Depois do espetculo
(reflexes sobre a tese 4 de Guy Debord)1
Juremir Machado da Silva2
Resumo: este estudo reflete sobre a passagem da sociedade
do espetculo, anunciada e denunciada por Guy Debord, em
1967, ao hiper-espetculo ou sociedade midiocre.
Palavras-chave
1. Imaginrio 2. Tecnologias 3. Tecnologias do imaginrio
4. Sociedade do espetculo 5. Cultura 6. Comunicao.
espetculo
acabou.
Estamos
agora
no
hiper-
espetculo. O espetculo era a contemplao. Cada indivduo
abdicava
do
seu
papel
de
protagonista
para
tornar-se
espectador. Mas era uma contemplao do outro, um outro
idealizado, a estrela, a vedete, os olimpianos3. Um outro
radicalmente diferente e inalcanvel, cuja fama era ou
deveria ser a expresso de uma realizao extraordinria.
No
espetculo,
contemplador
aceitava
viver
por
procurao. Delegava aos superiores a vivncia de emoes
e de sentimentos que se julgava incapaz de atingir.
Trabalho apresentado ao GT Comunicao e Cultura.
Juremir Machado da Silva, Doutor em Sociologia pela Sorbonne, Paris
V, pesquisador do CNPq, coordenador do Programa de Ps-Graduao em
Comunicao da PUCRS e autor, entre outros livros, de As Tecnologias
do imaginrio (Porto Alegre, Sulina, 2003).
3
Sobre estrelas, vedetes e olimpianos, cf. MORIN, Edgar. Les stars.
Paris, Seuil, 1972.
2
No hiper-espetculo, a contemplao continua. Mas
uma
contemplao
de
si
mesmo
num
outro,
em
princpio,
plenamente alcanvel, semelhante ou igual ao contemplador.
Na era das celebridades, poca da democracia radical4, em
que todos devem ter direito ao sucesso, os famosos simulam
uma superioridade fictcia. So tantos mais adorados quanto
menos se diferenciam realmente dos fs. A identificao
deve ser total e reversvel. Cada um deve poder se imaginar
no lugar da estrela ou do objeto da sua admirao e aspirar
condio de famoso. No h mais alteridade verdadeira. O
outro eu que deu certo graas s circunstncias. O
preo da fama parece estar ao alcance de qualquer um.
O espetculo era um dispositivo de controle por meio
da seduo. No hiper-espetculo, quando tudo se torna tela,
cristal
lquido
remoto.
Passamos
captao
da
de
imagem,
manipulao,
todo
estgio
controle
primitivo
da
dominao das mentes, e da servido voluntria, degrau
superior
da
manipulao,
imerso
total.
Evolumos
da
participao, que pressupunha um sujeito e uma idia de
poltica, para a interatividade, que reclama um jogador
desinteressado.
bem
da
verdade,
interatividade
pertence ao passado, embora dela se fale muito como se
fosse uma novidade. Estamos aqum e alm dela: na adeso.
Submisso
pelo
desejo
pela
conscincia
plena
dessa
vontade soberana. Queremos conscientemente o que desejamos.
4
Cf. BAUDRILLARD, Jean. Big Brother: telemorfose e criao de poeira
in Revista Famecos. Porto Alegre, Edipucrs, n 17, abril de 2002.
Guy Debord, na sua proftica tese 4, escreveu: O
espetculo no um conjunto de imagens, mas uma relao
social entre pessoas mediada por imagens (1997, p. 14).
Esqueamos Debord. Ao menos, o Debord marxista e utpico.
No estamos mais em situao. O espetculo terminou por
excesso de aplauso e falta de crtica. Mas a tese 4 sempre
pode ser declinada de outras formas:
1. O imaginrio no conjunto de imagens, mas uma relao
social entre pessoas mediada por imagens.
2.
simulacro
no
um
conjunto
de
imagens,
mas
uma
relao social entre pessoas mediada por imagens.
3. A socialidade no um conjunto de imagens, mas uma
relao social entre pessoas mediada por imagens.
O
espetculo
era
uma
imagem
do
mundo.
hiper-
espetculo uma imagem de si mesmo. O espetculo acabou
junto com a iluso do controle e da disciplina. Ainda no
estamos,
apresente
porm,
no
descontrole,
performances
exemplares.
embora
Estamos
caos
na
urbano
poca
do
sorria, voc est sendo filmado. Apogeu do Big Brother
como divertimento de massa. A cmara total, contudo, no
inibe nem cobe. Apenas registra. Positividade absoluta.
Positivismo total. Enfim, a neutralidade. Salvo se for a
indiferena como princpio geral da isonomia. Quando tudo
tela, a imagem torna-se a nica realidade visvel.
Ao contrrio do que pensam alguns, a mdia no nos diz
o que falar. Nem sobre o que falar. Mas em torno do que
falar. A imagem um totem vazio de contedo e cheio de
atraes. O hiper-espetculo a imagem enfim liberada de
uma possvel essncia. Imagem sem sombra. Quando tudo
imagem, no h mais o que refletir. O hiper-espetculo no
um conjunto de imagens, mas uma imagem nica, sob a
aparncia da diversidade, que no permite reflexo. Imagem
irrefletida.
Nem
utopia
nem
distopia.
Pode-se
mudar
de
canal, mas no de programa. Pode-se mudar de rede, mas no
de sentido. Salvo se estivermos numa transio, digamos
assim, um intervalo. Comercial. Anncio ou anunciao?
A utopia persiste como remake exibido em Sesses da
Tarde acadmicas. A distopia servida no horrio nobre
como fico cientfica. Tudo depende do patrocinador. No
virtual,
melhor
espao
tem,
como
sempre,
um
preo
elevado. Quando tudo imagem, porm, na tela total, no
h
mais
espelho.
Nem
sombra.
Fim
do
contraste.
Fim
tranqilo. Sem tragdia nem trama. No hiper-espetculo, a
comdia impera. Nessa sociedade do paradoxo, aqum e alm
da objetividade, todas as escolhas so possveis. Afinal,
estamos na saciedade da (in)diferena.
O espetculo cria um imaginrio disciplinar, sedutor,
suavemente
manipulatrio,
uma
socialidade
virtual
por
excelncia, da qual todos participam afetivamente, uns como
atores, os demais como platia, no isolamento interativo do
lar, navegando agarrado no parapeito do sof. O espetculo
era um simulacro de participao. Ao desmascar-lo, Guy
Debord sonhava com a quebra do controle, a libertao, a
emancipao, a autonomia, a redeno. Pobre Debord, to
ingnuo! Foi o espelho marxista que se quebrou. Debord
nunca poderia imaginar que um Gilles Lipovetsky seria mais
crtico e lcido do que ele. A ironia sempre se supera. O
hiper-espetculo existe em tempo real, 24 horas por dia.
No pode haver emancipao quando todos escolhem mergulhar
na
mesma
tela
lquida
transparente,
declarando,
nas
pesquisas de opinio, sentir-se felizes apesar de tudo.
O espetculo pressupunha um outro mundo invisvel, um
anti-espetculo,
transparncia
absoluta.
hiper-
espetculo entroniza a visibilidade. Tudo simblico. Tudo
imaginrio. Nada h por trs da imagem, nenhum truque a
desvendar,
nenhuma
misso
cumprir.
Nada
para
ser
demonstrado. Somente para ser mostrado. O hiper-espetculo
no o fim da histria, mas somente uma histria sem fim
ou o fim de uma novela, que ter continuao na seguinte.
Logo
vem
prxima,
sempre
igual
diferente,
eterno
retorno da imagem como cola social e como simulacro de
interao delegada. a radicalidade que se esfacela.
O hiper-espetculo no a eliminao do espetculo,
mas a sua acelerao plasmada no bandido que sorri para a
cmera antes de atirar ou no aumento dos rendimentos de
Daniela Ciccareli depois de ser filmada puxando o biquni
para
receber,
numa
praia
espanhola,
doce
veneno
do
escorpio. Doce vulgaridade da sofisticao. Material para
teses sobre o fim do privado e a prostituio do pblico. O
hiper-espetculo um albergue espanhol. Os crticos do
espetculo
nutriram
iluso
da
ruptura.
Eram
bons
marxistas que se viam no espelho rachado da histria como
membros da vanguarda iluminadora do caminho dos alienados.
No
hiper-espetculo,
supostos
acusam
alienados
de
entretanto,
zombam
alienao
dos
elitista
tudo
seus
ou,
se
inverteu:
libertadores
pior
do
que
os
os
isso,
de
manipulao por excesso de ignorncia e de boas intenes.
Passamos da cultura de massa sociedade midocre. A
separao entre alto e baixo, erudito e popular, massivo e
elitista, dissolveu-se numa categoria de marketing: nicho
de
mercado.
converteu
Aquilo
em
que
era
segmentao.
hiper-espetculo,
por
Na
fora
diferena
passagem
do
gosto
ideolgica
se
do
espetculo
ao
do
pblico
do
fracasso das grandes produes revolucionrias, a primeira
vtima
foi
roteirista.
Adeus
aos
picos!
Adeus
ao
protagonista universal! Adeus ao heri fundador! O tempo
agora do cotidiano e das minissries regionalistas.
Todas
as
leituras
continuam
em
aberto.
hiper-
espetculo a comunho em torno da imagem (interpretao a
partir de Michel Maffesoli); o hiper-espetculo a imagem
como simulacro ou desero do real (vis baudrillardiano);
o hiper-espetculo a fase superior do capital simblico
(
la
Bourdieu);
hiper-espetculo
um
dispositivo
aprimorado de controle total e suave (para foucaultianos).
Nenhuma hiptese descartvel. A mais envolvente, contudo,
esta: o hiper-espetculo nada mais do que a vida como
ela , uma longa histria feita de contradies e de novas
episdios.
Algo,
porm,
inquestionvel:
hiper-
espetculo pe fim ao happy end hollywoodiano acalantado
pelos marxistas por quase dois sculos.
Isso
no
significa
que
toda
histria
termine
mal.
Significa apenas que o controle permanece ainda mais remoto
na
medida
em
que
est
ao
alcance
da
mo.
No
hiper-
espetculo, a imagem pode ser pura aparncia. Alm do bem e
do mal. Pois no hiper-espetculo no h mais revelao. O
espetculo
era
analtico.
hiper-espetculo
digital.
Forma sem fundo. Isso tudo no se resume a um mero jogo de
palavras. O hiper-espetculo uma questo de palavras em
jogo. Nesse sentido, o hiper-espetacular :
- Comunho sem Deus.
- Convivncia sem vnculo.
- Afetividade sem compromisso.
- Mudana sem revoluo.
- Consumo sem consumio.
- Imerso sem causa.
- Interatividade sem participao.
- Entrega total por tempo parcial.
No
espetculo,
as
estrelas
aspiravam
eternidade.
dolo e f imaginavam um casamento at que a morte os
separasse. No hiper-espetculo predomina o ficar. Tudo
deliciosa e perigosamente passageiro. O mais importante a
qualidade
oposio
da
ao
relao,
no
espetculo
seu
tomou
tempo
forma
de
durao.
tradicional
A
da
crtica. Os comentrios sobre o hiper-espetculo s podem
adotar a perspectiva irnica, a nica a ser levada a srio
nestes tempos tragicmicos. Apenas velhas tias solteironas
ainda praticam a crtica. E alguns acadmicos nostlgicos.
A crtica no passa agora de uma verdade que se tornou
verdadeira demais e soobrou na trivialidade.
O
hiper-espetculo
conceitos
novos,
exige
geis,
uma
crtica
sucintos,
publicitria:
desconcertantes
divertidos. Debord escreveu 221 teses sobre o espetculo.
Um publicitrio teria apostado tudo na tese 4. Todo Debord
est nela e por ela negado:
1. O espetculo no um conjunto de imagens, mas uma
relao social entre pessoas mediada por imagens (1997, p.
14).
2.
cultura
hiper-espetacular
no
um
conjunto
de
imagens, mas uma relao social entre pessoas mediada por
imagens.
3.
hiper-espetacular
no
um
conjunto
de
imagens
espetaculares, mas uma relao social entre telespectadores
mediada por imagens banalizadas e repetidas exausto.
A crtica ao espetculo era tica. A ironia em relao
ao hiper-espetculo s pode ser esttica. Nada de novo no
front frankfurtiano? O novo um produto que, cada vez
mais, depende da embalagem. Nosso comerciais, por favor! O
hiper-espetculo a imagem sem sua sombra, e o produto
cultural com o seu make-off revisado e corrigido. Chegamos,
parafraseando Michel Maffesoli, ao fundo das aparncias. Um
abismo sem precedentes e paradoxalmente sem fundo.
Guy Debord o homem do sculo. Passado.
O capital social no um conjunto de imagens, mas uma
relao social entre competidores mediada por imagens de
auto-divulgao. O importante no fazer, mas ser visto
fazendo, mesmo que seja um fazer intil. A utilidade
prosaica. A inutilidade pura poesia, despesa sem fundo. O
capital social relao poltica mediada por simulaes,
estratgias,
imaginrio
simulacros
da
representaes
sociabilidade
como
que
vnculo,
geram
comunidade
um
e
prazer. A imagem uma imagem de si mesma.
- Imagem que se faz do outro.
- Imagem de si projetada no outro.
- Imagem que o outro tem de ns.
- Imagem de ns mesmos que desejamos transmitir ao outro.
- Imagem da imagem que idealizamos como imagem padro.
O hiper-espetculo a vitria da imagem la carte,
pay-per-view ao alcance de todos contra a arbitrariedade de
uma emisso de massa. No hiper-espetculo, como imaginrio
da fama, a visibilidade ofusca o seu negativo. O contedo
pode ser preenchido com silicone. Afinal, estamos no pshumano
nada
impede
que
saber
seja
uma
prtese.
importante fazer parte da tribo dos famosos, comungar os
valores da celebridade e celebrar o valor simblico.
A
sociedade
midocre
uma
interminvel
revista
Contigo. O hiper-espetculo a conjugao da aneroxia com
o silicone. Mais e menos. A tese 4 encontra eco na tese
207: As idias melhoram. O sentido das palavras entra em
jogo. O plgio necessrio. O progresso supe o plgio.
Ele
se
achega
frase
de
um
autor,
serve-se
de
suas
expresses, apaga uma idia errnea, a substitui pela idia
correta
(Debord,
1997,
p.
134).
produo
de
conhecimentos uma relao social entre autores que se
plagiam
corrigem
mutuamente
num
colossal
esforo
de
cooperao no consentida e de competio autorizada.
O capital social pode ser obtido por evaso de divisas
imaginrias
pblico.
ou
por
Depois
lavagem
do
de
intimidades
espetculo,
privadas
felizmente,
no
em
h
moralismo. Moral da histria: cenas dos prximos captulos.
Cenas da vida hipermoderna. Estamos mais cnicos. Logo mais
lcidos. Mas hedonistas. Menos crdulos. S cremos de fato
na publicidade feita pelos famosos. Como resistir a um
celular
legitimado
por
Ciccarelli
depois
da
transa
na
praia? O hiper-espetculo reinventa a legitimao. O homem
midocre enterrou a metafsica e tornou-se pragmtico. Se
lhe perguntam pelo tempo, responde sem hesitar: chove.
Definitivamente o hiper-espetculo no um conjunto
de imagens, mas uma imagem de conjunto num tempo de mutao
10
tecnolgica. No uma falsa totalidade, mas uma totalidade
feita de nem falso nem verdadeiro num tempo imediato. Na
lgica do hiper-espetculo o 11 de setembro no aconteceu.
Foi produzido. O homem midocre, o hiper-espectador, no
perdem em nada para os seus antepassados. uma imagem de
sntese. Um holograma. Uma fotografia de si mesmo.
O homem da sociedade do espetculo contemplava o heri
na tela da televiso e do cinema. Ou, como j ironizava
Jean Baudrillard, enterrava-se no vcuo: A imagem do homem
sentado,
contemplando,
num
dia
de
greve,
sua
tela
de
televiso vazia, constituir no futuro uma das mais belas
imagens da antropologia do sculo XX (1990, p. 19). O
sculo XX agora uma vaga lembrana. Baudrillard acertou
ao se fixar na idia de uma imagem. O homem da sociedade
midocre
novamente
protagonista:
ele
se
no
Big
Brother da televiso na pele de um clone seu; alm disso,
v no Big Brother do lotao e sorri para a cmara mesmo
sabendo que ela no est l. O homem midocre simula o
simulacro
do
qual
mero
passivo
contemplador.
Vive
plenamente o seu papel na tela do computador, do telefone
celular e da cmera digital. Coleciona imagens.
O
moderno.
espetculo
Algo
era
designado
representao
para
ser
do
superado.
imaginrio
O
hiper-
espetculo um imaginrio sem representao. Imagem nua.
Deliciosamente obscena. Prostituio sem sexo. Vnculo sem
relao. Afetao sem afeto. Imagem sem ocultao. Culto da
11
imagem
desencarnada.
irrefletida.
Depois
Fim
do
da
iconoclastia.
espetculo,
aps
Imagem
ltima
cena,
comea o primeiro ato: a vida sem contemplao. O crtico
no se v no espelho. Resta o replay de um gol imaginrio,
hiper-real,
real
mais
real
que
real
por
subtrao,
acelerao e substituio. O hiper-real, no entanto, no
mais espetacular que o espetacular. somente o espetculo
depois do fim. Ponto final. Depois do fim das iluses, do
fim das previses, do fim das leis da histria, do fim da
idia de fim. O hiper-espetculo um enredo sem fim.
Nem finalidade.
No
espetculo,
imagem
de
uma
execuo
tinha
ou
deveria ter algum significado, um fim, uma finalidade.
No hiper-espetculo, a imagem de Saddam Hussein morto,
por enforcamento, apenas uma fotografia de celular, um
clich da barbrie no apogeu da civilizao, obtido com uma
cmera furtiva de celular para ser vendido s grandes redes
de televiso e disseminado exaustivamente na Internet como
um
vrus
do
mal
absoluto.
No
mais
que
uma
imagem
sensacional, conseguida no fechamento do ano, para uma boa
retrospectiva. Uma iagem para o You Tube. Uma imagem para
concorrer
com
cabeada
Ciccareli
afastando
de
biquni
Zidane
para
com
ser
gesto
penetrada
de
pelo
namorado no hit parade das imagens mais loucas do ano.
No
Somente
verdade
imagens
nem
para
mentira
voyeurs.
no
hiper-espetculo.
Imagens
virticas.
12
Mortalmente obscenas: o olhar firme de Saddam quando lhe
ajeitaram a corda no pescoo; a discusso com os carrascos;
a orao como um desafio; o olhar sereno de Bush depois de
mentir para justificar a invaso do Iraque e de justificar
a
morte
de
Saddam
com
mentira
de
um
julgamento
sob
encomenda. Vale lembrar: ideologia sempre o pensamento do
outro; barbrie sempre a loucura alheia. Imagens. Apenas.
No
pice
da
civilizao,
sociedade
midocre
hiper-espetacular, impera a lei de talio: olho por olho,
dente por dente, pescoo por pescoo, imagem por imagem. A
pena de morte o outro nome do assassinato. Estatal. Mesmo
que se trate de assassinar um assassino. O que restar de
tudo
isso?
que
restar
desses
processos
miditicos
pretensamente exemplares? Nada mais do que imagens. Se o 11
de
setembro
rompeu
greve
dos
acontecimentos
na
linguagem de Jean Baudrillard ele j no passa agora de uma
imagem
de
retrospectiva,
um
carto
postal
da
estupidez
humana com grandes chances de integrar o lbum das imagens
do sculo XXI. A imagem do segundo avio avanando para
bater
na
torre
ser
certamente
uma
das
imagens
antropolgicas mais exatas para indicar o exato momento do
fim. Fim da humanidade. O humanismo j estava morto desde a
Segunda Guerra Mundial. Fim de uma imagem de homem.
Fim do romantismo niilista de Baudrillard. A imagem do
homem sentado, num dia de greve, em frente sua televiso
fazia
no
pode
mais
acontecer.
Era
uma
imagem
do
13
espetculo. A grave geral acabou. A tecnologia liquidou as
telas vazias. A solido agora (ver Dominique Wolton)
interativa.
Os
homens
vivem
em
rede.
Em
outros
tempos
talvez se ouvisse a exclamao do personagem de Conrad em
Corao das trevas: O Horror! O Horror! Hoje, o horror
um elemento da vida cotidiana e da tela banal.
Definitivamente o mundo nunca mais ser o mesmo depois
das fotografias de celular e do You Tube.
O estado assassino no um conjunto de imagens, mas
uma relao social entre pessoas mediada por imagens.
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