, poucos meses antes da morte do msico. Embora combalido pela doena, Chopin disserta, instigado pela curiosidade de Delacroix, sobre os
fundamentos da lgica musical, dizendo que ela reside antes de tudo no contraponto
e na fuga, vale dizer, na simultaneidade orgnica dos acontecimentos. Esse princpio
ele v realizar-se em Mozart (alm evidentemente de Bach) onde todas as partes
entram em acordo ntimo , mais do que em Beethoven, que lhe parece algo obscuro
e falto de unidade, em sua pretendida originalidade um pouco selvagem. Chopin
afirma ainda, segundo deixa ver Delacroix, que o costume cristalizado de aprender
antes os acordes que o contraponto (vale dizer, a precedncia consolidada no sculo
xix da harmonia sobre a polifonia) leva platitude de procedimentos compositivos
pouco dinmicos como os de Berlioz, que fixa acordes e depois preenche como
pode os intervalos.
Delacroix afirma na ocasio o alto privilgio de se instruir em tudo isso que os
musicistas vulgares abominam, isto , a possibilidade de conceber uma cincia que
no se oponha arte, uma cincia que, tal como demonstrada por um homem como
Chopin, a prpria arte, longe daquilo em que o vulgo acredita, ou seja, numa
17 ROSEN, Charles. A gerao romntica. Op. cit., p. 511.
18 A partir da terceira tiragem da edio francesa da Sonata opus 35, Chopin suprime o adjetivo fnebre

que qualificava de maneira tautolgica a Marcha. Cf. EIGELDINGER, Jean-Jacques. Frdric Chopin. Paris:
Fayard, 2003, p. 110.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 23

espcie de inspirao que vem no sei de onde, que avana ao acaso, e s apresenta
o exterior pitoresco das coisas.19
Em Maiorca e em 1838, ou em Paris em 1849, portanto em dois momentos distantes e
assombrados pela doena, Chopin se distingue dela afirmando uma linguagem artstica que soa, nos termos compsitos de Delacroix, como a razo ornada pelo gnio,
seguindo um caminho regido por leis superiores, vale dizer, guiado no somente
pelas necessidades do sujeito mas pelas necessidades do objeto. A propsito dessa
passagem, Roberto Calasso destacou o pensamento de uma consequencialidade
quase cientfica, que se permite tratar com impacincia at mesmo a inspirao,
por parte de uma dupla que uma tradio estpida vinculava ao culto exclusivo de
sentimentos e paixes. Calasso os relaciona por isso mesmo a Baudelaire que, ao
introduzir Poe na Frana, afirma que o estilo do escritor norte-americano denso,
concatenado, e que a m vontade do leitor ou sua preguia no conseguiro passar atravs das malhas dessa rede tecida pela lgica.20 Andr Gide diz ainda, nessa
mesma linha, que aqueles que procuram em Chopin o romantismo e s o romantismo deixam de ver o que nele mais admirvel, isto , a reduo ao classicismo do
inegvel aporte romntico.21
Em suma, a msica chopiniana resulta na verdade de uma silenciosa, e em certo
sentido heroica, resistncia interna contra as condies em que foi produzida, contra aquilo que a cercava sob presso e contra aquilo que veio a identific-la com os
clichs, o da exaltao programtica do patriotismo polons, o do sentimentalismo
doentio, o dos avatares da msica de salo. Resta saber ento, entre cus e abismos,
em que cho essa ave mirfica apoia seu voo.

O piano forte
Nenhum compositor da histria da msica de concerto de tal modo indissociavelmente ligado ao piano como Chopin, cuja fidelidade ao instrumento vale por si s
como um pronunciamento esttico. Suas poucas obras para piano e orquestra so
de um perodo inicial na maturidade ele no voltou jamais orquestrao e, fora
19 DELACROIX, Eugne. Journal. Paris: Plon, 1932, vol. i (1822-1852), p. 283-4.
20 CALASSO, Roberto. A folie Baudelaire. Traduo de Joana Anglica dAvila Melo. So Paulo: Companhia das

Letras, 2012, p. 158-9.


21 GIDE, Andr. Notes sur Chopin. Op. cit., p. 81.

24 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

algumas incurses localizadas pela msica de cmara, para canto ou violoncelo e


piano, juvenis ou tardias, o campo central de sua obra exclusivamente pianstico e
inconcebvel de outra forma.
O piano j existia desde o princpio do sculo xviii, na forma embrionria do
cembalo con marteletti, mas pode-se dizer que atingiu seu pleno desenvolvimento tcnico na altura de 1830, exatamente quando Liszt e Chopin, no limiar
dos vinte anos, iniciavam suas carreiras parisienses. Diferentemente do cravo, em
cujo mecanismo as teclas pinam as cordas atravs de bicos de pena, extraindo-lhes um som cru e sem gradaes dinmicas, no piano o movimento das teclas
atinge as cordas atravs de um complexo sistema de martelos articulados, que
permite matizar atravs do toque a intensidade dos sons, indo do pianssimo
ao fortssimo (possibilidade indita entre os instrumentos de teclado, que lhe
confere o nome de pianoforte). O revestimento dos martelos resulta na produo de um timbre macio e aveludado, sem deixar de ser potente, e o controle
atravs do pedal direito prende e libera a reverberao das cordas na caixa do
instrumento, permitindo prolongar ou secar milimetricamente a sua durao.
Abarcando um amplo campo de tessitura (o que vai da nota mais grave mais
aguda), abrindo um extenso e nuanado campo de variaes possveis incidindo
sobre as duraes, sobre a dinmica, sobre os timbres (mudanas no corpo do
som pelo uso de pedais, oitavamento das notas e outros expedientes) e sobre os
ataques (sons ligados ou destacados pelo toque dos dedos nas teclas, que variam
em escala microcsmica seus modos de entrada e de sada no horizonte da escuta), o pianoforte descortinou um campo indito de explorao das propriedades
do fenmeno sonoro. Alm de ser um instrumento ao mesmo tempo meldico,
harmnico e polifnico, pelo fato de poder soar simultaneamente linhas, blocos
de acordes e tramas entrelaadas de vozes meldicas, o piano especialmente
ressonante: uma nota soando na regio grave faz vibrar simpaticamente todas as
cordas que lhe so harmonicamente afins ao longo da harpa interna, ou cal-las,
a depender do uso do pedal. Ele contm, assim, um duplo dispositivo de liberao
e conteno sonora, que permite potencializar os efeitos harmnicos, ao mesmo
tempo que control-los e intercambi-los com preciso.
O desenvolvimento dessas possibilidades no interessou ao Sculo das Luzes. O
som claro e distintivo das notas do cravo, cartesiano e aristocrtico, mais fonolgico do que fontico, mais contrastado do que ondulante, que j era no apenas
suficiente mas adequado s tocatas e s sonatas barrocas, aos exerccios perolados
de Scarlatti, ajusta-se perfeitamente aos planos bem definidos dos preldios e das

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 25

fugas de Bach. Mozart est num ponto de passagem: o teclado ideal mozartiano
seria qualquer coisa de intermdio entre o cravo e o piano: uma espcie de pianoforte cravstico que tivesse o timbre do cravo e os efeitos de pedal do piano.22 A
demanda por uma efetiva amplificao das possibilidades do teclado acstico, com
a potencializao at os seus ltimos limites de todos os parmetros da sonoridade,
permitidos pelo desenvolvimento do hammerklavier ou pianoforte, que tornam o
instrumento um caudal emocionante de eventos sonoros em mltiplos planos, s
se deu, no por acaso, depois da Revoluo Francesa, como projeo do imaginrio
sonoro burgus. O processo passa por um minucioso aperfeioamento do sistema
de martelos que trabalha as mediaes entre as teclas e as cordas: a inveno, por
Erard, do mecanismo de duplo piloto, em 1790; o refinamento do mecanismo
de alavancas entre a tecla e a corda, permitindo mais controle e nuanamento da
intensidade, em 1808; o mecanismo do duplo escapo, que possibilita a repetio
de notas rpidas e ainda maior controle da intensidade sonora sob o toque, em
1822. Em 1825, a armao da caixa em ferro fundido permite pianos mais robustos
e mais sonoros; em 1826, Pape substitui por feltro o couro ou a pele de gamo at
ento usados no revestimento dos martelos.23
Em 1830 o instrumento est pronto, em suma, para que esses gnios ou gmeos
piansticos simetricamente opostos , Liszt e Chopin, venham a domin-lo dentro
das condies abertas pela Monarquia de Julho, em que grandes banqueiros alavancavam a revoluo industrial francesa numa sociedade convertida em mercado de
aes para os que podiam compr-las, em que reinava o franco privilgio dos ricos,
conforme a resposta cnica (Enrichissez-vous!) de Franois Guizot aos protestos
contra a desigualdade social e poltica, e em que os sales aristocratas e burgueses,
ornados de personalidades polticas e artsticas da situao e da oposio, como
vimos, davam o timbre cultura. O fabricante Erard implanta seu salo de concerto
no Castelo de la Muette, Pape na antiga chancelaria dOrleans, na Rue des Bons
Enfants, e Pleyel na Rue Cadet, onde Chopin far a sua estreia em 1832.
Sabe-se que Beethoven, antes disso, cobrava dos fabricantes que construssem um
hammerklavier capaz de acompanhar as necessidades especficas da composio, e
que suas partituras indicavam cada vez mais detalhes tcnicos e expressivos: o uso do
pedal atenuador, conhecido como una corda; as marcaes dinmicas, em especial os
22 DAL FABBRO, Beniamino. Crepusculo del pianoforte. Op. cit., p. 30.
23 Cf. MICHAUD-PRADEILLES, Catherine; HELFFER, Claude. Le piano. Colletion Que Sais-je?. Paris: Presses

Universitaires de France, 1997.

26 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

crescendi; as marcaes de modos de ataque, os stacatti, legati e non legati (s vezes


contrapostos na mo direita e na esquerda); os sforzandi e rinforzandi. O dilogo
entre compositor e construtores evidencia que o desenvolvimento de uma linguagem
especificamente pianstica est ligado, nessa fase, a um trabalho tcnico que no
se separa das exigncias materiais implicadas no aperfeioamento do instrumento.
O quadro oferecido em 1830 a Liszt e Chopin diferente: o piano j um instrumento
consolidado em marcas que disputam o mercado, e seus recursos sonoros (potncia,
reverberao, velocidade das notas cromticas e diatnicas, notas duplas, oitavadas,
repetidas, arpejadas, blocos de acordes, trinados, trmulos, os graves percutidos e as
linhas cantantes) do lugar a uma variedade sonora e a um virtuosismo antes inimaginveis, que faro do instrumento e seu executante as grandes estrelas do concerto
solstico, gnero emergente criado por Liszt justamente a essa altura. A abertura do
Scherzo em si bemol menor opus 31, de Chopin, por exemplo, pode ser vista, entre
outras coisas, como um verdadeiro mostrurio dessas possibilidades grandiosas,
abarcando quase todos os itens tcnicos que acabamos de relacionar: um curto motivo inicial, misterioso e insinuante, baseado em quatro notas arpejantes e oitavadas
em legato pianissimo, cercado de silncios milimetricamente medidos, rebatido
pela irrupo estrondosa de graves percutidos, grandes blocos de acordes e arpejos
varrendo de alto a baixo o campo de tessitura, completados por escalas ascendentes
e descendentes que conduzem a uma apassionata melodia cantante.
Tudo ali assinala o carter abrangente dos recursos piansticos, sua dimenso sinfnica, sua capacidade de abarcar e superar, a seu modo, todos os outros instrumentos.
Como tudo isso no tem mais a feio do trabalho e da conquista sobre as dificuldades tcnicas, que vimos em Beethoven, mas j a da magia da coisa feita investida em
mercadoria, pode-se dizer que o piano se torna o fetiche por excelncia da poca,
o campo de provas da realizao e da competio individual sublimada em arte, o
objeto desejado e largamente afluente de um comrcio de instrumentos e partituras.
O piano favorito de Liszt era o Erard, dono de uma sonoridade pujante, vigorosa e
menos nuanada, enquanto o instrumento de eleio de Chopin era o Pleyel, menos
robusto e mais afeito s sutilezas idiossincrticas do seu estilo. No seria exagerado
dizer que essas preferncias, incorporadas comercialmente pelos fabricantes, prefiguram o futuro impacto mercadolgico e o peso publicitrio implicado na vinculao entre marcas e estrelas no mundo pop.
Aqui enfrentamos uma passagem crucial do nosso tema, o da decantada singularidade da msica de Chopin, repisada por quase todos os seus comentadores mais
importantes. Ela inseparvel do novo alcance material dado msica pelo desen-

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 27

volvimento acstico do instrumento, e do modo nico e concentrado como o compositor enfrentou e explorou a questo. claro que o desenvolvimento tcnico do
mundo pianstico conferiu msica romntica possibilidades inusitadas e, mesmo,
contribuiu para reforar na prtica, em alguma medida considervel, a soberania
terica da msica entre as artes no romantismo. Consideremos, por exemplo, o fato
de que Delacroix, j citado aqui como interlocutor privilegiado do msico (embora
este no o admirasse especialmente como artista), no usava tintas e telas substancialmente diversas daquelas dos pintores renascentistas, independentemente das
grandes diferenas estilsticas e temticas entre eles, enquanto Chopin tinha pela
frente um instrumento musical que realizava um conjunto de possibilidades nunca
visto em nenhum instrumento anterior, e uma matria sonora cujo corpo, plasticidade e multidimensionalidade tornavam literalmente tangvel o fenmeno que hoje
est claro na nossa conscincia ps-eletrnica, o do som como cascata ondulatria
de frequncias em mltiplos parmetros interligados (altura, durao, intensidade,
timbre, ataque). Como a onda sonora um feixe de frequncias em alta velocidade,
mesmo que no percebida como tal, a alta velocidade obtida pelas cascatas de notas
do piano, s vezes elevadas a nebulosas indistintas, ps em cena de maneira indita a
natureza, as modalidades e as formas da onda sonora, tornando possvel simul-las,
coment-las e erigi-las a um grau elevado de transfigurao.
Outros, em especial Liszt, utilizaram essas condies novas de maneira brilhante
e genial, porm mais decorativa, inconstante, imitativa e literria. Mais centrado
e concentrado nisso do que ningum, Chopin atacou obsessiva e verticalmente as
possibilidades expressivas dessa nova matria, extraindo-as do desdobramento dela
mesma (a matria sonora) e tirando as poderosas consequncias afetivas das infinitas
cambiantes do som manipulado pelo piano (que se mostrava capaz de imitar com
luxo de nuanas a dinmica das paixes). A msica de Chopin e sua poca marcam
o momento em que a manipulao da onda sonora, dobrando-se sobre si mesma
enquanto superposio ostensiva de feixes ondulatrios, devolve a msica a uma
espcie de verso tecnicizada do seu oceano primordial. Refiro-me ao carter fusional do som, evocado desde as mticas harpas elicas tocadas pelo vento, que Schumann, crtico perspicaz, reconheceu na sonoridade chopiniana: imagine-se uma
harpa elica que tivesse toda a gama sonora e que a mo de um artista a mesclasse
em toda sorte de arabescos fantsticos, de modo a se ouvir sempre, no entanto, um
som grave fundamental e uma suave nota alta; ter-se- assim uma imagem prxima
do modo de soar de Chopin. Ele se refere certamente ao Estudo opus 25 nmero 1, e
diz ainda que, mais do que a percepo clara de alguma nota, o que se escuta uma

28 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

ondulao harmnica em l bemol maior, renovada de tempos em tempos pelo pedal


e povoada internamente por melodias fugidias e quase de sonho.24
evidente, no entanto, que no se trata de um retorno natureza originria, mas do
resultado de uma impressionante acumulao tcnica em que o desenvolvimento de
uma tecnologia literalmente digital (em mais de um sentido), a da manipulao sonora
por teclas distintas e discriminadas, produz o resultado analgico de um hipercontrole
sobre as camadas de ar agitadas, para usar a expresso de Marx em A ideologia alem,
ao referir-se ironicamente, no caso, massa fnica das palavras. Se os torneios ideolgicos dos discursos ganham criticamente com sua reduo marxiana expresso material
mais simples o flatus vocis das camadas de ar agitadas , o ponto de inflexo crtico,
aqui, que a msica opera justamente sobre a materialidade das camadas agitadas de
ar em sua expresso mais complexa, surpreendendo algo como a fugidia espiritualidade da matria, presente in absentia na sua orla mais impalpvel, como aura. Se a religio
o esprito de um mundo sem esprito, para citar outra passagem famosa de Marx, a
msica que d corpo a esse esprito, j na ausncia da religio.
Entendamos, portanto, a sintomtica irritao do compositor com explicaes descritivas e com motivaes mimticas exteriores atribudas sua obra. Chopin atuava
de maneira radical na direo contrria, a da explorao profunda da mina emocional aberta pelas potencialidades autnomas do piano, que ele havia escavado
prodigiosamente nos exerccios tanto tcnicos como espirituais dos Estudos opus 10
e opus 25, e que passava pelo transe de sua elevao a uma quintessncia enigmtica
nos Preldios opus 28, por ocasio da viagem a Maiorca. Podemos imaginar, com
tudo isso, o quanto lhe soava incmodo o vezo descritivo dos j citados comentrios
de George Sand (sem esquecer que estes, mais do que uma expresso dela, eram
a expresso de uma das linhas dominantes do tempo, na sua maneira de conceber a
msica como uma modalidade do literrio).25
A singularidade da posio criativa chopiniana encontra correspondente, por sua
vez, na sua maneira toda particular de inserir-se na cena concertstica furtando-se
a ela. Preferia os sales aos concertos, e, aos sales, as reunies ntimas, onde exercia a

24 SCHUMANN, Robert. 12 Studi per pianoforte, di F. Chopin po. 25. In: La musica romantica. Milano: Arnoldo

Mondadori, 1958, p. 104.


25 O livro de Thrse Marix-Spire (George Sand et la musique, Paris, Nouvelles ditions Latines, 1955), rene

material documental sobre essa concepo descritiva da relao entre msica e literatura, e no por acaso
centrado muito mais no dilogo entre George Sand e Liszt do que entre George Sand e Chopin. Ele
contm tambm amostras dos argumentos de Liszt em defesa de sua posio.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 29

mais decantada e para ns a mais inacessvel das suas capacidades, a da improvisao.


A sutileza do toque, compatvel com a do piano Pleyel, punha dificuldades auditivas
ante as plateias maiores, embora no impedisse o extraordinrio sucesso das suas
escassas apresentaes pblicas, e a expectativa que elas produziam (a analogia com
o caso de Joo Gilberto quase se impe por si mesma). no contraste com a figura
de Franz Liszt que podemos desvelar ao avesso, e outra vez, o que h de mais fugidio
e difcil de definir na relao de Chopin com a msica, com o piano e com o mundo
em que viveu. Liszt encarnou o triunfo do piano em seu meio-dia tonitruante, e seu
voraz virtuosismo foi identificado com as figuraes de poder heroico e militar do
sculo, com Napoleo e com o imprio (recebeu certa vez numa cidade alem uma
espada simblica, e muitas vezes aclamaes apoteticas de imperador vitorioso).26
Exaltou ele mesmo o piano, em sua autossuficincia, como o mais elevado e complexo membro da famlia dos instrumentos, pontuou a sua modernidade (o nico que
progride continuamente, aperfeioando-se a cada dia) e decantou os seus sortilgios
como da ordem dos superpoderes:
[] a sua extenso abraa mais que sete oitavas, ou seja, supera a da maior orquestra,
e, no entanto, esse enorme material sonoro pode ser manobrado pelos dez dedos de
um s homem, enquanto a orquestra exige o trabalho de cem executantes. Ns pianistas podemos fazer soar acordes como uma harpa, cantar como os instrumentos de
sopro, destacar, ligar e conseguir num nico piano uma infinidade de procedimentos
que no eram possveis seno com muitos instrumentos diversos. Mais que qualquer
outro instrumento, o piano pode participar da vida humana, vivendo ainda uma vida e
um desenvolvimento prprio, inteiramente pessoal: microcosmo, microdeus27

A passagem no deixa dvida: o piano concebido aqui como o meio de transporte


metafsico do indivduo sobre a massa, como a entidade na qual se manifesta e se
materializa o Gnio, e ainda, o que no est dito, como a expresso mais acabada do
fetichismo da mercadoria numa poca em que o mercado musical emerge no contato
direto com uma decantada e fortssima tradio musical. O que resulta nesse efeito
extravagante aos olhos contemporneos de espetacularizao de massa inteiramente dentro, nesse momento inicial, do repertrio da cultura alta.
26 Esse paradigma encontra correspondentes nos lees virtuossticos do tempo, como Sigismond Thalberg,

Friedrich Kalkbrenner e os alunos de Liszt, Karl Tausig, Emil von Sauer e Moriz Rosenthal.
27 DAL FABBRO, Beniamino. Crepusculo del pianoforte. Op. cit., p. 84. O autor no d a fonte da citao.

30 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

Os recitais de Liszt (que ele mesmo desincompatibilizou dos espetculos mistos


de mltiplos artistas que vigoravam at ento, decolando definitivamente, como se
diz hoje, para a carreira solo) prefiguram os shows de uma espcie de pop star de
luxo, com figurinos chamativos e exuberantes, luvas atiradas sanha das mulheres
na plateia, execues de um virtuosismo sensacionalista, culminando no verdadeiro circo romano da improvisao final, em que se travava a batalha triunfal
do intrprete com os ltimos limites mecnicos do instrumento. Beniamino Dal
Fabbro sugere a ideia do recital lisztiano como um rito demonstrativo em que o
campo sonoro sucumbe ao repasto triunfador de um exuberante temperamento
rapinoso. Marie-Felicit Moke-Pleyel (pianista e mulher de Camille Pleyel, o fabricante rival de Erard) teria dito com um misto de ironia e fascnio, inclinando-se
sobre o instrumento depois de um concerto de Liszt: Contemplo o campo de batalha, conto os mortos e os feridos.28 A mitologia inerente ao espetculo lisztiano
ressoa o imaginrio das guerras do sculo, sublima e imita o tom heroico de suas
violncias e, se no bebe diretamente no modelo do triunfo militar, identifica-se
e identificado com ele.
Ao aristocratismo do temperamento chopiniano desgostava visceralmente, ao que
indicam todos os seus gestos conhecidos, a consumao do virtuosismo como
uma espcie de carnificina simblica. Alm do mais, como nativo ultrassensvel
de uma ptria engolida por potncias estrangeiras, travava surdamente uma batalha traumtica interna com o imaginrio da guerra e seus sucedneos heroicos,
como a glorificao figurada do conquistador. O dirio ntimo escrito durante sua
passagem por Stuttgart, a caminho da Frana, no perodo imediatamente posterior insurreio fracassada de 1831 e queda de Varsvia, denuncia o pnico, ao
mesmo tempo alucinatrio e justificado, ante a perspectiva da invaso russa, da
violncia inominvel, do horror do estupro. Entre fantasias mrbidas, cheias de
transgresses, voyeurismo e sensao de impotncia (como diz a bigrafa Benita
Eisler), de remorsos e da sensao intraduzvel do zal (termo polons ligado
dor, falta, ao luto, ao azedume estril), ele imagina suas irms violadas e Kons-

28 Idem, p. 83. O autor atribui a frase mulher musicista Camille Moke-Pleyel. Acredito tratar-se de uma

confuso em que se misturam os nomes do marido e da esposa. A bigrafa Benita Eisler acrescenta um
dado picante: Chopin teria ficado furioso ao descobrir que Liszt, a quem ele havia confiado as chaves de
seu apartamento, havia aproveitado a sua ausncia para receber nele uma amante, Marie Pleyel, belssima
pianista e esposa de Camille Pleyel []. EISLER, Benita. Les funrailles de Chopin. Traduit de langlais
amricain par Mlanie Marx. Paris: ditions Autrement Littratures, 2004, p. 103.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 31

tancja, seu amor juvenil, possuda e estrangulada pela soldadesca moscovita.29


Esse pathos inerente s peas de desespero e de combate que so as Polonaises,
mesmo quando apelidadas simplesmente de Militar e de Heroica.
E verdadeiramente emblemtico que seu piano, guardado mais tarde em Varsvia
como uma relquia, tenha se convertido em vtima de guerra, ao ser atirado da janela
pelos cossacos que invadiram e incendiaram o palcio dos Zamoyski, em represlia
nova insurreio polonesa de 1863. Os destroos, como um corpo violentado, tornaram-se matria do canto de Cyprian Norwid (1821-83), uma espcie de Sousndrade
polons, no poema O piano de Chopin, do qual damos aqui o fragmento final:
Vejo testas
De vivas empurradas
Pelo cano
Das armas e vejo entre a fumaa no gradil
Da sacada um mvel como um caixo erguerem ruiu
Ruiu Teu piano!
[]
Ele mesmo ruiu na calada!
E eis a: como o nobre
Pensamento presa certa
Da fria humana, ou como sculo sobre
Sculo tudo, que desperta!
E eis a como o corpo de Orfeu,
Mil paixes rasgam dementes;
E cada uma ruge: Eu
No! Eu no rangendo os dentes
*
Mas Tu? mas eu? que surda
O canto do juzo: Alegrai-vos, netos que viro!
Gemeu a pedra surda:
O Ideal atingiu o cho .30

29 Cf. EISLER, Benita. Les funrailles de Chopin. Op. cit., p. 49. A passagem poderia ser interpretada como mescla

de horror historicamente dado com fantasias edpicas recalcadas, na linha do unheimlich freudiano.
30 NORWID, Cyprian. O piano de Chopin. Traduo e introduo de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de

Souza. Braslia: Universidade de Braslia, Departamento de Teoria Literria e Literaturas, 1994, p. 21-3.

32 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

H no carter low profile da atitude esttica chopiniana mais que uma questo de
estilo: uma ferida psquica, uma resistncia profunda identificao com a figura
ostensiva do vencedor, e uma identificao compassiva e ambivalente com o lugar
do feminino, que d sua relao de intimidade exclusivista com o piano uma feio edpica.31 Se a sua relao com a msica no a da emergncia extrovertida dos
novos meios transformados em retumbantes narrativas heroicas, como j foi dito,
a da imerso introvertida no mundo ondulatrio com o qual ele conquista uma
intimidade nica.
Foi da, e no de outra coisa, que Chopin extraiu o seu poder e a razo de Estado
com que triunfa em Paris, num campo de ao diferente daquele dos protagonistas dos romances que Balzac escrevia mesma poca, embora estes descrevessem
minuciosamente o mundo em que estava mergulhado esse dndi vestido com as
roupas da moda, procura da bota de corte perfeito, calas de alfaiates de luxo e
luvas brancas. Nos primeiros anos, desafiado a jogar a sua primeira e grande cartada,
dedicou-se, no por acaso, aos dois volumes de 12 Estudos, o opus 10 (publicado em
1833) e o opus 25 (publicado em 1837), completados pelas cpsulas enigmticas dos
24 Preldios opus 28 (publicados em 1839), formando esses trs volumes, junto com
o das Mazurcas, o conjunto mais radical de sua obra, na linha de interpretao que
estamos seguindo. Os Estudos so um monumento ao piano num gnero que exibe,
antes de tudo, a relao metdica com o instrumento, as vicissitudes de sua prtica, as
particularidades de sua tcnica. Uma interveno ambiciosa e consciente, vale dizer
estratgica, nos domnios do instrumento-fetiche que centralizava a vida musical,
atravs do domnio intensivo e minucioso de todas as suas refraes, convertidas
em peas de uma beleza concertante e desconcertante.
Desconcertante porque uma beleza deslocada e intempestiva, no gnero. A cultura pianstica do perodo, largamente difundida, supunha naturalmente a existncia
de exerccios de cunho formador, capazes de alimentar o desenvolvimento tcnico
de uma leva crescente de profissionais e amadores. O piano se tornara uma pea
A bela edio contm tambm um necrolgio e um depoimento sobre encontro com Chopin, escritos
por Norwid. A relao com Sousndrade sugerida pelos tradutores.
31 Cyril Scott v na msica de Chopin um sentido esotrico, mas desta vez literal: com seu refinamento
esttico e sua delicadeza, distintos das brutalidades trgicas e grandiosas de Shakespeare e Beethoven,
sem falar no triunfalismo de Liszt, ele teria dado pela primeira vez s mulheres um instrumento de
identificao ntima que se contrapunha ao temor a Deus e aos maridos. SCOTT, Cyril. La musique Son
influence secrte a travers les ges. Traduit de langlais par H.-J. Jamin. Neuchtel: ditions de la Baconnire,
1982, p. 91-8.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 33

indispensvel do mobilirio burgus: uma pesquisa de 1845 estimou em 60 mil o


nmero de pianos s em Paris, estipulando em 100 mil o nmero das pessoas capazes de tocar de alguma maneira o instrumento, numa populao total de 1 milho.32
A obra de Bach, do Livro de Ana Madalena Bach a O Cravo Bem Temperado, que
Chopin estudava e venerava antes de tudo, fora incorporada, nessa poca, como
exerccio, como iniciao, como instrumento de desenvolvimento e formao (o
que se aplica tambm a Beethoven, Schumann e Liszt). Desde o incio do sculo xix
outros professores tinham composto estudos para piano que se tornaram clssicos,
como Cramer, Czerny e Moscheles. Muzio Clementi, autor do Gradus ad Parnassum,
tornara-se um misto de virtuose, compositor, professor, diretor de uma fbrica de
pianos e de uma editora, abarcando numa pessoa s toda a cadeia produtiva envolvida (como se mapeasse os degraus tcnicos do instrumento ao mesmo tempo em
que galgasse os do emergente Parnaso empresarial). Nenhum desses (Bach est fora
de questo, evidentemente) ultrapassa o seu carter de msica funcional de cunho
auxiliar. Schumann e Lizst escreveram, por sua vez, estudos de concerto, em parte
inspirados em Paganini, estetizando decididamente o gnero e fazendo dele um
campo de fantasiosa ecloso das possibilidades virtuossticas. Mas s Chopin, entre
todos, combinou rigorosamente o fundamento tcnico sistemtico do volume de
exerccios para piano com a transfigurao do gnero, compondo estudos transcendentais (em grau de desafio tcnico elevado) que so, ao mesmo tempo, msica
absoluta elevada ao sublime.
O resultado um sucesso imediato em dois flancos distintos. Esnobado ou desconhecido inicialmente pelo mundo pianstico (o virtuose Kalkbrenner dispusera-se a
ministrar-lhe aulas regiamente pagas), pelo Conservatrio, pela Sociedade de Concertos, o jovem Chopin conquista, com a edio dos Estudos, juntamente com a do
Concerto em mi menor opus 11, um at ento invisvel pblico de massa, dado pelos
milhares de pianistas amadores, em grande parte mulheres, que se mobilizaram para
comprar suas partituras, projetando a partir da o crculo do seu sucesso e de sua
celebridade numa espiral sem fim.33 O feito sacramenta, por sua vez, a tumultuada
amizade financeira de Chopin com o editor Maurice Schlesinger, que se sustentar
durante treze anos na base de polpudos adiantamentos por obras entregues sempre
depois da angustiada demora exigida por um improvisador fulgurante que escrevia

32 EISLER, Benita. Op. cit., p. 56.


33 Idem, p. 57.

34 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

lentissimamente, sob um regime de autoexigncia atroz.34 (Mais do que o neutro


instrumento de fixao de algo j pronto, a escrita a instncia trabalhosa que leva
o princpio de organicidade interna ao seu limite, alm de devolver a obra, uma vez
fixada, quele estado de indeciso charmante no qual Gide reconheceu a dico
especificamente chopiniana, que a reaproxima do improviso.)
O sucesso teve tambm o condo de guind-lo da posio de virtual aprendiz para
a de feiticeiro consumado. Seu jogo abria com um surpreendente lance artstico
de largo alcance investido de maneira incomum num gnero de msica funcional.
Alm de corresponder com um brilho novo sua funo, dando um alento inesperado ao rido enfrentamento das dificuldades tcnicas especficas do instrumento,
os Estudos retomavam a lio bachiana em correspondncia com a atualidade da
tcnica. Se Bach elevou a polifonia sua mxima expresso virtual num plano independente dos timbres, como se costuma dizer dA Arte da Fuga, trama de melodias
simultneas escrita para instrumento nenhum, Chopin, esse devoto dO Cravo Bem
Temperado que ele cita e consagra na estrutura dos 24 Estudos e Preldios tomou
para si a herana do pensamento polifnico nas dimenses concretas das dinmicas,
das massas sonoras, dos ataques e das texturas, em suma, na materialidade da onda
sonora tal como esta se tornou possvel graas ao desenvolvimento do piano. A sua
declarada herana da lio polifnica no , segundo Charles Rosen, a do contraponto estrito, isto , a da polifonia clssica e suas vozes meldicas independentes,
mas a do claro-escuro em que o jogo das sonoridades guarda vozes internas latentes,
soterradas em uma estrutura aparentemente homofnica, que faz efeito sobre os
nervos do ouvinte podendo irromper na conscincia a qualquer momento. Se a
polifonia dO Cravo Bem Temperado, sem falar na dA Arte da Fuga, antes de tudo
mental, a de Chopin, seja na compactao das suas superposies de notas crom34 Sua criao era espontnea, miraculosa. Ele a encontrava sem procurar, sem a prever. Ela vinha sbita

no piano, completa, sublime, ou cantava na sua cabea durante um passeio, e ele tinha pressa de faz-la
ouvir-se por ele mesmo, lanando-a no instrumento. Mas ento comeava o mais aflitivo dos trabalhos
que eu j vi em toda a minha vida. Era uma sucesso de esforos, de irresolues e de impacincias
para recapturar certos detalhes do tema de sua escuta: aquilo que havia concebido de uma vez s, ele
analisava demais ao querer escrever, e seu lamento por no encontr-lo claramente, segundo ele, o jogava
numa espcie de desespero. Ele se fechava no seu quarto, quebrando suas penas de escrever, repetindo
e modificando mil vezes um compasso, escrevendo-o e apagando outras tantas vezes, e recomeando
no dia seguinte com uma perseverana minuciosa e desesperada. Ele passava seis semanas em cima
de uma pgina para voltar a escrev-la tal como havia traado no primeiro jato. SAND, George. Oeuvres
autobiographiques. Op. cit., p. 446.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 35

ticas de passagem e ritmos quebrados complexos, seja na transparncia com que


se deixa entrever atravs da respirao das frases, fundamentalmente auditiva.35
O Estudo no 1 do opus 10, em d maior, que abre toda a srie, uma evidente glosa
do Preldio no 1 do primeiro volume dO Cravo Bem Temperado, mas como se os
arpejos descarnados que expem, neste, uma sucesso lmpida de encadeamentos
harmnicos ganhassem a velocidade fulgurante de um raio que se espalhasse por
todo o campo de tessitura. Um cronista vienense definiu-o como uma combinao
do esprito formador de Bach com a incandescncia apaixonada e o desafio tcnico
de Paganini.36 O que temos aqui algo como um cantus firmus oitavado nos graves
sob uma cauda vertiginosa de rajadas de ressonncias em que quase no se distinguem notas, mas turbulentos e contnuos desenhos de ondas.
Em princpio, estudos so peas monotemticas que visam a desenvolver a musculatura, a agilidade, a digitao, a flexibilidade e a velocidade do instrumentista. Os
estudos chopinianos levam esse pressuposto ao limite da ascese e do sadismo, exigindo malabarismos de dedilhado, alargamento da rea de atuao das mos, extenso e
independncia penosas do quarto e do quinto dedos (que so os mais frgeis), progresses cromticas, articulao de blocos intervalares difceis, em teras, quartas,
sextas e oitavas, velocidade e independncia na mo esquerda, flexibilidade das mos
e firmeza dos pulsos. Chopin considerava que cada dedo tinha uma personalidade
independente a ser trabalhada a ponto de tornar-se capaz de fazer vrios papis. Se
submete, por exemplo, os terceiro, quarto e quinto dedos da mo direita escalada
dos arpejos alargados no opus 10 nmero 1, obriga-os a sustentar um movimento
cromtico contnuo no opus 10 nmero 2 e a cantar a melodia do chamado Tristesse no opus 10 nmero 3. Assim, alm de malhar pontos especficos e atlticos com
uma fria sistematizante, os estudos chopinianos focalizam com preciso problemas
tcnicos mais sutis, mais difceis de abordar e inseparveis da sensibilidade musical, que so tambm exigidos ao mximo: diferentes tipos de ataques (o staccato e
o legato, rebatendo-se alternadamente), contrastes e contraposies dinmicas (do
pianssimo ao fortssimo), contrapontos de vozes meldicas insinuadas em meio a
texturas complexas.
Ultrapassando em muito a dimenso trivial da melodia na mo direita acompanhada
por acordes ou arpejos na mo esquerda, assumindo o campo dado pelo piano como
um campo de sonoridade total onde planos mltiplos se entrelaam, se contrapem
35 Cf. ROSEN, Charles. A gerao romntica, Op. cit., p. 482, 259 e 500.
36 Cf. EIGELDINGER, Jean-Jacques. Frdric Chopin. Op. cit., p. 47.

36 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

e ricocheteiam, como se Chopin estivesse ele mesmo estudando, nos Estudos e nos
Preldios, com meios acsticos e alta imaginao sensvel, sem falar nos seus fundamentos emocionais, a complexidade das formas ondulatrias, que o laboratrio de
msica eletrnica permitiu conhecer e explorar cientificamente mais de um sculo
depois, em meados do sculo xx (dessa vez com pressupostos antirromnticos, com
uma concepo de msica desvinculada de sua aura expressiva e com o som tomado
como matria dessubjetivada, como camadas de ar agitadas produzidas por sntese
eletrnica).
Chopin opera sua interveno sobre o campo ondulatrio de muitas maneiras: pela
superposio de pulsos defasados, que resultam em texturas rtmicas e meldicas
complexas (opus 10 nmero 10, opus 25 nmero 2, opus 28 nmero 5); pela acelerao de linhas superpostas que nos faz ouvir resultantes sonoras sem ouvir notas,
como no j citado opus 25 nmero 1 e no opus 28 nmeros 8, 12 e 16; pela explicitao contrastante dos modos de ataque, isto , pelas diferentes formas pelas quais os
sons entram e saem do campo sonoro, ligados entre si ou repicados e picotados. A
sequncia dos Estudos 3, 4 e 5 do opus 25 d um verdadeiro zoom microscpico na
fenomenologia dos modos de ataque, com as appoggiature contnuas do nmero 3,
que passam por sutilssimas alteraes de inflexo ao longo da pea (a linha meldica exposta no por notas isoladas, mas por uma sequncia de quase clusters,
aglomerados ruidsticos que aludem, mesmo na limpidez do resultado, natureza
acusticamente suja do som); com os contratempos marcados do nmero 4, que o
fazem lembrar um boogie-woogie, em meio aos quais despontam notas alongadas e
cantantes; com o contraste, no nmero 5, entre as clulas recortadas das partes inicial
e final e o esparramamento legato da mo direita na parte central, espraiando-se
sobre uma melodia cantante na mo esquerda.
O Estudo opus 25 nmero 7 , talvez, o melhor exemplo das metamorfoses pelas quais
passou a polifonia bachiana sob o tratamento intrinsecamente pianstico de Chopin.
A mo esquerda canta lentamente uma melodia recitativa. A mo direita contracanta com outra, e ambas seguem nesse dilogo, defasadas e mediadas pelos acordes
que, tocados ao mesmo tempo pela mo direita, vo dando s vozes o seu apoio
harmnico. No processo, a melodia da mo esquerda comea a expandir-se irresistivelmente em fiorituras, bordando as notas maneira dos expedientes do bel canto
(a influncia de Bellini amplamente reconhecida, a esse respeito), com a diferena
de que essas expanses ornamentais vo ultrapassando em muito as possibilidades
da voz humana, no s metamorfoseando-se em msica instrumental como levando
o instrumento a seu limite, a ponto de ultrapassar o reconhecimento distintivo das

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 37

notas em nebulosas fulgurantes que atingem nmeros francamente irracionais, se


contabilizados: no compasso 37, por exemplo, a mo esquerda chega ao paroxismo
de cinquenta e oito notas num compasso de trs tempos (o que daria 19,3333333 notas
por tempo), entre outras ocorrncias semelhantes, que no impedem o discurso total
da pea de manter-se sbrio, ntegro, e de terminar inteiramente pacificado com as
convulses que o habitam (o pssaro esvoaa sobre os horrores do abismo).
Os 24 Preldios opus 28 compem, em sua obsessiva referncia a O Cravo Bem
Temperado, uma construo total ainda mais cerrada do que a dos dois volumes de
Estudos, abarcando o ciclo completo das doze tonalidades maiores e menores encadeadas. Essa estrutura fechada e autorreferente acusa, no entanto, uma falta gritante
em relao a seu modelo: se nO Cravo os preldios preludiam fugas, formando com
elas um par complementar e irredutvel, no opus 28 chopiniano os preldios no
preludiam nada que no seja outros preldios em cadeia, msica apontando para a
procura de si mesma. Se os ttulos das peas de Chopin nomeiam, como j foi dito,
sua localizao genrica num campo de prticas determinado, como valsas, mazurcas ou scherzi, que elas comentam e transfiguram, os Preldios expem a perda de
referncia que subjaz aos gneros, oscilando por isso mesmo entre eles numa zona
de relativa indeterminao. Os de nmero 3, 8, 12, 16, 19, 23 e 24, por exemplo, apontam para os Estudos; o 7, para uma Mazurca reduzida sua expresso mais simples;
os de nmero 4, 6, 15 e 17 poderiam quase ter sido Noturnos, o de nmero 13 uma
Barcarola menor. Entre todos, circula mais propriamente uma interrogao sobre
o lugar que ocupam, o que encontra afinal sua manifestao mais sintomtica no
gnero fragmento: no nmero 1, uma nova glosa, dessa vez elptica, pulsante e sem
cho, do Preldio em d maior do primeiro volume dO Cravo; no 2, um ostinato
evanescente em torno de uma dissonncia lancinante; no 5, um ameao de estudo
sobre vozes superpostas em intrincada defasagem; no 9, um alla marcia inquieto
e curto; no 10, jatos de improviso confluindo para os restos de uma mazurca latente;
no 11, uma promessa de voo que se dissolve; no 14, um esboo do que ser o futuro movimento final da Sonata opus 35; no 18, um convulsionado gesto de balada
interrompida; no 20, uma breve reminiscncia solene tambm alla marcia; no 22,
pulsaes agitadas, espasmdicas e sem lastro.37
Robert Schumann formulou mais uma vez com preciso, em linguagem romntica,
a vinculao dos Preldios a uma potica do fragmento, ao comentar que eles so
37 A interpretao algo lizstiana, mas rigorosa, dos Preldios, por Evgeny Kissin, tem o mrito de aproxim-los

como poucas vezes do seu carter de laboratrio artesanal da onda sonora.

38 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

esboos, germens de estudos ou, se quisermos, runas, penas de guia dispostas de


maneira selvagem e desordenada, mas com a marca perlcea inequvoca do autor,
que segue sendo, para ele, o gnio potico mais ousado e indomvel do tempo. O
volume contm, diz Schumann, algo de doentio, de febril e de repulsivo, capaz de
engolir quem se aproxime, e mantendo por isso mesmo longe, em prudente reserva,
o cauteloso filisteu, essa entranha vazia cheia de temor e de esperana; que Deus
tenha piedade dele.38

O prncipe campons
Um canal de contato com a memria afetiva das viagens da adolescncia pela regio
do Mazowsze, que circunda Varsvia, irriga a srie das Mazurcas, que ocupa um
lugar especial no imaginrio chopiniano. Peas de compasso ternrio, alteradas por
uma aggica toda particular, que as distingue das valsas, elas so pontuadas por
aluses ao universo instrumental e modal da msica popular camponesa, sem se
reduzirem a um carter documental. Em vez disso, transfiguram e realimentam a
memria num fio recorrente que, mais do que todos os outros gneros praticados
por Chopin, atravessa a obra de ponta a ponta, do juvenil opus 6 at a ltima pea
escrita, que a Mazurca opus 68 nmero 4.
Os gneros populares de referncia so a mazur ou mazurek, a oberek e a kujawiak,
danas polonesas, ora rpidas, ora lentas, em que os acentos do compasso ternrio
incidem no s sobre o primeiro tempo, como comum na valsa, mas sobre o segundo ou o terceiro, formando, junto com certos retardamentos mnimos da pulsao,
figuras contramtricas peculiares, pequenos nadas microrrtmicos prprios das
tradies musicais regidas no por uma espacializao abstrata do tempo, como a da
partitura ocidental, mas por uma energia psicocintica eminentemente temporal e
impossvel de grafar.39 Chopin utiliza tambm, em algumas passagens das Mazurcas,

38 SCHUMANN, Robert. Federico Chopin Quattro Mazurke, op. 33. Tre Valzer, op. 34. Preludi, op. 28. In: La

musica romantica. Op. cit., p. 134-5. Citao em itlico no texto de Schumann.


39 Para indicaes tericas sobre a dimenso psicocintica em msica, ver: CAPORALETTI, Vincenzo.

Milhaud, Le boeuf sur le toit e o paradigma audiottil. In: LAGO, Manoel Aranha Corra do (Org.). O boi no
telhado Darius Milhaud e a msica brasileira no modernismo francs. So Paulo: Instituto Moreira Salles,
2012, p. 229-88.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 39

modos escalares estranhos ao sistema tonal que preside a via central da msica de
concerto, aludindo a tradies nativas.
Mas no h, seno ocasionalmente, citaes literais de temas populares, muito
menos pesquisa folclrica no sentido que esta ganhou entre outros romnticos, ou no
mtodo de composio de autores do sculo xx como Brtok. A referncia popular
est, aqui, na livre explorao do campo imaginativo do gnero, povoado de gestos
reconhecveis enquanto cifras fantasmticas de um lugar, que ocupa de tempos em
tempos a memria involuntria sob a forma do retorno incontornvel do perdido.
So acentos rtmicos, modos escalares, notas pedais que imitam, por exemplo, procedimentos das gaitas de foles, clulas danantes, modos de ornamentao, entre
outros processos menos definveis de acento tnico, que contracenam com a presena perturbadora de motivos obsessivos, recorrentes quedas cromticas, ousadias
harmnicas e passagens francamente elpticas e fragmentrias, que afastam ainda
mais essas peas do mbito simplrio da pea de salo caracterstica.
Nietzsche fala, a propsito de Chopin, de uma liberdade principesca que consiste
em danar entre as cadeias da conveno, como s o pode o esprito mais livre e
mais gracioso. A definio combina com outra, a do aristocrata estetizado (aristocrata democrata que alcana a nobreza por um processo de autoeducao) capaz
de deslizar sobre o cho em que ns afundamos graas a uma leveza conquistada
e livre de esforo visvel.40 A ideia de uma fluida liberdade danante em meio s
convenes do gnero se aplica bem s Mazurcas de Chopin, pedindo, no entanto,
um desenvolvimento mais especfico quanto ao seu propalado carter aristocrtico.
Este se liga ao refinamento inquestionvel pelo qual ele trata o repertrio gestual e
as sonoridades transfiguradas da tradio camponesa. Ao mesmo tempo, a tradio
camponesa se afirma com pujana e certa rusticidade estilizada inegveis, levando
a pensar sobre a ligao complexa entre esses termos opostos, o aristocrtico e o
popular, em Chopin.
A relao sacrificial entre senhor e servo, com a reverso de papis entre eles, como
atesta a novela de Tolsti, Senhor e servo, pode ser vista como um mito do mundo
eslavo (a palavra eslavo, a propsito, da mesma raiz de slave, como se o nome da
etnia contivesse de maneira ambgua e reversvel a oposio entre senhor e escravo).
40 como Lorenzo Mamm interpreta a figura de Fred Astaire, apontando na fluncia milimtrica e quase

intangvel do bailado do danarino americano de origem austraca uma analogia com a situao
hipottica em que Chopin compusesse um boogie-woogie. MAMM, Lorenzo. Mr. Voador. In: O que resta
Arte e crtica de arte. So Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 348-9.

40 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

Essa operao simblica se investe de um papel crucial na Polnia, pas marcado por
uma singular monarquia eletiva no perodo das monarquias absolutistas da Europa,41
guardando ao mesmo tempo uma renitente disposio camponesa e feudal pelos
sculos xvi e xvii adentro, e desaparecendo, ademais, como Estado autnomo do
fim do sculo xviii ao comeo do sculo xx. Dentro dessas condies muito peculiares, e ao contrrio de outras naes modernas, no h lugar para o protagonismo
de uma burguesia nacional, ficando o papel ideolgico aglutinador a depender, em
vez disso, de uma espcie de amlgama figurado entre o nobre e o campons no
enfrentamento do dominador estrangeiro. No sculo xix polons, o perfil burgus
se faz reconhecer mais propriamente nas figuras do alemo e do judeu. A condio
da nobreza, difundida entre pequenos proprietrios atravs de mecanismos de troca
de reconhecimento, mais do que de linhagem, est mais prxima do mundo rural
do que das cortes. E se o destino dos servos o grande tema do embate poltico
entre as foras que pressionam por uma sada aristocrtico-conservadora do jugo
estrangeiro ou uma sada romntico-libertria, o prprio n da relao, a oposio
entre o nobre e o campons, se converte, com a reverso de um ao outro, no mito
utpico-reparador por excelncia.
Um conto de Joseph Conrad, Prncipe Roman, vai ao ncleo desse complexo simblico. Escrito em 1911 por esse polons anglicizado, remonta justamente ao ano
de 1831 (um daqueles anos fatais em que, em presena da indignao passiva e das
eloquentes simpatias do mundo, ns tivemos, uma vez mais, que murmurar Vae
Victis e fazer o balano das perdas na moeda do sofrimento).42 aquele mesmo
ano em que vimos Chopin, a caminho da Frana, recebendo notcias assustadoras do
esmagamento do levante polons em Varsvia. A histria familiar de Joseph Conrad,
nascido Jan Korzeniowski, permeada pelas vicissitudes desse passado nacional. Sua
famlia vinha de uma pequena nobreza rural marcada por forte nimo patritico:
seu tio Robert Korzeniowski fora morto no levante de 1863 (quando se deu o j citado episdio da destruio do piano de Chopin); outro tio, Hilary, fora deportado
no mesmo ano para a Sibria, onde morreu dez anos mais tarde. O pai de Conrad,
Apollo Balecz Korzeniowski, poeta e tradutor, foi deportado em 1862, com a famlia,
para a Rssia, por sua participao no clandestino Comit Nacional Polons, tendo
41 Ver, a propsito: ROUSSEAU, Jean-Jacques. Consideraes sobre o governo da Polnia e sua reforma

projetada. Traduo, apresentao e notas de Luiz Roberto Salinas Fortes. So Paulo: Brasiliense, 1982.
42 CONRAD, Joseph. Prince Roman. In: The Portable Conrad. Edited, and with an introduction and notes, by

Morton Dauwen Zabel. New York: The Viking Press, 1947, p. 58.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 41

morrido poucos anos depois, assim como a mulher, das agruras do exlio. O filho
ficou com familiares da me at os dezessete anos, quando partiu para o mar e para
o mundo, tornando-se um dos maiores escritores de lngua inglesa sob o nome de
Joseph Conrad, embora com um dbito permanente, na moeda do sofrimento, para
com essa histria pessoal e coletiva. Prncipe Roman no deixa de ser um ajuste
de contas com as origens abandonadas, que comea com a pergunta sobre o sentido
da ideia de aristocracia e de outro valor desacreditado, o patriotismo, visto pela
delicadeza de nosso olhar humanitrio como uma relquia da barbrie.
O conto opera uma retomada moderna dessas categorias tradicionais, a nobreza e o
patriotismo, do ponto de vista da experincia polonesa, no interior da qual o ethos
patritico continuaria vigorando como um interminvel trabalho de luto. Baseia-se
na histria de um camarada de armas de seu av Korzeniowski, o Princpe Roman
Sanguszko, na figura do personagem Roman S_____, que contraria a aliana aristocrtica familiar com o Czar e engaja-se intempestivamente na luta antirrussa. No
processo, vem a tomar secretamente o lugar do servo que o acompanha, morto em
combate, abrindo mo de seus privilgios estamentais e assumindo sacrificialmente
a identidade deste, lutando nas fileiras comuns e fazendo-se reconhecido pelo mrito, at ser tomado como prisioneiro e servir na Sibria (recusando-se em julgamento
a renegar a convico patritica que o moveu, e a valer-se das atenuantes conciliatrias que a sua posio de origem permitiria perante o tribunal do Czar). Trata-se de
uma situao singular, e ao mesmo tempo exemplar, em que a nobreza do nobre est
em converter-se no campons que o serve, o qual se faz, por sua vez, nobre pstumo.
No por acaso o heri nacional Tadeuz Kosciuszko, que comandou o levante de
1794, em cujas tropas o pai de Frdric Chopin lutou, e cuja derrota selou a terceira
partilha da Polnia e a desconstituio desta como Estado independente, objeto de
uma biografia recente cujo ttulo The peasant prince [O prncipe campons], escrita
por Alex Storozynski (o qual, ao que tudo indica, no pensou no conto de Conrad
quando escolheu o ttulo da obra, o que faz deste um ndice involuntrio a mais dessa
constelao cultural particular).43 Kosciuszko participara tambm como voluntrio,
em 1776, das lutas pela independncia norte-americana, nas quais se fez reconhecer
pelo mrito, em curiosa analogia com o personagem de Conrad, do qual talvez
uma espcie de paradigma histrico e mtico. Foi promovido a coronel de artilharia
por George Washington, que o tornou seu auxiliar direto, e mais tarde a general43 STOROZYNSKI, Alex. The peasant prince Thaddeus Kosciuszko and the age of revolution. New York: First St.

Martins Griffin Edition, 2010.

42 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

-brigadeiro, fazendo jus a uma srie de benesses do Estado americano. Nas lutas
de 1794, na Polnia, Kosciuszko tinha como ajudante de ordens um negro norte-americano, Jean Lapierre, envolvido com ele na tentativa de libertar servos brancos
das condies feudais. Voltando aos Estados Unidos depois das batalhas polonesas e
da priso, confiou a Thomas Jefferson, em 1798, uma soma considervel em dinheiro
acumulado, a que tinha direito, para a misso de libertar e educar escravos negros
(como se traduzisse de alguma forma para o contexto anglo-americano a vertente
romntico-emancipadora do mito identitrio polaco).
Um arco significativo de datas nacionais e pessoais compreende, desse modo, a carreira chopiniana, antes, durante e depois de seu tempo de vida: 1794 e a participao
do pai no exrcito derrotado de Kosciuszko; 1831 e o levante fracassado, tomado como
referncia pelo conto de Conrad, no mesmo momento em que Chopin abandonava
a Polnia para sempre; 1863 e o piano estraalhado pelas tropas russas, consumando
a vinculao rfica de sua msica com a histria nacional, tal como decantada no
poema de Cyprian Norwid. Somem-se a isso as Baladas e romances de Adam Mick
iewicz, a interpretao deste do destino polons como exlio e peregrinao,44 alm
de seus fragmentos lricos,45 e temos algo do elo que liga as Polonaises s Mazurcas.
Na origem msica militar ou de corte, as Polonaises tornam-se caixas reverberantes,
sem palavras, dessas vicissitudes heroicas e trgicas, referidas ao modelo paterno
(e assombradas pelas ameaas inominveis sobre o feminino). Junto com elas, as
Mazurcas perfazem a rememorao a fundo perdido de um vnculo inapagvel e
distante, maneira daquele que se esconde e se revela na obra de Korzeniowski /
Conrad (comparado aqui a Fryderyk / Frdric no como dico, mas como semelhana de destino, o de polacos exilados e ocidentalizados que escreveram em outra
lngua, guardando uma dvida insaldvel com a origem).46 Em Chopin, as Mazurcas
44 Ver: MICKIEWICZ, Adam. Selected poetry & prose. Warsaw: Polonia Publishing House, 1955.
45 Paulo Leminski traduziu um dos poemas-fragmento de Mickiewicz, mal compreendidos no seu tempo

pelo seu carter lacunar, na abertura do livreto Polonaises, poema que poderamos entender tambm no
esprito das mazurcas ou dos preldios chopinianos: Choveram-me lgrimas limpas, ininterruptas,/ Na
minha infncia campestre, celeste,/ Na mocidade de alturas e loucuras,/ Na minha idade adulta, idade
de desdita;/ Choveram-me lgrimas limpas, ininterruptas. LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. So Paulo:
Companhia das Letras, 2013, p. 65.
46 Heine teria dito que Chopin pertence [] a trs nacionalidades: a Polnia lhe deu a alma de um cavalheiro
e a memria do seu sofrimento; a Frana charme; a Alemanha romantismo. SZULC, Tad. Chopin em Paris
Uma biografia. Op. cit., p. 193. Charles Rosen diz que, assim como Gluck foi conhecido como o alemo que
escreveu msica italiana na Frana, Chopin poderia ser definido como o polons que escreveu msica

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 43

so peas lricas que alternam penetrante vivacidade e meditao enigmtica, que


evocam uma rea de afinidade feminina, ligada memria profunda, e que estilizam
um campo de sonoridades refinado e rstico, nobre campons (da parte daquele
que sempre dependeu, em seu despaisamento definitivo, da presena, em torno de
si, da msica da lngua materna). Esse complexo histrico-pessoal evidentemente
maior, para efeito da obra, do que a sua ligao, por outro lado, com a aristocracia
polonesa dos sales parisienses.

Notas finais
Conservador e revolucionrio, no dizer de Charles Rosen, esse cultor novecentista
da msica do sculo xviii fundamental para a ampliao do universo sonoro que
se d na passagem ao sculo xx, atravs, por exemplo, das extremadas sonoridades
ondulatrias do Ravel de Gaspar de la Nuit ou das exploraes meldicas, harmnicas, timbrsticas e texturais dos no por acaso Preldios e Estudos de Debussy
(sem falar ainda nos assumidamente chopinianos Noturnos e Barcarolas de Gabriel
Faur).47 A maneira pela qual explora clulas monotemticas e obsessivas, nos Estudos, abre esse campo de possibilidade sonora a Scriabin, Prokofiev e Alban Berg,
alm de Ravel e Debussy.48
O fato de Chopin ser tambm o compositor de concerto mais presente na msica
popular brasileira, especialmente na obra de grandes compositores pianistas como
Ernesto Nazareth e Tom Jobim (que vemos, numa foto do stio onde comps guas
de maro, tocando um piano sobre o qual se distingue, soberana, a estatueta do
compositor polons), merece aqui um pequeno comentrio. Em Nazareth, mais do
que nas Valsas ou na Marcha fnebre (e demais tentativas concertsticas), Chopin
deixa traos na textura de sua escrita pianstica pontuada por planos superpostos e
acontecimentos mltiplos. Em Jobim, alm disso, na relao evidente do Preldio
opus 28 nmero 4 com a cano Insensatez, de onde o compositor extrai um
princpio recorrente em muitas de suas canes, o da melodia que insiste numa

italiana e alem em Paris. ROSEN, Charles. Frdric Chopin, reactionary and revolucionary. In: Freedom
and the arts Essays on music and literature. Cambridge: Harvard University Press, 2012, p. 190.
47 Ver: HOWAT, Roy. Chopins influence on the fin de sicle and beyond. In: The Cambridge Companion to
Chopin. Edited by Jim Samson. Cambridge: Cambridge University Press, 1992, p. 246-83.
48 Cf. ROSEN, Charles. Frdric Chopin, reactionary and revolucionary. Op. cit., p. 191.

44 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

mesma nota enquanto a harmonia vai alterando-a atravs de lentos deslizamentos


cromticos. Lorenzo Mamm identifica tambm uma possvel relao entre a clula
geradora do Estudo opus 10 nmero 6 e a clula obsessiva do Retrato em branco
e preto.49
Mais que isso, a relao de Chopin com a msica brasileira nos devolve nossa
questo inicial, da combinao do apelo instantneo com a complexidade de linguagem, do popular com o esotrico. Mrio de Andrade observava exatamente esse
paradoxo em Ernesto Nazareth, dado o fato intrigante de ser ele ao mesmo tempo o
mais sedutor e o mais consistente compositor popular de sua poca.50 A observao
pode ser estendida, em larga margem, a Tom Jobim, cuja obra de ampla repercusso
se faz no obstante o seu requinte meldico-harmnico, seu carter escapadio e
modulante, sua concepo de forma como desenvolvimento sutil de motivos para
alm dos padres de repetio da cano popular de mercado. Quando o acusavam
de americanizado, Jobim dizia-se influenciado por Chopin, como Nazareth.51 No
canto de Joo Gilberto, por sua vez, que trabalha sobre um repertrio tonal popular
comum, mas atravs de uma rede precisa de nuances mnimas em mltiplos nveis
(entoativos, rtmicos, timbrsticos, harmnicos, contraponto voz / instrumento),
reencontramos o enigma da msica a um tempo superficial e profunda. 52
Podemos dizer que, entre esses artistas da msica popular brasileira, vigorou algo
daquela condio singular vivida por Chopin na primeira metade do sculo xix,
quando circulou pelo campo do emergente mercado musical negociando intimamente com ele um lugar parte, exigente, profundo e sem data.
A palavra singularidade recobre semanticamente a percepo latente em todos os
comentadores que passaram por aqui, de Gide a Rosen, de Schumann a Carpeaux, de
Liszt a Nietzsche. Heine, crtico implacvel e ferino de seus contemporneos, preservou Chopin num lugar nico e parte. No seria fcil reconhecer num outro artista,
msico ou no, o mesmo tipo de perfil. Poderamos dizer que tamanha singularidade
romntica, mas, como vimos, o romantismo chopiniano tambm singular.
49 MAMM, Lorenzo. Prefcio, Cancioneiro Jobim. Rio de Janeiro: Jobim Music, 2002, p. 15.
50 Ver: ANDRADE, Mrio de. Ernesto Nazar. In: Msica, doce msica. So Paulo: Martins, 1963, p. 121-30. Cac

Machado desenvolveu amplamente esse tema em O enigma do homem clebre Ambio e vocao de
Ernesto Nazareth. So Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007.
51 Joo Mximo, baseado em entrevista concedida a ele por Tom Jobim, para a srie Vinicius, msica, poesia
e paixo, Rdio Cultura de So Paulo, 1993-1994.
52 WISNIK, Jos Miguel. O som e o sentido Uma outra histria das msicas. So Paulo: Companhia das Letras,
1989, p. 226 nota 42.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 14-46, 2013 45

Em ltimo caso, ouamos a Barcarola opus 60, obra-prima tardia de Chopin, na


interpretao de Martha Argerich jovem. Raras vezes a pulsao em msica, entre o
primo canto e o canto do cisne, chegou a esse ponto supremo de flutuao.53

Jos Miguel Wisnik msico, compositor e professor de Literatura Brasileira na Universidade de


So Paulo. autor de Veneno remdio: o futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008); Machado
maxixe: o caso Pestana (PubliFolha, 2008); Sem receita ensaios e canes (PubliFolha, 2004); O
som e o sentido (Companhia das Letras, 1989); O coro dos contrrios a msica em torno da Semana
de 22 (Duas Cidades, 1977); entre outros. Publicou artigos nos livros coletivos Os sentidos da paixo,
O olhar e tica (Companhia das Letras, 1987, 1988 e 1992) e em Livro de partituras (Gryphus, 2004).

53 Martha Argerich, Barcarole Fis-dur opus 60, Dbut recital, Deutsche Grammophon/Polygram. Algumas

indicaes discogrficas sobre as demais obras citadas, que ressaltam, para mim, entre as incontveis
possibilidades existentes: Maurizio Pollini, Chopin Etudes, Deutsche Grammophon; Nelson Freire, Chopin
(tudes, op. 10) e Chopin (Etudes op. 25), Decca; Evgeny Kissin, Chopin (24 Preludes op. 28), bmg; Antonio
Guedes Barbosa, As 51 Mazurcas, Kuarup Discos.

46 wisnik, Jos Miguel. Chopin e os domnios do piano

2 ensaios

Romantismo & barroco


Joo Adolfo Hansen

Resumo: A categoria Barroco foi utilizada dedutivamente pela primeira vez como categoria esttica positiva por um autor neokantiano, Heinrich Wlfflin, em 1888. Desde ento,
passou-se a acreditar que O Barroco existiu em si, ante rem, sempre se esquecendo de
que a noo de barroco no tem existncia independente do corpus usado para defini
-la. Palavras-chave: letras e artes do sculo xvii, interpretao evolucionista, Barroco,
romantismo.
Abstract: The category Baroque was first used deductively as positive aesthetic category by
a neo-Kantian author, Heinrich Wlfflin, in 1888. Since then, it is believed that The Baroque existed, ante rem, always forgetting that the notion has no existence independent of the
corpus used to define it. Keywords: arts and letters in the seventeenth century, evolutionary
interpretation, Baroque, Romanticism.

O que vou lhes dizer sobre o tema romantismo e barroco no novo. Retomo
coisas que venho fazendo desde 1984, quando escrevi uma tese de doutorado sobre
a poesia atribuda a Gregrio de Matos e Guerra, passando ao largo do idealismo
romntico-positivista que dominava o campo dos poucos estudos existentes sobre as
letras coloniais no pas. Em muitos lugares da Amrica Latina, dos Estados Unidos e
da Europa por onde andei nos ltimos anos convidado a dar cursos e fazer palestras
sobre elas, esse estado idealista de coisas no existe. Ao contrrio, nesses lugares
o interesse pela especificidade histrica dessas letras d o tom dos estudos. No
sei dizer se tambm nas Letras da usp hoje, onde o assim chamado sequestro do
assim chamado barroco do cnone ficou cannico na rea de Literatura Brasileira,
que faz muito tempo transformou o curso sobre as letras coloniais numa disciplina
optativa oferecida no ltimo ano. Disciplinas optativas so disciplinas votadas
extino, vocs devem saber. Como parece no haver nenhum interesse pelos 320
anos de colonizao do pas, a disciplina concedida depois que seus eventuais alunos j evoluram pelas trs etapas teleolgicas do processo formativo da Literatura
Nacional, comeando pela sntese dele, os cursos de Modernismo i e Modernismo ii, depois recuando para a tese, o Romantismo, para em seguida progredirem
dialeticamente, suponho, at a anttese dele, a sociologia de Machado de Assis. As
letras coloniais, tambm as do longussimo sculo xvii que so classificadas como o
assim chamado barroco histrico, realmente nada tm a ver, historicamente, com o
Hegel cubo-nacionalista desse currculo. Historicamente, elas se incluam em outros
regimes discursivos determinados por outras categorias como prticas muito ativas
na colonizao portuguesa do Estado do Brasil e do Maranho e Gro-Par. Mas
falemos de O Barroco.
No sei se sabem, os alunos a maioria que terminam o curso de Literatura Brasileira da usp no o sabem, a categoria Barroco foi utilizada dedutivamente pela
primeira vez como categoria esttica positiva por um autor neokantiano, Heinrich
Wlfflin, no livro Renascimento e barroco, de 1888. Com o termo, Wlfflin classificou algumas artes pictricas e plsticas italianas posteriores a 1520 que, depois de
1920, tambm passaram a ser chamadas de maneiristas. Ele retomou a categoria
barroco em 1915, nos Princpios fundamentais da histria da arte, para classificar algumas artes do sculo xvii, principalmente a pintura de Rubens e a de Rembrandt. Construindo uma Kunstwissenschaft, uma cincia da arte, usou o termo
barroco como categoria classificatria oposta a clssico em uma morfologia de
cinco pares de oposies de duas categorias da percepo, visual e ttil, que aplicou
principalmente pintura, escultura e arquitetura dos sculos xvi e xvii. Na sua

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 51

morfologia, barroco tipifica artes pictricas em que predomina a visualidade da


massa acumulada da cor confusa ou confundida, como a da pintura de Rubens, que
exige observao minuciosa da integrao ou subordinao dinmica a um nico
ponto de vista de massas claro-escuras misturadas. Por oposio a barroco assim
entendido, clssico caracteriza artes pictricas em que predomina a linha ttil
do desenho ntido, exigindo a observao quase esttica das superfcies de formas
lineares e claras, distintas e coordenadas, como as de alguns gneros da pintura
de Rafael. Como esquema classificatrio aplicado dedutivamente, a morfologia
neokantiana, como disse, e inclui-se na concepo hegeliana de histria da arte que
dispe pocas inteiras debaixo de um conceito unitrio sobre um eixo de evoluo
sucessiva; por isso mesmo, a morfologia no admite a coexistncia que observvel
historicamente de diferentes estilos de duraes histricas diferentes num mesmo
recorte. Nem de composies em que os elementos opostos aparecem misturados ou
combinados, como o caso da pintura tenebrista de Rafael que, segundo a mesma
morfologia, seria barroca, fazendo Rafael, que clssico na classificao, tambm
ser barroco.
Como dizia um crtico francs de artes plsticas, desde que o termo barroco foi
usado como classificao positiva de algumas artes dos sculos xvi e xvii, passou-se
a acreditar que O Barroco existiu em si, ante rem, passando-se tambm a perguntar
se esse ou aquele poeta ou pintor ou escultor, ou se esse ou aquele monumento, quadro ou poema so barrocos (ou clssicos ou maneiristas), sempre se esquecendo
de que a noo de barroco no tem existncia independente do corpus usado para
defini-la. Para que fosse pelo menos aceitvel, seria necessrio que as caractersticas
consideradas barrocas especificassem todas as obras de uma srie determinada e
apenas a elas. Mas as sries classificadas como barrocas so extremamente diversas
e diferentes de lugar para lugar, de autor para autor, de uma arte para outra e mesmo
de obras para outras de um mesmo autor especializado em emular gneros usados
por famlias artsticas diferentes, de modo que as caractersticas hoje naturalizadas
e naturalmente dadas como barrocas como dualidade, sentido dilemtico, gosto
pelas oposies, fusionismo, jogo de palavras, acmulo, excesso, horror do vcuo, desproporo etc. no passam de generalidades genricas que poderiam ser aplicadas
a qualquer outra arte de qualquer outro tempo. A extrema generalidade da classificao barroco tambm caracteriza as interpretaes essencialistas ou transistricas,
como a de Eugeni dOrs, repetida por Alejo Carpentier e muitos outros autores, que
entendem barroco como Universal do Esprito Humano. Carpentier afirma que
as pirmides de Teotihuacn, no Mxico, ou os templos de Angkor Wat, no Cam-

52 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

boja, so barrocos. Tambm h uma natureza barroca. No Brasil, Ferreira Gullar


definiu barroco como predomnio da linha curva, propondo que as montanhas de
Minas Gerais so barrocas.
Barroco Wlfflin. Ou seja, o neokantismo e o hegelianismo, que talvez concordem,
no eram conhecidos nos sculos xvi, xvii e na primeira metade do sculo xviii
ibrico. Nesses sculos, O Barroco no existe, assim como acontece com as letras
coloniais e as letras classificadas como barrocas nos cursos de Literatura Brasileira da usp. Depois que a morfologia de Wlfflin foi generalizada pelas vanguardas
histricas do incio do sculo xx, como o expressionismo alemo, a extenso do
termo barroco foi enormemente alargada, passando a significar no s um estilo
de algumas artes pictricas e plsticas dos sculos xvi e xvii, mas o estilo de todas
as letras e todas as artes do sculo xvii, que foram unificadas como Literatura Barroca e Arte Barroca. A Literatura Barroca e a Arte Barroca teriam existido nos
sculos xvi, xvii e xviii antes mesmo de haver a prtica e o conceito da fico como
Literatura e a unificao das vrias artes como A Arte por meio da histria e da
crtica literria e da esttica. Por aqui, as letras dos sculos xvi, xvii e xviii foram
e so classificadas pela frmula literatura colonial. Literatura, ou seja, a sociedade de classes burguesa, a livre concorrncia liberal, o mercado de bens culturais,
o escritor e o campo literrio, a autonomia poltica e crtica de autores e pblicos,
os direitos autorais, a originalidade e o plgio etc. e colonial, ou seja, exclusivo
metropolitano, no autonomia poltica, subordinao etc. Literatura colonial
uma contradio nos termos, ou seja, livre concorrncia subordinada ou autonomia
poltica e crtica no autnoma etc. O termo barroco tambm passou a classificar
a poltica de Estados absolutistas dos sculos xvi, xvii e xviii: poltica barroca; as
chamadas mentalidades: a mentalidade barroca do Homem barroco do Barroco
baiano, e sociedades inteiras, como as ibricas e suas colnias americanas, Portugal
barroco, Espanha barroca, Amrica barroca, Minas barroca, Mxico barroco
etc. Na histria da arte e na histria e na crtica literrias, a generalizao teve e tem
consequncias crticas tambm generalizantes. Um exemplo.
Na morfologia de Wlfflin, a categoria barroco oposta categoria clssico. Wlfflin define clssico como formal e barroco como informal. Como o formal
de clssico foi e definido como racional, informal se associou e se associa a
irracional, segundo as noes romnticas de gnio, inspirao, criao, ausncia de modelos, expresso psicolgica etc. Com isso, a instituio retrica o costume greco-romano de longa durao de definir e fazer as muitas artes como mmesis
emuladora de modelos de autoridades, costume que ordena as muitssimas retricas

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 53

e poticas aplicadas inveno das letras e artes nos sculos xvi, xvii e xviii foi
eliminada nas histrias literrias, na crtica e nas histrias da arte desde os primeiros programas romnticos do sculo xix, eliminando-se com a instituio retrica todo o gigantesco corpus das preceptivas de vrios tempos e lugares que nesse
tempo classificado como barroco doutrinavam os modos muitssimo racionais
de produzir incongruncias e deformaes e agudezas tidas mais tarde como irracionais. Simultaneamente, com o pressuposto da informalidade de O Barroco,
passou-se a psicologizar as representaes consideradas barrocas como expresso
de individualidades barrocas socialmente contraditrias, politicamente divididas
e psicologicamente angustiadas; assim, as formas contrapostas, acumuladas, agudas
e hermticas das representaes seiscentistas conhecidas como barrocas passaram
a ser apropriadas por meio da generalizao transistrica do patetismo romntico e
interpretadas como excessos da expresso da angstia existencial e social e poltica e moral e religiosa e econmica etc. dos homens do Antigo Estado que foram
autores barrocos. Nos manuais do ensino secundrio e em cursos universitrios
brasileiros onde essas letras e artes ocasionalmente so referidas, barroco significa
a expresso da Mentalidade Barroca de uma poca barroca dividida por princpios
barrocos contraditrios, como a cincia empirista e a f crist, segundo o esquema
idealista, evolucionista e positivista que ope duas essncias tambm romnticas, a
Idade Mdia e o Renascimento. O Homem Barroco teria nascido de pais contraditrios no final do sculo xvi e vivido durante todo o xvii e parte do xviii dilacerado
entre o teocentrismo medieval e o antropocentrismo renascentista. Demasiado tarde
para o medieval e demasiado cedo para o nacional, a vida toda sofreu de problemas
de individuao determinados pelas contradies da sua carolice empirista e de seu
empirismo metafsico. E vice-versa. Terminou em barroquismo pr-rcade e pr-romntico prenunciando o romantismo no final do sculo xviii, quando finalmente
morreu de Iluminismo e idealismo alemo.
Historicamente, discutvel que a pesquisa e a inveno de formas dinmicas, curvas, acumuladas, confundidas, confusas, deformadas, agudas, hermticas, de duplo
sentido etc., como lemos e vemos, por exemplo, em Shakespeare, Donne, Marvell,
Greville, Chapman, DUrf, Balzac, Gryphius, Grimmelshausen, Gngora, Quevedo, Cervantes, Gracin, Saavedra Fajardo, Lope de Vega, Sr Juana Ins de La
Cruz, Siguenza y Gngora, Caviedes, Camargo, Gregrio de Matos, Vieira, Botelho
de Oliveira, Marino, Francisco Manuel de Melo, Toms de Noronha, Violante do
Cu, Rubens, Rembrandt, Caravaggio, os Carracci, Bernini etc. etc. sejam necessria
decorrncia de qualquer espcie de expresso psicolgica de angstia metafsica ou

54 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

poltica ou moral como reflexo lukacsiano do real infraestrutural determinado como


oposio de princpios religiosos materialistas e princpios materialistas religiosos e
vice-versa; no entanto, a informalidade pressuposta romanticamente desde Wlfflin na noo de barroco continua sendo atribuda e explicada na histria e na
crtica literrias brasileiras como resultado da Psicologia Barroca do artista barroco
barrocamente dividido por princpios barrocos idealistas e materialistas, religiosos e ateus, como se os mil anos desse anacronismo romntico, A Idade Mdia,
correspondessem historicamente a uma unidade contnua de tartufice carola e O
Renascimento fosse efetivamente uma unidade de materialismo ateu. Ou seja: desde
o incio do sculo xix, depois de Friedrich Schlegel ter inventado a histria literria,
no Brasil a historiografia romntica eliminou a instituio retrica, as retricas e a
teologia-poltica das prticas de representao do Antigo Estado portugus, quando se apropriou dos seus restos em programas de inveno de tradies nacionais
e nacionalistas retomados por modernistas de 1922 retomados por historiadores e
crticos literrios, principalmente a partir da dcada de 1950, interessados em pr
Portugal fora do lugar da constituio histrica do pas. Mrio de Andrade tinha
dito: Portugal, paisinho desimportante. Em Araraquara. Tambm dito que era preciso evitar Gngora. E Mallarm. No sei se na Barrafunda. No lugar dos preceitos
retricos dos gneros, os programas romnticos puseram a psicologia; no lugar dos
lugares-comuns e das disposies e elocues das formas dos muitos gneros, colocou o par romntico forma/contedo, que depois permitiu classificar obras de poetas
e prosadores dos sculos xvii e xviii como cultistas e conceptistas; no lugar do
conceito teolgico-poltico de tempo histrico fundado na metafsica escolstica,
puseram o conceito de tempo kantiano como a priori da sensibilidade que, nas sociedades de classes modernas e contemporneas, evolui hegelianamente, cumulativa
ou dialeticamente, dando forma aos Contedos da ordem e do progresso do Estado
nacional. Com esses apagamentos histricos, tambm se produziram pseudoproblemas, como o de determinar a Causa e a Natureza das emoes barrocas representadas nas artes barrocas, pois romanticamente elas expressam emoes barrocas
de indivduos barrocos divididos barrocamente por contradies barrocas
explicadas aprioristicamente por modelos idealistas de interpretao naturalizados
tambm no ensino como se fossem a prpria realidade onde foram produzidas as
letras as artes a que se aplicam, no se considerando que historicamente j houve
muitssimas maneiras no psicolgicas e no teleolgicas de ordenao artstica das
paixes, como o caso das letras do corpus colonial chamado Gregrio de Matos, e
da prtica oratria, epistolar e proftica de Antnio Vieira e outros autores que em

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 55

seu tempo no eram barrocos nem literatura colonial nem, muito menos, manifestaes literrias pr-romnticas. Um desses pseudoproblemas sempre a questo
da psicologia do homem que produziu as obras, pois a qualidade das significaes
dos Contedos delas definida como decorrncia da sua psicologia, que em geral
romanticamente atormentada, quando no tarada. No Brasil, exemplar o caso
de Gregrio de Matos, que foi e continua sendo objeto de folclorizaes idealistas
desde o sculo xix, quando o cnego Janurio da Cunha Barbosa editou a parfrase
que fez de um texto de fico do gnero retrato biogrfico que um letrado baiano
do sculo xviii, o licenciado Manuel Pereira Rabelo, tinha composto sobre o poeta,
utilizando lugares-comuns da poesia satrica que compilou e atribuiu a ele. O cnego
Barbosa no leu o texto de Rabelo como texto de gnero demonstrativo, mas como
documento da vida de um homem emprico. Em 1850, Varnhagen repetiu a interpretao do cnego em seu Florilgio da poesia brasileira, entendendo a poesia satrica
atribuda a Gregrio de Matos como expresso da psicologia de um homem doente
e vadio, socialmente desclassificado, ainda que crtico da dominao colonial como
um arauto da Independncia do Brasil; depois, na histria literria de Slvio Romero, publicada em 1870, a poesia atribuda a ele foi interpretada pelo determinismo
racista, pois o homem Gregrio de Matos e Guerra teria sido um produto das trs
raas que constituram o pas, sem se identificar com nenhuma delas, como mazombo, tpico brasileiro nacional e nacionalista do sculo xvii que ainda faria coisas de
sarapantar que pem Macunama no chinelo em interpretaes posteriores; depois,
com Jos Verssimo, a poesia atribuda a ele foi dada como expresso da psicopatologia, pois o homem tinha sido um canalha genial, um nevropata, e seus poemas
eram plgios de Gngora e Quevedo, j que em sua sociedade de Antigo Estado, que
no conhecia a propriedade privada burguesa, ainda que conhecesse Aristteles e
as doutrinas antigas, platnicas, estoicas, aristotlicas etc. da mmesis e da emulao
artstica, Gregrio no teria respeitado os direitos autorais dos espanhis. No final
do sculo xix, com Araripe Jnior, a poesia dele era produto da determinao da
mente do homem brasileiro pelo clima tropical, que, como sabem, obnubila, tornando relapsas as sinapses do homem Gregrio. Antes de voltar para a Bahia, onde
sua tara intensificada pelo clima se expressou em obscenidades, j era um fauno
de Coimbra obcecado por sexo, maledicente e porco como conhecidos psicopatas
daqui; depois, a poesia atribuda a ele foi produto da crise econmica da produo
aucareira da Bahia no final do sculo xvii, que teria feito dele um homem do ressentimento e do pessimismo causados pela ascenso burguesa dos comerciantes
cristos-novos e pela decadncia das velhas virtudes aristocrticas e corporativistas

56 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

do Antigo Estado. Mais tarde, ainda seria antropfago cultural devorador de culturas
fora do lugar, exu baiano antecipando caetanidades tropicalistas, riponga anarco-liberal, concretista, neovanguarda liberal do proletariado colonial, alm de defensor
de judeus e adepto do Black Power etc. e tal. Segundo o livro nacionalista de Haroldo
de Campos, O sequestro do Barroco: O caso Gregrio de Matos, publicado em 1989,
teria sido vtima de um sequestro cannico cometido por um crtico nacionalista,
Antonio Candido. Mais recentemente, Gregrio ps Fernando Pessoa de escanteio
porque, sabendo que seria discutido num futuro sculo xx que em seu tempo era
futuro contingente, frmula que seu colega Antnio Vieira costumava usar para falar
de outras coisas, inventou um heternimo, o licenciado Manuel Pereira Rabelo, com
que escreveu sua prpria vida espantosa.
As paixes dos poemas atribudos a Gregrio pressupem os preceitos tcnicos
dos dois subgneros do gnero cmico, o ridculo e a maledicncia. A traduo
romntica das paixes de personagens dos poemas retoricamente inventadas como
expresses das emoes da psicologia do homem emprico na base de todas essas
interpretaes feitas desde o cnego Barbosa inventou a vadiagem, a tara, a canalhice, a obnubilao, o plgio, o pessimismo, o ressentimento, a rebeldia, o prenncio
do nacional, o liberalismo, a antropofagia cultural, a antecipao do make it new
poundiano das neovanguardas dos anos 1960 etc., sempre atribuindo ao homem
as caractersticas de personagens da stira atribuda a ele, sempre pondo de lado a
mediao da fico, pois parece, no tenho certeza se aqui nas Letras da usp poesia
fico, e, no sculo xvii, fico regrada por preceitos retricos no psicolgicos. Mas,
entre vocs, os que so platnicos sabem, a retrica discurso falso e artificialssimo,
formalismo anti-humanista etc.
A histria literria, a crtica literria e a crtica de arte continuam aplicando s obras
coloniais do sculo xvii e da primeira metade do xviii classificadas como barrocas
critrios de interpretao e avaliao inventados nos sculos xix, xx e xxi. Tambm
autores e estilos coloniais considerados s meio barrocos, como o Cludio Manuel
da Costa emulador de Gngora; no mais barrocos, como Baslio da Gama, e barroco-expressionistas, como Aleijadinho. A aplicao orientada como universalizao
transistrica de conceitos definidores das categorias de autor, obra, pblico em juzos psicologistas de gosto que propem o excesso, o jogo de palavras, a afetao, o
ludismo, o alambicamento, o mau gosto, o acmulo, o horror do vcuo, o niilismo
temtico, o contorcionismo expressivamente romntico dessas letras e artes, muitas
vezes reproduzindo, sem saber, a desqualificao que a partir principalmente depois
de 1750 os adeptos da Ilustrao catlica do Marqus de Pombal fizeram delas, iden-

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 57

tificando-as com o jesuitismo e o peripatetismo escolstico. Ou tambm fazendo sua


hipervalorizao esttica, como se as categorias romnticas fossem universais, caso
das apropriaes neoliberais que desde os anos 1980 as desistoricizam, como a do
catlogo da exposio do Barroco Brasileiro realizada em 2000 pelo governo fhc
no Petit Palais, em Paris, onde se l que as artes barrocas dos sculos xvii e xviii,
diferentemente de todas as outras artes de todo o mundo em todos os tempos, no
tinham nenhuma teoria sobre si mesmas, o que seria plena evidncia de sua total
disponibilidade para a cordialidade da federao das diferenas como ideologia de
um ethos barroco que caracterizaria o Brasil em todos os tempos, desde a Carta de
Caminha, em 1500, e que, em 2000, fundamentava a aliana da direita tucana com a
direita oligrquica nordestina, constituindo o bom governo do Estado Nacional Brasileiro. Eu estava em Paris, fazendo um seminrio na ehess sobre os cdices manuscritos da stira atribuda a Gregrio de Matos e pude visitar essa exposio. Quando
voltei, fui convidado pelo Suplemento Cultural do Estado de Minas a escrever um
texto sobre ela. Ele foi censurado pelo diretor do Suplemento Cultural do Estado de
Minas a mando do ento secretrio de Cultura de Minas Gerais. Tenho comigo a
cartinha em que ele me demonstra que no se tratava de censura, mas de veto.
Leon Kossovitch, meu colega e amigo professor da rea de Esttica do Departamento de Filosofia da usp, publicou um ensaio sobre a arte parta e romana em um
livro editado pelo Museu do Louvre. A traduo do ensaio saiu na revista Tiraz, do
Departamento de Letras Orientais da usp. Nele, Leon demonstra que, nas histrias
literrias e histrias da arte produzidas desde os primeiros programas historiogrficos dos romnticos no sculo xix, a descontinuidade delimita perodos histricos e estilos artsticos correspondentes a eles como unidades classificatrias que se
sucedem evolutivamente, ou de modo cumulativo ou de modo dialtico, sobre o
eixo do tempo posto kantianamente como seu a priori. A descontinuidade garante
a existncia positiva de unidades isoladas, sucessivas e irreversveis, como A Idade
Mdia, O Renascimento, O Maneirismo, O Barroco, O Neoclassicismo etc., aplicadas
como etiquetas dedutivas que classificam e unificam as multiplicidades das prticas artsticas e dos estilos das muitssimas duraes histricas que coexistem em
cada recorte. Como etiquetas dedutivas, as classificaes unificam todas as prticas
artsticas, todos os autores, todas as obras e todos os estilos de cada recorte como se
fossem manifestaes ou encarnaes da essncia que significada na classificao,
O Medieval, O Clssico, O Maneirista, O Barroco etc. Nas classificaes, os estilos
artsticos so invariantes dedutivas que se realizam nas ocorrncias positivas das
obras particulares que apresentam as caractersticas formais que os concretizam e

58 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

exemplificam, circularmente. Barroco o predomnio da linha curva; essa obra de


Bernini ou Caravaggio ou Francisco Xavier de Brito ou Aleijadinho curva; logo,
essa obra barroca etc. E, sendo barroca, expressa a psicologia contraditria de
homens divididos por princpios metafsico-scio-poltico-econmico-religiosomorais contraditrios etc.
Nesse modelo idealista de interpretao das letras e artes antigas, Leon demonstra,
a prpria descontinuidade no pensada, pois aplicada do exterior como noo
meramente instrumental, que separa os perodos como se ela mesma fosse exterior
histria que classifica. Desse modo, os estilos unitrios evoluem em sua sucesso
temporal um depois do outro, sem que a prpria descontinuidade que os delimita
seja historicamente pensada. Em todos os casos, a descontinuidade o princpio de
alternncia que garante o retorno evolutivamente sucessivo de um estilo depois de
outro, como ocorre exemplarmente na oposio de clssico/barroco, de Heinrich
Wlfflin, ou na oposio de vontades expressivas ligadas abstrao e empatia,
de Worringer. A oposio dos estilos definidos como unidades concretizadoras de
idealidades essenciais no considera as diferenas histricas deles, pois justamente
a historicidade que impede o retorno das formas estilsticas.
Leon demonstra que o mesmo a priori kantiano da descontinuidade aplicada instrumentalmente do exterior nas histrias literrias e histrias da arte caudatrias da
historiografia romntica se acha em outra histria que as recusa e destri, recusando
e destruindo as noes de origem, contnuo temporal, teleologia e conscincia que as
caracterizam: a histria arqueolgica, como a da loucura, e a histria genealgica,
como a da verdade, de Michel Foucault, que funda as prticas artsticas no sobre o
contnuo temporal, mas sobre a prpria descontinuidade. Como alguns estudantes
de Letras da usp sabem, Foucault elimina as idealidades, as unidades e as positividades subjetivas, factuais e estilsticas da historiografia idealista que pressupe
o contnuo evolutivo do tempo e a conscincia do sujeito como sede da ideologia.
Com a eliminao, ele as remete ao fundo inacessvel de uma no origem, an-arkh
ou no princpio, cuja eficcia decorre justamente de que, como fundo, a no origem
suposta como invisvel, indizvel, impensvel e irrepresentvel. Leon evidencia
que Foucault estabelece a descontinuidade pressupondo condies de possibilidade
formalmente puras, que so as da linguagem em sua definio estruturalista como
estrutura que se pensa a si mesma nos homens. Assim, uma histria de tipo tambm neokantiano como a de Foucault s pode se traduzir como histria de obras
arqueologicamente puras, ou seja, como histria que exclui o impuro dos domnios
contingentes das prticas produtivas e consumidoras das obras. Historicamente, eles

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 59

so domnios em que multiplicidades intotalizveis de escolhas tticas particulares,


que emulam costumes artsticos de muitssimas temporalidades heterogneas e coexistentes, aparecem em obras executadas sem nenhuma considerao por condies
puras. Tanto na histria no teleolgica de Foucault quanto nas histrias teleolgicas
datadas do sculo xix, a reduo classificatria dos perodos histricos e de seus
estilos artsticos a unidades se impe a priori, propondo categorias puras.
Desde os anos 1980, Leon e eu afirmamos outras possibilidades de estudo das letras
e das artes anteriores segunda metade do sculo xviii. Essas possibilidades pressupem a radical impureza contingente da histria e passam ao largo do contnuo
evolucionista e teleolgico do sculo xix e da descontinuidade no explicitada de
Foucault. Propomos o tempo e o espao da produo, da circulao e do consumo
das letras e das artes antigas de um modo que se aproxima ao modo das operaes
de Nietzsche, Marx e Freud, que no pressupem o tempo e o espao kantianamente
como a priori, nem hegelianamente como evoluo, nem fundam a diferena num
fundo impensvel, como Foucault, e tambm no pressupem a unidade do sujeito
como subjetividade pr-constituda prtica em que aparece, mas remetem a historicidade da histria materialidade contingente das prticas produtivas. Quando
nos ocupamos das letras e artes antigas, a considerao das prticas nos faz passar
ao largo da descontinuidade meramente instrumental da classificao dedutiva e
idealista dos estilos caudatria do kantismo; com isso, tambm descartamos o evolucionismo, o etapismo, a noo de progresso nas artes, a teleologia, o nacionalismo,
a Bildung ou formao, a unidade psicolgica do sujeito, a expresso, o reflexo, a
esttica, a reduo do discurso s categorias da lngua e outros anacronismos.
Para descolonizar o modo romntico-positivista de tratar as letras e artes coloniais
classificadas como Barroco, pressuponho, como fez Daniel Roche ao estudar a
sociabilidade letrada na Frana do sculo xviii, que a avaliao histrica delas deve
estabelecer sries e classificaes que pem de lado, programaticamente, a hierarquia prefixada dos estilos de poca irreversveis que classificam obras e autores
coloniais nas histrias literrias brasileiras. O estabelecimento do que e do como a
sociedade colonial compunha oralmente, escrevia, pintava, esculpia, lia, ouvia e via
exige a substituio da anlise apenas estilstica de obras portadoras de significao
intelectual, poltica e artstica, como o caso espantoso de Antnio Vieira, por uma
perspectiva que tenta atingir menos as ideias isoladas das obras que sua ocorrncia
em meios sociais onde elas puderam circular em usos mltiplos, muitas vezes artisticamente secundrios e mesmo artisticamente ineptos, segundo os seus prprios
critrios de definio do valor artstico, como o caso da versalhada das academias

60 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

fundadas na Bahia e no Rio de Janeiro a partir de 1724. Para isso, preciso considerar
os seus condicionamentos institucionais por exemplo, o exclusivo metropolitano,
a poltica catlica, a censura intelectual, a ausncia de imprensa, a educao e a
situao profissional dos letrados e artfices, os cdigos jurdicos reguladores da
sociabilidade etc. E tambm seus cdigos lingusticos, ou seja, seus cdigos retricos e teolgico-polticos por exemplo, as categorias, os conceitos, os preceitos,
os gneros, os modelos das autoridades da poesia e da prosa, a doutrina catlica do
poder de Estado etc. E ainda, no caso das letras, tambm os cdigos bibliogrficos,
por exemplo, os meios materiais de produo, transmisso e recepo de obras,
como a manuscritura.
Com isso, possvel evidenciar que as histrias literrias e artsticas brasileiras
programaticamente ignoram que as letras e artes coloniais no conheciam os
conceitos iluminista-romnticos de Literatura, Arte e O Barroco, nem os de
tempo histrico como evoluo e progresso; nem as categorias que hoje definem a
fico literria e as artes plsticas liberalmente como autonomia crtica, opinio
pblica, expresso, subjetividade psicolgica, livre concorrncia, direitos
autorais, originalidade, plgio, opinio pblica, ruptura esttica, tradio
do novo, negatividade crtica, racionalizao negativa da forma etc. Como
disse, Barroco uma inveno neokantiana do final do sculo xix. As letras e
artes coloniais classificadas pelo termo s so manifestaes literrias barrocas
da perspectiva da interpretao que universaliza teleologicamente a definio
moderna ou romntico-modernista do trinmio autor-obra-pblico. Quero dizer:
s so manifestaes quando pensadas como um ainda-no do nacional da
perspectiva do contnuo evolutivo do romantismo do sculo xix retomado em
programas artsticos e polticos modernistas dos sculos xx e xxi, que as concebem como etapas para si mesmas, eliminando Portugal da chamada formao
nacional do pas. Elas tm um sistema autor, obra, pblico plenamente constitudo
por categorias e conceitos mimticos, teolgico-polticos, jurdicos e retricos
do pacto de sujeio do exclusivo monopolista da poltica catlica ibrica. Tais
categorias e conceitos prescrevem e ordenam os usos verossmeis e decorosos
delas como figuraes que teatralizam a hierarquia do todo social objetivo, reproduzindo a doutrina escolstica da subordinao do corpo mstico colonial ao
bem comum do Imprio portugus. Evidentemente, elas conhecem a noo
de fico, opondo-a retrica e poeticamente de no fico. Mas ignoram
as noes de literatura e arte como regimes artsticos dotados de autonomia
esttico-poltico-mercadolgica que na Europa, desde o final do sculo xviii,

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 61

foram objeto das disciplinas da esttica, da crtica, da teoria literria, da histria


da literatura e da arte.
O uso da noo de barroco para etiquet-las obviamente histrico e corresponde
a vrios interesses polticos e artsticos particulares, e, afinal, s uma etiqueta classificatria. Mas a generalizao, a universalizao, da etiqueta para classificar e unificar
as runas desse sculo xvii que no Estado do Brasil e no Estado do Maranho e Gro
Par tem uma durao de mais de 200 anos anacrnica: substitui os conceitos de um
tempo histrico vivido e representado providencialmente como figura do projeto
de Deus para a histria pelo conceito de tempo histrico do contnuo evolutivo e
progressista dos sculos xix e xx; substitui a codificao retrica e no psicolgica
da mmesis de tpicas, caracteres e paixes pela subjetividade burguesa e a expresso
contraditria da sua psicologia (neo) liberal s voltas com as alegrias da livre concorrncia; substitui os vrios gneros das muitas duraes descontnuas das muitas
letras e artes antigas e seus muitos gneros, no plural, que coexistem num mesmo
tempo e so conhecidas e praticadas pelos autores como letras e artes, no plural, pelo
conceito unitrio de A Literatura e A Arte, objetos problemticos da histria literria,
da histria da arte, da crtica e da teoria feitas em lugares que ainda lhes conferem
existncia, alguns departamentos de Letras e Artes de algumas universidades. A
naturalizao da classificao dessas letras e artes como barroco pode ser ingnua, como produto da inrcia de hbitos consagrados e obedientemente repetidos
em nome da facilidade, dos usos, de uma tradio, da obedincia ao nome de um
Pai etc.; mas no neutra ou inocente, pois o anacronismo um conformismo que
produz duas desistoricizaes: ao mesmo tempo em que elimina a historicidade das
prticas de representao coloniais, universaliza como natureza o que s um modo
particular, historicamente datado, de interpretao delas.
Para estud-las, recorro articulao temporal de passado/presente como a correlao proposta por Michel de Certeau em seu estudo sobre Surin e a mstica francesa
do sculo xvii. A correlao uma dramatizao que pe em cena duas estruturas
verossmeis de ao discursiva, a do presente de enunciao do intrprete, como
atos de fala de um trabalho parcial que pressupe a diviso intelectual do trabalho
e o trabalho intelectual da diviso condicionado pela particularidade do lugar institucional onde se realiza, no meu caso a rea de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clssicas e Vernculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias
Humanas da usp. A outra estrutura a do passado da enunciao dos enunciados
das letras coloniais. Por meio da correlao, possvel constituir a estrutura dos
gneros das vrias formas discursivas da fico e da no fico; a funo ou a relao

62 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

que estabelecem com discursos anteriores e contemporneos; a comunicao ou os


meios materiais de sua produo, circulao e consumo e os valores normativos que
tinham em seu tempo, para estabelecer relaes sincrnicas e diacrnicas delas com
outros discursos contemporneos de diversos gneros, ficcionais e no ficcionais,
produzindo homologias formais e funcionais que permitem definir e particularizar
as contingncias do campo semntico geral do seu tempo. E possvel constituir os
modelos de seus gneros para estabelecer a relao deles com referncias simblicas
anteriores e contemporneas que os autores transformam em situaes particulares
de comunicao cerimonial e polmica, institucional e informal por vrios meios,
como a oralidade, o texto impresso, a manuscritura e, muitas vezes, a pintura, a
escultura, a arquitetura e a msica.
Simultaneamente, com a correlao possvel descrever a cadeia heterognea das
suas recepes histricas desde os primeiros romnticos do sculo xix, como o
cnego Janurio da Cunha Barbosa, com o Parnaso Brasileiro, do final dos anos 1820
e novamente em 1840, na Revista do ihgb; o grupo de Gonalves de Magalhes na
revista Niteri, em 1836; o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, a partir de 1838.
A maioria dos programas historiogrficos e artsticos que lhes deram continuidade
e se dedicaram s letras e artes coloniais a partir da segunda metade do sculo xix
mantiveram o arcabouo romntico, organicista e teleolgico inicial. o caso das
histrias literrias deterministas, como a de Slvio Romero, em 1870. E tambm
dos textos crticos de Jos Verssimo e Araripe Jnior, no final do sculo xix; e das
leituras modernistas, que inventaram tradies nacionais e nacionalistas, caso da
interpretao do Aleijadinho como expressionista alemo avant la lettre feita por
Mrio de Andrade no final dos anos 1920; das apropriaes delas durante o Estado
Novo, entre 1935 e 1945, como a de Fernando de Azevedo, em A cultura brasileira,
que repete a ideia anacrnica de que a educao jesutica foi dissociada da realidade
brasileira; o caso da hipervalorizao nacionalista e new criticism do barroco por
Afrnio Coutinho e da excluso dele do cnone por Antonio Candido em Formao
da literatura brasileira, de 1959; dos usos cvico-patrioteiros delas durante a ditadura
militar de 1964; e, ainda, das leituras neovanguardistas e neobarrocas feitas desde o
incio dos anos 1960 etc.
Quando vamos aos arquivos e constitumos essas categorias e esses modos de ordenar
a experincia do tempo, as categorias iluministas e romnticas generalizadas transistoricamente na histria literria para a sua compreenso, como literatura, evoluo, progresso, crtica, psicologia, ideologia etc., revelam-se anacrnicas. O
reconhecimento do anacronismo deveria impedir que se continue a universalizar a

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 50-64, 2013 63

particularidade de categorias estticas e sociolgicas e, com isso, deveria levar a rever


a historiografia literria. Evidentemente, o trabalho de construo arqueolgica dessas particularidades no uma atividade apenas antiquria, no sentido arcaizante e
regressivo do termo antiqurio usado por Nietzsche e repetido agora por adeptos
do chamado ps-moderno para classificar pejorativamente uma espcie de historiador reacionrio que s tem interesse pelo passado. Deve-se dizer que o passado
colonial s pode interessar porque felizmente est morto para sempre. justamente
o diferencial de sua morte arqueologicamente construda que pode interessar como
material para uma interveno no presente em que a noo de Barroco, aplicada aos
resduos coloniais dos sculos xvii e xviii, inventa tradies localistas, nacionalistas
e fundamentalistas por definio discutveis, quando se lembra sua particularidade
politicamente interessada.

Joo Adolfo Hansen professor de Literatura Brasileira da Universidade de So Paulo, autor de


Alegoria. Construo e interpretao da metfora (Hedra/ Unicamp, 2006); Solombra ou A sombra
que cai sobre o eu (Hedra, 2005). A stira e o engenho. Gregrio de Matos e a Bahia do Sculo xvii
(Ateli/ Unicamp, 2004); O O. Fico da literatura em Grande serto: veredas (Hedra, 2000); Carlos
Bracher. Da Minerao da Alma (Edusp, 1998). Publicou artigos sobre Vieira, Nbrega, Anchieta,
Castro Alves, Machado de Assis, Mrio de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Clarice
Lispector, Guimares Rosa, entre outros.

64 hansen, Joo Adolfo. Romantismo & barroco

Romantismo das trevas


Walnice Nogueira Galvo

Resumo: A ruptura efetuada pelo romantismo requer apreciao de sua dupla face: a solar
e a das trevas. Em ateno a essa ambivalncia, um esboo das linhas mestras encaminha a
seguir o exame do percurso de artistas que encarnam o pice do romantismo solar (o francs Victor Hugo) e do romantismo das trevas (o norte-americano Edgar Allan Poe). Entre
eles situa-se o ingls Byron, que partilha as duas tendncias. Palavras-chave: romantismo
solar, romantismo das trevas, Victor Hugo, Byron.
Abstract: The rupture made by Romanticism requires appreciation of its double side: Light
and Dark Romanticism. In attention to this ambivalence, the perspective of a guideline allows us to analyze the journey of artists who embody the apex of Light Romanticism (the French author Victor Hugo) and Dark Romanticism (the American author Edgar Allan Poe). The
English poet Lord Byron, who shares the two trends, lies between both writers. Keywords:
Light Romanticism, Dark Romanticism, Lord Byron, Romantic rupture.

Uma nova esttica


O movimento da sensibilidade que comea nos fins do Setecentos, para dominar
todo o Oitocentos, introduziu uma esttica indita. Ponto crucial da novidade
seu nexo com a Revoluo Industrial, em reao ao industrialismo, mquina e ao
materialismo. Decorre da uma srie de consequncias, que vai implicar a rejeio
dos cnones do neoclassicismo, inclusive das Luzes e seu elogio da razo, trazendo
tona a valorizao do irracional.
Instaurando a mescla de gneros, o mais flagrante aquilo que ocorre no teatro,
onde o novo programa postula que no mais haver tragdia e comdia separados,
mas as duas juntas na mesma pea. At a, Racine e Corneille criavam tragdias de
um lado, enquanto do outro Molire escrevia comdias. Verifica-se ento a ascenso
do drama, chamado de romntico ou burgus, misturando as duas vertentes. No
processo, teve papel destacado Victor Hugo, que sistematizou o novo paradigma no
prefcio de sua pea Cromwell e praticou a nova maneira na dramaturgia. A estreia
de outra pea sua foi o marco histrico do episdio conhecido como A batalha de
Hernani, em que as claques de fs vieram s vias de fato dentro do teatro.
Credita-se ao romantismo a inveno dos sentimentos e a perquirio dos estados
dalma: seu tema central o amor. Por sua vez, a inveno dos sentimentos acarretou
o apreo pela natureza enquanto projeo do corao humano. Rousseau, enaltecendo a promenade e a aura do viandante solitrio, ala-se como precursor da ecologia.
A noite seria um dos principais temas romnticos; os poetas a cantaram como propcia alma, acolhedora, nutriz do sonho e do devaneio.1 Nenhum poeta escapa de
ter feito poemas sobre a noite; e Chopin, msico romntico, compor os reputados
Noturnos, para piano.
Nota-se o predomnio da poesia, gnero por excelncia do romantismo. No bojo
de uma contestao generalizada, perde vigncia at o tamanho do verso comedido anterior, especialmente o decasslabo, tpico do neoclassicismo. Segundo a nova
esttica, o verso deve corresponder ao impulso lrico, ao estado de nimo: por isso
se alonga, podendo atingir catorze ou dezesseis slabas, ou mesmo ultrapass-las.
Quanto aos poetas, a tuberculose e a vida breve espreitam esses adoradores da
morte. Mrio de Andrade fala dos cacoetes histricos que organizaram o destino
do homem romntico, no ensaio que vai buscar seu ttulo num poema de Casemiro

1 BGUIN, Albert. Lme romantique et le rve. Paris: Jos Corti, 1991.

66 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

de Abreu, Amor e medo.2 Certos tpicos so reiterativos, como a metfora do rapaz


morto, tanto quanto a mulher anjo/criana/virgem/fada/viso e seu oposto, a Mulher
Fatal, sumariando a timidez ante o feminino. Tais poetas, com raras excees como
Castro Alves e Victor Hugo, cantam o amor impossvel, irrealizvel.
Dados biogrficos ajudam a esclarecer a questo. lvares de Azevedo e Casimiro de
Abreu morreram aos 21 anos, Castro Alves aos 24, Junqueira Freire aos 27, Fagundes
Varela aos 36, destacando-se entre eles um verdadeiro ancio, Gonalves Dias, que
faleceu na provecta idade de 41 anos.

Romantismo solar: Victor Hugo


Quem melhor representa a face solar do romantismo Victor Hugo, cuja vida, entre
1802 e 1885, praticamente se confunde com a histria do Oitocentos.
Se indagssemos qual foi o escritor que mais influenciou outros, sem dvida a resposta seria, mesmo sem o hlas de Andr Gide quando lhe perguntaram quem era
o maior poeta francs: Victor Hugo. Tal presena pode ser constatada desde a Escandinvia at a Patagnia, e sobretudo na Amrica Latina, por todo o sculo romntico e comeo do seguinte. At que as vanguardas, e a nova esttica modernista,
torcessem o pescoo da eloquncia.
O sculo que assistiu ascenso do proletariado, presena das massas na vida pblica,
tomada de partido dos escritores e artistas ante o novo fenmeno: esse o sculo de
Victor Hugo. Sua trajetria exemplar. Traando a contrapelo o projeto burgus de
subir na vida, at hoje vigente, ele tratou de descer na vida ao repetidas vezes aliar-se
s causas do povo, correndo o risco de perder, como de fato perdeu, seus privilgios.
Este bem-nascido filho de general napolenico agraciado com ttulo de nobreza, aos
dezoito anos, recebe penso do rei Lus xviii. Aos 23, feito cavaleiro da Legio de
Honra e assiste como convidado sagrao do rei Carlos x, em Reims. Aos trinta
j uma celebridade: catlico, monarquista, poeta consagrado com vrios livros
publicados, dramaturgo de primeira plana (Cromwell, Hernani, Marion de Lorme)
e romancista popular (Nossa Senhora de Paris). S faltava a Academia, na qual seria
recebido aos 41 anos. Seu discurso de posse, coisa inusitada, chama a ateno para
as massas desvalidas, reivindicando para elas justia e igualdade. E, coroando tudo,
aos 43 anos o rei Lus Filipe assina decreto elevando-o a Par de Frana.
2 ANDRADE, Mrio de. Amor e medo. Aspectos da literatura brasileira. So Paulo: Martins, s.d.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 65-78, 2013 67

Mas adveio a revoluo de 1848, que se alastrou pela Europa, e Victor Hugo tomou o
partido do povo insurreto, chacinado nas ruas vista de todo mundo. Sobrevm-lhe
a perda de seu ttulo de nobreza. Pouco depois, ao ver os dois filhos encarcerados,
acaba fugindo do pas sob nome falso, para escapar priso. Logo seria oficialmente banido. Decorridos alguns anos, sai a anistia para os insurretos, mas o escritor
a recusa, declarando que sua liberdade depende da liberdade de toda a Frana. S
regressaria em 1870, aps vinte anos de exlio.
Volta a tempo para a Comuna de Paris, quando eleito deputado, com uma avalanche de votos. Mais tarde, derrotada a Comuna, seria eleito senador, aproveitando
o ensejo para discursar exigindo repetidas vezes anistia para os communards. Um
admirador, Pedro ii, visitou-o em Paris em suas viagens.
Morreu aos 83 anos, aps doar seus manuscritos Biblioteca Nacional. Tendo deixado instrues para ser enterrado como indigente, entretanto receberia exquias
oficiais de Estado, quando o povo de Paris saiu s ruas em peso para descobrir-se
passagem dos despojos de seu paladino; e repousaria no Panthon.
Uma vida como essa, vivida durante o sculo do romantismo, marcou profundamente
mais de uma gerao de artistas. A trajetria de poeta heroico e libertrio, condutor
de povos, defensor dos oprimidos, que olha a histria nos olhos e no se acovarda,
banido por suas convices, abdicando de posio social e honrarias, vai deflagrar
a popularidade de Victor Hugo. Ele ser o poeta romntico por excelncia. Cabe a
este visionrio a glria, nada desprezvel, de ter sido um dos primeiros a sonhar uma
Unio Europeia, que chamou de Estados Unidos da Europa em discursos proferidos
em duas datas revolucionrias: no Congresso Internacional da Paz (1849) e na Assembleia Nacional Francesa (1871). Sua quimera levaria mais de cem anos, incluindo duas
guerras mundiais que devastaram o continente, para tornar-se realidade.
Escritor torrencial em poesia, fico e teatro, levou avante a misso de concretizar o
sonho de emancipar a humanidade de seus grilhes. A poesia que pratica , portanto,
uma arte de altos voos. No por acaso escolheu para emblema a guia, que j o fora
de Napoleo Bonaparte. Faz-se notar pela grandiloquncia, pelas hiprboles, pelas
apstrofes e invectivas, pelas imagens titnicas. Expressa-se por antteses, em jogos de
luz e trevas, cus e abismos, gelo e fogo, libertao e opresso, esprito e matria, ou
demais imagens que contrapem o sublime ao grotesco. No outro extremo, devota-se
tambm a uma poesia intimista, ertica, domstica e at familiar.
Na esteira do historiador Michelet, o primeiro a postular e mostrar o povo como
agente da histria e no mais os reis, os lderes, os heris , Victor Hugo vai dar
primazia em sua fico personagem coletiva popular, como se v, por exemplo,

68 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

em Os miserveis. Essa tarefa caber a Dickens nas letras inglesas e aqui a Euclides
da Cunha.
Venerado e imitado no mundo todo, mas sobretudo na Amrica Latina, veio da Argentina a expresso que rotularia todos os hugoanos, inclusive brasileiros: o condoreirismo, pelo qual a guia europeia de Victor Hugo se aclimataria ao continente. A
expresso designa essa poesia altissonante, voltada para vastos temas humanitrios.
Entre nossos poetas, o modelo assinala-se sobretudo em Castro Alves. Os outros
divergem, mais byronianos3 como lvares de Azevedo ou mais chegados a um lirismo de razes lusitanas, devendo muito a Almeida Garrett, como Gonalves Dias e
Casimiro de Abreu.
Para dar o resultado que deu em Castro Alves, tudo combinou. Uma grande causa
humanitria determinante, no caso a dos escravos, alicerando a concepo do
poeta como vate inspirado, arauto e profeta, anunciador do futuro e cantor da liberdade. Outra coincidncia a facilidade de versejar, pela qual Victor Hugo era reputado e que Castro Alves, muitas vezes provado em debates pblicos, vai demonstrar.
Ou uma dico mais tonitruante, que tende oratria, deixando na sombra uma
excelente poesia intimista. E, no menos vital, o perfil do poeta engajado, cujos
arroubos, ao expressar seu senso de misso, encarnam as tendncias messinicas
do romantismo.
No brasileiro, contraluz do confrade francs, ressalta a imaginao csmica, pantesta e com pendor ao gigantesco, que torna o poeta uma testemunha da marcha
dos sculos, com heris que tropeam na eternidade, vises dos oceanos em tropa
e o descerrar as cortinas do infinito. E o mesmo gosto da anttese e de seus contrastes, sondando os valores simblicos da oposio entre luz (liberdade, emancipao,
idealismo) e trevas (escravido, opresso, ignorncia).
Mais adiante, passado o romantismo e j em pleno naturalismo influncia tardia
portanto , o peso de Victor Hugo vai-se fazer sentir em Euclides da Cunha. Hugoano e castroalvino, s vezes dificulta a distino, porque em certos pontos recebeu a
marca de Victor Hugo j filtrado por Castro Alves. Pode-se aquilatar sua emoo,
ento, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras como ocupante da cadeira
cujo patrono justamente Castro Alves, de quem fala no discurso de posse. Entre
outros pontos de contato, tambm lhe dedicaria uma longa conferncia, Castro
Alves e seu tempo.
3 CANDIDO, Antonio. lvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban. Formao da literatura brasileira. So Paulo:

Martins, 1959, vol. ii. E, do mesmo autor, O romantismo no Brasil. So Paulo: Humanitas, 2002.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 65-78, 2013 69

Prolongando Victor Hugo e Castro Alves, Euclides iria aderir concepo, prpria do
romantismo, do escritor enquanto vate, presa das vises da inspirao, um condutor
de povos que aponta o rumo do futuro. Vincula-se a ambos na dedicao s causas
humanitrias, no socialismo difuso e na defesa dos oprimidos. So similares a grandiloquncia, a retrica, o andamento desmesurado, bem como o uso excessivo da anttese,
que em seu caso chega at predileo pelo oximoro. Seus heris seriam os sertanejos.

Na escurido
Entretanto, o romantismo tem outra face. Se uma jovem, rsea, imersa nos sentimentos e na natureza, solar em suma, a outra noturna, noir ou dark.4 Esta outra
face manifesta-se forosamente nos mais recalcitrantes revoluo industrial, que
encaram com apreenso o predomnio da indstria e da mquina sobre as pessoas,
ou do capital sobre o trabalho, acarretando a uniformizao da vida, a automatizao, a linha de montagem. A tudo isso vinha acrescentar-se a degradao que
assolava homens, tecido urbano e paisagem.
Rebeldes, no conformistas, intransigentes, estes poetas, levando avante suas propostas, avanariam por vias proibidas como o satanismo, o esoterismo, o sobrenatural, o sadismo. Uma de suas mais notveis derivaes a figura do poeta maldito.
Dentro dessa linha, que mostra desdm pelas convenes morais e sociais, que louva o Diabo, que tem atrao pela morte como meta final, que brinca com as ideias
de putrefao e de decomposio, ainda outras figuraes se seguiriam. o romantismo das trevas que cria a Mulher Fatal, vendo no feminino um ser malfico que
seduz os homens para fad-los destruio. No por acaso Salom aquela que
recebeu numa bandeja a cabea de Joo Batista, degolado a seu pedido o cone
feminino da poca, tanto na literatura como na msica e nas artes plsticas. A fantasmagoria da mulher castradora predomina e se estende a outras comparsas de
Salom. Ou seja, sempre o tema romntico do amor, todavia tratado pela negativa,
pelo avesso. Mais tarde, na fase final, Barbey dAurevilly escreveria As diablicas,
que j se tornou filme duas vezes, dando bem uma ideia de como o romantismo das
trevas encara a mulher.
4 PRAZ, Mario. La carne, la morte e il diavolo nella letteratura romantica. Roma: Sansoni, 1996; LEVIN, Harry. The

power of darkness. New York: Penguin, 1958; BACHELARD, Gaston. A gua e os sonhos. So Paulo: Martins
Fontes, 1998, esp. cap. ii.

70 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

Da a um passo est o interesse pela psicologia anormal, pelo crime e pela mentalidade do criminoso. Em outro patamar, criou-se a categoria artstica do belo-horrvel, que seria posteriormente aplicada ao barroco, tendo como corolrio o decadentismo e a esttica das runas.
Entretanto, a exacerbao da tendncia inaugural, e logo no incio do romantismo
postam-se o Marqus de Sade e o sadismo, com o louvor do mal, da dor e do sofrimento alheios, infligidos ao outro com prazer. bom lembrar que Sade estava preso
na Bastilha quando esta foi tomada em 14 de julho de 1789.
O culto ao Diabo alastra-se, os poetas conjurando uma projeo de si prprios na
figura do Lcifer bblico, o anjo que se insurgiu contra Deus, o maior adversrio da
ordem constituda: lio aprendida no Paradise lost de Milton e seu grande protagonista, um sculo antes. Entre os pioneiros ressalta a arte nica de William Blake que,
dilacerado entre a libertao trazida pela Revoluo Francesa e a escravizao do homem pela engrenagem industrial nascente, conversava com anjos, em meio a vises
celestiais e demonacas. Torna-se comum, quase uma moda, que os poetas, inclusive
os solares, consagrem sua lira a Satans. Victor Hugo comps dois longos poemas
mticos: Dieu e La fin de Satan. E Mefistfeles o antagonista supremo do Fausto,
de Goethe, apesar de seu autor ser outro romntico solar.
Heri predileto dessa poca Caim, o maldito, o primeiro assassino da histria, o
fratricida, o pria, o perseguido. Poeta romntico imbudo de seu papel faria poemas sobre e para Caim, do que no escapariam nem mesmo Victor Hugo e Byron.
So, portanto, dois os protagonistas dominantes do romantismo das trevas: o Diabo e
Caim. O terceiro, que seria o poeta maldito, antes uma persona que um protagonista,
ou seja, uma mscara que o artista envergava. Dentro de um quadro como esse, no
de estranhar o surgimento da conveno do incesto. Byron proclamava uma relao
incestuosa com sua meia-irm Augusta, e lvares de Azevedo procuraria emul-lo.

O percurso exemplar de Byron


Este grande poeta viveu 36 anos apenas, a cavaleiro da virada de sculo entre o
Setecentos e o Oitocentos. Fez estudos em Cambridge, adquirindo uma educao
clssica, em que se impregnou de grego e latim. Mais tarde ganharia a reputao
de dom-juan, de grande amante: era ateu, adversrio da moral tradicional e um
tremendo crtico do progresso.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 65-78, 2013 71

Tinha ideias polticas avanadas. Quando tomou posse de seu assento na Cmara
dos Lordes, discursou defendendo os operrios que tinham destrudo seus teares
e sobre os quais pendia a ameaa da pena de morte. Mas no pde prosseguir
em sua carreira parlamentar na Inglaterra, passando a envolver-se em ativismo
libertrio no exterior. Primeiro na Itlia, em aliana com os Carbonrios que se
encarniavam em derrubar o jugo estrangeiro. Ainda no uma nao, a Itlia,
ento sob soberania em parte austraca e em parte espanhola, s mais tarde sacudiria o jugo e se unificaria no Risorgimento. Depois, na Grcia ocupada pelos
turcos, seria nomeado membro do Comit Nacionalista da Resistncia, posto que
ocupou at a morte.
Viveria muitos anos no exlio, no incio na Sua, mas mais tempo na Itlia, especialmente em Veneza. Sua viagem precoce ao Oriente5 chamou a ateno para
aquela rea do mundo, e em particular para as tradies gregas, turcas e rabes, que
integrariam a sua poesia. Faz parte dessa mstica sua famosa travessia do Helesponto a nado, em 3 de maio de 1810. Byron tinha uma viso universalista da militncia
poltica. E se a histria no tivesse pregado uma pea, plausvel pensar que ele e
Che Guevara se entenderiam muito bem.
Publicara os dois primeiros cantos de Childe Harolds pilgrimage em 1812, aos
24 anos. Autobiografia romanceada em versos, traz relatos de suas viagens e comentrios a acontecimentos contemporneos, como, por exemplo, o baile havido em Bruxelas s vsperas da batalha de Waterloo, onde mostra o quanto
afiada sua verve de crtica social. Embora mais tarde acrescentasse outros cantos,
o poema afinal ficaria incompleto. Foi um sucesso imediato, e sucesso popular:
de maro a dezembro, tiraram-se cinco edies e se multiplicaram as tradues.
Na poca, a alta literatura andava estranhada dos leitores, sendo considerada
enfadonha, tediosa: com Byron, o romantismo caiu imediatamente no gosto
do pblico.
Esse um daqueles autores que fazem de sua existncia uma obra de arte, e que
transportam suas interessantssimas vivncias para dentro daquilo que escrevem.
Para os artistas de seu tempo, tambm fez parte dessa mesma vivncia ser blasfemo, iconoclasta, crtico social; e, avanando mais ainda, praticar um certo satanismo, manifestar interesse pelo oculto, pelo esoterismo, pela necrofilia, e assim
por diante. Com Byron, a exemplo de vrios outros, inicia-se o culto da supracitada categoria esttica tpica do romantismo, o belo-horrvel. J algum menos
5 SAID, Edward W. Orientalismo. So Paulo: Companhia das Letras, 1990.

72 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

afoito como Casimiro de Abreu prefere o que chamou de belo doce e meigo, que
cabe mais face solar.
Afora Childe Harolds e o extraordinrio Don Juan, poema heri-cmico do mais
alto nvel, Byron comps O Giaour (em turco, o infiel ou no muulmano), O corsrio, Caim, O stio de Corinto, Manfredo, Beppo, A noiva de Abydos, Sardanpalo,
vrios dos quais so dramas em verso. A notar que em sua obra se destacam trechos
do mais refinado lirismo.

Reverberaes
Para ver-se onde as coisas comeam e aonde vo imprevisivelmente parar, basta
lembrar que o famoso romance Frankenstein (1818) foi escrito, se no por inspirao
de Byron, pelo menos como um desafio interno a seu cenculo. A crnica a seguinte: Byron e outro grande poeta ingls ntimo das trevas, Shelley, alugaram casas
beira de um lago, na Sua, e l residiram por um bom tempo, com seus squitos,
em intenso convvio. maneira romntica, faziam passeios as renomadas promenades que Rousseau preconizava, para devanear em meio natureza , convescotes,
ceias luz de velas, elegantes jogos de salo, brincadeiras artsticas e literrias. Uma
delas consistiu na aposta de escrever algo sobrenatural, sobre vampiros ou lobisomens. Byron fez uma tentativa, a que no deu continuidade; o dr. Polidori, seu
mdico, escreveu O vampiro; e a esposa de Shelley, Mary Shelley, escreveu Frank
enstein (1818), um dos mais famosos e populares romances do gnero, traduzido em
inmeras lnguas, reeditado at hoje sem cessar, e que faria uma carreira insigne no
cinema e na televiso.
Tivemos nossos byronianos, e o principal deles, aqui mesmo em So Paulo, foi lvares de Azevedo, o qual, boa moda do tempo, morreu aos 21 anos (Se eu morresse
amanh viria ao menos/ Fechar meus olhos minha triste irm). Excelente poeta,
tambm tentou criar para si a reputao de incestuoso. ele um dos principais
objetos do supracitado Amor e medo de Mrio de Andrade, no qual o ensasta
sustenta que a morte precoce de tantos deles mostra receio da sexualidade madura. Para Mrio, apesar das orgias e bacanais que descreveu, provavelmente lvares
de Azevedo era inexperiente, seno mesmo virgem. Em sua lira, a mulher aparece
cindida em duas, que so, em resumo, a Santa e a Prostituta. Um grande poeta, to
admirado por Mrio de Andrade quanto por Antonio Candido.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 65-78, 2013 73

Extramuros
impossvel falar do romantismo das trevas sem incluir o flego novo que, bem
depois de ter caducado, adquiriu no cinema e na televiso. Pois tudo isso que povoa o audiovisual vampiros, Frankensteins, monstros inveno da literatura
romntica, numa linhagem que se chamou o Gtico. Dados recentes mas certamente incompletos recenseiam 156 filmes de Drcula, 120 curtas-metragens, vinte
telenovelas, dezenove sries de tv e seiscentas histrias em quadrinhos.
A fonte reside no terror atvico que os vivos tm dos mortos, manifestando-se na
criao de fantasmas, avantesmas, assombraes, almas penadas: os mortos-vivos
se tornariam um grande filo cinematogrfico. Essa a origem da maior parte dos
rituais e cultos, que tm por objetivo impedir que os mortos voltem: em francs,
alma do outro mundo revenant, ou o que volta. Em portugus, dizemos alma
penada, ou seja, aquela que por castigo cumpre pena de vagar pelo mundo dos
vivos em vez de ficar bem quietinha no mundo dos mortos. Neste campo, impe-se
uma distino tripla, a permitir que as inmeras variedades possam ser agrupadas
em trs arqutipos principais.
O primeiro o de Drcula, aquele que no morre, alimentando-se de sangue e infectando os outros: cabem aqui os vampiros em geral.
O segundo o de Frankenstein, agenciado por mo humana, morto-vivo construdo
com pedaos de corpos desmembrados. Seria assim um precursor dos transplantes
de rgos, que hoje em dia geram histrias de terror na vida real; ou, mais recentemente, da plastificao de cadveres para exposies de arte.
O terceiro o de O mdico e o monstro, ou da dupla personalidade. Trata-se de uma
variante da multimilenar sibling rivalry de tantos mitos, entre eles Caim e Abel,
focalizando gmeos ou irmos inimigos, um bom e outro mau.
Todos os trs esto s voltas com a cincia, e seus protagonistas (ou antagonistas) so
invariavelmente cientistas, com ttulo de doutor. Em Drcula o dr. Van Helsing; em
Frankenstein, o dr. Frankenstein que d seu prprio nome ao monstro que gerou;
e no terceiro o dr. Jekyll mdico e vtima da cincia.
Nesses rebentos da imaginao podemos ver avatares do complexo de Prometeu,
ou a punio que pende sobre os homens pelo roubo do fogo aos deuses. Esta uma
das respostas possveis revoluo industrial com sua valorizao da cincia e da
tecnologia, estratgicas para capturar e transformar a energia da natureza. Paira o
risco de que fuja ao controle, dando margem a engenhos nunca vistos, assombrando
e aterrorizando os seres humanos a que aludem nas parbolas o aprendiz de feiti-

74 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

ceiro ou o gnio da lmpada de Aladim. O processo assim desencadeado levaria a


uma inveno que veio apequenar qualquer delrio catastrfico romntico, a fisso
do tomo, ainda nos arcanos do futuro.

Edgar Allan Poe


O romantismo das trevas conhece seu mais alto ponto na poesia de Baudelaire, o
poeta maldito, da deformao, da perverso. Baudelaire um dos maiores poetas do
mundo, to importante na segunda gerao romntica quanto Victor Hugo e Byron
na primeira; e, para muitos crticos, ainda mais importante.
No lado das trevas incluem-se Edgar Allan Poe, os romancistas gticos ingleses, que
desenvolveram o gnero mais do que todos, e o alemo Hoffman dos contos que os
antecedeu. Sobressai neles a preocupao dos romnticos com a morte. Nota-se a
deleitao, o embelezamento, a idealizao da morte e da putrefao: a imaginao
v no corpo vivo e belo o futuro cadver. No toa que Baudelaire se transforma
no profeta de Poe, a quem traduz e divulga na Frana.
Aps escasso reconhecimento em seu tempo e seu pas, a reviravolta na recepo da
obra de Poe deu-se mediante essa descoberta quase pstuma. Poeta maldito avant
la lettre, alm de criar aqueles horrores, tambm se recomendava pela dipsomania,
enquanto elogiava o pio em seus textos.
Os romnticos, como ningum ignora, lanaram a moda dos txicos, por acreditarem que desencadeavam a inspirao e facultavam o transe. Poeta que se prezasse
tomava pio, como Coleridge, e descrevia suas viagens para os leitores. Popularidade no faltou s Confisses de um comedor de pio de Thomas de Quincey,
divulgadas por Baudelaire, que as traduziu e adaptou, acrescentando um estudo
de prprio punho e dando ao conjunto o ttulo de Les paradis artificiels. O prprio
Baudelaire era usurio, e bem mais tarde Cocteau igualmente. Para Rimbaud e
Verlaine, assim como para Poe, as bebidas espirituosas que preenchiam essa
funo. Os artistas passariam a tomar absinto, o qual, acusado de causar cegueira
e loucura, encontra-se at hoje banido da Frana. Nos anos 1930, Walter Benjamin no resistiu a provar o haxixe e a escrever sobre a experincia, em Haxixe
em Marselha. E a Beat Generation de Kerouac, Ginsberg e Ferlinghetti fez do
uso de vrias drogas um programa e uma esttica: vide O almoo nu, de William
Burroughs. No fica alheio Aldous Huxley, autor de As portas da percepo, em
que tematiza a ingesto de cido lisrgico.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 65-78, 2013 75

Foi assim que um visionrio anotador de alucinaes indisfarveis visitaes pessoais , acicatado pelo demnio da intemperana e sujeito a crises de delirium tremens,
acabou por se tornar eptome do poeta maldito. Veio pronto em obra e vida, a qual,
atribulada, provou-se autodestrutiva como poucas. Seria curta, no ultrapassando os
41 anos, que coincidiram com a primeira metade do Oitocentos.
Aps um sculo de psicanlise, no mais passam por to inocentes os devaneios
sulfricos de Poe, a quem Marie Bonaparte, discpula dileta de Freud, dedicou
um livro (Edgar Allan Poe, uma biografia). Aliando dados da biografia a dados da
obra, Nabokov insinuou em Lolita a pecha da perverso, alando Poe a precursor
em pedofilia, para no falar em incesto. A comear por Virginia Clemms, esposa e
prima, contando 14 anos (s dois a mais que Lolita) quando se uniu ao marido de
27, que cedo a veria morrer de tuberculose. Em Annabel Lee, que d a rima para In
a kingdom by the sea territrio imaginrio onde se situa o poema , os amantes
so crianas (I was a child and she was a child). As pistas levantadas por Nabokov
do-lhe parentesco com Lewis Carroll e sua atrao por menininhas. Mas outras
pistas sugerem impotncia e bloqueios sexuais, entre demais amenidades.
O paladino da descoberta europeia foi Baudelaire, passando para o francs as Histrias
extraordinrias, propondo uma verso em prosa de O corvo, tomando-o como objeto
de estudos crticos. O poema teve o privilgio de ser traduzido por Machado de Assis
e por Mallarm, em meio a Les pomes dEdgar Poe, para os quais, guisa de prefcio,
comps um soneto apologtico, Le tombeau dEdgar Poe. Valry preferiu a prosa de
especulao cosmolgica de Eureka e incorporou elementos da esttica.
Esses poetas identificaram-se com o Poe doutrinador da poesia pura e da arte pela arte
ideais do parnasianismo e do simbolismo , bem como com o defensor da concepo
do poeta enquanto criador voluntrio no comando de sua inspirao. Neste caso, seu
texto mais influente seria A filosofia da composio, em que relata minuciosamente
como escreveu O corvo. bem verdade que h estudiosos e artistas de lngua inglesa
mais reticentes quanto qualidade de sua poesia, mas que ainda assim o louvam pela
musicalidade do verso e pela fora das imagens, mergulhadas em atmosfera etrea e
evanescente. De todo modo, a voga francesa foi tal que alguns deles houveram por
bem acautelar os leitores de que Edgar Allan Poe e Edgarpo no so a mesma pessoa.
Mas crticos de primeira linha deram-lhe a ateno que merece, entre eles Mario Praz,
Spitzer, Walter Benjamin, Bachelard, Harry Levin, Toni Morrison.6
6 PRAZ, Mario. Op. cit.; BACHELARD, Gaston. Op. cit.; LEVIN, Harry. Op. cit.; SPITZER, Leo. A reinterpretation

of The fall of the house of Usher. In: Twentieth century interpretations of The fall of the house of Usher.

76 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

Os contos de Poe
O Poe inigualvel aquele da prosa dos contos, que exploram toda a gama dos horrores de uma imaginao desenfreada.
H canibalismo. H que optar entre cair num poo sem fundo e ser retalhado por
um pndulo afiado que se acerca. H a morte pela peste, assim como a incinerao
em vida. H cataclismos e catstrofes pairando no horizonte. H o encontro de um
navio fantasma, juncado de cadveres em putrefao. Ou o azar de esbarrar num
manicmio adepto de uma terapia copiada do linchamento sulista norte-americano,
que cobre as vtimas de alcatro e plumas. H o pesadelo de ser enterrado ou emparedado vivo. Nesse universo macabro, um dos segredos sadomasoquistas de Poe
dar forma aos mais recnditos pavores arcaicos, de crianas e adultos.
Entretanto, tambm h os prazeres e que prazeres que o mestre da viagem maravilhosa oferece. Que criana no gostaria de ser pirata? E qual delas no sonhou
decifrar um mapa desenhado com tinta invisvel, chave para um tesouro enterrado,
protegido por esqueletos e caveiras? Entre tantos sustos vicrios, conta-se ainda o
de ser arrebatado por sorvedouros e vrtices. Ou aportar na Lua de balo. Ou ento
enfrentar a alvura fantasmal da Antrtida. Ou despencar no maelstrom e retornar
so e salvo, embora o cabelo tenha encanecido no trajeto.
Dentre as fantasmagorias oitocentistas, nada escapa prosa oracular de Poe, cheia
de pressgios e premonies: a hipnose, a telepatia, o magnetismo, a catalepsia, o
sonambulismo, os espectros, as almas penadas, os avantesmas, a transmigrao dos
espritos, as assombraes mais diversificadas. Em suma, as incurses pelo sobrenatural ou pelos estados crepusculares entre a viglia e o sono. Potenciados pela ansiedade e a angstia, sucedem-se taras, incestos, maldies hereditrias, reminiscncias
atvicas, desdobramento do eu, mutilaes, tortura, crime: crime perfeito porque
gratuito, no entanto confessado devido a uma sinistra (masoquista?) compulso
pelo castigo.
Como se no bastasse, h mais um Poe, inventor da fico policial e criador de
Dupin, o primeiro detetive literrio. So trs os contos precursores: Os crimes da

New Jersey: Prentice Hall/ Englewood Clifford, s.d.; BENJAMIN, Walter. Sobre alguns temas em Baudelaire.
In: Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jrgen Habermas. So Paulo: Abril Cultural, Os
Pensadores, 1975. Ver tambm as aluses a Poe nas duzentas pginas do dossi Baudelaire, in: BENJAMIN,
Walter. Passagens. Belo Horizonte/So Paulo: ufmg/Imprensa Oficial, 2006; MORRISON,Toni. Playing in the
dark Whiteness and the literary imagination. New York: Random House, 1993.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 65-78, 2013 77

rua Morgue, com sua sequncia O mistrio de Marie Rogt, e A carta roubada. A
nfase que Dupin reservava pura deduo intelectual torna-o ancestral imediato
de Sherlock Holmes. Lacan teve a honra de relanar Poe, ao dedicar nos crits todo
um estudo a A carta roubada, com base na verso baudelairiana, no qual analisa a
eficcia simblica do objeto da narrativa.
***
Em suma, neste rpido esboo fica claro que o romantismo, solar ou das trevas,
persiste como uma fonte inesgotvel de alta literatura, que se recomenda pelo prazer
de ler.

Walnice Nogueira Galvo professora titular de Teoria Literria e Literatura Comparada na


usp, visiting scholar da Columbia University e professora visitante da Universit de Paris viii e da
University of Texas System. autora de Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha (Companhia das
Letras, 2009); Mnima mmica (Companhia das Letras, 2008); Tapete afego (Companhia das Letras/
Nacional, 2008); A donzela guerreira. Um estudo de gnero (Senac, 1998), entre outros.

78 galvo, Walnice Nogueira. Romantismo das trevas

Hermanos e irmos: As relaes


literrias entre os romnticos
argentinos e brasileiros durante
o romantismo
Maria Eunice Moreira

Resumo: O texto analisa a troca de ideias entre escritores romnticos do Brasil e da Argentina sobre a nascente histria da literatura nos dois pases. Tanto os argentinos conheceram
os textos dos brasileiros quanto estes leram a produo dos hermanos, sobretudo no perodo em que a Argentina vivia sob o domnio da ditadura de Rosas, e o Brasil vivenciava os
tempos ureos do Segundo Reinado. Palavras-chave: histria da literatura, romantismo
brasileiro, romantismo argentino.
Abstract: The text analyzes the ideas shared among Romantic writers from Brazil and Argentina on the emerging history of literature in both countries. Both Argentines and Brazilians
came to know about the writing of each country, especially during the time when Argentina
was ruled by the Rosas dictatorship, and Brazil was living the golden age of the Second Empire.
Keywords:history of literature, Brazilian Romanticism, Argentine Romanticism.

Introduo

Me pone miedo el sol de aqu.


Sarmiento, Viajes

So os novos bardos que tangem suas harpas


para entornar lgubres elegias liberdade da nao
que desce tumba e ptria! ptria que agoniza!
Joaquim Norberto, Indagaes

Embora a historiografia literria brasileira credite aos europeus as primeiras reflexes sobre a literatura do Brasil, ressaltando as figuras do alemo Friedrich Bouterwek, do suo Simonde de Sismondi, do francs Ferdinand Denis e do portugus
Almeida Garrett, como as mais significativas para a formao da literatura nacional,
um grupo de estudiosos de lngua espanhola inseriu-se tambm nessa discusso.
Provenientes da Europa, como Juan Valera e Adadus Calpe, ou oriundos de pases
da Amrica do Sul, como Juan Mara Gutirrez e Jos Mrmol, esses intelectuais
estabeleceram contato com a gerao romntica brasileira e colaboraram com suas
ideias para a nascente histria da literatura. Tanto os argentinos conheceram os
textos dos brasileiros quanto estes leram a produo dos hermanos, sobretudo no
perodo em que a Argentina vivia sob o domnio da ditadura de Rosas, e o Brasil
vivenciava os tempos ureos do Segundo Reinado. A diferena entre os regimes
governamentais provocou o exlio de argentinos ao Brasil e ao Uruguai, e dessas
circunstncias desenvolveram-se, s vezes por baixo do poncho, como se diz no Sul
do Brasil, fraternas relaes literrias e culturais.

80 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

1. Es preciso moverse!1
A Amrica Latina comeou a aparecer culturalmente ao Brasil, em 1835, por ocasio
do lanamento do Bosquejo histrico, poltico e literrio do Brasil, obra de um autor
identificado apenas pelo pseudnimo Um Brasileiro. O patritico cidado era o
general Jos Incio de Abreu e Lima, natural do Recife, onde nascera em 1794, como
filho natural do padre Roma. Sua carreira militar iniciou-se em 1812 quando se matriculou na Academia Militar no Rio de Janeiro, instituio na qual obteve a patente
de capito de artilharia. De volta ao Recife, aderiu revoluo na qual seu pai participava, foi preso e obrigado a assistir ao fuzilamento de seu progenitor. Libertado,
exilou-se nos Estados Unidos, transferindo-se logo depois para a Venezuela, onde
integrou o exrcito de Simn Bolvar e recebeu o ttulo de general e de Libertador
da Nova Granada. Em 1831, deixou a Colmbia e retornou aos Estados Unidos, mas
em seguida mudou-se para a Europa, continente no qual tomou conhecimento da
abdicao de d. Pedro i, a quem conheceu pessoalmente e a quem expressou sua
solidariedade.
No ano seguinte, 1832, o general voltou ao Brasil, onde suas posies favorveis
monarquia o envolveram em polmicas e diatribes, inclusive com o jornalista Evaristo da Veiga. Foi, porm, com o objetivo de defender o Imperador que escreveu
o Bosquejo histrico, poltico e literrio do Brasil, subintitulado Anlise crtica do
projeto do dr. A. F. Frana, oferecido em sesso de 16 de maio ltimo Cmara
dos Deputados, reduzindo o sistema monrquico constitucional, que felizmente nos
rege, a uma repblica democrata: seguida de outra anlise do projeto do deputado
Rafael de Carvalho, sobre a separao da Igreja brasileira da Santa S Apostlica. A
obra centra-se na formalizao da denncia do general contra o deputado baiano, dr.
Frana, e da acusao de perjrio, aleivosia e traio impetrada por esse deputado
contra a pessoa do Imperador e das Augustas Princesas da Famlia Imperial. Excedendo, porm, aos propsitos polticos, transforma-se num libelo sobre a situao
poltico-cultural do Brasil, apresentando as consideraes de um arguto militar acerca das repblicas americanas onde viveu, especialmente Estados Unidos, Mxico e
Colmbia, para comparar a situao brasileira em relao ao continente americano.
Na seo final do Bosquejo, intitulada Nosso estado intelectual, Abreu e Lima analisa o quadro cultural brasileiro e refuta qualquer possibilidade de conformao de
uma vida literria no Brasil. O argumento que apresenta fundamenta-se na origem
1 Expresso de autoria de Jos Mrmol.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 81

histrica do pas, pois descendentes de uma nao mesquinha em conhecimentos,


pobre de cincias e de artes, no podemos elevar-nos categoria de outros povos
educados no centro de uma vasta erudio.2 Tanto Portugal como o Brasil contam
com alguns homens distintos pelo saber, que produziram obras de carter geral
dicionrios, memrias, ou publicaes em cincias exatas ou experimentais, e
at mesmo produes de carter literrio, entre as quais menciona o Caramuru, O
Uraguai e Marlia de Dirceu mas isso no garante a existncia de um patrimnio
literrio nacional.
Segundo o general Abreu e Lima, o estado intelectual do Brasil negativo: a situao brasileira no se coaduna com o estgio da ilustrao dos outros povos, no
satisfaz s aspiraes da populao nascente, e os parcos conhecimentos de alguns
habitantes desaparecem no meio da impercia do povo. A questo agrava-se quando
ele afirma ainda que o pas no registra um elenco de homens abalizados nas cincias de utilidade, de gosto e de ornato. A avaliao global, decorrente da observao
do general, resumida de forma negativa: mister confessarmos que em tudo
somos medocres e escassos.3
Colocadas no cenrio brasileiro da primeira metade do sculo xix, as palavras do
general constituram-se em uma verdadeira seta ervada, como ele mesmo previu, a
ferir muito amor-prprio exaltado.4 A seta fica mais ervada quando os argumentos
contrrios do autor do Bosquejo se confrontam com a posio defendida por Domingos Jos Gonalves de Magalhes. Um ano depois da publicao do livro de Abreu e
Lima, isto , em 1836, o autor de Suspiros poticos e saudades l, em Paris, perante uma
plateia de estudiosos do Instituto Histrico da Frana, o Discurso sobre a histria da
literatura brasileira, no qual afirmava que o Brasil possua uma literatura, apresentando como prova cabal de sua afirmativa a histria dessa literatura.
Em outro ponto, a distncia entre os dois textos no apenas de ordem geogrfica.
Enquanto Magalhes desviava o olhar e aproximava seu pas natal do continente
europeu com o qual grande parte dos brasileiros desejava romper ligaes, o general
Abreu e Lima punha o dedo na ferida e considerava esse mesmo pas no contexto
cultural da Amrica do Sul, j antecipando uma situao que seria intensificada por
questes polticas.
2 LIMA, Jos Incio de Abreu e. Bosquejo histrico, poltico e literrio do Brasil. Niteri: Tipografia Niteri do

Rego, 1835, p. 124.


3 Idem.
4 Idem.

82 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

No Brasil, o trfego de ideias com a Amrica espanhola, especialmente com a Argentina, acentua-se a partir da dcada de 1840. De l, vinham intelectuais e polticos, que,
indignados com a poltica de Juan Manuel de Rosas, viajavam anonimamente ao Brasil. Aqui esses homens no s aplaudiam a poltica do Segundo Reinado, que acolhia
os estudiosos nacionais em sesses do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro,
das quais o prprio Imperador participava e as quais presidia, como conheciam os
literatos brasileiros, com eles conviviam e repartiam ideias sobre as duas literaturas
em formao a brasileira e a argentina.
Joaquim Norberto, em especial, revela-se um ponto de convergncia para o fomento
dessas relaes literrias. Em 1844, publicou no Minerva Brasiliense, Jornal de Cincias, Letras e Artes, do Rio de Janeiro, suas Indagaes sobre a literatura argentina
contempornea, provavelmente motivado pelo Certamen potico, realizado em
Montevidu, em 1841, quando foi discutida a literatura argentina, no movimento
ps-revolucionrio de 1830. Entrava em jogo, nesse Certamen, o carter nacional
que a literatura vinha tomando entre os argentinos, o que, certamente, chamou a
ateno do nacionalista brasileiro.
O trabalho de Joaquim Norberto apresenta uma anlise circunstanciada da obra
potica de alguns dos primeiros autores argentinos, assumindo carter de precursoriedade em relao aos estudiosos daquele pas. Muitos anos mais tarde, na dcada de
1960, o crtico argentino Flix Weinberg reconheceu a posio de primazia de Norberto, ao afirmar: [] es un verdadero precursor pues precede a Juan Mara Gutirrez
y a los estudios ms recientes todava de Ricardo Rojas, sin olvidar los juicios expuestos
por Marcelino Menndez y Pelayo en su Historia de la poesa hispano americana.5
O artigo publicado no Minerva teve repercusso imediata. Esteban Echeverra, um
intelectual argentino, em exlio no Uruguai nessa ocasio, motivado pela anlise de
Norberto, insistiu com seus compatriotas que passavam pelo Rio de Janeiro para
buscar aproximao com o autor do artigo. Escreve Echeverra a um amigo que sairia
do Rio de Janeiro em direo ao Chile:
En el n. 10 de la Minarva (sic) brasiliense hay un artculo sobre la literatura argentina
que debe llegar a Chile y publicarlo. Hay muchos aqui que desearan ver la continuacin
prometida. Procure relacionarse con el autor de esse artculo y estimlele a continuar suas
indagaciones. Nos conviene mucho el juicio (que no puede ser sino imparcial) de los extran5 WEINBERG, Flix. La literatura argentina por un crtico brasileo en 1844. Rosario: Universidade Nacional del

Litoral, 1961, p. 34.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 83

jeros. Es el modo de confundir a los envidiosos y a los pandilleros. El autor de esse artculo
manifiesta buen criterio literrio y un conocimiento poco comn, aun entre nosostros, de
la literatura argentina.6

Ademais da importncia da avaliao de um estrangeiro sobre a literatura argentina,


que favorece a iseno crtica, Echeverra pde vislumbrar no artigo de Norberto
uma tomada de posio e uma maneira de provocar certas suscetibilidades que o
quadro poltico em que vivia engendra. Joaquim Norberto, como se sabe, era contra
os governos imperialistas, e sua viso nacionalista dominava a elaborao de seus
textos, quer abordasse a literatura do Brasil quer a de outros pases. Echeverra
francamente favorvel publicao do artigo do estudioso brasileiro, a ponto de
para isso comprometer-se ou expor-se mais do que devia ou podia, justificando sua
posio por razes que vo alm das meramente literrias, como se depreende do
que escreve, insistindo com a divulgao do texto de Norberto.
Si no se dice la verdad, la literatura no pode adelantar, porque el pueblo no tiene critrio
prprio, y ni las obras ni los talentos sern apreciados debidamente. Soy de opinin que
se debe hablar sin embozo y alto cuando se trata de progreso literario y poltico: Estoy
resuelto a hacerlo, sufra el que sufra. De outro modo no se anda, se retrocede o se est
inmoble. Haga usted y todos los amigos de Chile lo mismo, para que marchemos unidos em
espritu y en tendencias.7

Do ponto de vista literrio, a crtica sobre a literatura de sua terra verdadeira, isto
, a anlise de Norberto por ele endossvel; do ponto de vista poltico, ela tambm
estimula o progresso. Nada mais moderno e coerente, portanto, do que a associao
entre literatura e poltica, na poca de Norberto e de Echeverra.
Nesse mesmo tempo, escreve a Juan Mara Gutirrez, outro argentino que se encontrava no Rio de Janeiro, vindo da Europa, contando-lhe a impresso que o artigo lhe
havia provocado: Contiene a ms verdades que ninguno de nosotros se ha atrevido
a proclamar por no herir a los que no han perdonado medio para desconceptuarnos.8

6 Carta desde Montevideo de fecha de 24 de Diciembre de 1844, a un amigo prximo a salir para Chile del

puerto de Rio de Janeiro. ECHEVERRA, Esteban. Obras completas. Buenos Aires: Antonio Zamora, 1951, v. 1,
p. 552-3.
7 Idem.
8 Idem.

84 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

Gutirrez imediatamente procurou Joaquim Norberto para uma entrevista, forneceu-lhe materiais e informaes para o segundo artigo que havia anunciado e recebeu do brasileiro um exemplar autografado de Modulaes poticas, de 1841, em que
escreveu: Ao Ilmo. Sr. D. Juan Mara Gutirrez oferece o Autor. Gutirrez anotou
a lpis, abaixo da assinatura: febrero 24 de 1845 R. de Janeiro.
Sabe-se que Norberto no publicou o segundo artigo sobre a literatura argentina,
mas, por outro lado, a presena de Gutirrez na histria da literatura que o brasileiro redige significativa, se no das relaes de amizade entre os dois, pelo menos
da coincidncia de pensamentos entre eles. Na dcada de 1840, Joaquim Norberto
publicou dois ensaios de historiografia literria no Minerva Brasiliense Estudos
sobre a literatura brasileira durante o sculo xvii (1843) e Consideraes gerais
sobre a literatura brasileira (1844) , embrionrios dos captulos de sua inconclusa
Histria da literatura brasileira que passou a publicar na Revista Popular, a partir
de 1859. Dos sete captulos publicados, quatro se referem aos escritos de Juan Mara
Gutirrez que no s mencionado como fonte para sua proposta historiogrfica,
como textualmente comparece em citaes:
Os importantes trabalhos, em que tantos ilustres literatos se ho ocupado de nossa literatura, me serviram na confeco desta histria; citando muitas vezes seus belos trechos,
me escudo na sua opinio mais segura e de mais critrio, que por certo no a minha.
Cabe pois aqui louvar [] entre os americanos Santiago Nunes Ribeiro, J. M. Gutirrez
e J. Mrmol.9

Jos Mrmol, mencionado por Joaquim Norberto, tambm argentino e veio para o
Brasil, em 1843, fugindo de Rosas, tendo fixado residncia no Rio de Janeiro. A estada
na capital do Imprio permitiu-lhe o contato com os romnticos brasileiros e com
os empreendimentos nacionalistas que movimentavam essa gerao de intelectuais.
Jos Mrmol escreveu no Minerva Brasiliense, como registrou em carta a Gutirrez,
Escribo tambin en la Minerva, datada de 13 de setembro de 1845, mas sua contribuio mais significativa encontra-se em Ostensor Brasileiro, um jornal editado por
Vicente Pereira de Carvalho Guimares e Joo Jos Moreira.
Nesse peridico, o jovem argentino encontrou espao para publicar seus ensaios
reunidos em duas sries distintas. A primeira, denominada Fragmento da minha
9 SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Introduo histrica sobre a literatura brasileira. In: Revista Popular, Rio

de Janeiro, v. 5, jan.-mar. 1860, p. 21-33.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 85

carteira de viagem,10 que apareceu em 1845, esboa uma perspectiva americana, ao


refletir sobre a necessidade de o fazer literrio, nos novos territrios americanos,
liberar-se dos preceitos europeus e ao preconizar a independncia literria como
corolrio da autonomia poltica. A apresentao desses tpicos nesse primeiro conjunto de artigos amplia-se, sobretudo, nos nmeros seguintes do Ostensor Brasileiro,
para os quais Mrmol contribuiu com outro feixe de artigos, sob a identificao
Juventude progressista do Rio de Janeiro.11
Nesses estudos, tambm adota uma perspectiva americana, enfatizando a necessidade de rompimento com os velhos padres europeus. Para o articulista argentino,
a novidade literria da Amrica provm do romantismo, movimento que constitui a
vanguarda, que traz a modernizao. Segundo ele, juventude, romantismo e progresso so termos quase equivalentes, pois seus objetivos encaminham para a renovao,
e isso que pretende e exige para a Amrica, tambm nova.
Disposto a realizar uma anlise do papel da juventude na construo da literatura,
Mrmol observa ausncia de diretrizes entre os literatos e, por isso, no reconhece
uma literatura nacional representativa, no Brasil. A pretendida renovao literria
no encontra ressonncia na sociedade brasileira, cujos parmetros so ainda muito
conservadores. Segundo a sua avaliao, a sociedade est fadada ao isolamento e
esterilidade, a no ser que foras inteligentes revertam o quadro cujo diagnstico
no favorvel. Falta ao Brasil uma efervescncia social e poltica que acompanhe e sustente os processos de mudana literria.12 Mrmol deseja que a literatura
nacional nasa da verdadeira emancipao do Brasil e almeja exportar para os
intelectuais cariocas o impulso liberador, traduzido moda argentina,13 como diz
Adriana Amante.
Escrita em 1846, no momento em que o Imprio brasileiro buscava sedimentar seu
poder, atravs da instituio de mecanismos legitimadores de sua potncia, principalmente alicerados nas ideias nacionalistas dos componentes do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, cujo chefe e presena marcante o imperador Pedro
ii, a avaliao desse estrangeiro poderia provocar objees por parte dos brasileiros

10 MRMOL, Jos. Fragmento de minha carteira de viagem. Ostensor Brasileiro, Rio de Janeiro, 1845.
11 Idem. Juventude progressista do Rio de Janeiro. Ostensor Brasileiro, Rio de Janeiro, 1846.
12 Idem.
13 AMANTE, Adriana. O estrangeiro, muito romntico a literatura dos escritores romnticos argentinos

exilados no Brasil. In: SANTOS, Luis Alberto Brando; PEREIRA, Maria Antonieta. Trocas culturais na Amrica
Latina. Belo Horizonte: Ps-Lit/fale/ufmg; Nelam/fale/ufmg, 2000, p. 154.

86 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

mais comprometidos com o processo cultural. No entanto, Mrmol recebe acolhida


por parte do grupo romntico. Esse assentimento pode ser medido pelo fato de
que Joaquim Norberto, que havia publicado em 1841 um Bosquejo da histria da
poesia brasileira,14 introdutrio a Modulaes poticas, e se dedica escrita de um
livro sobre a Histria da literatura brasileira, recorre s ideias do amigo argentino
para subsidiar seu empreendimento. A sintonia entre os dois talvez resulte do fato
de que, para ambos, o quadro brasileiro apresenta deficincias, em funo da feio
particular que tomou o processo de emancipao da colnia em relao a Portugal,
onde no houve uma ruptura violenta, possibilitando a permanncia de padres
conservadores e ultrapassados.
A contribuio de Jos Mrmol para a nascente literatura brasileira poderia ter sido
mais expressiva se ele continuasse vivendo no pas. No entanto, ao fim de trs anos no
Brasil, a saudade de sua terra e de sua gente levou-o a empreender, em abril de 1846, a
viagem de retorno ptria natal. A volta Argentina proporciona-lhe oportunidade
para estabelecer o confronto entre o cenrio de sua origem e o novo, o diferente,
vivido no Brasil. A comparao que decorre de sua observao permite-lhe reconhecer que, apesar dos problemas ainda evidentes na incipiente sociedade brasileira, h
uma Constituio que determina com preciso os direitos e os deveres do governo
e do povo, e uma liberdade que , sem disputa, um feito positivo e no uma teoria
de escritores.15 Ao contrrio do Brasil, na Argentina, onde o ordenamento poltico
ainda precrio, a nao ressente-se de uma situao mais definida, fundamentada
em instituies legais reconhecidas.
As relaes literrias entre o Brasil e a Argentina voltariam novamente cena
quando, em 1856, Gonalves de Magalhes foi alvo da severa crtica do jornalista
Jos de Alencar sobre a epopeia A confederao dos Tamoios. Juan Mara Gutirrez
publicou no jornal argentino El Orden, de Buenos Aires, dois artigos sobre o autor
da epopeia, comprovando, mais uma vez, que argentinos e brasileiros estavam
atentos s realizaes literrias de seus pases. Tendo como palco a cidade do Rio
de Janeiro, as cartas escritas pelo futuro autor de O guarani contra a obra que deveria ser a epopeia nacional motivam uma polmica que envolve nomes nacionais

14 SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Modulaes poticas. In: ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice.

O bero do cnone. Textos fundadores da histria da literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto,
1998.
15 WEINBERG, Flix. La literatura argentina vista por un crtico brasileo en 1844. Rosario: Facultad de Filosofa y
Letras, Universidade Nacional del Litoral, 1961.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 87

de renomada considerao, como o poeta Arajo Porto-Alegre, o venerando frei


Monte Alverne e o prprio imperador d. Pedro ii, que escreve para defender o
poeta, seu amigo e protegido. A polmica sobre A confederao dos Tamoios teve
ampla repercusso no Brasil, mas chegou tambm Argentina atravs do ensaio
de Gutirrez.16
Nos dias 10 e 11 de janeiro de 1857, respectivamente, nos nmeros 429 e 430 do jornal
El Orden, aparece o longo estudo crtico sobre Um poema brasileiro A confederao dos Tamoios, poema por Domingos Gonsalves [sic] de Magalhes. Rio Janeiro
[sic] en casa de Paula Brito, impresor de la corte. 1856: 1 v. fol. men. de 340 pgs.. Sob
o pseudnimo mega, Gutirrez emite seu juzo sobre a epopeia brasileira e destaca
os aspectos que considera positivos na construo potica de Magalhes.
Posteriormente, em 1872, esse estudo foi transcrito na Revista del Rio de la Plata e,
nesse novo momento, Gutirrez justifica as razes pelas quais inclui seu artigo na
revista que est sendo lanada em Buenos Aires: Ahora que tenemos una Revista a
nuestra disposicin, queremos dar nuestro nombre al presente juicio crtico que apareci bajo um seudnimo en un de los dirios de Buenos Aires, hace ya algun tiempo.17
E conclui com a seguinte observao: Aprovechamos tambin esta oportunidad
para corregirle, sin alterarle en lo principal, y para insertar la carta que el autor nos
dirigi desde Paris, contestando a algunas de nuestras observaciones, as que llegarn
a su conocimiento.18
A carta que Gutirrez publica, 25 anos aps a polmica sobre A confederao dos
Tamoios, constitui a primeira e talvez nica manifestao de Gonalves de Magalhes sobre o poema to combatido por Jos de Alencar. O texto, no datado, impede a definio de quando o poeta brasileiro escreveu essas palavras ao estudioso
argentino. As hipteses sobre esse fato podem variar, e uma delas nos leva a pensar
que o passar do tempo fosse necessrio para que o poeta conseguisse finalmente
manifestar-se sobre o objeto da lia. Hipteses parte, a carta de Magalhes expressa
a surpresa com que recebeu a crtica Grande foi a surpresa que experimentei com
a leitura desta anlise que revela um esprito ilustrado e reto e que tanto realce d
16 Curiosamente, no desenrolar da polmica, no Brasil, aparece no Dirio do Rio de Janeiro, de 31 de julho de

1856, um artigo assinado por mega, pseudnimo at hoje no desvendado. Tal coincidncia entre os
dois mega leva-me a conjecturar que o mega, que publica no jornal brasileiro, o mesmo mega do
jornal argentino, ou seja, Juan Mara Gutirrez.
17 GUTIRREZ, Juan Mara. Un poema brasileo. A confederao dos tamoios, poema por Domingos Gonalves
de Magalhes. Revista del Rio de la Plata, Buenos Aires, n. 12, t. 3, p. 481-520, 1872.
18 Idem.

88 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

minha obra, pois apresentada ao modo que V. o faz ser mais conhecida e apreciada,
nica recompensa que alcanam entre ns as tarefas literrias19 , e ressalta o sentido
que atribui ao texto:
Porm indicando-me o de V. que d maior realce crtica, aumenta minha satisfao
e no pude resistir ao veemente desejo de dirigir a Vd. a expresso de minha sincera
gratido pela honra que dispensa a meu poema, dando uma favorvel notcia dele a seus
compatriotas, sem que lhe movam a proceder assim as consideraes de amizade.20

O pargrafo mais significativo da carta, porm, diz respeito manifestao do poeta


brasileiro sobre sua prpria epopeia, escrita em 1856:
Em obras de to longa e difcil execuo, em que a imaginao no exclui o verdadeiro,
seno que mais bem lhe d esplendor, qualquer que as empreende e as realiza como
melhor lhe parece, no deve ser to vo que se julgue invulnervel crtica, a no ser
que se conte no nmero daqueles imortais que todas as naes consideram como nossos
melhores guias na bela interpretao da natureza. Por outra parte, e do mesmo modo,
tampouco a crtica de quem julga menos falvel que o gosto esttico que preside quelas composies, e no poucas vezes o que para um parece descuido ou desacerto
para outros efeito de um estudo esmerado, posto que nossos juzos e sensaes variam
segundo as circunstncias, no s de indivduo a indivduo, seno tambm segundo as
diversas faces de um mesmo assunto, sem que poeticamente falando sejam uns mais verdadeiros que outros. A multiplicidade e a variedade da natureza em sua prpria unidade
causa do modo diferente com que se expressam os afetos, sem o qual no se conseguiria ser original na constante reproduo de uns mesmos tipos. Seria impossvel a poesia
se os caracteres humanos, assim como o espetculo da natureza, ostentassem rigorosas
formas geomtricas. Estranha coisa , e sem dvida frequente, que aquelas passagens de
uma obra de engenho que seu autor considera mais fracas passam quase sempre sem
despertar o menor reparo, e recaia a crtica sobre pontos imprevistos e em sentido inteiramente oposto ao que pudesse presumir o autor. To vrios so os juzos humanos!21

19 MAGALHES, Domingos Jos Gonalves de. Carta a Juan Mara Gutirrez. In: MOREIRA, Maria Eunice;

BUENO, Lus. A confederao dos Tamoios por Domingos Jos Gonalves de Magalhes. Curitiba: Editora da
ufpr, 2007, p. 659. (Letras do Brasil, 7).
20 Idem.
21 Idem.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 89

Para Gutirrez, o poema de Magalhes, que pode com mais razo que seu compatriota, o autor do poema Uruguai, dizer ao seu: sers lido! Ser [lido] em todas as
partes, adquire um duplo valor: no somente um poema mas uma bela ao. por
isso, por esperar que a juventude argentina se oriente pelo trabalho do brasileiro e
promova a literatura ptria, que Gutirrez estimula a leitura do original a la generacin joven de Buenos Aires que hoy se prepara a ilustrarlo en un dia prximo con las
producciones de su espritu privilegiado.22
Gutirrez sublinha, mais uma vez, no texto de Magalhes, o aproveitamento da paisagem como elemento marcante na composio da literatura brasileira, almejando
que os argentinos vislumbrem o diferencial que seja capaz de sustentar o patrimnio
literrio de sua terra. No entanto, ele tambm sabe que as condies do pas no
apontam para esse lado; a Argentina vive uma crise poltica e deve buscar outro
norte para o fazer literrio, que vir exatamente dessa nova conformao poltica.
Jos Mrmol dizia que as ideias no tm ptrias, mas essa no a discusso que se
impe nesse momento. As ideias no tm ptrias pode significar, no contexto em
que se inscrevem essas reflexes a dcada de 1840 do sculo xix; em espaos distintos e distanciados o Brasil e a Argentina, em particular; atravs de homens que
mantiveram fugazes e efmeras relaes Gutirrez passou pelo Brasil, em viagem,
Jos Mrmol permaneceu no Brasil menos de trs anos e Joaquim Norberto, pelo que
se sabe at hoje, nunca visitou um pas da Amrica do Sul ou sequer deixou o Rio
de Janeiro , que a circulao de ideias independe do espao geogrfico. Tanto no
Brasil quanto na Argentina, nesse momento, o pensamento nacionalista transita de
um lado para outro, no obstante a diferena entre as estruturas polticas e literrias
vivenciadas por essas naes.
Quando a gerao romntica brasileira comeou a perder fora, resultando no afastamento entre os hermanos e os brasileiros (Joaquim Norberto envelhecia, Mrmol
assumiu a Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, antecipando com sua sina, a cegueira, a do futuro diretor, Jorge Luis Borges), parecia ter chegado ao fim a troca cultural
entre as duas naes. Eis quando surge o livro de Eduardo Peri, quatro anos antes
da proclamao da Repblica brasileira, ou seja, em 1885: A literatura brasileira nos
tempos coloniais do sculo xvi ao comeo do xix, subintitulado Esboo histrico
seguido de uma bibliografia e trechos dos poetas e prosadores daquele perodo que
fundaram no Brasil a cultura da lngua portuguesa.
22 Gutirrez, Juan Mara. Un poema brasileo. A confederao dos tamoios, poema por Domingos

Gonalves de Magalhes. Revista del Rio de la Plata, Buenos Aires, n. 12, t. 3, p. 481-520, 1872.

90 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

De rara circulao entre ns, algumas particularidades cercam essa edio: Eduardo
Peri, um argentino, escreve em lngua portuguesa uma histria da literatura brasileira, publica-a em Buenos Aires pela Casa Editora Eduardo Peri e menciona, no texto
dirigido Ao leitor, introdutrio obra, que se trata de um trabalho promio dos que
com mais tempo e mais estudos [se] prope a publicar a respeito do Brasil. Outro
detalhe acrescenta-se edio: a histria da literatura de Peri compe um volume
da coleo Biblioteca Luso-Brasileira, cuja primeira srie completa este primeiro
volume, conforme esclarece. O livro resultado de suas observaes sobre o pas e,
mais que isso, seu lanamento se deve ao pedido de seu amigo brasileiro Flix Ferreira,23 que no s propusera o empreendimento como o auxiliara na reunio do material
necessrio para sua realizao, escrevendo notas, indicaes e algumas partes da obra.

2. Estrangeiros e romnticos
Estranhas relaes essas entre hermanos e irmos, entre argentinos e brasileiros.
Aliceradas geralmente no silncio, citadas com raridade e parcimnia, ocultadas
por motivos polticos e ideolgicos, sobretudo de l para c, tornam-se, porm, vozes
soantes para a leitura da histria da literatura de ambas as naes. Para o Brasil, o
aval dos estudiosos estrangeiros, agora representado pelos intelectuais do Sul do
continente, continua a tradio brasileira que os primeiros estudos historiogrficos
anunciaram: a persistncia nas condies naturais do pas, especialmente a natureza como elemento fundador da literatura nacional. A natureza tropical, vista pelos
olhos desses argentinos, refora o projeto imperial de constituio da literatura e
da nao razo pela qual podem publicar seus Fragmentos nos jornais do Rio
de Janeiro. O escritor argentino, exilado e politicamente deslocado em sua terra,
era bem-vindo no Brasil onde desfrutava da posio de viajante estrangeiro nas
demandas do movimento romntico brasileiro.24
23 Flix Ferreira atuou como escritor, jornalista, livreiro eestudioso da arte. Colaborou na revista Cruzeiro do

Brasil, do Rio de Janeiro, e na folha ilustrada O guarani. Foi autor dramtico e tornou-se editor, em meados
de 1877, criando a empresa Flix Ferreira & Cia., pela qual publicou coletneas de autores clssicos, como
Lus de Cames, Diogo Bernardes, Almeida Garrett eAlexandre Herculano. Em 1885, lanou o livro Belas
artes: estudos e apreciaes, pela editora Baldomero Carqueja Fuentes, do Rio de Janeiro.
24 AMANTE, Adriana. O estrangeiro, muito romntico a literatura dos escritores romnticos argentinos
exilados no Brasil. In: SANTOS, Luis Alberto Brando; PEREIRA, Maria Antonieta. Trocas culturais na Amrica
Latina. Belo Horizonte: Ps-Lit/fale/ufmg; Nelam/fale/ufmg, 2000, p. 151-8.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 91

Na Argentina, a metfora de Echeverra de que o sol punha medo a seus olhos podia
significar que a nascente literatura ptria, do outro lado da fronteira, tinha outro
projeto e outra mirada. Entre os hermanos, a natureza no se apresentava como o
signo orientador para a expresso literria. Para l, o passado tambm tinha de ser
encarado, como no caso do Brasil. No entanto, enquanto os brasileiros revolviam os
anos anteriores Independncia em busca da tradio literria, como ensina a lio
de Ferdinand Denis, para nele encontrar o produto representativo desse pas solar
e natural, na Argentina, do lado de l, para usar uma expresso do escritor gacho
Aldyr Schlee, onde a planura se impe mais do que o sol, havia necessidade de borrar o passado para buscar outra construo, talvez mais voltada para a civilizao
do que para a barbrie.
Acentuam-se agora as diferenas entre os dois crculos culturais e literrios. O
romantismo do Brasil e o romantismo argentino movimentam-se em duas direes.
No Brasil, Pedro ii e sua forma de governo unificam e centralizam a pretenso de
um imprio slido e consistente, exercendo seu papel de mecenas sobre o grupo de
intelectuais que com ele compartilham a possibilidade desse romantismo. No h
fissuras entre o grupo da nao e os literatos brasileiros que desejam promover a
literatura nacional. Na Argentina, ao contrrio, o romantismo deve afigurar-se com
outra concepo: no h um passado que una o governo e os intelectuais, e esses
almejam escrever a sua literatura em oposio ao governo central. Se, no Brasil, a
literatura refora o poder institudo, na Argentina, ao contrrio, a formao dessa
literatura transforma-se em elemento de contrapoder.
Hermanos e irmos, quando discutiam a arte nacional a partir de sua condio de
colonizados; hermanos e irmos, quando entendiam que o nascimento da literatura
deveria ter como bero os feitos da nao; hermanos e irmos, quando buscavam
fundar o cnone e orientar sua sedimentao pelo signo da nacionalidade. Diferentemente do Brasil, em que a poltica bem ou mal se aglutinava em torno de um
chefe contrrio ao confronto e de formao culta, os hermanos viveram sob a gide
de caudilhos para quem, entre armas e letras, prevaleciam as primeiras e o poder da
palavra era muitas vezes silenciado.
Por isso possvel entender a citao de que o sol daqui lhes punha medo. A metfora indica que outro signo, distanciado da exuberante paisagem natural brasileira,
talvez fosse mais adequado para escrever a literatura de uma ptria, que se desenhava
como nao, com outras particularidades. Como disse o brasileiro mais conhecedor
da literatura argentina, o crtico Joaquim Norberto, necessitam os castelhanos eleger
outro motivo, mais afinado sua realidade histrica e cultural, para ento tanger

92 moreira, Maria Eunice. Hermanos e irmos

suas harpas. Estranhas relaes e ocultas pretenses entre um grupo de homens que,
muitas vezes separados pela disputa da terra ou pela ideologia de seus dirigentes,
encontraram na palavra uma forma de aproximao e convivncia.

Maria Eunice Moreira professora na Pontifcia Universidade Catlica (rs) e editora da revista
Letras de Hoje, do Programa de Ps-Graduao em Letras da Pontifcia Universidade Catlica do
Rio Grande do Sul (pucrs); e da revista binacional Navegaes Revista de Cultura e Literaturas
de Lngua Portuguesa, juntamente com Vania Pinheiro (Universidade de Lisboa), desde 2007.
Organizou Gonalves Dias e a crtica portuguesa no sculo xix (Portugal: Centro de Literaturas e
Culturas Lusfonas e Europeias da Universidade de Lisboa, 2010) entre outros.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 79-93, 2013 93

Teatro romntico e escravido


Joo Roberto Faria

Resumo: Como o teatro brasileiro dos tempos romnticos representou o negro e a escravido nos palcos e nos textos dramticos? O artigo tenta dar uma resposta a essa questo
passando em revista as principais obras e autores que a abordaram , a partir de uma
sugesto colhida em texto de Brito Broca, para quem a literatura brasileira fez abolicionismo romntico e realista. Palavras-chave: teatro romntico, teatro realista, histria do
teatro brasileiro.
Abstract: How did the Brazilian theatre of a romantic epoch represent the Negro and the
slavery on the stage and dramatic texts? The article tries to give an answer to that question,
by going through the main works and authors that focused on the question, beginning with a
suggestion found in a text by Brito Broca, to whom the Brazilian literature created a romantic and realistic abolitionism. Keywords: romantic theatre, realistic theatre, history of the
Brazilian theatre.

Meu ponto de partida para esta breve apresentao o artigo de Brito Broca, intitulado O bom escravo e As vtimas-algozes, escrito em 1958 e publicado no livro
Romnticos, pr-romnticos, ultrarromnticos.1
Ele comenta algumas obras que abordaram a questo da escravido, no perodo
romntico, e formula a seguinte hiptese: a propaganda abolicionista se fez na literatura de duas maneiras: em uma mostrando o escravo como uma criatura cheia
de virtudes, superando os males da instituio; noutra mostrando-o como um ser
infeliz e miservel, levado ao vcio ou ao crime por culpa exclusiva do cativeiro. No
primeiro caso temos uma imagem idealizada e romntica do negro, que o torna
at superior ao branco. No segundo, uma imagem realista: o escravo dificilmente
poderia ser bom na condio nefanda a que o relegava o cativeiro.
Brito Broca diz ainda que o prottipo do escravo idealizado surge com o romance A
cabana do pai Toms, de Harriet Beecher Stowe, em 1852, com o qual o abolicionismo
romntico ganha impulso. Trata-se de um abolicionismo que pretendia inspirar o
horror ao cativeiro por meio da exaltao do escravo. A essa linhagem pertence
o romance A escrava Isaura, de Bernardo Guimares (1875), e a pea teatral Me
(1860), de Jos de Alencar. Ao abolicionismo realista, para usar os termos do autor,
pertencem a comdia O demnio familiar (1857), de Jos de Alencar, e as novelas
intituladas As vtimas-algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo. Brito Broca
acrescenta ainda duas obras posteriores ao perodo romntico em que se encontra
o abolicionismo realista: O escravocrata, drama de Artur Azevedo e Urbano Duarte,
e A carne, romance de Jlio Ribeiro.
evidente que Brito Broca no esgotou o assunto. Tendo escrito um artigo curto, deu
poucos exemplos para ilustrar sua ideia. Se quisermos avanar no mesmo caminho
indicado por ele, buscando outras obras e pensando na diferena entre o abolicionismo romntico e o realista, logo de cara perceberemos que quase no temos
outros exemplos no terreno do romance. O negro, liberto ou escravo, no ocupou
o centro das narrativas em nossa literatura romntica. Alm da escrava Isaura
que era branca, como todos sabem e dos negros que protagonizam as novelas de
Macedo, outros personagens que poderiam ser lembrados s desempenham papis
secundrios. o caso do moleque Tobias, de A moreninha, de Macedo; de Vidinha,
mulata no escrava das Memrias de um sargento de milcias, de Manuel Antnio de
Almeida; ou de Joaninha, a mulata sedutora de As minas de prata, de Jos de Alencar. No h crticas escravido nessas obras ou em outras de Bernardo Guimares,
1 BROCA, Brito. Romnticos, pr-romnticos, ultrarromnticos. So Paulo: Polis/inl, 1979, p. 271-3.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 95

em que o negro personagem: Lendas e romances, Rosaura, a enjeitada, Maurcio e


O garimpeiro. Raymond Sayers, no livro O negro na literatura brasileira, menciona
alguns escritores menos conhecidos como autores de obras antiescravistas: Pinheiro
Guimares (O comendador, 1856), Jos Silva Pereira (Cenas do interior, 1865); Jlio
Leal (Cenas da escravido, 1873).
Se o romance romntico no fez do negro e da escravido assuntos centrais, preferindo o ndio, os costumes urbanos da burguesia, os costumes do interior do pas e o
passado histrico, o teatro no se fez de rogado. Lembremos, para comear, que no
h nenhum heri negro nos romances de Alencar, mas o escravo protagoniza duas
de suas peas teatrais, consideradas antiescravistas por Brito Broca.
Antes de Alencar, tambm o teatro romntico fez do negro e do escravo personagens secundrios, importantes apenas para dar s peas a to desejada cor local na
reconstituio dos costumes. Nas comdias de Martins Pena, representadas no final
dos anos 1830 e ao longo da dcada de 1840, a escravido surge eventualmente como
pano de fundo da ao, e por vezes o autor vai alm do registro cmico, apontando
aqui e ali a sua ignomnia. Como afirma Vilma Aras, os escravos, desvestidos de
caractersticas humanas, sem voz e sem razo, so vistos a trabalhar o tempo todo,
chicoteados, empurrados, enganados, enquanto, um palmo acima, a trama desenrola-se e os demais personagens giram segundo o vivssimo ritmo desse teatro.2
Um bom exemplo dos maus-tratos a que eram submetidos os escravos est na comdia Os dois ou O ingls maquinista. A certa altura, a personagem Clemncia interrompe a conversa que est tendo com amigos, pois ouve barulho de loua quebrada. Ela
vai cozinha, nos bastidores, e chicoteia as escravas pela loua que na verdade havia
sido quebrada por um co. Em seguida entra em cena quase sem flego, dizendo
que no gosta de dar pancada. Em vrias outras comdias o escravo aparece como
figurante, o que levou Slvio Romero a observar que uma das mculas nacionais
que mais vivamente aparecem nas comdias do nosso compatriota , sem dvida, a
escravido. E mais: No h nenhuma de suas obras conhecidas em que direta ou
indiretamente ela no aparea; no h nenhuma em que no exista alguma referncia
nefanda instituio por palavras que seja. Os termos preto, negro, escravo, moleque,
mucama, meia-cara l estaro, ao menos para dar testemunho do fato.3

2 ARAS, Vilma SantAnna. Na tapera de Santa Cruz: uma leitura de Martins Pena. So Paulo: Martins Fontes,

1987, p. 26.
3 ROMERO, Slvio. Martins Pena. Porto: Livraria Chardron, 1901, p. 115.

96 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

As comdias de Martins Pena, nascidas da observao da vida social, registram os


costumes brasileiros de seu tempo, mas principalmente das camadas populares, dos
homens brancos e pobres. Quando o escravo surge em cena, ainda que de modo
degradado e rebaixado, no h uma crtica contundente ou explcita nos dilogos
ou nas aes dos personagens, que nos permita enxergar uma posio clara do autor
contra o cativeiro.
O mesmo se pode dizer do negro que aparece no drama O cego, de Joaquim Manuel de
Macedo, representado em 1849. O personagem Daniel um guia de cego e tem papel
secundrio na trama, em cujo centro esto dois irmos que amam a mesma mulher. No
h aqui nenhuma preocupao com o problema da escravido, que o autor abordar nas
novelas As vtimas-algozes, vinte anos depois, com forte colorido abolicionista. O que
talvez explique tal discrepncia seja o fato de que, na poca em que O cego foi encenado,
a prpria ideia da abolio da escravido no estava na ordem do dia. Nem mesmo o
Partido Liberal tinha simpatias pelo fim do cativeiro, que, no entanto, estava com os
seus dias contados a partir justamente de 1850, com a interrupo do trfico de escravos. O choque na economia foi brutal e redesenhou a vida urbana do pas, que ganhou
investimentos vultosos, antes destinados compra de escravos. Uma prova curiosa de
que essas mudanas provocaram protestos uma comdia publicada no mesmo ano de
1850: Os ingleses no Brasil. O autor, Jos Lopes de La Vega, espanhol radicado no Brasil,
escreveu-a para criticar a extino do trfico de escravos.
Com as transformaes econmicas que se do ao longo da dcada de 1850, forma-se
no Brasil uma pequena burguesia que passa a ver com bons olhos as ideias liberais. A
partir de 1855, o Teatro Ginsio Dramtico, no Rio de Janeiro, passa a encenar vrias
peas francesas que apresentam com cores muito positivas a vida burguesa e seus
valores ticos, como o trabalho, o casamento e a famlia. A escravido nos separa
dessa sociedade avanada, civilizada, algo que incomoda os espritos jovens. nesse
ambiente que Alencar surpreende todos, depois de fazer sucesso com O guarani,
publicado no Dirio do Rio de Janeiro, entre janeiro e abril de 1857. Em novembro
desse ano ele pe em cena sua segunda comdia, O demnio familiar, trazendo para
o centro do palco o escravo domstico, o moleque Pedro, que arma uma sequncia
de confuses com suas mentiras, separando jovens que se amam e desestabilizando
a famlia do jovem mdico Eduardo. No h maldade em seus atos: ele quer apenas
que seu senhor se case com uma mulher rica para ser cocheiro e vestir um uniforme
vistoso. Descoberto, Pedro no punido com chibatadas ou qualquer outra forma
de violncia. E nem posto venda. Criando um desfecho surpreendente, Alencar
faz Eduardo libertar o moleque, colocando em sua boca as seguintes palavras:

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 97

Todos devemos perdoar-nos mutuamente; todos somos culpados por havermos acreditado ou consentido no fato primeiro, que a causa de tudo isto. O nico inocente
aquele que no tem imputao, e que fez apenas uma travessura de criana, levado
pelo instinto de amizade. Eu o corrijo, fazendo do autmato um homem; restituo-o
sociedade, porm expulso-o do seio de minha famlia e fecho-lhe para sempre a porta
de minha casa. (a Pedro) Toma: a tua carta de liberdade, ela ser a tua punio de hoje
em diante, porque as tuas faltas recairo unicamente sobre ti; porque a moral e a lei te
pediro conta severa de tuas aes. Livre, sentirs a necessidade do trabalho honesto e
apreciars os nobres sentimentos que hoje no compreendes.4

Que significado guarda esse desfecho? Uma crtica escravido? Para alguns estudiosos, sim. Machado de Assis, por exemplo, considera O demnio familiar e o drama
Me um protesto contra a instituio do cativeiro.5 Outros crticos, levando em
conta que na maturidade Alencar foi poltico conservador e contrrio abolio
abrupta da escravido, discordam de Machado. Magalhes Jnior, para dar um
exemplo, escreve que o final da comdia no passa de uma antecipao da atitude
conformista de Alencar, que queria os escravos fora dos lares e longe das famlias,
mas permanecendo nas senzalas e no trabalho forado dos eitos.6
A verdade que o julgamento de Magalhes Jnior extrapola os limites da comdia. Em nenhum momento Eduardo d a entender que a favor da escravido no
domstica. O prprio Alencar chegou a escrever sobre o assunto, dizendo que jamais havia aplaudido a escravido em seus discursos ou escritos, e que a respeitara
enquanto lei do pas, acrescentando: [] manifestei-me sempre em favor de sua
extino espontnea e natural, que devia resultar da revoluo dos costumes por
mim assinalada. Continuei como poltico a propaganda feita no teatro.7
Podemos concordar com a avaliao de Machado e aceitar os argumentos de Alencar,
vendo em sua comdia uma condenao do cativeiro. Mas tenhamos clareza para perceber que O demnio familiar no aprofunda as crticas a essa instituio, que afinal
sustentava a economia do pas. Alencar quis mostrar unicamente os inconvenientes
da escravido domstica, to comum no Brasil urbano de seu tempo, colocando no

4 ALENCAR, Jos de. O demnio familiar. Campinas: Editora da Unicamp, 2003, p. 226.
5 ASSIS, Machado de. Do teatro: Textos crticos e escritos diversos. So Paulo: Perspectiva, 2008, p. 414.
6 MAGALHES JNIOR, Raimundo. Jos de Alencar e sua poca. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira,

1977, p. 119.
7 COUTINHO, Afrnio (Org.). A polmica Alencar-Nabuco. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1965, p. 58-9.

98 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

centro da ao dramtica um escravo travesso, movido por um objetivo ftil. Assim, ele
condena esse costume das velhas famlias brasileiras, talvez por duas razes: em primeiro lugar, porque as prprias famlias podiam tornar-se vtimas do escravo domstico;
ou seja, a escravido no ruim apenas para o escravo, mas tambm para o homem
branco; em segundo, porque se tratava de costume herdado da tradio colonial. Manter o escravo domstico, em 1857, era um anacronismo, pelo menos para as famlias
modernas dos profissionais liberais que naquela altura viviam de seu trabalho. Eduardo,
mdico e membro da pequena burguesia emergente de ento, d a liberdade a Pedro
e ao mesmo tempo se liberta da ltima amarra que o prendia antiga estrutura social.
Se entendermos o desfecho dessa maneira, a comdia pode ser lida como uma provocao sociedade escravista, que no abdica dos costumes que vm dos tempos coloniais. Eduardo d o exemplo, no palco, de uma atitude fundamental para a
modernizao da famlia brasileira, em termos burgueses. E no s no desfecho, pois
toda a sua postura, ao longo da comdia, de quem se contrape aos velhos hbitos
no que diz respeito ao namoro, ao casamento e constituio da famlia.
Se em O demnio familiar Brito Broca v abolicionismo realista, no drama Me
Alencar fez abolicionismo romntico, na linha inaugurada pelo romance A cabana
do pai Toms, isto , atribuindo ao escravo sentimentos como bondade, resignao,
humildade.
O sucesso da pea, cuja estreia ocorreu a 24 de maro de 1860, no Ginsio Dramtico, consagrou Alencar como o chefe da nossa literatura dramtica, nas palavras
de Machado de Assis, que considerou Me o melhor de todos os dramas nacionais
at hoje representados [], uma obra verdadeiramente dramtica, profundamente
humana, bem concebida, bem executada, bem concluda.8 Como pblico e crtica
uniram-se nos aplausos ao longo da temporada em que a pea ficou em cartaz, tudo
indica que a sociedade brasileira, apesar de majoritariamente escravocrata, comoveu-se com a histria da personagem Joana, a mulata que, ocultando a maternidade,
escrava do prprio filho.
Pela segunda vez, Alencar punha o escravo em cena. Se em O demnio familiar o
acento era cmico, agora a inteno explorar o drama da escravido, a partir de
uma situao potencialmente explosiva. Claro que o segredo da protagonista o
motor da pea. Joana vive com o filho Jorge em perfeita paz e harmonia, pois efetivamente tratada como me, no como escrava. O rapaz, de bom corao, d-lhe
inclusive uma carta de alforria, para comemorar o aniversrio de vinte e um anos.
8 ASSIS, Machado de. Op. cit., p. 419.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 99

Nada parece ameaar essa vida calma e o equilbrio assentado sobre um segredo que
compartilhado apenas por um velho conhecido de Joana, h muito tempo ausente
do Brasil. Mas quando a pea se inicia, a visita inesperada desse homem deixa no ar
a possibilidade da revelao. O dr. Lima, mdico, sem preconceitos, no aceita que
Joana no tenha contado a verdade a Jorge.
Os desdobramentos dessa situao so cuidadosamente calculados. Para que o segredo seja revelado no momento certo e desencadeie o desfecho trgico, entram em cena
dois outros personagens: Elisa e seu pai, Gomes. So vizinhos de Joana e enfrentam
dificuldades financeiras, agravadas pelos ardis do agiota Peixoto, que ameaa pr o
pobre homem na cadeia se no receber certa quantia de dinheiro at o final da tarde.
Como Jorge e Elisa se amam, o rapaz se sente obrigado a salvar o futuro sogro e, sem
recursos, recorre ao dr. Lima, que, todavia, s poder trazer-lhe o dinheiro na manh
do dia seguinte. A nica soluo vista pelo rapaz vender Joana a Peixoto, ainda que
por um dia, pois a resgataria em menos de vinte e quatro horas.
No nos esqueamos: Alencar quer comover. No lhe interessa o final feliz. Assim,
as cenas do quarto ato so carregadas de tenso e dramaticidade. E o momento da
revelao do segredo de Joana preparado para causar um forte impacto tanto nos
personagens do drama quanto no espectador. Vejamos como os lances obedecem
a uma lgica implacvel. Pela manh, Joana foge de Peixoto e vem para casa ver o
filho. Em seguida chega o dr. Lima, que d o dinheiro a Jorge, que sai procura do
agiota. No o encontrando, volta para casa, recebe a visita de Elisa e Gomes e sai de
cena para mostrar ao futuro sogro os aposentos que ocupar em breve. Enquanto
isso, entra Peixoto, perguntando pela sua escrava. O dr. Lima fica indignado, mas o
agiota lhe mostra o papel assinado por Jorge. O velho mdico tira os olhos do papel
e depara com o rapaz, que est entrando na sala, enquanto Joana aparece no fundo.
A indignao explode em seus lbios: Desgraado! Tu vendeste tua me!.
Machado de Assis, que assistiu a uma das primeiras representaes, escreveu: Eu
conheo poucas frases de igual efeito. Sente-se uma contrao nervosa ao ouvir
aquela revelao inesperada. O lance calculado com maestria e revela pleno conhecimento da arte no autor.9
De fato, impossvel no concordar com Machado. O que se segue o suicdio de
Joana, lance igualmente pungente e bem preparado, pois o veneno que ela ingere
pertencia a Gomes e havia sido arrancado das mos do filho, que por sua vez o
recebera de Elisa.
9 Idem, p. 226.

100 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

Como Alencar no recorreu ao personagem raisonneur, isto , o personagem que


em cena manifesta as opinies do autor sobre os problemas suscitados pelo enredo,
em Me no h discursos contra a escravido. Isso levou os crticos a se dividirem
na interpretao da pea: para alguns, trata-se apenas de um elogio do sentimento
materno, sem conotao antiescravista, at porque Alencar foi poltico do Partido
Conservador; para outros, ao contrrio, trata-se de uma comovente condenao do
cativeiro. Recorramos mais uma vez a Machado de Assis:
Se ainda fosse preciso inspirar ao povo o horror pela instituio do cativeiro, cremos
que a representao do novo drama do Sr. Jos de Alencar faria mais do que todos os
discursos que se pudessem proferir no recinto do corpo legislativo, e isso sem que Me
seja um drama demonstrativo e argumentador, mas pela simples impresso que produz
no esprito do espectador, como convm a uma obra de arte.10

O horror a que se refere Machado pode ser observado tanto no sacrifcio que Joana
impe a si mesma viver ao lado do filho como escrava, sem revelar a verdade
para no envergonh-lo diante da sociedade preconceituosa , quanto na cena em
que Peixoto examina a mercadoria que est comprando. Ou, principalmente, no
desfecho, pois o suicdio da protagonista uma consequncia direta dos males da
escravido.
Misturam-se na pea traos tpicos do romantismo e do realismo. Joana evidentemente uma figura idealizada. Se por um lado a sua condio social a determina
enquanto personagem, por outro a sua conscincia do que significa ser escrava na
sociedade brasileira a transforma em uma me abnegada, que tudo suporta, e que
capaz de sacrificar a prpria vida para que o filho no carregue o estigma da origem escrava. O lado romntico do drama estende-se tambm a Jorge, ao tipo de
relacionamento que ele mantm com Joana, aos sentimentos que lhe dispensa. Seu
comportamento no obviamente o de um proprietrio de escravos. E que dizer de
sua reao ao conhecer que Joana sua me? Nenhum espanto, contrariedade ou
conflito interior. O bom rapaz no tem preconceitos e aceita a escrava como me,
exprimindo o seu contentamento numa exploso de jbilo. Ou seja, Alencar pautou-se pela idealizao romntica para condenar a instituio do cativeiro. Em vez da
crtica direta, do discurso racional, do desfecho maneira de O demnio familiar,
buscou a emoo para atingir o corao do espectador.
10 Idem, p. 419.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 101

Alguns meses antes da representao de Me, o Rio de Janeiro j havia visto no


palco do Teatro So Pedro de Alcntara a primeira manifestao de abolicionismo
romntico. No dia 24 de dezembro de 1859 estreou o drama O escravo fiel, de Carlos
Antnio Cordeiro. Ao contrrio de Alencar, esse autor lanou mo do esquematismo melodramtico para contar uma histria que vou resumir em poucas linhas:
Loureno escravo de Lemos, que est beira da morte. Os viles, um irmo padre
e Salgado, cunhado do moribundo, querem dividir a herana, no reconhecendo
a jovem Eullia como filha de Lemos. Loureno ouve a conversa e a relata ao seu
senhor, que j havia feito um testamento e o confia ao escravo. Lemos morre, mas,
como Loureno no sabe ler, guarda o testamento e comea a aprender a ler, recortando letras dos jornais. Passam-se alguns meses, perodo em que Eullia vtima
de toda sorte de humilhaes, tornada empregada da casa de Salgado. O enredo se
complica com o plano do vilo de fazer a mocinha casar-se com um feitor bronco para garantir a herana, caso algum testamento aparecesse. Loureno, tambm
perseguido e ameaado, consegue finalmente aprender a ler, impede o casamento,
desmascara os viles e faz valer o testamento, que institui Eullia como herdeira dos
bens do pai: ela poder ento se casar com o mocinho a quem ama. Outra clusula
do testamento d alforria ao bom e fiel escravo Loureno.
Do ponto de vista literrio e dramtico a pea fraca, abusa dos clichs e exagera no
maniquesmo. Nesse sentido talvez se aproxime mais de A cabana do pai Toms que
Me, de Alencar, que um drama, no um melodrama. Mas os males da escravido
esto presentes em sua ao dramtica. Nas mos do truculento Salgado, Loureno sofre
o tempo todo, resignado com sua condio. Antes, Lemos nunca o havia tratado mal.
Machado de Assis assistiu encenao dessa pea e apontou em sua Revista de
Teatros os defeitos que viu na construo do enredo e na linguagem do escravo. No
entanto, ressalvou: As tendncias liberais do autor, alguma coisa nacional que h,
inteno de moralizar, salvaram o pensamento que tanto peca pela manifestao.11
Creio que importante atentar ao elogio s tendncias liberais que Machado enxergou no drama de Carlos Antnio Cordeiro. Isso pode sinalizar um dilogo do teatro
com novas aspiraes polticas que comeam a se fazer presentes entre os brasileiros
descontentes com a escravido, instituio que uma vergonha para o pas. sintomtico que em seu comentrio crtico Machado tenha observado que os aplausos
recebidos pela pea se devam repulsa pela escravido por parte dos espectadores.
Em So Paulo, em dezembro de 1861, foi encenado um drama romntico abertamente
11 Idem, p. 205.

102 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

abolicionista: Sangue limpo, de Paulo Eir. No prefcio ele explica que escreveu a
pea para participar de um concurso promovido pelo Conservatrio Dramtico
Paulistano em 1859: os prmios seriam destinados para o melhor drama original,
revestido de moralidade, que tivesse por assunto alguns dos gloriosos episdios da
histria de nosso pas.12
Paulo Eir situou a ao dramtica em So Paulo, entre os dias 25 de agosto e 7 de
setembro de 1822. Sem pr em cena as figuras histricas apenas no ltimo ato d.
Pedro i e seu squito atravessam o fundo do palco , procurou no apenas enaltecer
o ideal patritico da independncia, mas utilizar o pano de fundo histrico para
abordar a questo da escravido e os preconceitos raciais e sociais que decorrem
dela.13 O enredo gira em torno dos amores de Aires de Saldanha, filho de d. Jos,
oficial portugus, e Lusa, mulata clara. Com a oposio do pai do rapaz, a trama
se adensa, mas no final d. Jos assassinado por um escravo que sofreu muito nas
mos de trs senhores desalmados. Em seu belo livro sobre o drama romntico,
Dcio de Almeida Prado observa que esse escravo tem um nome simblico, Liberato.
Logo, ele deduz: O negro mata o portugus para que o filho deste possa tornar-se
brasileiro casando-se com uma mulata. Essa seria a experincia vital do processo de
abrasileiramento que est na base da nacionalidade.14
Nacionalista e romntico, por fazer o elogio da independncia do pas utilizando os
recursos formais do drama, Paulo Eir contraps a liberdade conquistada em 1822
com a falta de liberdade dos escravos, vendo a um forte componente dramtico:
No ser dramtico desenrolar a velha bandeira do Ipiranga, e nela apontar como
anttese monstruosa a ndoa negra da escravido, verme nojoso que ri a flor de
nossas liberdades? No ser dramtico mostrar o que fizeram nossos pais, e o que
temos a fazer para coroar sua obra?.15 Eis a o romantismo brasileiro de tinta social,
que ter em Castro Alves a sua maior figura. Paulo Eir o precede, e isso no pouco.
Ainda em 1861, em So Paulo, Rodrigo Otvio de Oliveira Menezes publica o drama
Haabs, no qual encontramos mais um exemplo de abolicionismo romntico.
O protagonista o escravo Jos Haabs, que teve a esposa violentada e assassinada
12 AZEVEDO, Elizabeth R. (Org.). Antologia do teatro romntico. So Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 307.
13 Pouco antes de Paulo Eir, em 1858 Agrrio de Menezes publicou na Bahia o drama histrico Calabar.

No se trata de uma pea abolicionista; o heri um mulato livre e a questo do preconceito racial
explorada apenas lateralmente no enredo, que pe em cena a luta dos portugueses contra os holandeses
e a suposta traio do brasileiro Calabar.
14 PRADO, Dcio de Almeida. O drama romntico brasileiro. So Paulo: Perspectiva, 1996, p. 169.
15 AZEVEDO, Elizabeth R. Op. cit., p. 309.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 103

pelo feitor da fazenda. O escravo o mata e foge. Do lugar onde se esconde v a filha
de seu senhor chegar com um beb nos braos e abandon-lo sobre uma pedra.
Haabs salva o beb e, vinte anos depois, sob falsa identidade, vive com o agora rapaz
Henrique, num pedao de terra que pertence aos herdeiros de seu antigo senhor. Eles
so os pais de Henrique. O enredo se complica quando vemos o rapaz salvar a vida
de uma mocinha cujo cavalo havia disparado. A mocinha obviamente sua irm
e ambos se sentem atrados um pelo outro. No preciso dizer que o incesto ser
evitado: no desfecho Haabs se d a conhecer aos pais da mocinha, revela a histria
de Henrique e a famlia se recompe. O escravo recompensado com a liberdade e
com as terras onde vive. Seu nobre carter enfim reconhecido.
O resumo do enredo no d conta da pobreza literria da pea. Os exageros sentimentais, o maniquesmo na construo dos personagens, o artificialismo dos dilogos, os clichs do melodrama, tudo colabora para que Haabs seja uma pea mal
realizada. No entanto, sua recepo no foi to negativa. Machado de Assis, que a
resenhou, observou que de fato o livro era tosco pela forma e brilhante pelo fundo;
uma bela ideia mal-afeioada e mal enunciada, o que no tira ao livro certo mrito
que foroso reconhecer.16 Simptico s ideias liberais, Machado valoriza o contedo, que francamente antiescravista, e identifica os dois fatos sobre os quais se baseia
a pea: Primeiro, a condio precria dos cativos; depois, a generosidade que pde
existir nessas almas, que Herculano diria atadas a cadveres. preciso explicar que
Haabs, apesar de ter assassinado o feitor, no um homem mau nem violento. Ele
lamenta o tempo todo ter cometido o crime e seu arrependimento sincero. Nos
vinte anos que vive sob falsa identidade ele s faz o bem, mostra-se bom cristo, e
revela o que Machado aponta como generosidade que pode existir nessas almas,
qualidade que caracteriza o protagonista de A cabana do pai Toms. Lida pelos seus
contemporneos como pea de propaganda contra o cativeiro, Haabs mereceu a
seguinte apreciao de Pessanha Pvoa, o editor da Revista Dramtica publicada em
1860 pelos alunos da Faculdade de Direito do Largo de So Francisco: Haabs um
grito contra a escravido, um protesto santo e justo conta a usurpao consagrada
sob o ttulo de direitos.17
Na virada da dcada de 1850 para a de 1860, o abolicionismo romntico convive
com o abolicionismo realista. Do ponto de vista da histria do teatro brasileiro,
nessa altura o realismo teatral muito mais forte do que o romantismo. No Rio
16 ASSIS, Machado de. Op. cit., p. 262.
17 Apud Joo Roberto Faria, Ideias teatrais: o sculo xix no Brasil. So Paulo: Perspectiva/Fapesp, 2001, p. 541.

104 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

de Janeiro, como j observei, pelo menos desde 1855 o Teatro Ginsio Dramtico oferecia plateia fluminense os chamados dramas de casaca, isto , comdias
realistas que primeiramente vieram da Frana, mas que depois de algum tempo j
eram escritas por brasileiros. Vrios dramaturgos seguiram o exemplo de Alencar,
que inaugurou com O demnio familiar o realismo teatral na dramaturgia brasileira.
Em 1861, o abolicionismo realista aparece em duas peas representadas no Ginsio
Dramtico: Sete de Setembro, de Valentim Jos da Silveira Lopes, portugus radicado no Brasil, pai da escritora Lcia Lopes de Almeida; e em Histria de uma moa
rica, de Pinheiro Guimares. A primeira uma autntica pea de ideias a favor do
trabalho livre, do pensamento liberal e contra a escravido. O primeiro ato pe em
cena uma famlia pobre de lavradores, formada por Raimundo, o pai; Carlos, o filho;
e Maria, uma moa que Raimundo criou como filha e que havia sido abandonada
porta de sua casa quando beb. Os dilogos entre eles nos informam que os jovens
vo se casar e que o carter de Raimundo o de um homem trabalhador, que nunca
teve escravos, que construiu seu pequeno patrimnio com o prprio trabalho. A
vida dos trs personagens abalada com a denncia de que Maria era filha de uma
escrava e, portanto, escrava tambm. No segundo ato Maria est na casa de seu
proprietrio, um rico fazendeiro. Carlos e o pai vendem uma pequena propriedade
para comprar a moa. Eis que entra em cena, vindo da Europa, formado em Direito,
o filho do fazendeiro, Artur. Adepto das ideias liberais, esse rapaz representa na pea
o pensamento antiescravista ilustrado, o homem brasileiro de uma futura sociedade
alicerada no trabalho livre e na cincia. Ele liberta Maria, com o consentimento do
fazendeiro, numa cena que se passa no dia 7 de setembro, com tiros de artilharia
ao fundo. Juntando o dia da liberdade da ptria com o gesto de Artur em relao
a Maria, Silveira Lopes prope o fim da escravido no Brasil. Carlos, estendendo a
mo a Artur, lhe diz: Aperte esta mo, mancebo; a mo do homem do trabalho,
que se ufana de apertar a mo ao homem da cincia.18
Em artigo publicado na Revista Popular, Leonel de Alencar, irmo de Jos de Alencar,
elogia a maneira como o sr. Silveira Lopes apresentou-nos o homem moderno, o
homem do sculo em que vivemos, o homem enfim do progresso e do corao liberal.19
Menos explcita na condenao do cativeiro Histria de uma moa rica. A pea
aborda centralmente as consequncias de um casamento feito por dinheiro, em que
uma jovem esposa, sofrendo todo tipo de humilhao e violncia por parte do mari18 Apud Joo Roberto Faria, O teatro realista no Brasil (1855-65). So Paulo: Perspectiva/Edusp, 1993, p. 227.
19 Idem, p. 228.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 105

do, foge de casa e se prostitui para sobreviver. O problema da escravido aparece


apenas no segundo ato, quando vemos em cena a mulata Brulia aproveitando as
vantagens de estar amancebada com o dono da casa. Se em O demnio familiar
Alencar j havia demonstrado, apelando para a leveza e a comicidade, o quanto era
nociva a escravido domstica para a famlia brasileira, Pinheiro Guimares aborda
o problema de modo mais contundente, por meio da criao de uma personagem
insidiosa e m. Brito Broca no hesitaria em apontar nessa pea o abolicionismo
realista, uma vez que o carter de Brulia foi forjado pela sua condio de escrava.
Libertar-se dessa herana colonial, pelo menos no ambiente domstico, o que
sugere o autor, cujo porta-voz, o raisonneur dr. Roberto, define-se como negrfilo
num dilogo no primeiro ato.
Para o leitor que me seguiu at aqui, lembremos que j me referi a sete peas teatrais,
escritas entre 1857 e 1861. O que se pode concluir, observando esse conjunto, que
coube ao teatro, no poesia ou ao romance, chamar a ateno da sociedade para
o grave problema da escravido. Quero crer que essas peas expressam na poca
o pensamento e o sentimento de muitas pessoas, pois antecipam uma discusso
poltica que se dar exatamente a partir de 1861, quando Tavares Bastos comea a
publicar no Correio Mercantil do Rio de Janeiro as suas Cartas do solitrio, nas quais
prope reformas liberais em todos os assuntos.20 Ele defende a necessidade e a
superioridade do trabalho livre sobre o trabalho escravo, condena veementemente
a escravido, denuncia a longa hipocrisia com que o pas encarou o problema da
abolio e exige a imediata extino do regime servil.21
Publicadas em livro, as Cartas do solitrio, juntamente com A escravido no Brasil
(1866), de Perdigo Malheiro, forneceram as coordenadas para o surgimento de um
novo liberalismo na dcada de 1860. Alfredo Bosi explica:
Um pensamento liberal moderno, em tudo oposto ao pesado escravismo dos anos
[18]40, pde formular-se tanto entre polticos e intelectuais das cidades mais importantes, quanto junto a bacharis egressos das famlias nordestinas que pouco ou nada
podiam esperar do cativeiro em declnio.22

20 MARTINS, Wilson. Histria da inteligncia brasileira. So Paulo: Cultrix/Edusp, 1977, vol. 3, p. 158.
21 Idem, p. 158.
22 BOSI, Alfredo. A escravido entre dois liberalismos. In: Dialtica da colonizao. 4. ed. So Paulo: Companhia

das Letras, 2003, p. 224.

106 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

Que o teatro exerceu um papel fundamental nesse momento, para a formao de


uma conscincia abolicionista entre os brasileiros, no tenhamos dvida. Ainda na
dcada de 1860, pelo menos duas outras peas seguiro o mesmo caminho das outras
sete aqui comentadas: Cancros sociais, de Maria Ribeiro, e Gonzaga ou A revoluo
de Minas, de Castro Alves.
A primeira, encenada no Rio de Janeiro em 1865, mistura elementos do romantismo
e do realismo para denunciar a escravido como uma instituio que deprava, humilha e envergonha as suas vtimas. Maria Ribeiro criou um ponto de partida baseado
numa ideia nobre do protagonista, Eugnio: no dia do aniversrio de quinze anos
de sua filha, vai libertar uma escrava da sua terra natal, a Bahia. Quer dar menina
um exemplo de considerao e bondade para com essa msera classe, deserdada
de todos os gozos sociais e lanada, como uma vil excrescncia, fora dos crculos
civilizados.23
Nessa altura, de Eugnio s sabemos que um negociante bem-sucedido no Rio de
Janeiro, um homem ntegro, generoso, bom marido, trinta e quatro anos. Ele tem
todas as qualidades dos heris das comdias realistas. O que no sabemos comea a
se revelar na ltima cena do primeiro ato. Quando lhe apresentada a escrava que
vai libertar, finge no conhec-la, muito constrangido e envergonhado. Mas ela o
reconhece, pois um corao de me no se engana, mesmo que tenha sido separada
do filho quando ele era um menino de cinco anos.
O enredo que se desenvolve ao longo dos outros trs atos da pea gira em torno do
segredo de Eugnio o filho branco de uma escrava , s conhecido pelo seu protetor, o baro de Maragogipe. Paulina, a esposa, nada sabe, claro, e todo o drama do
protagonista nasce do medo de ser repudiado por ela, porque nasceu escravo, e do
remorso por ter repudiado a me naquele primeiro encontro. A partir desse ponto o
enredo se enovela, o presente se mistura ao passado, onde esto todas as explicaes.
Maria Ribeiro lana mo de recursos folhetinescos, apela para coincidncias foradas, afasta-se das lies do realismo teatral, deixando em segundo plano a descrio
dos costumes, para privilegiar a ao e ao final salvar o protagonista: velhos papis
confirmam que poca de seu nascimento a sua me j havia sido libertada. No
pode, portanto, ser vtima de qualquer preconceito.
As trajetrias de Eugnio e de sua me, separados um do outro e vendidos por um
especulador quando j eram livres, do a medida dos sofrimentos provocados pela
escravido. A fora do drama est na denncia que faz desses sofrimentos e dos
23 FARIA, Joo Roberto (Org.). Antologia do teatro realista. So Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 302.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 107

preconceitos contra o escravo, fora que se sobrepe aos defeitos da forma. Machado de Assis, que aproximou Cancros sociais de Me, de Jos de Alencar, louvou o
assunto escolhido por Maria Ribeiro, observando que na guerra feita ao flagelo da
escravido, a literatura dramtica entra por grande parte.24
Como se sabe, a guerra escravido seduziu o grande poeta Castro Alves. Podemos
dizer que Gonzaga ou A revoluo de Minas o ltimo drama importante do romantismo, ainda que os recursos romnticos e melodramticos continuem a ser empregados
por outros dramaturgos nas dcadas seguintes, em muitas outras peas abolicionistas.
Encenado em Salvador, no dia 7 de setembro de 1867, o drama de Castro Alves abusa da
retrica condoreira e da imaginao para contar a histria da Inconfidncia Mineira.
Sem nenhuma preocupao com a realidade histrica, coloca no centro da trama um
tringulo amoroso, formado por Gonzaga, Maria Doroteia e o vilo, o visconde de Barbacena. Em torno desses personagens giram os outros, como o negro Lus, liberto por
Gonzaga, e Carlota, escrava de Joaquim Silvrio dos Reis. A liberdade potica autoriza
o autor a combinar a luta pela liberdade da ptria luta pela abolio da escravido. O
discurso antiescravista se materializa muitas vezes nas palavras de Gonzaga, com seus
louvores liberdade, e nas de Lus, que denuncia os abusos sexuais dos senhores, que
lamenta ser o escravo alguma coisa que est entre o co e o cavalo.25 Igualmente as trajetrias de Lus e Carlota servem para denunciar a ignomnia da escravido. Lus conta
que no passado foi brutalmente separado da mulher e da filhinha. A mulher morreu e
ele nunca mais viu a filha, que est moa. Claro que Carlota sua filha e ele no sabe.
Ela, por sua vez, chantageada por Joaquim Silvrio dos Reis para trair a revoluo.
Lus incumbido de matar a traidora, mas, quando vai apunhal-la, v um rosrio em
seu pescoo. O reconhecimento se d com o surrado recurso melodramtico da croix
de ma mre. Abraam-se, mas a felicidade no para eles. As peripcias do enredo os
separam e ela morre no final. Lus a carrega nos braos, dizendo: Deus te escolheu para
a primeira vtima! Pois bem; que o teu sangue puro, caindo na face do futuro, lembre-lhe
o nome dos primeiros mrtires do Brasil.26
Apesar de todos os seus defeitos formais, Gonzaga ou A revoluo de Minas um
drama vibrante, imbudo do mais puro romantismo. Machado de Assis, que o leu
em 1868, foi um tanto condescendente na anlise que fez, na conhecida carta de res24 ASSIS, Machado de. Op. cit., p. 369.
25 ALVES, Castro. Teatro completo. So Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 23.
26 Idem, p. 157.

108 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

posta a Jos de Alencar, que lhe pediu publicamente para avaliar as obras do jovem
Castro Alves. Machado viu poucos defeitos no drama. E ao considerar a figura do
negro Lus, comeou dizendo que em uma conspirao para a liberdade, era justo
aventar a ideia da abolio.27 Ressalta ainda que Lus e sua filha Carlota so personagens ficcionais que contracenam com os personagens histricos e que o autor os
caracteriza como vtimas da escravido, fazendo-os sofrer nas mos de Joaquim Silvrio dos Reis. Machado reala os dois sentimentos que movem o ex-escravo Lus: a
paixo pela liberdade e o desespero do amor paterno. O segundo mais forte e traz a
Gonzaga uma intensidade dramtica que permite ao crtico estabelecer um paralelo
com Shakespeare:
[] quando no terceiro ato Lus encontra a filha j cadver, e prorrompe em exclamaes e soluos, o corao chora com ele, e a memria, se a memria pode dominar tais
comoes, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braos Cordlia
morta. Quem os compara no v nem o rei nem o escravo: v o homem.28

Claro que a comparao exagerada. Mas Machado escreveu sob a impresso da


leitura que o prprio Castro Alves fez a um grupo de intelectuais.
Depois da estreia em Salvador, Gonzaga ou A revoluo de Minas foi encenado em
So Paulo, em outubro de 1868. Nessa altura, a luta abolicionista tem a simpatia de
amplos setores da sociedade brasileira e do Partido Liberal. Sabemos que a primeira
vitria dessa luta se d logo em 1871: a Lei do Ventre Livre. Nos anos que se seguiram,
at 1888, data da abolio, o teatro foi um forte aliado dos abolicionistas. Muitas peas
foram escritas em todo o Brasil, dando continuidade quelas que foram pioneiras
no final da dcada de 1850, incio da seguinte. Ao contrrio do romance, possvel
chegar a um nmero expressivo de originais que talvez no primem pela qualidade.
Mas so uma prova concreta de que o teatro cavou uma trincheira de onde lutou
contra a escravido. Apenas a ttulo de curiosidade, porque no vem ao caso estudar aqui esses originais, termino estas breves consideraes deixando uma lista29 de
peas que foram escritas e publicadas ou eventualmente encenadas entre 1867 e 1887:

27 ASSIS, Machado de. Op. cit., p. 479.


28 Idem, p. 480.
29 Fiz a lista que pode ganhar acrscimos com uma pesquisa mais detalhada consultando as seguintes

obras: Histria da inteligncia brasileira, de Wilson Martins (So Paulo, Cultrix/Edusp, 1977, vol. 3); O negro
na literatura brasileira, de Raymond Sayers (Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1956); A personagem negra no teatro

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 109

- Atriz escrava, de Toms Antnio Espica (1867).


- O soldado brasileiro, de Cndido Barata Ribeiro e Ubaldino do Amaral (1869).
- Mulheres, de Apolinrio Porto-Alegre (1869).
- dio de raa, de Francisco Gomes de Amorim (1869).
- O escravo, de Jos Tito Nabuco de Arajo (1870).
- Os pupilos do escravo, de J. P. da Costa Lima (1870).
- O escravo, de Francisco Antnio de Oliveira Sobrinho (1870).
- O escravo educado, de Brcio Cardoso (1870).
- Benedito, de Apolinrio Porto-Alegre (1873).
- Os filhos da desgraa, de Apolinrio Porto-Alegre (1874).
- Mateus, de Jos de S Brito (1875).
- O escravo, de Jos Tito Nabuco de Arajo (1875).
- Os escravocratas ou a Lei de 28 de Setembro, de Fernando Pinto de Almeida Jnior (1877
ou 1885?).
- O negro, de Olmpio Cato (1879).
- O rfo e o escravo, de autoria desconhecida (1880).
- Escrava e me, de Jos Alves Coelho da Silva (1880 ou 1885?).
- O pai da escrava, de Manuel Joaquim Valado (1881).
- Fantina, de Francisco Coelho Duarte Badar (1881).
- O segredo do lar, de Cndido Barata Ribeiro (1881).
- O Liberato, de Artur Azevedo (1881).
- O escravocrata, de Artur Azevedo e Urbano Duarte (1882).
- O filho de uma escrava, de Aparcio Mariense da Silva (1882).
- A escrava branca, de Jlio Csar Leal (1883).
- A filha da escrava, de Artur Rodrigues da Rocha (1883).
- O escravo, de Jos Bernardino dos Santos (1883).
- Cora, a filha de Agar, de Jos Cavalcanti Ribeiro da Silva (1884).
- O mulato, de Alusio Azevedo (adaptao do romance homnimo, 1884).

brasileiro, de Miriam Garcia Mendes (So Paulo, tica, 1982); O teatro no Brasil sob dom Pedro ii (1. Parte. Porto
Alegre, urgs/iel, 1979). Alm das peas comentadas no texto e arroladas na lista, podemos citar ainda Os
mrtires da escravido, de Vicente Eufrsio da Costa (1860); O mulato, de Pires de Almeida (proibida pelo
Conservatrio Dramtico em 1863); e Fernando, de Pires de Almeida (1864). No consultei o manuscrito
de A escrava (1863), de Arajo Porto-Alegre, que se encontra na Academia Brasileira de Letras, segundo
Galante de Sousa. Ser um drama antiescravista?

110 faria, Joo Roberto. Teatro romntico e escravido

- O filho da escrava, de Tutila Unzer (1886).


- Corja opulenta, de Joaquim Nunes (1887).
- A me dos escravos, de autoria desconhecida (1887).
- Clotilde, de Manuel Teotnio Freire (1887).

Joo Roberto Faria professor de Literatura Brasileira na Universidade de So Paulo. pesquisador


do cnpq e coordenador da coleo Dramaturgos do Brasil, da editora Martins Fontes, para a qual
preparou os volumes Teatro de lvares de Azevedo (2002), Teatro de Alusio Azevedo e Emlio Roude
(2002), Teatro de Machado de Assis (2003), Jos de Alencar: Dramas (2005) e Antologia do Teatro
Realista (2006). autor dos seguintes livros: Jos de Alencar e o teatro (So Paulo, Perspectiva/Edusp,
1987); O teatro realista no Brasil: 1855-65 (So Paulo, Perspectiva/Edusp, 1993); O teatro na estante (So
Paulo, Ateli Editorial, 1998) e Ideias teatrais: o sculo xix no Brasil (So Paulo: Perspectiva/Fapesp,
2001). Como organizador, publicou: Dcio de Almeida Prado: um homem de teatro (So Paulo, Edusp/
Fapesp, 1997, em colaborao com Flvio Aguiar e Vilma Aras); Dicionrio do teatro brasileiro:
temas, formas e conceitos (So Paulo: Perspectiva/sesc, 2006, em colaborao com J. Guinsburg e
Maringela Alves de Lima); Do teatro: textos crticos e escritos diversos, de Machado de Assis (So
Paulo, Perspectiva, 2008); O espelho, de Machado de Assis (Campinas, Editora da Unicamp, 2009).

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 94-111, 2013 111

A crtica no romantismo brasileiro:


prticas e matizes
Roberto Aczelo de Souza

Resumo: No perodo que se estende de 1830 a 1860, a crtica literria assume no Brasil
sua feio romntica e moderna, desenvolvendo-se em trs instncias institucionais: a
imprensa, o livro e o ensino. Infensa teorizao, constituiu-se sobretudo numa prtica
casustica, voltada para o julgamento de obras e autores, segundo critrios consagrados
pelo romantismo: fidelidade ao nacional e autenticidade emocional. Palavras-chave:
imprensa, livro, ensino.
Abstract: In the period which goes from 1830 to 1860, the literary criticism in Brazil reaches its
romantic and modern features, developing itself in three institutional instances: the press, the
book and the school. Resisting to theory, it became a casuistical practice, according to criteria
consecrated by Romanticism: fidelity to the national and emotional authenticity. Keywords:
press, book, education.

1
Como termo tcnico das humanidades, a palavra crtica vem de muito longe.
Inicialmente, designa um saber circunscrito ao campo das letras, equivalendo grosso modo a gramtica e filologia. Assim, at o sculo xviii a crtica consiste numa
analtica de textos contida nos limites de uma prtica pedaggica, cujo percurso se
inicia pela apurao da fidedignidade da cpia em questo, passa por consideraes
gramaticais stricto sensu e chega finalmente ao julgamento dos mritos da obra em
causa, considerada no tanto pelas qualidades estticas, mas por sua eficcia na
proposio de padres de honra e virtude.
A partir do sculo xvi, contudo, prepara-se o seu radical redimensionamento. Aplicada Bblia pelos reformadores, comea a se desvencilhar de suas determinaes
antigas: em vez de comentrio baseado na autoridade de modelos gramaticais, retricos e poticos consagrados pela tradio, vai-se tornando anlise racional sem
compromissos com ideias preconcebidas, por isso apta a suscitar questionamentos,
transformando-se desse modo em instrumento de emancipao da subjetividade.
Alada ento de mero exerccio escolar condio de fundamento da modernidade
poltica, epistemolgica e esttica, processo longo e complexo que tem talvez nas trs
Crticas kantianas (1781, 1788 e 1790) sua sntese e grandiosa consumao, apresenta-se j em fins do sculo xviii como uma espcie de atitude programtica de vastas
aplicaes. Confunde-se enfim com o prprio ideal das Luzes, atuando num mbito
que compreende no s a razo terica das especulaes filosficas e cientficas, mas
tambm a prtica de tcnicas e ofcios, o senso comum da vida cotidiana, a avaliao
das belas-artes e das belas-letras.
Na rea das letras, sua reconcepo moderna se desdobra ao longo do sculo xix em
dois momentos. No primeiro, a crtica se desregulamenta; desligando-se da gramtica, da retrica e da potica, disciplinas antigas que lhe forneciam critrios para seus
juzos, assimila vagamente pressupostos estticos, resumidos nas noes sumrias de
gosto e beleza. No segundo momento, perceptvel a partir da dcada de 1860, se
inicia uma nova regulamentao, buscada por meio de aproximaes com a histria,
com a sociologia, com a psicologia, assistindo-se por fim, como culminncia desse
processo, a uma controvrsia entre cientificistas e impressionistas, estes adeptos da
desregulamentao como princpio e quase teoria, aqueles partidrios da consolidao da crtica como disciplina especializada.
Aqui nos interessam naturalmente apenas as realizaes da crtica no campo das
letras, e num espao e tempo especficos, o do Brasil da poca romntica.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 113

2
No perodo que vai da dcada de 1830 de 1860, a crtica literria assumiu entre ns
a feio moderna antes caracterizada:
A crtica como um ramo independente da literatura, o estudo das obras com um critrio mais largo que as regras da retrica clssica, e j acompanhado de indagaes psicolgicas e referncias mesolgicas, histricas e outras, buscando compreender-lhes e
explicar-lhes a formao e a essncia, essa crtica [] nasceu com o romantismo.1

Revestiu-se no perodo dos mais variados aspectos.


Macedo Soares chega a admitir uma crtica que no discute nem escreve,2 correspondente, se que bem o entendemos, ao que j se caracterizou como crtica privada, exercida no mbito dos sales e das conversas mundanas.3 Menos
areas do que tais manifestaes, porm com elas guardando certas afinidades,
poderamos referir as celebraes de escritores em cerimnias pblicas, mediante alocues fnebres ou comemorativas, bem como os textos de apresentao
protocolar de autores jovens ou estreantes, prtica comum na sociabilidade dos
tempos romnticos.4
Logo acima desse nvel que devemos desconsiderar, por inapreensvel ou irrelevante,
tendo em vista seu carter oral ou meramente cerimonioso, registra-se outro grau
primrio da crtica, constitudo pelo noticirio jornalstico sobre livros e autores.
Trata-se de prtica que se difunde a partir da Frana, iniciando-se j em fins do
sculo xvii, nas pginas do Journal des Savants e do Mercure Galant.5 No sculo xix,
1 VERSSIMO, Jos. Captulo xvii: Publicistas, oradores, crticos. In: Histria da literatura brasileira. Rio de

Janeiro: Jos Olympio, 1969 [1916], p. 271.


2 SOARES, Antnio Joaquim de Macedo. Da crtica brasileira. Revista Popular, Rio de Janeiro, out.-dez. 1860,

p. 273.
3 Cf. GLIKSOHN, J.-M. Julgar. In: BRUNEL, P. et al. A crtica literria. So Paulo: Martins Fontes, 1988 [1977], p. 63.
4 No difcil colher exemplos do primeiro caso, embora de imediato tenhamos mo apenas duas peas

de datas posteriores ao perodo que nos ocupa, ambas da lavra de Joaquim Norberto: Discurso por
ocasio da morte de Joaquim Manuel de Macedo (1882) e Alocuo do presidente lida na Sesso Solene
Comemorativa do Centenrio de Cludio Manuel da Costa (1890); para o segundo caso, sirva de exemplo
a Apresentao (1861) composta pelo mesmo Norberto para o volume de poemas As saudades, de um
certo M. Gaspar de Almeida Azambuja.
5 Cf. BRUNEL, P. et al. A crtica literria. So Paulo: Martins Fontes, 1988 [1977], p. 29.

114 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

apresenta-se como crtica literria, sendo, contudo, modalidade sujeita a restries,


dado o seu carter sumrio e superficial. Macedo Soares assim a caracteriza:
H no Rio de Janeiro uma coisa a que chamam de crtica. ordinariamente uma funo
do jornalismo, e portanto sem estudo porque feita da noite para o dia, e sem misso
porque o jornalismo essencialmente comercial e poltico. []
A crtica noticiosa [] desassisada e banal []. ela quem noticia na gazetilha, escreve duas linhas de comunicados, folhetins, impresses de leitura, bibliografias, etc., etc.6

A crtica veiculada em jornais e revistas, no entanto, nem sempre se ressente de tamanha superficialidade. Muitas vezes configurou-se no como notcia ligeira, simples
artigo ou meno de passagem em folhetins, mas sob a forma de ensaio mais longo
e denso. Nestes casos, por seu turno, comporta variaes.
O tipo mais comum constitudo pelo comentrio analtico de atualidades literrias. Tais comentrios tm por objetivo esclarecer o pblico sobre o valor de obras
recm-lanadas, mediante o destaque de defeitos7 e belezas,8 como fundamento
para juzos pretensamente assinalados pela mais completa imparcialidade.9 A ttulo
de exemplos dessa modalidade de produo, citemos um estudo de cada uma das
dcadas do perodo em apreo: Ensaio crtico sobre a coleo de poesias do sr. D.
J. G. de Magalhes (1833), de Justiniano Jos da Rocha; A moreninha, por Joaquim
Manuel de Macedo (1844), de Dutra e Melo; Jos Alexandre de Teixeira e Melo:
Sombras e sonhos (1859), de Macedo Soares; J. M. de Macedo: O culto do dever10
(1866), de Machado de Assis.
Outra modalidade cultivada com bastante frequncia a dos ensaios voltados para a
tipificao e a defesa do carter nacional da literatura brasileira. Aqui se trata de um
matiz da crtica muito prximo histria da literatura, na verdade seu caudatrio. Em
geral, ostentam eles o tom proselitista dos manifestos, podendo ser peas autnomas
ou prembulos tericos da parte propriamente narrativa de histrias literrias planejadas e que no chegaram a ser escritas. No primeiro caso, figuram trabalhos como

6 SOARES, Antnio Joaquim de Macedo. Da crtica brasileira. Revista Popular. Op. cit., p. 272.
7 Idem, p. 273.
8 Idem.
9 GUIMARES, Bernardo. Revista literria. A Atualidade, Rio de Janeiro, ano i, n. 54, 1 out. 1859, p. 2.
10 Ttulo atribudo pelo editor da fonte utilizada.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 115

os de Santiago Nunes Ribeiro (os dois ensaios conexos sucessivamente publicados


sob o ttulo Da nacionalidade da literatura brasileira, 1843), Manuel Antnio Duarte
de Azevedo (srie de ensaios sob o ttulo geral Literatura ptria, 1852-3), Homem
de Melo (As letras no Brasil, 1860); no segundo, o Discurso sobre a histria da
literatura do Brasil (1836), de Gonalves de Magalhes, e os captulos publicados por
Joaquim Norberto na Revista Popular, destinados a servir de Introduo Histria
da literatura brasileira, cujo projeto, arrojado para a poca, o autor inexplicavelmente
acabaria por abandonar: Introduo histrica sobre a literatura brasileira (1859),
Tendncia dos selvagens brasileiros para a poesia (1859), Catequese e instruo
dos selvagens brasileiros pelos jesutas (1859), Nacionalidade da literatura brasileira (1860), Originalidade da literatura brasileira (1861), Inspirao que oferece
a natureza do Novo Mundo a seus poetas, e particularmente o Brasil (1862).
Um terceiro tipo compreende snteses histricas da literatura nacional, constitudo
pois tambm na confluncia entre crtica e histria literria, a exemplo do conjunto
anteriormente mencionado. Exemplificam-no dois ensaios de Gonalves de Magalhes
com o ttulo comum Literatura brasileira, ambos de 1837, um de Joaquim Norberto
Estudos sobre a literatura brasileira durante o sculo xvii (1843) , dois de Fernandes
Pinheiro Rpido estudo sobre a poesia brasileira (1859) e Formao da literatura
brasileira (1862) e um de Ramiz Galvo Literatura , datado de 1863.
Cabe reconhecer ainda uma quarta categoria no campo dessa produo crtica
capaz de combinar extrao jornalstica com carter substancioso. Integram-na
os estudos de metacrtica, isto , reflexes sobre as bases metodolgicas e conceituais da operao crtica. Trata-se, alis, da categoria menos comum dentre as
que estamos distinguindo, o que se explica pelo casusmo constitutivo da crtica,
atividade ex officio voltada para o concreto e especfico, e pois infensa a abstraes e generalizaes tericas. Como exemplos dessa modalidade, com efeito,
temos um nmero bem restrito de ensaios. Que sejam do nosso conhecimento,
nela figuram Revista literria (1859), de Bernardo Guimares; Da crtica brasileira (1860), de Macedo Soares; O ideal do crtico (1865), de Machado de Assis.
Deve-se dizer, no entanto, que bastante decepcionante o conceito de crtica que
resulta desses esforos. Consistem assim num confronto maniquesta entre polos
simetricamente opostos de crtica, cada qual caracterizado por atributos designados por uma adjetivao montona. Haveria, pois, uma crtica estril e outra fecunda,11 cabendo naturalmente a esta, por sua autoridade moral de prtica franca,
11 ASSIS, Machado de. O ideal do crtico. Dirio do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 8 out. 1865, p. 1.

116 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

imparcial [], sincera, [], judiciosa, [] severa,12 estudiosa,13 til [], verdadeira,14 sria,15 combater a contrafao representada por aquela, tendo por misso
formar e dirigir o gosto literrio,16 subsidiando desse modo tanto a criao dos
escritores quanto a opinio do pblico. No mais, essa teorizao reduz a reflexo
sobre mtodos e fundamentos frmula genrica segundo a qual crtica anlise
[], no basta[ndo] uma leitura superficial, nem a simples reproduo de impresses [],17 quando no simplesmente substitui essa reflexo pelo arrolamento das
virtudes que se espera da pessoa do crtico: cincia, conscincia, coerncia, independncia, imparcialidade, tolerncia, urbanidade, perseverana.18 Acrescente-se
finalmente seu vezo de referir esses supostos elementos universais da crtica circunstncia brasileira, pondo em relevo o papel decisivo das intervenes crticas no
projeto de constituio de uma literatura nacional grande e autnoma, e teremos
assim resumido a acanhada concepo de crtica literria construda nesse quarto
conjunto de ensaios da classificao ora proposta.
Por fim, assinale-se que essa crtica veiculada pela imprensa, inscrita numa atividade jornalstica fortemente partidarizada, como foi em geral a do sculo xix, especialmente em pases como o nosso, em fase de definio e consolidao de suas
instituies nacionais, mostrou-se frequentemente porosa ao tom veemente e apaixonado tpico do jornalismo de ento. Da a proliferao de polmicas suscitadas ou
alimentadas pelos ensaios crticos, bem como a adoo de linguagem no raro virulenta, prdiga em ironia, sarcasmo e at ofensas. Como exemplos dessas batalhas
verbais prtica, alis, fadada a superdesenvolvimento a partir da dcada de 1870,
chegando, conforme sabemos, a alcanar o sculo xx , podemos citar a que mais
se celebrizou no perodo, deflagrada por Alencar em 185619 a propsito da epopeia
A confederao dos Tamoios, e ainda a que se tornou conhecida como a polmica
da Minerva Brasiliense, a propsito do problema do carter nacional da literatura
brasileira, iniciada por Santiago Nunes Ribeiro mediante ensaios estampados na12 GUIMARES, Bernardo. Revista literria. Op. cit., p. 2.
13 SOARES, Antnio Joaquim de Macedo. Da crtica brasileira. Op. cit., p. 272.
14 ASSIS, Machado de. O ideal do crtico. Op. cit., p. 1.
15 SOARES, Antnio Joaquim de Macedo. Da crtica brasileira. Op. cit., p. 276.
16 GUIMARES, Bernardo. Revista literria. Op. cit., p. 2.
17 ASSIS, Machado de. O ideal do crtico. Op. cit., p. 1.
18 Idem, ibidem.
19 Com a srie intitulada Cartas sobre a Confederao dos tamoios, publicada no Dirio do Rio de Janeiro, de

10 de junho a 15 de agosto de 1856.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 117

quele peridico em 1843,20 e que repercutia ainda em 1860, num texto de Joaquim
Norberto publicado na Revista Popular.21 Quanto a intervenes crticas marcadas
por nimo violento e destrutivo, citem-se as de Gonalves Dias em 1848, no Correio
da Tarde, com ataques a Teixeira e Sousa; a de Manuel Antnio de Almeida, no
Correio Mercantil, entre 1854 e 1856, desancando, entre outros, o ento famoso poeta
repentista Francisco Moniz Barreto; a de Bernardo Guimares, nA Atualidade, em
1859-60, no poupando nem figuras j consagradas, como Gonalves Dias e Joaquim Manuel de Macedo.22

3
Dessa crtica aclimatada ao meio passional e agitado dos jornais e revistas de ento
notcias de lanamentos, apreciaes analticas de novidades literrias, manifestos
pela nacionalidade da literatura brasileira, snteses historiogrficas da literatura nacional, exerccios de metacrtica passemos para aquelas espcies que encontram
na serenidade do livro o seu ambiente de eleio.
Aqui deparamos de novo com ensaios fortemente afins com a histria literria, dedicados a discutir a questo do carter nacional da literatura brasileira ou a estabelecer
snteses de seu desenvolvimento histrico, frequentemente operando uma composio
entre essas duas dimenses. Trata-se em geral mas no exclusivamente de introdues a antologias, estando nesse caso contribuies de Abreu e Lima (1835 e 1843),23

20 RIBEIRO, Santiago Nunes. Da nacionalidade da literatura brasileira [1]. Minerva Brasiliense, Rio de Janeiro, 1

(1): 7-23, 1 nov. 1843; Da nacionalidade da literatura brasileira [2]. Minerva Brasiliense, Rio de Janeiro, 1 (2): 1115, 15 dez. 1843.
21 Nacionalidade da literatura brasileira. Cf. SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Histria da literatura brasileira
e outros ensaios. Org., apres. e notas por Roberto Aczelo de Souza. Rio de Janeiro: Z Mrio Ed./Fundao
Biblioteca Nacional, 2002.
22 Cf. MACHADO, Ubiratan. Nascimento da crtica. In: A vida literria no Brasil durante o romantismo. Rio de
Janeiro: Eduerj, 2001, p. 230-2.
23 LIMA, Jos Incio de Abreu e. O Brasil e as repblicas americanas. In: Bosquejo histrico, poltico e literrio do
Brasil. Niteri [RJ]: Tipografia Niteri do Rego, 1835. p. 58-76; Prefcio. In: Compndio de histria do Brasil. Rio
de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1843, v. 1, p. v-xii.

118 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

Joaquim Norberto (1841),24 Pereira da Silva (1843 e 1858),25 Joaquim Norberto e Emlio
Adet (1844),26 Varnhagen (1850)27 e Antnio Deodoro de Pascoal (1862).28
Uma segunda modalidade constituda por estudos sobre autores especficos, em
geral da poca colonial, mas tambm do prprio sculo xix. Trata-se aqui de trabalhos eruditos, muitas vezes figurando como introduo a edies anotadas, destacando-se nesta categoria contribuies de Varnhagen29 e de Joaquim Norberto.30
Podem restringir-se ao traado de perfis biogrficos, mas usualmente combinam
biografia com juzos sobre as composies, refletindo assim o pressuposto romntico da ligao direta entre vida e obra. As biografias dos escritores tendem ao encomistico, representando-os como heris da cultura ou reservas morais da nacionalidade; os pronunciamentos sobre mritos estticos, por seu turno, apresentam-se
em formulaes genricas, diretas e categricas, exaltando belezas e condenando
defeitos, s vezes com lastro em observaes microtextuais atentas a questes de
mtrica e estilo, sempre fundamentados nos critrios de fidelidade cor local e
autenticidade emocional, tomados como to seguros a ponto de permitirem a interpretao dos textos como documentos autobiogrficos.
Finalmente, entre essas manifestaes da crtica veiculada por livros, temos a categoria composta pelas profisses de f, artes poticas ou exerccios de autoanlise
de poetas, ficcionistas e dramaturgos. Foram seus cultores, no que tange poe-

24 SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Bosquejo da histria da poesia brasileira. In: Histria da literatura

brasileira e outros ensaios. Op. cit.


25 As introdues dos livros de Joo Manuel Pereira da Silva Parnaso brasileiro (Rio de Janeiro, Eduardo

26
27
28
29

30

Henrique Laemmert, 1843, v. 1, p. 7-45) e Os vares ilustres do Brasil durante os tempos coloniais (Paris, Livraria
de A. Franck & Livraria de Guillaumin et Cia, 1858, p. 13-43).
A introduo antologia Mosaico potico.
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. Introduo: ensaio histrico sobre as letras no Brasil. In: Florilgio da
poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987 [1850], p. 39-73.
PASCOAL, Antnio Deodoro de. Estudos sobre a nacionalidade da literatura brasileira. In: BOCAYUVA, Q.
Lrica nacional. Rio de Janeiro: Tipografia do Dirio do Rio de Janeiro, 1862, p. 111-24.
Estudos biogrficos sobre Gabriel Soares de Sousa (1839), Santa Rita Duro (1845), Baslio da Gama (1845),
alm de diversos outros publicados na Revista do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (Frei Vicente
do Salvador, Bento Teixeira, Botelho de Oliveira, Eusbio de Matos, Frei Manuel de Santa Maria Itaparica,
Caldas Barbosa, Antnio Jos da Silva, Gonzaga).
No perodo que nos interessa, estudos sobre Bento Teixeira (1850), Frei Manuel Joaquim da Me dos Homens
(1851), Jos Bonifcio (1861), Gonzaga (1862), Silva Alvarenga (1862), Alvarenga Peixoto (1865), Gonalves Dias
(1870), alm daqueles dedicados a escritoras, reunidos no volume Brasileiras clebres, de 1862.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 119

sia, Gonalves de Magalhes (1836),31 Gonalves Dias (1846),32 lvares de Azevedo (c. 1848-50),33 Junqueira Freire (1855),34 Fagundes Varela (1861),35 Castro Alves
(1870),36 e Jos de Alencar, por sua vez, no perodo que nos interessa manifestou-se
sobre seus projetos tanto de dramaturgia (1858-9)37 quanto de fico (1865).38 Em
geral, temos aqui exposies de teses romnticas a propsito da criao literria,
segundo a feio hegemnica que o romantismo assumiu entre ns: literatura como
culto da autoestima da nao, ao mesmo tempo reflexo da realidade do pas sua
natureza, sociedade e histria e instrumento da educao cvica do seu povo; desalinho formal programtico, como signo de originalidade e reflexo de espontaneidade emocional. Fogem a essa pauta, porm, talvez apenas a reflexo problematizante
e universalista de lvares de Azevedo, bem como o esforo incipiente de Junqueira
Freire no sentido de pensar o novo estatuto da palavra potica determinado pelas
inovaes nas tcnicas literrias introduzidas no sculo xix.39

4
Damos assim por concluda a apresentao das vrias feies assumidas pela crtica
praticada entre ns durante o perodo romntico. Entre outros aspectos, constatamos sua inapetncia para a teorizao, de que sintoma o nmero inexpressivo de
ensaios dedicados metacrtica, sem falar na falta de maior densidade conceitual
dessas contribuies.
31 MAGALHES, Domingos Jos Gonalves de. Lede [Prlogo, 1836]. In: Suspiros poticos e saudades. Braslia:

Universidade de Braslia/inl, 1986, p. 39-46.


32 DIAS, Antnio Gonalves. Prlogo da primeira edio dos Primeiros cantos [1846]. In: Poesia completa e
33
34
35
36
37
38
39

prosa escolhida. Rio de Janeiro: Jos Aguilar, 1959, p. 101.


Prefcios a O conde Lopo (1848) e s partes primeira e segunda da Lira dos vinte anos (c. 1850): AZEVEDO, lvares de. Poesias completas. Campinas [SP]: Editora da Unicamp; So Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002.
FREIRE, Lus Jos Junqueira. Prlogo s Inspiraes do claustro [1855]. In: Obras poticas. Rio de Janeiro:
Garnier, [1869], v. 1, p. 1-12.
VARELA, Fagundes. Prefcio a Vozes da Amrica [1861]. In: Poesias completas. So Paulo: Saraiva, 1962, p. 91-5.
ALVES, Castro. Prlogo s Espumas flutuantes [1870]. In: Poesias completas. So Paulo: Saraiva, 1960, p. 25-7.
Advertncia e prlogo segunda edio de As asas de um anjo (1859): ALENCAR, Jos de. Obra completa.
Rio de Janeiro: Jos Aguilar, 1960.
Prlogo a Iracema e Carta ao dr. Jaguaribe.
Cf. CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira: momentos decisivos. So Paulo: Martins, 1971
[1959], v. 2, p. 37 e 358.

120 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

Nesse quadro de pouco apreo pela especulao metodolgica e terica, um ponto


chama a ateno em especial: o absoluto desinteresse pela tematizao do objeto
por assim dizer abstrato da crtica, isto , a literatura. A concluso a tirar-se da s
pode ser uma: a crtica romntica simplesmente desconhece o carter problemtico
do conceito de literatura, operando antes com uma noo de seu objeto tida por
evidente, e que por isso dispensaria problematizao. Assim, por exemplo, na sua
Revista bibliogrfica (1854-6) Manuel Antnio de Almeida, no primeiro estudo
da srie, tratar do Ensaio corogrfico do Imprio do Brasil, de Melo Morais e Incio
Acioli, passando nas matrias subsequentes a ocupar-se com a poesia de Junqueira
Freire e com o romance de Pinheiro Guimares, sem considerar pertinentes diferenas que hoje nos parecem abissais, entre um tratado de geografia, por um lado,
e por outro um livro de poemas e uma narrativa de fico. O mesmo procedimento encontramos em Bernardo Guimares, que, na sua Revista literria (1859-60),
analisa tanto textos de um historiador Pereira da Silva quanto produes de
poetas Gonalves Dias e ficcionistas Joaquim Manuel de Macedo , sem se
preocupar com as diferenas entre os gneros textuais que aborda.
Contudo, o problema da demarcao mais elaborada do conceito de literatura comea pelo menos a despontar nos exerccios crticos do nosso romantismo. Curiosamente, isso se d no nos trabalhos de metacrtica lugar por definio para um
movimento abstratizante, que ensejasse trnsito do particular (a obra em anlise)
para o universal (a ideia de literatura) , mas num ensaio de Santiago Nunes Ribeiro dedicado a discutir a questo do carter nacional da literatura brasileira. Com
efeito, o ensasta sai por um momento da sua pauta a nacionalidade , para cuidar
de outra agenda, a da literariedade. Num primeiro passo da argumentao, o autor
denuncia o que lhe parece uma concepo enganosa, segundo a qual o essencial
numa literatura consist[iria] na cpia, variedade e originalidade de obras relativas
s cincias exatas, experimentais e positivas [, sendo] a poesia, a eloquncia, a histria apenas [] acessrios, apndices de pouca monta.40 Em seguida, formula o
conceito de literatura que lhe parece correto:
Sem dvida nenhuma a palavra literatura na sua mais lata acepo significa a totalidade
dos escritos literrios ou cientficos, e neste sentido que dizemos literatura teolgica, mdica, jurdica. Mas daqui se no segue que devamos admitir tal acepo quando
40 RIBEIRO, Santiago Nunes. Da nacionalidade da literatura brasileira [1]. Minerva Brasiliense, Rio de Janeiro, 1,

1 nov. 1843, p. 8.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 121

se trata da literatura propriamente dita. Ningum ainda procurou a literatura italiana,


inglesa ou francesa nas Memrias da Accademia del Cimento, nas Transaes Filosficas
ou no Journal des Savants ou de Physique. No de Lancisi, Galileu, Volta e Galvani
que se nos fala na histria literria, no de Boyle, Cavendish, Davy, etc., mas de Dante,
Petrarca, Ariosto, Maquiavel, Tasso, Shakespeare, Milton, Bossuet, Corneille.41

preciso reconhecer, no entanto, que essa distino proposta por Nunes Ribeiro,
entre literatura na sua acepo mais ampla e literatura propriamente dita para
ficar com os termos dele , esteve longe de se impor na poca, pois, como vimos nos
exemplos representados pela prtica de Manuel Antnio de Almeida e de Bernardo
Guimares, a crtica romntica na verdade a ignorou.
De nossa parte, o impulso inicial interpretar esse fato como lamentvel miopia,
posio a que nos induz a nossa formao novecentista. No entanto, para no cair
nesse anacronismo, que leva a absolutizar o conceito de literatura stricto sensu,
tomando-o como nico objeto legtimo dos estudos literrios, ser necessrio, em
vez disso, revitalizar a distino entre letras e literatura, para reconhecer que a
crtica romntica elegeu aquelas, e no esta, como seu objeto. Nisso, alis, a crtica
romntica andou em descompasso com o seu prprio tempo: comprometida embora
com a modernidade, o que em princpio deveria cingir seu interesse ao conceito
esttico de literatura, constituiu-se na base de uma concesso ao antemoderno,
representado pelo conceito retrico de letras.

5
Procuramos at aqui descrever e analisar manifestaes da crtica viabilizadas no
campo de duas instncias institucionais: a imprensa e o livro. Acrescentemos agora
uma terceira instituio onde o conceito de crtica literria, no perodo objeto de
nosso interesse (1830-70), obteve acolhimento e circulou. Referimo-nos ao ensino
escolar.
Com efeito, crtica literria constitua um ponto de programas escolares do tempo, conforme constatamos em documentao referente ao Colgio Pedro ii, que,
como se sabe, por todo o sculo xix e boa parte do xx conservou o status de estabelecimento-padro para a educao brasileira. O tpico encontra-se presente no
41 Idem.

122 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

primeiro programa de ensino do Colgio publicado, o de 1850, aparecendo tambm,


no que se refere ao perodo que nos ocupa, nos programas de 1851, 1858, 1860, 1862
e 1870.42
Se nos prprios documentos escolares o conceito se apresenta reduzido a mero item
numa listagem de pontos, podemos conhec-lo em detalhe pelas exposies a seu
respeito desenvolvidas nos livros didticos, que, seguindo os programas oficiais,
apresentavam sees inteiras a ele dedicadas. o caso de um compndio de 1870,
intitulado Sinopses de eloquncia e potica nacional, acompanhadas de algumas noes de crtica literria, de autoria de um professor do Pedro ii, Manuel da Costa
Honorato.
O livro, na parte dedicada crtica, comea por assim defini-la:
Crtica literria o resultado do estudo feito sobre os escritos alheios. , portanto, a
arte que ensina a distinguir o verdadeiro merecimento dos autores, mostra os princpios
do belo, previne contra o respeito cego, que confunde o belo com o defeituoso, e finalmente admira o engenho, o belo, e o gosto, e condena o defeituoso, sem contudo sujeitar-se ao sentimento popular, que muita vez no firmado na coerncia dos princpios,
nem no conhecimento das cincias e artes. Donde resulta que a boa crtica, feita por
aqueles que adquiriram autoridade pelo estudo das cincias e das artes, pela experincia,
e pela prtica de compor, por demais til, tanto aos autores, como aos apreciadores.43

Se temos presente a caracterizao da crtica empreendida nas limitadas teorizaes antes referidas, verificamos o quanto elas ecoam o contedo dessa definio,
embora, naturalmente, com recursos expositivos que de algum modo disfaram o
esquematismo didtico dessa matriz. De fato, os autores dos ensaios metacrticos
examinados Bernardo Guimares, Macedo Soares, Machado de Assis afinal se
revelam bons alunos que aprenderam nessa cartilha, os compndios de retrica,
cuja leitura enfim o prprio Machado, mais tarde, qualificar como regmen debi-

42 Cf. SOUZA, Roberto Aczelo de. Apndice i: Programas de ensino do Colgio Pedro ii / Ginsio Nacional

(1850-1900). In: O imprio da eloquncia; retrica e potica no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: Eduerj;
Niteri (RJ): Eduff, 1999, p. 157-229.
43 HONORATO, Manuel da Costa. Noes de crtica literria. In: Sinopses de eloquncia e potica nacional;
acompanhadas de algumas noes de crtica literria extradas de vrios autores adaptadas ao ensino da
mocidade brasileira. Rio de Janeiro: Tipografia Americana, 1870, p. 236.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 123

litante,44 e pois maravilhosamente bem ajustado ao ofcio de medalho, atividade


que, de resto, implica distncia prudente de qualquer tentao propriamente crtica.
Temos ento que nessa receita escolar de crtica na verdade prevalecem elementos
a rigor pr-crticos, medida que se aliena autoridade a competncia exclusiva
e plenipotenciria de julgar.

6
Dessa garimpagem na torrente de crtica que flui entre ns da dcada de 1830 de
1860 samos sem ter encontrado ouro ou diamante. Se tanto, topamos com uma e
outra pedrinha semipreciosa, cujo brilho banal pode at encantar percepes desaparelhadas, mas no satisfaz as exigncias dos olhares mais tcnicos. A imagem,
contudo, das mos vazias ao final do esforo deve ser evitada, e no s pelo mau
gosto do lugar-comum, mas tambm por inadequada. Afinal, nossa incurso, se
no acrescentou dados novos ao j sabido, produzindo no mais que uma tipologia;
se, muito menos, revelou altos valores, nos rendeu certamente melhor compreenso
do perodo em anlise, o que talvez seja mesmo o nico saldo a que podem aspirar
estudos da natureza do presente.
E assim, admitida essa melhor compreenso facultada pelos dados concretos franqueados pela pesquisa, possvel at arriscar hipteses explicativas para a constatada pobreza da crtica no perodo em questo.
Uma primeira hiptese que se poderia formular prende-se a uma circunstncia fortuita restrita ao espao brasileiro: as vocaes para a crtica surgidas na poca no
se desenvolveram, ou pela morte prematura de alguns crticos em boto, ou pelo
precoce abandono do gnero por parte de outros.
Assim, no primeiro caso encontram-se vrias trajetrias. Dutra e Melo, to elogiado como crtico por Slvio Romero45 e por Antonio Candido,46 morre com 22 anos,
tendo deixado, segundo consta, apenas dois ensaios, um dos quais, ao que parece,
perdido. Santiago Nunes Ribeiro no teve sorte melhor; como diz Antonio Candi-

44 ASSIS, Machado de. Teoria do medalho [1882]. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Jos Aguilar, 1973, v. 2,

p. 290.
45 ROMERO, Slvio. Antnio Francisco Dutra e Melo. In: Histria da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Jos
Olympio, 1954 [1888], v. 3, p. 946-7.
46 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira: momentos decisivos. Op. cit., v. 2, p. 357-8.

124 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

do, morreu [] na quadra dos vinte anos, quando apenas comeava a escrever e
ordenar as ideias,47 [] cedo demais para confirmar o que sugerem seus poucos
escritos, isto , que seria talvez o melhor crtico de sua gerao.48 Junqueira Freire,
do mesmo modo, teve igual destino: morrendo na faixa dos vinte anos, nem por
isso, como escritor, passou desta para melhor, uma vez que do crtico penetrante49
sobrou apenas [] um excelente crtico em potncia [].50 Por fim, mencionemos lvares de Azevedo, outra promessa de crtico que, pela brevidade da vida,
no chegou a cumprir-se, pelo menos com a plenitude que era de esperar, vista da
qualidade de seus trabalhos juvenis.
Quanto aos casos de abandono da atividade crtica, no so menos numerosos. Entre
eles conta-se o de Gonalves Dias, que teve passagem fugaz pelo gnero, publicando
uns poucos ensaios no Correio da Tarde e no Correio Mercantil, em 1848 e 1849, no
obstante Antonio Candido consider-lo o poeta romntico de senso crtico mais
desenvolvido.51 Crtico bissexto foi tambm Manuel Antnio de Almeida, que assinou
o que chamaramos hoje uma coluna no Correio Mercantil, de dezembro de 1854 a
outubro de 1856, tendo publicado sete ensaios sob o ttulo geral Revista bibliogrfica, primeira tentativa de crtica militante no Brasil, segundo Ubiratan Machado.52
Bernardo Guimares seguiu-lhe o exemplo, e tambm no se fixou na crtica, praticando-a de outubro de 1859 a maro do ano seguinte, na seo Revista literria
do peridico A Atualidade, com um ensaio metacrtico seguido de estudos sobre
Gonalves Dias, Junqueira Freire e Joaquim Manuel de Macedo. Antonio Joaquim
de Macedo Soares, por seu turno, conquanto tenha tido suas qualidades como crtico
ressaltadas por Antonio Candido53 e Afrnio Coutinho,54 dedicou-se ao gnero apenas
na juventude, em torno de 1860, no clima ainda romntico da Faculdade de Direito
de So Paulo, mas acabou, na maturidade, preterindo o exerccio da crtica em favor
principalmente de estudos filolgicos e jurdicos, tendo inclusive desistido da ideia de
47 Idem, p. 337.
48 Idem, p. 334.
49 Idem, p. 358.
50 Idem, p. 358.
51 Idem, p. 178.
52 MACHADO, Ubiratan. Nascimento da crtica. In: A vida literria no Brasil durante o romantismo. Op. cit.,

p. 230.
53 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira: momentos decisivos. Op. cit., v. 2, p. 357.
54 COUTINHO, Afrnio. Macedo Soares. In: Caminhos do pensamento crtico. Rio de Janeiro: Pallas; Braslia: inl,
1980, v. 1, p. 274.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 125

publicar o volume Ensaios de anlise literria, em que reuniria sua produo na rea.55
Entre esses episdios de desero da crtica, no entanto, certamente o mais conhecido, por motivos evidentes, aquele protagonizado por Machado de Assis. O grande
ficcionista, como sempre assinalam seus estudiosos, tendo firmado reputao no setor da crtica a ponto de, em 1868, Jos de Alencar consider-lo o primeiro crtico
brasileiro56 , nele atuando de 1856 at 1879, acabaria por abandon-lo por motivos
alis de determinao problemtica , ou ento, e mais exatamente, em gesto decisivo
para a construo da sua glria cremos que percebido como tal pela primeira vez
por Alceu Amoroso Lima em artigo de 1939 , teria [] fund[ido] o crtico no romancista [], d[ando]-nos, num s planalto, a soma das duas vertentes.57

7
Mas esse modelo vida [] que podia ter sido e que no foi certamente no a
maneira mais consistente de justificar a debilidade da crtica praticada entre ns no
perodo em questo. Se admitirmos que essa alegada debilidade decorre no tanto
da insuficincia conceitual dos ensaios sobre obras e autores especficos, mas da ausncia quase completa de uma metacrtica que se sustente, e que por sua vez sustente as anlises pontuais da crtica, preciso reconhecer que tal estado de coisas no
constituiu particularidade do Brasil, sendo antes um trao geral da cultura literria
55 Este, alis, se se tivesse consumado sua publicao, teria sido o nico volume de crtica da poca, pelo

menos at onde pudemos constatar, o que diz bem do subdesenvolvimento quantitativo do gnero
entre ns no perodo, sobretudo se comparado com a poesia e o romance. Com efeito, salvo melhor
pesquisa, a rarefeita produo da crtica romntica permaneceu dispersa nos peridicos do tempo.
Constituem exceo, segundo o que nos foi possvel verificar, volumes de publicao pstuma reunindo
contribuies de Machado de Assis (Crtica, 1910) e de Joaquim Norberto (Crtica reunida; 1850-1892. Org.,
introd. e notas por Jos Amrico Miranda, Maria Eunice Moreira e Roberto Aczelo de Souza. Porto Alegre:
Nova Prova, 2005), e ainda os ensaios recuperados por antologias do sculo xx. (Cf. Textos que interessam
histria do romantismo, Jos Aderaldo Castello. So Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960-1964, 4 v.;
Caminhos do pensamento crtico, Afrnio Coutinho. Rio de Janeiro: Pallas; Braslia: inl, 1980, 2 v.; O bero
do cnone: textos fundadores da histria da literatura brasileira. Regina Zilberman e Maria Eunice Moreira
(Orgs.). Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.
56 ALENCAR, Jos de. Carta a Machado de Assis. In: COUTINHO, Afrnio (Org.). Caminhos do pensamento
crtico. Op. cit., v. 1, p. 127.
57 ATADE, Tristo de. Machado de Assis, o crtico. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. por Afrnio
Coutinho. Rio de Janeiro: Jos Aguilar, 1973, v. 3, p. 782.

126 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

do perodo, verificvel, por conseguinte, tambm nos grandes centros metropolitanos. Sainte-Beuve, por exemplo, indiscutvel gro-mestre do gnero, seu praticante pelo menos desde 1828, somente em 1862 se dignaria dar satisfaes sobre seu
mtodo, e o fez sob a forma de longa digresso num ensaio dedicado a Chateaubriand.58 Na Inglaterra parece que a cronologia no diferente, pois, salvo melhor
pesquisa, o primeiro grande estudo de metacrtica The function of criticism at the
present time, de Matthew Arnold59 aparece apenas em 1864. Assim, no devemos
debitar conjuntura brasileira seu proverbial atraso, associado dilapidao de
talentos, quer por mortes precoces, quer por extravios de vria ordem a rarefao
de esforos no sentido de fundamentar a crtica na poca em causa, esforos que,
entre ns, como na Europa, seriam na verdade encetados somente mais tarde, em
fins do sculo xix e incio do subsequente. S nessa altura, at onde pudemos constatar, que se desenvolveu um movimento no sentido de superar a prtica da crtica
concebida como uma espcie de casustica, que como tal prescindiria de quadros
gerais de referncia, ou, mais exatamente, manteria implcitos e no problematizadas as suas bases conceituais. Reivindica-se ento sua transformao em disciplina,
tendncia documentada, por exemplo, no livro La critique scientifique, de mile
Hennequin, de 1888,60 e entre ns em trabalhos da mesma poca representativos de
um momento j ps-romntico, como o caso de A literatura brasileira e a crtica
moderna (1880) e Da crtica e sua exata definio (1909), de Slvio Romero, bem
como de A crtica literria (1900), de Jos Verssimo.

8
Nosso percurso nos conduziu assim a uma clara apreenso da reorientao de rumos experimentada pela crtica no ltimo quartel do sculo xix, o que acabou nos
sugerindo um olhar retrospectivo sobre os passos da argumentao, que implica de
resto retificao parcial de certas concluses e juzos. Vejamos:

58 SAINTE-BEUVE, Charles-Agustin. Chateaubriand jug par um ami intime en 1803. In: Nouveaux lundis. Paris:

Calman Lvy, 1892. p. 11-33.


59 ARNOLD, Matthew. The function of criticism at the present time. In: ADAMS, Hazard (ed.). Critical theory

since Plato. San Diego: Harcourt Brace Jovanovich, 1971, p. 583-95.


60 HENNEQUIN, mile. La critique scientifique. Paris: Librairie Acadmique Didier/Perrin et Cie. Librairie

diteurs, 1894 [1888].

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 127

Provavelmente ter sido severidade descomedida tachar de pobre e insignificante


o conjunto da nossa crtica romntica. Pensando melhor, preciso fazer distines.
De fato, se no que chamamos metacrtica a pobreza nos parece verdadeiramente
irremedivel, o mesmo no se d no subconjunto constitudo por estudos pontuais
dedicados a autores e obras ou consagrados ideia geral de literatura brasileira.
A existem, no obstante a pequena extenso desse segmento da nossa literatura
romntica, se comparado com a prosa de fico e a poesia, contribuies sem dvida assinaladas por mritos notrios, entre as quais possvel destacar algumas: o
estudo de Justiniano Jos da Rocha sobre o livro de estreia de Magalhes,61 correto
no geral dos seus juzos, no obstante o que concede s limitaes do seu momento,
dos floreios de linguagem adeso irrestrita ao projeto nacionalista; os minuciosos
ensaios de Joaquim Norberto62 integrantes das edies de poetas que organizou;
certo captulo de Abreu e Lima,63 denunciando as limitaes do ufanismo nacionalista; os ensaios de Santiago Nunes Ribeiro,64 que, muito antes da tese famosa
de Machado de Assis nada menos do que trinta anos , chamam a ateno para
certo sentido oculto a assinalar a nacionalidade das literaturas, muito mais do que
evidncias exteriores; o artigo de Dutra e Melo sobre A moreninha,65 certeiro na
identificao de um projeto para o desenvolvimento do romance na literatura brasileira; o longo ensaio por assim dizer pseudo-historiogrfico de lvares de Azevedo
relativo literatura portuguesa,66 em que, no mar encapelado de um eruditismo
ostentatrio, sobrenada o ataque irnico estreiteza do nacionalismo como critrio
61 ROCHA, Justiniano Jos da. Ensaio crtico sobre a coleo de poesias do sr. D. J. G. de Magalhes. Revista da

Sociedade Filomtica, S[o] Paulo, 2: 47-57, jul. 1833. Edio fac-similar, 1977.
62 Gonzaga (1862), Silva Alvarenga (1862), Alvarenga Peixoto (1865), Gonalves Dias (1870). (SILVA, Joaquim

Norberto de Sousa. Histria da literatura brasileira; e outros ensaios. Org., apres. e notas por Roberto Aczelo
de Souza. Rio de Janeiro: Z Mrio Ed./Fundao Biblioteca Nacional, 2002; Crtica reunida; 1850-1892. Org.,
introd. e notas por Jos Amrico Miranda, Maria Eunice Moreira e Roberto Aczelo de Souza. Porto Alegre:
Nova Prova, 2005).
63 O Brasil e as repblicas americanas, do livro Bosquejo histrico, poltico e literrio do Brasil (Niteri, RJ:
Tipografia Niteri do Rego, 1835).
64 RIBEIRO, Santiago Nunes. Da nacionalidade da literatura brasileira [1]. Minerva Brasiliense, Rio de Janeiro, 1
(1): 7-23, 1 nov. 1843; Da nacionalidade da literatura brasileira [2]. Minerva Brasiliense, Rio de Janeiro, 1 (2):
111-115, 15 dez. 1843.
65 MELO, Antnio Francisco Dutra e. A moreninha, por Joaquim Manuel de Macedo. Minerva Brasiliense, Rio
de Janeiro, 2 (24): 746-751, 15 out. 1844.
66 AZEVEDO, lvares de. Literatura e civilizao em Portugal (c. 1850). In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 2000, p. 706-44.

128 souza, Roberto Aczelo de. A crtica no romantismo brasileiro: prticas e matizes

para a caracterizao da literatura; um estudo de Macedo Soares,67 denunciando o


que considera erros na compreenso do nacionalismo na arte.
E mesmo quanto metacrtica, cuja insuficincia em quantidade e qualidade verificamos, no seria o caso de ponderar que a demanda por sistematizao terica
antes exigncia do nosso tempo do que do perodo em considerao? Afinal, e
no s no Brasil, como vimos, trata-se de derivao ps-romntica o empenho de
constituir a crtica literria como disciplina sistemtica, datando apenas de fins do
sculo xix a intensificao dos esforos nesse sentido.
Mas aqui comea outra histria, que no nos propomos contar, pois fugiria pauta
do nosso Colquio, conquanto possamos conceb-la como captulo mais recente da
que acabamos de esboar: a histria da crtica como sistematizao de princpios,
mtodos e conceitos, e no mais como casusmo analtico-interpretativo-judicativo;
a dos seus desencontros e embates com a teoria da literatura novecentista; a dos matizes por ela assumidos no que se toma por manifestaes suas na mdia do nosso
tempo, que vo, como bem sabemos, do mero palpite bem embalado a realizaes
ensasticas do mais alto nvel.

Roberto Aczelo de Souza professor de Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio


de Janeiro (Uerj). Entre suas publicaes, figuram: Teoria da literatura (tica, 2008); Introduo
historiografia da literatura brasileira (Eduerj, 2007); Iniciao aos estudos literrios; objetos,
disciplinas, instrumentos (Martins Fontes, 2006); O imprio da eloquncia; retrica e potica no
Brasil oitocentista (Eduerj/Eduff, 1999).

67 SOARES, Antonio Joaquim de Macedo. Jos Alexandre Teixeira de Melo: Sombras e sonhos. Revista Mensal

do Ensaio Filosfico Paulistano, So Paulo, nona srie, 6: 87-94, set. 1859.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 112-129, 2013 129

Romantismo brasileiro e a
musa popular do Norte
Slvia Maria Azevedo

Resumo: Sob o influxo alemo, o culto das tradies populares no sentido da valorizao
do povo, da exaltao nacionalista ou humanitria do passado foi um dos traos marcantes
do romantismo. Alm de compactuar com a valorizao das origens da nacionalidade,
Franklin Tvora estar empenhado em acentuar o esprito cientfico de suas pesquisas
sobre o folclore, a exemplo das Lendas e tradies populares do Norte, publicadas na
Ilustrao Brasileira, em 1877. Palavras-chave: Franklin Tvora, folclore, nacionalismo.
Resumen: Bajo la influencia alemana, el culto a las tradiciones populares como una forma de
valorizacin del pueblo, o sea, la exaltacin nacionalista o humanitaria del pasado fue uno
de los rasgos marcantes del romanticismo. Ms all de concordar con la valorizacin de los
origenes de la nacionalidad, Franklin Tvora se empear en profundizar el espritu cientfico de sus investigaciones acerca del folclore, como vemos en Lendas e tradies populares
do Norte, publicadas en la Ilustrao Brasileira en 1877. Palabras clave: Franklin Tvora,
folclore, nacionalismo.

A importncia da Guerra do Paraguai, na opinio de vrias geraes de historiadores,


deve-se, entre outros aspectos, ao fato de ter contribudo para aproximar brasileiros
de vrias provncias e de diversas origens sociais, com repercusso, inclusive, na
produo literria nacional, como vai dizer Jos Verssimo:
Pela primeira vez depois da Independncia (pois a guerra do Prata de 1851 mal durou
um ano e no chegou a interessar a nao) sentiu o povo brasileiro praticamente a responsabilidade que aos seus membros impem estas coletividades chamadas naes. Ele,
que at ento vivia segregado nas suas provncias, ignorando-se mutuamente, encontra-se agora fora das estreitas preocupaes bairristas do campanrio, num campo propcio para estreitar a confraternidade de um povo, o campo de batalha. De provncia
a provncia trocam-se ideias e sentimentos; prolongam-se aps a guerra as relaes de
acampamento. Houve enfim uma vasta comunicao interprovincial do Norte para o
Sul, um intercmbio nacional de emoes, cujos efeitos se fariam forosamente sentir na
mentalidade nacional. A mocidade das escolas, cujos catedrticos se faziam soldados e
marchavam para a guerra, alvoroou-se com o entusiasmo prprio da idade. Os que no
deixavam o livro pela espada, bombardeavam o inimigo longnquo com estrofes inflamadas e discursos tonitruantes, excitando o frvido entusiasmo das massas.1

Se houve enfim uma vasta comunicao interprovincial do Norte para o Sul, um


intercmbio nacional de emoes, propiciado pela Guerra do Paraguai, mais evidentes tambm ficaram as diferenas entre os dois extremos do Brasil, quanto
aos melhoramentos introduzidos pelo governo imperial com prioridade para as
provncias do Sul, em detrimento das provncias do Norte. As queixas partem,
sobretudo, de homens do Norte, como mostram vrios artigos publicados na
Ilustrao Brasileira (1876-8), peridico carioca ilustrado que veio substituir a
folha humorstica Semana Ilustrada (1860-76), ambos de propriedade de Henrique Fleiuss.
Um desses homens do Norte, Fbio Alexandrino de Carvalho Reis, autor do
Ligeiro estudo sobre o estado econmico e industrial do Maranho, opsculo de
1877, critica o abandono em que a provncia vivia mergulhada, apontando como
causas do estado de decadncia da lavoura do Maranho a extino do trfico de
escravos e a imigrao de colonos europeus para o Sul. No comentrio de A. Ban1 VERSSIMO, Jos. Histria da literatura brasileira: de Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908).

Organizao, reviso de textos e notas de Luiz Roberto de S. S. Malta. So Paulo: Letras & Letras, 1998, p. 220.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 131

deira, responsvel pela apresentao da obra na seo Bibliografia da Ilustrao


Brasileira, identifica-se o endosso aos reparos de Fbio Alexandrino em relao
poltica econmica do Imprio:
O Norte tem ficado sempre menos beneficiado quando se trata de promover os grandes melhoramentos sociais; e se, como cremos, no h desgnio especial nessa espcie
de abandono, a coincidncia de se encontrarem sempre obstculos a qualquer grande
empreendimento para aquela parte do Imprio, quando para Sul caminha o Governo
frente dos seus desejos, d muito que pensar aos homens do Norte, e quase que os faz
persuadir de que h, na nossa poltica, duas bitolas: a da progresso geomtrica para o
Sul, e da progresso aritmtica para o Norte.2

Como o Maranho, outras regies do Norte do Brasil tambm se sentiam esquecidas


do Imperador, justificativa para a criao da provncia de So Francisco, proposta
apresentada no Senado em 1873, mas que no foi aprovada. Publicado na Ilustrao
Brasileira, com o ttulo O Ocidente do Brasil, o texto sem assinatura defende o
projeto com o argumento de que o vale do So Francisco estava destinado a ser
um grande emprio de riqueza, de indstria, de civilizao do Brasil, por conta
da fertilidade das terras s margens do extenso e caudaloso rio. Apesar disso, o
Oeste vivia ao desamparo dos melhoramentos da civilizao. A grande distncia
em relao ao litoral lugar de concentrao das comodidades da vida, frutos da
civilizao, [e] onde [] o cidado pode educar seus filhos e acomodar sua famlia,
como permitem os recursos de um pas civilizado era em grande parte responsvel pelo estado de barbrie em que permanecia o Ocidente do Brasil:
mister levar a riqueza, a civilizao, que aparece na orla martima, para o interior
desses sertes com o silvo da locomotiva, mas antes disto, preciso preparar naquelas regies remotas ncleos para receberem essa civilizao, que vai transbordando da
beira-mar para o ocidente.3

No somente polticos e fazendeiros clamavam contra o estado de decadncia das


provncias do Norte, postas margem do processo de modernizao, que o caf
trouxera para o Rio de Janeiro e So Paulo, mas tambm homens de letras, como
2 BANDEIRA, A. Ilustrao Brasileira. Rio de Janeiro, n. 36, 15 dez. 1877, p. 192.
3 Idem, n. 14, 15 jan. 1877, p. 211.

132 azevedo, Slvia Maria. Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte

Franklin Tvora, assduo colaborador da Ilustrao Brasileira. No prefcio ao romance O Cabeleira o primeiro manifesto regionalista da literatura brasileira ,4 o
escritor queixa-se do abandono do Norte, imaginando os avanos que a civilizao
material traria para a regio amaznica:
Que no seria desse mundo [] se nestas margens se sentassem cidades; se a agricultura
liberalizasse nestas plancies os seus tesouros; se as fbricas enchessem os ares com seu
fumo, e neles repercutisse o rudo das suas mquinas? Desta beleza, ora a modo de esttica, ora violenta, que fontes de rendas no haviam de rebentar? Mobilizados os capitais e o
crdito; animados os mercados agrcolas, industriais, artsticos, veramos aqui a cada passo
uma Manchester ou uma New York. [] O trabalho, o capital, a economia, a fartura, a
riqueza, agentes indispensveis da civilizao e grandeza dos povos, teriam lugar eminente
nesta imensidade onde vemos unicamente guas, ilhas, plancies, seringais sem-fim.5

Este era um sonho (naquela altura) impossvel de se transformar em realidade. O


passado glorioso do Norte (ou antes, do Nordeste), centro econmico e cultural do
Brasil, no sculo xvii, estava definitivamente sepultado. No havia como negar essa
evidncia, da a estratgia de Tvora de reverter o negativo em positivo, a decadncia das provncias do Norte transformando-se em expresso de um Brasil mais verdadeiro, porque intocado pelos malefcios da civilizao destruidora das tradies
locais, na transcrio de passagem clebre do prefcio do romance:
As letras tm, como a poltica, um certo carter geogrfico; mais ao Norte, porm, do
que ao Sul abundam os elementos para a formao de uma literatura propriamente brasileira, filha da terra.
A razo bvia: o Norte ainda no foi invadido como est sendo o Sul de dia em dia pelo
estrangeiro.
A feio primitiva, unicamente modificada pela cultura que as raas, as ndoles, e os
costumes recebem dos tempos ou do progresso, pode-se afirmar que ainda se conserva
ali em sua pureza, em sua genuna expresso.6
4 ALMEIDA, Jos Maurcio. A tradio regionalista no romance brasileiro. Rio de Janeiro: Achiam, 1980, p. 80.
5 TVORA, Franklin. O Cabeleira. 5. ed. So Paulo: tica, 1988, p. 10.
6 Idem.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 133

Identifica-se na inter-relao da literatura com o meio fsico-social, segundo proposta de Tvora, repercusso daquele bando de ideias novas, na expresso de Slvio Romero as doutrinas positivistas de Comte e Littr, o biologismo de Darwin, o
evolucionismo de Spencer, o determinismo de Taine, entre elas , que entraram no
Brasil durante os anos 1870, considerados por diferentes historiadores como uma
dcada de inovaes, o comeo de uma nova era para o Brasil.
Na crtica em forma de carta dirigida a Franklin Tvora, A propsito do Cabeleira,
publicada na Ilustrao Brasileira, Flvio de Aguiar, um nortista como o amigo,
retoma as teses centrais do prefcio do romance: o Norte [] pode muito bem ter
uma literatura sua; a observao sem esforo marca diferenas entre norte e sul,
diferenas tanto materiais como morais, interpretando igualmente estas diferenas
como positivas para a literatura do Norte e negativas para a literatura do Sul. Enquanto naquela so descritos nossos campos, nossas matas, nossas lavouras, nossos
rios, nossas serras, nossas cidades, nesta, a descrio se cansa com os sales, as
toilettes, os bailes e tantos outros assuntos cosmopolitas como estes. Consideraes
a fundamentar o julgamento taxativo de Flvio de Aguiar: A literatura do norte
mais brasileira do que a do sul.7
A ciso entre o Norte e o Sul do Brasil, que se manifestava tanto no mbito da poltica e da economia, quanto no da literatura, refletia a crise do regime monrquico,
iniciada com a promulgao da Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871, e
agravada com o progressivo desligamento do Imperador quanto tarefa de governar o Brasil (basta lembrar que na segunda viagem ao exterior, d. Pedro ii estivera
ausente do pas entre maio de 1876 e setembro de 1877), sem deixar de mencionar
a chamada questo religiosa e os acirrados ataques ao sistema, com a formao
do Partido Republicano, que inicia a publicao do jornal A Repblica e lana em
dezembro de 1870 o Manifesto Republicano.
Se no havia, na proposta de criao de uma literatura do Norte, inteno separatista da parte de Franklin Tvora, conforme interpretam alguns crticos, bom
lembrar, na sugesto de Cludio Aguiar, que no Nordeste e, de forma particular,
em Pernambuco, [] desde o sculo anterior falavam alto os sentimentos nativistas
de movimentos sociais como a Revoluo dos Mascates (1710) e as trs exploses
do sculo xix as Revoluo de 1817, 24 e 48.8 Por sua vez, o heri do romance de
Tvora, clebre valento, no era o que se poderia chamar de modelo de integri7 Ilustrao Brasileira, n. 9, 1 nov. 1876, p. 135.
8 AGUIAR, Cludio. Franklin Tvora e o seu tempo. So Paulo: Ateli, 1997, p. 247.

134 azevedo, Slvia Maria. Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte

dade moral, conforme era praxe comportarem-se protagonistas romnticos em romances, contos, novelas e peas de teatro em voga no Brasil da poca. Ladro mui
astuto, o Cabeleira e seu bando horrorizaram a provncia de Pernambuco, no sculo xviii, no relato de Fernandes Gama, autor das Memrias histricas da provncia
de Pernambuco, obra de que se valeu Tvora para compor o perfil da personagem.
Os trovadores pernambucanos do sculo xviii, que compuseram cantigas alusivas
vida e morte do Cabeleira, vo cantar no o bandido cruel, mas a vtima que
pagou com a forca os crimes que a bem dizer pertenciam menos a ele do que a
outrem, na interpretao de Franklin Tvora, que aponta a falta de instruo e da
educao como responsveis pela converso de indivduo, que poderia ser til
sociedade, em facnora de memria execrada, ou lamentvel.9
J o poeta pernambucano ngelo de S. Paio, no Canto do Cabeleira, publicado no
ltimo nmero da Ilustrao Brasileira, em abril de 1878, interpreta de forma diferente
o comportamento do bandido: no h causa nobre, no h honra a ser lavada com
sangue a justificar os crimes cometidos pelo Cabeleira e seu bando, to somente o
prazer de matar. Incitado a cantar pelos valentes camaradas, a trova do Cabeleira
faz a apologia da crueldade, na transcrio de alguns versos do poeta pernambucano:
Se o tdio nos busca,/ Se temos tristezas,/ Buscamos torpezas,/ Pra nos consolar;/
Corremos ao estupro,/ Orgias, incestos;/ E aps, eis-nos lestos/ Buscando outro lar!
Se a calma sufoca/ Nas vilas entramos,/ Mil peitos rasgamos/ Coagudos punhais;/ Nas
preces das vtimas,/ No sangue, nos prantos,/ Achamos encantos,/ Que no tm iguais.10

Representado pelo Cabeleira, o heri do mal, no dizer de Samira Campedelli,11 este


outro Brasil, o do Norte, poderia vir a se constituir em ameaa unidade poltica
do Imprio, conquistada na dcada de 1850, depois de debeladas as rebelies regenciais.12 Por aquela poca mesmo, outra serpente estava sendo gerada nas entranhas
do prprio sistema. Da provncia da Bahia chegavam rumores, na notcia divulgada
pelo Dirio do Rio de Janeiro, de 11 de julho de 1876, de que um indivduo de nome

9 TVORA, Franklin. O cabeleira. Op. cit., p. 138.


10 Ilustrao Brasileira, n. 40, abr. 1878, p. 276.
11 CAMPEDELLI, Samira. Heri do Mal. O Cabeleira de Franklin Tvora. 5. ed. So Paulo: tica, 1997, p. 5-6.
12 CARVALHO, Jos Maurcio de. A construo da ordem: a elite poltica imperial. Rio de Janeiro: Civilizao

Brasileira, 1998, p. 11-22.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 135

Antnio Vicente Mendes Maciel, vulgo Antnio Conselheiro, que arrastava atrs de
si multido de seguidores, tinha sido preso porque pregava contra o governo.
O revide, a resposta do Sul ao prefcio de O Cabeleira, vir na forma do editorial
de 15 de julho de 1877 da Ilustrao Brasileira, Organize-se o centro, em que se expe a necessidade da criao de um centro literrio no pas. O momento era dos
mais favorveis para a constituio das letras no Brasil, uma vez que a imprensa
poltica, tanto na Corte quanto nas provncias, andava s voltas com disputas partidrias. s letras cabia, ento, meter na sombra as polticas, e promover a unio
nacional, conclamada por vrios setores da esfera pblica: a escola, a imprensa, as
associaes, os comcios literrios, todos espera da vida que havia fugido dos
rgos polticos, dos comcios eleitorais, das assembleias, do parlamento, do prprio governo. Essa vida, a literatura tinha condies de traz-la de volta, o que
faltava era to somente a vida literria constituir-se, aproveitando a esse fim mo
hbil e amestrada os elementos que, dispersos quais se mostram ao norte e ao sul,
no servem seno para indicar que o Brasil no de todo ainda um cadver.13
At mesmo o diretor do centro estava escolhido, ou, pelo menos, contava com
a aprovao de importantes setores da intelectualidade brasileira. Era o senador
Francisco Otaviano de Almeida Rosa, um dos homens mais influentes da chamada gerao de 1870, literato, dono de dois importantes jornais da Corte, o Correio
Mercantil e A Reforma, mentor da ideia da criao de um centro intelectual de que
careciam as letras brasileiras.
Enquanto este centro no estava ainda formado (seriam estes os germens da Academia Brasileira de Letras?), cada escritor em particular, no interesse da ideia que
lhe simptica; do princpio que considera proveitoso para seu pas14 no dizer
de outro editorial da Ilustrao Brasileira , concorria para que a revoluo pacfica tivesse incio, quer fosse a fundao de um jornal, a elaborao de um livro,
o oferecimento de uma conferncia. Era o que faziam os escritores do Norte, no
cumprimento do dever de levantar ainda com luta e esforos os nobres foros dessa
grande regio, exumar seus tipos legendrios, fazer conhecidos seus costumes, suas
lendas, sua poesia, mscula, vvida e lou, neste apelo que Franklin Tvora deixou
registrado no prefcio de O Cabeleira.
Tudo estava por se fazer, a literatura do Norte ainda no existia, era necessrio
cri-la, tarefa possvel de ser realizada se houvesse um grupo de escritores, congre13 Ilustrao Brasileira, n. 26, 15 jul. 1877, p. 18.
14 Idem, n. 37, jan. 1878, p. 204.

136 azevedo, Slvia Maria. Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte

gados em torno da ideia de fixar sistematicamente, numa srie de romances, como


planejaram Tvora e Ingls de Sousa, os costumes e a psicologia das provncias setentrionais, a modo de uma cartografia etnogrfico-literria do Brasil. No caso do
autor de O matuto, o projeto compreendia no apenas a rea da criao ficcional,
mas tambm a do ensaio, a exemplo do livro por ele chamado de O Norte (tido
at pouco tempo como perdido, mas localizado pelo bigrafo do escritor, Cludio
Aguiar), em que a obra de vinte escritores seria apresentada como expressiva do
talento nortista.
O resgate das lendas e tradies populares era igualmente tarefa urgente, na opinio
de Tvora, haja vista os perigos a rondar a musa popular do Norte, exposta invaso estrangeira, que, valendo-se da indiferena nacional, vai levando por diante
impunemente a sua obra de alterao do nosso carter,15 conforme escreveu no
pequeno ensaio Um verso popular, publicado na Ilustrao Brasileira. Enquanto,
aqui, indiferena passa a ser sinnimo da falta de proteo, cuidado para com a
poesia popular brasileira, em outro texto, A poesia popular, editorial de fevereiro
de 1878, indiferena significa desvalorizao da poesia popular, motivo da perda
de tesouros preciosos:
Pretendemos unicamente lavrar nestas pginas um protesto contra a indiferena que
entre ns se vota aos monumentos deste gnero que nos deixaram nossos antepassados.
Quantos no se perderam j, quantos no se perdem dia a dia, mngua de quem os
enfeixe, e lhe d forma e organizao perdurvel?16

Era o que Franklin Tvora se props a fazer, trazendo a pblico na revista de Henrique Fleiuss o resultado de suas pesquisas junto musa popular do Norte, oito
contos reunidos sob o ttulo Lendas e tradies populares do Norte,17 plido aceno diante da grandeza do cancioneiro popular que se encontrava espalhado pelo
15 Idem, n. 35, 1 dez. 1877, p. 173.
16 Idem, n. 23, fev. 1878, p. 224.
17 A relao compreende as seguintes lendas e tradies populares, publicadas na Ilustrao Brasileira:

O sino encantado, idem, n. 13, 1 jan. 1877, p. 202-3; A viso da Serra Aguda, idem, n. 14, 15 jan. 1877,
p. 215-8; O tesouro do rio, idem, n. 15, 1 fev. 1877, p. 230; A cruz-do-patro, idem, n. 17, 1 mar. 1877,
p. 268-9; Chora menino, idem, n. 18, 15 mar. 1877, p. 282; As mos do Padre Pedro Tenrio, idem, n. 20,
15 abr. 1877, p. 310; O cajueiro do frade, idem, n. 21, 1 maio 1877, p. 334-5; As mangas de jasmim, idem,
n. 23, 1 jun. 1877, p. 359 e 363.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 137

Brasil, na avaliao de Cludio Aguiar.18 Talvez por isso, Tvora tenha se concentrado nas lendas populares pernambucanas, relacionadas ao tempo da invaso dos
holandeses em Pernambuco, no sculo xvii. Essas lendas so aquelas que, resistindo ao destruidora do tempo, puderam chegar at nossos dias, uma vez que
a poesia dos selvagens [] correu a refugiar-se nas selvas interiores, onde dia por
dia se foi extinguindo at que de todo desapareceu com o ltimo da ltima horda.19
Este lamento do narrador do conto A cruz-do-patro no impede de interpretar o
repertrio de lendas populares organizado por Tvora como expresso da dvida do
Brasil para com o Norte, pois foram bravos nortistas como Matias de Albuquerque,
Felipe Camaro, Andr de Negreiros que, lutando ao lado dos portugueses, contra
os batavos, chamados hereges no conto O sino encantado, livraram o pas de cair
em poder da Holanda.
A histria do domnio holands nas provncias do Norte do Brasil justifica a musa
do Norte no cantar a poesia do lar, to somente a poesia da guerra, na qual repercutiam a voz dos trabucos e arcabuzes, o som dos clarins, o retintim dos terados
e adagas dos conquistadores e conquistados, dignos uns dos outros.20 O passado
pico de Pernambuco nobilita a histria da provncia, o mesmo acontecendo com
as lendas ligadas ao perodo da dominao batava, ou antes, por contiguidade, a
histria enobrece a lenda e esta se transforma na memria popular da histria. Assim, o que permaneceu na lembrana do povo quanto passagem dos holandeses
por Porto de Pedras ficou conhecido como o caso do sino encantado, que uma velha
do lugarejo vai contar ao narrador:
[] Contam os antigos que antes de se render esta vila queles excomungados, os cristos, sabendo que eles tinham por costume fazer das igrejas de Deus casas de malefcios,
tiram dos altares todas as imagens, e da torre o sino; as imagens foram repartidas por entre
o povo batizado, e o sino foi trazido ao rio e afundado no lugar, que lhe mostrei. Meu dito,
meu feito. Os ps-de-pato, assim que tomaram conta da terra fizeram da igreja fortaleza,
para guerrearem contra a cristandade. Mas depois foram batidos, e tiveram de fugir.21

18 AGUIAR, Cludio. Franklin Tvora e o seu tempo. Op. cit., p. 261.


19 Ilustrao Brasileira, n. 17, 1 mar. 1877, p. 268.
20 Idem.
21 Idem, n. 13, 1 jan. 1877, p. 202.

138 azevedo, Slvia Maria. Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte

Igualmente contguos esto a lenda e o conto moral, que ainda a histria do sino
encantado permite ilustrar: quando os holandeses foram embora, o vigrio do
local prometeu tirar o sino do rio, mas nunca que fazia. Um dia, um menino
tomava banho no Manguaba e deu com o sino, que a muito custo foi retirado da
gua. O padre e o juiz comearam a discutir quanto ao local em que devia ser
colocado. Nisto, as cordas se partiram e o sino caiu de novo no rio, afundou na
lama e nunca mais ningum o viu. A partir de ento, as pessoas de Porto de Pedras passaram a ouvir badaladas que vinham de dentro do rio, sempre ao meio-dia e meia-noite, a lembrar no mais a passagem dos holandeses pelo local,
mas a ambio dos homens.
O fato de ter colhido esta histria diretamente da fonte, isto , junto moradora
do lugarejo, garantia para o narrador de que a histria contada ao leitor no foi
inventada nem por ele, nem pela velha, como vai dizer no fecho do conto: Assim se
despediu a velha, a quem devo este conto, que no inveno minha, e que depois
de me ter sido assim narrado, eu verifiquei no ser tambm inveno da velha, mas
uma tradio alagoana, que tem consagrao de muitos anos.22
Compreendem-se as suspeitas em relao inveno, pois refletem o rebaixamento
da imaginao como princpio maior da atividade criadora, segundo a esttica romntica, a observao da realidade tornando-se o principal fator da criao romanesca, durante a dcada de 1870 no Brasil.
Assim como os romances de Tvora, baseados em personagens e episdios tomados
da histria, a garantir exatido daguerreotpica, na interpretao que o escritor
fazia da obra de Cooper, tambm os contos populares recriados tm ancoragem,
primeiramente na histria, para depois migrarem para a lenda em dilogo com o
conto moral, como acontece em Chora Menino. A histria se passa em 1635, numa
tarde de junho em que uma multido, de velhos trpegos, mulheres desgrenhadas, crianas seminuas, chega ao Recife, vinda do Forte Real do Bom Jesus. Sitiado
durante trs meses, o forte acabou por cair em poder das tropas holandesas. Tendo
passado por muitas privaes, aquela multido mais parecia mmias repugnantes
do que seres humanos. Dentre aquelas pessoas, duas mulheres destacavam-se, Ana
e Lourena de Sousa, ambas trazendo nos braos os filhos que choravam de fome e
de sede. No resistindo ao cansao, as duas irms morrem, e tambm as crianas. A
partir de ento, o lugar passou a se chamar Chora Menino, sendo tido por mal-as-

22 Idem, p. 203.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 139

sombrado: Dizia o povo, harpa sonora em que vibram os mistrios da noite e da


solido, que quem passava por ali ouvia chorar menino.23
As marcas do passado heroico de Pernambuco esto por toda parte, tanto no
mundo da natureza, rvores, rios, mangues, quanto no mundo da cultura, logradouros pblicos, monumentos, registrando histrias de levantes e supersties,
no relato de contos como O tesouro do rio, As mos do padre Tenrio e A
cruz-do-patro. O primeiro narra um fato que se deu no Recife, ao tempo do
Brasil colnia, quando morava na cidade um bando de negociantes ricos, que
no sabiam o que fazer com tanto dinheiro. Enquanto isso, os soldados morriam de fome, situao que os levou a liderar insurreio que guiou para as ruas
mangas de homens famintos de po, sedentos de justia. As vtimas eram os
moradores mais afamados, que da noite para o dia ficaram pobres: Tesouros infinitos passaram dos seios e mos das filhas e mes, com os que foram arrancados
dos cofres dos pais de famlias, para o poder das turbas desenfreadas.24 Alguns
dos tesouros roubados foram enterrados numa das ilhotas do rio Beberibe, que
muitos anos mais tarde atraram um canoeiro que em sonho vislumbrou os cofres enterrados. Acontecia, porm, que, todas as vezes que o canoeiro comeava
a cavar, um vento forte obrigava-o a parar, at que ele se deu conta de que era a
Providncia que procurava afast-lo de alguma desgraa, pois o tesouro enterrado no mangue era amaldioado.
J As mos do padre Tenrio tem localizao histrica mais precisa, pois se refere
ao envolvimento do padre Pedro de Sousa Tenrio no movimento da proclamao
da Repblica, em Pernambuco, em 6 de maro de 1817. Debelada a insurreio, o
vigrio foi condenado ao suplcio capital, a forca e o esquartejamento, o governo
portugus tendo mandado colocar em praa pblica o poste onde se fixaram as
mos do padre Tenrio, e na ilha de Itamarac, um outro onde ficou exposta a sua
cabea, para exemplo e lio de todos os que a ele se sentissem presos por laos que
os pudessem arrastar a crime igual ao seu. Um dia, duas crianas que brincavam
perto do lugar onde o vigrio de Itamarac fora enforcado viram uma luz azul que
emanava de suas mos, do tamanho e no formato da hstia consagrada. A partir de
ento, os moradores do local compreenderam que aquela luz significava a alma do
padre Tenrio que, depois da morte, foi considerado santo e milagreiro: Queres

23 Idem, n. 18, 15 mar. 1877, p. 282.


24 Idem, n. 15, 1 fev. 1877, p. 230.

140 azevedo, Slvia Maria. Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte

achar o teu objeto perdido? Pega-te com a alma do padre Tenrio. Promete-lhe um
Padre-Nosso e uma Ave-Maria.25
Da mesma forma que o povo escolhia os seus heris, dentre os quais o Cabeleira,
cujas faanhas eram cantadas pela musa popular do Norte, ele escolhia tambm os
seus santos, e com ambos se identificava, visto representarem, conforme Franklin
Tvora diz no posfcio do romance, alguma virtude grande, a que o sentimento
do justo, inato no corao do povo, no indiferente.26 Por outro lado, na medida
em que esses contos populares so expresso do passado de luta de Pernambuco,
talvez se pudesse dizer que eles vinham alertar o Sul de que as provncias do Norte
poderiam vir a se rebelar novamente, agora contra o governo imperial, caso este
continuasse a mant-las margem dos melhoramentos da civilizao.
Na recriao das lendas populares do Norte, tal como acontece em O cajueiro do
frade, possvel ouvir tambm ecos do envolvimento de Franklin Tvora na questo
dos bispos, ao tempo em que dirigia o jornal A Verdade, do Recife. Na longa introduo que precede a narrativa, o narrador diz ter conhecido, na Praia de So Jos
da Coroa Grande, o cajueiro do frade, e outro, na capital pernambucana, de nome
cajueiro do bispo, experincia a fundamentar suas reflexes em torno da hierarquia
catlico-eclesistica, que v inscrita na mesma famlia vegetal. O cajueiro do frade
representa o humilde servo de Deus, que percorre solides infinitas, lugares inspitos, regies havidas por intransponveis, a levar a palavra singela do Evangelho.
O cajueiro do bispo simboliza o aristocrtico funcionrio da Igreja, aquele que
pertenceu quase sempre cidade, o prelado envolvido em conclios, na administrao das dioceses, quando no em questes mais polticas do que religiosas.
Estabelecido o confronto entre o plebeu, o frade, e o patrcio, o bispo, tem incio
a histria que d nome ao conto. Designado para servir no interior de Pernambuco,
frei Jos decidiu que sua casa seria debaixo de um cajueiro. Em pouco tempo, outras
casas humildes comearam a ser construdas no lugar, dando origem a uma pequena
comunidade. Um dia, o frade chamado de volta ao seu convento, para tristeza do
povo, que comeou a v-lo passeando e rezando ao anoitecer, como sempre fazia.
Alguns anos depois, frei Jos morre, e tem incio a lenda do cajueiro do frade: o
vulto do saudoso sacerdote comeou a ser visto pelos moradores, rondando o lugar,
que passou a ser mal-assombrado, poucas pessoas tendo coragem de chegar perto:

25 Idem, n. 20, 15 abr. 1877, p. 310.


26 TVORA, Franklin. O Cabeleira. Op. cit., p. 138.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 141

Para fazerem medo s crianas falam-lhes muito as velhas do frade sem cabea e da manga onde costuma meter os meninos chores ou mal-ouvidos. [Itlico no original.]27

A cruz-do-patro outro conto que leva no ttulo o nome de um lugar maldito, a


cruz de pedra, colocada no alto de elevada coluna, entre Recife e Olinda, para orientar os navegantes. Com o tempo, o marco histrico ficou associado a tradies de
espritos infernais e bruxarias, representadas pelos congressos anuais dos feiticeiros
negros do Recife, celebrados nas noites de So Joo. Como de praxe, meia-noite,
o rei das trevas baixou entre os mandingueiros, na descrio do narrador, que
conseguiu construir um ser realmente assustador:
Tinha a forma de um animal desconhecido. Era preto como carvo. Os olhos acessos
despediam chispas azuis. Brasas vivas caam-lhe da boca escancarada e ameaadora.
Pela garganta se lhe viam as entranhas, onde o fogo fervia. A viso horripilante a todos
meteu medo.28

Entre as pessoas que tinham ido tomar mandinga [itlico no original], encontrava-se uma negra de grosso toutio e largas ancas, que lhe davam a forma de tanajura
[itlico no original]. Foi a vtima escolhida pelo esprito do mal, que se atirou sobre
ela. A duras penas, a mulher conseguiu escapar e correu pela praia, at a Cruz do
Patro. O diabo, no entanto, no lhe deu trgua, obrigando a negra a meter-se pelos
mangues. No dia seguinte, no lugar do corpo da mulher foi encontrada a Coroa
preta [itlico no original], a indicar a vingana do esprito das trevas: Dizia o povo
que, quando houvesse desaparecido de todo a Coroa preta, teria cessado tambm o
encanto da Cruz do Patro.29
Hoje j no se falava mais nem na coroa, nem na cruz, mesmo porque, naqueles
tempos em que as supersties davam lugar a mentes ilustradas, esclarecidas pela
cincia, ningum mais tinha medo do lugar, frequentado apenas pelos soldados que
vigiavam as fortalezas. Tambm no era mais necessrio, para ir do Recife a Olinda,
usar aquele caminho. A estrada de ferro de Santo Amaro viera ligar as duas cidades,

27 Ilustrao Brasileira, n. 21, 1 maio 1877, p. 334.


28 Idem, n. 17, 1 mar. 1877, p. 268.
29 Idem.

142 azevedo, Slvia Maria. Romantismo brasileiro e a musa popular do Norte

as locomotivas enchendo [] a margem direita do Beberibe de fumos e rudos que


indicam o percurso da civilizao por aquelas solides pitorescas.30
Pobre musa popular do Norte! O que ser de ti quando os teus bandidos e assombraes no meterem medo a mais ningum? S te restar migrar para o Sul, envergar luxuosa toilette, tomar um tlburi e entrar no Alcazar para assistir a uma opereta
de Offenbach, to em moda nos palcos da Corte carioca, naquela poca.

Slvia Maria Azevedo professora do Departamento de Literatura, unesp-Assis, com Bolsa de


Produtividade em Pesquisa/cnpq. Atua nas reas de Teoria Literria, Literatura Brasileira e Literatura
Comparada. Principais publicaes: Brasil em imagens. Um estudo da revista Ilustrao Brasileira
(1876-8). So Paulo: Editora da unesp, 2011; Histria de quinze dias, Histria de trinta dias. Crnicas
de Machado de Assis Manasss. Organizao, prefcio e notas de Slvia Maria Azevedo. So Paulo:
Editora da unesp, 2011; Paul Valry. Meu Fausto. Introduo, traduo e notas de Ldia Fachin e Slvia
Maria Azevedo. So Paulo: Ateli, 2011.

30 Idem, n. 17, p. 268.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 130-143, 2013 143

As revistas literrias no romantismo


francs: a ilustrao
Celina Maria Moreira de Mello

Resumo: Sero comentados, aqui, alguns aspectos das relaes entre o mundo da imprensa
e o campo literrio e poltico, no romantismo francs, enfatizando o impacto poltico e
a liberdade do folhetim crtico, em face da censura. Sero, a seguir, apresentadas quatro
revistas literrias que acolheram os autores do romantismo. Finalmente, ser destacada a
presena da ilustrao. Palavras-chave: folhetim crtico, romantismo francs, ilustrao.
Abstract: We will first examine some aspects of the relationships existing between the world
of press and the literary and political field, in French Romanticism, emphasizing the political
impact and liberty of feuilleton critics towards censorship. Then, we will present four literary
reviews in which romantic authors were invited to publish their writings. Finally, illustrations
presence will be especially commented. Keywords: feuilleton critics, French Romanticism,
illustrations.

Introduo

Este ensaio vincula-se a um trabalho de pesquisa que problematiza o objeto literrio,


nas relaes entre a literatura francesa e a pintura, e mais recentemente a gravura,
construindo a noo heurstica de espao-histrico romntico, em uma perspectiva
discursiva1 e scio-histrica.2 A leitura do literrio redimensionada em sua insero
histrica, na perspectiva foucaultiana de formao discursiva,3 que aproximo da longue dure de Braudel e das abordagens da Nova Histria.4 Levo em conta as prticas
textuais em seu momento histrico, recusando, ao definir romantismo, abordagens
de cunho linear, portadoras da ideia de progresso, que configuraram a tradio de
histria literria francesa marcada pelo positivismo e a herana lansoniana.
Sero comentados, aqui, alguns aspectos das relaes entre o mundo da imprensa
e o campo literrio e poltico, no romantismo francs,5 destacando, em primeiro
lugar, o impacto poltico e a liberdade em face da censura do folhetim crtico.6 Uma
breve retrospectiva da histria do folhetim no Journal des Dbats, entre 1799 e 1808,
constitui uma proto-histria dos laos entre imprensa de massa, literatura e poltica
no romantismo. Sero, a seguir, apresentadas as revistas literrias que acolheram
os autores da grande gerao romntica e tambm os pequenos romnticos,7 seu
posicionamento poltico e as escolhas estticas que propem a seu leitor assim como
a nova fora enunciativa da ilustrao, nestas revistas.

1 MAINGUENEAU, Dominique. Le discours littraire; paratopie et scne dnonciation. Paris: Armand Colin, 2004.

(Discurso literrio. Trad. Adail Sobral. So Paulo: Contexto, 2006).


2 BOURDIEU, Pierre. Les rgles de lart; gense et structure du champ littraire. Paris: Seuil, 1992.
3 FOUCAULT, Michel. Larchologie du savoir. Paris: Gallimard, 1969.
4 MELLO, Celina Maria Moreira de. O espetculo est na sala. Recorte Revista de Linguagem, Cultura e Discurso.

Ano 2, n. 2, janeiro a junho de 2005. unincor, Trs Coraes, <http://www.unincor.br/recorte/>.


5 Apresento, neste ensaio, resultados parciais do projeto Crtica literria, poltica e revoluo esttica em

LArtiste 1831-8, desenvolvido de 2006 a 2009, com apoio do cnpq.


6 Era chamado folhetim o artigo de crtica literria, filosfica ou cientfica, regularmente publicado nos
jornais, geralmente no rodap da pgina.
7 BNICHOU, Paul. Le sacre de lcrivain. Paris: Gallimard, 1996.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 145

O jornalismo poltico e o folhetim


Em 4 de agosto de 1789, quando so abolidos pelos revolucionrios todos os privilgios feudais, eliminam-se de roldo as corporaes de ofcio, ou seja, no que se refere
ao mundo da impresso, o privilgio de imprimir, o qual, no Antigo Regime, era um
monoplio dos livreiros-impressores, os editores. Imprimir passa a ser uma atividade livre, de que se ocuparo donos de livrarias, vendedores de livros, redatores, jornalistas e tipgrafos, o que faz explodir o nmero de editoras e tipografias: Na capital
[Paris], ao final do Antigo Regime, havia, oficialmente, trinta e seis tipografias, que
passam a ser quarenta e sete entre 1789 e 1790 e mais de duzentas e vinte, em 1798. 8
A Revoluo Francesa trar uma vivncia do impresso, ligada ao impacto poltico da
leitura coletiva de textos em voz alta, nas ruas, nos clubes ou sees revolucionrias e
nas casernas. Mas tal leitura no privilegia o livro: as folhas ou jornais multiplicam-se, de acordo com as mais diversas tendncias polticas, veculos de propaganda dos
ideais revolucionrios: Os ttulos dialogam entre si, nascem e desaparecem tambm
rapidamente: sua volta forma-se uma comunidade de leituras que corresponde,
aproximadamente, a uma comunidade de opinio.9
Quantidade de peridicos publicados, na Frana, por ano:10
1789

1790

1791

1792

1793

1794

1795

1796

1797

1798

1799

1800

218

387

280

245

144

129

159

124

214

136

110

75

O impacto do peridico impresso mantm especialmente atenta a censura poltica


revolucionria, o que confere ao folhetim e, sobretudo, crtica literria, os quais
escapavam da censura, uma dimenso cada vez mais ampla.
A relao entre folhetim, crtica literria e poltica se ilumina em um breve histrico
dos primeiros anos do Journal des Dbats. Folha criada em 1789, o jornal detinha um
grande nmero de assinantes e, em 1799, muda de direo, passando propriedade
dos irmos Bertin. Favorecido pelo retorno ordem pblica que foi o Diretrio,
passa a ser o porta-voz da reao social e religiosa aos excessos revolucionrios do
8 BARBIER, Frdric. Lhistoire du livre. Paris: Armand Colin, 2000, p. 195. T. da A., exceto quando explicitamente

referido.
9 Idem.
10 Idem.

146 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

perodo chamado de Terror (1793-4). A crtica de teatro, que era publicada no folhetim, assumida, ento, por Julien-Louis Geoffroy (1743-1814), um erudito professor
monarquista. Graas a seu talento, a seo passa a tratar tambm dos mais variados
temas: literatura moderna, antiga, histria, filosofia, moral e poltica.
A liberdade que no mais existia para a imprensa, na parte poltica propriamente dita, a
liberdade que no existia no primeiro andar do jornal, desculpem a expresso, refugiou-se no trreo de Geoffroy. De l ela disse tudo o que quis dizer, tudo o que era preciso
dizer. a esta situao que devemos atribuir a mistura de ideias literrias e polticas,
esta colorida mistura de gneros, que teria sido um defeito se no tivesse resultado de
uma necessidade. Os folhetins de Geoffroy pareceram um pouco com aquelas igrejas da
Idade Mdia que tinham direito de asilo e onde podiam se encontrar todos aqueles que
no se podiam mostrar em outros lugares.11

O folhetim torna-se um sucesso, por publicar, com certa liberdade, crticas aos valores
da Revoluo Francesa e celebrar a volta moral crist. A crtica literria confunde-se,
ento, cada vez mais com a crtica poltica. No combate para restabelecer a importncia
de autores do sculo xvii e se opor a Voltaire, a pena de Geoffroy ser comparada a uma
espada.12 As referncias literrias so aluses, apreciadas pelos leitores, aos acontecimentos polticos da atualidade, como no episdio do assassinato do duque de Enghien.13
Embora apoie Napoleo Imperador, o peridico criticado por grupos de opinies
contrrias filsofos e jacobinos e seu sucesso comercial suscita a cobia de seus
inimigos. Assim, quando o jornal visto como uma ameaa poltica, Napoleo, em
1805, lhe impe primeiro um censor, depois um diretor de sua confiana, Joseph Five
(1767-1839), e finalmente a mudana do nome do peridico para Journal de lEmpire.
O folhetim de Geoffroy e os artigos literrios, contudo, continuam a escapar censura,
e a discusso de temas morais e literrios continua a servir de pretexto para a exposio
de pontos de vista polticos.14 Esta fase de liberdade relativa do jornal encerra-se, em
1807, quando Five substitudo pelo dramaturgo Charles-Guillaume tienne (1778-1845) e rompe-se o frgil equilbrio entre revolucionrios e monarquistas.

11 NETTEMENT, Alfred. Histoire politique, anecdotique et littraire du Journal des Dbats. v. 2. Paris: Dentu, 1842,

p. 100-1.
12 Idem, p. 102-8.
13 Idem, p. 140-2.
14 Idem, p. 173.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 147

Tendo [Napoleo] perdido a esperana de alcanar [este equilbrio], ele fazia entrar os dois
[esprito revolucionrio e esprito monarquista] ao mesmo tempo, no Journal de lEmpire,
smbolo da impraticvel fuso que ele almejava realizar e desta unio que ele desejava
criar em proveito prprio, juntando os dois contrastes. De um lado o senhor tienne e o
senhor Tissot, que muito rapidamente foi publicado no Journal de lEmpire, representavam
a nuance filosfica; do outro, Geoffroy, o senhor Feletz e Hoffmann, a quem haviam deixado sua independncia literria, representavam o matiz monrquico religioso.15

Mas o folhetim continua a ser uma seo privilegiada em face da censura, o interesse
pelos debates literrios torna-se cada vez maior e o nmero de leitores aumenta.
Em 1808, o jornal tem 20 mil assinantes.16 Uma vez que a censura cada vez mais
atuante no que se refere aos temas polticos, exatamente o folhetim que atrai os
leitores, por sua liberdade e pelo brilho de seus articulistas: Napoleo havia dito:
Deixemos que tenham a repblica das letras; foi nessa repblica que o Journal de
lEmpire se refugiou.17
Com a Restaurao da monarquia, em uma legislao mais liberal (1819 e 1828), firma-se, para o governante, o princpio de conceder certa liberdade ao folhetim e aos artigos
que tratam de literatura e, para os peridicos, a estratgia de se apresentarem como literrios, para escapar censura.18 Nos anos 1828-9, assiste-se criao de vrias revistas
literrias, diretamente envolvidas nos debates polticos e estticos de seu tempo. O
movimento se acentua aps a Revoluo de Julho de 1830, que instaura uma monarquia constitucional e gera, em um primeiro momento, ampla liberdade de imprensa.

As revistas literrias

Um mapeamento das configuraes do campo literrio, na Frana, entre 1830 e 1840,


em sua relao com o campo poltico, identifica a constituio de grupos distintos
de escritores e artistas, com tendncias polticas conflitantes: ultramonarquistas ou

15 Idem, p. 204.
16 Idem, p. 212.
17 Idem, p. 220.
18 Cf. JEUNE, Simon. Les revues littraires. In: CHARTIER, Roger; MARTIN, Henri-Jean. Histoire de ldition

franaise; le temps des diteurs. Paris: Fayard, 199, p. 456 e 460.

148 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

legitimistas, opondo-se tanto aos liberais, a favor de uma monarquia constitucional


de acordo com o modelo ingls, quanto aos republicanos, fiis aos ideais revolucionrios. A sociabilidade parisiense distribui os diversos grupos pela capital francesa, nos
diferentes bairros e sales. Conforme seu iderio poltico, estes grupos compartilham
preferncias estticas diversas e formam o pblico leitor de diferentes revistas literrias.
A primeira dificuldade com que nos defrontamos para avaliar a presena destas
revistas no campo literrio a de definir revistas literrias. A segunda, que com
aquela se relaciona diretamente, a de definir literrio. De acordo com um prospecto
annimo publicado em 1832, na Revue des Deux Mondes, atribudo a Sainte-Beuve
(1804-69), o conceito de revista literria viria da Inglaterra e pressupe um mtodo
de pensamento e de ensino, que participa ao mesmo tempo do carter atual do jornal
e da discusso grave dos livros.19
Os pesquisadores do projeto Peridicos Literrios: publicaes efmeras, memria
permanente, da Fundao Biblioteca Nacional, contornam a dificuldade deslocando-a para a definio de literrio:20
O projeto Peridicos Literrios: publicaes efmeras, memria permanente realiza uma
busca e uma indexao mais especfica, a partir de um conceito que inclui na categoria
de peridicos literrios todos aqueles que contenham em sua pauta assuntos literrios, de
maneira exclusiva ou no: poesias e narrativas, textos informativos de crtica e debate.21

A soluo pragmtica, uma vez que parte das prticas editoriais, considerando
literrio o que se autorreferencia enquanto tal. Contudo, com tal soluo, corre-se o risco de se ver a literatura como um conjunto fechado e estvel de textos, um
universo esttico, e deixar de perceber que se trata de um conjunto que se conforma
incessantemente, no tempo, na tenso constante e nas disputas de grupos por uma
posio de hegemonia e que faz parte destas disputas a luta pela incluso ou exclu19 Idem, p. 455. A ntegra do prospecto pode ser consultada em Prospectus abonnement; Revue des Deux

Mondes, t. 5, 1832, <http://fr.wikisource.org/wiki/Prospectus,_abonnement>, consultado em 28 dez. 2009.


20 Pesquisa realizada com o acervo da Coordenadoria de Publicaes Seriadas/coper, da Fundao Biblioteca

Nacional/fbn, voltada para o tratamento bibliogrfico de publicaes peridicas e suas relaes com o
campo literrio brasileiro. Cf. CORRA, Irineu Eduardo Jones. Peridicos Literrios: publicaes efmeras,
memria permanente, <http://www.letras.ufrj.br/prisma/projetos.htm>, consultado em 28 jan. 2009.
21 COSTA, Maria Ione Caser da; SILVA, Maria do Sameiro Fangueiro da. O acervo de peridicos literrios da
Fundao Biblioteca Nacional. In: CATHARINA, Pedro Paulo Garcia; MELLO, Celina Maria Moreira de. Cenas
da literatura moderna. cd-rom. Rio de Janeiro: Sete Letras, no prelo.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 149

so, no cnone, de determinados gneros e obras. Pois o que chamamos de discurso


literrio resulta destes processos, ou seja, de uma construo histrica.22
A Monarquia de Julho, que vem no bojo de uma revoluo deflagrada por um movimento de defesa da liberdade de imprensa, v o florescimento de inmeras revistas
de cultura, de informao geral e de debate de ideias, articulado com discusses
estticas e artigos de crtica literria, que so entremeados com a publicao de
contos, poemas e captulos de romances. Na rivalidade entre as revistas e em suas
escolhas estticas, ou nos gneros que privilegiam, tecido um complexo jogo de
lutas simblicas para deter o poder de definir o literrio, preso entre a prosa e a
poesia, os gneros sublimes e as preferncias do pblico, a tradio e o novo.
Com o intuito de ilustrar a diversidade social, poltica, econmica e esttica desse amplo
espectro, so destacadas quatro revistas: La Mode, Revue des Deux Mondes, LArtiste e
Muse des Familles, relacionadas com o mapa da sociabilidade parisiense:
GRUPO SOCIAL

aristocracia
1830, pessoas
apresentadas ao
rei, corte
1830, pessoas
que se retiraram
da corte

aristocracia
alta burguesia
liberal do sculo
xviii
estrangeiros
embaixadores

banqueiros
homens de
negcios
polticos
artistas
jovens dndis

burguesia
econmica,
quadros mdios
funcionalismo
pblico,
comerciantes

BAIRRO DE PARIS

Faubourg St.
Germain

Faubourg St.
Honor

Chausse dAntin

Marais

LINHA POLTICA

legitimista:
apoia o ramo dos
Bourbon

bonapartista
liberal: apoia a
Monarquia de
Julho

liberal

VALORES
ESTTICOS E
FORA SOCIAL

Rococ,
legitimao

Luzes,
classicismo

Romantismo,
poder e moda

Imitao de valores
legitimados

JORNAL

Le Drapeau Blanc
Le Conservateur
La Gazette de
France
La Quotidienne

Le Constitutionnel
Journal des Dbats

Le National

Le Sicle
La Presse

22 MAINGUENEAU, Dominique. Le discours littraire: paratopie et scne dnonciation. Op. cit.

150 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

REVISTA

La Mode

La Minerve
Revue des Deux
Mondes

Revue de Paris
LArtiste

Le Magasin
pittoresque
Muse des Familles

La Mode uma revista fundada em 1829 por mile de Girardin (1806-81),23 e adquirida em junho de 1831 pelos senhores Dufougerais e de Bermond, que ser publicada
at 1855. Era um luxuoso semanrio, com tipos legveis e papel de tima qualidade,
publicado todo sbado, em cadernos de 24 pginas. Contava, em junho de 1830, com
uma tiragem de 2.625 exemplares.24
Em seus primeiros anos, no foi um peridico com teor poltico.25 Revista da corte,
dirigida a um pblico de elite, oferecia a seus exigentes leitores estampas das toaletes
das damas mais elegantes: A grande questo na ordem do dia, nos boudoirs de nossos
elegantes de 1828, eram o corte, a forma, os matizes, o volume mais amplo ou mais
reduzido de suas vestimentas.26 As gravuras de La Mode, litografias coloridas a partir
de 1831, permitem reconstituir a originalidade e a fantasia dos vestidos, das mangas,
dos turbantes, inspirados por sua protetora e musa, Maria Carolina de Bourbon
(1798-1870), duquesa de Berry e nora do rei Carlos x (1757-1836). Os homens tm
como grande modelo o rei Carlos x: [] desde os primeiros dias de sua existncia,
ela refletiu, at certo ponto, as tendncias elegantes e aristocrticas da mais refinada
sociedade europeia daquela poca, personificada na corte do rei Carlos x.27
Esta revista de moda diferencia-se de suas concorrentes por abrir novos horizontes
literatura e trazer escritores da Escola nova ou Escola jovem: Delphine Gay (mais
tarde senhora mile de Girardin, 1804-55), Charles Nodier (1780-1844), Eugne Sue
(1804-57), Jules Janin (1804-74), que assina o primeiro artigo sobre moda da revista,
Honor de Balzac (1799-1850) e Victor Hugo (1802-85).28 Embora publique alguns
contos ou narrativas destes autores, o destaque maior dado poesia. No que se
refere ao sucesso de escndalo do drama romntico Hernani (Victor Hugo, 1830),

23 Este se tornar em pouco tempo um dos maiores empresrios da imprensa e, na histria da literatura

francesa, ter seu nome associado ao gnero do romance de folhetim.


24 BARBAT de BIGNICOURT, Arthur. Histoire du journal La Mode par le Vte E. de Grenville. Paris: Bureau de La

Mode nouvelle, 1861, p. 13.


25 Idem.
26 Idem, p. 15.
27 Idem, p. 13.
28 Cf. BARBAT de BIGNICOURT, Arthur. Histoire du journal La Mode par le Vte E. de Grenville. Op. cit., p. 13.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 151

que no pode ser separado nem dos temas da moda, nem da agitao do perodo
pr-revolucionrio,29 a revista publicar uma crtica ironicamente negativa:
Os jornais e o pequeno grupo que se intitulou a Nova escola fizeram muito barulho
sobre a representao de Hernani, drama vulgar e enftico, que no conseguiu tocar a
imobilidade dos sales: La Mode vai imitar os sales, ela no se ocupar deste drama,
contra o qual o pblico pode finalmente protestar por ocasio da terceira representao
que, na verdade, era a primeira. J se ouve falar de vinte e quatro pardias de Hernani, a
melhor ser o manuscrito impresso.30

La Mode desaprova a Revoluo de Julho de 1830 e a mudana de regime, que coloca


no trono Lus Filipe de Orlans (1773-1850), um rei que parece um burgus. A revista
se tornar o grande rgo de oposio legitimista Monarquia de Julho.31
A Revue des Deux Mondes, fundada igualmente em 1829,32 por Prosper Mauroy e
Sgur-Dupeyron, adquirida em 1831, por Auguste Auffray que entrega sua direo
a Franois Buloz (1803-77), que a dirigiu at sua morte.33 A revista seguia o modelo
ingls dos magazines, o que aparece claramente em seu subttulo: recueil de la politique, de ladministration et des moeurs (coletnea da poltica, da administrao e
dos costumes). Caracterizava-a uma nfase maior dada aos artigos de informao
histrica e geogrfica, relacionada com a literatura de viagem. Visava a favorecer as
relaes culturais, polticas e, sobretudo, econmicas entre o Velho e o Novo Mundo,
ou seja, a Europa, tomando como parmetro a Frana e a Amrica, o que atendia
s demandas de um leitor burgus, que ela define como aristocrtico. Sua linha
poltica liberal: no perodo que antecede a Revoluo de 1830, representara uma
oposio moderada ao regime de Carlos x.
Em 1833, Buloz adquire a rival Revue de Paris e faz da Revue des Deux Mondes a mais
importante das revistas literrias no perodo da Monarquia de Julho, acolhendo em
29 Cf. MELLO, Celina Maria Moreira de. O espetculo est na sala. Recorte Revista de Linguagem, Cultura e

Discurso. Op. cit.


30 Transcrio de um artigo de La Mode, datado de janeiro-fevereiro de 1830. Cf. BARBAT de BIGNICOURT,

Arthur. Histoire du journal La Mode par le Vte E. de Grenville. Op. cit., p. 44.
31 WATELET, Jean. La presse illustre. In: CHARTIER, Roger; MARTIN, Henri-Jean. Histoire de ldition franaise; le

temps des diteurs. Op. cit., p. 370.


32 A revista publicada at hoje e tem um site oficial: <http://www.revuedesdeuxmondes.fr>.
33 Em 1833, Buloz compra a revista. Cf. CAMARGO, Katia Aily Franco de. A Revue des Deux Mondes; intermediria
entre dois mundos. Natal: edufrn, 2007, p. 37-43.

152 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

suas pginas autores como Franois-Ren de Chateaubriand (1768-1848), George


Sand (1804-76), Alfred de Vigny (1797-1863), Alfred de Musset (1810-57), Heinrich
Heine (1797-1856), Alexandre Dumas (1802-70), Thophile Gautier (1811-72) e, muitos anos mais tarde, Charles Baudelaire (1821-67).
Publicao mensal, continha de sete a oito flios entre 112 e 128 pginas que seriam
reunidos em quatro volumes por ano. O custo da assinatura anual, no momento de
seu lanamento, era de quarenta francos para Paris, 45 para a provncia e cinquenta
francos para o exterior.34 De formato in-oitavo e mscara grfica35 mais sbria, no
fazia concesses aos exageros romnticos, tampouco cedia ao gosto imoderado do
pblico por imagens.
Suas tendncias eram mais clssicas. Entre seus principais crticos de arte e literatura, tienne-Jean Delcluze (1781-1863), davidiano pouco entusiasmado pela nova
esttica e defensor dos valores republicanos do neoclassicismo. Tambm devem ser
citados Gustave Planche (1808-57), um dos crticos mais ferozes do romantismo,
totalmente hugofbico e defensor da tradio clssica, e Sainte-Beuve, extremamente reticente em relao ao que ele denomina a invaso da democracia literria:
massificao da literatura (literatura industrial), no especializao dos crticos e
escritores e, sobretudo, a voga do romance de folhetim.36
A Revue des Deux Mondes alis muito interessante, na perspectiva que nos interessa,
pois ela se apresenta como um espao em que se encontram um dos ltimos a literatura romntica e a literatura acadmica (ensaios crticos, histricos, polticos, arqueo
lgicos) entre o mundo da cultura oficial e esse outro mundo que est a seu lado, o
ultrapassa e dele est se afastando.37

LArtiste, journal de la littrature et des beaux-arts, fundada logo aps a Revoluo


de 1830, por Achille Ricourt (1776-1865), rico amador de arte, apoiava claramente
o regime da Monarquia de Julho. Publicada at 1904, ao longo de sua existncia a
34 A diria de um bom operrio era, naquela poca, de 3,50 francos. Cf. CRUBELLIER, Maurice. Llargissement

du public. In: CHARTIER, Roger; MARTIN, Henri-Jean. Histoire de ldition franaise; le temps des diteurs. Op.
cit., p. 31.
35 Elementos visuais, fonte, paginao, vinhetas, ilustraes que integram o projeto grfico da revista e
compem seu ethos editorial, em uma projeo impressa de valores.
36 SAINTE-BEUVE. De la littrature industrielle. In: DUMASY, Lise. La querelle du roman-feuilleton. Grenoble:
ellug, 1999 (Revue des Deux Mondes, 1er septembre 1839), p. 25-43.
37 DUMASY, Lise. La querelle du roman-feuilleton. Grenoble: ellug, 1999, p. 11.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 153

revista mudou diversas vezes de proprietrio, editor e formato. Publicao semanal,


cara e luxuosa, voltada para um leitor artista ou amador de arte, diferenciava-se de
suas rivais pela nfase dada s Belas-Artes, com uma poltica de fraternidade das
artes e pelo amplo uso da ilustrao.38 Um uso recorrente de xilogravuras e gravuras
destacveis acompanhavam o fascculo semanal.
O grupo de artistas e escritores que publica confunde-se com o grupo do salo do
Arsenal, que se rene em torno de Charles Nodier e o nico salo que acolhe,
incondicionalmente, os defensores do novo regime e da nova esttica. Pois a sociedade parisiense desaprova, em seu conjunto, o novo regime e os sales se fecham,
de incio, para seus defensores e simpatizantes.39
Muito significativamente, o editorial de seu primeiro nmero tre artiste vem
assinado pelo escritor e crtico Jules Janin, folhetinista do j citado Journal des Dbats,
que fizera oposio ao regime de Carlos x e que, quela poca, foi considerado o
verdadeiro rgo da Monarquia de Julho.40 A posio poltica e o posicionamento
esttico de LArtiste so, deste modo, os mesmos do Journal des Dbats.
A revista rompe com certo equilbrio simtrico entre duas posies opostas no campo
poltico, associadas a dois posicionamentos estticos contraditrios no campo literrio: republicanos ou liberais, defensores da esttica neoclssica, e ultramonarquistas,
favorveis ao romantismo. A revista abriga todas as tendncias da nova esttica, at
mesmo a vertente frentica ligada aos pequenos romnticos e repudiada pela Revue
des Deux Mondes.
Todos os gneros literrios so, igualmente, acolhidos por LArtiste, que se mostra
aberta experimentao esttica, dando especial destaque s narrativas em prosa,
fantsticas, histricas ou realistas.41 Tais narrativas, com frequncia, trazem cena
protagonistas artistas pintores, escultores, msicos, poetas , conferindo-lhes
perante aquela sociedade burguesa um estatuto privilegiado. LArtiste diferencia-se
ainda das demais revistas literrias por um constante jogo de artigos crticos e aluses
38 MELLO, Celina Maria Moreira de. Crtica literria, poltica e revoluo esttica em LArtiste 1831-1838. In:

MELLO, Celina Maria Moreira de; CATHARINA, Pedro Paulo Garcia Ferreira. Crtica e movimentos estticos;
configuraes discursivas do campo literrio. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, p. 13-41.
39 DAMIRON, Susanne. Une grande revue dart LArtiste; son rle dans le Mouvement artistique au xixe sicle, ses
illustrations hors-texte. 1831-56. Thse complmentaire pour le Doctorat s-lettres prsente la Facult des
Lettres de lUniversit de Paris. 1946 (exemplaire dactylographi).
40 Cf. LArtiste, 1re srie, tome i-ii, 1831, disponvel em <http://gallica.bnf.fr>.
41 Narrativas de ambientao urbana, cujas tramas so contemporneas e envolvem personagens do povo
ou da pequena burguesia.

154 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

elogiosas cruzadas chamado de camaraderie , que assumem valor de reclame para


artistas e escritores. As questes relativas arte apresentam um vis poltico, quando
se trata de discutir a escolha de jris de exposies e sua periodicidade, critrios de
seleo em concorrncias pblicas ou premiaes.
Criada em 1833, igualmente por mile de Girardin, Muse des Familles, lectures du
soir foi apresentada como uma revista completa, possuindo qualidade comparvel
aos grandes peridicos ingleses.42 Trazia a arte, que era um luxo aristocrtico, s
camadas mais simples da sociedade, traduzindo-a de maneira familiar, no intuito
de tocar todos. No s a arte, mas tambm a literatura, a histria, a botnica, a
geografia, a moda, narrativas de viagens, costumes e temas militares, juntamente
com um amplo uso de imagens. Tinha a proposta de uma literatura divertida e
til, ou seja, de alto interesse, instrutiva e moral. O subttulo da revista indica um
pblico popular ou da pequena burguesia, o da famlia que se rene aps o jantar,
em torno de uma nica lmpada, para leituras do sero. O contedo da revista no
devia chocar os valores morais da famlia crist, das mulheres casadas ou solteiras
nem das crianas.
O Muse des Familles apresentava-se com o formato de um fascculo, disponvel
todo dia 20 de cada ms; os nmeros do primeiro volume (de outubro de 1833 a
setembro de 1834) foram publicados no dia 25. O volume continha doze nmeros
anuais de 32 pginas mensais cada. A assinatura poderia ser mensal, custando 25
centavos na sede do jornal ou setenta centavos pelo correio, ou anual, custando
5,20 francos na sede do jornal ou 7,20 francos pelo correio.
A liberalidade poltica do novo regime monrquico constitucional vai aproximadamente at 1835, quando a censura retorna mais atenta aos peridicos que se multiplicam, favorecidos pelos avanos tcnicos de impresso, com tiragens maiores e a
reproduo mecnica de imagens. Modernizam-se as tcnicas de impresso, difuso e circulao do impresso; jornais e revistas aumentam em um ritmo acelerado,
ampliando-se a massa de leitores urbanos.

42 Estas e as demais informaes referentes ao Muse des Familles encontram-se consignadas no relatrio de

pesquisa da aluna de Iniciao Cientfica Vaneska Cristina Prates da Silva Mariano, que desenvolveu, em
2006, com minha orientao, junto ao ppg Letras Neolatinas/ufrj, o projeto A iconografia e o ethos no
Muse des Familles (de 1833 a 1839).

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 155

A ilustrao romntica
Em torno do peridico rene-se uma comunidade de opinio, cuja opo poltica
e gosto esttico so por ele conduzidos. Objeto cultural de dimenses complexas, a
revista literria constitui um espao de enunciao em contnua tenso, na disputa
de grupos por hegemonia no campo poltico, literrio e artstico. Seus articulistas, os
editoriais e os autores que publicam em suas pginas associam-se com sua mscara
grfica, para constituir um espao de enunciao diversificado, mas coeso.
A ilustrao, no peridico literrio, assume um lugar de destaque. Nos anos 1820-30,
h trs tcnicas de impresso de gravuras: a calcografia, cuja matriz uma chapa de metal;
a litografia, cuja matriz uma placa de pedra desenhada com lpis gorduroso ou com tinta
oleosa; e a xilografia de topo, tcnica importada da Inglaterra por volta de 1820, em que a
madeira cortada no sentido transversal ao tronco original e permite imprimir, na mesma
pgina, texto e ilustraes.43
A calcografia um processo caro e limitado a imagens destacveis (hors texte). A
tcnica da litografia, de execuo mais fcil, igualmente limitada a tiragens pequenas de imagens destacveis, para que se possa conservar a nitidez do desenho. Foi
muito usada pelos jornais de moda e nas caricaturas. A xilografia de topo, de incio,
servia apenas para preencher partes de pginas em branco, nos finais de captulos
os chamados fundos de lmpada.
Rapidamente, por seu baixo custo e pela qualidade de imagem que faculta seu aperfeioamento tcnico, juntamente com a possibilidade de imprimir uma ilustrao contgua a um texto ou nele inserida, esse tipo de ilustrao ser encontrado em frontispcios
de livros e jornais, vinhetas de ttulo/vinhetas de cabealho, ornatos marginais, letras
capitulares, fundos de lmpada, vinhetas inseridas no texto ou at mesmo em pginas
destacadas. A xilografia de topo renovar os temas da literatura romntica e aproximar
os leitores do texto impresso, tornando-se marca esttica de jornais, revistas e livros.
A imprensa jornalstica serve-se deste recurso, em vinhetas de cabealho de carter
ornamental e publicitrio, muito apreciadas pelo leitor e que assumem o valor de
uma identificao enunciativa. Henri Braldi considera que a vinheta de ttulo de
La Mode constitui um marco da renovao da arte da gravura.44 Alis, La Mode
43 Cf. MARCONDES, Luiz Fernando. Dicionrio de termos artsticos; com equivalncias em ingls, espanhol e

francs. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1998.


44 Cf. BRALDI, Henri. Les graveurs du xixe sicle; guide de lamateur destampes modernes, vol. viii. Paris: L.

Conquet, 1889, p. 251.

156 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

que publica a primeira litografia: Traineau attel la Moscovite.45 Para Aristide Marie, destacam-se as vinhetas da Revue des Deux Mondes e da revista LArtiste, de
fevereiro de 1831, ambas de autoria de Tony Johannot (1803-52):
Podemos imaginar que a Revue des Deux Mondes seja publicada, em julho de 1830, sedutoramente enfeitada com um desenho de Tony Johannot? verdade que a revista ainda
no o austero volume em que se transformar mais tarde: o lpis de Tony associa-se
com bastante propriedade aos artigos de Nodier, Balzac, Dumas, Janin, Paul Foucher e
mile Deschamps. Mas quando essa revista tiver adotado, definitivamente, seu aspecto doutrinrio, as duas delicadas figuras femininas uma delas audaciosamente despida que aparecem na Deux Mondes, sero, sem perdo, eliminadas da capa. Do mesmo modo, Ricourt solicita ao gentil mestre que desenhe uma vinheta para o ttulo de
LArtiste, quando fundada, em 1831, essa luxuosa revista de arte.46

A vinheta de cabealho deve atrair a ateno do leitor e projetar a representao


figurativa de seus valores polticos e estticos. A vinheta de La Mode indica, pela
delicadeza do trao e o requinte da profuso de detalhes, o gosto esttico exigido por um leitor de elite, que v a corte como um modelo. A austera Revue des
Deux Mondes elimina uma sensual vinheta de cabealho, incompatvel com a
imagem de seriedade que almeja e cuja assinatura, a de Tony Johannot, associa-se ao romantismo de Charles Nodier e ao j citado salo do Arsenal. A vinheta
de cabealho de LArtiste uma alegoria da Literatura e das Artes, representadas
por jovens vestidos moda contempornea e no como figuras da tradio mitolgica, celebrada pelo neoclassicismo: trata-se de firmar uma declarao de
modernidade.
O Muse des Familles, cujo leitor menos abonado, faz questo de explicitar que
ter a mesma qualidade de impresso, seus artigos e gravuras sero assinados pelos
mais prestigiosos artistas:
A colaborao dos escritores e dos artistas de elite no aqui um mero ornamento
de prospecto, como em tantos jornais que se enfeitam dos mais belos nomes sem se

45 Cf. WATELET, Jean. La presse illustre. In: CHARTIER, Roger; MARTIN, Henri-Jean. Histoire de ldition franaise;

le temps des diteurs. Op. cit., p. 370.


46 MARIE. Alfred et Tony Johannot. Paris: H. Floury, 1925, p. 30-1.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 157

enriquecer de seus trabalhos; todas estas assinaturas figuram na coleo do Muse des
Familles e nela continuaro a figurar abaixo dos artigos e das gravuras mais notveis.47

O trao, contudo, ser mais simples, atendendo a objetivos didticos.


A ilustrao contribui para o sucesso comercial das revistas e no mais se limita
a ser porta-voz de uma posio poltica ou o espao que acolhe a divulgao de
posicionamentos estticos, mas torna-se, igualmente, um poderoso recurso para
a instrumentalizao pedaggica da imprensa. Trata-se de se colocar a servio da
educao literria, e artstica, assim como de veicular valores morais, visando a uma
massa ainda no representada pelas instituies polticas, mas que constitui a poderosa opinio pblica. A imagem, que pode ser encontrada ao longo da publicao,
associa-se ao texto potico, de teatro ou de fico narrativa, na crtica da sociedade
regida por um jogo poltico que controlado pelas elites, ou seja, a alta burguesia.
Alm de integrar o ttulo da revista, na forma de uma vinheta de cabealho, a xilogravura de topo pode ser encontrada, nos peridicos, em fundos de lmpada ou como
ilustrao acompanhando poemas, narrativas ou resenhas crticas de romances ou
coletneas de contos, com uma verdadeira funo de reclame.48 Do mesmo modo
que certos autores e crticos do romantismo circulam pelas revistas, os mesmos
desenhistas e gravadores podem assinar suas ilustraes.
O recurso insistente s imagens, nas revistas literrias, insere-se no mesmo movimento de popularizao da literatura dramtica sublime, que busca renovar cenrios, figurinos e jogos cenogrficos inspirando-se na pintura e em gravuras de temas
histricos. Igualmente no pode ser dissociada da ascenso do romance, que o levar
a ser o gnero/formato literrio dominante. Este aumenta suas tiragens, barateia seus
custos e busca o lucro, atento ao gosto do pblico, trazendo nas capas vinhetas de
ttulo e fazendo um uso cada vez maior de ilustraes.

47 Muse des Familles, t. 5, 1847-8: folha de rosto, verso, disponvel em <http://gallica.bnf.fr>.


48 Cf. MELLO, Celina Maria Moreira de. Crtica literria, poltica e revoluo esttica em LArtiste 1831-8. In:

MELLO, Celina Maria Moreira de; CATHARINA, Pedro Paulo Garcia Ferreira. Crtica e movimentos estticos;
configuraes discursivas do campo literrio. Op. cit.

158 mello, Celina Maria Moreira de. As revistas literrias no romantismo francs

Concluso
Algumas reflexes finais podem ser propostas guisa de concluso provisria. Sobre
a dificuldade de se definir romntico, sem levar em conta a coexistncia de estticas
conflitantes e rivais, associadas a valores sociais e programas polticos diversos. O
amplo espectro de revistas literrias e as escolhas de autores, gneros e tipos de ilustrao muito devem s circunstncias histricas e a certo oportunismo comercial.
Por outro lado, a questo da ilustrao, em suas relaes com o literrio, ainda no
est resolvida. A forte presena de imagens e sua proximidade com o texto representam uma concorrncia e uma aliana com o literrio, comparvel ao que ocorreu
com a fotografia, o cinema, a televiso e, em nossos dias, com a imagem digital. Seu
repdio pela Revue des Deux Mondes e seu uso facilitador na Muse des Familles
podem ser compreendidos luz da tradio neoplatnica que faz da imagem uma
cpia da cpia e confere ao texto mais prestgio, na clivagem atividade manual/
intelectual. Ou na tenso entre arte e literatura para as elites e arte e literatura para
as massas. Nas revistas literrias do romantismo francs, a ilustrao, que anos mais
tarde Baudelaire chamar de preciosos arquivos da vida civilizada,49 est longe de
ter uma funo acessria; sua funo merece, pois, ainda ser redimensionada.

Celina Maria Moreira de Mello professora de Lngua e Literatura Francesa da ufrj, onde atua no
Programa de Ps-graduao em Letras Neolatinas. Pesquisadora do cnpq, desenvolve atualmente
o projeto Do literrio & do prosaico; interrogaes sobre o realismo, voltado para a leitura de traos
da esttica realista, em obras do romantismo francs, publicadas no perodo da Monarquia de Julho
(1830-48). Publicou, entre outros ensaios, La trgica soledad y el hacer potico en Marguerite Duras
(Revista Pgina Literal, cole Lacanienne de Psychanalyse, Costa Rica, 2008), Baudelaire e a poesia
da cidade grande, Provocaes da cidade (In: Guberman & Pereira (org.), ufrj, 2009) e A Europa
culta e o maravilhoso deserto (O Eixo e a Roda, ufmg, 2009).

49 BAUDELAIRE, Charles. Le peintre de la vie moderne. In: Oeuvres compltes. Paris: Seuil, 1968, p. 565.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 144-159, 2013 159

Projetos para uma ptria imaginada:


o Brasil de Jos Bonifcio e Hiplito
da Costa
Isabel Lustosa

Resumo: Antes mesmo da Independncia, a ideia de um Brasil unido e coeso em torno


de um centro poltico existia como um ideal romntico na mente de alguns brasileiros.
Mas havia uma dissonncia entre aqueles que, olhando de dentro, viam o Brasil como
a sua ptria, regio ou localidade em que nasceram; e outros que, educados na Europa,
construram seu imaginrio em torno das imensas, reais ou idealizadas, potencialidades
do Brasil unido do Oiapoque ao Chu. Palavras-chave: Hiplito da Costa, nao, pertencimento, identidade.
Abstract: Even before the independence, the idea of a united and cohesive Brazil under a
political center already existed as a romantic ideal in the mind of some Brazilians. But there
was a disagreement between those who, looking inside, they saw Brazil as their homeland,
region or locality in which they were born; and others that, educated in Europe, they built
their imagination around the immense, real or idealized, potential of a united Brazil from
Oiapoque to Chu. Keywords: Hiplito da Costa, nation, collective belongingness, identity.

A ideia de um Brasil unido e coeso em torno de um centro poltico existia como


um ideal romntico nas mentes de alguns brasileiros antes mesmo da Independncia. Havia uma dissonncia entre aqueles que o viam de dentro como sua ptria, a regio ou localidade em que nasceram, e aqueles brasileiros cultos, educados na Europa que, de fora, construram seu imaginrio em torno das imensas,
reais ou idealizadas, potencialidades do Brasil. Esses brasileiros difundiram aqui,
atravs de seus escritos e de sua atuao, a ideia de um Brasil unido do Oiapoque
ao Chu. E este ideal j vinha sendo construdo bem antes da Independncia.

J havia um Brasil antes da Independncia?


Um tema que tem sido trabalhado pela historiografia o da existncia ou no de
uma Nao brasileira anterior ao Estado que se constituiu aps a Independncia.
Richard Graham mapeou este debate questionando os que, como Oliveira Lima
e Jos Honrio Rodrigues, pretendem que a nao brasileira, na forma fsica que
veio depois a assumir, j existia como projeto e vontade no esprito dos brasileiros antes mesmo da Independncia. Graham lembra que, para os europeus, pelo
menos at 1815, quando o Brasil foi elevado a reino, Brasil era simplesmente
a designao genrica das possesses portuguesas na Amrica do Sul.1 Graham
tambm questiona Benedict Anderson, quando este, em seu clssico livro Comunidades imaginadas, afirma que j existiam naes na Amrica Latina antes da
Independncia e refere-se ao aparecimento da conscincia nacional americana,
no final do sculo xviii.2 Na viso de Graham foi o Estado criado depois da Independncia que levou formao da Nao, e no o contrrio.
De fato, durante o sculo xviii, seria praticamente impossvel para um brasileiro
de So Paulo, por exemplo, se sentir identificado com um habitante de So Lus
do Maranho ou do Rio Grande do Sul. No s as distncias eram imensas, como
tambm a comunicao era quase nula. Dividir para reinar era a frmula adotada
pela Coroa portuguesa para melhor exercer o controle sobre sua principal colnia.

1 GRAHAM, Richard. Constructing a Nation in Nineteenth-Century Brazil: Old and New Views on Class,

Culture, and the State. The Journal of the Historical Society, v. 1, n. 2-3, p. 17-56, 2001, <http://www.dhi.uem.
br/publicacoesdhi/dialogos/volume01/vol5_mesa1.html)>.
2 ANDERSON, Benedict, citado por GRAHAM, Richard, <http://www.dhi.uem.br/publicacoesdhi/dialogos/
volume01/vol5_mesa1.html>.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 161

Assim, as capitanias estavam praticamente isoladas, sem estradas que as unissem.


S em circunstncias especiais, como a necessidade de escoar a produo de ouro
e pedras preciosas para o porto do Rio de Janeiro e fazer circular as mercadorias
necessrias para as vilas de Minas Gerais, que se permitia a abertura de alguns
caminhos.3
Depois da chegada da Corte, em 1808, essa situao mudou radicalmente. Um
dos efeitos mais importantes da instalao da sede da monarquia portuguesa no
Rio de Janeiro foi o incremento das comunicaes entre as provncias e a estreita
ligao que se estabeleceu entre as que hoje compem a regio Sudeste: Rio de
Janeiro, So Paulo e Minas. No entanto, no s as guerras da Independncia como
tambm as que ocorreram durante a Regncia demonstraram que esta unidade se
mantinha sob forte tenso e precria estabilidade e uma relativa verdadeira integrao que s seria mesmo alcanada depois da segunda metade do sculo xix.
O ponto que defendo aqui que se, para a maior parte o Brasil era apenas uma
projeo idealizada, a ideia de um Brasil unido e coeso em torno de um centro
poltico existia como um ideal romntico nas mentes de alguns brasileiros antes
mesmo da Independncia. Existia, de fato, uma dissonncia entre aqueles que, de
dentro do Brasil, viam como sua ptria a regio ou localidade em que nasceram
e aqueles brasileiros cultos, educados na Europa, que, de fora, construram seu
imaginrio em torno das imensas, reais ou idealizadas, potencialidades do Brasil.
A meu ver, foram esses brasileiros que difundiram aqui, atravs de seus escritos
e de sua atuao, a ideia de um Brasil unido do Oiapoque ao Chu. E este ideal j
vinha sendo construdo bem antes da Independncia.

Antecedentes: Pombal e d. Rodrigo


Segundo nos revelou o estudo clssico de Maria de Lourdes Viana Lyra, em Portugal,
fazia muito tempo havia gente pensando nas grandes possibilidades que adviriam
para o pas com a transferncia da Corte para a Amrica: os que desejavam o fortale-

3 Ver especialmente: LENHARO, Alcir. As tropas da moderao: o abastecimento da Corte na formao

poltica do Brasil (1808-1842). 2. ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes,
1993. Coleo Biblioteca Carioca, v. 25; e DIAS, Maria Odila L. da Silva. A interiorizao da Metrpole. In: A
interiorizao da metrpole e outros estudos. So Paulo: Alameda, 2005, p. 7-37.

162 lustosa, Isabel. Projetos para uma ptria imaginada

cimento da Nao Portuguesa tendo por base o Brasil.4 Um dos argumentos de que se
valiam era o de que o Brasil distante dos conflitos da Europa e com sua imensa costa
difcil de ser atacada oferecia maiores condies de defesa e segurana para a Coroa.
Esses idelogos pensavam em construir um imprio transocenico que recuperasse
para Portugal as glrias de seu passado. Seus sentimentos eram partilhados pela maior
parte dos brasileiros cultos. Afinal, antes de 1822, ramos todos portugueses.
Segundo Maria de Lourdes Lyra, desde o comeo do sculo xviii a imagem do Brasil
que circulava na Europa era uma imagem idealizada. Idealizao que se alimentava
no s dos relatos dos viajantes mas tambm da prpria falta de expectativas dos
portugueses, cada vez mais dependentes de sua mais importante colnia. O imprio americano lavava a alma portuguesa do humilhante status de nao de segunda
ordem no contexto das monarquias europeias e a confortava com a ideia de um
tesouro na Amrica, uma terra prometida para onde a Coroa e o prprio povo de
Portugal poderiam migrar a qualquer momento. As dimenses dessa terra eram tais
que a ela s poderia caber o ttulo de Imprio.5
A cooptao da juventude culta brasileira para esse projeto teria comeado ainda com
Pombal. A poltica de industrializao portuguesa preconizada por aquele ministro
deveria ter por base as matrias-primas produzidas no Brasil. Para desenvolver e
diversificar a produo agrcola da colnia americana, de forma que compensasse
as oscilaes dos rendimentos do quinto e a baixa do preo do acar, Pombal encomendou aos governadores e capites-generais das principais capitanias a realizao
de estudos sobre a flora e a fauna brasileira e de levantamento de seus produtos mais
comerciveis. Com isto, como foi bem demonstrado por Maria Odila Dias, uma
srie de trabalhos geogrficos e estatsticos foram ento realizados por brasileiros
formados em Coimbra. Estudos que seriam depois continuados sob a orientao de
d. Rodrigo de Sousa Coutinho, o conde de Linhares, ministro do Reino de d. Joo.6
Na opinio de Maria Odila, tais estudos, que eram frequentemente acompanhados
por relatrios de viagem, merecem ser analisados como parte integrante do processo de formao de uma conscincia nacional [,] pois revelam os conhecimentos
de que os brasileiros daquele tempo dispunham sobre a realidade de sua terra j

4 LYRA, Maria de Lourdes Viana. A utopia do poderoso imprio. Portugal e Brasil: Bastidores da Poltica 1789-

-1822. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994.


5 Idem.
6 DIAS, Maria Odila L. da Silva. Aspectos da Ilustrao brasileira. In: A interiorizao da metrpole e outros
estudos. So Paulo: Alameda, 2005, p. 39-126.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 163

no final do sculo xviii. Seus autores foram formados na atmosfera do reformismo ilustrado do Antigo Regime que orientaria a poltica joanina e manteriam, at
a Independncia, um sentimento patritico que os ligava a Portugal.7 A vinda da
famlia real para o Brasil deu-lhes a impresso de que, finalmente, ia se concretizar
o ideal de um grande imprio portugus centralizado na Amrica. O processo de
Independncia provocaria uma violenta alterao nesse sentimento e representou
uma ruptura bastante dolorosa para a maior parte do grupo.
Dentre aqueles brasileiros, destaco, como os que maior influncia tiveram sobre a
gerao que fez a Independncia, os nomes de Jos Bonifcio de Andrada e Hiplito da Costa. Ambos reforaram seu sentido de pertencimento grande ptria lusitana no ambiente ilustrado da Corte de Lisboa, tendo sempre em mente o Brasil.
Em 1819, no discurso de despedida da Real Academia de Cincias de Lisboa, Jos
Bonifcio, que viveu na Europa dos dezessete aos 56 anos, revela que o ufanismo
dos brasileiros do tempo j se construa com base nas dimenses continentais do
pas e em suas supostas e/ou evidentes riquezas naturais.
esta, ilustres acadmicos, a derradeira vez, sim, a derradeira vez, com bom pesar o
digo, que tenho a honra de ser o historiador de vossas tarefas literrias, e patriticas; pois
foroso deixar o antigo, que me adotou como filho, para ir habitar o novo Portugal,
onde nasci. [] Consola-me igualmente a lembrana de que da vossa parte pagareis a
obrigao em que est todo o Portugal para com a sua filha emancipada, que precisa de
por casa, repartindo com ela das vossas luzes, conselhos e instrues E que pas esse,
senhores, para uma nova civilizao e para novo assento das cincias! Que terra para um
grande e vasto Imprio! [] Riqussimo nos trs reinos da natureza, com o andar dos
tempos nenhum outro pas poder correr parelhas com a nova Lusitnia.8

Note-se que, em 1819, o Andrada j falava do Brasil como o novo Portugal e como
filha emancipada que precisa por casa em 1815 o Brasil fora elevado a Reino , e
exalta suas dimenses e suas grandes riquezas. No fala absolutamente em rompimento, mas em continuidade: em um processo do qual Portugal continuava a fazer
parte no sentido de estimular o desenvolvimento do Brasil.
S quando volta a So Paulo e se envolve nos problemas internos da provncia
7 Idem.
8 ANDRADA E SILVA, Jos Bonifcio de. Obras cientficas, polticas e sociais de Jos Bonifcio de Andrada e Silva.

Coligidas e reproduzidas por Edgard de Cerqueira Falco. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1963, p. 144.

164 lustosa, Isabel. Projetos para uma ptria imaginada

que Jos Bonifcio adota um sentido de pertencimento mais regional. Mesmo


assim, tanto naquela despedida de Lisboa em 1819, quanto, dois anos depois, nas
Lembranas e apontamentos do governo provisrio para os senhores deputados da
provncia de So Paulo, redigidas por ele e que seu irmo Antonio Carlos apresentaria nas Cortes de Lisboa, se empenharia pela integridade e indivisibilidade do
Brasil. Esse seria tambm o seu maior esforo no governo e nos debates da Assembleia Constituinte de 1823, onde alguns deputados pugnavam pelo Federalismo.9

Hiplito
O outro importante dessa gerao brasileira foi Hiplito Jos da Costa, que teve
grande influncia sobre os jornais e os jornalistas da Independncia. Protagonizando uma biografia cheia de lances extraordinrios e dono de uma inteligncia prodigiosa, Hiplito, ao longo de sua atividade jornalstica, produziu uma obra profunda
de anlise e crtica da realidade brasileira. A viagem aos Estados Unidos, onde viveu
de 1798 a 1800, lhe proporcionou um contato direto com a grande experincia democrtica e republicana que ali se vivia. Nos Estados Unidos ele se filiou Maonaria, o que tambm contribuiu para o desenvolvimento de maior abertura no sentido
das expectativas de liberdade e de direitos. A volta a Portugal, em 1800, seria marcada por uma militncia manica que acabaria por lev-lo priso.10
O Hiplito da Costa que se estabeleceu em Londres em 1805, depois de uma aventurosa fuga dos crceres da Inquisio, chegou transformado por essas experincias. Os anos de vida na Inglaterra, o contato com suas instituies polticas e a
prpria atividade editorial completariam sua formao. Quando o Prncipe Regente, d. Joo, partiu com a Corte para o Brasil, em 1808, Hiplito da Costa deu
incio publicao de um jornal a que escolheu chamar de Correio Braziliense.
Seu principal objetivo era trabalhar pela fixao definitiva da Corte no Rio de
Janeiro, garantindo assim a supremacia do Brasil no contexto da nao portugue9 Cf. LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independncia (1821-1823). So Paulo:

Companhia das Letras, v. i, 2000; e As trapaas da sorte: ensaios de histria poltica e de histria cultural.
Belo Horizonte: edufmg, 2004.
10 As duas experincias, a viagem Amrica e a priso, foram narradas pelo prprio Hiplito da Costa em
Dirio de minha viagem Filadlfia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1955; e Narrativa da
perseguio. Porto Alegre: Associao Rio-Grandense de Imprensa, Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, 1974.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 165

sa. Ou seja, era dar concretude ao projeto do grande imprio luso-brasileiro com
sede na Amrica tal como vinha sendo pensado desde o tempo de Pombal por
alguns ilustrados portugueses e brasileiros.
Um aspecto que merece ser destacado na biografia de Hiplito da Costa o pouco tempo que ele viveu no Brasil em contraste com o tanto que ele escreveu sobre
o Brasil. Hiplito nasceu em 25 de maro de 1774, na colnia de Sacramento, na
Cisplatina, regio que hoje pertence ao Uruguai, viveu ali at os trs anos, passou
infncia e adolescncia no Rio Grande do Sul cerca de catorze anos e foi para
Coimbra, iniciando uma trajetria que o manteria fisicamente afastado do Brasil at
a sua morte, aos 49 anos, em 1823. No se tem notcia de que ele tenha estado alguma
vez no Rio de Janeiro, em So Paulo ou Minas Gerais e, menos provavelmente ainda,
na Bahia, no Recife, em So Lus ou Belm do Par. Enfim, do Brasil, Hiplito s conheceu o Rio Grande do Sul, regio de fronteira que, durante um longo perodo de
nossa histria, foi alvo de disputas com as colnias espanholas do Prata. No entanto,
Hiplito foi, certamente, dos homens de sua gerao, o que mais escreveu sobre o
Brasil. Seu jornal, o Correio Braziliense, foi publicado em Londres entre 1808 e 1822,
duas datas decisivas para a nossa histria. Assim, durante catorze anos, um brasileiro que nasceu no Uruguai, formou-se em Portugal, conheceu os Estados Unidos
antes e melhor que qualquer outro de seu tempo, e que viveu a maior parte de sua
vida na Inglaterra, dedicou-se a escrever um jornal para o Brasil.
O que nos leva questo inicial? Qual Brasil? Um Brasil que se alimentava daquele
ideal romntico que sustentava o projeto do Imprio luso-brasileiro. Ideal que,
por sua vez, se construra sobre a base slida de estudos cientficos tais como j
bem o demonstrou Maria Odila Dias e que tinham uma finalidade muito prtica:
a explorao econmica e racional dos recursos naturais do Brasil.11

O Brasil nas pginas do Correio Braziliense


Hiplito foi um observador atento e um leitor compulsivo que examinou e comentou, ao longo dos catorze anos em que durou o Correio Braziliense, uma vastssima documentao. Os documentos reunidos no Correio cobrem quase tudo
que estava acontecendo de relevante em termos polticos e econmicos na Europa
11 DIAS, Maria Odila L. da Silva. Aspectos da Ilustrao brasileira. In: A interiorizao da metrpole e outros

estudos. Op. cit.

166 lustosa, Isabel. Projetos para uma ptria imaginada

e nas Amricas durante o perodo que vai de 1808 a 1822, com nfase no que se
passava no Brasil e em Portugal. Sua vontade de ver adotado no Brasil o modelo
liberal ingls fez com que fosse um grande divulgador da Constituio inglesa e
de obras sobre o assunto.
Alguns assuntos percorrem a coleo do Correio Braziliense do comeo ao fim.
Creio que os mais intensivamente trabalhados so os temas da m administrao
do reino portugus, da corrupo e do filhotismo que vieram com a Corte de
Portugal para o Rio de Janeiro. Desde os primeiros nmeros, Hiplito insiste que
a estada da Corte no Brasil deva ter como papel primordial o consolidar de vez os
domnios portugueses em um s Imprio. Mas para viabilizar esse projeto seria
necessrio dar-lhe unidade administrativa, estabelecendo em toda parte as mesmas leis e racionalizando as despesas com a administrao pblica.
O mau emprego que se faz das rendas publicas seria um tema recorrente em
seu jornal. Em julho de 1810, ele lembrava que o grande dficit nas finanas do
Brasil era uma barreira insupervel sua prosperidade. Apesar de o governo pedir somas expressivas de dinheiro emprestado, vivia sem crdito e no conseguia
empreender os melhoramentos de que dependia a futura prosperidade do pas,
como, por exemplo, a abertura de estradas. O que faltava era, constatava ele j em
junho de 1809, dada a extenso do territrio, o estabelecimento de um plano que
implicasse a ramificao da administrao das finanas no Brasil, ligando suas
diferentes partes, atravs da correspondncia com o errio dos coletores das rendas pblicas estabelecidos nas diferentes capitanias. Enfim, era preciso organizar
a cobrana dos tributos e unificar o errio por meio de uma administrao central
na Corte.12
Durante todo o tempo em que durasse o jornal, Hiplito atacaria duramente a tradio do governo portugus de conceder monoplios que tiveram continuidade no
Brasil. Para ele, os nicos que se beneficiavam com essas prticas eram aqueles que
ganhavam a concesso, pois para o Estado ela era totalmente desvantajosa. A seu
ver no h nada to capaz de sufocar a indstria, de destruir o esprito de emulao
e de perpetuar os abusos, como os monoplios. Hiplito lembra que, ao contrrio
do Brasil, nos Estados Unidos no h concesso de monoplio para nenhum tipo
de atividade econmica.13
12 COSTA, Hiplito da. Correio Braziliense, v. 2, n. 13, jun. 1809, p. 637. So Paulo/Braslia: Imprensa Oficial do

Estado/Correio Braziliense. Edio fac-similar, 2001-2003.


13 Idem, v. 20, n. 119, abr. 1818, p. 424.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 167

Outro aspecto precursor do pensamento de Hiplito so as suas reflexes sobre os


danos que a escravido causava sociedade brasileira e as vantagens do trabalho
livre. Acreditando que logo esse mal seria superado, ele falar, de forma recorrente, da importncia de se estimular a imigrao de europeus, artistas, agricultores
mineiros, pescadores, homens de letras e trabalhadores em geral. Em dezembro de
1810, dizia que era preciso assegurar a liberdade pessoal e o direito de propriedade
dos imigrantes atravs de leis fixas e permanentes, e no de Decretos, e Alvars,
que um Secretrio de Estado faz pela manh, e que outro Secretrio de Estado dispensa por um Aviso, na tarde do mesmo dia.14 Lembraria anos depois que era justamente por faltarem aqui aquelas garantias que os imigrantes vinham preferindo
os Estados Unidos ao Brasil.15
Hiplito tinha uma perspectiva econmica da educao, insistindo sempre sobre
a necessidade de espalhar instruo til no Brasil e de que a evoluo do carter
nacional seria alcanada com medidas como o estabelecimento de uma Universidade no Brasil, a introduo geral das escolas de ler e escrever e a ampla circulao
de jornais e peridicos, nacionais e estrangeiros.16 Tambm insistia na importncia da formao de quadros de elite capazes de servir ao Estado e dizia que no
se pode formar polticos sem os estudos preliminares da sua cincia, a leitura da
histria e o conhecimento do que atualmente vai acontecendo no mundo, e para
isso as obras peridicas so essenciais.17
Da sua perspectiva, se a liberdade de imprensa era fundamental para a ampliao
dos horizontes das elites, era tambm essencial para a boa marcha dos negcios
pblicos. Um dos temas insistentemente trabalhados nas pginas do Correio a
necessidade de transparncia das contas e dos negcios pblicos, e citava como
exemplo a Inglaterra, onde os planos de finanas do governo eram obrigatoriamente apresentados e discutidos no Parlamento. Durante as discusses, os jornais
podiam opinar sobre o assunto, inserindo observaes de outras pessoas. Com
isto, conclui o jornalista, um tal plano discutido por toda a nao e o Ministro
de finanas se pode auxiliar dos conselhos de todos os homens instrudos.18 Em
Portugal, no entanto, no havendo um Parlamento e uma imprensa livre, todas

14 Idem, v. 5, n. 31, dez. 1810, p. 652.


15 Idem, v. 16, n. 97, jun. 1816, p. 623.
16 Idem, v. 22, n. 130, mar. 1819, p. 315.
17 Idem, v. 22, n. 130, mar. 1819, p. 315.
18 Idem, v. 5, n. 26, jul. 1810, p. 120.

168 lustosa, Isabel. Projetos para uma ptria imaginada

as decises importantes eram tomadas em segredo e a ningum era permitido


examinar as contas pblicas. A seu ver era necessrio que aqueles gastos fossem
feitos s claras e que as circunstncias que ocasionassem a riqueza ou a pobreza
do errio no deveriam ser matria de segredo de Gabinete e que o meio eficaz
de coibir as ms prticas fazer com que elas sejam examinadas e discutidas em
pblico.19
Em seus escritos Hiplito informa sobre a realidade de vrias regies do pas,
acompanhando os melhoramentos que vo sendo implementados. Assim que
tomamos conhecimento, em maro de 1810, de que fora introduzida na capitania
do Rio Grande a cultura de linho cnhamo.20 O jornalista chama a ateno para
a importncia dessa cultura na confeco das cordas e velas essenciais para a Marinha. Em agosto de 1811, ele informa que fora criada uma biblioteca pblica na
Bahia, que ali se faziam subscries a fim de mandar a Londres algum indivduo
hbil, que aprendesse os novos mtodos das escolas de Lancaster e Bell, e louva
a criao de um novo estabelecimento para a educao de meninos pobres.21 Os
melhoramentos implementados pelo intendente-geral de polcia do Rio de Janeiro
so amplamente comentados no Correio: construo de novos chafarizes; e pontes
de pedra em So Cristvo; na rua do Senado e na praia do Flamengo; canalizao
das guas do rio Maracan; limpeza de valas nas ruas da Cidade Nova; abertura de
estradas, ligando Itagua Real Fazenda de Santa Cruz; ligando Campos a Minas
Gerais etc.22
Em maro de 1812, o Correio informa sobre as medidas tomadas pelo governador
de Mato Grosso para melhorar as comunicaes do interior do Brasil atravs dos
rios. Que o Amazonas fora reconhecido como navegvel, o que, a seu ver, promete muita prosperidade para aquela regio.23 Em maro de 1813 informa que na
comarca de Porto Seguro abrira-se navegao o rio Belmonte, o que facilitaria
a comunicao desta capitania com as do centro24 e, em outubro de 1818, que fora
tambm aberto navegao o rio Jequitinhonha, facilitando o comrcio entre Minas e a Bahia.25 Em abril de 1815, ele registra o estabelecimento de um correio
19 Idem, v. 23, n. 136, set. 1819, p. 299.
20 Idem, v. 4, n. 22, mar. 1810, p. 307.
21 Idem, v. 18, n. 104, jan. 1817, p. 113.
22 Idem, v. 20, n. 116, jan. 1818, p. 75; v. 21, n. 125, out. 1818, p. 465; v. 22, n. 128, jan. 1819, p. 97.
23 Idem, v. 8, n. 46, mar. 1812, p. 391.
24 Idem, v. 10, n. 58, mar. 1813, p. 373.
25 Idem, v. 21, n. 125, out. 1818, p. 465.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 169

regular do Cear para o Maranho e que j se estaria organizando outro do Cear


para Pernambuco.26 Em abril de 1818, critica o fato de que a linha do correio entre
o do Rio Grande e So Paulo tinha sido concedida sob a forma de monoplio a
um indivduo.27
Em janeiro de 1820, o jornalista sada a iniciativa do Brasil de incentivar e patrocinar a ida de cientistas, professores, artistas, entre outros, ao pas. A seu ver,
essas vistas de poltica liberal do Governo do Brasil so muito importantes para
o futuro do pas, pois
estes sbios publicaro depois seus jornais, estes sero traduzidos na linguagem do
pas, e assim a indstria estrangeira suprir a falta da nacional, porque certo que, sem
o conhecimento cabal dos recursos naturais do pas, mal podero os homens, que se
acharem testa do Governo, fazer uso dos meios fsicos, que a natureza de seu terreno
lhes oferecer, e j que as circunstncias no permitem que se aproveitem os talentos dos
naturais, pelo menos utilize-se a indstria estrangeira.28

Um dos projetos sobre o qual mais insistira Hiplito era o da necessria mudana
da capital do Brasil para o interior. Em maro de 1813, ele recomenda que, se os
portugueses tivessem patriotismo e quisessem de fato agradecer ao Brasil que os
acolheu, eles se estabeleceriam em uma regio central, no interior do pas, perto
das cabeceiras dos grandes rios e construiriam ali uma nova cidade. O problema
dessa cidade nascida no meio do deserto seria resolvido com a construo de
estradas que se dirigissem a todos os portos de mar, ligando-a s principais povoaes. Desta maneira, a capital do pas serviria de ponto de reunio entre as partes
mais distantes do Brasil. Com isto seriam lanados, conclui Hiplito, os fundamentos do mais extenso, ligado, bem defendido e poderoso imprio que possvel
que exista na superfcie do Globo, no estado atual das naes que o povoam.29

26 Idem, v. 14, n. 83, abr. 1815, p. 540.


27 Idem, v. 20, n. 119, abr. 1818, p. 424.
28 Idem, v. 24, n. 140, jan. 1820, p. 87.
29 Idem, v. 17, n. 98, jul. 1816, p. 95.

170 lustosa, Isabel. Projetos para uma ptria imaginada

Concluso
Creio que esse elenco de temas trabalhados por Hiplito da Costa em seu jornal
interessante para pensar como a ideia de um Brasil unido e coeso em torno de
um centro poltico existia nas mentes de alguns brasileiros. Se considerarmos o
imenso pragmatismo de toda a reflexo e de toda a ao de Hiplito da Costa no
sentido de reforar o Brasil enquanto sede do Reino de Portugal e de definir e
fortalecer os contornos (inclusive fsicos) da nao brasileira, minha hiptese sai
fortalecida. Pois resta demonstrado que, mais do que para os que viviam aqui, s
voltas com os problemas locais de suas comarcas e provncias, o Brasil, enquanto
nao, era para Hiplito uma construo simblica, uma utopia a ser concretizada, bem de acordo com a definio clssica de Eric Hobsbawm, para quem as
naes so criaes culturais, ou de Benedict Anderson, que define nao como
uma ideia que se constri.30
Anderson lembra-nos de que nem mesmo os membros das menores naes jamais conheceram a maioria dos seus compatriotas, nem os encontraro, nem sequer ouviro falar deles, embora na mente de cada um esteja viva a imagem de
sua comunho.31
A nao comunidade imaginada, na medida em que mantemos uma relao
de pertencimento com ela porque foi l que nascemos, foi l que teve origem a
histria de nossa famlia e l o lugar para onde pretendemos um dia voltar. Se a
ideia de nao pertence exclusivamente a um perodo particular e historicamente recente, como diz Hobsbawm, e este carter recente coincide, de acordo com
Anderson, com a emergncia do Iluminismo, podemos pensar o Brasil mais do
que nunca como uma comunidade imaginada, ou, melhor ainda, como uma comunidade que se comeava a imaginar. E Hiplito da Costa, que vivenciou o momento de ecloso desse esprito no mundo, por sua atuao no Correio Braziliense,
foi tanto ator quanto personagem desse acontecimento. Cidado do mundo, sua
condio de estrangeiro conformou sua identidade tanto em Portugal, quanto nos
Estados Unidos, quanto na Inglaterra e at mesmo com relao ao Brasil. Seu lugar nenhum no mundo, seu no pertencimento a nenhuma nao serviram como
reforo sua opo pelo Brasil, sua identidade de brasileiro.
30 HOBSBAWM, Eric J. Naes e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e

Terra, 1990; ANDERSON, Benedict. Nao e conscincia nacional. So Paulo: tica, 1989.
31 ANDERSON, Benedict. Nao e conscincia nacional. Op. cit.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 171

Atravs das pginas do Correio Braziliense, Hiplito da Costa contribuiu decisivamente para reforar a ideia de um Brasil que juntava as vrias partes que at ento
haviam permanecido em estado latente de fragmentao em uma unidade poltica
e simblica. A meu ver ele pde obter essa viso privilegiada a partir de alguns
fatores. Ele via o Brasil a distncia e estava alheio aos eventuais conflitos internos,
produzindo a partir da uma anlise menos apaixonada do que quem aqui vivia.
Outro fator que Hiplito tinha construdo sua identidade brasileira em oposio s identidades das pessoas dos pases em que viveu em seu longo e definitivo
afastamento do Brasil, assim tinha uma noo mais precisa do que fazia diferena
entre ser brasileiro e ser portugus, norte-americano ou ingls, por exemplo. E,
finalmente, pesa o fato de que foi atravs de seus estudos e da documentao que
serviu de base aos tantos textos que Hiplito escreveu sobre seu pas que ele formou uma ampla bagagem de conhecimentos sobre o Brasil, seus problemas e potencialidades. Por tudo isto, Hiplito pde, de forma mais objetiva, estabelecer as
caractersticas essenciais da nao brasileira e do modelo de organizao poltica
e administrativa que mais lhe convinha.
Como j se disse anteriormente, o que marca uma poca no so as grandes obras
dos grandes autores mas sim uma verso simplificada e vulgarizada delas, capaz
de ser apreendida pelo senso comum dos contemporneos. Homens influentes
como Jos Bonifcio e Hiplito da Costa lideraram a difuso do ideal do Brasil
poderoso formando uma nica e integrada Nao. Esse pensamento circulou tanto atravs dos impressos mas tambm atravs das prticas normais de sociabilidade que ento havia, reunies da Maonaria, em casa de particulares, em tabernas
e nas praas.
Naturalmente que outras ideias que naquele momento predominavam no mundo
tambm vieram aqui desaguar de forma vulgarizada. Nos jornais que participaram da campanha pela Independncia, entre 1820 e 1823, as referncias a expresses ento correntes na Europa e nos Estados Unidos aparecem de forma generosa. Quase todos falam em Luzes, liberalismo, constitucionalismo, pacto social,
bem geral, direitos do cidado etc. Eram ideais que corriam o mundo e chegavam
aqui pelos mais variados meios. No entanto, por si ss elas no levariam Independncia. Nem mesmo quando associadas s vises idealizadas do Brasil e de seu
imenso potencial.
Na verdade, em um primeiro momento, tudo isto foi fator de unio e os laos do
Brasil com Portugal foram bastante fortalecidos pela vinda da Corte para c. Esse
episdio marcou definitivamente o destino do Brasil independente, que perma-

172 lustosa, Isabel. Projetos para uma ptria imaginada

neceria ainda muito ligado ao de Portugal, tanto por laos polticos, em virtude de
d. Pedro i ser tambm herdeiro do trono portugus, quanto por laos simblicos,
pelo fato de continuarmos a viver sob a mesma dinastia que reinava l.

Isabel Lustosa pesquisadora da Casa de Rui Barbosa. Principais publicaes: D. Pedro i Um


heri sem nenhum carter (Companhia das Letras, 2006); As trapaas da sorte: ensaios de histria
e poltica cultural (edufmg, 2004); O nascimento da imprensa no Brasil (Jorge Zahar Editor, 2003);
Insultos impressos A guerra dos jornalistas na Independncia (1821-1823) (Companhia das Letras,
2000); coeditora, ao lado de Alberto Dines, da edio fac-similar do Correio Brasiliense (1802-1822),
de Hiplito da Costa (Imprensa Oficial do Estado de So Paulo, 2002-2003).

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 160-173, 2013 173

A comdia urbana: de Robert Macaire


Lanterna Mgica. Representaes
e prticas comparveis na imprensa
ilustrada no sculo xix entre o
romantismo e o realismo
Heliana Angotti-Salgueiro

Resumo: Estudo comparativo entre a srie de caricaturas de Honor Daumier, Les Robert
Macaire, e as do folhetim A Lanterna Mgica, atribudas a Manuel de A. Porto-Alegre. A
apropriao evidencia-se na forma e no sentido da crtica dos costumes, da poltica, da
corrupo e das situaes cotidianas, temas atemporais, de significativa atualidade. Palavras-chave: caricaturas, histria sociocultural, vida urbana, modelos franceses no Brasil.
Abstract: Comparative study between a series of caricatures of Honor Daumier, Les Robert
Macaire, and the feuilleton A Lanterna Mgica, attributed to Manuel de A. Porto-Alegre.
The authorship of A Lanterna Mgica is evidenced by the form and meaning expressed in
the criticism of manners, politics, corruption and everyday situations, themes that are ageless and relevant nowadays. Keywords: caricatures, sociocultural history, urban life, French
models in Brazil.

As pesquisas sobre a sociedade e a cultura vm confirmando, nos ltimos decnios,


a importncia dos indivduos, ou atores sociais expresso que j se consagrou na
historiografia , ligados s redes de relaes e s experincias de deslocamento, como
base para o estudo da transferncia, apropriao e recepo de modelos ou da circulao de representaes.1 No mbito dessa Histria deve-se situar a mobilidade dos
textos e das imagens na trajetria daqueles que as produziram, ou seja, observando
as situaes vividas em contextos comuns.2 Minhas pesquisas vm se concentrando
h tempos sobre atores sociais no espao urbano, ou seja, na operao historiogrfica
pela via das biografias intelectuais dos que partilham situaes, modelos e referncias
semelhantes. Assim, levantei itinerrios pessoais esquecidos que colocam questes
significativas para se pensar o que acontece com modelos formais franceses no Brasil,
num campo vasto que o da histria social e cultural das cidades.
A comparao que proponho, inscrita no estudo da imprensa ilustrada do sculo xix,
trouxe luz um dos temas mais fecundos para o estudo da apropriao de modelos
do romantismo francs no Brasil, em variante exemplar que evidencia a trama das
redes artsticas de uma poca. Trata-se da filiao explcita entre A Lanterna Mgica,
peridico atribudo a Manuel de Arajo Porto-Alegre e a seu discpulo Rafael Mendes
de Carvalho, editado no Rio de Janeiro em 1844-5, e a clebre srie de litografias criada
por Honor Daumier, Les Robert Macaire, publicadas primeiramente no Le Charivari a
partir de 1836,3 e que sero em seguida associadas a pequenos textos num livro ilustrado,
Les cent-et-un Robert Macaire, intercalando episdios escritos por Maurice Alhoy e
Louis Huart, autores que praticavam a literatura ilustrada, to prpria dos anos 1830-50.

1 Agradeo, primeiramente, aos organizadores do Colquio, professores Cilaine Alves Cunha e Vagner

Camilo, a gentileza do convite para retomar partes de minha pesquisa publicada em: A comdia urbana: de Daumier a Porto-Alegre (com colaboraes de Joo Roberto Faria e Ana Maria Kieffer). So Paulo: faap,
2003, por ocasio da exposio internacional homnima de que fui curadora, e que recebeu o apoio da
Fundao Armando lvares Penteado. Reno aqui algumas reflexes desse texto e partes de conferncias
proferidas sobre o tema, que me so solicitadas continuamente na Frana, procurando reforar nesse
texto aspectos histrico-metodolgicos das imagens em comparao, das quais apenas uma pequena
parte pode ser reproduzida.
2 A vasta bibliografia especfica ao tema usada neste trabalho consta no catlogo citado supra. Ver,
especialmente em termos do enfoque, o nmero especial da revista Annales, Histoire et Sciences Sociales,
n. 2, 1994, sobre Littrature et histoire, e Bernard Lepetit (Dir.). Les formes de lexprience. Une autre histoire
sociale. Paris: Albin Michel, 1995.
3 A pertinncia desta comparao foi apenas sugerida no clssico de Herman Lima, Histria da caricatura no
Brasil. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1963.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 175

No se trata de uma comparao simplificadora de ponto por ponto, mas da contextualizao de visualidades em um mesmo universo cultural, de apropriaes parciais
tanto do esprito do texto da dupla francesa, quanto, e especialmente, das caricaturas
de Daumier, de que Alhoy e Huart por sua vez j haviam se apropriado, reunindo-as
nos Les cent-et-un
Sempre defendo o cuidado com a terminologia nesses casoscomparativos a reter,
aqui, um princpio metodolgico bsico:transferncias de discursos e imagens no so
mais analisadas hoje sob categorias ultrapassadas como influncia, derivao, reflexo. Ao levar em conta a dimenso histrica de itinerrios e prticas comuns a uma gerao, apesar das diferenas que sempre existem em vrios nveis, enxergamos de outra
maneira uma relao comparativa (no caso, entre Daumier e Porto-Alegre), ou seja,
em termos de apropriao, citao, referncia, nunca de cpia e jamais de influncia.4
O interesse em comparar as publicaes A Lanterna Mgica e Les cent-et-un Robert
Macaire ver a primeira como uma variante da segunda inscrevendo as duas em
um mesmo cenrio cultural ao detectarmos as convergncias e as singularidades
histricas dos personagens, suas experincias semelhantes em contextos diferentes,
vamos alm da simples busca das origens.
Nos labirintos da micro-histria, muitos atalhos levam-nos a caminhos que se encontram, a objetos que se relacionam, mesmo se procedentes de regimes de historicidade
diferentes. Porto-Alegre chega a Paris em 1831, em plena ecloso da imprensa ilustrada; ele acompanha seu mestre Jean-Baptiste Debret (que, sabemos, viveu no Rio
de Janeiro desde 1816 como desenhista e pintor da Misso Francesa). Porto-Alegre
voltar ao Brasil em 1837, e em 1844 ele coloca em circulao A Lanterna Mgica,
lbum annimo com quinze caricaturas atribudas a Rafael Mendes de Carvalho
sob sua orientao direta5 (duas esto assinadas), e 23 cenas ou episdios, em 180
4 Convido o leitor a ler minha introduo traduo do livro de Michael Baxandall, Padres de inteno.

A explicao histrica dos quadros. So Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 9-23, em que sublinho a
recusa desse autor noo de influncia, segundo ele uma das pragas da crtica de arte. O artista e os
modelos convocados ou apropriados so temas que permanecem da maior atualidade em histria da
arte basta lembrarmos duas recentes exposies na Frana: Picasso et ses matres no Grand Palais, no
outono de 2008, e Czanne/Picasso, no vero de 2009, em Aix-en Provence, que colocaram muito bem a
questo que vem nos ocupando h anos, em vrios campos, sobre as relaes entre a Frana e o Brasil,
desde a arquitetura e a histria intelectual do urbanismo no sculo xix, fotografia do entreguerras, mais
recentemente. Ver resenha de minha autoria sobre os catlogos destas exposies, em futuros nmeros
dos Anais do Museu Paulista.
5 A historiografia consagra Arajo Porto-Alegre como autor das primeiras caricaturas feitas no Rio de

176 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

pginas de texto.6 O subttulo indica ser um peridico plstico-filosfico, mas h mais


dilogos do que prosa, e h cartas aos leitores de cunho jornalstico, inexistentes nos
Les cent-et-un Robert Macaire.
No estudo das convergncias entre o texto-modelo francs e a variante brasileira,
observe-se que a estrutura das duas obras parecida, a frmula da composio editorial a do folhetim, uma espcie de fragmentao em partes da histria composta
de pequenos captulos que no so obrigatoriamente lineares. Pequenos episdios
em sequncia, ilustrados por vinhetas, precedidos do ttulo e acompanhados da caricatura correspondente, que se intercala a cada trs pginas de texto e efeito de um
contraponto, no caso dos Cent-et-un Robert Macaire. Na Lanterna, o espao ocupado
pelo texto varia muito, no h essa sistemtica de composio e diagramao uniforme, a numerao dos episdios confusa, sendo bem menor o nmero de imagens.
Daumier e Porto-Alegre viveram, evidentemente, trajetrias biogrficas diferentes;
Paris e Rio eram muito diferentes naquela poca, como ainda o so hoje; no entanto, o
historiador responsvel pela interpretao que constri, apoiando-se em documentos
pertinentes, na seleo de imagens em sries e associao com outras mdias, como
foi o caso da exposio na faap, em que objetos tridimensionais, msica e teatro dialogaram e enriqueceram o tema: ao fazer a histria da Lanterna Mgica, e ao lev-la ao
grande pblico em 2003, procurei no separar os nveis, mas acentuar as relaes entre
eles, alm de sugerir o que representam depois de tanto tempo, destacando seu interesse
em relao a temas da atualidade como a corrupo, a denncia de aproveitadores de
toda sorte, de prticas de especuladores e charlates, do mau carter dos homens das
finanas e de polticos, da crtica social e da misria, enfim da comdia humana.
Voltemos anlise comparativa do projeto grfico. A organizao da pgina ilustrada, com o enquadramento ornamentado da cena, apresenta um medalho na
parte superior que encerra o ttulo da srie e o nmero do episdio, e outro medalho maior na parte inferior da pgina para a legenda essa apresentao se repete
com variaes em outros livros ilustrados ou nas inmeras sries de estampas que
circularam na poca (alguns exemplos: Gavarni, sries dos Bal masqu e Fantaisies,
Janeiro; as que restaram e em mau estado de conservao so A campainha e o Cujo e A Rocha Tarpeia,
que satirizam o cronista Jos Joaquim da Rocha, e Estado de um eleitor em 1839. Sobre elas Soares de
Souza escreveu que s podiam ter sido feitas por quem conhecesse Daumier e Gavarni. Elas figuraram na
exposio A comdia urbana. Ver a reproduo e meus comentrios no catlogo citado, p. 77-81.
6 Encaminhei a algumas editoras a proposta de se fazer um fac-smile com uma introduo analtica deste
raro peridico (um nico exemplar completo encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e foi
mostrado na exposio).

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 177

Daumier, Msaventures et msapointments de M. Gogo, dos dois com Victor Adam,


Le muse pour rire (cujo texto era tambm de Huart e Alhoy), e, entre ns, o lbum
de Johann Jacob Steimann, Souvenirs de Rio de Janeiro, em 1835).
por isso que, alm das similitudes especficas que resultam da apropriao feita por
Arajo Porto-Alegre da srie dos Robert Macaire de Daumier, trata-se aqui de associ
-los a outros nomes contemporneos, numa rede de correspondncias que os articula
entre si. De Daumier a Porto-Alegre passamos por Charles Philipon, Paul Gavarni,
Henri Monnier, Grandville e outros desenhistas e litgrafos, sublinhando sua associao crtica de costumes das cenas de La comdie humaine de Honor de Balzac:
evidncia que justifica, entre outras, o ttulo que demos exposio que se seguiu pesquisa. Numerosos temas se repetem nas sries colocadas em paralelo, ramificaes de
episdios diferentes colocam em cena os mesmos personagens, cuja dinmica forma
um panorama social do sculo xix (para lembrar uma expresso de Walter Benjamin).
Porto-Alegre entre ns um estudo de caso ideal, por sua participao no universo
da cultura oitocentista do Rio, onde ele se liga a diversas instituies e campos das
artes visuais ( pintor, desenhista e arquiteto) literatura, passando pela histria e
a geografia, a crnica, a crtica de arte, a msica e o teatro, sendo conhecido autor
de numerosas peas e de cenografias. Foi tambm responsvel por um pensamento
patrimonial precoce e por tomadas de posio nacionalistas junto a instituies
como a Escola de Belas Artes, o Instituto Histrico e Geogrfico, combates em que
tentava cumprir sua misso de civilizar seu pas, apesar dele.
Reconhecemos em Porto-Alegre um representante tpico da pluralidade cultural
dos homens de seu tempo, com competncias mltiplas a maleabilidade de pertencimento dos indivduos a grupos sociais diversos da sociedade urbana da poca
era comum, bem como a curiosidade intelectual. (A contextualizao dos textos
de Porto-Alegre em funo da diversidade mesma dos temas que ele tratou ainda
est por ser feita foi leitor de Montesquieu, Jean-Baptiste Say, Humboldt, Michel
Chevalier, Saint-Simon, Comte de Laborde,7 autores dos quais se apropria na busca
de solues para os problemas do Brasil.) Esta pluralidade de competncias nutrida
pelo homem do sculo xix exige do pesquisador de hoje abertura e conhecimentos
interdisciplinares. A Lanterna Mgica uma pequena parte de sua obra, que ficou
esquecida nos anais da histria oitocentista, mas que caracteriza um perodo em que
no se pode mais pensar em isolamento cultural. Ela se afigura como a sntese de um
7 Entre esses textos, Bellas Artes. In: Relatrio da Commisso Brazileira na Exposio Universal de Paris.

Apresentao de J. Constncio (Conde de Villeneuve). Rio de Janeiro: Typ. Claye, 1868.

178 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

tempo em que a cidade um lugar de prticas, cujas relaes comparadas podem ser
estabelecidas em vrios nveis.
O prprio ttulo A Lanterna Mgica uma metfora alusiva ao instrumento de
projeo de imagens em cenas sucessivas, inventado no sculo xvii e muito popular
na cultura visual do xix era um espetculo para todo tipo de pblico, uma espcie
de combinao original de imagens, sons, dilogos que se relaciona com a histria
do livro ilustrado, [e precede] o desenho animado e o cinema do audiovisual
multimdia, essas linguagens visuais do sculo xx.8
Lanterne Magique tambm o ttulo de panfletos revolucionrios que voltam ao
longo do sculo, ainda que com outros objetivos alm dos polticos o divertimento
e a instruo predominam, na Frana, a partir de 1835. Obras posteriores no Brasil
retomam o significado e a aluso: no frontispcio da Semana Ilustrada nos anos 1860,
o caolho de chapu emplumado e trajes de bufo cercado de figurinhas e personagens
(como na vinheta do Le Charivari, dos anos 1830) faz funcionar uma lanterna mgica com a ajuda de Mefistfeles, que empurra a lmina onde se l ridendo castigat
mores lembremo-nos que a divisa de La Caricature era castigat ridendo mores
O gnero do folhetim brasileiro difere da maioria das revistas ilustradas, pois h um
narrador que apresenta a obra por meio de uma Carta ao leitor, anunciando as cenas
como aquele que andava pelas ruas e balanava sua lanterna mgica anunciando o
espetculo. A conhecida imagem do Diable Paris (publicado de 1843 a 1846), do
homem em negro que caminha sobre o mapa de Paris carregando s costas um cesto
pleno de panfletos ou impressos, com a lanterna na mo, era certamente conhecida
de Arajo Porto-Alegre, que, no seu prefcio aos leitores, se refere identidade do
seu Macaire chamado Laverno, como uma espcie de Mefistfeles, de judeu errante, presente sempre em todo lugar, nas praas, nos templos, nos sales dourados,
no parlamento, nas estalagens, nas lojas, e nos ranchos das estradas. A imagem do
diabo aparece nas fantasmagorias dos espetculos de lanterna mgica (uma placa de
vidro dos acervos da Cinemateca Francesa exibe justamente a recepo de Robert
Macaire no inferno: Lcifer e sua corte). O sentido que Porto-Alegre d lanterna
mgica o de um instrumento que exibe a verdade com todas as suas luzes, e no
de um instrumento criador de iluses conceitualmente se aproximaria de uma
litografia de Daumier, de 1869, que mostra a Frana segurando uma lanterna mgica
que ilumina a clareza de um escrutnio.
8 Explicao de Sgolne Le Men, no catlogo da exposio Lanternes magiques, tableaux transparents, no

Muse dOrsay, em Paris, em 1997.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 179

fig. 1 Lanterna mgica


quadrada fabricada em
Paris por A. Lapierre e
E.-V. Lapierre, c. 1860.
Paris, Cinemathque
Franaise

O universo da imprensa ilustrada


A imagem ocupa um novo lugar no impresso a partir dos anos 1830 graas aos progressos tcnicos. A gerao de Porto-Alegre participou do comeo da era da comunicao visual e da dessacralizao da arte pela imprensa ilustrada. Les cent-et-un
Robert Macaire e a Lanterna Mgica inscrevem-se assim num universo em que ela
assume uma importncia crescente: revistas, peridicos, estampas, textos em srie
constituem um trao de sociedade que gravita nas cidades, em um tempo dominado
pela imagem, por uma literatura a vapor (como ilustra a figura da presse mcanique,
no popular Magasin Pittoresque, em 1834), por novos gneros literrios, cartazes,
prospectos e circulares, pequenas macednias, caos de pequenas figurinhas, muitas
vezes sem ambio esttica e sofisticao caricaturas de todo mundo universo acolhido com entusiasmo pelas multides nas ruas e nos teatros, to bem representado
por Daumier. Os folhetins que examinamos constituem uma literatura formada por
pequenos textos semeados por ilustraes, que se destinam aos que no tm muito
tempo para ler, como nos espetculos improvisados das lanternas mgicas.
As litografias so popularizadas na Frana a partir dos anos 1830 por Aubert, que
difundia as estampas de Daumier, e por Charles Philipon, editor de lbuns e jornais
(La Caricature e depois Le Charivari). A venda de caricaturas dos Robert Macaire,
tambm em sries coloridas com afinco, era anunciada no jornal Le Charivari, o
peridico de contestao mais popular e importante da Monarquia de Julho (1830-40). A cultura urbana do perodo representada nesses jornais, em panfletos e
fascculos que passavam de mo em mo, certamente apreciados por um pblico
inculto e vido por novidades
Neste esprito, h outras sries como a de Philipon, em 1829: Spculateurs de la btise
public especuladores da ignorncia pblica que distribuam panfletos para
anunciar alguma coisa, vender o que fosse etc.
No espao urbano, alm destes spculateurs, observa-se a affichomanie (termo da
poca), que significa a mania de cartazes, de anncios pitorescos colados ou pintados
nas paredes da cidade. Em um dos episdios de A Lanterna Mgica, Laverno, o personagem Macaire de Porto-Alegre, refere-se a cartazes monstros, maneira de Paris,
e evoca a importncia da propaganda pessoal, de artigos fosforescentes em jornais,
destacando sua fora [em] pas onde o mais escoimado pelintra tem crdito
A comparao entre A Lanterna Mgica, publicada em 1844-5, e Les cent-et-un
Robert Macaire, publicado em 1839 (mas cujas litografias, vimos, circulavam antes
nos jornais), se impe pela evidncia formal de diagramao (o enquadramento e

180 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

a composio grfica so semelhantes, como j observamos) mas o principal a


comparar a presena dos dois personagens o malandro espertalho e seu aclito
ou empregado e a temtica comum, a stira poltica e moral no cotidiano urbano,
encarnada em diversas profisses.

fig. 2 Honor Daumier


(desenho) e Charles
Philipon (legenda).
Les cent-et-un Robert
Macaire, Paris, 1839-40.
Biblioteca da Maison
de Balzac, Paris
fig. 3 Manuel de Arajo
Porto-Alegre (texto)
e Rafael Mendes de
Carvalho (desenho).
A Lanterna Mgica,
Rio de Janeiro, 1844.
Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro

Duas imagens, cuja semelhana evidente em vrios pontos, representam os dois


personagens Robert Macaire e Bertrand na Frana, e Laverno e Belchior, no Brasil dentro de uma charrete, no meio da multido, em cena ambientada na cidade;
detecta-se a, porm, uma grande diferena: a do estilo dos prdios Paris, com
seu largo bulevar e seus imveis Louis Philippe, e o Rio imperial, com os casares
coloniais amontoados na estreiteza do espao urbano.
Porto-Alegre vivera em Paris a partir de 1831 e no voltar ao Brasil antes de 1837;
sua obra em 1844 mostra que ele, alm de ter vivenciado o mesmo universo cultural
de Daumier, de Philipon, de Honor de Balzac, que publicava ento sua Comdie
humaine, passou pelo ateli do pintor Antoine-Jean Gros, igualmente frequentado
por Philipon, e entendeu a importncia comercial da imprensa ilustrada naquele
momento, encarnando a nova profisso de editor de peridicos, de estampas etc.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 181

A fisiologia das profisses charlatanismo e especulao


Nos Cent-et-un Robert Macaire a ideia e as legendas so de Philipon, e as imagens
reduzidas da srie de Daumier intercalam os textos de Maurice Alhoy e Louis Huart,
que escrevem para uma srie de publicaes cmicas ligadas atualidade poltica, s
atividades literrias e ao teatro mesmo perfil de atividades s quais se dedicar Porto-Alegre. Lembremos que Huart foi um dos autores das Physiologies, pequenos livros
que circulam em pleno realismo romntico. justamente a fisiologia das profisses que
encarnada pela dupla de A Lanterna Mgica, retomando seu modelo francs.
Com a voga do naturalismo no fim do sculo xviii, aparecem na literatura popular
internacional os retratos de tipos urbanos no modelo dos cris ou proclamas de
Paris. Les petits mtiers de Paris, os alfabetos das artes e ofcios (os famosos Cris), so
tambm caricaturados. O gnero se prolongar no Segundo Imprio francs com
variaes nas imagens de Epinal; j os alfabetos de quadrpedes e figuras da histria
natural compem vinhetas que aparecem no fim de cada episdio da Lanterna.9
Na mesma linha tambm aparece a srie de publicaes denominada entoencyclopdie morale du xixe sicle: Les franais peints par eux mmes, Tiroir du diable: Paris
et les parisiens, murs et coutumes, caractres et portraits des habitants de Paris,
tableau complet de leur vie prive, publique, politique, artistique, littraire, industrielle,
panorama social colocado em texto e imagem, como a pretenso explcita em A
Lanterna Mgica, conforme reza seu prefcio.
A vida urbana oferece mil caminhos diversos para fazer fortuna, segundo Laverno,
o Macaire brasileiro; ele muda de mscara, como j havia mostrado Daumier na
sua srie, ironizando a fcil ascenso dos charlates e diletantes: Monsieur Daumier,
votre srie est une chose charmante, cest la peinture exacte des voleries de notre poque.
Porto-Alegre observa, logo na primeira caricatura do seu folhetim, que a simples
ostentao de um nome estrangeiro ou a mudana da slaba final permite exercer
qualquer profisso no Rio sem a menor qualificao: o malandro Laverno torna-se
Monsier Lavernu ou Comte Flibustier de Saint Lavern, para exercer o mtier de
homeopata, ou exibir ares de nobreza francesa, ou ainda de Signora Lavernelli, para
surgir travestido como cantora italiana de pera. Os personagens so sempre os dois
9 Identifiquei vrias delas com as que existem no Cabinet dEstampes da Bibliothque Nationale de France. Ver

tambm: Vignettes. Ornements, attributs de commerce, cul de lampe, allgories, sujets divers, passe-partout etc.
1830-1895. Paris: Ramsay/Caractres, 1986.

182 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

fig. 4 Honor Daumier


(desenho) e Charles
Philipon (legenda).
Les cent-et-un Robert
Macaire, Paris, 1839.
Clich de cortesia
Biblioteca da Maison
de Balzac, Paris
fig. 5 Manuel de Arajo
Porto-Alegre (texto)
e Rafael Mendes de
Carvalho (desenho).
A Lanterna Mgica,
Rio de Janeiro, 1844.
Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro

comparsas, que reaparecem na sequncia de situaes diversas, como os personagens


da Comdie humaine, segundo uma estrutura narrativa de cenas curtas, projetadas
rapidamente, como nos espetculos das lanternas mgicas. Laverno, com a ajuda de
seu cmplice servidor, discute com cinismo a estratgia de encarnar em cada cena
profisses diversas para enganar os crdulos em frases ricas de metforas de mutaes de carter.
Os dois, Macaire/Laverno, exploradores de tudo e de todos e por todos os meios,
representam a comdia urbana assumindo despudoradamente numerosas identidades profissionais. A aluso simblica figura do mercador de roupas fornece o fio da
histria, ou o sentido do personagem, que tambm surge no bric--brac de objetos
e adereos nas litografias dos tipos modernos de autoria de Travis de Villiers nos
jornais La Caricature e Le Charivari.
Proteu ou Arlequim, Macaire ou Laverno, torna-se candidato a postos polticos,
empresrio, maestro, cirurgio, homeopata, jornalista, tipgrafo, escritor, agente
matrimonial, professor de indstria (de trapaa, malandragem, na lngua francesa),
acionista, diretor de escola. Em todas as cenas, a palavra de ordem lembra o lema de
Guizot: Enriquecei-vos!.
Fisiologias, abecedrios ou alfabetos ilustrados partem de um gesto classificatrio
segundo Michel Mellot, em uma poca em que as categorias sociais tomam conscincia delas mesmas nas grandes cidades. Na caricatura satrica dos retratos-charge

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 183

retomam-se as cenas do cotidiano sob um olhar menos romntico e mais realista do


que nos proclamas (cris), pois os retratos profissionais da caricatura denunciam as
misrias da vida urbana e a hipocrisia de uma sociedade sem escrpulo, para quem
o dinheiro o denominador comum. Resumindo, as diversas profisses encarnadas
para vencer rapidamente na vida so o tema central da representao de Robert
Macaire. A cidade do sculo xix um cenrio de dificuldades de insero em um
trabalho fixo cenrio de imigrao, de ocupaes efmeras e circunstanciais, marcadas pela mobilidade profissional.
Nas cidades (e as do Novo Mundo no fogem regra, ao contrrio), a incompetncia
e o oportunismo caminham juntos ingenuidade do pblico que, no Rio, escreveu
Porto-Alegre, concede favores e d confiana a qualquer pessoa que chega de fora.
Conhecem-se suas dificuldades profissionais, sobretudo depois da longa estada em
Paris, os mltiplos conflitos em que se envolve com os estrangeiros, especialmente
os portugueses na Academia de Belas Artes do Rio. Assim, no texto da Lanterna, ele
no estaria ironizando aqueles aventureiros medocres e oportunistas, a quem se
dava injustamente colocao? Porto-Alegre refere-se s inmeras metamorfoses
geradas pelo batismo equinocial de charlates estrangeiros que ocupavam cargos
sem qualificao, e da ingenuidade de seus compatriotas acreditando que eles eram
superiores, sendo que muitos brasileiros, alm de terem feito estudos no exterior,
como ele, ainda conheciam muito bem seu pas, quer dizer, mais capazes para ensinar
ou dirigir a Academia do que os aventureiros estrangeiros assim, l-se em um dos
episdios da Lanterna: A estranja a melhor panaceia conhecida neste pas: chegado
dela podes impunemente fazer o que quiseres. Porto-Alegre vtima de trapaas
e calnias denunciadas indiretamente no folhetim obra annima, no por acaso.
As cenas se sucedem ao longo da histria, e demonstram a stira aos negcios vantajosos, ou seja, desonestos, na ordem do dia naquele sculo macaire; dentre os
empreendimentos lucrativos denunciava-se, por exemplo, nas charges, tanto na
Frana como no Brasil, a medicina cincia portadora de iluses, assimilada ao
charlatanismo, em particular a homeopatia, o mdico visto como um mercenrio
ou um mundano. Daumier far muitas caricaturas desse profissional (que tambm
um dos personagens do livro Les franais peints par eux-mmes): a de Robert Macaire de olho na herana do tio doente comparvel caricatura do falso mdico em
A Lanterna Mgica (Figs. 6 e 7).

184 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

fig. 6 Honor Daumier


(desenho) e Charles
Philipon (legenda).
Les cent-et-un Robert
Macaire, Paris, 1839.
Clich de cortesia
Biblioteca da Maison
de Balzac, Paris
fig. 7 Manuel de Arajo
Porto-Alegre (texto)
e Rafael Mendes de
Carvalho (desenho).
A Lanterna Mgica,
Rio de Janeiro, 1844.
Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro

Retoma-se tambm na Lanterna a ideia das consultas gratuitas, porm acompanhadas do gesto enganador da venda de poes miraculosas, que no era nada mais do
que a gua da fonte da Carioca
O grotesco estava tambm em voga quando Porto-Alegre est em Paris, durante
a Monarquia de Julho; o repertrio de Gavarni, as metamorfoses animalescas de
Grandville (os tipos encarnando as Scnes de la vie prive et publique des animaux), e
sobretudo os anncios no Charivari de cours complet de taxidermie ou lart dempailler
tous les tres composant le rgne animal. Assim, a imagem do charlato naturalista
encarnada por Laverno, que mata animais diversos e combina-os para criar espcies
hbridas, empalhando-os para vend-los aos museus europeus, que segundo ele eram
vidos por novidades exticas (ele se refere no texto ao seu museu diablico). Os
dilogos cnicos e crus do episdio inscrevem-se num realismo moderno tambm
presente no que convencionalmente se etiquetou como romantismo. Ou seja:
[] e o que o mundo seno uma comdia; os velhacos so os acrobatas, os nscios os
palhaos, a mocidade os gals; a velhice os logrados, e o povo os comparsas (figurantes).
A orquestra todo esse movimento, este zunido de mutucas que se chupam reciprocamente. O ferro mais duro o que vence.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 185

Uma imagem pede para ser observada no seu contexto histrico, um artista na rede
de relaes de sua poca. A anlise deve estar atenta forma, ao tema representado,
aos gestos, mas tambm ao pano de fundo observando as representaes da multido no espao urbano em Paris, veem-se as ruas cheias de gente, bomios saltimbancos, camels, especuladores do pblico idiota. A imagem do pblico estpido
ou ingnuo vem tambm da srie de Daumier no Brasil esta constatao caminha
ao lado, segundo Porto-Alegre, da mediocridade da crtica e da indiferena com
as obras de qualidade (a arquitetura, inclusive lembremo-nos das suas atividades
neste ramo). No dicionrio Larousse du xixe sicle, decnios mais tarde, no verbete
Rio Janeiro, h observaes sobre as salas de espetculo e o pblico teatral.
Embora pessoas nas ruas sejam recorrentes nas cenas, alguns detalhes especificam
a variante nacional: nas caricaturas de A Lanterna Mgica, a arquitetura das ruas
do Rio, os monumentos esboados (um deles o chafariz do Mestre Valentim)
indicam o local onde a cena se passa. No Rio tambm, os tipos locais (os escravos, entre eles) so representados nas cenas de rua, como na litografia em que
aparecem ao lado da dupla de burgueses malandros, querendo partilhar o ato
de fumar, um dos excitantes modernos e Laverno proclama que o charuto tem a
propriedade de igualar as condies: Viva o sculo fumante que d a Pai Man
Monjolo o gozo, por momentos, do foro de cavalheiro enquanto, na litografia
de Daumier (Le chiffonier philosophe, da srie Tout ce quon voudra), no se trata
de status social, mas da dura realidade da condio humana da infncia miservel
que se expe: Fume, fanfan, fume, il ny a que la pipe qui distingue lhomme du
reste des animaux.
A busca de instruo igualmente uma caracterstica do romantismo; entre as profisses para fazer fortuna h a do professor, ou o que prepara para o baccalaurat
(no caso de Robert Macaire), de diretor de liceu (Laverno, no Rio). H um episdio
em que ele aparece muito ocupado escrevendo um Tratado de msica aplicado s
Artes, cujos princpios so a simplificao das regras e a liberdade de composio
em nome da arte ao alcance de todos, discurso tpico desse tempo de ecletismo.
Mas nas fisiologias do charlatanismo e da especulao, entre a multido de espertinhos que encontramos em todo lugar, no comrcio, na poltica, nas finanas (cf.
uma das legendas de Philipon para os Robert Macaire), o importante aprender
a vencer na vida, ou seja, tornar-se chevalier de lindustrie, isto , ter habilidade
para tirar vantagem de qualquer situao. Porto-Alegre refere-se, por exemplo, aos
ladres artsticos, aos gnios praticantes do plgio sem nenhum mrito intelectual,
de que ele tambm foi vtima no Brasil aos oportunistas que se promovem por

186 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

cartazes-monstro (nos muros das cidades, suporte de reclames de toda sorte) ou


por polmicas forjadas na imprensa.
As crticas, porm, invaso e banalidade da imagem industrializada so partilhadas por muitos artistas e escritores: em 1842, Balzac se refere, no seu texto da
coletnea Le Diable Paris, hipertrofia de um rgo, o olho lil du parisien,
que consome as mercadorias e seus dolos, e que aparece na imagem surrealista
da Vnus na pera, onde a cabea dos espectadores metamorfoseada em olhos
gigantes, devoradores da musa, no livro genial Un autre monde, de Grandville,
em 1844.
A aluso cena teatral abre-nos a questo da importncia do teatro e da msica no
universo de A Lanterna Mgica os suspiros e ohs! do coro dos diletantes diante da
cantora lrica, cantarolando a ria Casta Diva da pera Norma de Bellini (tantas
vezes mencionada em A Lanterna), na interpretao de Anna Maria Kieffer (que
concebeu o cd que acompanha o catlogo), ilustram brilhantemente o esprito da
poca.10 A incluso de partituras em A Lanterna Mgica , pois, um aspecto significativo e original (voltaremos questo da msica mais adiante). O colega Joo Roberto
Faria, a quem tambm solicitei um texto,11 narra os episdios dos dilettanti, os apaixonados pela pera no Rio de Janeiro, e, com o reincio dos espetculos lricos em
1844, as disputas entre os partidrios de duas cantoras italianas da poca (Candianni
e Delmastro), que ocuparam espao nos jornais; seria por isso que Porto-Alegre
introduz a stira do Laverno travestido de cantora de pera.
Haveria muito a dizer sobre a relao de Porto-Alegre com o teatro; sabe-se que
Porto-Alegre foi autor de vrias peas, anos mais tarde. Imprensa, teatro, literatura,
msica formam ento histrias cruzadas de um mesmo universo na Lanterna Mgica, que ironizam as fourberies do cotidiano por metforas: Ns viemos ao mundo
para representar em uma vasta comdia: melhor tomar os assentos da frente; e os
apoucados que venham atrs.
A figura de Robert Macaire, imortalizada pelo ator Frdrick Le Matre nos teatros populares de Paris a partir de 1834, quando Porto-Alegre l estava, demonstra
o interesse crescente pela stira cmica em detrimento do melodrama moralista

10 Ver o cd e o texto de Anna Maria Kieffer, Comdia musical urbana, que compem o catlogo A comdia

urbana Op. cit. Catorze msicas inditas, francesas e brasileiras foram especialmente gravadas para
acompanhar a exposio na faap e constam desse cd.
11 FARIA, Joo Roberto. A Lanterna Mgica: imagens da malandragem, entre literatura e teatro. In: ANGOTTI-SALGUEIRO, Heliana. A comdia urbana Op. cit.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 187

o boulevard du Temple, que passa a ser chamado boulevard du Crime em 1825


(nome atribudo pelos jornais populares), foi o bero de nascimento do personagem de Robert Macaire.12 Lembremo-nos que, ao voltar para o Rio, Porto-Alegre
foi professor de mmica e de declamao do clebre ator Joo Caetano (que tinha
aqui a mesma notoriedade que Frdrick Le Matre em Paris alis, o imitava);
mas Porto-Alegre no tardou a criticar seu aluno deslumbrado pelo sucesso fcil,
observando que ele no estudou o suficiente, alimentado pelos aplausos fceis de
um pblico indulgente.
A presena de canes um dado interessante neste estudo comparado, pois elas
fazem parte, muitas vezes, dos textos ilustrados do romantismo; na pesquisa, encontrei canes da poca em Paris e Anna Kieffer as associou s das partituras de A
Lanterna Mgica. No cd foram gravadas canes inditas da Revoluo de Julho de
1830 uma delas chama-se justamente La Lanterne Magique e as das partituras
de A Lanterna Mgica, em que a pardia e a stira do texto se repetem. Reitero que
a incluso de partituras uma particularidade do folhetim brasileiro h dois lundus (uma mistura de ritmos portugueses e africanos chamados genericamente de
batuques, msica nacional que nascia) intercalados ao texto de Porto-Alegre, seu
autor, e com msica do filho do Pe. Jos Mauricio Nunes Garcia, alm de uma ria
lrica di bravura, pera-bufa em que Laverno canta travestido de mulher.
A presena do teatro e da msica, alm de constituir uma originalidade no gnero,
confirma a erudio musical de Porto-Alegre, homem de seu tempo, que discute
compositores e peas ao longo dos textos: Gluck, Puccini, Donizetti, Atys, Orlando.
Uma das caricaturas satiriza as patuscadas (comes e bebes) que se inscrevem na
fisiologia do viveur ou do bon vivant, quando seus personagens caem na farra e na
bebedeira e cantam o lundu progressista Fora o regresso, que anuncia um novo
tempo, festejando o triunfo fcil da prima-dona improvisada, aplaudida pelo indulgente pblico do Rio, prottipo da ignorncia, segundo Porto-Alegre.
12 Ver Pierre Gascar, Le Boulevard du Crime. Paris: Atelier Hachette/Massin, 1980. leos e gravuras de Adol-

phe Martial (coleo Wasset, Ancien Paris) mostram os teatros deste bulevar, quase todos demolidos
quando do alargamento da rua no perodo haussmaniano, em 1862 (o bl. du Crime chama-se hoje bl.
Voltaire). O clebre filme de Marcel Carn e Jacques Prvert, Les enfants du paradis (1943), que mostra
esse universo do teatro e da rua, foi exibido na faap por ocasio da exposio A comdia urbana: de
Daumier a Porto-Alegre. Nesse filme clssico, Frdrick Le Matre improvisa a metamorfose do personagem da pea de teatro Lauberge des adrts, travestido de um burgus esfarrapado e malandro, e deturpa o personagem levando o pblico ao delrio; Robert Macaire foi ento uma criao que se inspirou
no personagem daquele ator.

188 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

A exuberncia da natureza outra particularidade das nossas caricaturas trazendo a


cor local ao fundo da cena em que Laverno
dana com uma mulata o Lundu dos Lavernos dez anos depois Porto-Alegre pintar a tela Floresta brasileira, que nada tem de
caricatural, mas que pode ser contemplada
como uma expresso da sensibilidade paisagstica romntica que persegue Porto-Alegre,
expressa nas Brasilianas em 1863.
Ainda na msica, as representaes de Daumier so diferentes: o ttulo de uma das litografias que fez parte tambm dos Robert
Macaire Msica pirotcnica, charivarstica ou diablica na legenda l-se: no
vivemos num tempo de harmonia, preciso
barulho, muito barulho!.

Concluindo
A Lanterna Mgica projeta em cada cena a erudio, o pluralismo de curiosidades
intelectuais e competncias do homem do sculo xix representado por Porto-Alegre,
que atravessa o Atlntico com a cabea cheia de imagens e ideias, associando o que
viveu s prticas que quer denunciar de maneira realista e sem retrica, os fatos
cotidianos e corriqueiros da vida urbana do Rio de Janeiro. Joo Roberto Faria
observa que uma obra inclassificvel como gnero, e que se afasta do nacionalismo
de louvao do pas, to comum entre os romnticos, escolhendo a forma do dilogo
(interrompido por vezes com texto narrativo) para expor e criticar certos costumes, comportamentos e tipos sociais. H uma lucidez na representao da realidade
histrica e social que coloca Porto-Alegre alm dos romnticos. Desconhecem-se
as vicissitudes da recepo desta pea de teatro de papel, a tiragem e os leitores.
O projeto inicial era escrever 366 atos (ambio feita mais para ser lida como um
folhetim); no se tm tampouco dados sobre desmesurada prpria dos romnticos, porm interrompida na cena 23. A inteno de fazer dela uma epopeia do seu
tempo e a promessa de melhor-la, segundo o dogma saint-simoniano da marcha

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 189

fig. 8 Manuel de Arajo


Porto-Alegre (texto)
e Rafael Mendes de
Carvalho (desenho).
A Lanterna Mgica,
Rio de Janeiro, 1844.
Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro

da humanidade para a perfectibilidade, so anunciadas no prefcio porm, o nosso


primeiro peridico ilustrado foi interrompido bruscamente e caiu no esquecimento
no triunfando nem no teatro nem na literatura oitocentistas.
A pea interrompida com a cena da partida repentina de Laverno, escrita, ao que
parece, pela necessidade de concluir o folhetim por falta de dinheiro (a Lanterna passou por cinco tipografias em pouco mais de um ano). Nesta ltima cena o charlato
despede-se afobado de seu amigo e cmplice, mencionando o convite irrecusvel de
trabalhar como prima-dona nos teatros do Norte do pas, e poder enfim enriquecer
e voltar para sua me ptria, Gnova. A representao final do Macaire de Daumier
tambm uma viagem, pois Macaire e Bertrand cruzam a fronteira da Frana em
direo Blgica, com os sacos de dinheiro s costas. O mais importante no desfecho
da stira tropical que difere do modelo francs pelo quiproqu da histria a sbita
revelao da dupla natureza sexual de Laverno, causada segundo ele por bruxaria,
fazendo dele mulher de noite e homem de dia. Sabemos que a ambiguidade dos
sexos, ligada tradicionalmente simblica do diabo, estava muito em voga na literatura romntica. Laverno confirma assim sua identidade anunciada no prefcio, a
de Mefistfeles, que lhe permite estar em todo lugar, de aparecer e desaparecer numa
cauda de cometa, lembrando as imagens das fantasmagorias das lanternas mgicas
dos espetculos de rua.
Pode-se concluir que no h classificao disciplinar rgida para a Lanterna Mgica,
interessando tanto histria da arte, da literatura, do teatro, da msica, do jornalismo, da poltica, da publicidade e da comunicao visual e das prticas profissionais
urbanas nveis que dialogam entre si na cidade do sculo xix. Esta pardia que
seu autor pretendia ser uma epopeia patritica de seu tempo de fato intemporal
pela atualidade de seus heris sem carter cujos gestos, atitudes e expresses nada
tm de datados, constituindo antes um retrato da vida moderna. Sob as roupas de
sua poca, os personagens so de todas as outras pocas, pois as paixes e os crimes
que os movem so transistricos. Sobretudo nesta terra, em que [como escreveu
Porto-Alegre, em memorvel frase] andam mais de mil arlequins, vestidos de retalhos
de todas as cores e formas, passando por homens superiores.13

13 Cf. Dilogo das cenas 8 e 9 de A Lanterna Mgica. Terminei a comunicao com a imagem de duas

caricaturas: a de Granville, La France livr aux corbeaux de toute espce (A Frana representada por uma
mulher acorrentada e quase morta no cho, merc dos corvos com faixas honorficas como as dos
polticos), que saiu em 1831 em La Caricature, e a de ngelo Agostini, o ndio como So Sebastio, aluso
cidade do Rio de Janeiro, cercada pelos polticos representados por cobras, sapos e morcegos (Revista

190 angotti-salgueiro, Heliana. A comdia urbana

A erudio e o interesse de Porto-Alegre em estudar e servir ao Brasil no foram reconhecidos e ele foi marginalizado em seu prprio pas. Entre polmicas, demisses e
portas que se fechavam, viu-se em situaes embaraosas, sendo alvo de caricaturas
annimas que ridicularizavam um a um seus combates.14 Sara pelo mundo em
busca de conhecimento e, ao voltar ao Rio, desdobra-se em atividades em todas as
direes, procurando articular suas contradies e as do seu tempo dos ideais
convencionais e retricos de elegias oficiais e poemas romnticos ao desembarao de
convenes e linguagens expressas no realismo de A Lanterna Mgica, Porto-Alegre
chega a um impasse. Parte definitivamente no fim dos anos 1850, desiludido e sem
vintm, morrendo na Europa em 1879.

Heliana Angotti-Salgueiro membro do Ncleo de Pesquisas Brasil-Frana, no Instituto de


Estudos Avanados da usp. Pesquisadora associada da Chaire Brsilienne en Sciences Sociales
Sergio Buarque de Holanda (msh-crbc/ehess, Paris), foi titular entre 2004-2008 e professora
visitante de universidades francesas. Doutora em Histria da Arte, pela cole des Hautes tudes
en Sciences Sociales, ganhou o prmio da melhor tese do ano de 1992. Fez ps-doutorado pela
Getty Foundation (1993) e depois pela Fapesp (1995). Como bolsista Jovem Pesquisador da Fapesp,
foi curadora do arquivo Pierre Monbeig no Instituto de Estudos Brasileiros-usp, entre 1999-2005.
Publicou entre outros: La casaque dArlequin. Belo Horizonte, une capitale clectique au xixe sicle
(Paris, 1997); Engenheiro Aaro Reis, o progresso como misso (Belo Horizonte, 1997); tambm
coautora e organizadora de coletneas e catlogos, como: Paisagem e arte (So Paulo, 2000), Cidades
capitais do sculo xix (So Paulo, 2001), Bernard Lepetit: por uma nova histria urbana (So Paulo,
2001), A comdia urbana. De Daumier a Porto-Alegre (So Paulo, 2003), Pierre Monbeig e a geografia
humana brasileira a dinmica da transformao (Bauru, 2006) e Marcel Gautherot e seu tempo.
O olho fotogrfico (So Paulo, 2007).

Ilustrada, 1888); essas caricaturas inscrevem-se tambm no registro da transferncia de modelo e na longa
durao das representaes crticas corrupo.
14 Ver no catlogo A comdia urbana, op. cit., as caricaturas do lbum de Pintamonos e meus comentrios
a respeito.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 174-191, 2013 191

As encenaes do capital no
romantismo brasileiro
Vivaldo Andrade dos Santos

Resumo: O ensaio faz uma releitura do romantismo, a partir da nova crtica econmica
que tem despontado no campo da literatura nas ltimas dcadas. Interessa, em particular,
pontuar, na fico, na poesia e no teatro de cunho romntico, a relao dessas obras com
as finanas, o dinheiro e o capital. Destaca-se, neste ensaio, o romance Senhora e a pea O
crdito, ambos de Jos de Alencar, e os poemas A minha desgraa e O editor, de lvares de Azevedo. Palavras-chave: Jos de Alencar, lvares de Azevedo, Senhora, O crdito,
A minha desgraa, O editor, crtica econmica, dinheiro, finanas, capital, marxismo,
romantismo, capitalismo.
Abstract: This essay reexamines the Brazilian Romanticism, considering the new economic criticism, which has emerged in the field of literary studies in the last decades. The
author of the article is interested in shedding light to the theme of finances, money and capital
in the romantic literary production. The essay focuses on the novel Senhora and the play
O crdito, by Jos de Alencar, and in the poems A minha desgraa and O editor, by
lvares de Azevedo. Keywords: Jos de Alencar, lvares de Azevedo, Senhora, O crdito,
A minha desgraa, O editor, economical criticism, money, finances, capital, Marxism,
Romanticism, capitalism.

No captulo Cultura e capital financeiro, de A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalizao, Fredric Jameson chama a ateno para a importncia do livro O longo sculo
vinte, no sentido de que o autor, Giovanni Arrighi, salienta o problema das finanas
como fundamentais para entender as facetas do capitalismo. Jameson pergunta:
Por que o monetarismo? Por que estamos prestando mais ateno aos investimentos e ao
mercado de aes do que produo industrial que, em todo caso, est prestes a desaparecer? Como se pode, para comear, obter lucros sem produo? De onde vem toda essa
especulao excessiva?1

O horizonte das indagaes de Jameson uma reflexo sobre o modelo de produo


marxista e tambm uma tentativa de compreender as mudanas histricas dos anos
1990, aps a Guerra Fria. Seus comentrios mostram a ansiedade do mundo contemporneo, os sinais de uma sociedade ps-industrial, da qual o ps-modernismo e a
globalizao so sintomticos. A nfase do pensador sobre a hegemonia do capitalismo em nossa sociedade no somente revela a importncia para se entender a esfera
social de nossa vida presente, mas tambm nos convida reflexo sobre as origens
e o desenvolvimento do capitalismo. No campo dos estudos literrios dos ltimos
anos, as ideias de Jameson e o retorno de Marx cena acadmica tm ganhado
relevncia. O ltimo nmero da revista pmla (Publications of the Modern Language
Association of America), de janeiro de 2012, na seo teoria e metodologia, traz uma
srie de artigos dedicados ao tema Economia, Finana, Capital, e Literatura.2 Este
retorno da economia ao campo da literatura pode ser rastreado j no final dos anos
1990, quando Mark Osteen e Martha Woodmansee, professores de departamentos
de Lngua Inglesa, publicaram The new economic criticism: Studies at the intersection
of literature and economics, livro cuja proposta indicava o novo surgimento da crtica
econmica no campo intelectual dos anos 1990, uma continuao do que comeou
ao redor do final dos anos 1970 e incio dos anos 1980. A assim chamada Nova crtica
econmica [The new economic criticism] estava ligada a um campo de pesquisa da
crtica interessado em estudar a relao entre literatura, cultura e economia.3

1 JAMESON, Fredric. A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalizao. Trad. Maria Elisa Cevasco e Marcos

Csar de Paula Sousa. Petrpolis: Vozes, 2001, p. 143.


2 pmla Publications of the Modern Language Association of America. New York: mla, 2012.
3 De acordo com Osteen and Woodmansee, o surgimento deste campo de pesquisa dentro dos
estudos literrios tem vrias razes, principalmente: 1) a volta a uma abordagem historicista, distante

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 192-204, 2013 193

No campo do romantismo, a publicao recente de Real money and romanticism, de


Matthew Rowlinson, reflexo desta nova crtica econmica. Nesse livro, o crtico
assinala que a historiografia literria no deu suficiente ateno ao fato de que a
literatura britnica do final do sculo xviii e comeo do sculo xix foi definida pelas
mudanas na estrutura econmica da indstria editorial e o status de commodity
da propriedade intelectual.4 Rowlinson prope uma nova leitura do romantismo
britnico buscando entender as relaes entre autores, a indstria grfica e o capital
no perodo romntico. A partir das ideias de Marx, Marcel Mauss e Jacques Lacan,
o crtico examina as obras de Sir Walter Scott, Keats, estendendo sua anlise at
Charles Dickens, tradicionalmente fora do quadro romntico, mostrando como o
sublime-romntico atravessado pelas relaes entre o capital e o trabalho, dinheiro,
produo material e textual.
O objetivo deste ensaio examinar alguns momentos no romantismo brasileiro em que
o capital entra em cena. Interessa-me, neste estudo, refletir e pontuar alguns momentos
em que o discurso do dinheiro entra em cena na literatura romntica brasileira.

Cena i: a fico
O tema do dinheiro no romantismo no novidade, embora no tenha recebido
muita ateno por parte dos crticos nos ltimos anos. A crtica histrico-materialista foi a primeira a chamar a ateno para o tema. No captulo dedicado aos
romances de Jos de Alencar, na sua Formao da literatura brasileira, Antonio Candido aponta trs vertentes na obra do escritor cearense, os dois primeiros Alencares,
sendo um dos rapazes, heroico, altissonante e outro das mocinhas, gracioso, s
vezes pelintra, outras, quase trgico.5 Mais adiante no ensaio, Candido salienta a
da desconstruo, semitica, e das tendncias formalistas tradicionais que imperaram nos anos 1970 e
comeo dos anos 1980; 2) a crise na indstria editorial acadmica e a procura por novas abordagens
tericas; 3) o influxo dos estudos culturais, e sua nfase em mtodos de interdisciplinaridade, incluindo,
neste caso, o trabalho dos economistas; 4) o lugar da economia na sociedade, tendo incio nos anos
1980, acompanhado das discusses sobre bolsa de valores, juros, ttulos, especulao, e assim por diante
os quais no se tinham observado em nossa sociedade desde a dcada de 1930. Cf. OSTEEN, Mark;
WOODMANSEE, Martha. The new economic criticism: Studies at the intersection of literature and economics.
Economics as social theory. London: Routledge, 1999, p. 3-4.
4 ROWLINSON, Matthew. Real money and romanticism. Cambridge: Cambridge University Press, 2010, p. 32.
5 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira. Vol. ii. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993, p. 222.

194 santos, Vivaldo Andrade dos. As encenaes do capital no romantismo brasileiro

existncia de um terceiro Alencar. Um Alencar que se poderia chamar dos adultos,


dedicado aos temas profundos, formado por uma srie de elementos pouco heroicos
e pouco elegantes, mas denotadores dum senso artstico e humano que d contorno
aquilino a alguns dos seus perfis de homem e de mulher.6 Nesse terceiro Alencar,
o crtico debrua-se sobretudo nos romances Til, Senhora e Lucola, A viuvinha,
Diva, Pata da gazela, Tronco do ip e Sonhos douro. Para ele, o que merece ateno
nesses romances alencarianos, mais do que os ambientes, so as relaes humanas
que estuda em funo deles. Essas relaes, segundo o crtico, esto ligadas ao
nvel econmico, que constitui preocupao central nos seus romances da cidade e
da fazenda.7 Evidncia maior disso o clssico Senhora em que deparamos com a
histria da compra do amor de Seixas por Aurlia, a esposa outrora pobre e preterida
que se faz rica. A concluso de Candido indica que o senso apurado de observao
de Alencar lhe permitiu distinguir o conflito da condio econmica e social com a
virtude, ou as leis da paixo, de forma que abrandou os efeitos do conflito, como o
caso do happy end da forte histria da conspurcao pelo dinheiro, que Senhora.8
Essa ideia do dinheiro como vilo reaparecer em outro ensaio de Candido sobre
Senhora, no qual ele reafirma que, no romance de Alencar, as relaes humanas se
deterioram por causa dos motivos econmicos, visto que A herona, endurecida
do desejo de vingana, possibilitada pela posse do dinheiro, inteiria a alma como
se fosse agente duma operao de esmagamento do outro por meio do capital, que
o reduz a coisa possuda.9
Estudando a obra de Alencar, Roberto Schwarz constata o descompasso entre a
forma e o contedo da forma literria europeia no contexto brasileiro. O crtico
assinala como o romance romntico em seu contexto original est ligado a uma
lgica ideolgica e esttica prprias romntica e do individualismo liberal da
sociedade europeia, que escapa ao autor de Senhora, dando sua fico um carter de
artificialidade.10 Mola mestra do romance, o dinheiro ganha ateno destacada pelo
crtico. Na sua anlise de Aurlia, herona do romance Senhora, Schwarz observa:

6 Idem, p. 225.
7 Idem, p. 226.
8 Idem, p. 228.
9 ALENCAR. Jos de. Senhora. Edio crtica Jos Carlos Garbuglio. Rio de Janeiro: ltc, 1979, p. 262-4.
10 SCHWARZ, Roberto. A importao do romance e suas contradies em Alencar. In: Ao vencedor as batatas:

forma literria e processo social nos inicios do romance brasileiro. 5. ed. So Paulo: Duas Cidades/Editora 34,
2000.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 192-204, 2013 195

[] o dinheiro rigorosamente a mediao maldita: questiona homens e coisas pela


fatal suspeita, a que nada escapa, de que sejam mercveis. Simetricamente, exaspera-se
na moa o sentimento da pureza, expresso nos termos da moralidade mais convencional. Pureza e degradao, uma talvez fingida, uma intolervel: lanando-se de um
a outro extremo, Aurlia d origem a um movimento vertiginoso, de grande alcance
ideolgico o alcance do dinheiro, esse deus moderno e um pouco banal; falta complexidade a seus polos. A riqueza fica reduzida a um problema de virtude e corrupo,
que inflado, at tornar-se a medida de tudo.11

Esta relao do dinheiro com a modernidade, enfatizada por Schwarz, tambm


sugerida por Jos Carlos Garbuglio, para quem a trama do romance de Alencar
reproduz a sociedade ociosa dos sales da Corte na segunda metade do sculo
passado, com seu brilho de imitao europeia, a exibio de seu incipiente mundanismo, onde o dinheiro comea a mover seus cordis e determinar o nvel das
relaes, que desestrutura as velhas tradies.12 Tradies essas que dentro da tica
romntica desapareceram com o progresso e o desenvolvimento das cidades, que,
impulsionados pelo motor do capital, debilitaram a alma e a pessoa.

Cena ii: o teatro


O tema do dinheiro em Alencar aparece tambm na pea O crdito (1857).13 O crdito
uma comdia que analisa a vida social de um setor da burguesia carioca em meados
do sculo xix. O tema da pea gira em torno das artimanhas de vrios indivduos
para se apoderarem de parte da fortuna de um rico comerciante, que dotara os filhos
com duzentos contos cada um. Os personagens principais incluem: Pacheco (capitalista, pai de Julieta, casado com D. Antonia), Oliveira (negociante a quem Julieta
prometida), Borges (empregado pblico, pai de Ceclia, que nutre uma paixo
por Hiplito jovem mdico e rico), Guimares (jovem desempregado), Rodrigo
(protagonista, jovem engenheiro, apaixonado por Julieta, mas por quem Olmpia,
esposa de Borges, nutre um amor), e finalmente Macedo (o agiota).
11 Idem, p. 43.
12 ALENCAR. Jos de. Senhora. Op. cit., p. 272.
13 ALENCAR, Jos de. O crdito, 1857, <http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.

br/conteudo/JosedeAlencar/ocredito.htm>.

196 santos, Vivaldo Andrade dos. As encenaes do capital no romantismo brasileiro

Interessa-me salientar na pea a viso do personagem Macedo, o agiota, e Rodrigo, o


jovem engenheiro, com respeito ao capital. Macedo o agiota irresponsvel, explorador ganancioso, cuja existncia se resume pura especulao. Quando expulso da
casa de Pacheco, depois de reveladas as suas falcatruas econmicas com o dinheiro
dele, justifica o seu comportamento:
Como quiser! Nunca estudei moral, Sr. Pacheco, e por isso no entendo essas distines filosficas. Sou um homem prtico, um homem de negcios; trato da minha vida
sem me ocupar com as dos outros. Podem dizer que sou agiota, especulador, que vivo de
jogar na Praa. Pouco me importa! Estou convencido que s h na sociedade dois poderes reais: a lei e o dinheiro. Respeito uma, e ganho o outro. Tudo que d a riqueza bom;
tudo que a lei pune, para mim justo e honesto. Eis o meu princpio. (Ato V, cena xviii)

Para Macedo, o poder do dinheiro tem sua lei prpria e escapa a qualquer ideia
moral. Macedo est, como se v, sublinhando uma viso comum que o capitalismo
desperta; isto : se o capitalismo traz algum benefcio humanidade, se o mesmo
do Bem ou do Mal, ou destitudo de qualquer moralidade, como sugere Robert C.
Solomon.14 E, nesse sentido, tambm a frase Nunca estudei moral, do antagonista
na pea alencariana, pe em questo um problema, o tema dos sentimentos morais,
discutido por Adam Smith, para quem, por mais egosta que seja, nenhum ser humano desprovido de um sentimento de compaixo pelo outro:15
How selfish soever man may be supposed, there are evidently some principles in his
nature, which interest him in the fortune of others, and render their happiness necessary
to him, though he derives nothing from it except the pleasure of seeing it []. The greatest ruffian, the most hardened violator of the laws of society, is not altogether without it.

Como podemos ver, para Macedo a existncia se resume ao pragmatismo completamente alheio a qualquer ideal tico. Alencar pinta nesse retrato do personagem

14 Free enterprise, sympathy, and virtue, p. 17. O artigo de Solomon parte de um livro organizado por

um grupo de pesquisadores de diversas disciplinas (direito, economia, biologia, filosofia, neurocincia,


zoologia, cincias polticas, negcios), que procura pensar a noo de valor na economia. Ver: Moral
markets: the critical role of values in the economy. Paul J. Zak (Ed.). Princeton: Princeton University Press, 2008.
15 SMITH, Adam. The theory of moral sentiments, 1759, <http://www.econlib.org/library/Smith/smMS.html>.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 192-204, 2013 197

o emblemtico homo economicus indivduo acima de qualquer moral, tica ou de


piedade, calculista e frio, cujo sentido existencial se resume ao lucro.
No entanto, se a lei dos homens no capaz de punir esse tipo social representado
por Macedo, o prprio dinheiro ou a relao das pessoas com o dinheiro que
cumpre essa funo pelo desprezo humano ao materialismo puro, como se observa
no comportamento de personagens como D. Olmpia e Guimares, iluminados pela
inteligncia, ou o senso moral de Rodrigo, protagonista, para quem
A misso do crdito outra: nivelar os homens pelo trabalho e dar atividade os meios
de criar e produzir. Outrora, para adquirir-se uma fortuna, era preciso consumir toda a
existncia em privaes, juntar-se real por real. [] Um dia, porm, um homem de dinheiro compreendeu que o trabalho e a probidade eram a melhor garantia do que a fortuna
que o acaso pode destruir em um momento. Esse homem chamou os amigos pobres, mas
honestos e empreendedores, e confiou-lhes os seus capitais para que eles realizassem as suas
ideias. O crdito estava criado. [] uma palavra o define: a regenerao do dinheiro. O
orgulho dos ricos tinha inventado a soberania da riqueza, soberania bastarda e ridcula, o
crdito destronizou esta soberania: do ouro que era senhor, fez um escravo, e mandou-lhe
que servisse inteligncia, a verdadeira rainha do mundo! (Ato i, cena ix)

Se para o personagem de Macedo a viso econmica definida pura e simplesmente


pela acumulao e especulao do capital, ao contrrio, para Rodrigo ela se define
pelo sentido pragmtico e de circulao do capital. Do seu ponto de vista, o crdito e,
por extenso, o capital tm a funo de nivelar os homens pelo trabalho, por meio
do desenvovimento (criao) e produo. Uma vez posto em circulao, o dinheiro,
outrora nas mos de uns poucos, passa, agora mediado, vale ressaltar, pelo crdito,
regenera-se. A regenerao do dinheiro significa, nessa perspectiva, o destronamento da soberania dos ricos. Dentro dessa viso, fundamental o conceito de circulao. A passagem do senhorio do ouro condio de escravo, dentro dessa nova
lgica capitalista, o fim do ouro como comodidade, como meio apenas de troca,
conforme explica Marx, ou seja, como instrumento de circulao.16 Marx salienta:
The accumulation of gold and silver, of money, is the first historic appearance of the
gathering-together of capital and the first great means thereto; but, as such, it is not yet
accumulation of capital. For that, the re-entry of what has been accumulated into circu16 MARX, Karl. Grundrisse: Foundations of the Critique of Political Economy (Roug Draft). Translated by Martin

Nicolaus. New York: Penguin Books, 1973, p. 186.

198 santos, Vivaldo Andrade dos. As encenaes do capital no romantismo brasileiro

lation would itself have to be posited as the moment and the means of accumulation.17
Para Marx, Circulation is an inescapable condition for capital, a condition posited by
its own nature, since circulation is the passing of capital through the various conceptually
determined moments of its necessary metamorphosis its life process.18 Assim, uma
vez em circulao, o capital est em constante transformao, metamorfoseando-se.
Esta viso tambm compartilhada por Fernand Braudel, que afirma ser o dinheiro
o agente da economia de mercado. Ele, o dinheiro, acelera o intercmbio e cria a rede
de comrcio entre os habitantes da cidade. Braudel, enfim, afirma que as cidades
somente existem por causa do dinheiro, e ambos so responsveis pela fabricao da
modernidade.19 Alm da noo de circulao, na fala de Rodrigo observa-se ainda
outro aspecto de crucial importncia na lgica do crescimento econmico: Esse
homem chamou os amigos pobres, mas honestos e empreendedores, e confiou-lhes
os seus capitais para que eles realizassem as suas ideias. Aqui se faz notar a questo
da f, confiabilidade e dependncia, como analisam Paul J. Zak e Stephen Knack nos
seus estudos sobre o papel da confiana na economia e nas interaes sociais.20
Flvio Aguiar destaca, no seu estudo sobre a obra, a relao do tema com o surgimento desse instrumento nas transaes mercantis da poca em que foi escrita. O crtico
indica tambm o dilogo de Alencar com La question dargent, de Dumas Filho. Na sua
leitura, de cunho diretamente mais sociolgico, de O crdito, Aguiar desmascara de
forma incisiva o lugar social do personagem Rodrigo e de onde se origina seu discurso
sobre o capital. Para ele, Alencar nacionalizou o tema do dinheiro, tema presente
17 Idem, p. 233.
18 Idem, p. 658. Marx tambm salienta que The circulation of money, regarded for itself, necessarily becomes

extinguished in money as a static thing. The circulation of capital constantly ignites itself anew, divides into its
different moments, and is a perpetuum mobile. (Idem, p. 516.)
19 Segundo Braudel, The truth is that money and cities have always been a part of daily routine, yet they are
present in the modern world as well. Money is a very old invention, if one subsumes under that name every
means by which exchange is accelerated. And without exchange, there is no society. Cities, too, have existed
since prehistoric times. They are multicenturied structures of the most ordinary way of life. But they are also
multipliers, capable of adapting to change and helping to bring it about. One might say that cities and money
created modernity; but conversely, according to George Gurvitchs law of reciprocity, modernity the changing
mass of mens lives promoted the expansion of money and led to the growing tyranny of the cities. Cities and
money are at one and the same time motors and indicators; they provoke and indicate change. BRAUDEL,
Fernand. Afterthoughts on material civilization and capitalism. Translated by Patricia M. Ranum. Baltimore:
The Johns Hopkins Press, 1977, p. 15.
20 ZAK, Paul J.; KNACK, Stephen. Trust and growth. Royal Economic Society Economic Journal. 111:470 (2001):
295-321.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 192-204, 2013 199

na obra de Dumas Filho.21 Sobre a viso do capital de Rodrigo, Aguiar ressalta que o
trabalho visto do ponto de vista burgus, de quem o financia, e do ponto de vista
do engenheiro, de quem administra esse financiamento; deste pacto que Rodrigo
o arauto. O trabalho propriamente produtivo que transforma a natureza e faz da
matria-prima mercadoria est ausente dessa retrica, oculto, num passe de mgica
ideolgico, sob o trabalho do administrador, cuja funo a de organizar o trabalho
alheio em proveito de terceiros.22 Em concluso, vale dizer que Rodrigo prope uma
espcie de capitalismo humanizado, em que o capital, uma vez posto em circulao,
fundamentado no trabalho e administrado pela razo, realiza a ascese individual.

Cena iii: a poesia


O tema do dinheiro tambm comum poesia romntica.23 A estrofe final do poema
Minha desgraa de lvares de Azevedo ilustrativo:
Minha desgraa, cndida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
ter para escrever todo um poema,
E no ter um vintm para uma vela.

Uma questo importante emerge nos versos acima: a relao entre poesia, dinheiro
e o idealismo romntico. Martha Woodmansee,24 estudando o romantismo alemo,
mostra a relao entre o trabalho, entendido como atividade humana capaz de transformar a natureza a partir de determinada matria-prima, e o trabalho potico,
entendido como criao a partir do talento individual. A crtica mostra como no
romantismo o discurso da inspirao ou do gnio do poeta deu origem ideia de que
a criao individual era distinta e originalmente o product-and property-of the wri21 AGUIAR, Flvio. A comdia nacional no teatro de Jos de Alencar. So Paulo: tica, 1984, p. 60. (Coleo

Ensaios).
22 Idem, p. 52-3.
23 No romantismo brasileiro talvez a referncia maior seja O guesa errante, de Joaquim de Sousndrade,

especialmente o episdio O inferno de Wall Street, de que optei por no tratar neste artigo.
24 The Genius and the Copyright: Economic and Legal Conditions of the Emergence of the Author. In:
Eighteenth Century Studies, Vol. 17, n. 4, Special Issue: The Printed Word in the Eighteenth Century (Summer,
1984), p. 425-448.

200 santos, Vivaldo Andrade dos. As encenaes do capital no romantismo brasileiro

ter. Para ela, a categoria autor uma inveno moderna. No caso alemo, o conceito de autor est associado ao surgimento no sculo xviii de um grupo de escritores
que vislumbrou no fazer literrio a possibilidade de se ganhar a vida diante de um
pblico leitor que comeava a nascer. Segundo Woodmansee, esta nova definio da
natureza da escrita se distanciava da ideia de escritor no renascimento e no perodo
neoclssico, para quem o escritor era uma espcie de arteso, um master of a body
of rules, preserved and handed down to him in rhetoric and poetics, for manipulating
traditional materials in order to achieve the effects prescribed by the cultivated audience
of the court to which he owed both his livelihood and social status.25 exatamente nos
raros momentos em que o talento individual superou a criao encomendada que
a explicao para sua origem passou a ser dada pela inspirao externa a ele, Deus
ou musa inspiradora. Vale aclarar que minha leitura mais de carter materialista da
presena da economia no romantismo destoa do enfoque idealista que para muitos
caracterizou o perodo. Penso, por exemplo, no argumento de Benedito Nunes,26
para quem no romantismo h
[] o nivelamento dos valores morais regra benthamiana do maior interesse e da melhor
utilidade, a marginalizao social de toda atividade improdutiva, o princpio fiducirio da
moralidade burguesa, as relaes possessivas da moral domstica e do casamento, o filis
tesmo como atitude da maioria dominante em relao s letras e s artes.27

Vagner Camilo aponta, no seu estudo sobre o riso e o humor na poesia romntica,
Risos entre pares (1997), um momento em que a poesia de lvares de Azevedo se
aproxima do humour, sobretudo no que diz respeito insero social do poeta.28
Na sua anlise do poema O editor, Camilo assinala que, embora o poeta trate de
um tema problemtico como a relao entre a poesia e a economia, disso no chega
a resultar uma viso mais aprofundada e problematizante.29 Isso porque, segundo
o crtico, a poetizao do tema , antes de tudo, uma pose do poeta maldito que o
25 WOODMANSEE, Martha. The Genius and the Copyright: Economic and Legal Conditions of the

Emergence of the Author. In: Eighteenth-Century Studies, op. cit., p. 426.


26 NUNES, Benedito. A viso romntica. In: GUINSBURG, J. (Org.) O romantismo. So Paulo: Perspectiva, 1978.
27 Idem, p. 55.
28 CAMILO, Vagner. Risos entre pares. So Paulo: Edusp/FAPESP, 1998, p. 69. Camilo indica a recorrncia

temtica presente em O editor e, ainda, em poemas tais como O dinheiro, Um cadver de poeta e
Minha desgraa.
29 Idem, p. 69.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 192-204, 2013 201

jovem poeta constri para si.30 Pose esta que vem de uma tradio literria, como os
versos finais de Minha desgraa, que fazem ecoar os versos de O editor em Que
Tasso lastimou-se da penria/ De no ter um ceitil para candeia , em que o poeta
posa de Tasso em sua misria. Vale, contudo, retomar o tema apontado por Camilo,
embora em Azevedo faa parte das mscaras do poeta.
Os versos finais do poema Minha desgraa ( ter para escrever todo um poema,/
E no ter um vintm para uma vela.), ainda que marcados pelo humor, pelo riso da
desgraa alheia, deixam-nos entrever a ansiedade material do poeta. Do seu ponto
de vista, a produo do potico no encontra o reconhecimento econmico que o
poeta espera, pois a poesia no possui o carter de mercadoria, e de troca, esperado
dentro da lgica do capital. Para entrar nessa lgica preciso que a poesia passe
a ser uma commodity, e que exista para isso um pblico leitor, enfim, um pblico
consumidor.
, porm, no poema O editor que Azevedo mostra como o dinheiro um dos
grandes temas da poesia:
Demais infelizmente bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penria
De no ter um ceitil para candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol este Deus indefinvel,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elsio e Tolentino o sonham,
[].

O poeta estabelece uma genealogia literria em que o dinheiro no somente tema


da literatura, mas objeto de idolatria pelos escritores. O Deus indefinvel ganha
diversas roupagens (Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre), e a Palavra mgica
da vida,/ que vibra musical em todo mundo. Nesse universo potico e econmico,
a poesia se reduz ao tilintar de moedas. Do ponto de vista do poeta, o dinheiro a
grande tentao, diga-se de passagem, do diabo (Se creio que Sat, noite, veio/ Aos
ouvidos de Ado adormecido/ Na sua hora primeira, murmurar-lhe/ Essa palavra
30 Idem, p. 70.

202 santos, Vivaldo Andrade dos. As encenaes do capital no romantismo brasileiro

mgica da vida), capaz mesmo de reescrever a cena do pecado original de Ado e


Eva no Paraso se possvel fosse:
Se houvesse o Deus-Vintm no Paraso
Eva no se tentava pelas frutas,
Pela rubra ma no se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine to suave e to macio!

No romantismo, afirma Benedito Nunes, Firmava-se, enfim, alada a um plano ideal,


a superioridade da arte ou da poesia, como um domnio privilegiado e transcendente,
veculo de todos os valores e princpios da formao espiritual do homem.31 Contudo,
conforme vemos no poema O editor, a pose do poeta maldito, como sugere Camilo,
desmascara a prpria relao entre poeta e economia, colocando em evidncia o seu lado
materialista, distanciado do idealismo com o qual se procura caracterizar os romnticos:
Se no faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. mentira!
Desde Homero (que at pedia cobre),
Virglio, Horcio, Caldern, Racine,
Boileau e o fabuleiro La Fontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catlogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu s peo licena de fazer-vos
Uma simples pergunta: na gaveta
Se Cames visse o brilho do dinheiro
Malfiltre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?
31 NUNES, Benedito. Op. cit., p. 71.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 192-204, 2013 203

Cena final
A primeira grande crise econmica do sculo xxi, que aconteceu no ano de 2008,
trouxe de volta cena a importncia da economia na nossa vida cotidiana. A crise
tem sido extraordinria, considerando-se o momento da histria em que ela aconteceu e a dimenso dos seus efeitos, numa sociedade ps-industrial e num mundo
contemporneo globalizado. Na dinmica do capitalismo o carter extraordinrio
da crise natural. A histria do capitalismo mostra-nos como as crises econmicas
foram uma mudana e um reajuste nas prticas financeiras em vista do capital.32 Do
mesmo modo, a relao entre literatura e economia tambm no novidade, como,
talvez, um congresso interdisciplinar organizado em torno do tema do dinheiro
possa sugerir, ou como procurei demonstrar neste ensaio.33 Vejam-se as publicaes
sobre o tema, em especial de Marc Shell, autor de The economy of literature (Johns
Hopkins, 1978), Richard T. Gray, autor de Money matters: economics and the German
cultural imagination, 1770-1850 (University of Washington Press, 2008). No que diz
respeito especificamente ao romantismo, vale citar aqui a publicao mais recente
de Matthew Rowlinson, autor de Real money and romanticism (Cambridge University Press, 2010). No Brasil, algumas obras tambm apontam no caminho dessa
nova crtica. Entre elas, cito os dois livros organizados por Gustavo H. B. Franco, A
economia em pessoa: verbetes contemporneos e ensaios empresariais do poeta (Zahar,
2007), sobre a relao do poeta maior portugus com a economia, e A economia em
Machado de Assis: O olhar oblquo do acionista (Zahar, 2008); A aventura do dinheiro
uma crnica da histria milenar da moeda (Publifolha, 2009, edio de bolso), do
jornalista Oscar Pilagallo, e mesmo o mais recente, Dinheiro e magia: uma crtica da
economia moderna luz do Fausto de Goethe, de Hans Christoph Binswanger, cujo
prefcio de Gustavo H. B. Franco (Zahar, 2010).

Vivaldo Andrade dos Santos professor-associado de Portugus e Literatura Brasileira, Georgetown


University, Washington, DC.

32 Ver a discusso sobre o tema no livro de Charles Poor Kindleberger, Manias, panics and crashes: A history of

financial crises. Hoboken, N. J.: John Wiley & Sons, 2005.


33 Congresso The Cultural Life of Money, organizado pela Universidade Catlica Portuguesa-Lisboa, 12-13 de

novembro de 2009.

204 santos, Vivaldo Andrade dos. As encenaes do capital no romantismo brasileiro

Mujeres e Independencia en Chile. La


cultura del trato y la escritura de cartas1
Carol Arcos y Alicia Salomone

Resumen: El objetivo de este trabajo es estudiar un conjunto de cambios culturales de sentido ilustrado que, en el marco de la crisis independentista, posibilitan que algunas mujeres
de la lite chilena asuman un papel social activo en esta coyuntura, que desafen las normas
genrico-sexuales derivadas del orden cristiano-catlico tradicional. Estas acciones, que
acompaan el proyecto emancipatorio de la lite criolla, se concentran en dos esferas de
agencia femenina: el desarrollo de una cultura del trato y la escritura de cartas. A travs de
ellas, ciertas mujeres de la lite se incorporan a la nueva sociabilidad ilustrada y revolucionaria desde iniciativas que, arraigadas en el mbito privado, inciden en el acontecer poltico
y, al mismo tiempo, hacen posible una reconfiguracin de sus identidades y subjetividades
femeninas. Palabras clave: lite criolla, cultura del trato, Independencia de Chile.
Abstract: This work aims to evaluate cultural changes developed by elite women during the
crisis of Independence in Chile. Those changes enabled certain women to assume an active
social role at this juncture, even though their actions challenged gender norms derived from
the traditional catholic order. These actions, which complemented the emancipator project
designed by the male Creole elite, involved two areas of female agency; on the one hand, the
development of an illustrated female sociability (cultura del trato), on the other hand, the
writing of letters. From this on, those elite women joined the new revolutionary sociability
through initiatives rooted in the private sphere that, nevertheless, influenced political events.
At the same time, these actions made it possible for these women to reconstruct both their
female identities and subjectivities. Keywords: Creole elite, illustrated female sociability, Independence of Chile.

1 Este trabajo se lleva a cabo en el marco del Proyecto Fondecyt 1110108, que dirige la Dra. Darcie Doll

(Universidad de Chile).

1. Introduccin
Como sugiere el historiador Alfredo Jocelyn-Holt, la Independencia de Chile debiera ser entendida al menos desde dos perspectivas: una de corta y otra de mediana
duracin. Desde un enfoque que pone la mira en las temporalidades diversas que
confluyen en los procesos histricos, distingue la coyuntura crtica de 1808 a 1810,
que se inicia con la prisin de Carlos iv y la invasin napolenica a Espaa, y concluye con el quiebre del vnculo colonial, de un proceso ms largo. Este se retrotrae
hasta mediados del siglo xviii y permite observar las modificaciones ocurridas en la
sociedad colonial chilena, en especial en la lite, como consecuencia de la imposicin
de las polticas reformistas de los reyes borbnicos. Por otro lado, posibilita evaluar
el impacto que conlleva la incorporacin del ideario ilustrado y la esttica neoclsica
asociada a aqul en el cuestionamiento de la cosmovisin integrista cristiano-catlica imperante y de la esttica barroca que acompa su despliegue.2
Por nuestra parte, nos interesa observar cmo los cambios de sentido ilustrado de
las ltimas dcadas del siglo xviii, junto con la crisis independentista y la guerra misma, que inevitablemente conmueven valores y conductas, posibilitan que
algunas mujeres asuman un papel social activo en esta coyuntura, desafiando las
normas sexo-genricas derivadas del orden cristiano-catlico tradicional.3 Estas
acciones no son autoconscientes ni se ven acompaadas, como ocurre contemporneamente en Francia o Inglaterra, por un discurso crtico sobre la exclusin
femenina del mundo pblico.4 Como afirma la historiadora Patricia Pea, esa
rebelda espontnea suele estar asociada a la subsistencia familiar o al respaldo
del quehacer masculino a travs de la entrega de ayuda econmica, apoyo logstico, espionaje, alivio a los heridos u otras acciones. Esta condicin no oculta, sin
2 Jocelyn-Holt seala el papel que tuvieron el incremento del trfico comercial, legal e ilegal; los flujos

migratorios; la llegada de expediciones cientficas; los viajes ms frecuentes de chilenos a otros puntos
de Amrica y a Europa; y el comercio de libros. Todo lo cual favoreci el conocimiento de los avances
y cambios mundiales de finales del siglo xviii. JOCELYN-HOLT, Alfredo. La independencia de Chile. 2. ed.
Santiago: Planeta-Ariel, 1999, p. 110-1.
3 GONZLEZ, Pea; EUGENIA, Patricia. Las clebres y las otras. Modelo, presencia y protagonismo femeninos,
en el proceso independentista chileno. Tesis para optar al grado de Magster en Historia con mencin en
Historia de Amrica, Santiago: Facultad de Filosofa y Humanidades, Universidad de Chile, 2004.
4 Nos referimos, en particular, a dos discursividades crticas: por un lado, la que formula la revolucionaria
francesa Olympe de Gouges en 1791: Los derechos de la mujer y la ciudadana, y, por otro, la propone la
escritora inglesa Mary Wollstonecraft en su libro Vindicacin de los derechos de la mujer, de 1794.

206 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

embargo, el hecho de que esos actos suponen transgresiones genricas que, en un


contexto de alta tensin poltica, suelen castigarse con penas severas, tales como
crcel, reclusiones, confiscaciones, exilios o castigos pblicos, y censurarse desde
un discurso genrico disciplinante.
Ahora bien, a los fines de este trabajo, nos interesa observar otro tipo de acciones,
desarrolladas por ciertas mujeres de la lite patriota, en particular del crculo que
rodea a Javiera Carrera, las que evidencian cmo ellas, desde el espacio domstico,
se incorporan a la nueva sociabilidad ilustrada y revolucionaria desde iniciativas
que inciden en el acontecer poltico y que, al mismo tiempo, dan lugar a una reconfiguracin de sus identidades femeninas.5 Nuestra focalizacin en la elite no puede
extraar, pues es este sector social el que lidera en Chile el paso trascendental de la
monarqua a la repblica, y el que, como sostiene Jocelyn-Holt, determina el tono
transaccional que aqul asume. As, desde una modalidad adaptativa, esta lite,
por un lado, se muestra capaz de incorporar ideas y prcticas que proyectaran al
pas hacia un mundo ms moderno, y por otro, logra controlar cualquier desafo
social a la hegemona que haba ido construyendo a lo largo de las dos centurias
precedentes. En este contexto, nuestro inters se centra en observar cmo ciertas
actuaciones femeninas, como son la cultura del trato y la prctica epistolar, apoyan
dicha trayectoria.

2. Redes familiares: mujeres y revolucin


La casa familiar es el eje en torno del cual gira la vida de las mujeres de la lite hispanoamericana durante el perodo colonial, y lo seguir siendo a lo largo del siglo
xix. Desde esta perspectiva, asumimos al mbito domstico como el espacio desde
el cual las mujeres de la lite pro-independentista debieron irradiar su influencia
5 Para conceptualizar la idea de sociabilidad, remitimos a las propuestas de Pilar Gonzlez Bernaldo de

Quirs. La autora la define, en primer lugar, desde su genealoga, que se remonta al siglo xviii, contexto
en el que trminos como sociedad, social, sociable y sociabilidad apuntan al mundo interrelacional y a
un conjunto dotado de cierto sentido. En segundo lugar, como categora analtica, asume la sociabilidad
como prcticas sociales que ponen en relacin un grupo de individuos que efectivamente participan
de ellas, destacando el papel que juegan esos vnculos en un momento histrico determinado. QUIRS,
Pilar Gonzlez Bernaldo. de. La sociabilidad y la historia poltica, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, bac
Biblioteca de Autores del Centro, 2008, [En lnea]. Puesto el lnea el 17 de febrero de 2008. Disponible en:
<http://nuevomundo.revue.org/24082>. Accedido en 10 jun. 2012.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 207

hacia el escenario pblico. Al respecto, hay que recordar que las casas familiares
eran los lugares donde se producan los debates polticos, se reunan las familias
conspiradoras para tejer alianzas y tramar estrategias blicas y diplomticas, y donde
se confeccionaron los primeros smbolos patrios. As, en la medida en que la esfera
domstica comienza a funcionar como un territorio politizado en el que se conciertan los diseos emancipatorios de la oligarqua criolla resulta clave para reevaluar el
papel de las mujeres dentro de esa sociabilidad ilustrada y revolucionaria.
Una serie de nombres de mujeres se reiteran en las fuentes que consultamos: Javiera Carrera, Ana Mara Cotapos, Mercedes Fontecilla, Luisa Recabarren, Agueda
Monasterio, Rosario y Mercedes Rosales, Mara Cornelia Olivares; todas las cuales
formaban parte de las familias aristocrticas que promueven el quiebre poltico con
Espaa. La figura emblemtica entre 1808 y 1823 es, sin embargo, Javiera Carrera,
quien se mueve al interior de una poderosa trama socio-familiar y juega un rol preponderante como operadora cultural y poltica, pero siempre como figura latente.
De este modo, desde fuera de la arena pblica, ella apoya al grupo patriota en el
perodo de la Patria Vieja (1810-14), cuando gobierna su hermano Jos Miguel y
posee mayor legitimidad en sus actuaciones, pero su influencia no deja de sentirse
durante la Reconquista espaola (1814-18), cuando es obligada a recluirse. Quizs el
momento ms difcil para ella acontece durante la llamada Patria Nueva (1818-23),
cuando tras la derrota y muerte de sus hermanos Luis, Juan Jos y Jos Miguel, y
dominando la escena poltica el opositor de stos, Bernardo OHiggins, resuelve
exiliarse en Buenos Aires y Montevideo; ciudades desde las cuales logra mantener
activa su red de relaciones, sobre todo mediante la escritura de cartas.
Javiera Carrera haba nacido el 1 de marzo de 1781, y es la primera hija de Ignacio
Carrera y Francisca de Paula Verdugo. Se cas dos veces, primero con Manuel Lastra,
con quien tuvo dos hijos; y despus con el espaol Pedro Daz Valds, con quien
contrae nupcias en 1800.6 Su saln fue un lugar privilegiado de reunin revolucio6 Existe abundante bibliografa sobre la participacin de Javiera Carrera en la Independencia chilena. Por

ejemplo, encontramos referencias sobre su actividad familiar y poltica en trabajos tales como: GREZ,
Vicente. Las mujeres de la Independencia. Santiago: Imprenta Gutenberg, 1878; MACKENNA. Benjamn
Vicua. Doa Javiera Carrera. Rasgo biogrfico. Santiago: Guillermo E. Miranda, 1904; MORENO, Armando
(edicin, transcripcin y notas). Archivo del general Jos Miguel Carrera. Sociedad Chilena de Historia y
Geografa, Santiago, 1992-2000. Sin embargo, faltan abordajes que den cuenta de la actividad de Javiera,
de las mujeres en general durante la Independencia chilena, desde un enfoque que no solo escape al
androcentrismo histrico que se expresa en textos como los mencionados, sino tambin que articule una
interpretacin que considere los campos de accin femeninos en su particularidad.

208 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

naria durante la Patria Vieja y las tertulias celebradas en su casa hasta 1814 pueden
ser imaginadas al modo de una academia independentista, pues de las conversaciones mantenidas en ellas debieron surgir muchos de los proyectos que Jos Miguel
aplicara bajo su gobierno, tales como la ley de libertad de vientres, la adopcin de
una bandera nacional (que habra sido hilada por Javiera) y el establecimiento de la
primera imprenta en Chile.
Tras la derrota patriota a manos de los realistas en la batalla de Rancagua, en octubre
de 1814, los Carrera deben partir al exilio y lo hacen en un primer momento hacia
Mendoza. Otros revolucionarios son ejecutados o deportados a la isla de Juan Fernndez, donde permanecen hasta 1818, mientras que gran parte de sus propiedades son
confiscadas por el gobierno realista. Javiera corre la misma suerte que sus hermanos, y
que las esposas de estos, pero, en su caso, el viaje no slo implica dejar el pas sino tambin a sus hijos, a quienes no volver a ver hasta su regreso en 1824, una vez concluido
el gobierno de OHiggins. Su compromiso revolucionario, ms patente en ella que en
otras mujeres de su red, la hace partcipe de los avatares polticos de la poca, lo que
le otorga reconocimiento y autoridad como colaboradora e interlocutora del bando
independentista. Su legitimidad, no obstante, es indisociable del hbil manejo que
ella ejerce desde la esfera privada, lo que no se distancia mucho de lo que hacen otras
mujeres de su grupo social. De all la relevancia de observar ms detenidamente estos
movimientos que hay que reconstruir desde dos reas de intervencin: el despliegue
de una sociabilidad ilustrada o cultura del trato y la prctica de la escritura epistolar.

3. Las casas y la cultura femenina del trato


En la coyuntura que estamos revisando, la casa familiar es el espacio donde las mujeres
ponen en juego el ejercicio de una cultura del trato, como la define Graciela Batticuore,
que se expresa en el papel que ellas ejercen como anfitrionas en reuniones, tertulias
nocturnas y fiestas, as como en la recepcin de visitantes extranjeros que comenzaban
a llegar a Amrica tras el fin de las restricciones impuestas por Espaa. Como descubre
Batticuore en su estudio sobre Mariquita Snchez de Thompson,7 a comienzos del siglo
xix su casa de Buenos Aires est lejos de ser un reducto meramente privado, pues es
el mbito donde se forjan amistades valiosas y se consolidan relaciones sociales, y con
el poder, en un escenario poltico que se transforma dramticamente.
7 BATTICUORE, Graciela. Mariquita Snchez. Bajo el signo de la revolucin. Buenos Aires: Edhasa, 2011.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 209

Por otra parte, esta nueva funcionalidad domstica impone realzar los espacios
donde se llevan a cabo estas prcticas, lo que va en sintona con una visin ilustrada
que asigna a las mujeres una influencia positiva en el desenvolvimiento social, como
civilizadoras y moderadoras de las costumbres. En lo que hace a la ciudad de Santiago, segn explica Lorena Manzini, las casas de las familias patricias a finales de
la Colonia eran de un solo piso, aunque ocasionalmente presentaban altos o locales
superiores con balcones. Su planta se organizaba a partir de habitaciones en galera
ubicadas en torno a dos espacios abiertos o patios. La sala, que a finales del siglo xviii
haba perdido las funciones comerciales que tena dcadas antes, cobra importancia
al instalarse en la parte delantera de la vivienda, y empieza a ser concebida como un
espacio dedicado slo a la familia y sus visitas, que adems expresa su rango social y
su prestigio. Las salas evidencian, asimismo, el cambio en los gustos del mobiliario
y la decoracin, los que progresivamente dejan de lado los patrones hispnicos para
acercarse a los nuevos estilos europeos, sobre todo franceses e ingleses.
Uno de las transformaciones que tienen lugar durante el perodo revolucionario es
el abandono del estrado, una tarima de madera cubierta de alfombras, almohadones
y pequeas sillas, que haba sido de uso femenino exclusivo como espacio donde las
mujeres realizaban sus labores y desde el cual se relacionaban con los varones. En el
nuevo contexto, ellas comienzan a utilizar las sillas de la sala, lo que Manzini interpreta,
a partir de un testimonio de Domingo F. Sarmiento, como un gesto de ruptura, libertad
e igualdad frente a las jerarquas coloniales. Dice Sarmiento en Recuerdos de provincia:
[] aquel estrado revelaba que los hombres no podan acercarse pblicamente a las
jvenes, conversar libremente y mezclarse con ellas, como lo autorizan las nuevas costumbres, y fue sin inconveniente repudiado por las mismas que lo haban aceptado
como un privilegio suyo. El estrado cedi, pues, su lugar en casa a las sillas.8

Sin la evaluacin ideolgica que hace Sarmiento, la viajera inglesa Mara Graham9
tambin destaca el abandono del estrado entre las damas santiaguinas. Por otra
parte, en cuanto a la decoracin de los interiores, junto con sealar la incorporacin

8 Citado en MANZINI M., Lorena. Las viviendas del siglo xix en Santiago de Chile y la regin de Cuyo en

Argentina. Universum, Talca, v. 26, n. 2, 2011. Disponible en: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_


arttext&pid=S0718-3762011000200009&lng=es&nrm=iso>. Accedido en 10 abr. 2013.
9 GRAHAM, Maria. Diario de su residencia en Chile (1822) y de su viaje al Brasil (1823): San Martin Cochrane
OHiggins. Madrid: Sociedad Espaola de Librera, 1916, p. 251.

210 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

generalizada de sillas y largas alfombras, se detiene en describir la sala que posee la


familia Cotapos, en cuya casa se aloja durante una temporada en 1822. Desde una
mirada poco emptica, que explicita una distancia de superioridad cultural frente
al espacio que describe, ella registra la serie de muebles y adornos europeos incorporados en la estancia. Lo que permite observar, por una parte, la disponibilidad
de bienes facilitada por las polticas de libre comercio recin inauguradas; por otro
lado, la capacidad de gasto suntuario de la lite local; y, al mismo tiempo, el deseo
de estos sectores de acceder a este tipo de objetos que los incorporan material y
simblicamente a una sensibilidad y un modo de vida ms modernos. Dice Graham:
La casa de Cotapos est amueblada con lujo, pero sin elegancia. Sus ricos espejos, sus
hermosas alfombras, un piano fabricado por Broadwood, y una buena provisin de
sillas, mesas y camas, no precisamente de las que hoy se usan en Pars o en Londres,
pero s de las que estuvieron all de moda hace un siglo o poco ms, hacen un lucidsimo papel en esta apartada tierra del continente austral. Pero con el comedor no puedo
transigir. Es el aposento ms oscuro, triste y feo de la casa. La mesa est casi pegada a
la muralla, en un rincn, de suerte que una de las extremidades y costado apenas dejan
espacio suficiente para las sillas, un regular servicio es as punto menos que imposible.10

Desde una postura menos crtica que la que muestra la cita anterior, Graham entrega
otra mirada de los espacios interiores a partir de la visita que realiza a doa Mercedes
Rosales del Solar, hija de un patriota prominente y, a su vez, madre del futuro escritor
Vicente Prez Rosales. En esta escena, junto con atender a las caractersticas del rico
mobiliario, la narradora marca ciertos detalles que iluminan sobre la presencia de
una mujer que atrae su atencin por su perfil ilustrado. As, Graham comenta, por
una parte, el hecho de que el dormitorio de la duea sea utilizado como una sala de
recepciones, a la que ella misma es invitada; por otro lado, destaca no slo la belleza
y distincin de la seora del Solar sino su conocimiento de la literatura francesa y
su dominio de esta lengua; y finalmente, detecta la presencia de libros e instrumentos musicales abiertos, como si estuvieran listos para ser utilizados. Con relacin a
los libros, cuya mencin no slo es doble sino excepcional en el itinerario chileno
de Graham, son vistos por ella en una pequea mesa del dormitorio de Mercedes
del Solar, ubicados estratgicamente junto a sus tiles de costura y a otros objetos
cotidianos. No cabe duda de que se trata de una referencia importante pues, junto a
10 Idem, p. 254.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 211

los instrumentos musicales, conforman una trama significante en la que se inscribe


una subjetividad ms moderna. Una mujer cuyo contacto con la cultura europea y
refinamiento en las costumbres, la convierten en una figura equiparable a la narradora, que se construye en el relato sin sesgos subordinantes:
Visit a doa Mercedes del Solar, cuyo padre don Juan Enrique Rosales, fue uno de los
miembros de la primera Junta de gobierno revolucionario de 1810. Es una hermosura y
distinguida seora; conoce bastante bien la literatura francesa y habla esta lengua con
perfeccin.
Me recibi en su dormitorio, que, como he dicho antes, es usado con frecuencia como
sala de recepciones. Rodebanla graciosos nios y algunas lindas sobrinas. Tena junto a
ella una pequea mesa con libros y tiles de costura []. El majestuoso lecho francs, el
piano abierto, la guitarra, el ostentoso reloj de bronce, las damas, los nios, los libros, los
materiales de costura, los jarrones de porcelana llenos de flores y el rico brasero chileno,
del que suba el humo fragante del sahumerio, formaban un encantador conjunto [].
No habra cambiado el amplio ropaje de pieles de la madre [] ni el plido rostro del
pequeo Vicente, por todas las invenciones de los pintores que ms han sobresalido en
la pintura de interiores.11

Observando la cultura femenina del trato desde ciertas acciones que evidencian de
modo ms claro su connotacin pblica en el contexto revolucionario, hay que mencionar la organizacin de banquetes y fiestas, en particular, las que tienen lugar con
ocasin de los triunfos blicos del bando patriota. Se trata de actos polticos que, ante
la inexistencia de otras instancias, se desarrollan en mbitos privados. Entre estas
actividades semipblicas, por su importancia material y simblica, destaca el sarao
o baile celebrado despus de la batalla de Chacabuco,12 que se realiza en la residencia
de la familia Solar-Rosales, en 1817, cinco aos antes de que Mara Graham visitara esa misma casa. Este evento es narrado por Vicente Prez Rosales, medio siglo
11 Idem, p. 264-5.
12 La batalla de Chacabuco tuvo lugar el 12 de febrero de 1817, al norte de la ciudad de Santiago, y fue muy

importante para el bando patriota. Ese da, el Ejrcito de los Andes, comandado por el general argentino
Jos de San Martn junto a lderes chilenos como Bernardo OHiggins y Ramn Freire, logra un triunfo
contundente ante las fuerzas realistas. Ello no supone el fin de la guerra, pues los espaoles se reagrupan
y, el 19 de marzo de 1818, derrotan en Cancha Rayada a los patriotas. No obstante, unos das despus, el 5
de abril de 1818, stos logran imponerse definitivamente tras la batalla de Maip.

212 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

despus, en su libro de memorias, donde refiere cmo las narraciones orales de las
mujeres de su casa, y en particular las escuchadas a su madre, constituyen insumos
fundamentales de su escritura al permitirle reconstruir episodios histricos que no
puede recordar, pero que logra imaginar a travs de aquellos relatos de infancia.
El sarao de la independencia es presentado por Prez Rosales mediante una descripcin colorida y dramtica, que resalta el papel jugado por las hijas i yernos de [el exilado Juan Enrique] Rosales, quienes no slo deciden agasajar a quienes comenzaban
a ser considerados como los padres de la patria, sino que comandan las complejas
tareas involucradas en la organizacin del evento. Pasando por el detalle de los mltiples arreglos domsticos, la decoracin de los salones, la instalacin de los msicos
y la descripcin del men de la gala, la narracin entrega imgenes que apuntan a la
intencionalidad poltica del acto. Lo que se advierte, por ejemplo, cuando describe
los brindis y discursos, o cuando comenta el requerimiento de que los (y las) asistentes portaran los smbolos del nuevo imaginario revolucionario: Fue convenido
que las seoras concurriesen coronadas de flores, i que ningn convidado dejase de
llevar puesto un gorro frijio lacre con franjas de cintas bicolores, azul y blanco.13
Por otra parte, estas representaciones tambin permiten visibilizar esa sociabilidad
en la que confluyen varones y mujeres, as como el sentido que adquiere para unos y
otras. As, la detallada descripcin de Rosales muestra cmo se articula ese espacio
que le permite, al sector masculino, transitar desde el oficio militar a las labores no
menos arduas de la vida civil, pasando por la mediacin que proporciona la cultura
femenina del trato. Y trasluce, asimismo, cmo las mujeres definen y administran
un territorio de actividad que les compete especficamente. Un espacio desde el cual
colaboran en la construccin nacional, acercando posiciones y limando asperezas
entre los lderes llamados a construir la nueva nacin, y eventualmente, imprimiendo sus propias visiones mediante la influencia que ejercen sobre los miembros de
sus redes familiares. Dice Prez Rosales:

Escusado me parece decir cul fue el estruendo que produjo en Santiago este alegre
i para entonces suntuossimo sarao. Dio principio con la cancin nacional argentina
entonada por todos los concurrentes a un mismo tiempo, i seguida despus con una
salva de veintin caonazos /36/ que no dej casa sin estremecerse en todo el barrio.
Sigui el minuela, la contradanza, el rin o rin, bailes favoritos entonces, i en ellos lucan
13 ROSALES, Vicente Perez. Recuerdos del pasado (1814-1860). Santiago: Editorial Andrs Bello, 1980, p. 50.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 213

su juventud i gallarda el patrio bello sexo i aquella falange chileno-argentina de brillantes oficiales, quienes supieron conseguir con sus heroicos hechos, el ttulo para siempre
honroso de Padres de la Patria.
Jvenes entonces i trocado el adusto ceo del guerrero por la amable sonrisa de la galantera, circulaban alegres por los salones aquellos hroes que supo improvisar el patriotismo, i que en ese momento no reconocan ms jerarquas que las del verdadero mrito, ni
ms patria que el suelo americano.14

4. Las cartas, las subjetividades y el manejo de los afectos


La cultura del trato, adems de la conversacin y de la vida del saln, tambin est
habitada por la correspondencia, la que opera como sustituto de la tertulia cuando esta se desarticula durante los momentos lgidos del enfrentamiento blico. En
este contexto, las cartas adquieren nuevas funciones que se relacionan tanto con su
papel privilegiado en la conformacin y difusin del proyecto criollo,15 como con su
carcter propicio para la exposicin de las nuevas subjetividades nacidas al calor del
cambio histrico que estaba teniendo lugar.
Si bien la carta posee una larga tradicin en Hispanoamrica,16 y en diferentes
momentos prevalece ya sea su valor informativo, comunicativo, retrico o literario,
es en el siglo xviii cuando adquiere predominio frente a otros gneros del discurso
y mayor complejidad conceptual. En el contexto ilustrado, por otra parte, la epstola
cobra importancia para la construccin de un yo que no slo se exhibe en la cercana
del saln, sino ante un interlocutor ausente respecto del cual escenifica un simulacro
discursivo de conversacin.
En la poca revolucionaria, la escritura de cartas es una prctica discursiva dominante en las lites americanas como una forma de comunicacin eficaz en un escenario
poltico-militar alterado por las guerras, destierros, exilios, crceles y distanciamien-

14 Idem, p. 50.
15 Un ejemplo distintivo es la Carta a los espaoles-americanos, del ex sacerdote jesuita Juan Pablo Vizcardo

y Guzmn, publicada en Londres en 1799, y difundida en Amrica por Francisco de Miranda.


16 En el contexto americano, la carta es el primer gnero cultivado para comunicar noticias distantes. Antes
de la aparicin de la prensa iluminista en el siglo xviii, donde se hace un uso intensivo de la carta, las
noticias circulaban en manuscritos que eran compuestos bajo la forma de epstolas.

214 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

tos familiares. Se trata de un gnero que tiene fuerte presencia en los debates pblicos
dada su incorporacin en la prensa iluminista y tambin por su publicacin, junto
a proclamas, pasquines y otros textos, con fines polticos y/o didcticos. Este rasgo
genrico, sin embargo, no es el nico que se hace patente durante el perodo, pues
entre la descripcin de batallas, los petitorios polticos y la bsqueda de alianzas,
las cartas tambin dejan huellas de subjetividades en crisis que reflejan los padecimientos y temores de una poca de cambios sociales que modifican las estructuras
del sentir de quienes se ven afectados por ellos.17
Diversos estudios han sealado la similitud de la carta con la modalidad interaccional de la conversacin, pues la forma epistolar deja asentadas las marcas de la
situacin de enunciacin y recepcin, configurando una suerte de simulacro de la
interaccin hablada. Patrizia Violi, desde un enfoque semitico, se refiere a la dimensin comunicativa de la carta, caracterizada por la necesidad estructural de asumir
internamente el eje comunicativo. De este modo, la carta evidenciara un dilogo
como modalidad especfica de su organizacin discursiva, pero un dilogo que es
siempre diferido, pues tiene lugar en la ausencia de uno de los dos interlocutores.18
El nfasis en esta ltima idea, sin embargo, no remite solo a la relacin o anclaje
que el gnero tiene con lo referencial sino tambin al modo en que hace posible el
despliegue (o, ms bien, la escritura) de la subjetividad, vinculando la carta a los
llamados gneros del yo o de la intimidad.19 Es precisamente esta perspectiva la
que nos interesa observar en las cartas de mujeres de la Independencia pues, tanto
el arte de la conversacin como la escritura de cartas, se constituyen para ellas en
territorios de enunciacin y actuacin privada y pblica. As, estas cartas, por una

17 La estructura de sentimiento, concepto acuado por Raymond Williams, permite dar cuenta de la pulsin

o latido de una poca. Alude a un sistema intangible que genera ciertas significaciones culturales y que
afecta la difusin y evaluacin de la cultura misma. WILLIAMS, Raymond. Marxismo y literatura. Barcelona:
Ediciones Pennsula, 1980.
18 VIOLI, Patricia. La intimidad de la ausencia: formas de la estructura epistolar. Revista de Occidente, n.
68, 1987, p. 89; VIOLI, Patricia. Letters. In: DIJK, Teun A. Van (Ed.). Discourse and Literatura. msterdam/
Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 1985, p. 89.
19 Para Altamirano y Sarlo, una teora histrica de los gneros literarios o discursivos debiera considerar la
representacin de la subjetividad o su represin, pues: la historia del yo en la retrica de los gneros
se vincula a las disposiciones que rigen en la sociedad sobre el lugar del individuo, la legitimidad de la
primera persona, qu se semantiza, en diferentes situaciones histricas, en el pronombre yo, la extensin y,
eventualmente, expresin de una subjetividad admisible. ALTAMIRANO, Carlos; SARLO, Beatriz. Literatura/
Sociedad. Argentina: Hachette, 1983, p. 125.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 215

parte, nos permiten indagar en el complejo pasaje que estas mujeres producen desde
el ejercicio dominante de la oralidad a la prctica de la escritura. Y, por otra parte,
nos posibilitan desentraar cmo esos textos dejan plasmada una reconfiguracin de
las subjetividades femeninas, que se produce en vnculo estrecho con la constitucin
de un discurso sobre los afectos.
Con respecto a esto ltimo, y entroncado con un proceso que se gestaba desde algunas dcadas antes, a inicios del xix se pone de manifiesto un cambio en la valoracin
de la subjetividad, que tiene que ver con el modo en que se reubica el yo dentro de
un sistema de convenciones sociales ms moderno. Este proceso, que produce una
transformacin de largo alcance en la representacin del individuo y de su intimidad, se profundizara con el correr del siglo, alcanzando su punto culminante con el
auge del sentimentalismo como trama argumental predilecta de la novela romntico-liberal y tambin con la difusin de discursos sobre individuo y la educacin de
los afectos; temas que son relevantes para las publicaciones chilenas de la primera
mitad del xix.
La escritura de y/o desde los afectos, asumida histricamente como una caracterstica
propia de lo femenino, por su asociacin con lo instintivo y emocional, ya est presente
en la escritura epistolar de mujeres en el momento independentista. Esto es lo que se
visibiliza, por ejemplo, en la carta que Ana Mara Cotapos escribe en noviembre de
1817 a Javiera Carrera, cuando sta se encontraba exiliada en Buenos Aires:
Mi apreciada y distinguida hermana, el recibo de tu preciosa carta ha causado dos
impresiones en m: la primera ver la letra de una hermana a quien tanto amo y su
contenido se cubri con mis lgrimas, pues ya mis ojos se han perdido y solo se ven
en ellos dos canales. No alcanzo, mi Javiera, a explicarte con la pluma los sentimientos
que devoran mi corazn en el da. S que mi Juan y Luis son inocentes; pero tambin
conozco los grandes rivales que tienen, y el principal San Martn, y por esto hasta ahora le evito, porque temo me diga alguna expresin contra mi Juan, porque a ninguno
odia tanto como a l []. Pueyrredn no me ha contestado, esperar otro correo y, si
se niega, ver a San Martn. Al gobernador de Mendoza hice otra carta para que los
atendiese y se permitiese nuestra correspondencia y en la misma inclu una cartita
para mi Juan. En este correo he tenido contestacin y el gran consuelo de ver la letra
de mi inseparable compaero.20
20 COTAPOS, Ana Mara, apud Papeles de doa Javiera de Carrera. Revista Chilena de Historia y Geografa,

Sociedad Chilena de Historia y Geografa, Archivo Nacional, Chile, v. 12, 1914, p. 409.

216 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

Estas cartas muestran cmo las chilenas que escriben durante el ciclo revolucionario articulan la manifestacin de sus mundos ntimos y, al tiempo que recurren al
discurso hegemnico sobre lo femenino, van dando forma a una retrica del yo que
escenifica una subjetividad que se ve forzada a moverse entre lo privado y lo pblico.
De este modo, ellas dan inicio a una indita experiencia auto-representacional que,
desde un discurso inscrito en las zonas privadas del yo, y que adems apela a un t
prximo y familiar, configura un sujeto que se proyecta desde el mbito ntimo y/o
domstico hacia lo pblico.
Dentro de este mundo de afectos e intimidad, un tema fundamental ser, sin duda,
el de la guerra misma, el que posibilita a las mujeres hablar de sus sentimientos a
partir de este motivo que las aleja de sus familias y territorios de pertenencia. As, por
ejemplo, en una carta dirigida por Ana Mara Cotapos a Javiera Carrera, donde ella
refiere el dolor que le genera la incertidumbre ante el estado de Juan y Luis Carrera
como prisioneros en Argentina, se advierte la manera en que el sufrimiento funciona
como una forma de habitar la subjetividad. Por otra parte, desde ese mismo prisma
de lo ntimo, la carta inevitablemente remite a acontecimientos que se batallan en la
arena pblica, incorporando personajes cardinales de la poltica o mencionando las
gestiones hechas ante ciertas autoridades. Es lo que puede observarse, por ejemplo,
en la carta de la Sra. Cotapos, cuando alude a la correspondencia que le ha enviado
a Juan Martn de Pueyrredn, Director Supremo de las Provincias Unidas del Ro
de la Plata, y a la entrevista que podra tener con el mismo General San Martn para
interceder a favor de su marido y cuado.
Desde un discurso ms privado, una carta de Javiera Carrera, remitida a su marido,
Pedro Daz de Valds, desde la ciudad de Buenos Aires, el 9 de julio de 1817, mientras
le entrega a ste una serie de instrucciones que debe seguir en el manejo de la casa
de Santiago, tambin le advierte sobre la cautela que tiene que mantener debido a las
circunstancias polticas adversas por las que atraviesa su familia:
Querido Valds, contino la costumbre de no pasar en silencio como t. Debes haber
recibido segunda carta ma por manos de Mara del Rosario Valdivieso, otra por don
Francisco Sota y las dems por direccin de Ana Mara Cotapos, a quien habrn tenido
ustedes el gusto de ver. Todos son ms felices que yo. Vivo ya desesperada en la ansiedad
de que llegue este da para m; pero creo primero que me dejen libertad me muero y lo
peor es que no alcanzo un pice de conformidad.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 217

Me haba olvidado de prevenirte que recojas del poder de nuestro administrador Bravo,
algunas cosas que le dej a guardar, como son ocho rollos de esteras de la China, como
las que dej en casa, cada rollo es de veinte o veintids varas. Lo propio debes hacer con
Molina, al que le dej muchsima loza, eran once o doce cajones, de volumen muchos de
ellos, de aquellos de la despensa, haban jarros de la China, tapados sin estrenar
En este momento recibo una de padre, de fecha 16 de abril, no tengo tiempo de contestarla; pero sirva a ustedes de gobierno que los sobres de encima deben venir para don
Mariano Roln, otras prevenciones har despus. Juan Jos tambin quiere que Ana las
dirija al propio sujeto. De ninguna manera manden cartas por Tadea Cotapos, esta tontita las manda a Mercedes Fontecilla [esposa de Jos Miguel] y esta las abre, como lo verific con el sobre en que puso un parche de lacre. Te aseguro que esta quiere dominarnos
y no permite, si puede, que le sean ocultos los secretos mos, de mi padre y marido.
P. D. Abraza a mis hijos por m [].21

No cabe duda de que estas cartas tienen como eje la narracin de mundos ntimos y
afectivos, situando a las hablantes en el marco tradicional de la familia. Sin embargo, la
condicin eminentemente privada de estos textos se pone en entredicho al considerar
que los lazos familiares, sea entre esposos, cuadas, cuados, yernos e hijos, constituan una pieza fundamental de la trama social revolucionaria. De este modo, mientras
las cartas permiten desplegar una discursividad personal e ntima, al mismo tiempo
funcionan como mecanismos de informacin y/o comunicacin que transmiten las
urgencias de la guerra y evidencian posiciones en los enfrentamientos entre bandos;
todo lo cual deriva en la representacin de una cotidianeidad que, ya sea en el territorio
propio o en el exilio, aparece atravesada por el conflicto poltico-militar.
Por otra parte, cuando el contacto directo con las redes socio-familiares, antes vivenciado en lugares como el saln y las recepciones, se fractura debido a los avatares de la
poca, las cartas tendrn un papel esencial en la mantencin simblica de la cultura
femenina del trato. Pues estos textos, delineando un cierto destinatario sobre el cual
se calculan posibles reacciones y se imaginan respuestas y rplicas, permiten construir una modalidad de interaccin interpersonal que sustituye la cultura del trato.
De este modo, lo que en sta operaba mediante conductas kinsicas o proxmicas,
21 Idem, Revista Chilena de Historia y Geografa, Sociedad Chilena de Historia y Geografa, Archivo Nacional,

Chile, v. 8, 1913, p. 429.

218 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

es decir, en la relacin cara a cara de la tertulia, se prolonga en las cartas mediante


ciertas estrategias discursivas que, desde una retrica de lo ntimo, buscan generar
un impacto (imaginado) sobre el potencial interlocutor.
As, en cartas como las que comentamos antes, la subjetividad femenina habita y
se construye preferentemente desde la regin de los sentimientos, los deseos, las
emociones, el dolor y el amor; un conjunto de afectos que, en el contexto dialgico propiciado por el gnero epistolar, se inscriben como mbitos preferentes para
modelar nuevas configuraciones de la intimidad as como otros modos de relacin
del yo con los otros y con el afuera.22 Es por eso que los afectos se vuelven el lugar de
interaccin escogido para sortear los embates de la guerra, y para tejer un particular
poder de enunciacin e interpretacin de la realidad social, que expresa, al mismo
tiempo, la propia subjetividad y la representacin de la alteridad.

5. Palabras finales
A lo largo de estas pginas quisimos proponer una aproximacin a los modos en
que las mujeres de la lite chilena durante el perodo independentista se involucran
en el comn proyecto de su grupo social. Se trataba de un diseo que, por un lado,
apuntaba a gestar un esquema poltico para la nueva nacin y, por otro, buscaba
modelar una hegemona cultural, que vendran a reemplazar a la cosmovisin integrista de los tiempos coloniales, asentndose en la incorporacin de ciertos discursos
y prcticas de raigambre moderno-ilustrada. En este escenario, cruzado no slo por
debates intelectuales sino por el impacto de largos aos de guerra, las mujeres de las
que nos hemos ocupado logran definir espacios de actuacin especficos que, arraigados en el mbito privado, inciden en lo pblico, produciendo al mismo tiempo
una reconfiguracin de sus subjetividades femeninas.
Desde nuestra perspectiva, y es lo que buscamos demostrar en este trabajo, dos
esferas son las privilegiadas en este proceso: por una parte, la cultura del trato y, por
otra, la escritura epistolar; estrategias que se ponen en juego exitosamente en tanto
logran engarzarse con las nuevas orientaciones ilustradas que se abran paso en el
22 Esta idea es desarrollada, mediante el concepto de espectacularizacin, por ROMERO, Luis Puelles.

Interiores del alma. Lo ntimo como categora esttica. Themata, revista de filosofa, n. 22, 1999, p. 241-7.
Para el autor, la modelacin de los estados de la intimidad se realiza mediante la puesta en representacin
de determinadas acciones y sentimientos que metonmicamente designan lo ntimo.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 219

contexto revolucionario. Una y otra contribuyen a cuestionar aspectos centrales de


la feminidad definida desde la normativa catlica colonial, y al mismo tiempo posibilitan exponer una individualidad, un yo y un mundo ntimo que, antes del quiebre
del vnculo colonial, no habran encontrado motivo ni modo de manifestarse.
Con respecto a las cartas, en particular, nos interesa destacar que, si bien a comienzos del siglo xix las mujeres chilenas sobre las que trabajamos no desarrollan una
reflexin autoconsciente sobre el deseo de crear a travs de la escritura, o de ser
escritoras, sin embargo, el acto de narrar y tambin de requerir mediante cartas
tiene importantes derivaciones, entre las cuales quisiramos sealar dos. En primer
trmino, la escritura epistolar, ligada a las nuevas orientaciones culturales de carcter ms moderno, contribuye a gestar en los hijos de estas mujeres el gusto por la
lectura y la escritura; lo que, junto con el recuerdo de los hechos vividos durante el
momento crucial de la revolucin, refuerza en ellos el compromiso con los valores
republicanos que se iban configurando. Por otra parte, y considerando en este caso
un punto de vista centrado en la evolucin de las mujeres mismas, la prctica de la
escritura de cartas tambin debe ser pensada como un camino ineludible, tanto en lo
prctico como en lo simblico, hacia la emergencia de esa figura escritural femenina,
la escritora romntica, que se manifestara en el espacio cultural latinoamericano
slo un par de dcadas ms tarde.23

23 Respecto de la figura de la escritora latinoamericana durante el perodo romntico es ineludible consultar

el estudio de BATTICUORE, Graciela. La mujer romntica. Lectoras, autoras y escritores en la Argentina: 1830-1870. Buenos Aires: Edhasa, 2005.

220 arcos, Carol e salomone, Alicia. Mujeres e Independencia en Chile

Carol Arcos, profesora de las universidades Andrs Bello y Finis Terrae. Sus de investigacin se concentran
en: historia de la literatura latinoamericana, con nfasis en Chile y Brasil; teora crtica latinoamericana
y escritura de mujeres. Sus publicaciones principales son: Novelas-folletn y la autora femenina en la
segunda mitad del siglo xix en Chile. Revista Chilena de Literatura. n. 76 (abril 2010): 27-42; Musas
del hogar y la fe: la escritura pblica de Rosario Orrego de Uribe. Revista Chilena de Literatura. N. 74
(abril 2009): 5-28; Sitios feministas: Boletn del Crculo de estudios de la Mujer 1980-1983. Prcticas
Culturales, Discursos y Poder en Amrica Latina. Santiago: cecla. Universidad de Chile, 2008. p. 145-161;
Maternidad y travestismo: cuerpos de mujeres en el Mercurio Peruano de historia, literatura y noticias
pblicas (1791-1795). Arenal. Revista de Historia de las Mujeres. Vol. 15, n. 2 (julio-diciembre 2008): 297323; Aportes para una bibliografa sobre las mujeres en el siglo xviii y la Ilustracin. Revista de Crtica
Literaria Latinoamericana, ao 34, 67 (2008): 111-122. (isi).

Alicia Salomone, profesora del Departamento de Literatura y del Centro de Estudios Culturales
Latinoamericanos de la Universidad de Chile. Desarrolla tres lneas de investigacin: historia de la
literatura hispanoamericana, teora crtica latinoamericana, estudios de gnero. Sus publicaciones
principales son: Alfonsina Storni. Mujeres, modernidad y literatura. Buenos Aires: Corregidor. 2006;
Postcolonialidad y nacin (Postcoloniality and nation), coautora con Grnor Rojo y Claudia Zapata.
Santiago de Chile: lom. 2003; Modernidad en otro tono. Escritura de mujeres latinoamericanas 1920-1950, coautora con Gilda Luongo, Natalia Cisterna, Darcie Doll y Graciela Queirolo. Santiago de Chile:
Cuarto Propio, 2004.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 205-221, 2013 221

3 DOSSI: POTICAS DO ROMANTISMO

Variaes do amor corts


em Leonor de Mendona e em
O casamento de Fgaro
Vilma Aras

Resumo: Este texto tece consideraes sobre duas peas, Leonor de Mendona, de Gonalves Dias, e O casamento de Fgaro, de Beaumarchais, a partir da coincidncia, nelas, de
duas cenas amorosas nos moldes do amor corts. Palavras-chave: Gonalves Dias, Leonor
de Mendona, Beaumarchais, O casamento de Fgaro.
Abstract: This paper proposes a commentary about two plays, Leonor de Mendona, by
Gonalves Dias, and The marriage of Figaro, written by Beaumarchais, from the coincidence
of two love scenes conceived in a dialog with courtly love. Keywords: Gonalves Dias, Leonor
de Mendona, Beaumarchais, The marriage of Figaro.

A Yara Frateschi Vieira, pelas informaes, sugestes e, mais que tudo, pela amizade.
A imaginao tem cores que se no desenham.
Gonalves Dias, Prlogo a Leonor de Mendona

Se desejarmos de fato entender a realidade, necessrio


ir alm das razes oficiais, sondando os motivos obscuros.

Dcio de Almeida Prado

1. Introduo
Obedecendo ao programa de retomada dos valores medievais, a poca romntica fez
renascer certa concepo do que se entende por amor corts, termo introduzido na
filologia moderna em 1883 por Gaston Paris.1 Mas esse fenmeno social e literrio no
surgiu com ele. Ao contrrio, o amor corts possui uma longa durao, no se limitando s cortes medievais europeias. Contudo, a inevitvel diversidade de suas realizaes
abalou conceitos mais ou menos estveis a partir do sculo xx, quando ento novas
perspectivas histricas, sociolgicas e psicanalticas2 foram levadas em considerao
ao lado da teoria dos gneros, chegando-se ao limite da dvida quanto viabilidade
do uso do termo.3 Ser que ele se refere a um movimento literrio ou a uma instituio
social? Significa um culto da castidade ou um anteparo para o adultrio?

1 Cf. PARIS, Gaston. tudes sur les romans de la Table Ronde Lancelot du Lac- ii. Le Conte de la Charrette. In:

Romania 12e anne, 1883. Neste ensaio G. Paris nomeia e estabelece as caractersticas do amour courtois
tal como surge, pela primeira vez, no Conte de la Charrette de Chrtien de Troyes, apontando-lhe
tambm as possveis origens. Cf. tambm R. Schnell, Lamour courtois en tant que discours courtois sur
lamour. In Romania, 118e anne, 1989, tomo 110.
2 Para uma interpretao psicanaltica do amor corts, que comumente revela o impossvel encontro com o
objeto, constituindo paradigma da sublimao da interdio sexual, cf. ZAVALA, Iris M. Leer el Quijote, siete
tesis sobre tica y literatura. Barcelona: Anthropos, 2005. Cf. tambm BOASE, Roger. The origin and meaning
of courtly love. uk/usa: Manchester University Press, 1977, primeiro captulo.
3 Cf. KOEHLER, Erich. Observations historiques et sociologiques sur la posie des troubadours. In: Cahiers de
Civilisation Mdievale x-xii sicles, tomo xvii, Universit de Poitiers, 1964, e Deliberations on a theory of the genre
of the Old Provenal Descort. In: Italian Literature- roots and branches. New Haven and London: Yale University
Press, 1976. Cf. tambm Francis L. Utley, Must we abandon the concept of courtly love? (apud SCHNELL, R.,
Lamour courtois en tant que discours courtois sur l amour. In: Romania, 118e anne, 1989, tomo 110).

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 227

No novidade que Gonalves Dias apoiou seu drama Leonor de Mendona4 numa
variao desse amor estilizado, realizao suprema de uma classe cujas noes morais
e intelectuais estavam contidas numa espcie de ars amandi.5 Cedendo ao mesmo
esprito de experimentao arcaizante, observado por Vagner Camilo em seu ensaio
sobre as Sextilhas de Frei Anto,6 o poeta voltou-se mais uma vez ao passado. Encontrou inspirao para seu drama num curto romance histrico em versos, A duquesa de
Bragana, publicado na Revista Literria, que comeou a circular em 1838, justamente
no ano em que o poeta chegou a Portugal. O romance tematiza a morte de Leonor
de Mendona em 1512, assassinada pelo marido, d. Jaime, duque de Bragana, por
suspeita de adultrio. fcil observar que, sem os valores medievais passados pelo
filtro do romantismo, no se entenderia bem a pea de Gonalves Dias. O recuo no
tempo e no espao tambm caracterstico das outras trs obras teatrais do escritor,
unidas, alm disso, pelo mesmo desenlace sangrento: Patkull, 1707, tem como cenrios Mecklenburg (Alemanha), Dresden (Saxnia) e Casimir (Polnia); Beatriz Cenci,
1598, acontece na Itlia; Boabdil, no fim do domnio mouro, em Granada.
As observaes que se seguem se originaram na percepo de traos pontuais e
coincidentes numa cena de seduo, com seus desdobramentos nos moldes do
amor corts, envolvendo uma mulher casada e um homem jovem,7 como se pode
perceber em Leonor de Mendona, drama acima referido, e numa comdia em cinco
atos de Beaumarchais, O casamento de Fgaro,8 distando mais de meio sculo uma
pea da outra.
4 DIAS, Antnio Gonalves (1823-1864). Leonor de Mendona (1846), drama em prosa, publicado no ano

6
7
8

seguinte pelo Arquivo Teatral. As citaes feitas neste trabalho so do texto completo publicado pela
Editora Vega, Belo Horizonte, 1976, de acordo com a primeira edio, H. Garnier, Rio de Janeiro/Paris, 1868.
Cf. HUIZINGA, Johan. O declnio da Idade Mdia. Traduo de Augusto Abelaira. So Paulo: Verbo/Edusp,
1978, especialmente cap. 8, O amor estilizado, p. 101 ss: Do mesmo modo que a escolstica representa
o grande esforo do esprito medieval para unir todo o pensamento filosfico num centro nico, assim a
teoria do amor corts, numa esfera menos elevada, tende a englobar tudo o que se relaciona com a vida
nobre.
CAMILO, Vagner. Nos tempos de anto. Consideraes sobre as Sextilhas de Gonalves Dias. Revista usp n
40, dez.-jan.-fev. 1998-9.
Cherubino um adolescente e Alcoforado, muito jovem, no havia ainda cingido a espada.
BEAUMARCHAIS, Pierre-Augustin Caron de (1732-1799). La folle journe ou Le mariage de Figaro (1784).
In: Oeuvres (d. tablie par Pierre Larthomas/Jacqueline Larthomas). Paris: Gallimard, 1988. Tambm As
bodas de Fgaro Mozart, Da Ponte, Beaumarchais ed. bilngue do libreto e da pea (trad. de Antnio
Monteiro Guimares e Sergio Flaksman). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. A comdia faz parte de uma
trilogia comeada com Le barbier de Sville (1775) e terminada pelo drama La mre coupable (1792), com sua

228 aras, Vilma. Variaes do amor corts

Alm da cena referida, outra coincidncia as une: a pea de Beaumarchais foi levada
cena em 1784, aps seis anos de interdio,9 e Leonor de Mendona, escrita em
1846, esperou mais de um sculo para subir aos palcos dos centros representativos
de nosso pas,10 apesar das esperanas do autor e de suas inteis tentativas em 1847
para conseguir que Joo Caetano a encenasse. Supe-se que a recusa do ator e empresrio se deveu ao papel principal ser atribudo a uma mulher. Ou ter sido, quem
sabe, pela exposio da brutalidade exercida pela nobreza, sobretudo pela organizao do poder patriarcal? No nos esqueamos de que a corte portuguesa estava no
Brasil quela poca. A mesma temtica havia sido desenvolvida por Beaumarchais,
criando empecilhos para a exibio de sua obra em Paris, conforme observei acima.
Ao articular as duas peas, quero deixar claro que no tive a inteno de investigar
influncias, alis difceis de serem asseguradas e at certo ponto insensatas, se levarmos em conta a complexidade da trilogia de Beaumarchais, da qual Le mariage de
Figaro ocupa o centro, desenrolando-se o conjunto das peas nos moldes de um longo
romance.11 As situaes histricas dos autores tambm no podem ser aproximadas:
Pierre-Augustin Caron (que passou a se chamar Monsieur de Beaumarchais depois
de se introduzir na corte de Louis xv12 e mais tarde, Beaumarchais-Figaro, por conta
do sucesso da comdia) viveu aventurosamente nos agitados anos que antecederam
a Revoluo Francesa. Sua pea, de enorme repercusso internacional, lhe valeu o
crcere, embora tenha tido 68 rcitas, nmero quase incrvel para a poca. Dois anos
depois da estreia, Mozart comps a msica da pera, com libreto de Lorenzo Da Ponte.

10

11
12

profonde et touchante moralit, aps o desterro de quatro anos do autor. (Cf. BEAUMARCHAIS. Un mot sur
La mre coupable. In: Oeuvres. Op. cit., p. 600 ss.
A pea foi terminada em 1778 e s representada seis anos depois, tendo sido lida por seis censores entre 1781
e 1784. Foi de Louis xvi a maior reprovao: detestvel, jamais ser representada. Seria necessrio destruir
a Bastilha para que a representao desta pea no fosse uma perigosa inconsequncia. Este homem abala
tudo o que necessrio respeitar num governo (Mme. Campan, preceptora dos filhos de Louis xvi, Mmoires,
t. i, 1928 apud Apresentao de lisabeth Lavezzi a Le mariage de Figaro. Paris: Flammarion, 1999).
Leonor de Mendona foi encenada em 1957 pelo Teatro Brasileiro de Comdia, dirigida por Ziembinski
(apud Introduo de Marlene de Castro Correia a Gonalves Dias teatro completo. mec/Fundao Nacional
de Arte/Servio Nacional de Teatro, 1979), que acrescenta a informao de Manuel Bandeira sobre a
encenao da pea em 1848, em So Lus do Maranho.
Cf. LAVEZZI, lisabeth. Le mariage de Figaro. Op. cit., p. 35.
Beaumarchais foi professor de msica das filhas de Louis xv e aperfeioou a harpa, para o que certamente
foi til sua profisso primeira de relojoeiro; suas relaes com o financista Pris-Duverney o enriqueceram;
comprou ento o posto de conselheiro secretrio do rei, que lhe conferiu nobreza; tambm viajou a
negcios Espanha, cenrio de suas comdias.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 229

Tal agitao passou longe de Gonalves Dias, apesar de sua pea, segundo Dcio de
Almeida Prado, ser uma das poucas obras-primas do teatro brasileiro,13 a melhor
obra do gnero em nossa literatura dramtica do sculo xix, nas palavras de Sbato
Magaldi,14 a imortal, divina Leonor, segundo Ruggero Jacobbi.15 O Prlogo que o
poeta escreveu para a obra tambm uma pgina de inteligncia e lucidez: discute
as razes da censura que considerou sua Beatriz Cenci imoral, pondera a distncia
existente entre inteno e execuo no trabalho literrio, expe seus pontos de vista
tericos, define o drama segundo o prefcio de Cromwell de Victor Hugo,16 e faz a
ideia de fatalidade baixar do cu terra, aquela fatalidade que nada tem de Deus e
tudo dos homens, segundo suas prprias palavras.
No Prefcio a Le mariage de Figaro, Beaumarchais j expusera e discutira pormenorizadamente a questo dos gneros e as razes equivocadas da censura s suas
duas comdias.
O mais grave na pretendida aproximao no termos provas de Gonalves Dias
haver lido ou assistido pea de Beaumarchais, apesar de seus estudos em Coimbra
de 1838 a 1844, de suas frias em Lisboa e de ter estado na Espanha, Frana, Blgica,
Alemanha e em outros pases europeus mais de uma vez. Mas quase certo que
tenha conhecido a pera, no s porque passou longas temporadas em Paris, como
pela grande paixo da Coroa portuguesa pelos espetculos lricos, gosto herdado por
nossos intelectuais do sculo xix. Gonalves Dias se alinha junto a esses, tambm
na autoria de folhetins dedicados ao gnero.
Ao ler o prefcio de Leonor de Mendona, Dcio de Almeida Prado compreendeu o
sentido da reflexo do poeta a respeito da alternncia do verso e da prosa no teatro de
Shakespeare, que assim fazia atendendo diversidade de tons possveis numa composio teatral. Gonalves Dias gostaria de imit-lo, imaginava o efeito da variao,
mas ainda no confiava na prpria competncia.

13 PRADO, Dcio de Almeida. O drama romntico brasileiro. So Paulo: Perspectiva, 1996, 3 cap.
14 MAGALDI, Sbato. Panorama do teatro brasileiro. mec/dac/funarte, Coleo Ensaios, s.d, p. 74.
15 JACOBBI, Ruggero. Goethe Schiller Gonalves Dias. Porto Alegre: Edies da Faculdade de Filosofia, 1958, p.

41, 58, 68.


16 Lothar Hessel e Georges Raeders observam que em 1838, data da chegada de Gonalves Dias a Coimbra,

ainda estavam vivos os ecos da batalha do Hernani, de Victor Hugo, em 1830. No mesmo ano de 1838
estreou Um auto de Gil Vicente, de Garrett, o restaurador do teatro nacional portugus. (HESSEL, Lothar;
RAEDERS, Georges. O teatro no Brasil sob d. Pedro ii. Porto Alegre: Coedies urgs, 1979, p. 92-3).

230 aras, Vilma. Variaes do amor corts

[] est me parecendo que, se quando a plateia esperasse ansiosa o desfecho de uma


cena, de um ato ou do drama, mudassem os atores repentinamente de linguagem, e
trovejassem ao mesmo tempo o verso nos lbios dos atores e a msica em todos os instrumentos da orquestra, haveria na plateia tal fascinao que devia esmorecer por fim
num bater prolongado de bravos.17

Grande conhecedor da pera, Dcio assim interpretou as palavras de Gonalves


Dias: O efeito visado pelo poeta compara-se ao proporcionado pela ria, aps os
recitativos na pera italiana, quando o lirismo sobe formalmente de nvel.18 Desse
modo, podemos considerar Gonalves Dias um conhecedor sensvel do gnero, a
ponto de desejar aplicar efeitos shakespearianos e opersticos em Leonor de Mendona, medindo falas pelo efeito musical que poderiam causar: A voz de Alcoforado
suplicando a vida da duquesa seria como uma harpa em uma orquestra, a voz da
duquesa como um acorde mavioso, a voz do duque e dos da sua comitiva como um
acompanhamento fnebre e pavoroso.19
Se no encontrei entre ns referncias pera Les noces de Figaro,20 baseada na comdia, por outro lado so de notar as observaes feitas na poca a respeito de Le barbier
de Sville, do mesmo autor, mencionado inmeras vezes nos Folhetins de Martins
Pena, sempre assinalando os equvocos de sua execuo entre ns. Contemporneo
de Gonalves Dias, e incansvel denunciador do atraso colonial, em 23 de maro de
1847 Pena no deixou de citar a proibio da pera pelo Conservatrio Dramtico,
com o argumento de ser tempo da Quaresma. Sarcasticamente o folhetinista observou que provavelmente barbeiro que seduz pupilas, e tutor que as deixa roubar, no
tm nada de edificante.21
Alm dessas circunstncias censrias, podemos acrescentar mais uma vez os comentrios de Dcio de Almeida Prado22 a respeito das dificuldades de nosso teatro com a
encenao de espetculos lricos: se o teatro portugus e o brasileiro tinham alguma
experincia do canto e da dana adquirida no entremez, a opereta, no entanto, desdobrava-se num nvel sensivelmente superior exigindo um demorado aprendizado
17 DIAS, Gonalves. Leonor de Mendona, op. cit., p. 11.
18 Prado, Dcio de Almeida. O drama romntico brasileiro. Op. cit. p.110.
19 Idem.
20 Se a pea foi to censurada em Paris, calcule-se em nosso sculo xix, mesmo em sua verso operstica, da

qual no temos traos.


21 PENA, Martins. Folhetins a semana lrica. Rio de Janeiro: mec/inl, 1965, p. 183.
22 PRADO, Dcio de Almeida. A comdia brasileira. Mais!, Folha de S.Paulo, 6 jul. 1997.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 231

prtico e terico. Era msica para gargantas inteiras e no para as vozes de meia garganta que Ea de Queirs, com certa maldade, viu nos cantores de Portugal. A soluo encontrada pelo Brasil no final do sculo foi tomar emprestadas da Europa vozes
que iam da cano pera, passando pela opereta e pela pera-cmica, enquanto o
Brasil entrava com a sua comicidade, nem sempre fina como a parisiense.
a isso que se refere Martins Pena em meados dos Oitocentos, ao comparar a encenao de O barbeiro de Sevilha a uma farsa que deveria ser intitulada O barbeiro
barbeando o burro.23
Apesar desse panorama, temos de considerar, repito, as longas temporadas de Gonalves Dias passadas na Europa, onde ao fluxo de informaes artsticas se acrescentava a possibilidade de proximidade das matrizes cultas da sensibilidade moderna,
formadas nos primeiros decnios do sculo xix.
Tanto Beatriz Cenci (1843) quanto Leonor de Mendona (1846) foram antecedidas
por crnicas sadas em revistas portuguesas da poca, o que mostra o poeta atento
aos interesses de seu tempo. Alm disso, as referncias a grandes dramaturgos, a
leitura de Chatterton, de Alfred de Vigny, enquanto escrevia seu drama, a traduo
de A noiva de Messina, de Schiller, feita por ele,24 tudo isso faz de nosso poeta um
conhecedor do palco, com informao diferenciada em nosso meio.

2. Acasos?
Direi pois, no o que fiz, mas o que prometi fazer.
Gonalves Dias, Prlogo a Leonor de Mendona

Leonor de Mendona um drama, cuja composio se apoia na concentrao de situaes e caracteres, tendo em seu centro uma cena cmica, assim considerada por
se limitar ao nvel familiar, quebrando a gravidade dos atos que a circundam. Tal
estrutura intencional e foi comentada no Prlogo pelo autor, que tem a noo
de que a essncia da comdia no o riso: descreva ela fielmente os costumes, e a

23 PENA, Martins. Folhetins a semana lrica. Op. cit. p.11. Para demais comentrios do folhetinista a respeito da

representao dessa pera, e da citao em tableau que dela faz em duas de suas comdias (O judas em sbado
de aleluia e As desgraas de uma criana). Cf. ARAS, V. Na tapera de Santa Cruz. So Paulo: Martins Fontes, 1987.
24 H uma nova edio da pea pela Cosac Naify, 2004, organizada por Mrcio Suzuki e Samuel Titan Jr., com
notas de Manuel Bandeira, a que se acrescenta um apndice substancioso.

232 aras, Vilma. Variaes do amor corts

arte ficar satisfeita.25 A trama se organiza entre o casal nobre, o duque d. Jaime e
d. Leonor, mais o enamorado da mulher, Antonio Alcoforado. Os poucos coadjuvantes, com a exceo de Ferno Velho, que denuncia Leonor, apenas modulam o
ritmo da ao conforme convinha ao drama da poca.
Em O casamento de Fgaro, por outro lado, temos uma comdia sem misturas, embora a possamos considerar sria na concepo de Diderot,26 le cher Diderot de
quem Beaumarchais se considerava discpulo; segundo ambos, a pea sria teria
por objeto a virtude e os deveres dos homens, no seus ridculos; o Conde punido
justamente por faltar a seus deveres e exorbitar de seu poder.
A dramaturgia lana mo da multiplicao de personagens, alm das mscaras,
disfarces e esconderijos,27 que os desdobram e entrecruzam: os criados, Fgaro e
Suzanne, serviais dos aristocratas, o conde de Almaviva e Rosina, mais Cherubino,
habitante do reino das mscaras; os demais coadjuvantes inclusive o casal mais velho esto firmemente ajustados relojoaria azeitada do enredo para prestarmos
homenagem profisso primeira de Beaumarchais.
Tal clareza de propsitos e de execuo, assinalados pelo autor na defesa da moralidade de sua pea, inclui tambm o tom severo que existe nela:
[] um senhor feudal, corrupto o bastante para desejar prostituir a seu capricho tudo
o que lhe subordinado, para se aproveitar, em seus prprios domnios, da pudiccia de
seus jovens vassalos, deve acabar, como este aqui, por ser alvo da zombaria dos criados.28

tempo de destacar as duas cenas que me chamaram a ateno nas duas obras citadas:
a primeira, a que se inicia no quadro i do primeiro ato, cena 3 de Leonor de Mendona,
marcando o incio do envolvimento emocional da Duquesa com Alcoforado, belo
mancebo, segundo a camareira, na quadra da verde juventude, segundo d. Jaime.
25 DIAS, Gonalves. Prlogo a Leonor de Mendona. Op. cit., p. 9.
26 Cf. DIDEROT, Denis. Discurso sobre a poesia dramtica. Trad., org., apresentao e notas de Franklin de

Mattos. So Paulo: Cosac Naify, 2005, p. 28.


27 J. Scherer, em La dramaturgie de Beaumarchais (no dossi de lisabeth Lavezzi, op. cit., p. 258) comenta o

desdobramento de um terceiro lugar que o dramaturgo nos fora a imaginar por meio do esconderijo.
(Cf. ARAS, V. Na tapera de Santa Cruz, op. cit., p. 89, observaes sobre o fundo falso existente em O judas
em sbado de aleluia, de Martins Pena).
28 Cest quun seigneur assez vicieux pour vouloir prostituer ses caprices tout ce qui lui est subordonn, pour se
jouer dans ses domaines de la pudicit de toutes ses jeunes vassales, doit finir, comme celui-ci, par tre la rise de
ses valets. Prface a Le mariage de Figaro. In: OEuvres, op. cit. p. 362.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 233

Mas o que me interessa na pintura o que est disposto com menos nitidez, isto ,
o clima tenso criado por Gonalves Dias, no momento em que pe a protagonista, malmaridada, para usar um termo da lrica medieval, a contracenar com esse
cavaleiro. Ao perceber o amor louco do rapaz, apesar do medo a Duquesa parece
lisonjeada, e sem dvida absolutamente confusa: deseja que a criada permanea e
a manda embora, despede o cavaleiro ao mesmo tempo em que o retm com perguntas sobre sua famlia.29 Algumas cenas depois, ao se findar o quadro, aps se
comprometer a ir a uma caada com o marido, ouvimos a personagem murmurar
de si para si, sonhadora: Ele ir tambm conosco; eu o adivinho V-lo-ei pela
ltima vez.
A situao havia sido preparada pela cena anterior, entre Leonor e sua camareira
Paula, a respeito da fita roubada por Alcoforado e usada no barrete guisa do servio amoroso prestado dama, segundo o cdigo cavaleiresco e a maneira provenal.
A informao de Paula (Ele julgou que a fita fosse minha) faz Leonor dizer num
parte: Vaidosa!, antes se revelando ao leitor/espectador do que criticando a camareira, pois no final do ato as ltimas palavras da Duquesa provam que ela j notara
o rapaz e j lutava com a prpria inclinao amorosa: No gosto de ouvir falar nele,
e no posso pensar em outra coisa. Por qu? (Torna-se pensativa).
Em O casamento de Fgaro acontece algo semelhante, embora com maior sutileza, a
comear pela primeira cena do segundo ato quando a Condessa, do mesmo modo
desprezada pelo marido, toma conhecimento, por intermdio de sua camareira
Suzanne, da paixo do pajem Cherubino por ela. Adolescente e damerino, isto
, mulherengo, Cherubino funciona como uma espcie de smbolo do despertar
amoroso. Ele tem treze anos, talvez no seja mais uma criana, mas ainda no um
homem, afirma Beaumarchais, explicando que escolhera a idade de propsito, para
que o personagem despertasse interesse sans forcer personne rougir.30 Na pera de
Mozart e Da Ponte ele quem entoa a famosa ria Voi che sapette che cosa lamore,
versos inspirados na Vita nuova de Dante.31
29 As mesmas indecises e imprecises se do na ltima e fatal entrevista, quando Leonor confessa seu

amor, ao mesmo tempo em que leva o cavaleiro cabeceira dos filhos adormecidos, para se referir
orfandade do rapaz e afirmar que queria servir-lhe de me e de irm. (Cf. DIAS, Gonalves. Leonor de
Mendona, ato iii, quadro iv, cena 1).
30 BEAUMARCHAIS, Pierre-Augustin Caron de. Le mariage de Figaro. In: OEuvres, op. cit., p. 365.
31 Apud AUERBACH, Erich. Os apelos ao leitor em Dante. In: Ensaios de literatura ocidental filologia e crtica.
Org. Davi Arrigucci Jr. e Samuel Titan Jr., trad. Samuel Titan Jr. e Jos Marcos M. de Macedo. So Paulo: Duas
Cidades; Editora 34, 2007, p. 119.

234 aras, Vilma. Variaes do amor corts

A cena tambm preparada pela stima do ato anterior, quando o jovem pajem
confessa camareira no resistir s mulheres, muito menos Condessa, e, como
Alcoforado far anos depois, rouba a fita com que Suzanne prendia os cabelos de
sua ama, a linda madrinha, nas palavras do rapaz.
No referido Prefcio, sempre em defesa das acusaes da censura, Beaumarchais
chama a ateno para a pureza de intenes da Condessa, que, se usou de ardis, no
foi com o objetivo de trair o marido, mas sim de impedir seus deslizes e reconquist-lo. Para que essa verdade vos atinja mais afirma aos leitores e possveis espectadores o autor ops, a este marido pouco delicado, a mais virtuosa das mulheres
por gosto e por princpios.32 Concorda que houve um momento crtico e que a
benevolncia da Condessa em relao ao rapaz, seu afilhado, poderia transformar-se em desejo perigoso, mas concluiu que no h virtude sem sacrifcio. O que nos
agrada na Condessa continua de v-la lutar francamente contra um desejo
nascente que ela prpria reprova e contra ressentimentos legtimos.33
Apesar dos argumentos plausveis de Beaumarchais em resposta aos censores, o affair Condessa / Cherubino no deixou de alimentar a fantasia dos continuadores
da comdia.34
Quanto a Leonor, fica evidente seu envolvimento, embora de carter apenas emocional e no sensual, conforme mandava o cdigo corts,35 o que no a inocenta
de infidelidade. O Duque j o dissera na cena final: Fizesse eu correr o mar entre
ambos, que de um lado a outro voaria o pensamento do adultrio! Mar de sangue
correr entre ambos.36

32 Pour que cette vrit vous frappe davantage, lauteur oppose ce mari peu dlicat la plus vertueuse des femmes

par got et par principes. Oeuvres, op. cit. p. 363.


33 Ce qui nous plat dans la comtesse, cest de la voir lutter franchement contra un got naissant quelle blme et

des ressentiments lgitimes. Oeuvres, op. cit. p. 363.


34 Cf. Marandon (1758-93) que em 1785 escreveu Lemprisonnement de Figaro, rebobinando a pea, pois nela

um cabeleireiro vindo da Frana e instalado em Sevilha conta a Almaviva a histria das Bodas, falando do
amor apaixonado de Rosina pelo pajem. O prprio Beaumarchais retoma o tema em La mre coupable
(1792), em que Almaviva descobre cartas que falam da relao da Condessa com Cherubino, de que
resultou um filho. (Cf. texto e comentrios pea in BEAUMARCHAIS, Pierre-Augustin Caron de. Le mariage
de Figaro. Op. cit.)
35 Ren Nelli, em Lrotique des troubadours (1963), distingue entre o amor cavaleiresco, baseado na fidelidade e
reciprocidade, e o amor corts, complementar do primeiro, nunca realizado, entre um seguidor humilde e
uma dama de origem nobre. (Apud BOASE, Roger. The origin and meaning of courtly love, op. cit.).
36 DIAS, Gonalves. Leonor de Mendona. Op. cit., ato iii, quadro iv, cena 7, p.113.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 235

Na pea de Beaumarchais a relao dos esposos baseada no poder, justificando


o adultrio masculino. Ouamos, por exemplo, as palavras do Conde dirigidas
Condessa, que est disfarada da criada, a quem ele deseja conquistar: O amor o
amor uma inveno do corao: a histria verdadeira a do prazer. E pergunta
da Condessa travestida, O senhor no ama mais a Condessa?, ele responde: Oh,
eu amo muito a Condessa: mas trs anos de vida em comum transformam o casamento numa coisa to respeitvel!.37
Em Leonor de Mendona, pea de virtualidades em que os atos s vezes se equilibram mal no terreno escorregadio das intenes, o que foi corretamente avaliado
pelos crticos, a relao entre marido e mulher tem uma face clara, principalmente nas falas de Leonor, quando comenta o casamento arranjado, a preferncia do
Duque pela religio, e no pela mulher etc. Mas a pea possui tambm uma face
nebulosa, facilitada pelo jogo dramtico.
Marlene de Castro Correia observa com finura que, na construo da cena em que
a fita da Duquesa roubada, depois perdida, recuperada em seguida e finalmente
devolvida, h o traado de um movimento sinuoso que pode ser considerado dominante na pea, apontando assim para uma tenso entre o dito e o no dito [].38
Pelo temperamento vital, observado hora em que luta pela vida, pela mocidade,
pela falta de experincia, mas tambm pelo desejo nascente, contra o qual luta confusamente,39 Leonor tem algo de um bovarismo avant la lettre: estando na provncia
com o marido, anseia por voltar corte, aos bailes e divertimentos, pois no consegue dormir em terras pequenas.40 Mais do que isso, ela parece s vezes inocentemente leviana, no demonstrando sensibilidade para interpretar falas ou aes do
marido, a quem no ama, de quem tem medo, respeitando-o por obrigao.
Dcio de Almeida Prado41 observa que Leonor, hora da morte, rompe a conveno
romntico-medieval, instalando-se definitivamente no realismo psicolgico, pois,
sugesto de Alcoforado de arriscar a vida jogando-se pela janela para salv-la, ela
retruca que a morte do rapaz seria terrvel testemunho contra sua inocncia. Em
37 Idem, ato v, cena 7, p. 475.
38 CORREIA, Marlene de Castro. Introduo a O teatro de Gonalves Dias. In: Teatro completo, op. cit.
39 No Prefcio a sua pea, Beaumarchais descreve a Condessa como lutando franchement contre um got

naissant quelle blme et des ressentiments lgitimes (BEAUMARCHAIS, Pierre-Augustin Caron de. Le mariage
de Figaro, op. cit., p. 363).
40 DIAS, Gonalves. Leonor de Mendona. Op. cit., ato i, quadro i, cena 2, p. 20.
41 PRADO, Dcio de Almeida. Leonor de Mendona: amor e morte em Gonalves Dias. In: Esboo de figura
homenagem a Antonio Candido. So Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 242.

236 aras, Vilma. Variaes do amor corts

sntese, conclui o crtico, o que interessa a prova de sua inocncia, no a vida de


Alcoforado. Atitude que se faz cristalina no momento em que surge o escravo com
o manchil da cozinha para decapitar o rapaz, pois no a ele que se dirige a compaixo de Leonor, que clama desvairada: Meu Deus! Compadecei-vos de mim. Dcio
conclui que Alcoforado j havia sado de seu pensamento.
Nessa quebra do efeito dramtico e da forma romntica se faz visvel o humor sorrateiro de Gonalves Dias, nas palavras de Vagner Camilo42 ao retomar O sorriso
de Gonalves Dias de Carlos Drummond de Andrade,43 definido como um certo
sorriso que secretamente abre caminho na poesia carrancuda das Sextilhas. Neste
momento o grandioso sucumbe ao demasiado humano, criando uma ironia sem
efeito cmico-risvel, que o que acontece no desfecho de Leonor de Mendona.
Se fizermos uma leitura atenta do primeiro ato, a partir da cena 6, tambm percebemos muitos matizes e falas reticentes, elises desestabilizadoras do sentido aparente. Por exemplo, d. Jaime se aproxima de Leonor feliz e venturoso, mas interrompe
as prprias palavras ao ouvir vozes: No falveis a algum?.
Sabe ento que Alcoforado acabara de sair e que tencionava partir para a frica. Intempestivamente e claramente enciumado, o Duque afirma ento sua mulher que
o jovem deseja ser tratado com mil atenes e vegetar, no que contraditado por
ela, que afirma a inteno de Alcoforado: alcanar morte honrosa ou nome glorioso.
Imediatamente, o Duque deseja caber no mesmo modelo e replica que um dia talvez fujamos da vossa muita amada companhia para combater os infiis.
Julgo no ser absurda a interpretao de tais palavras como o desejo de competir
com Alcoforado e parecer valoroso aos olhos da mulher.
Neste preciso momento ele recorda o motivo que o trouxera aos aposentos da Duquesa, mas, antes de o revelar, inicia uma longa inquirio para saber dos desejos dela:
Dizei-me, duquesa, no vos apraz esta vida um pouco rstica que viemos aqui buscar
neste desterro?
Ela responde com outra pergunta.

42 Cf. CAMILO, Vagner. Nos tempos de anto. Consideraes sobre as Sextilhas, de Gonalves Dias. Op. cit.,

p. 110 ss., que examina com mincia esse procedimento gonalvino.


43 ANDRADE, Carlos Drummond. O sorriso de Gonalves Dias. In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1992, p. 1329 (apud Vagner Camilo, op. cit., p. 110 ss.). Drummond no deixa de sugerir que o humor
percebido possa tambm ser atribuio de leitores distanciados no tempo.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 237

No do meu dever seguir-vos para onde vos aprouver levar-me?


No vos falo do vosso dever; trata-se de vs, do vosso gosto; pergunto-vos se no
amais esta vivenda.44
Duque, poderia eu estar melhor algures que na vossa companhia?

Com impacincia provvel, talvez alguma ironia melanclica (no h informaes


nas rubricas), ele comenta: Sempre boa, afvel e condescendente!.45 Em seguida,
comparando a ermida do bosque, onde sempre se refugia, a um pensamento de
virgem, aformoseado pelo silncio e pelo pudor,46 inspira a rplica de Leonor:
Eu concebo, senhor duque, que vs partais sempre com a felicidade no corao, e que
sempre torneis
D. Jaime a atalha com vivacidade:
mais feliz do que parti.

Tais revelaes de confisso amorosa a meias tintas so retomadas na cena 8, quando o Duque a convida com insistncia para acompanh-lo caa, seduzindo-a com
o passeio e com a possibilidade de a mulher experimentar o vosso belo palafrm
andaluz que h pouco vos chegou de Espanha. Quereis vir?A isso Leonor responde: Mandais. E ele atalha: No, peo-vos. Por fim ela concorda com o passeio,
d. Jaime est nitidamente ansioso (Vireis j, no assim?), nomeia-a minha bela
guerreira, enquanto a Duquesa pensa em Alcoforado, achando que o veria pela
ltima vez. A oposio dos sentimentos dos esposos no pode ser mais clara.
No quadro ii, sabemos do motivo de todo o dilogo, isto , a permisso do marido para que ela retornasse corte. Possivelmente sem alegria o Duque conclui: A
44 A palavra vivenda, alm de significar casa, morada, pode tambm se referir ao prprio Duque, a seu

modo de vida.
45 Cf. do quadro ii a cena 3, quando d. Jaime implora a Leonor sequer por um instante, sequer uma vez

um desejo vosso, uma vontade vossa etc. O desejo que ele demonstra de saber o desejo da mulher
evidente.
46 No esquecer a associao da mulher com a religio ou com a Virgem Maria, segundo certa sugesto
crtica da lrica medieval, enlace perfeitamente exemplificado nas palavras do Duque.

238 aras, Vilma. Variaes do amor corts

corte tem muitas festas, muita pompa, muitos divertimentos: precisais deles, bem
o sabemos.
Finalmente hora da morte, quando Leonor afirma que ele se casara contra o seu
querer com uma mulher que no ama, ele responde de modo cortante: Quem me
poderia obrigar, Senhora?.
Em suma, o que desejo explicitar que, nesta pea de virtualidades, nem tudo
ainda foi explorado, principalmente quanto a d. Jaime, imobilizado no juzo dos leitores pela brutalidade do castigo imposto mulher e pela definio que dele nos d
o prprio poeta em seu Prlogo: apesar de considerar que, como Leonor, d. Jaime
s tem defeitos e no vcios, ele tambm afirma que O duque severo porque
insensvel.47
No entanto, contrariando essas palavras, o que vemos que Leonor no ultrapassa
o convencional no juzo do marido, e ele se lastima por ela no o compeender em
seus acessos de clera, pois que so derivados de sofrimentos: [] j os no deveis
temer; no vos deveis atemorizar quando vos no compadecsseis de mim.48
justamente a doena psicolgica e os acessos o que o leva a sacrificar-se e permitir-lhe amargamente a volta corte: Partireis, duquesa; jovem, nobre e formosa, no
com um homem como eu que deveis passar a vida.49
No citado Prlogo, a virtualidade dos personagens se ajusta compreenso que
Gonalves Dias demonstra quanto criao literria que, segundo ele, escapa aos
desgnios conscientes do autor: H, porm, entre a obra delineada e a obra j feita,
um vasto abismo que os crticos no podem ver, e que os mesmos autores dificilmente podem sondar.50 Mais adiante ele confidencia aos leitores que, se os escritores contemporneos histria afirmam que Leonor foi morta por falsas aparncias, na verdade sugerem que no foram to falsas as aparncias como eles no-las
indicam.51 Sem dvida, na pea, o indcio mais forte de infidelidade se afirma no
pouco amor que a Duquesa sente pelo marido, na inclinao fantasia e na cegueira
quanto s canhestras tentativas de aproximao do Duque.
As suposies so facilitadas pela fina construo psicolgica do drama que s vezes
se envolve e se oculta nos vus dos pressgios garrettianos de Frei Lus de Sousa,

47 DIAS, Gonalves. Leonor de Mendona, op. cit., p. 6.


48 Idem, p. 48.
49 Idem, p. 50.
50 Idem, Prlogo a Leonor de Mendona, op. cit., p. 2.
51 Idem, p. 3.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 239

pea de 1844 que Gonalves Dias certamente conhecia, e na disperso da prosa de


Bernardim Ribeiro,52 citado pelo poeta em seu Prlogo, assim como por Leonor,
numa meno truncada ao se confessar, antes da morte: Criana me trouxeram de
casa de meus pais.53
Misturados aos devaneios amorosos e s desgraas, esses textos tambm deixam
rastros que favorecem interpretaes alternativas, reforadas por aluses, das quais
as mais explcitas encontramos nos lbios de Paula, ao comparar Alcoforado, primeiro a Hermigues (sic), o Traga-Mouros,54 lendrio guerreiro e poeta da corte de
Afonso Henriques, que supostamente roubou a amada moura para com ela se casar;
em seguida Paula tambm se refere a Leonardo, o cavaleiro namorado do Canto
de Os lusadas55 que persegue Efire, exemplo de beleza,/ Que mais caro que outras
dar queria/ O que deu pera dar-se a natureza.
Em momento algum se duvida do desejo de Efire de lanar-se nos braos de Leonardo, soldado bem-disposto,/ Manhoso, cavaleiro e namorado,56 mas se a ninfa
protelava a entrega e fugia, era apenas para ouvir as splicas do enamorado durante
a perseguio amorosa, o doce canto,/ As namoradas mgoas que dizia.57
Evidentemente as observaes explcitas de Cames a respeito dos alegricos habitantes da Ilha dos Amores no cabem na pea de Gonalves Dias, mas a aluso
muito clara, mais significativa ainda por ser velada, e no deixa de criar sombras em
torno do retrato unidimensional de Leonor.

52 BERNARDIM, Ribeiro. Histria de menina e moa. Variantes, introd., notas e glossrio de D. E. Grokenberger,

prefcio de Hernani Cidade. Lisboa: Liv. Studium Ed., 1947.


53 A prosa de Bernardim Ribeiro casar-se-ia maravilhosamente com os versos do Sr. Garrett, diz o poeta no

Prlogo a Leonor de Mendona.


54 O nome do cavaleiro Gonalo Hermingues, tipo fixado nas lendas, que teria cado em desgraa,

acabando a vida como ermito.


55 Cames, Os lusadas, estrofe 76, edio fac-similada da edio comentada por Augusto Epifnio da Silva

Dias. mec, 1972.


56 Idem, estrofe 75.
57 Idem, estrofe 82.

240 aras, Vilma. Variaes do amor corts

Variaes do amor corts

Tan grave dia que vus conhoci


por quanto mal me ven por vos, senhor!

D. Afonso Sanches

No correr deste texto vim semeando traos do amor corts segundo o imaginava um
certo romantismo, evidentemente colorido pelas contingncias de sua poca. O assunto estava no ar poca de Leonor de Mendona. Basta-nos pensar no Romanceiro
coligido por Garrett (1843 e 1850) e na publicao do Cancioneiro del Rei D. Diniz
(1847) e de O livro das cantigas o Conde de Barcellos (1849), respectivamente por
dr. Caetano Lopes de Moura e Francisco Adolfo de Varnhagen, dois brasileiros.58 O
romance histrico com cenrio medieval e tintas de novela da cavalaria tambm no
andava longe e pode ser visto em Eurico, o presbtero (1848), de Herculano.
Se o programa esttico romntico procurou revitalizar o passado e as lendas nacionais, no nos esqueamos de que Portugal era sentido como o passado do Brasil, segundo nosso poeta e conforme j o sentira tambm Gonalves de Magalhes
quando elegeu Antonio Jos59 como protagonista de sua pea, inauguradora de nosso romantismo. Assim que entraram em cena cdigos da conveno peninsular
do amor-mito medieval alis, no existia um cdigo nico, repito, tal como foi
supostamente exercido pela cavalaria dos sculos xii e xiii, quando se tornou necessria a organizao da paixo por meio de satisfaes simblicas.60
Aqui entra o servio amoroso principalmente prestado a mulheres casadas, a
finamors, segundo o qual se impunha o segredo quanto ao nome da dama objeto
do amor e do canto trovadoresco.61 Esses cdigos so vistos nas duas obras em
58 Cf. VIEIRA, Yara. Os estudos medievais no Brasil: peso (ou leveza) de uma tradio. Anais, vii eiem: Encontro

internacional de estudos medievais. Org. Roberto Pontes e Elizabeth Dias Martins. Fortaleza/Rio de Janeiro:
capes/ Xunta da Galicia/ abrem, 2009, p. 75 ss.
59 Embora nascido no Brasil em 1705, aos seis anos acompanhou o pai a Lisboa, levados pela Inquisio; l foi
assassinado pela mesma instituio em 1739. Se possvel fazer tal diferena, o Judeu, como conhecido,
mais portugus que brasileiro.
60 ROUGEMONT, Denis. O amor e o Ocidente. Trad. de Paulo Brandi et al. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
61 Cf. VIEIRA, Yara Frateschi. O nome da dama. Signum, revista da abrem, Associao Brasileira de Estudos
Medievais, n 7, 2005. Citando Carolina de Michaelis, de quem publicou, com outros pesquisadores, Glosas

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 241

meio ao jogo dos gneros e misturados a imposies do final do sculo xviii e do


xix, entre as quais inclumos o que se pode chamar de feminismo, pois as duas peas foram tambm lidas como um libelo a favor das mulheres contra o despotismo
dos homens. Com isso j anunciavam o teatro do final do sculo xix. Beaumarchais
j o afirmara em seu prefcio: car nos jugements sur les moeurs se rapportent toujours aux femmes.62
Se o amor corts uma arte com seu prprio cdigo de regras, assim como a cavalaria,
Leonor uma personagem diferenciada por suas prprias contradies, como j foi
analisado, merc da fatalidade c da terra. No mundo das convenes teatrais ela
habita dois mundos, entre a idealizao romntica e o realismo psicolgico do teatro
do final do sculo, entre o mundo cavaleiresco e o autoritarismo realista do poder aristocrata. Podemos mesmo dizer que o jogo terso da composio o que no deixa que
se rompam os fios da adequao esttico-teatral da personagem, que se ajusta de forma
indecisa no modelo do drama romntico. Talvez a causa seja que a obra, rica e variada,
contenha o germe de certos desequilbrios cultivado pelas geraes seguintes?63
Quanto disposio amorosa de Leonor, Dcio de Almeida Prado chega a ponderar
que o adultrio por desfastio, por desforra da imaginao sobre a realidade, no
anda longe: Leonor de Mendona de 1846, Mme. Bovary, de 1857.64
ligao da obra com Schiller, proposta por Ruggero Jacobbi, certamente por conta
da traduo feita pelo poeta, Dcio de Almeida Prado65 com acerto prefere outros
modelos: o Antony, de Alexandre Dumas, ou o Chatterton, de Vigny, ambas envolvidas com a questo do feminismo. Diz este ltimo: De frayeur en frayeur tu passeras
ta vie desclave. Peur de ton pre, peur de ton mari un jour, jusqu la dlivrance.66

marginais ao Cancioneiro Medieval Portugus (Coimbra/Santiago de Compostela/Campinas: Universidade


de Coimbra/ Universidade de Santiago de Compostela/ Editora da Unicamp, 2004) Yara escreve que o
trovador galego-portugus, obediente s regras do amor, costumava silenciar o nome da amada, mas,
quando ensandecido de amor, podia chegar a nome-la, s vezes de forma indireta, e outras muitas de
forma totalmente explcita. H que se observar, na exigncia do motivo, a diferena entre Provena e
Portugal, onde as protagonistas eram meninas em cabelo, portanto solteiras, no havendo necessidade
explcita da ocultao do nome.
62 BEAUMARCHAIS. Oeuvres, op. cit., p. 362.
63 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006, p. 403.
64 PRADO, Dcio de Almeida. Leonor de Mendona amor e morte em Gonalves Dias. Op. cit., p. 237.
65 Idem, p. 257.
66 VIGNY, A. Thtre. Paris: E. Flammarion, s.d, tome premier, 198 (Apud Almeida Prado, Leonor de Mendona:
amor e morte em G. Dias, op. cit., p. 257).

242 aras, Vilma. Variaes do amor corts

Mas Almeida Prado aponta tambm Tristo, mito definido como fenmeno histrico de origem propriamente religiosa, como quer Rougemont, onde encontramos
o amor-paixo e a ligao do amor com a morte.
Conforme observado anteriormente, em seu Prlogo, notvel para a poca e para
o lugar, Gonalves Dias desloca a fatalidade clssica para o rs do cho: Se a mulher
no fosse escrava, como de fato, d. Jaime no mataria sua mulher. Houve nessa
morte a fatalidade, filha da civilizao que foi e que ainda hoje.67
Essas palavras, sem dvida, se encontram com as de Beaumarchais, e podem ser
aproximadas at certo ponto do esprito com que abalam a conveno teatral. Em
O casamento de Fgaro toda a ao deriva das mulheres: Suzanne e a Condessa
que movem os cordis, tecendo pactos e teias de muitos fios. A pea em seu limite
d razo s mulheres. Alm disso, se o par de criados tradicionalmente funcionava
como contraponto subalterno dos patres, agora desponta uma nova humanidade,
os criados triunfam do nobre sob os aplausos dos espectadores. No limite a comdia
pode ser considerada uma encenao antecipatria do desmoronamento da sociedade aristocrtica, o que fez a baronesa dOberkirsch escrever em suas Memrias:
uma obra-prima de imoralidade, e mesmo de indecncia []. Os aristocratas, a
meu ver, revelaram falta de tato e de juzo indo aplaudi-la []. Arrepender-se-o
disso mais tarde.68
Ser esse esprito crtico-analtico dos autores o que tambm acrescenta novas cores
ao sentido do amor corts medieval, deslocando-o de sua posio central ao mistur-lo a outros fios e a novas contingncias.

Vilma Aras professora da Universidade Estadual de Campinas, autora de Clarice Lispector com a
ponta dos dedos (Companhia das Letras, 2005); Curvas e quinas da poesia romntica (Edusp, 1998);
Dcio de Almeida Prado um homem de teatro (Edusp, 1997); Na tapera de Santa Cruz (Martins
Fontes, 1987); La mujer en la cultura brasilea (El Urogallo, 1995), entre outros.

67 Gonalves Dias. Prlogo a Leonor de Mendona, op. cit. p. 4-5.


68 Cf. Introduo (vii-xix) de Antonio Monteiro Guimares. In: As bodas de Fgaro-Mozart, Da Ponte,

Beaumarchais, 1991, p. x.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 226-243, 2013 243

A utopia concreta da poesia:


Uma rvore de veneno de Blake
John Brenkman

Resumo: O ensaio examina algumas perspectivas amplas sobre a arte que vm da tradio
do marxismo crtico, por meio da anlise de um poema de Canes da experincia, de
William Blake. A leitura deve tanto hermenutica e ao ps-estruturalismo quanto aos
escritos estticos da Escola de Frankfurt. Palavras-chave: William Blake, marxismo, hermenutica, ps-estruturalismo.
Abstract: The essay examines some broad perspectives on the art that comes from the
tradition of critical Marxism, by analyzing a poem of Songs of Experience, written
byWilliam Blake. The reading is related to hermeneutics and post-structuralism, as the aesthetic writings of the Frankfurt School. Keywords: William Blake, Marxism, hermeneutics,
post-structuralism.

Consideraes preliminares1
Raramente a discusso sobre lrica e sociedade vai alm das consideraes extratextuais que envolvem, basicamente, o papel das ideias sociais e polticas no desenvolvimento biogrfico e intelectual de um poeta ou no contedo temtico da poesia.2
A crtica marxista espelha essa deficincia ao relegar a poesia s margens de suas
investigaes da experincia social e esttica. A poesia de William Blake nos encoraja
a contrariar igualmente os hbitos da crtica marxista e no marxista, reconhecendo
que a sociedade e a poltica moldam o prprio projeto de trabalho de um poeta e a
dinmica interna da linguagem potica, seus processos de figurao, seu status como
ato lingustico, suas formas e tcnicas, e seus efeitos no processo de leitura.
Blake foi um poeta das instveis dcadas do final do sculo xviii e incio do xix,
escrevendo no exato momento em que as revolues democrticas estavam se institucionalizando como regime de classe da burguesia. As reivindicaes de liberdade
e liberao que impulsionaram poetas e romancistas nesse perodo estavam rapidamente se defrontando com a necessidade de estabelecer a nova ordem econmica
do capitalismo. A contribuio vital de Blake para nossa herana cultural reside na
resposta que sua poesia deu a essa mudana na relao da arte com a evoluo da
sociedade burguesa. Ele foi um poeta que constantemente refletiu sobre as possibilidades polticas e histricas da imaginao. Para Blake, a poesia a imposio ativa
da imaginao ou da fantasia nas lutas contra os valores e instituies dominantes.
Lanando o poeta no duplo papel de visionrio e de voz da condenao, ele atribuiu
um poder de utopia e negao linguagem potica.
essa interao entre utopia e negao, imaginao e crtica que torna a poesia de
Blake pertinente para as teorias sociais e estticas de pensadores como Ernst Bloch e
Herbert Marcuse, Walter Benjamin e T. W. Adorno. Neste ensaio, examinarei algumas
perspectivas amplas sobre a arte que vm dessa tradio do marxismo crtico, por
meio da anlise de um poema de Canes da experincia. A leitura deve tanto hermenutica e ao ps-estruturalismo quanto aos escritos estticos da Escola de Frankfurt.3
1 Traduo de Sandra Guardini Vasconcelos e Vagner Camilo.
2 Este ensaio parte de um captulo sobre William Blake que se encontra em meu Culture and domination,

publicado pela Cornell up (J. B.).


3 As figuras associadas Escola de Frankfurt produziram, de fato, a mais importante crtica de poesia que

existe na tradio marxista. Ver, especialmente, Walter Benjamin, Charles Baudelaire: A lyric poet in the era of
high capitalism. Trad. Harry Zohn (Londres, 1973); e Theodor W. Adorno, Lyric poetry and society, Telos, 20
(Summer 1974), p. 56-71.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 244-256, 2013 245

De Bloch, tomei a expresso utopia concreta. Com ela, Bloch quis dizer que as
possibilidades utpicas esto latentes na liberdade e na auto-organizao que os
grupos e classes sociais possuem, intermitente e fragmentariamente, em sua existncia cotidiana, experincias polticas, mitos e empenho artstico.4 Essas tendncias
latentes tm como herana todos os esforos inacabados ou abortados, na histria,
para propagar justia e felicidade. A herana da utopia , portanto, uma histria
descontnua que precisa ser construda a partir das tradies culturais e das lutas e
revoltas populares do passado. A questo que ns podemos extrair das reflexes de
Bloch esta: de que modo a poesia portadora da esperana utpica, dessa latncia
histrica que est ao mesmo tempo dentro e alm da sociedade?
De Marcuse, tomarei emprestada a tese sobre arte e literatura desenvolvida em seu
ltimo trabalho publicado A dimenso esttica: A lgica interna da obra de arte
acaba no surgimento de uma outra razo, uma outra sensibilidade, que desafia a
racionalidade e a sensibilidade incorporadas nas instituies sociais dominantes.5
A expresso acaba no surgimento de sugere, em primeiro lugar, que a arte utpica
na medida em que antecipa novas ordens de razo e de sensibilidade, que s podem
ser garantidas pela ao poltica e pela transformao social, e, em segundo lugar,
que a antecipao utpica , todavia, concreta na medida em que se origina do que
realizado esteticamente na obra de arte. A tese de Marcuse leva a uma segunda questo sobre lrica e sociedade: como a lgica interna do poema manifesta, ao mesmo
tempo, uma lgica contrria s interaes restritivas organizadas pela sociedade?
Enquanto Bloch e Marcuse ajudam a estabelecer as finalidades da interpretao e a
figurar as questes que um estudo sociologicamente crtico da poesia precisa tratar, as
prprias reflexes estticas deles apoiam-se em suposies abertas contestao proveniente de muitas direes na teoria recente da interpretao e da arte. Bloch sustenta
que as grandes obras artsticas so, em parte, ideologia, em parte utopia autntica. A
primeira tarefa da anlise dissolver a carapaa ideolgica da obra, expondo os modos
pelos quais ela serve a interesses mais particulares do que gerais e legitima as formas
de dominao que prevalecem em sua prpria sociedade; uma vez que essa carapaa
ideolgica dissolvida, o mago utpico da obra poderia, supostamente, resplandecer;
um ncleo radiante de significados e imagens que expressam as lutas e esperanas da
4 Ver BLOCH, Ernst. Karl Marx and humanity: the material of hope e Upright Carriage, Concrete Utopia. In: On

Karl Marx (Nova York, 1971), p. 16-45 e 159-73, respectivamente.


5 Ver MARCUSE, Herbert. The aesthetic dimension: toward a critique of marxist aesthetics (Boston, 1978), p. 7. (A

dimenso esttica. Trad. Maria Elisabete Costa. Sao Paulo: Martins Fontes, 1986.)

246 brenkman, John. A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno

humanidade. A concepo de interpretao de Bloch partilha, com a hermenutica de


Heidegger e de Gadamer, a compreenso de que os significados culturais s emergem
das obras historicamente situadas e so apropriados apenas em contextos historicamente situados, mas ele tende a ver os significados vlidos da cultura como um repositrio
semntico que se preserva intacto atravs de perodos e pocas histricas. Da a noo
questionvel de que a interpretao pode, com segurana, separar o aspecto vlido e
verdadeiro de uma obra de seu aspecto ideolgico e falso. A crtica contempornea, na
esteira de Heidegger e, mais recentemente, do ps-estruturalismo e da desconstruo,
levanta um problema inescapvel referente nossa prpria recepo da arte e da literatura do passado, a saber: no h, na verdade, base de significado ou posio segura
sobre a qual possamos, com certeza, extrair as significaes vlidas de uma obra.
As reflexes estticas de Marcuse acentuam a unidade da forma. Em toda a sua obra,
ele transcreve, em termos socialmente crticos, a experincia esttica que foi a base da
esttica burguesa desde Schiller. Marcuse atribui o poder utpico e negativo da arte
ao ntido contraste que os indivduos experimentam entre a unidade ou harmonia
que eles apreendem na obra de arte e a desarmonia e conflito que caracterizam as
relaes sociais que eles encontram na vida cotidiana. A noo de harmonia formal
do trabalho artstico tem sido contestada por uma srie de teorias contemporneas
da dinmica formal e significante dos textos literrios. A transao entre escrita e leitura, entre o texto potico e sua recepo, creio eu, no pode mais ser frutiferamente
descrita como a apropriao interior pelo sujeito de uma harmonia exteriormente
percebida de elementos sensoriais e simblicos.
Sem o compromisso de resolver o problema que a hermenutica e o ps-estruturalismo colocam para o pensamento esttico do marxismo crtico, esbocei os problemas relevantes para esclarecer os pressupostos de minha leitura de Blake. Pois o
meu interesse transpor o problema da relao entre lrica e sociedade e do poder
utpico-negativo da poesia para a questo da linguagem potica, da poesia como
uma prtica de linguagem e da interao de escrita e leitura.
A leitura que apresentarei de Uma rvore de veneno orientada por trs conjuntos
de proposies destinadas a estimular esse dilogo entre a teoria social crtica e a
teoria literria contempornea:
(1) A dialtica social da arte no vem do conflito entre uma realidade dividida e uma
obra unificada, mas toma antes a forma de um conflito no interior da obra. Por isso,
a contralgica social que o poema manifesta resulta da contradio interna do poema
como texto, no da totalidade do poema como bela aparncia. A literatura uma prtica

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 244-256, 2013 247

que age sobre a linguagem. O texto entra em uma complexa, mas determinada, relao com o mundo social, porque a linguagem o verdadeiro fundamento da interao
social. O poder utpico da poesia se origina de suas conexes concretas, como uma
prtica de linguagem, com a realidade social e poltica do momento, mais do que de
qualquer capacidade para refletir essas conexes ou se pr acima delas.
(2) A linguagem potica solicita, incita, exige uma leitura, uma leitura que, ao mesmo tempo, permite que os efeitos de condensao potica irrompam no poema e que vincule esses
efeitos situao ou ato da prpria escrita. Ler implica sempre esse duplo movimento
receptividade para com a linguagem, que polivalente e sobredeterminada, e momentos
de deciso em que a polivalncia e a sobredeterminao so relacionadas novamente ao
lugar ou situao de que o poema se originou. Minha perspectiva, aqui, ser a de que esse
lugar da gnese do poema social. Pode-se fazer uma analogia entre a leitura de poesia e a
interpretao psicanaltica. O analista escuta com o que Freud denominou de ateno suspensa ou flutuante, a fim de ouvir o que reverbera no discurso do sujeito e em seus silncios; do outro lado do dilogo, o sujeito premido para o que Lacan chamou de momento
de concluir, em que ele ou ela sente a presso do inconsciente e o integra em seu discurso
real com o analista, permitindo que o inconsciente interrompa as falsas concluses que
at ento tinham resistido a ele. Os dois lados da leitura de poesia so uma dialtica dessa
ordem, entre a ateno flutuante e o momento de concluir. O leitor, entretanto, se assemelha mais ao paciente do que ao analista, na medida em que as interpretaes, geralmente
em nome de sua prpria coerncia, tendem a resistir aos efeitos do texto potico. Isto no
implica argumentar a favor do adiamento indefinido das decises interpretativas. Essas
decises sempre ocorrem, mesmo quando so dissimuladas, como na retrica da crtica
desconstrutivista. Todo momento de concluir interpretativo liga a interpretao e o texto
como os dois lugares histrica e socialmente situados de experincia esttica.
(3) A transao entre escrita e leitura , assim, o embate entre a situao social de produo e a de recepo literrias. O problema da ideologia mais bem focalizado nesse
embate e nessa transao. A arte e a literatura se tornam enredadas nas lutas ideolgicas
vitais do presente por meio do conflito de interpretaes, dos esforos em disputa para
entender os textos da herana cultural, concreta e reflexivamente. A experincia esttica
no dada, mas formada no jogo entre escrita e leitura. A herana cultural no dada,
mas construda. Essa herana se torna investida de significado para o presente por meio
do conflito de interpretaes.

248 brenkman, John. A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno

Uma rvore de veneno


Primeiramente, vamos reproduzir o poema na ntegra:

A Poison Tree

Uma rvore de veneno

Uma rvore venenosa

I was angry with my friend:


I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.

Zanguei-me com meu amigo:


A ira cessou, eu a digo.
Com o inimigo zanguei-me:
A ira cresceu, eu calei-me.

Tive dio do meu amigo:


Falei, meu dio acabou.
Tive dio de um inimigo:
no disse, o dio aumentou.

And I waterd it in fears,


Night & morning with my tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.

E a reguei de alma sombria


Com meu pranto noite e dia;
E a expus ao sol de gentis
Risos e falsos ardis.

Dia e noite, com temor,


Eu, com meu pranto, reguei-o;
Ao doce riso, ao calor
De gentis ardis, deixei-o.

And I grew both day and night,


Till it bore an apple bright.
And my foe beheld it shine,
And he knew that it was mine.

E cresceu noite e manh,


Dando luzente ma;
Ao ver o brilho que tinha,
E sabendo que era minha,

E crescendo, noite e dia,


Ma brilhante medrou.
O inimigo a cobiou,
Mas s a mim pertencia.

And into my garden stole,


When the night had veild the pole;
In the morning glad I see/
My foe outstretchd beneath the tree.

Veio o inimigo ao pomar


Aps a noite tombar.
Bem cedo o vi, com agrado,
Ao p da rvore estirado.*

A furto, invadiu meu horto


Quando ainda escurecia.
De manh, eu, co alegria,
Junto rvore, o vi morto.

Depende-se muito aqui da relao da primeira estrofe com o restante do poema,


medida que ele expe o que aconteceu ira que no foi comunicada ao inimigo. Toda
vez que algum l o poema, creio eu, a primeira estrofe tem a fora de uma afirmao moral. O tempo passado estabelece a dupla perspectiva da ao de Blake naquele
tempo e de seu julgamento agora. O perigo ou a infelicidade de uma ira que cresce, em

* Esta traduo de Paulo Vizioli, in BLAKE, William. Poesia e prosa selecionadas. So Paulo: Nova Alexandria,
1993, p. 68-9. Apresentamos uma traduo alternativa que, apesar de no respeitar o esquema rmico do
original, preserva certa imagem central para a anlise de Brenkman, que foi alterada na traduo de Vizioli.
o caso de fears, traduzido por alma sombria, no incio da segunda estrofe. (Nota dos tradutores).

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 244-256, 2013 249

comparao com uma ira que acaba, estabelece uma srie de valores ou preferncias
que quase evidente. E tudo isso confirmado no relato da angstia resultante que
ele experimentou e do dano que ele causou ao seu inimigo. L-se o poema como uma
espcie de confisso em que o Blake que fala partilha com o leitor um julgamento
reflexivo sobre as aes de Blake no passado, ancorado na viso de que falar sobre o
dio saudvel e de que no falar sobre ele prejudicial, at mesmo autodestrutivo.
Num outro extremo, entretanto, emerge uma leitura que contraria essa em todos
os seus detalhes. Os dois ltimos versos do poema, rompendo o consistente tempo
passado do restante, podem ser tomados pelo seu valor de face: Na manh alegre,
eu vejo/ Meu inimigo estirado debaixo da rvore. uma alegria transcendente! Ele
obteve sua satisfao e sua ira finalmente se expressou, produzindo o prazer absoluto de ver seu inimigo destrudo. Algum poderia tentar evitar essa leitura argumentando que a expresso alegre eu vejo no est realmente no tempo presente,
mas antes uma construo elptica, algo como feliz fiquei de ver. Mas a leitura
amoral do poema se baseia em outros aspectos de sua estrutura total. Em primeiro
lugar, h duas oposies na primeira estrofe, no s entre comunicar ou no a ira,
mas tambm a diferena entre amigo e inimigo, sugerindo que no h meios no
destrutivos de exprimir o dio ao inimigo, mas que ele precisa ser representado. Em
segundo lugar, as palavras e a sintaxe do poema no so particularmente investidas
de conotaes afetivas; o tom uniforme e essa segunda leitura o mantm assim, ao
construir a primeira estrofe no como uma afirmao moral, mas como uma declarao de fato: o dio pode ser expresso e imediatamente dissipado em relao a um
amigo, mas no em relao a um inimigo. De fato, pode-se levar esta leitura sua
concluso lgica e dizer que o poema como um todo, longe de ser uma confisso, se
parece mais com uma srie de instrues sobre como trapacear um inimigo e sentir
alvio, at mesmo regozijo.
Cada uma dessas leituras pode responder por si mesma, colocando no mesmo patamar os vrios detalhes do poema. Nesse sentido, o poema gera ambas as leituras. No
entanto, nenhuma leitura pode responder pela possibilidade da outra, exceto para
declarar que ela produto de uma interpretao errnea; elas s podem acusar-se
entre si de moralismo ingnuo e amoralidade, respectivamente. Por outro lado, tampouco adequado se contentar com esses resultados e declarar a indeciso formal ou
lgica do poema, uma pura oscilao entre dois significados mutuamente excludentes. Pois essa indeciso tambm representa duas situaes contrrias de experincia,
remorso e no remorso, condenao e frieza, constituindo um impasse tico que a
leitura do poema no precisa ainda aceitar, isto , decidir afirmar.

250 brenkman, John. A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno

A prpria uniformidade de tom do poema permite a cada leitura investi-lo com


os afetos apropriados a ela. Na primeira leitura, o poema adquire o solene espanto
de testemunhar uma ao que o prprio falante tem dificuldade de acreditar que
cometeu. A segunda leitura, por outro lado, aceita o valor em face do jbilo final
do falante e, por sua vez, investe a superfcie atonal do poema com a conotao de
frieza. O tom se torna sintoma de um regozijo derivado de uma emoo totalmente
diferente, isto , a ira que teve de seguir seu caminho por elaborados desvios a fim
de se manifestar no logro fatal do inimigo. O conceito [conceit]6 que d ao poema
seu ttulo a imagem dessa transformao tortuosa da clera em temor, em m-f
e, finalmente, em logro:
E a reguei de alma sombria
Com meu pranto noite e dia;
E a expus ao sol de gentis
Risos e falsos ardis.
E cresceu noite e manh,
Dando luzente ma.

Sem fazer referncia a um julgamento moral contra a m-f e o logro, descobrimos,


na imagem de regar a ira (rvore) e exp-la ao sol, uma ciso presente no sujeito
entre seu sentimento interior (medo) e as demonstraes exteriores de fraternidade
(gentis risos, falsos ardis) que, a partir daquele momento, impede qualquer relao
direta entre emoo e ao. Essa distoro da experincia no est sujeita a uma
condenao moral, no sentido de um julgamento contra o prprio falante, pois ele
no fez uma escolha que pudesse ser julgada. Ele sofreu os efeitos de uma clera que
no pode imediatamente se expressar e se resolver.
O conceito [concept] da rvore de veneno,7 estendendo sua simplicidade e completude ao longo das ltimas trs estrofes como um todo, no obstante, tem em seu

6 Diferentemente de concept, o termo conceit, embora traduzido por conceito, deve ser tomado no sentido

de agudeza, como bem observou Joo Adolfo Hansen, a quem registramos nosso agradecimento. (Nota
dos tradutores).
7 Se se fosse buscar o significado da imagem em sua fonte bblica para suprir o que est faltando no
conceito [concept], o poema poderia ser concebido como stira do mito ednico. Deus se tornaria o
falante, e a espcie humana, o inimigo seduzido pela tentao de algo invejvel.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 244-256, 2013 251

centro um elemento indeterminado a ma brilhante. Todos os outros elementos


isolados da imagem que equiparam a clera no declarada a uma rvore facilmente
encontram seus equivalentes apropriados. Dentro da lgica do conceito [concept],
a imagem da ma apenas vagamente motivada, como pela ideia de que ela o
fruto da ira. O significado de ma brilhante , de outra maneira, no passvel de
especificao do ponto de vista do prprio conceito [concept]. Ela poderia ser qualquer coisa um objeto, uma situao, uma pessoa , contanto que preenchesse uma
condio geral: a de que fosse, aos olhos do inimigo, um bem invejvel do falante.
Aqui, a indeterminao um exemplo extremo de condensao metafrica. Mil e
uma narrativas poderiam ser contadas que girassem em torno de um episdio em
que o inimigo de um personagem, pensando que est prestes a despojar o protagonista de um bem valioso, cava sua prpria runa:
Ao ver o brilho que tinha,
E sabendo que era minha,
Veio o inimigo ao pomar
Aps a noite tombar.

Essas linhas resistem a uma leitura moral do poema mais do que qualquer outro
trecho, pois mostram que se poderia contar com esse inimigo para tentar roubar
o sujeito de seu bem. Blake havia calculado exatamente quais seriam as aes e
reaes de seu inimigo, tendo imputado ao outro o mesmo antagonismo destrutivo
que havia descoberto dentro de si mesmo. Essa igualdade entre protagonista e antagonista leva a leitura moral a perder sua fora. A aparente diferena entre protagonista e antagonista foi dissolvida em uma identidade essencial entre um e outro.
A essa altura, a indeterminao da ma e a natureza prototpica da narrativa produzem uma significao que excede a compreenso tanto da leitura moral quanto
da amoral. A histria do poema abstrata, mas no no sentido de que ela uma
abstrao. Ao contrrio, revela a forma de abstrao que historicamente especfica
da sociedade capitalista. A narrativa prototpica e a imagem da ma brilhante so
como um vrtice que traga tudo para dentro de si mesmo. Qualquer coisa poderia
ser o bem invejvel em torno do qual gira a luta de morte entre Blake e o inimigo. A
possesso no meramente um elemento do antagonismo entre eles, mas sua causa;
a possesso pr-forma, socialmente, a relao entre um e outro como uma relao de
igualdade e inveja, sendo seu espelhamento mtuo to completo que o protagonista

252 brenkman, John. A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno

precisa apenas imputar, de forma calculada, seus prprios objetivos e motivos ao


outro a fim de tornar seu esquema um sucesso. As condies da imagem-narrativa
central, em outras palavras, so, de fato, preenchidas apenas nas condies sociais
do capitalismo, em que o individualismo possessivo no seno a manifestao
ideolgica e caracterolgica de uma prtica de troca em que tudo, ou seja, qualquer
objeto, situao ou pessoa passvel de uma designao econmica de valor que ,
ento, a mesma para todos os indivduos, e se torna algo a ser possudo. somente
nessas condies que a igualdade dos indivduos necessariamente toma a forma de
antagonismo entre indivduos. A inveja, um termo tomado de emprstimo tica
das sociedades pr-capitalistas, antes um nome para a lei fundamental de interaes
na sociedade capitalista como um todo.
O poder extraordinrio deste poema simples deriva do jogo da imagem da ma brilhante que , ao mesmo tempo, a mais abstratamente indeterminada e a mais concreta
imagem socialmente determinada do poema. O movimento expresso da imagem possui trs momentos distintos. No primeiro, como um elemento do conceito [concept], a
ma brilhante representa o efeito do dio no expresso, um resultado a que se chegou
no curso dos eventos narrados. No segundo, e ao contrrio do anterior, como uma
metfora do processo social de abstrao que constitui a inter-relao e interao de
indivduos, a ma brilhante representa a causa do antagonismo da qual se originou a
narrativa. O conceito [concept] substitui o efeito pela causa. A ma brilhante , ento,
no terceiro momento de sua figurao, o tropo denominado metalepse. A metalepse
toma a forma aqui de uma contradio entre o que narrado e a prpria narrativa,
pois descobrimos a causa social da narrativa do poema na imagem que, inicialmente,
representou o efeito psicolgico do que foi narrado, isto , a ira no expressa do falante.
Para acompanharmos essa guinada figurativa na linguagem do poema, operamos uma
ruptura entre as duas leituras, a moral e a amoral, que o texto engendrou.
Em Uma rvore de veneno, a crtica da sociedade burguesa expressa no tematicamente, mas na prpria articulao do texto e na dinmica que ela provoca. A teoria
lingustica estabeleceu a distino entre o nonc (enunciado) do texto e a nonciation (enunciao), ou seja, entre o que dito e o ato de diz-lo. Em nosso contexto,
a terminologia original de Roman Jakobson basta, distinguindo o evento narrado e
o evento de fala. No nvel do evento narrado de A rvore de veneno, uma ira no
expressa resulta na destruio de um antagonista seduzindo-o por meio de um bem
invejvel. O evento de fala do poema, insisto, deveria ser compreendido em termos
sociais e, mesmo, polticos. O texto gerou duas leituras conflitantes e irreconciliveis, cada qual apreendendo o status do poema como evento de fala de um modo

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 244-256, 2013 253

especfico: como uma confisso ou julgamento moral, de um lado, e como apresentao fria do fato ou cenrio para uma ao destrutiva, de outro. Nenhuma dessas
leituras pode ser o verdadeiro entendimento do texto, pois nenhuma pode explicar
ou cancelar a outra. Nossa interpretao foi forada a ir alm da leitura moral e da
amoral. O poema deve antes ser interpretado em termos da produo dessas duas
leituras parciais e cegas. Ele gera essas leituras porque elas correspondem aos dois
polos da conscincia tica por meio dos quais os indivduos realmente vivenciam
as relaes sociais do mundo capitalista. A leitura moral corresponde a uma falsa
moralidade de boa vontade e honestidade que teria sido, a propsito, o alvo simples
de uma stira, se Blake tivesse conservado o ttulo do poema tal como ele aparece
no caderno de notas de poema: Tolerncia crist! A leitura amoral, por outro lado,
corresponde quela forma de individualismo em que os homens, tendo-se tornado
intercambiveis, so privados da prpria individualidade em nome da qual agem.
A dialtica do texto consiste em impor as leituras moral e amoral, que representam os
dois polos da experincia tica na sociedade burguesa, e, ento, forar essas duas leituras de volta figura da ma brilhante, para que o leitor entenda o poema. Ambas as
leituras esto condenadas ao fracasso, j que tomam a ma brilhante antes como o
efeito da ira do que como a causa social do antagonismo entre os indivduos. A metalepse, ao depreender nossa interpretao das duas leituras, d forma ou figura
diferena entre esse ato de fala potica e a tica vivida na sociedade burguesa.
Permitam-me explicar essa formulao sobre a forma potica, contrastando os resultados da anlise com a posio que Marcuse defende. Para ele, a experincia esttica
marca a diferena entre o real e o possvel, apresentando uma imagem ou aparncia
cuja completude a separa das condies existentes e das experincias prevalecentes
da vida social. A arte sublimao no sentido de que ela transforma o real em bela
aparncia; acompanhar essa sublimao esttica, argumenta Marcuse, um processo
de dessublimao que ocorre na percepo esttica:
A transcendncia da realidade imediata despedaa a objetividade reificada das relaes
sociais estabelecidas e abre uma nova dimenso da experincia: o renascimento da subjetividade rebelde. Assim, com base na sublimao esttica, tem lugar uma dessublimao na percepo dos indivduos em seus sentimentos, juzos, pensamentos; uma invalidao das normas, necessidades e valores dominantes.8

8 MARCUSE, Herbert. The aesthetic dimension. Op. cit., p. 7-8. (Trad.: p. 20-1.)

254 brenkman, John. A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno

Ora, Uma rvore de veneno, de Blake, de fato invalida as formas dominantes da


experincia e da conscincia tica, as que esto incrustadas nas prticas e interaes
socialmente organizadas da sociedade burguesa. O poema realiza isso no por meio
da bela aparncia do todo esttico, mas pela contradio presente no texto entre as
leituras que ele gera e a gnese dessas leituras. As normas, necessidades e valores
dominantes que o poema nega so to essenciais s operaes internas do texto,
quanto inerentes vida social. O que sentido, pensado e julgado dentro das formas histricas da conscincia tica que o sujeito burgus precisa viver parte da
dimenso esttica do poema, aqui como a dinmica das leituras que corresponde
polaridade em tal conscincia tica. No a unidade, mas a diviso ativa do texto
que invalida essas formas socioticas.
Da mesma forma, o poder utpico do poema reside no na sua proteo de uma
aparncia esttica de inteireza, mas em seu ato concreto de fala. A concretude da
utopia, entretanto, no consiste, como concebia Bloch, no repertrio de imagens de
felicidade e liberdade. O utpico est mais completamente vinculado ao negativo.
O poema anuncia a necessidade de uma conscincia tica que no pode ainda ser
vivida e representada, mas o faz na fratura entre nonc e nonciation. A dimenso
utpica do poema encenada em uma fala potica que manifesta a luta entre as
condies sociais da fala do poeta e as possibilidades latentes de fala. O movimento
de figurao, por meio dos trs momentos do tropo da ma brilhante, invalida as
duas leituras capazes de dar ao evento narrado (nonc) e ao conceito (rvore = ira)
consistncia e, dessa maneira, nega aquelas formas de experincia tica que podem
ser vividas no contexto social do poema. O que o poema diz negado no seu ato
de diz-lo. O que chamei de forma ou figura potica aqui apenas essa diferena
entre nonc e nonciation, uma encenao da divergncia entre o real e o possvel,
o vivido e o utpico. Uma rvore de veneno aponta para um futuro em que sua
prpria histria e seu modo de narr-la no seriam mais necessrios.
A lgica interna da escrita de Blake no a de um monumento cultural separado
do tempo e da mudana. Justamente por isso, uma leitura historicista de Blake, que
visasse apenas a situ-lo em seu prprio tempo, esqueceria que o futuro uma
dimenso indispensvel do dilogo potico de Blake com o tempo e a histria. A
construo socialmente crtica da herana cultural evita tanto a ideia de que a arte
est acima da histria, quanto a de que a arte est simplesmente limitada a seu prprio tempo. Quando Marx contrastou as revolues burguesas do sculo xviii com
as proletrias do xix, ele viu, em cada qual, uma desarmonia especfica de forma e
contedo:

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 244-256, 2013 255

A revoluo social do sculo xix no pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro.
No pode iniciar sua tarefa enquanto no se despojar de toda venerao supersticiosa
do passado. As revolues anteriores tiveram que lanar mo de recordaes da histria
antiga para se iludirem quanto ao prprio contedo. A fim de alcanar seu prprio contedo, a revoluo do sculo xix deve deixar que os mortos enterrem seus mortos. Antes
a frase ia alm do contedo; agora o contedo que vai alm da frase.9

Blake se situa entre as realidades das revolues burguesas e as possibilidades da revoluo socialista. Historicamente, ele um poeta das Revolues Francesa e Americana.
Diferentemente das revolues que mexeram com sua imaginao, sua prtica potica
no para abruptamente, enrijecendo as formas de liberdade e destruindo os contedos
de liberdade. Blake no era de seu tempo. Sua poesia reivindicava um futuro a que as
revolues burguesas tiveram de resistir. Concluo com essa justaposio de Blake e
Marx, de poltica da poesia e de potica da histria, no para colocar Blake dentro do
quadro de referncia de Marx, mas para situar Marx dentro de um processo poltico
e cultural que inclui, como um momento produtivo e proftico, a poesia de Blake.
Isso se torna ainda mais necessrio em nosso prprio momento histrico. O que, para
Blake, era um futuro que prometia libert-lo de seu presente desapareceu no tecido de
nossa prpria herana poltica e cultural. Olhamos de volta para Blake atravs de um
grande espao vazio, na medida em que vivemos uma realidade que existe porque as
revolues proletrias do sculo xix no tiveram xito. Somos mais os herdeiros da
realidade restritiva de Blake do que do futuro imaginado por ele. Dito de outro modo,
sua poesia ainda nos fala porque ainda no nos libertamos para ouvi-la.

John Brenkman professor de literatura norte-americana e literatura comparada na The City University
of New York cuny, onde dirige o Seminrio eua-Europa no Baruch College. Foi editor-fundador da
revista Social Text. autor de Culture and domination (Cornell up) e Straight male modern: a cultural
critique of psychoanalysis (Routledge), entre outros ttulos. Contribuiu com o ensaio Innovation: notes
on nihilism and the aesthetics of the novel para o volume 2 de The novel. Themes and forms, obra coletiva
editada por Franco Moretti (Princeton up), sendo ainda autor de mais de cinquenta ensaios e artigos.
Colaborou para o blog http://www.greatissuesforum.org/ (Seminar@The Forum).

9 MARX, Karl Marx. The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte (Nova York, 1963), p. 18. (Ed. bras. O 18 Brumrio

e Cartas a Kugelmann. Trad. rev. por Leandro Konder. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002, p. 24.)

256 brenkman, John. A utopia concreta da poesia: Uma rvore de veneno

Sobre o instinto de americanidade da


crtica literria romntica brasileira:
Antonio de Macedo Soares (1838-1905)
Luiz Roberto Cairo

Resumo: O presente trabalho pretende refletir sobre o americanismo ou instinto de americanidade, sentimento de pertena ao continente americano, que se manifesta paralelamente construo da nacionalidade na literatura, conforme se observa na leitura de textos de crticos romnticos brasileiros, como Macedo Soares. Palavras-chave: instinto de
americanidade, romantismo brasileiro, Antonio Joaquim de Macedo Soares (1838-1905).
Abstract: This work intends to reflect on the American feeling or instinct of American identity, sense of collective belonging to the American continent, which is manifested in parallel
with the construction of the nationality in Brazilian literature, as seen in the texts of romantic Brazilians critics, such as Macedo Soares. Keywords: instinct of American identity,
Brazilian Romanticism, Antonio Joaquim de Macedo Soares (1838-1905).

Como brasileiro, uma questo que sempre me intrigou diz respeito a nossa condio americana que, frequentemente, escamoteada. Americanos so os falantes de
lnguas espanhola, francesa e inglesa que habitam a Amrica, ou seja, os outros, enquanto ns somos simplesmente brasileiros. Em algum momento, perdemos nossa
dimenso continental, talvez at pela extenso territorial, uma vez que ocupamos
70% do espao sul-americano. O Brasil uma nao verdadeiramente sui generis,
que no costuma se identificar nem tampouco se ver como Amrica, pois a expresso sempre usada para nomear a Amrica Hispnica, o Canad, e principalmente
os Estados Unidos da Amrica do Norte.
O olhar do brasileiro em relao condio de americano, ou simplesmente o modo
que o brasileiro se identifica ou no se identifica com os demais povos do continente americano, funciona mesmo como prembulo para as consideraes que passo
a discorrer ao longo deste texto em que procuro refletir sobre o americanismo na
crtica literria brasileira, em particular nos textos do crtico romntico Antonio
Joaquim de Macedo Soares (1838-1905).
O termo americanismo, no Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa, tanto pode
significar admirao, mania ou imitao das coisas e do estilo de vida da Amrica, tudo aquilo que caracteriza o continente americano, especialmente os Estados
Unidos da Amrica, ou que se relaciona com suas instituies, cultura, tradio
etc., quanto conjunto de cincias e estudos que tm por objetivo o conhecimento
do continente americano, ou ainda, como sinnimo de americanidade, no sentido
simplesmente de sentimento de apreo pelo continente americano.1
Americanismo ou americanidade so expresses que vm de americano, significando
dentre outras acepes: relativo Amrica ou a qualquer pas desse continente, ou o
que seu natural ou habitante, podendo ainda expressar relativo aos Estados Unidos
da Amrica, ou o que seu natural ou habitante; estadunidense, norte-americano,
ianque. Essas expresses no devem, porm, ser confundidas com americanizao,
que significa ato ou efeito de americanizar-se, mais precisamente, no contexto em
que vivemos, ao ou efeito de tornar(-se) semelhante aos americanos, especialmente os dos Estados Unidos da Amrica; adaptar(-se) aos modos, costumes ou estilo de
vida dos americanos, especialmente os dos Estados Unidos da Amrica.2
Americanidade ou mesmo instinto de americanidade, como costumo nomear, significa, se tomarmos o signo instinto no sentido dicionarizado de impulso interior
1 HOUAISS, Antnio. Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 187.
2 Idem.

258 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

independente da razo e de considerao de ordem moral que faz o indivduo agir,3


ou simplesmente de inteno, de sentimento de pertena Amrica,4 que se manifesta tanto em textos poticos de autores que escreveram no Brasil desde os tempos
coloniais, quanto em textos da crtica literria brasileira do momento romntico,
quando j no aparece to espontaneamente, mas, arrisco dizer, de maneira mais
consciente e programada, contribuindo para a formao da identidade de uma literatura ento em construo, caminhando passo a passo com o que Machado de
Assis chamou de instinto de nacionalidade, no clssico ensaio Notcia da atual
literatura brasileira: instinto de nacionalidade (1873), ou seja, certo sentimento
ntimo, que torna o escritor brasileiro homem do seu tempo e do seu pas, ainda
quando trate de assuntos remotos no tempo e no espao,5 conforme constatao
feita no mesmo texto de que: Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharo ali farto manancial de inspirao e iro dando
fisionomia prpria ao pensamento nacional.6
Da a necessidade de voltar o olhar para este instinto na tentativa de traar uma
possvel genealogia do conceito de americanidade, que, embora estivesse to presente no momento romntico, parece ter-se esmaecido na memria dos brasileiros
e mesmo ao longo da histria de sua literatura to pontuada de signos americanos,
como: A confederao dos Tamoios (1856), de Domingos Jos Gonalves de Magalhes (1811-82); A lgrima de um caet (1849), de Nsia Floresta Brasileira Augusta
(1810-85); As americanas (1856) e Colombo ou O descobrimento da Amrica (1854), de
Joaquim Norberto de Sousa e Silva (1820-91); Colombo (1866), de Manuel de Arajo
Porto-Alegre (1806-79); Iracema (1865), de Jos de Alencar; os poemas americanos de Primeiros cantos (1846), Segundos cantos (1848), ltimos cantos (1851) e Os
Timbiras (1857), de Gonalves Dias (1823-64); O livro e a Amrica (1870), de Castro
Alves (1847-71); Vozes da Amrica (1864) e Anchieta ou O evangelho da selva (1875),
de Fagundes Varela (1841-75); O guesa errante (1874-7), de Sousndrade (1832-1902);
Americanas (1875), de Machado de Assis (1839-1908); e tantos outros.
Em artigo publicado nO Estado de S. Paulo, de 13 de novembro de 1977, sob o ttulo Cristvo Colombo, o crtico e historiador Hlio Lopes (1919-92) definiu o

3 Idem, p. 1627.
4 BERND, Zil e CAMPOS, Maria do Carmo (Orgs.). Literatura e americanidade. Porto Alegre: Editora da

Universidade/ufrgs, 1995, p. 5.
5 ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Obra completa (Org. A. Coutinho), vol. iii. Rio de Janeiro, 1962, p. 804.
6 Idem.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 257-270, 2013 259

americanismo como uma exaltao do continente americano, visto como um dos


aspectos do nacionalismo romntico brasileiro. O americanismo vem tona, do seu
ponto de vista, Quando os nossos poetas ou romancistas engrandecem a prpria
terra, reassumem a viso paradisaca das crnicas e dos poemas dos sculos coloniais, realando ou acrescentando-lhes agora a melodia nova do orgulho do bero
e da posse.7
Esta tendncia no se restringiu, contudo, aos limites das terras brasileiras apenas,
mas se estendeu principalmente pela Amrica Latina, a ponto de Lopes considerar
a existncia de dois ngulos distintos no americanismo: [] o culto da natureza
virgem e grandiosa, no necessariamente extica em oposio natureza europeia,
embora esta fisionomia se possa distinguir, e o culto dos heris nacionais. Confluem
estes dois ramos para a exaltao nica da Liberdade.8
Vale ressaltar, porm, o fato curioso de que ele viu neste americanismo dos romnticos brasileiros uma usurpao mesmo do termo Amrica dos hispano-americanos, ao registrar que: Tomamos ento para nosso uso a cordilheira dos Andes, o
condor e os vulces. E chega-se a roubar o prprio nome da Amrica para restringi-lo ao Brasil.9
Exemplificando com o poema Anchieta ou O evangelho na selva (1875), de Fagundes
Varela, no qual a Amrica se apresenta primeiro, no Canto ii, como uma reminiscncia clssica, bblica, da terra prometida, e no fechamento do poema, no Canto x,
confundindo-se com o Brasil, aos olhos de Anchieta moribundo, ela aparece como
o imprio da Lei, a majestade/ Suprema da Justia, casando-se com os ideais
romnticos tambm quando se caminha para o passado, na revivescncia das lendas
primitivas, na procura do bero das raas antigas.10
No fundo, Lopes procura mostrar, apoiado no texto De la Poesa en el Brasil (1855), do
escritor espanhol Juan Valera y Alcal Galiano (1824-1905), cujos fragmentos foram
publicados na revista O Guanabara (1849-56), a existncia de uma pica romntica
brasileira, pouco explorada pelos pesquisadores da nossa literatura, da qual o poema
Colombo (1866), de Manuel de Arajo Porto-Alegre, pode ser visto como um dos
produtos mais significativos, e que fruto do gosto portugus, pois, de acordo com

7 LOPES, Hlio. Cristvo Colombo. In: Letras de Minas e outros ensaios (Org. Alfredo Bosi). So Paulo: Edusp,

1997, p. 283.
8 Idem.
9 Idem.
10 Idem, p. 284.

260 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

a avaliao de Fidelino Figueiredo (1889-1967), o feito de Colombo no despertou


na Espanha uma pica de aventura marinha como a tiveram os portugueses.11
A observao de Lopes diz respeito principalmente aos textos poticos romnticos;
no entanto, venho observando que, tambm na crtica, quase todos os textos da
fase que costumo chamar dos Bosquejos, Parnasos e Panteons, o americanismo,
de alguma forma, estavam presentes em diferentes graus, ao lado do instinto de
nacionalidade, haja vista o Ensaio sobre a histria da literatura do Brasil (1836),
de Domingos Jos Gonalves de Magalhes, publicado em Paris, na Niteri, Revista
Brasiliense (1836), ou mesmo Da nacionalidade da literatura brasileira (1843), de
Santiago Nunes Ribeiro (?-1847), publicado no Minerva Brasiliense (1843-5), ambos
tidos como verdadeiros manifestos da literatura brasileira romntica.
Nesta mesma direo, Afrnio Coutinho em A tradio afortunada, ensaio memorvel sobre o esprito de nacionalidade na crtica brasileira, j havia observado que,
na primeira metade do sculo xix, [] a literatura brasileira para ser brasileira
ou nacional, como queriam os escritores inspirados pela potica romntica tinha
que olhar em torno e reproduzir a paisagem americana a fim de adquirir a cor local
necessria sua caracterizao nacional.12
No momento romntico, conforme verbete da Enciclopdia de literatura brasileira,
de Afrnio Coutinho e J. Galante de Sousa, chegou-se mesmo a constatar o uso do
termo americanas como designao de um tipo de produo potica:
Termo geralmente usado durante o romantismo, no Brasil, para designar a produo
literria, particularmente de poesia, tendo em vista caracterizar o aspecto americano ou
brasileiro daquela poesia. Indica a tendncia nacionalista ou antilusa daquela poca que
procurava acentuar a incorporao dos aspectos locais (costume, flora, paisagem) literatura. O prprio Almeida Garrett, no prefcio do Parnaso Lusitano, conclamou os escritores
brasileiros a usarem mais a Natureza brasileira nas suas produes literrias. Entre outros,
Gonalves Dias e Machado de Assis empregaram a denominao poesias americanas para
designar uma parte de sua produo potica, seguindo a tendncia geral.13

11 Idem.
12 COUTINHO, Afrnio. A tradio afortunada. Rio de Janeiro: Jos Olympio; So Paulo: Edusp, 1968, p. 67.
13 COUTINHO, Afrnio e SOUSA, J. Galante de (Dir.). Enciclopdia de literatura brasileira. So Paulo: Global; Rio

de Janeiro: Fundao Biblioteca Nacional/dnl: Academia Brasileira de Letras, 2001, 2. ed. rev., ampl. e ilustr.
(Coord. Graa Coutinho e Rita Moutinho), v. 1, p. 222.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 257-270, 2013 261

Esta tendncia americanista, de feio nacionalista ou antilusa, tem uma dimenso


continental, na medida em que se observa a publicao de antologias que expressam esse sentimento, tambm na Amrica Hispnica: Amrica potica, Coleccin
escojida de composiciones en verso, escritas por americanos en el presente siglo uma
delas. Organizada pelo crtico argentino Juan Mara Gutirrez, esta antologia teve
sua primeira edio em fascculos, publicados, entre fevereiro de 1846 e junho de
1847, pela Imprensa de El Mercurio, de Valparaso, no Chile, e a segunda edio, j
no formato de livro, em 1866, publicada pela Imprensa de Mayo, de Buenos Aires.
Amrica potica rene poemas de 53 poetas, sendo catorze da Argentina, onze do
Mxico, cinco do Chile, cinco do Uruguai, quatro de Cuba, trs da Bolvia, trs
da Colmbia, trs do Peru, trs da Venezuela, um do Equador e um da Amrica
Central. Constitui a primeira coletnea sistemtica de poesia americana em lngua espanhola e busca sintetizar a progressiva ascenso da inteligncia americana,
conforme aponta o crtico Jos Enrique Rod, no ensaio Juan Mara Gutirrez (Introduccin a un estudio sobre literatura colonial).14
Em 1883, ainda na Argentina, Francisco Lagomaggiore organiza e publica Amrica
literaria, uma antologia de textos em prosa e verso, onde aparecem, pela primeira vez, poemas de escritores brasileiros, e, em 1897, Carlos Romagosa organiza e
publica, em Crdoba, Joyas poticas americanas, uma coletnea de poemas onde
se incluem textos do poeta norte-americano Edgar Allan Poe, traduzidos para o
espanhol, ampliando assim o espectro da dimenso continental dessas antologias
de textos americanos.
Dizer, portanto, que os escritores romnticos brasileiros andaram usurpando o termo Amrica dos hispano-americanos me parece no fazer muito sentido, pois o
instinto de americanidade foi uma sugesto romntica europeia acatada, pelo visto,
por todo o continente americano.
Em texto clssico sobre o romantismo brasileiro, o crtico Antonio Soares Amora
(1917-99) observou com propriedade que:
Quem sabe o que foi na Europa do fim do sculo xviii e principalmente do comeo do
sculo xix o crescente movimento de simpatia e at de entusiasmo por tudo que era a
originalidade do mundo americano sua natureza, suas culturas exticas, a pureza e o

14 MEDINA, Jos Ramn (Dir.). Diccionario enciclopdico de las letras de Amrica Latina. Caracas: Biblioteca

Ayacucho; Monte vila Editores Latinoamericana, 1995, v. i, p. 211.

262 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

sentimento de liberdade de seus bons selvagens de pronto compreende o esprito com


que todos os viajantes europeus viram, na poca, o Brasil.15

A partir da leitura de um captulo do livro La littrature compare, de M. F. Guyard,


sobre o tema viagens como marca de presena estrangeira nas diferentes literaturas,
o crtico Brito Broca (1903-61) fez uma curiosa reflexo sobre os influxos estrangeiros das viagens na literatura brasileira, arriscando entre outras coisas que, no perodo colonial, as viagens a Portugal eram no somente elementos de influncia como
condio quase essencial para que um brasileiro viesse a produzir obra literria,16
haja vista Santa Rita Duro e Baslio da Gama, e, aps a independncia, no perodo
nacional, as viagens, de incio, preferencialmente, Frana e depois a outros pases
da Europa e de outras partes do mundo, inclusive do continente americano, passam
a fazer parte do universo dos intelectuais brasileiros que vo buscar as novas teorias
poticas a serem introduzidas no Brasil.
Esta tendncia que modifica o fluxo de influncia portuguesa na literatura brasileira
pode ser observada na trajetria da obra de vrios crticos do momento romntico, desde os j citados Domingos Jos Gonalves de Magalhes, Santiago Nunes
Ribeiro, passando por Joaquim Norberto de Sousa Silva, Antonio Gonalves Dias,
Antonio Joaquim de Macedo Soares, dentre outros.
Neste texto, no entanto, tecerei consideraes sobre o instinto de americanidade, que
se manifesta paralelamente construo da nacionalidade da literatura brasileira, conforme se observa na leitura de alguns textos do crtico romntico Antonio Joaquim
de Macedo Soares, que contribuiu com ideias, no mnimo, originais, sobre o assunto.
Muito citado e pouco estudado, Macedo Soares pode ser considerado tambm um
dos iniciadores da crtica militante no Brasil. Tendo publicado o romance Nininha
(1859), o livro de poemas Meditaes (1889) e duas coletneas de poemas de autores brasileiros, intituladas Harmonias brasileiras (1859) e Lamartinianas (1869), veio
a chamar a ateno principalmente pelos textos crticos publicados nos peridicos:
Revista Mensal do Ensaio Filosfico Paulistano (1851-64), Ensaios Literrios do Ateneu
Paulistano (1852-63), Correio Paulistano (1854-) e Revista Popular (1859-62). Seus ensaios ainda hoje esparsos, uma vez que, em vida, no conseguiu reuni-los sob o ttulo
Ensaios de anlise literria, conforme planejara, figuram em antologias como Textos
15 AMORA, Antonio Soares. A literatura brasileira, v. ii: O romantismo. So Paulo: Cultrix, 1973, p. 57.
16 BROCA, Brito. Horas de Leitura. 1a e 2 sries (Coord. A. Eullio, Org. C. E. O. Berriel). Campinas: Editora da

Unicamp, 1992, p. 122.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 257-270, 2013 263

que interessam histria do romantismo (1863), de Jos Aderaldo Castello, Caminhos


do pensamento crtico (1972), de Afrnio Coutinho, e, mais recentemente, em O bero
do cnone (1998), de Regina Zilberman e Maria Eunice Moreira, carecendo com certa
urgncia, portanto, de serem reunidos em livro para poderem circular e serem devidamente avaliados por um nmero cada vez maior de leitores crticos.
Nos ensaios de Macedo Soares, h marcas de anlise sensvel e detalhada de textos
de autores brasileiros, que nos indiciam talvez a existncia de uma primeira crtica
de fatura, distinguindo-se assim dos demais crticos de sua poca que costumavam
redigir principalmente vises panormicas da literatura brasileira, sob a forma de
bosquejos, ou biografias literrias, organizadas em galerias ou panteons, conforme
registro de Antonio Candido em A conscincia crtica, captulo final de seu monumental ensaio historiogrfico-literrio Formao da literatura brasileira.
Carioca da vila de Maric, provncia do Rio de Janeiro, iniciou seus estudos no
Seminrio Episcopal e, ao perceber que no tinha vocao religiosa, transferiu-se
para So Paulo, onde estudou Direito na antiga faculdade do Largo So Francisco,
no perodo de 1857 a 1861.
Suas atividades crticas concentraram-se no final da dcada de 1850 e incio dos
anos 1860, sendo visto pelo Candido como a melhor cabea crtica de sua gerao:
Mas parece que a nica vocao predominantemente crtica seria a de Macedo Soares,
logo desviada para o Direito. Os seus artigos nas revistas acadmicas so muito bons,
como forma e pensamento. Embora apaixonado pelo nacionalismo literrio no lhe faltou (sic) compreenso de outros rumos da poesia, como se pode ver nos estudos que
dedicou a Bernardo Guimares e Junqueira Freire.17

Num momento em que a literatura e, em especial, a crtica brasileira estavam voltadas para esta questo, Macedo Soares no fugiu regra, mas trouxe cena uma
curiosa viso do que fosse a nacionalidade da literatura brasileira: nacionalidade e
originalidade como termos inseparveis, que deveriam reger, com f e trabalho, a
construo das representaes da brasilidade, pondo assim em xeque o princpio
romntico de desordem e gnio.
Apoiado na questo da nacionalidade, defendeu no Prefcio a Harmonias brasileiras
o seguinte ponto de vista:
17 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira: momentos decisivos, vol. 2., 4. ed. So Paulo: Martins,

1971, p. 357.

264 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

J se pensa na necessidade de nacionalizar-se a ideia em todas as ordens de conhecimentos, e na aplicao dos princpios herdados da cincia dos nossos maiores e das artes que
nos vm de fora.
Nas academias, ouve-se a voz dos mestres pugnar pela nacionalizao do direito.
Nas associaes literrias, discutem-se os elementos da nacionalizao da literatura, as
fontes de vida da arte.
, enfim, a nacionalidade a palavra mgica que ocupa o pensamento calmo e severo do
homem de Estado, que faz vibrar a voz do professor, que eletriza o corao dos mancebos.
Mas sobretudo na poesia que se torna mais sensvel esta necessidade da manifestao
do esprito brasileiro.18

A defesa radical do nacionalismo levou-o a opor-se ao cosmopolitismo romntico


de cunho nacionalista de Suspiros poticos e saudades (1836), de Gonalves de Magalhes (1811-82), nem um pouco original, uma vez que, para ele, era preciso haver
originalidade nas formas nacionais, como se pode observar na leitura que fez de
Flores silvestres, de Bittencourt Sampaio:
Eu no sei, apesar da opinio respeitada do dr. J. Norberto, como se separar a originalidade da nacionalidade: porquanto ser nacional, isto , de seu sculo e pas, equivale a
ter feies prprias suas, um carter distinto e peculiar, uma fisionomia original; e no
nacional a literatura que no distingue um povo na comunho de outros povos. Sem
crenas, nem tradies, despida de cores locais, carecedora de cunho da imaginao
popular, a poesia cosmopolita pertence a todos pro indiviso, entra no domnio das ideias
gerais de que todos podemos apropriar-nos sem plagiato.19

Alm disso, Macedo Soares ops-se tambm ao cosmopolitismo de influncia


byroniana, na sua opinio, to bem interpretado por lvares de Azevedo (183118 MACEDO SOARES. Prefcio a Harmonias brasileiras. In: ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice. O bero

do cnone: textos fundadores da histria da literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998, p. 274.
19 Idem. Ensaios de anlise literria. In: CASTELLO, Jos Aderaldo. Textos que interessam histria do

romantismo, vol. ii. So Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1963, p. 90.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 257-270, 2013 265

-52), mas to mal compreendido e pior executado por aqueles que muito de perto
o seguiram.20
Por isso talvez ele tenha elegido tanto a americanidade expressa nos chamados poemas americanos de Gonalves Dias, quanto a universalidade da potica de lvares
de Azevedo como as principais vertentes da poesia brasileira de seu momento, numa
forma de combater o estrangeirismo dos poetas brasileiros contemporneos ao cnego Janurio da Cunha Barbosa (1780-1846):
Temos, de um lado, um lao de afinidade que liga a nossa literatura literatura dos outros
povos, e esse lao apertando-se tanto mais quanto avanamos na civilizao que bebemos
principalmente nos livros franceses, que nos iniciam nos mistrios da cincia. De outro
lado, o carter de nacionalidade que ela toma; o majestoso espetculo de nossa natureza
virgem no podia deixar de produzir esses belos cantos do Sr. Gonalves Dias que por
excelncia caracteriza esta face da nacionalidade pela qual deve ser considerada.21

Vale dizer, no entanto, que, mesmo reconhecendo em Gonalves Dias o caminho


mais adequado a ser trilhado, ao escrever sobre Sombras e sonhos, de Joo Alexandrino Teixeira de Melo, registrou a existncia, em Os Timbiras, de demasiada profuso
de cores, cruzam-se ornatos como as laarias de um templo gtico, sobre as quais
mal podem fixar-se por momentos os olhos do observador.22
Ainda neste texto, observa que o amor natureza de que falam os alemes tem sido
diversamente sentido no continente americano, e parte para um estudo comparativo
curiosssimo entre a representao do sentimento da natureza nas literaturas norte-americana e brasileira. Diz ele:
Procedem o brasileiro como o norte-americano, da mesma natureza, so ambos filhos
das selvas, extasiam-se ambos ante a majestade da vegetao do novo mundo; mas o
poeta do Norte acha no trabalho a filosofia prtica da vida, ao passo que ns buscamos
no repouso a felicidade mundana.23
20 Idem. Prefcio a Harmonias brasileiras. In: ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice. O bero do cnone:

textos fundadores da histria da literatura brasileira. Op. cit., p. 275.


21 Idem. Tipos literrios contemporneos. In: CASTELLO, Jos Aderaldo. Textos que interessam histria do

romantismo. Op. cit., p. 121.


22 Idem. Ensaios de anlise literria. In: CASTELLO, Jos Aderaldo. Textos que interessam histria do
romantismo. Op. cit., p. 84.
23 Idem, p. 83.

266 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

Isso me leva a registrar, em Macedo Soares, outras questes alm da existncia do


j citado instinto de americanidade, a presena de certo comparatismo difuso e
espontneo, expresso utilizada por Antonio Candido, para nomear uma espcie
de comparatismo presente na filigrana do trabalho crtico desde o tempo do romantismo, quando os brasileiros afirmaram que a sua literatura era diferente da de
Portugal.24
Vale ressaltar, porm, que Macedo Soares ultrapassa em alguns momentos o limite das aproximaes reconfortantes, comumente usadas pelos crticos brasileiros
que, segundo Candido,
[] pareciam sentir melhor a natureza e a qualidade dos textos locais quando podiam
referi-los a textos estrangeiros, como se a capacidade do brasileiro ficasse justificada pela
afinidade tranquilizadora com os autores europeus, participantes de literaturas antigas
e ilustres, que, alm de influrem na nossa, vinham deste modo dar-lhe um sentimento
confortante de parentesco.25

No caso de Macedo Soares, a aproximao era com os autores americanos, o que,


de alguma maneira, reveste o seu olhar naquele tipo de investida comparatista que
Tnia Franco Carvalhal, muito apropriadamente, nomeou de crtica de dupla mirada, ou seja, uma crtica que no se confina em limites traados apriorstica ou externamente ao literrio e que hesita em estabelecer nexos e ultrapassar o seu campo
primeiro de observao sempre que necessrio.26
Este conceito, entretanto, foi pensado em funo das relaes que se observam no
discurso da crtica brasileira nas suas articulaes com as literaturas latino-americanas:
Assim, de natureza impressionista com orientao sociolgica, seguindo padres de
poca, o olhar do historiador atravessa fronteiras geogrficas e polticas em um procedimento que poderamos considerar supranacional. Dessa atitude se depreende a inclinao comparatista do autor, pois os juzos de valor que emite se amparam nos confrontos
e na identificao de contrastes. claro que se trata ainda de um comparatismo espontneo e assistemtico. No entanto, essa atuao crtico-historiogrfica evoca uma questo
24 CANDIDO, Antonio. Recortes. So Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 211.
25 Idem.
26 PALERMO, Zulma (Coord.). El discurso crtico em Amrica Latina ii. Buenos Aires: Corregidor, 1999, p. 124.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 257-270, 2013 267

hoje substantiva: a da necessidade de pensarmos a literatura brasileira na sua articulao


com as demais literaturas latino-americanas ou, pelo menos, no conjunto das regies
contguas, no caso, a que se convencionou chamar de Cone Sul.27

Revendo e ampliando este conceito, no sentido de faz-lo abranger as relaes da


crtica brasileira nas suas articulaes com as literaturas do continente americano,
considero a investida comparatista de Macedo Soares como sendo j um interessante exerccio de crtica de dupla mirada, na medida em que seu texto abre brechas
para essas possibilidades:
Fenimore Cooper e Longfellow descrevem a natureza como uma fonte de beleza espiritual, como um objeto digno de venerao; descrevem-na os nossos poetas como uma
fonte de prazeres de outra ordem, desses que nos d o sossego do esprito em descuidado
vagar. Mais analistas, os poetas norte-americanos estudam e compreendem melhor o
corao humano; h mais filosofia em suas poesias, mais elevao na ideia, mais vida,
porm dessa vida calma e tranquila a que acostumam os hbitos do trabalho. Ns nos
deixamos ficar pela rama; poetizamos com mais fogo, mais sentimentalismo, mais brilhante a nossa imaginao, mas tudo exterior, quase tudo convencional.28

Ao traar a diferena entre a representao da natureza pelos artistas norte-americanos e brasileiros, Macedo Soares acaba fixando de maneira primorosa a diferena
entre o carter nacional destas duas literaturas:
Nos Estados Unidos, a autonomia do pensamento individual deve necessariamente prestar mais fora e vigor forma lrica do ideal potico; no Brasil, h um certo pantesmo,
tanto recebemos a vida da ao do poder que no nos resta a autonomia da individualidade; aqui, a epopeia deve ser a forma esttica do esprito nacional: tudo quanto for a
saga, o epos, a narrao onde se assimilam os autores aos atores, subordinados ambos
fatalidade dos sucessos, h de condizer com os nossos hbitos sociais.29

27 Idem, p. 123.
28 MACEDO SOARES. Ensaios de anlise literria. In: CASTELLO, Jos Aderaldo. Textos que interessam histria

do romantismo. Op. cit., p. 83.


29 Idem, p. 83-4.

268 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

Desta diferena decorre a existncia de sobriedade de imagens, menos descries e


mais elevao de ideias na poesia norte-americana, ao contrrio do que infelizmente
acontece na poesia brasileira. Para Macedo Soares, o defeito capital dos nossos poetas estava na maneira errada por que tem sido compreendido o nacionalismo na
arte. Tem-se feito deste carter de toda a verdadeira poesia um sistema, quando no
devia ser seno uma condio local, necessria embora, de sua projeo no espao
e no tempo.30
Ainda referente nacionalidade literria, Macedo Soares surpreende quando trata
da dificuldade da poesia nacional como expresso da realidade, registrando, com
muita pertinncia:
[] querem uns a realidade nua, tal qual existe sada das mos do Criador ou formada
pelos homens. Pretendem outros que a poesia deve modificar a realidade, corrigindo-a,
engrandecendo-a, moldando-a no palheiro do prosasmo, exaltando-a, enfim, altura
do ideal. Esta opinio parece-me mais acertada, mais conforme com a natureza da poesia, que no deve limitar-se cpia da natureza, mas sim sua interpretao, na vitalidade do esprito que a anima.31

Convm assinalar que isto foi dito em 1860, significando, portanto, que ele antecipou
algumas ideias cujo mrito a histria literria costuma atribuir a Machado de Assis,
que, na verdade, s veio a opinar sobre o assunto em ensaios que datam do final da
dcada de 1870, em pleno momento realista.
Neste sentido, vale acrescentar que h outros momentos em que os textos de Macedo
Soares remetem ao bruxo do Cosme Velho. Digo isto pensando principalmente em
Da crtica brasileira, publicado em 1860, na Revista Popular, no qual se percebe o
germe de algumas ideias brilhantemente eternizadas em O ideal do crtico, publicado em 1865, no Dirio do Rio de Janeiro.
O centro de ateno de Macedo Soares no texto Da crtica brasileira o ensaio crtico praticado nos principais peridicos do pas, segundo ele, constitudo por estudos
e opinies apressadas com o objetivo de responder demanda jornalstica da poca.32

30 Idem, p. 84.
31 Idem, p. 96.
32 BAUMGARTEN, Carlos Alexandre. A crtica literria no Rio Grande do Sul: do romantismo ao modernismo.

Porto Alegre: iel/edipucrs, 1997, p. 401.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 257-270, 2013 269

Para Macedo Soares, a crtica estudiosa e imparcial, que consagra e lustra quando
no retifica o juzo do pblico, jaz ainda no limbo.33
Alm disso, aconselha aos que escrevem ou pretendem escrever no Brasil:
Formem um centro literrio que no seja simplesmente histrico e geogrfico, os literatos reconhecidos pelo pas: convoquem as vocaes, e deem-lhes que fazer: instituam
uma revista literria sob uma direo inteligente e severa: estabeleam um sistema de
crtica imparcial e fortalecido com slidos estudos da lngua e da histria nacionais, porque a reflexo e a anlise ho de sempre acompanhar pari passu as manifestaes divinas
e espontneas da inspirao. Sem o trabalho contnuo e regular, sem esta lei elementar
das criaes duradouras jamais conseguir-se- uma literatura rica, poderosa e digna de
ser contada entre os grandes focos da ilustrao humana.34

Em sua trajetria relativamente curta como crtico literrio, Macedo Soares levantou
e tratou, de forma bastante original, aspectos interessantes, referentes ainda incipiente teoria literria brasileira; optei, no entanto, por pinar apenas alguns ndices
referentes americanidade e nacionalidade da literatura brasileira, ndices da crtica de dupla mirada do comparatista espontneo cujas ideias precisam ser recuperadas e recolocadas em circulao.

Luiz Roberto Cairo professor de Literatura Brasileira e Literatura Comparada no Curso de


Graduao e no Programa de Ps-Graduao em Letras da Unesp-Assis. Autor de O salto por
cima da prpria sombra: o discurso crtico de Araripe Jnior uma leitura (Annablume, 1996) e
de ensaios e artigos de crtica e histria literria publicados em coletneas e peridicos nacionais
e estrangeiros.

33 COUTINHO, Afrnio (Org.). Caminhos do pensamento crtico, vol.1. Rio de Janeiro: Pallas, 1980, p. 276.
34 Idem, p. 279-80.

270 cairo, Luiz Roberto. Sobre o instinto de americanidade da crtica literria

Da ao folhetinesca cena intimista:


um conto romntico de Casimiro de
Abreu
Maria Ceclia Boechat

Resumo: Anlise do conto Camila Memrias duma viagem, de Casimiro de Abreu,


visando a demonstrar que um procedimento fundamental do texto a conduo das aes
da narrativa para o mbito ntimo da personagem estabelece um distanciamento crtico
em relao aos modelos folhetinescos, com os quais a prosa romntica brasileira tem sido
recorrentemente confundida. Palavras-chave: conto brasileiro, folhetim, prosa romntica.
Abstract: This paper aims at analysing the short story named Camila Memrias duma
viagem (Camille Trip Memories), by Casimiro de Abreu, in order to demonstrate that its
basic narrative procedure a textual strategie focused on the characters inner self-establishes
a critical difference between Abreus approach to literature and the standard newspaper serial,
which the Brazilian prose from the Romanticism has usually been compared to. Keywords:
Brazilian short story, newspaper serial, romantic prose.

Do ainda hoje afamado poeta Casimiro de Abreu, no causaria espcie dizer ser mau
poeta: avaliao unnime entre historiadores e crticos do romantismo brasileiro.
Nisso, porm, no se distinguiria de muitos de seus pares, cujas obras se mantm no
cnone literrio brasileiro mais por motivos histricos do que propriamente esttico-literrios.1 Afinal, de modo geral (e generalizante), todo o nosso romantismo tido,
por princpio, como formalmente malcuidado, porque tributrio das influncias
francesas, supostamente resultantes, por sua vez, de uma concepo j deturpada
das fontes alems. Assim, como poeta, Casimiro de Abreu seria um representante,
dentre outros, de um romantismo tardio, tendente antes ao excesso emotivo que
reflexo crtica, ingnuo, e no sentimental, nos termos definidos por Schiller.2
Como prosador, o escritor teria destino ainda mais rigoroso, sendo hoje praticamente
desconhecido. Provavelmente, somente estudiosos interessados na histria da prosa
ficcional brasileira tm conhecimento de sua produo nesse campo. A explicao,
por um lado, pode estar na prpria exiguidade da produo: nas Obras de Casimiro
de Abreu, organizadas por Sousa da Silveira (1955),3 temos acesso a trs narrativas A
virgem loura (Pginas do Corao), Camila Memrias duma viagem e Carolina
, das quais apenas uma, Camila, foi selecionada para a antologia do conto romntico brasileiro organizada por Edgard Cavalheiro e editada por Mrio da Silva Brito
(1960).4 Por outro lado, trata-se, de fato, de um conjunto, alm de pequeno, irregular,
ou, para tudo dizer, dificilmente qualificvel segundo o gosto literrio contemporneo. De todo modo, por uma razo ou outra, ou, ainda, pelo prprio desprestgio que
o conto romntico conquistou junto historiografia e crtica literria brasileiras,
a fortuna crtica desse conjunto tambm parca. Sousa da Silveira, sem desmentir a
fama do poeta, considera sua prosa natural, fluente e leve, correspondente ao estilo
do poeta, suave, espontneo, simples, conciso, claro. s qualidades gerais da prosa
1 Este ensaio resultado parcial de pesquisa de ps-doutorado realizada junto unesp em 2009.
2 Schiller distingue a arte ingnua, ou emotiva e espontnea, da arte sentimental, j propriamente

romntica e moderna, marcada pela atividade reflexionante. Cf. SCHILLER. Poesia ingnua e sentimental.
So Paulo: Iluminuras, 1991.
3 SOUSA DA SILVEIRA (Org.). Obras de Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro: Ministrio da Educao e Cultura,
1955. Essa a edio que se tomou como referncia para as citaes posteriores, que sero indicadas no
corpo do texto com o nmero da pgina entre parnteses.
4 CAVALHEIRO, Edgard (Sel.). O conto romntico. Introd. e notas Mrio da Silva Brito. Rio de Janeiro: Civilizao
Brasileira, 1961. (Panorama do conto brasileiro 2). Ressalte-se o acerto da seleo de Edgard Cavalheiro,
que soube iar, do pequeno conjunto, justamente a exceo, tanto no que diz respeito s qualidades
intrnsecas ao texto, quanto a sua adequao ao gnero narrativo a que se dedica a coletnea.

272 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

de Casimiro de Abreu, Sousa da Silveira acresce, a respeito de Camila, certa faccia,5 efeito causado por um procedimento narrativo claramente indicado pelo crtico:
Comeando a desenrolar-se o entrecho, momento em que a curiosidade se nos agua,
interessada da continuao da narrativa, cessa o escrito, que ficou inacabado; e a sensao de pena [,] que ento nos invade, documento cabal das qualidades de imaginao
de Casimiro na criao de cenas e situaes, e da sua habilidade no exp-las e encade-las, prendendo a ateno do leitor. Fica-se com a convico de que, com o poeta, perdemos igualmente um excelente prosador.6

Apesar do comentrio, no todo, desfavorvel, encontramos aqui no poucas sugestes valiosas para nossa releitura desse conto. Porque, de fato, uma das qualidades
da narrativa est no modo natural, fluente, com que se mostra j distanciada dos
excessos que marcam a primeira prosa curta ficcional brasileira (e sempre tributados
ao pretenso excesso sentimentalista de nossos prosadores romnticos): excessos de
adjetivao e de expanses derramadas que compem o tom melodramtico dessa
produo inicial e que tanto desagradam aos leitores atuais. E que, ademais, explicariam a pobreza de nossas primeiras manifestaes na forma concisa do conto.7
A essa naturalidade cai bem, sem dvida, o laivo jocoso, de faccia, como o definiu
Sousa da Silveira, e esta outra sugesto importante: h de se estar a certa distncia
dos modelos melodramticos folhetinescos que grassavam nos jornais oitocentistas,
desde a dcada de 1830 tambm no Brasil, para se poder fazer graa, ou seja, para
se tomar certo distanciamento crtico em relao a esses modelos com os quais a
prosa romntica de Camila no deveria ser confundida.
A parte mais espinhosa da crtica de Sousa da Silveira tem, ainda, a qualidade, como
j ressaltado, de indicar com muita clareza o motivo do desagrado, e motivo propria5 Meio-termo entre a graa e a zombaria, define o Dicionrio Aurlio.
6 SOUSA DA SILVEIRA. Casimiro de Abreu: escoro biogrfico. In: ABREU (Org.). Obras de Casimiro de Abreu,

cit., p. xxxiii. As citaes do pargrafo anterior foram retiradas da mesma pgina.


7 Algumas expresses utilizadas nesse trecho foram tomadas a Mrio da Silva Brito, que assim discorre

sobre os vcios da escola romntica brasileira, a seu ver, em tudo problemticas para a forma do conto:
So exatamente esses vcios que impedem o florescimento de uma forma narrativa que repudia
a prolixidade, a eloquncia, o excesso de imaginao, a fantasia, o sentimentalismo, as expanses
derramadas, a exuberncia de emoes e de linguagem. Tristo de Atade v, nessa situao, o modo de
explicar a extrema pobreza do conto romntico. essa tambm a opinio de Edgard Cavalheiro. BRITO.
Nota introdutria. In: CAVALHEIRO, Edgard (Sel.). O conto romntico, cit., p. 2-3.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 273

mente literrio: a seu ver, a finalizao da narrativa seria falha por deixar a narrativa
em suspenso, aparentemente sem soluo. Entretanto, conveniente atentar, antes,
para a perfeita unidade da estrutura narrativa, que faz duvidar da hiptese de que
o autor tenha simplesmente abandonado a escrita ou a publicao do restante do
texto, deixando-o inacabado. A retomada dos movimentos mais amplos do conto e
de algumas de suas passagens tentar esclarecer o que a vai dito.
Dividida em trs captulos, a narrativa precedida por um prlogo do autor-narrador que se constitui de reflexes irnicas sobre o gnero romanesco:8
Decididamente estamos na poca dos romances. Est provado que no se pode passar
sem eles; todos so necessrios, porque todos so teis. Uns deleitam pela suavidade do
estilo; outros so excelentes narcticos.
Este pertence aos ltimos, e se eu no estivesse convencido de quanta utilidade pode ter
ele a um desgraado que no durma h trs dias, de certo no o escreveria.
verdade que eu incomodo horrivelmente os pacficos cidados acostumados s belezas
de Musset ou de Vigny, de Balzac ou Dumas, mas tenham pacincia: preciso provar
de tudo. Unicamente para no se assustarem dir-lhes-ei que so apenas cinco ou seis
captulos.
Dado esse cavaco, que fica servindo de prlogo, eu principio. (p. 415)

Esse prlogo j foi devidamente comentado por Karin Volobuef como um exemplo,
na literatura brasileira, da presena e atuao do esprito da ironia romntica, no
sentido dos pensadores alemes. Como argumenta:
A passagem [] destituda de qualquer inteno no sentido de provar a veracidade da
histria ou de envolver emocionalmente o leitor. Em tom irnico, talvez at um pouco
cnico, o narrador ridiculariza sua produo ao equipar-la a um bom sonfero []. O
efeito de estranheza a provocado tanto mais acentuado na medida em que tal afirma-

8 A indistino entre as formas narrativas ficcionais conto, novela e romance marca quase todo o sculo

xix, situao que parece mudar apenas em torno dos anos 1880. Por essa razo, continuaremos usando
o termo captulo para nos referir a suas partes, muito embora a narrativa se configure, nos termos atuais,
como um conto.

274 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

o se segue a palavras de louvor ao romance, em especial frase Uns deleitam pela


suavidade de estilo, que expressa exatamente o oposto do que se pratica em seguida.
Alm de no ser complacente com sua criao, o autor no resiste tentao de zombar
de seus leitores []. Por fim, no se poderia deixar de detectar aqui ainda um escrnio
para com os grandes mestres da literatura francesa da poca cujos nomes usualmente
deviam ser acompanhados por exclamaes reverentes? Nosso Casimiro de Abreu desafia crticos e leitores, dolos e idlatras; sua audcia, no entanto, perde o flego ao chegar
ao conto em si, mais uma histria de rapaz rendido aos seus amores.9

Para dar um passo alm do que avanado por Volobuef e estender sua anlise do
prlogo narrativa como um todo, cabe ressaltar que Camila apresenta certas
peculiaridades (talvez) inovadoras no vasto campo de publicao desse tipo de histria em seu tempo. Se considerarmos a tradio das narrativas ficcionais intensamente publicadas em jornais e revistas do sculo xix desde a dcada de 1830, h de
se reconhecer que o conto de Casimiro de Abreu se destaca justamente pelo comedimento no tratamento da trama amorosa comedimento, repetimos, adequado ao
estilo natural e fluente detectado por Sousa da Silveira, e ressaltado, com razo,
tambm por Volobuef. Estamos longe, aqui, dos grandes dramas, do transbordamento de lamrias, lgrimas, alegrias, arrependimentos, perdes que caracterizam,
como observa Antonio Candido, uma das tendncias iniciais da literatura brasileira,
por ele denominada sentimental.10
Chama a ateno, de fato, como, diferentemente do que ocorre nessa vertente, pouca
coisa acontece na histria. Note-se como o que seria o motivo de conflito no enredo desfeito to logo a situao armada. Quando nosso personagem, Casimiro,11
9 VOLOBUEF, Karin. Frestas e arestas. A prosa de fico do romantismo na Alemanha e no Brasil. So

Paulo: Fundao Editora da unesp, 1999, p. 271-2. Cabe ressaltar, na mesma linha de leitura do prlogo
proposta por Volobuef, a ironia no modo como so prometidos mais captulos do que os que de fato so
apresentados: Unicamente para no se assustarem, afirma o narrador, dir-lhes-ei que so apenas cinco ou
seis captulos. (Grifo nosso.)
10 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira, vol. 2. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, p. 124. Cabe atentar para
a diferena no uso do termo sentimental, em oposio ao estabelecido por Schiller. Ver nota 2 deste ensaio.
11 Certamente motivado pela coincidncia do nome da personagem com o do autor, Mrio da Silva Brito
afirma, a respeito de Camila, tratar-se de histria de sabor autobiogrfico. BRITO, Mrio da Silva. Casimiro
Jos Marques de Abreu. In: CAVALHEIRO, Edgard (Sel.). O conto romntico, cit., p. 45. Bigrafo do escritor,
Sousa da Silveira, todavia, abstm-se de qualquer comentrio nesse sentido.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 275

convidado a ser padrinho de casamento de seu amigo Ernesto, e desconfiando tratar-se da mesma moa por quem se encontrava apaixonado, procura inteirar-se da
situao, perguntando-lhe, em tom trivial, se a ama, a resposta de Ernesto fria e
calculista:
Ora, filho, tornou-me Ernesto, deves saber que palavra que no h no meu dicionrio. Ela casa-se comigo por capricho, por fantasia; e eu cedo a essa fantasia, a esse capricho, porque ambiciono ser rico, porque casando-me venho a ser possuidor da fortuna
colossal de Camila. (p. 424-5)

Nenhum problema, portanto, quando, em outro dilogo, aps se certificar de tratar-se da mesma moa, a personagem revela ao amigo a difcil situao em que se
encontram. O transbordamento sentimentalista evidente no modo que a personagem descreve os motivos de sua paixo, mas a ponta melodramtica (e, principalmente, a ponta do conflito dramtico) de antemo desativada pela reao
amistosa do noivo:
Ora, Ernesto, se tu amasses uma mulher de certo no irias assistir ao seu casamento
com outro.
Ernesto levantou-se e travou-me da mo.
Amas Camila?! Perguntou-me ele.
Amo-a sim.
E ela?
No sei; ou para melhor dizer: nem me conhece, porque lhe falei unicamente uma vez.
Oh! Oh! Fez Ernesto estalando um fsforo e mordendo com todo o vagar o charuto de
um pataco, temos paixo romntica? Estou com vontade de saber essa histria.
Pois eu ta conto. simples como o so todas as histrias de amor. Camila esteve em
Lisboa, vi-a como todo o mundo a viu; mas o que ningum fez, fiz eu: amei. Cruzei um
segundo os meus olhos com os dela, e aquele olhar terno e lnguido fez-me mal. Desde
a primeira vez que a vi pensei s nela, segui-a por toda a parte porque tinha necessidade
de a ver, era um m que me atraa.
Escuta, Ernesto, era uma paixo louca, uma efervescncia dos sentidos, um desvario da
razo. Teria dado metade da minha vida por um beijo daquela mulher; teria at dado a
minha alma para rolar-me como um sibarita no div em que ela tivesse estado reclinada,
para respirar os perfumes inebriantes que a cercavam. (p. 426)

276 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

O dilogo continua, com a personagem contando sobre esse nico, mas definitivo
encontro. Ao final do que constitui j um monlogo, a fala da personagem e sua
exaltao so interrompidas pela chegada de uma carruagem, em cena que finaliza
o terceiro captulo (e a narrativa):
Mal tinha acabado essas palavras, quando uma carruagem parou porta do Hotel.
Vem a propsito, disse Ernesto depois de ter chegado janela.
O qu? A carruagem?
Sim, o trem de Camila que vem buscar-me.
Deixas-me j?
Pelo contrrio, levo-te comigo.
Ests doido!
O qu! Pois recusa-me a acompanhar-te?
A casa dela, recuso-me.
Mas que no vamos agora l.
Ento acompanho-te.
Descemos a escada, e dois minutos depois rodava a carruagem ao largo trote de dois
magnficos cavalos. (p. 428)

O contraponto entre uma personagem ctica e outra idealista e idealizada recorrente na tradio romntica, funcionando muitas vezes como o contraste entre o
claro e o escuro, dele saindo enaltecido o amor idealizado, em vista da baixeza dos
amores prticos, de interesses, ou de apelos sensuais. Como, entretanto, no h continuidade do entrecho nada sabemos sobre o rumo da carruagem e dos amores,
uma vez que a narrativa termina aqui , no deixa de ser engraado ver o drama
de Casimiro pelos olhos de Ernesto, o noivo que se no trado, ao menos ameaado em seus interesses neutraliza a tenso, no chegando a se exaltar, sequer a
interessar-se pela confidncia do amigo, mas, ao contrrio, mostrando-se entediado
com seus arroubos. Ademais, o trmino da cena e da narrativa , com a chegada da
carruagem, vem mesmo a propsito: evita, claramente, que a narrativa incorra nos
excessos do modelo sentimentalista ento em voga, funcionando como conteno
do sentimentalismo da personagem e desvio de rota.
Cabe ainda atentar para o outro tema subvertido pela narrativa, tema tradicional de
aventuras e perigos, de grandes naufrgios como tambm de imensides e arroubos
sentimentais o tema da viagem (no caso, martima) anunciado desde o subttulo.
Comparecendo no subttulo, fica indicada a relativa importncia do tema, que se

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 277

encontra subordinado ao entrecho amoroso. Entretanto, o entrecho amoroso s existe porque, no primeiro captulo, durante uma noite chuvosa, Casimiro relembra seu
antigo sonho de conhecer a cidade do Porto, o que explica que esteja embarcando,
no captulo 2, no vapor que leva cidade. No desembarque que acontece a coincidncia do encontro com o amigo Ernesto, e em torno desse encontro fortuito que
se desenvolve a trama de um quase tringulo amoroso.
Fundamental para criar as condies do encontro das personagens, a viagem, em
si, pouco significativa, porque, nela, novamente, e em coerncia com o aspecto
pouco dinmico da narrativa como um todo, quase nada acontece, a no ser um
dilogo superficial e indesejvel (uma maada, arremata o narrador) com um dos
raros passageiros que no se recolheram a seus beliches, vitimados que foram todos
pelos males martimos, assim descritos, no sem ironia, pelo narrador-personagem:
Gosto muito de estar embarcado: satisfaz-me o contemplar o oceano em toda a sua vastido e isolamento; acho poesia imensa no cu profundo duma noite de maio, quando
as estrelas espalham seus reflexos trmulos sobre as guas agitadas: -me grato ao ouvido o canto montono dos marujos repassado de saudade mas todas as vezes que me
embarco enjoo.
Ora, no sei se sabem, o enjoo a molstia mais estpida do mundo; torna o homem
num estado quase bruto, enfraquece ao mesmo tempo o corpo e o esprito. (p. 419-20.)

Logo ele tambm estar recolhido a seu beliche, rendido ao enfraquecimento do


corpo (sem nada fazer) e do esprito (sem nada pensar), para s se levantar para o
desembarque. O segundo captulo, enfraquecido pela ausncia das duas foras romanescas a das aes e conflitos, por um lado, e a da introspeco, por outro s pode,
ento, ser breve; contar das impresses da personagem ante a vista da cidade que se
aproxima e sobre o desembarque, o encontro inesperado com o amigo, a instalao
no guia de Oiro, onde, tambm por coincidncia, Ernesto est hospedado.
Desse modo, como anunciado no prlogo, a narrativa frustra as expectativas, seja
de fortes emoes sentimentais, seja de grandes aventuras, agindo, em suma, como
bom sonfero. Em dose nica, a narrativa rompe com duas frmulas vigentes a seu
tempo. Por um lado, a chegada da carruagem anula a tendncia melodramtica da
personagem; por outro, no momento mesmo em que a narrativa poderia desenvolver-se em uma sucesso de aventuras, retomando a frmula folhetinesca do acmulo
de peripcias, ela interrompida. Nessa perspectiva, o conto de Casimiro de Abreu

278 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

pouco nos oferece das complicaes e peripcias desse tipo de narrativa, em que
tudo espao, tempo, personagens se dobra aos acontecimentos em sua vertiginosa
sucesso e arbitrariedade.
O comentrio de Antonio Candido a Amncia, de Gonalves de Magalhes (conto
publicado uma dcada antes, em 1844), por ele considerado a caricatura da vertente
sentimental, pode ser esclarecedor a respeito dos traos definidores do gnero que
podemos denominar folhetinesco:
Em suma, os personagens inexistem separados do acontecimento, que os dirige de
fora, imposto pelo ficcionista com uma inabilidade que mata a verossimilhana. Sobra
apenas o transbordamento de lamrias, lgrimas, alegrias, arrependimentos, perdes,
convergindo para solues perfeitamente adequadas moral reinante. Sob esse aspecto,
Amncia traz uma frmula muito usada []: o amor uma srie de complicaes que
pe os amantes prova, a fim de melhor recompens-los, ilustrando sempre o triunfo
da virtude.12

Nesse tipo de texto, portanto, a pouca complexidade das personagens, em seus


excessos sentimentalistas, melodramticos, pouco verossmeis segundo a psicologia moderna, est articulada com o excesso de peripcias que move a narrativa. As
complicaes, sentimentais ou no, mostram o domnio da ao sobre a personagem,
procedimento que define o gnero folhetinesco e que, por sua vez, impe o sentimentalismo exaltado e o apsicologismo das personagens.
Se, ento, o conto Camila pode ser lido como uma histria de um rapaz apaixonado, como realmente pode e deve ser lido, trata-se sem dvida de uma histria
peculiar, se confrontada com os modelos atualizados por nossa primeira prosa de
fico, perodo que, segundo nossa tradio crtica e historiogrfica, se estenderia,
com uma ou outra exceo, at o advento da prosa madura de Machado de Assis
(com Memrias pstumas de Brs Cubas). Peculiar, de fato, tanto no que apresenta
de comedimento no trato das expanses emotivas da personagem, quanto na reteno da potencialidade de ao do enredo, e no menos no inusitado do triunfo da
virtude, no do amor e da boa moral literria, mas dos sonferos e da categoria mais
geral dos narcticos.
Da, ser prudente atentar para o que anuncia o prlogo e, principalmente, para o
primeiro captulo, de configurao quase esttica. Trata-se, nesse sentido, de um
12 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira, cit., vol. 2, p. 125.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 279

captulo aparentemente e s aparentemente pouco relevante para a compreenso


das linhas gerais do enredo. Enfim, se j surpreende a inatividade da personagem
principal nos captulos 2 e 3, em que se desenvolve o enredo da narrativa, no primeiro13 ela ainda mais radical. O que temos nele a apresentao de um rapaz recolhido
ao quarto em uma noite tempestuosa, fria, aborrecida, e que, por volta das onze
horas, interrompe seus estudos, encosta a cabea a uma das mos e pensa. A cismar,
sozinho, entediado e melanclico, ele pensa em tudo o que ama e que est longe de
seu quarto em Lisboa: no Brasil, na me, na infncia. Os movimentos dessa parte
so lentos, lnguidos, em tudo opostos tempestade que agita o ambiente externo,
como a pedir mistrios e perigosas aventuras.
Saindo da primeira posio, em movimento que podemos imaginar curto e nada
brusco, nossa personagem abre maquinalmente, como que sob o efeito da saudade,
a pasta onde guarda seus manuscritos aqui uma copla apaixonada, ali as primeiras
cenas de uma comdia, mais adiante o esboo de um romance, em suma, as primeiras criaes defeituosas de um jovem de imaginao ardente. A monotonia dessas
sorumbticas reflexes s rompida na terceira pgina (na edio das Obras)
por um acontecimento: De repente entre os meus papis deparei com um nmero
j antigo do Brs Tisana.14 Acontecimento pouco significativo, parece, no sendo
exatamente inesperado, ou surpreendente, encontrar-se, em meio aos manuscritos
de um poeta e prosador, na pasta que ele diz ser um bazar em miniatura, uma verdadeira Torre de Babel de confuso, o nmero antigo de uma revista. Claramente, o
carter inusitado da situao, que explica o uso da expresso adverbial de repente,
no reside no encontro em si da revista, mas no tipo de histrias nela publicadas,
estas sim capazes de devolver certa vivacidade ao rapaz. Sorri-me, como qualquer
um teria feito, anota o narrador: Era a jovialidade que vinha me visitar, era o estilo
estouvado, cheio de esprito e malcia do chistoso companheiro da Gertrudes que
vinha arrancar-me das sorumbticas reflexes em que eu estava atolado.
Como se percebe, o estado de esprito da personagem sofre alguma modificao, e
ela se completa nos pargrafos seguintes. Aps voltar a folhear a pasta, novamente
exclama o narrador-personagem: Cousa estranha! Dou com outro nmero do Brs
Tisana!. Desta vez, trata-se do comeo de um lindo captulo do romance de Arnal13 O primeiro captulo se desenrola entre as pginas 415 e 419, nas quais se encontram os trechos citados a

seguir.
14 Segundo informaes de Sousa da Silveira, Brs Tisana uma revista que se publicou no Porto, de 1851 a

1863. In: Obras de Casimiro de Abreu, cit., p. 428.

280 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

do Gama O gnio do mal. Bem mais animado, um tanto esquecido de saudades e


melancolias, confessa:
Li o folhetim com avidez e daria tudo para ler a continuao. Desde que esse romance
se comeou a publicar no Brs Tisana, segui-o sempre com o vivo interesse que sabe
despertar o seu talentoso autor, e ora pensando no corpo airoso e flexvel de Maria a
namorada de Filipe, ora sonhando com essa Matilde endiabrada, ardente e caprichosa,
comecei a sentir uma vontade extraordinria de ver a cidade do Porto, onde se desenrolam as cenas desse drama imenso.

Nesse ponto, a narrativa sofre uma inflexo, desenvolvendo uma oposio interna:
a ambientao, a ao, a posio da personagem, que se debrua sobre si mesma,
seus pensamentos sorumbticos, tudo promove o movimento de introverso, com
que o narrador desenha uma cena intimista, mas muda a disposio da personagem
que, primeiro entediada, depois melanclica, percebe-se, enfim, numa disposio
inversa, animada pela imaginao e pela fantasia, predisposta, em outros termos,
extroverso: Ora, j veem que a leitura do folhetim tinha mudado completamente
o curso de minhas ideias, no deixa dvidas o narrador, que completa: Comecei
a fantasiar o Porto. Trata-se da preparao para o segundo captulo da narrativa,
em que o enredo passa a justificar o subttulo do conto Memrias duma viagem.
Muda a disposio da personagem, mas no muda, ainda, o ritmo das aes. O restante do primeiro captulo consiste na exposio dos devaneios causados pela leitura
do romance. Primeiro, a descrio imaginria da cidade vista do Douro, depois, o
passeio por suas ruas e, enfim, a instalao da personagem na guia de Oiro. Se h
ao, a ponto de o rapaz sentir o cansao com que chegaria hospedaria, ela est
apenas na imaginao, pois que na cena real (no plano da fico, sempre bom
lembrar) ele continua com a pasta nas mos, na mesma posio e inatividade corporal em que o encontramos de incio.
Logo o relgio dar as onze horas e meia, e ele se encaminhar para o leito. No sem
antes, entusiasmado com sua fantasia, pensar ainda: E o vapor saa no dia seguinte! E
se eu fosse de passagem nele, [] Como eu diria []: salve, Porto! Realizou-se enfim
o meu sonho porque te vejo ainda melhor do que te fantasiara!. Antes de cair em um
pesado sono, com disposio inversa ao tdio inicial que avaliar: Como belo
estar na cama bem agasalhado numa noite de chuva! Dorme-se como um regalo!.
A passagem entre os captulos brusca: Era uma bela manh. O rio estava formoso,
o sol brilhava vvido, e o Duque do Porto, coroado por um penacho de fumo, pronto

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 281

a sair, balanava-se nas guas do Tejo. Eu tambm ia para o Porto, anuncia o narrador-personagem, na abertura do captulo 2.
Ora, sabendo-se que o ltimo devaneio da personagem havia sido o de tomar o navio
que partia para a cidade na manh seguinte noite chuvosa do primeiro captulo,
verossmil que o encontremos, aqui, nele embarcado. verossmil at que, chegando l,
se hospede no mesmo devaneado guia de Oiro, muito embora o narrador se veja, para
que tomemos o evento como tal como acontecido no plano da realidade ficcional ,
premido a argumentar pela factualidade do episdio, afirmando: rara a hospedaria de
romance que no se chame guia de Oiro, Leo de Oiro, Urso Branco, Urso Vermelho,
ou outra coisa semelhante; no entanto afirmo que aquela em que me instalei no inveno minha porque l existe com efeito no Porto a hospedaria da guia de Oiro (p. 419).
Outra ser a leitura, porm, se atentarmos para a srie de coincidncias entre a
narrativa de Camila e o enredo do romance lido por nosso rapaz, que contm
e enuncia elementos importantes: o romance traz, como se informa, cenas de um
drama imenso passado justamente na cidade do Porto, seguido por Casimiro
com vivo interesse, exatamente porque interessado em uma histria de amor em
tringulo, envolvendo certa Maria a namorada de Filipe. Atente-se, ademais, que,
nas reflexes sorumbticas da personagem, incluem-se as saudades da ptria, da me
e das iluses de glria literria da mocidade, mas nada sugere a dor de algum amor
perdido. Esta uma sugesto evidentemente ligada ao romance lido, bem como o
a lembrana do acalentado desejo de conhecer a cidade do Porto, lembrana que o
lana aos devaneios de uma viagem cidade.
Os finais dos captulos 1 e 3 so ainda muito significativos quando confrontados em
detalhe. Naquele, sonolenta, j deitada, a personagem ainda tem tempo, antes de adormecer, para observar: A chuva continuava a cair, alguns relmpagos de vez em quando
alumiavam o espao, e um silncio imenso s quebrado pela queda da gua, envolvia
o meu quarto. As ltimas sensaes da personagem so, portanto, sonoras, e elas
consistem no motivo de seu derradeiro pensamento, com o qual se fecha o captulo:
Foi por isso que no conversei muito tempo com o travesseiro. Dous minutos depois,
se no estava morto, tambm no dava sinais de vida. Podia chover, trovejar, tocarem
msica ou danarem, para mim era o mesmo. Dormia a bom dormir! (Grifo nosso.)

Releia-se o fecho da narrativa: Descemos a escada, e dois minutos depois rodava


a carruagem ao largo trote de dois magnficos cavalos. Encerra-se assim a terceira parte e, alm da coincidncia da marcao temporal, que indicara, no primeiro

282 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

captulo, a passagem de estado consciente para o onrico, a ltima referncia da narrativa tambm a uma sensao sonora. O fecho circular perfeito: ainda ecoando,
o som do trote dos cavalos recupera a imagem inicial, geradora de toda a narrativa
e desenhada no primeiro captulo, de um rapaz que dorme ao som tamborilante e encadeado da chuva. Ento, no seria inverossmil (nos termos de coerncia
interna), e elementos da narrativa trabalham para isso, interpretar os captulos que
se seguem no como o relato interrompido das aventuras vividas pelo narrador,
mas, antes, como a reelaborao, at o ponto que lhe possvel recuperar, do que
ele sonhara naquela noite de tdio melanclico. Visto assim, o conto Camila conta
outra histria: a de um rapaz que, mais exatamente, dorme e sonha, rendido aos
efeitos da leitura de um romance. A narrativa, dessa forma, transforma em cena o
que teoria (cheia de faccia, certamente) no prlogo, que como que atuado, em
termo livremente psicanaltico, ou figurado por meio de procedimentos literrios. A
situao em que a narrativa coloca o receptor do texto, por sua vez, parece confirmar
a estrutura por encaixe e, tal como a personagem, ele pode pensar que tambm daria
tudo para ler a continuao do folhetim, que lhe deixada, como se pode perceber
agora, intencionalmente em aberto.
Nesta perspectiva, revela-se a unidade muito bem traada da narrativa, que responde
aos preceitos da forma do conto moderno. E o que vamos como dois grandes movimentos da narrativa um, lento, introspectivo, contido no espao de um quarto,
em contraste com outro, o da viagem e das aventuras se recolhe a apenas um. Ao
cabo, toda a histria fica devidamente recolhida ao espao do sonho e do devaneio
e a apenas uma imagem esttica, a de um rapaz dormindo.15
O que resta a dizer que, nessa cena, j intimista, o que interessa ao texto no , exatamente, o que se v, mas o que no se pode ver quando se olha um rapaz dormindo:
o mundo da imaginao e da fantasia a que tem acesso s quem est dormindo (ou
sob o efeito de narcticos ou da leitura de certos romances). Esfera romntica, afinal,
e propriamente romntica.

15 Prosa de poeta, como se pode depreender (e nisso cumprindo tambm a lio romntica da mistura

entre gneros), pois realiza, como diria Jos Amrico Miranda, o desafio que a todo poeta colocado
pelo ato da criao: o de armar figuras no ar, como no verso de Dante (o quanto a dir cosa dura em
traduo de Augusto de Campos). MIRANDA, Jos Amrico. O gerndio e o lusco-fusco: som e sentido
em um poema de Carvalho Jnior. In: BASTOS et al. (Orgs.). Estudos de literatura brasileira. Belo Horizonte:
Faculdade de Letras da ufmg, 2008, p. 90.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 283

Tudo transposto para uma teoria das relaes entre fico e realidade, o que se afirma
aqui a concepo de um mundo real distorcido, transfigurado pela imaginao.
Se o elogio feito aos mundos imaginrios, estes no deixam de manter relao
com a realidade, como sugere o fato de que a noite chuvosa, at ento isolada, como
composio do ambiente externo, traduzida, interiorizada, em impresso sonora no sonho, ressurgindo transfigurada no trote largo dos cavalos. Em termos de
tcnica narrativa, a mesma relao afirmada, pois, se, em Camila, o enredo das
aes aventurosas se dobra investigao do mundo interior da personagem, num
movimento em tudo contrrio funo folhetinesca, essa dobra no pode prescindir
dela; na verdade, depende dela para sua consecuo.
Foroso concluir, ento, que, a certa altura do sculo xix, que resta ainda estabelecer
com mais segurana (mas certamente muito antes do que hoje tendemos a acreditar),
o modelo folhetinesco que chega a ns por tantas tradues de folhetins16 franceses, e no qual se exercitaram vrios de nossos escritores oitocentistas passou a
funcionar menos como modelo do que como procedimento narrativo criticamente
apropriado, feito que possibilitou a passagem, na literatura brasileira, da narrativa
de ao e aventuras para as narrativas das aventuras dos mundos e movimentos
subjetivos de nossa melhor prosa ficcional moderna.
Com certeza, podemos apenas saber que, altura dos anos oitenta do sculo xix, os
procedimentos puramente folhetinescos a ao composta como uma srie de truques, a narrativa de composio artificiosa, mal alinhavada e arbitrria chegavam
j completa saturao. Em ensaio datado de 1888, Araripe Jnior anunciava, com
preciso, o esvaziamento do recurso, ento despido de sua capacidade de surpreender o leitor, acostumado j a todo tipo de peripcias e artifcios:
As mquinas complicadas, mais na aparncia do que na realidade [] tornaram-se uma
coisa to habitual para o leitor, que, por ltimo, dadas as primeiras linhas de um romance, nada mais fcil havia do que prever tudo o quanto devia, da por diante, sair da pena
do autor. O romancista, portanto, ficava reduzido a uma espcie de contrarregra, de cujo
regimento o pblico comparticipava.

16 Usamos, at aqui, muito livremente os termos folhetim e folhetinesco, que, entretanto, merecem distino.

Por folhetim, entende-se o modo de publicao de histrias em partes, como se tornou usual na
dcada de 1830, nos diversos peridicos oitocentistas (prtica que teve continuidade at o sculo xx).
Folhetinesco diz respeito ao gnero amplamente exercitado por autores da poca, cujas caractersticas
exploramos no decorrer deste texto.

284 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

O tdio determinou a reao, e esta fez-se em direo completamente oposta. Visto


ter-se o cenrio do romance convertido em baldrame de teatro, afogando e multiplicando toda a importncia dos personagens; visto haverem-se esses personagens transformados em marionetes ridculos, sem vida, passando a ao a ser apenas uma srie
de truques previstos e de faclima composio, era indispensvel abandonar esse campo
de visualidades, sem significao, este objetivismo de fantasia, para ocuparem-se os
autores com a alma do homem e com os problemas que verdadeiramente interessavam
humanidade.17

Araripe Jnior indica, a, a transformao por que passava a prosa oitocentista,


intuindo, com acuidade, o que hoje estudiosos consideram um dos traos distintivos
do romance moderno ou, para usar um termo mais amplo (capaz de abarcar tambm
a forma do conto) da prosa ficcional moderna: a mudana do foco de interesse da
composio, que se desloca, da ao, em direo personagem. Como estabelece
Antonio Candido:
Deste ponto de vista, poderamos dizer que a revoluo sofrida pelo romance no sculo
xviii consistiu numa passagem do enredo complicado com personagens simples, para
o enredo simples (coerente, uno) com personagens complicados. O senso da complexidade da personagem, ligado ao da simplificao dos incidentes da narrativa e unidade
relativa de ao, marca o romance moderno [].18

O que devemos admitir, se a leitura aqui proposta for vlida, que, muito antes de
essa exausto ser constatada, o modelo j vinha sendo crtica e ironicamente minado. A data precisa desse feito de difcil estabelecimento, como mostra o fato de
Camila ter sido publicada no mesmo ano (185619) que outra das narrativas curtas
de Casimiro de Abreu, Carolina, de cunho nitidamente melodramtico.

17 ARARIPE JR. Degenerescncia da ficelle e queda do romantismo. In: COUTINHO, Afrnio. Obra crtica de

Araripe Jnior, vol. ii. Rio de Janeiro: Ministrio da Educao e Cultura; Casa de Rui Barbosa, 1960, p. 38.
18 CANDIDO, Antonio. A personagem do romance. In: CANDIDO et al. A personagem de fico. So Paulo:

Perspectiva, 1976, p. 60-1.


19 As datas de publicao das narrativas curtas de Casimiro de Abreu so as seguintes: A virgem loura

(Pginas do Corao), Correio Mercantil, 7 dez. 1857; Camila Memrias duma viagem, A Ilustrao LusoBrasileira, Lisboa, 1856; Carolina, O Progresso, Lisboa, 1856.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 271-286, 2013 285

E isso implica, para o estudioso da primeira prosa brasileira, suspeitar que esse distanciamento crtico deve menos ser procurado em termos de determinadas autorias
ou datas das publicaes do que em certos mecanismos narrativos, ainda a serem
percebidos e reconhecidos como distintivos entre o exagero sentimentalista, folhetinesco, e os artifcios romnticos, em que esse elemento cumpre funes outras.

Maria Ceclia Bruzzi Boechat professora de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da


ufmg, autora de Parasos artificiais: o romantismo de Jos de Alencar e sua recepo crtica (Editora
da ufmg, 2003).

286 boechat, Maria Ceclia. Da ao folhetinesca cena intimista

Edgar Quinet e o romantismo


Arlenice Almeida da Silva

Resumo: A obra de Edgar Quinet gira em torno de trs temticas: a primeira concentra-se em abordagens histricas, com forte acento religioso: Le gnie des religions, Les jsuites,
Lultramontanisme, Lessai sur la vie de Jsus Christ etc. Um segundo ncleo trata exclusivamente de temas polticos como Les rvolutions dItalie e La campagne de 1815. Uma ltima
dobra se insinua em obras que privilegiam os temas literrios, como Vie et mort du gnie
grec e La posie pique, culminando na produo ficcional do autor, especialmente em
Ahasvrus. Palavras-chave: Edgar Quinet, romantismo francs, Ahasvrus.
Abstract: Edgar Quinets work revolves around three themes. The first one focuses on historical approaches with a strong religious accent: Le gnie des religions, Les jsuites, Lessai
sur la vie de Jsus Christ etc. Thesecond onedealsexclusively with political issues as Les
rvolutions dItalie and La campagne de 1815.The last oneis noticed inworks that emphasize literary themes, as Vie et mort du gnie grec and La posie pique, culminating in
the authors fictional creation, especially in Ahasvrus. Keywords: Edgar Quinet, French
Romanticism, Ahasvrus.

O Gnio como Ahasvrus solitrio


A marchar, a marchar no itinerrio
Sem termo do existir.
Invejado! A invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos lamos frondosos
E sempre a caminhar sempre a seguir
Pede uma mo de amigo do-lhe palmas:
Pede um beijo de amor e as outras almas
Fogem pasmas de si.
E o msero de glria em glria corre
Mas quando a terra diz: Ele no morre
Responde o desgraado: Eu no vivi!
Castro Alves

Escritos em 1868, os versos acima fazem parte do poema intitulado Ahasvrus e


o gnio. Trata-se de uma homenagem do poeta baiano poesia pica de Edgar
Quinet, tida como uma notvel e instigante apropriao literria da lenda do
judeu errante, do homem que no morre. Antonio Candido e Jamil Almansur
Hadad confirmam a presena do poeta francs entre ns, observando que o poema
Ahasvrus exerceu forte influncia em poetas como Castro Alves ou lvares de
Azevedo. Seria apenas um detalhe na formao dos poetas, ou uma vinculao
significativa? Em todo caso, seria interessante localizar e dimensionar a presena
de Edgar Quinet na literatura romntica brasileira. lvares de Azevedo, em um
artigo sobre Alfredo de Musset, chega a afirmar que Ahasvrus era porventura o
poema de mais imaginao que tenhamos lido. Ainda segundo Antonio Candido,
o pico de Quinet, ao corporificar toda a utopia libertria do sculo, simbolizando a luta eterna da humanidade em busca de redeno e justia, possibilitou
poesia de Castro Alves fora histrica.
H [diz Antonio Candido] em Castro Alves o sentimento da histria como fluxo, e do
indivduo como parcela consciente deste fluxo. Por isso logrou uma viso larga e humana do escravo. [] O movimento incessante de Ahasvrus, cuja personalidade vai se

288 silva, Arlenice Almeida da. Edgar Quinet e o romantismo

redefinindo ao contato das vicissitudes por que passa, corresponde ao movimento perene dos povos, superando-se igualmente sem parar pelo batismo luminoso das grandes
revolues.1

Quem foi Edgar Quinet? Qual sua importncia para o romantismo francs? Como
interpretar o silncio em torno do nome de Quinet? Como testemunha e ator de
trs revolues, a de 1830, de 1848 e de 1870, ele foi um homem do sculo xix; um
respeitado professor universitrio, um acadmicien, mas tambm um atuante deputado republicano e um dos primeiros insurretos, em fevereiro de 1848, a penetrar
nas Tulherias de fuzil nas mos. Alm disso, h um consenso entre os historiadores,
que veem em Quinet, ao lado de Benjamin Constant, um dos principais nomes do
republicanismo francs do sculo xix, de modo que o pesquisador percebe que no
se pode falar do campo histrico e literrio do sculo xix francs omitindo Quinet. Corretamente falando, ele no foi totalmente esquecido, pois seguidas vezes
aparece ao lado de Michelet, marcando a produo historiogrfica do sculo, mas
quase sempre como uma sombra e no como uma personalidade independente. Em
outros momentos, ele desponta ao lado de Victor Hugo, mas como um exemplo de
literatura de boas intenes e pouco pblico. Em outros, ele colocado no grupo
dos filsofos como Victor Cousin, mas aqui tambm sem produzir ao menos um
ecltico sistema. Poderamos, enfim, anotar em tom lamentoso que o que marca
sua obra seria uma espcie de atuao em penumbra, num segundo plano.2 Maurice
Agulhon, no prefcio escrito para a excelente biografia sobre Quinet, de Laurence
Richer,3 procura justificar o papel secundrio de Quinet, afirmando que ele viveu
em um perodo dominado por duas unanimidades, Michelet e Victor Hugo. Sem
eles, o sculo xix seria de Quinet.4
Em primeiro lugar, Quinet no foi apenas um historiador. O mais correto seria v-lo
como um homme de lettres, um philosophe, mas talvez o termo j parea um pouco
anacrnico no sculo xix. A marca central do pensamento de Quinet, a despeito
disso, a vasta problemtica que insiste em costurar filosofia, histria e literatura.
1 CANDIDO, Antonio. Formao da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993, v. 2, p. 242. Cf. tb. HADAD,

Jamil Almansur. Reviso de Castro Alves. v. 3, p. 24-5.


2 Hayden White, em sua obra Meta-histria, a imaginao histrica do sculo xix, no menciona Edgar Quinet

uma nica vez.


3 RICHER, Laurence. Edgar Quinet Laurore de la rpublique. Bourg-en-Bresse: Musnier-Gilbert ditions,
1999.
4 Cf. AGULHON, Maurice. 1848 ou o Aprendizado da repblica. So Paulo: Paz e Terra, 1991.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 287-306, 2013 289

Tal abrangncia, hoje considerada improdutiva, era, no xix de Quinet, estimulada e


buscada; um elemento essencial da definio do intelectual. Esprito generalizante
e ao mesmo tempo potico, ele se aproxima mais das grandes vises de conjunto,
das consideraes filosficas e menos de estudos tcnicos e detalhados. O sculo
xix produziu, assim, com Quinet, pensadores superlativos, seja pela abrangncia
enciclopdica dos contedos, seja pela quantidade dos volumes apresentados ao
pblico. Se Michelet pde ostentar seus sessenta volumes, Quinet no fica a dever
com os seus mais de trinta volumes. deste estilo abundante que brota uma linguagem prpria, ou seja, uma escritura na qual o excessivo no enfadonho, mas faz
sistema, articulando disciplinas e temticas.
Assim, podemos observar que o ncleo central de sua obra gira em torno de trs
temticas. A primeira concentrada em abordagens histricas, com forte acento em
temas religiosos: Le gnie des religions, Les jsuites, Lultramontanisme, Lessai sur la
vie de Jsus Christ, Le christianisme et la Rvolution Franaise e La Rvolution, em
um quadro terico que poderamos nomear de crtica histrica e religiosa. Mas um
segundo ncleo desdobra-se do primeiro tratando de temas exclusivamente polticos
como Les rvolutions dItalie, La campagne de 1815. E uma ltima dobra se insinua
em obras que privilegiam os temas literrios, como Vie et mort du gnie grec, La
posie pique, e culminam na produo ficcional do prprio Quinet, especialmente
em Ahasvrus.
Assim, mergulhando nas controvrsias da poca, inevitvel investigar, entre outras
coisas, se Quinet era um autor romntico, combinando uma conscincia esttica com
conscincia histrica, ou se seu romantismo anunciava o moderno, ou refugiava-se
na tradio. Em todo caso, h um consenso entre os autores que lhe querem bem
sobre sua imprudncia. O excesso e as afirmaes dramticas e definitivas atraram
para si o estigma de inconsequente e temerrio. Heine dir a propsito, com certa ironia, que sua alma era na verdade alem. Lucien Febvre, ao contrrio, que havia algo
de falso em sua escrita exaltada e no arrebatamento que provocava.5 Paul Valry
generalizou semelhante diagnstico para todo o romantismo: envenenado por lendas e histrias, um verdadeiro romntico acima de tudo um ator. A simulao, o
exagero, a facilidade em que caem todos os que visam apenas produzir sensaes
imediatas, so os vcios desse momento das artes.6

5 FEBVRE, Lucien. Michelet. Genebra: dition des Trois Collines, 1946.


6 Cf. VALRY, Paul. Degas dana desenho. So Paulo: Cosac Naify, 2003, p. 155.

290 silva, Arlenice Almeida da. Edgar Quinet e o romantismo

A sua decepo com o ecletismo movimento filosfico liberal, composto por Victor Cousin, Thodore Jouffroy e Royer-Collard no foi menor e contribuiu para
a radicalizao de seu pensamento. At 1825, Quinet acompanhava Victor Cousin e
seu ecletismo espiritualista. Com uma atuao corajosa e incisiva na cole Normale,
um estilo arrebatador, falando abertamente de religio e poltica, Cousin estimulava
jovens como Quinet e Michelet, defendendo uma filosofia ligada ao tempo e histria.7 Ora, o ecletismo uma imbricao entre o criticismo de Kant, o hegelianismo e
a filosofia escocesa, com Thomas Reid e Dugald Stewart prometia no s combinar
vrios sistemas filosficos, mas julgar as doutrinas, tomar emprestado o que nelas
havia de comum e verdadeiro, negligenciar o que definiam como falso, deduzindo
da uma teologia, uma esttica e uma moral. Contudo, lentamente, este pensamento
acaba na valorizao de certa psicologia e no repdio ao sensualismo de Condillac,
considerado um dos responsveis pelos excessos da Revoluo. A filosofia ecltica
torna-se, aos olhos de Quinet, cada vez mais professoral, engessada, afastando-se de
sua finalidade republicana; de inspiradora do sistema educacional, ela se torna uma
pedagogia oficial formadora dos estadistas e funcionrios de Estado. Posicionando-se contra a filosofia do sculo xviii e contra a Revoluo Francesa, o ecletismo
tornara-se, para Quinet, a filosofia da Restaurao, abandonando a promessa de ser
um pensamento crtico e no conseguindo, assim, explicar nem mobilizar o presente.
Diante da Revoluo de 1830, o ecletismo capitula definitivamente, transformando-se em uma filosofia institucionalizada, voltada para a legitimao do poder.
No artigo de 1831, intitulado De la Rvolution et de la philosophie, Quinet constata
a falncia geral da filosofia de sua poca por no orientar mais a ao poltica. A
poltica entrou em um estado de hibernao, diz ele; o presente indica uma era de
apostasia recente na qual a filosofia se transformou em letra morta: meras palavras
eloquentes. Como agora, reitera o autor, toda a histria parece suspensa e muda e a
resignao s misrias a nica coisa que aparece entre os povos, a filosofia no sabe
mais procurar e fundamentar o presente; sua caracterstica a de no ter nenhum
pressentimento do amanh.8
O desapontamento com a poltica da dcada de 1830 e as dificuldades de insero no
fechado mundo acadmico ele ser nomeado professor de literatura em Lyon em
7 No curso de filosofia ministrado em 1828, Cousin afirmou: O ecletismo a filosofia necessria do sculo,

pois a nica que est conforme a sua necessidade e ao seu esprito; e todo o sculo realiza uma filosofia
que o representa. COUSIN, Victor. Cours de philosophie. Paris: Fayard, 1991, p. 364.
8 QUINET, Edgar. Philosophie, France, xix sicle. Paris: Librairie Gnrale Franaise, 1994, p. 153.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 287-306, 2013 291

1839, e s em 1841 ser indicado para a cadeira de literatura meridional no Collge


de France colocam Quinet exclusivamente no campo da literatura. So anos de
indefinio e angstia, nos quais ele afetado por uma espcie de enfermidade, que
ele nomeia de mal de lattente. A cura vem da prpria literatura e da tentao da
Idade Mdia, como boa parte do movimento romntico, ao dedicar-se recuperao
e divulgao de um manuscrito pico do sculo xii, o Perceval de Chrtien de Troyes.
Em seguida, volta-se definitivamente para a produo ficcional, e o resultado o
monumental Ahasvrus, um longussimo poema pico, escrito principalmente no
refgio de Certines, sua terra natal, e publicado em 1832. As expectativas do jovem
Quinet so exageradas, pois espera alcanar, com esse poema pico, notoriedade,
respeito e glria. Em uma carta escrita a Michelet, em janeiro de 1832, Quinet avisa
ao amigo que Ahasvrus avanava: Je sens bien que si je fais quelque chose de passable
dans ma vie, ce sera cela.9
De tal forma que, nos anos 1830, Quinet mais literato que filsofo ou historiador,
o que contribuir para o rtulo de autor romntico, que lhe ser imposto pela primeira recepo crtica de sua obra. Ora, alguns traos romnticos so perceptveis,
mas nunca exclusivamente. De um lado, ele pode ser considerado romntico pela
importncia que atribui poesia como os principais representantes dessa tendncia , corroborando com a renovao e promoo do poeta e da literatura guia e
intrprete do novo mundo espiritual que sai da Revoluo. A revoluo romntica,
efeito direto da mutao poltica, pode ser caracterizada, entre outros elementos, por
essa defesa de um sacerdcio potico, por meio da afirmao de um poder espiritual
laico, ou seja, por uma consagrao do poeta sem precedentes histricos, que acompanha a aurora de uma nova poca.10 Por outro lado, no se encontram em Quinet as
conhecidas marcas das batalhas formais contra a tradio clssica, como em Victor
Hugo, nem o sentimentalismo subjetivo, a efuso do eu, como em Lamartine, que
marcar boa parte do movimento literrio, tampouco a religiosidade do romantismo catlico de um Chateaubriand. Ao contrrio, em suas obras e reflexes estticas
encontramos marcas de uma heterodoxia, e uma especial e acentuada revalorizao
do gnero pico, ou seja, uma produo que se debrua na pesquisa e modernizao
das possibilidades narrativas na poesia. Explorando a narrativa, ele redimensiona

9 Cf. RICHER, Laurence. Edgar Quinet Laurore de la rpublique, op. cit., p. 186.
10 Cf. BNICHOU, Paul. Le sacre de lcrivain. Doctrines de lge romantique. Paris: Gallimard, 1977; Paris: Jos

Corti, 1973, p. 276.

292 silva, Arlenice Almeida da. Edgar Quinet e o romantismo

no s o papel da literatura, mas tambm o da histria e, especialmente, da poesia


pica, gnero, alis, considerado frgil, segundo ele, entre os franceses.11
Em 1833, como vimos, surge o poema pico Ahasvrus; em 1836, ele publica um
longo poema pico sobre um mito histrico, Napoleo Bonaparte, e em 1838, outro
drama pico intitulado Promthe. De tal forma que, nessas obras, Quinet participa
da revalorizao da epopeia que, da Palingnsie de Ballanche, de 1803, Lgende des
sicles, de Hugo, de 1859, dominou o cenrio do romantismo na primeira metade do
sculo xix. Em 1828, sob forte influncia de Herder, Quinet esboa anotaes para
uma histria das tradies picas; material posteriormente publicado sob o ttulo
De lorigine des dieux, no qual caracteriza pela primeira vez a epopeia moderna:
[] agora que o homem dispe dos anais da humanidade como Homero dispunha dos
do povo grego, que ele escolheu a unidade da histria e da natureza, aproximando os
seres reais atravs dos sculos, em uma via maravilhosa em direo ao infinito, que estas
cenas se sucedem e se encadeiam no mais nas sombras do inferno, do purgatrio ou do
paraso da Idade Mdia, mas em um espao ilimitado, brilhante de uma luz plena, agora
ele pode atingir a forma possvel e necessria da epopeia no mundo moderno.12

A conjuno do tema da Revoluo com a revalorizao do gnero pico o que


permite a Quinet dizer o mundo que sai da Revoluo, isto , exprimir sua modernidade. A dico romntica, mas em formato impuro: a forma artstica orgnica,
revelada a partir do interior mais espiritual do artista em contato com a natureza.
Mas um orgnico que se constitui tambm a partir do externo, isto , da histria.
A poesia eco e exortao; militante, um canto que acompanha as lutas pblicas.
o que se pode perceber em Ahasvrus, seu melhor poema, que trata do problema
da execuo moderna do sagrado, combinando elementos do drama e da epopeia,
11 interessante confrontar o argumento de Bnichou com o de G. Lukcs. Em sua obra O romance histrico,

de 1936, Lukcs procura demonstrar que o romantismo surge no meio de uma luta ideolgica sem
precedentes sobre a interpretao da Revoluo Francesa. A disputa literria resulta em duas concepes
da histria e duas correntes literrias: a primeira reativa, nomeada de romantismo liberal, e se afirma
contra a memria da revoluo, pela defesa apologtica da Idade Mdia, apesar de defender mudanas
progressistas, concretizadas pela mesma Revoluo. A segunda corrente, que vai de Goethe a Stendhal,
de matriz iluminista, pois busca no s afirmar a Revoluo como conservar e realizar concepes
herdadas do sculo xviii, figurando, assim, o presente como histria. G. Lukcs, Le roman historique. Paris:
Payot, 1965, p. 67-95.
12 QUINET, Edgar. Oeuvres compltes, tomo III. Paris: Pagneire Librarie-Editeur, 1857.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 287-306, 2013 293

em uma escrita potico-filosfica que lhe parece ser o instrumento adequado para a
atualizao do gnero. A obra em dilogos, monlogos e coro uma forma variante
do mistrio em vigor na estrutura da dramaturgia medieval13 estilo renovado pelo
romantismo de Byron na Inglaterra e de Vigny, na Frana.14 Nesse poema, composto
em uma estrutura dividida em quatro grandes jornadas, Quinet apropria-se da lenda
do judeu errante para figurar a sucesso dos tempos e o desenvolvimento da histria,
ou seja, para encenar o espetculo da tragdia da histria do mundo. Aqui o poeta
se faz historiador ao resgatar a seu modo e por meio de seu verbo a relao entre o
divino e o histrico. J no prlogo, o autor adverte tratar-se de um mistrio terrvel,
de difcil narrao; uma longa histria que oprimiu sempre seu prprio criador.
Tudo indica que intencionalmente a estrutura da obra assinale um desequilbrio.
As partes so desiguais, seja na concentrao temporal, seja no efeito dramtico.
Na primeira jornada, intitulada Criao, figurada uma conjuno de teogonia e
cosmologia, numa narrativa demasiadamente concentrada sobre o nascimento dos
deuses, do mundo e de seus principais elementos: o oceano, um pssaro, um peixe,
uma serpente apresentam-se como divindades e, nessa condio, louvam as belezas e
maravilhas da natureza. Em seguida, falam os primeiros povos, as primeiras cidades.
Contudo, a harmonia inicial da criao rapidamente suplantada por um conflito
entre as cidades, na forma de uma disputa entre os deuses para medir fora e superioridade. Abruptamente, por meio de uma condensao temporal ainda maior, a
trama deslocada para Jerusalm, no momento em que os reis magos encontram o
prometido, a criana que se anuncia como o deus superior a todos os outros j existentes; momento no qual o politesmo rende homenagem, no s ao monotesmo,
mas especialmente figura do Cristo encarnado em um homem. Assim, a criao do
mundo desemboca no surgimento do Cristianismo e sua promessa de redeno e de
recomeo; no movimento pelo qual o deus jovem supera a cansada religio oriental.
Entre a primeira e a segunda jornada h um entreato composto por uma deslumbrante dana dos demnios, de forte apelo imagtico, na qual em um movimento inverso
ironizada a pretenso do cristianismo de renovar o mundo, por meio da encarnao

13 Os mistrios medievais eram peas teatrais religiosas, influenciadas por tendncias gticas que

misturavam misticismo e realismo. Na Frana, os mistrios adquiriram forte carga lrica, no sculo xiv, com
Miracle de Thophile, de Rutebeuf, e a Passion, de Didot.
14 Byron publica Cain, a mystery, em 1821, e Heaven and earth, em 1823, ambos considerados os melhores
exemplos de adaptao dos mistrios medievais para o sculo xix. Vigny, fortemente influenciado pelo
gnero, publica, em 1824, Eloa.

294 silva, Arlenice Almeida da. Edgar Quinet e o romantismo

do divino em um homem. Belzebuth, por exemplo, procurando desmascarar a farsa,


interroga: a eternidade, enlouquecida, brincava em uma divina comdia, na qual
ele era o nico personagem?.15
Assim, desmistificando, por meio de recursos de aproximao e de distanciamento,
Quinet conduz a trama indiretamente para a segunda jornada, intitulada a Paixo,
o momento da morte e sofrimento de Cristo, especificamente para o instante do
encontro entre Ahasvrus, o homem, e Cristo, a divindade encarnada. O dilogo
cortante e violento: Cristo pede gua, Ahasvrus nega; Cristo pede ajuda para carregar a cruz, depois um abrigo contra o sol, e um lugar para descanso, e tudo lhe
negado. Diante das sucessivas recusas, do no reconhecimento da divindade, e, por
fim, da expulso por Ahasvrus do estranho invasor de sua casa, Cristo lhe responde:
Pourquoi las-tu dit Ahasvrus? Cest toi
qui marcheras jusquau jugement dernier,
pendant plus de Mille ans. Va prendre tes
sandales et tes habits de voyage; partout
o te passeras, on tappellera: le juif errant. []
Tu seras lhomme qui ne meurt jamais. Moi, je vais
Golgotha; toi tu marcheras de ruines
en ruines, de royaumes en royaumes, sans
atteindre jamais ton Calvaire.16

A maldio lanada sobre Ahasvrus far dele um solitrio, o judeu errante que,
acompanhando as desventuras do mundo e da histria, encontrar to somente dor
e sofrimento. Para Quinet, a histria da humanidade a partir da segue um sentido fatal, trgico, marcado por declnios, desmoronamentos, mortes, guerras, invases, lgrimas. A morte de Cristo vem acompanhada de uma espcie de tragicidade
incontornvel, como se a maldio de Ahasvrus atingisse a humanidade inteira. O
mundo, transformado em deserto, chora:
[] lheure est passe; aprs lheure, le soir
aussi est pass, et moi jarriverai trop tard.
Jhovah na plus de fils; moi, je nai
15 QUINET, Edgar. Ahasvrus, <http://gallica.bnf>, p. 125.
16 Idem, p. 138.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 287-306, 2013 295

plus ni palmier, ni compagnon. Jhovah est


seul au firmament; moi, je suis seul sur ma
grve: nos deux dserts se joignent, et ils
sattristent lun lautre. Tous deux nous
roulons dans notre immense ennui, sans y
trouver de rivage: nous ne rencontrons,
nous nentendons que nous. Nos deux chos
se rassemblent. Demain, quand il passera,
comme un arabe qui cherche son butin, si je
lui demande: o est ton fils? Il me
rpondra: et toi, o est ton ombre?17

Na terceira jornada, a mais longa e intitulada a Morte, Quinet dispe, ao lado do


judeu errante, a personagem Raquel, igualmente dotada de imortalidade, portanto
habilitada a atravessar os sculos, e Mob, figurando a morte. Os trs percorrem o
perodo medieval e o comeo dos tempos modernos, mas a tristeza e desolao
continuam. No interior de uma vila, beira do Reno, Ahasvrus conhece Raquel e
com ela o amor, e a possibilidade da consolao na poesia. Aqui, o estilo romntico
de Quinet atinge personalidade e maturidade. Mas a exaltao dos sentimentos no
jamais assumida como plenitude, na medida em que vem acompanhada por uma
enorme melancolia e por um vazio diante da vida: Mob, a morte, interfere nesses
momentos fazendo refluir os sentimentos, em direo a um ceticismo irnico. A
desolao atinge seu ponto culminante quando, na Catedral de Estrasburgo, Ahasvrus e Raquel assistem a uma liturgia macabra: uma dana dos mortos, na qual reis,
papas e arcebispos desmascaram Cristo como um impostor, como aquele que nunca
foi encontrado nem ressuscitou: no h Cristo, nem Jesus de Nazareth, dizem, apenas a eternidade, vazia, o silncio e a morte.
Novamente a narrativa interrompida por outro entreato no qual o autor louva a
poesia, reconhecendo o sofrimento do poeta que, com a alma pesada e sangrando, lamenta no poder encontrar as palavras exatas que realmente exprimam a
dor sentida, o desespero pela sensao de vazio que decorre do silncio dos deuses
e da insuficincia do mundo. Finalmente, h a quarta e ltima jornada intitulada
o julgamento final. Ali, o pai eterno e Cristo apresentam-se unidos no papel de
Juiz, responsveis pelo julgamento do mundo. Tudo e todos so julgados: oceano,
17 Idem, p. 132.

296 silva, Arlenice Almeida da. Edgar Quinet e o romantismo

animais, montanhas, cidades, papas, reis, Napoleo, a cincia, as mulheres; seus


lamentos so ouvidos, e, ato contnuo, perdoados, em um resumo sagrado da histria
do mundo. Finalmente, Ahasvrus confrontado com o Cristo e julgado. Contudo,
se de um lado, pela mediao do amor de Raquel, Ahasvrus sucumbe, reconhece a
divindade de Cristo, pede perdo pela dvida inicial e aceita o perdo e a misericrdia; de outro, o julgamento o liberta da religio. O Julgamento final mais do que o
pronunciamento de uma sentena judicativa, ele um acerto de contas de Ahasvrus, e do prprio Quinet, com a histria do cristianismo. A maldio de Ahasvrus
muda de sinal, ganhando uma conotao positiva: ele na verdade havia sido enviado
no como maldito, como errante, mas como consolador, com a misso de, aps a
passagem de Cristo, recolher a dor do mundo e anunciar a utopia. Ahasvrus, cest
lesprit enfivr qui cherche travers lombre le soleil qui va venir.
O sofrimento foi recompensado, ao final, com a redeno; o sacrifcio divino desdobra-se em humano, e o humano transmuta-se em divino, dissolvendo oposies.
Ahasvrus, convertido de vtima em heri, nos versos finais de Quinet, transforma
o medo da solido em desejo de infinito. Reabilitado, poderia escolher o que quisesse fazer dali em diante, mas ele no quer retornar sua ptria, nem repousar
sombra de uma vida burguesa convencional. Como os deuses, ele tem sede de
infinito, quer a imortalidade, continuar errante, retomar a viagem, sem destino,
caminhando sempre para o alto, para o futuro, para a eternidade. De judeu errante
maldito, Ahasvrus torna-se um homem novo, um segundo Ado, simbolizando,
nesse momento, o destino de toda a humanidade que quer desdobrar-se em direo
ao ilimitado. O cristianismo, como religio positiva, completa sua misso histrica,
perdendo completamente sua razo de ser. Raquel acompanha Ahasvrus na nova
viagem, que representa uma nova reconciliao entre infinito e finito, entre cu e
terra. O mundo pede e est pronto para uma regenerao, para o recomeo, para a
revoluo, em um forte apelo mtico. Ao final, Quinet anuncia sinais de uma nova
religio, mas como ela ainda no surgiu o futuro est em suspenso; a eternidade e
o nada terminam, no eplogo, dialogando com um Cristo solitrio, rfo, que encerrou sua tarefa, que no sabe mais ao certo qual era. Neste momento o que restava
do mundo desmorona, em imagens de grande efeito visual, de pura materialidade,
restando apenas a dor, o suspiro, a lgrima; a eternidade e o nada.
Ahasvrus pode ser nomeado epopeia simblica ou drama pico. A obra moderna, justamente por assumir uma estrutura formal que combina narrativa histrica,
no sentido largo e potico do termo, com um ensinamento edificante vivido de
forma dramtica por meio de uma experincia ntima. Ora, a confluncia do pico

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 287-306, 2013 297

e do dramtico no original em Quinet, uma vez que Vigny j experimentara tal


aproximao, o que teria influenciando provavelmente Quinet.18 No entanto, o que
marca a obra em questo uma combinao de uma filosofia da histria entristecida
com um espiritualismo humanitrio que cr na capacidade regeneradora do homem;
na grandeza de um destino coletivo, isto , na possibilidade criativa da revoluo.
Assim, se de um lado a trajetria errante de Ahasvrus parece apontar um percurso
individual, de outro, a conduo e desdobramento da narrativa possibilitam que o
elemento individual seja simbolicamente transfigurado em universal, particularmente no julgamento final que atinge toda a natureza, povos e cidades.
Por meio de um naturalismo radical, entre uma forma de pantesmo e ousada heresia, Quinet d voz a todo o universo: astros, rios, montanhas e seres da natureza;
bem como aos mitos e lendas, demnios e crticos. As vozes crists so misturadas
s pags; o humano dialoga com o tit, os anjos e as fadas com os demnios. Um
conjunto que de fato encena uma histria do mundo catica e desarrumada, para
justificar a necessidade da dissoluo e projetar no futuro a recriao de um novo
mundo, evidentemente melhor que o precedente. Para Bnichou, trata-se de uma
obra estranha que se organiza em torno dos temas religiosos, mas apenas para serem
ultrapassados e negados. H em Ahasvrus uma dialtica que lentamente substitui o
tema cristo do mal e da misso redentora de Cristo, pelo tema da dor humana e pela
promessa de uma sociedade que supere a noo de pecado e culpa; uma celebrao
da runa do cristianismo histrico,19 mas no de suas promessas.
A literatura enuncia com seus prprios recursos a condenao do cristianismo como
religio positiva, que ser o tema central das futuras intervenes anticlericais de
Quinet e de Michelet na dcada de 1840. Mas aqui no lugar de uma hostilidade aberta, Quinet figura o movimento de nascimento e morte do cristianismo, confirmando
o valor histrico e, portanto, relativo das religies. Por outro lado, a importncia
que o autor concede ao Oriente j demonstra uma tendncia que se tornar cada
vez mais clara em Quinet, principalmente a partir de 1841, com o surgimento de Le
gnie des religions. Para ele, a Europa seria regenerada pelo Oriente; a singularidade
18 Meditar e conceber um pensamento filosfico, encontrar nas aes humanas os exemplos mais

pertinentes, reduzir tal pensamento a uma ao simples que se possa gravar na memria, representada
de alguma forma em uma escultura e um monumento grandioso imaginao dos homens: eis o que
dever atingir a poesia ao mesmo tempo pica e dramtica. VIGNY, Journal, 20 de maio de 1829, citado
por BNICHOU, Paul. Le sacre de lcrivain, op. cit., p. 356. Cf. a anlise marxista sobre a confluncia histrica
entre o pico e o dramtico em G. Lukcs, Le roman historique, op. cit., p. 153-89.
19 BNICHOU, Paul. Le temps des profhtes. Doctrines de lge romantique. Paris: Gallimard, 1977, p. 465.

298 silva, Arlenice Almeida da. Edgar Quinet e o romantismo

dessa renascena oriental consistia em associar orientalismo com medievalismo,


no intuito de contrabalanar a forte influncia da tradio clssica. Victor Hugo no
prefcio das Orientales, sua ode militante em favor da causa grega, no teria tambm
afirmado: au sicle de Louis xiv, on tait hellniste, maintenant on est orientaliste?
O romantismo de Quinet enfrenta criticamente o corao do pensamento cristo, mas
continua alimentando-se do mito da queda, redeno e emergncia de uma nova experincia, ou seja, da ideia do paraso restaurado. Como em Rousseau, apesar do tom cada
vez mais ctico, a literatura de Quinet continua pensando em uma origem fundadora,
num paraso redivivo e na possibilidade de refazer o mundo simbolicamente. Contudo,
paradoxalmente, o modelo da busca das origens serve como ponto de partida para a
afirmao da historicidade, uma vez que a pesquisa pela origem em Quinet possibilita
ao historiador refazer poeticamente a ligao rompida entre natureza e histria.
Em 1836, surge um poema heroico dedicado a Napoleo Bonaparte, encarado como
o novo prometeu dos novos tempos. Se Ahasvrus , nos termos do prprio Quinet,
a poesia do passado, e de toda a histria, que figura um homem eterno que contm
em si todos os outros e a humanidade, Napolon a poesia do presente e seu heri
o indivduo moderno.20 Trata-se de uma nova tentativa de Quinet de constituir um
pico moderno. Mesmo tendo se tornado, nos anos seguintes, um inimigo do segundo Napoleo, Quinet no renegou nesta obra o primeiro, considerando-o um agente
providencial modernizador da sociedade europeia. Quinet seguidamente sustentava
que a Frana tinha um papel de liderana poltica e cultural diante das outras naes.
E Napoleo, a seu ver, teria sido o arauto dessa tendncia.
No trabalho que serve de introduo ao poema, intitulado La posie pique, Quinet
realiza sua melhor reflexo esttica, recuperando a atualidade do gnero ao articular
a relao entre a epopeia e a histria em nova chave temporal. Ele recusa de pronto a
ideia corrente de que o esprito francs seria imprprio para o pico, pois destitudo
de dimenso heroica. No lugar, procura traar um panorama histrico, mostrando
como a Frana medieval foi fonte de acontecimentos gloriosos, fornecendo material
para a literatura pica, fase depois negligenciada pelo classicismo dominante no
sculo de Lus xiv. A Henriade de Voltaire teria sido uma tentativa isolada de retomar
essa forma, no sculo xviii, por isso mesmo fadada ao fracasso. Definindo o gnio
heroico de uma dada poca pelo sentimento que uma nao tem dela mesma e de
sua ao no mundo, Quinet percebe uma evoluo da epopeia relacionada com a
evoluo da humanidade.
20 Napolon, <http://gallica.bnf>.

Teresa revista de Literatura Brasileira [12|13]; So Paulo, p. 287-306, 2013 299

Ao afirmar a atualidade do pico, contudo, Quinet remonta ao tema central da esttica moderna, de Goethe a Hegel,21 isto , a diferena entre o lrico, o pico e o
drama. Como F. Schlegel, Quinet localiza na histria a diferena entre os gneros,22
mas procura ressaltar e encontrar ao mesmo tempo o momento originrio, isto , a
natureza primeira da separao. Assim, o pico emanaria da poesia lrica dedicada
ideia de Deus, mas figuraria cada vez mais o momento de secularizao do mundo
e de seus conflitos. Contudo, pela proximidade com o instante criador, nele ainda
se sente a presena do divino, a mo da providncia, a presena do maravilhoso.
Diferentemente da poesia dramtica que assume o ponto de vista individual, o poder
do acaso e da fatalidade, as contradies e conflitos. Ou seja, na estrutura pica
busca-se a inteligncia universal no pela presena divina, mas no pensamento do
divino; a imortalidade e o eterno.23
21 Uma das primeiras elaboraes modernas do problema do gnero surge com Goethe e suas trs formas

naturais de poesia(Naturformen). Goethe estabelece uma oposio entre as formas naturais de poetizar
(Dichtweisen) e os gneros poticos derivados dessas formas (Dichtarten); ou seja, entre as atitudes
do poeta no pico, narrar claramente, no lrico, ser transportado pelo entusiasmo, no drama, agir
pessoalmente e as formas decorrentes e contingentes como o romance, a balada, ou a stira. Cf. Notes
et dissertations au sujet du Divan oriental-occidental in GOETHE, J. W. crits sur lart. Paris: Klincksieck,
1983, p. 99-122. O idealismo alemo, notadamente Hegel, em sua Esttica, teria esclarecido pela primeira
vez a relao sugerida por Goethe ao destacar a seguinte oposio filosfica e histrica: o pico figuraria
a totalidade dos objetos, enquanto ao drama caberia a totalidade do movimento. O romance seria a
epopeia burguesa m