Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007
ARQUEOLOGIA BBLICA
Os Rolos do Mar Morto
Os Rolos do Mar Morto, descobertos, provavelmente, em 1947 por bedunos rabes
chegaram s mos dos estudiosos no fim daquele ano e no comeo de 1948. As
descobertas se realizaram nas cavernas nos penhascos margosos que distam entre um e
dois km ao oeste da extremidade nordeste do Mar Morto, localidade esta que
conhecido pelo nome rabe de Cunr (Qumran), perto de uma fonte copiosa de gua
doce chamada Ain Fexca (Feshkha). Esta localizao margem do deserto de Jud, faz
que s vezes haja a expresso Rolos de Ain Fexca, ou Rolos do Deserto de Jud.
Os rolos foram vistos por vrios estudiosos na parte posterior do ano 1947, e alguns
deles confessam que na poca, menosprezaram-nos como sendo falsificaes. Um dos
professores que reconheceram a verdadeira antiguidade dos rolos foi o falecido Prof.
Eleazar L. Sukenik da Universidade Hebraica, e ele conseguiu mais tarde comprar
alguns deles. Outros rolos foram levados para a Escola Americana de Pesquisas
Orientais em Jerusalm, onde o Diretor interino, Dr. John C. Trever, percebendo seu
grande valor, mandou fotografar os pedaos que foram levados a ele. Uma das suas
fotografias foi enviada ao Prof. William F. Albright, que imediatamente declarou que
esta foi a descoberta a mais importante que j tinha sido feita no assunto de
manuscritos do Antigo Testamento.
Os rolos que foram comprados pela Universidade Hebraica incluam o Rolo de Isaas da
Universidade Hebraica (lQIsb), que contm uma parte do Livro, a Ordem da Guerra,
conhecido tambm como A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas
(1QM), e os Hinos de Aes de Graas, ou Hodayot (1 QH). Os rolos comprados pelo
arcebispo srio e publicados pelas Escolas Americanas de Pesquisas Orientais incluam
o Rolo de Isaas de So Marcos (lQI5a), que um rolo do Livro inteiro, o Comentrio
de Habacuque (lQpHab), que contm o texto dos caps. 1 e 2 de Habacuque com um
comentrio, e o Manual de Disciplina (1QS), que contm as regras para os membros da
comunidade de Cunr. Subseqentemente, estes rolos passaram a integrar o patrimnio
do Estado de Israel, e so conservados num santurio especial da Universidade Hebraica
em Jerusalm. Tm sido publicados em numerosas edies e recenses, e traduzidos
para vrias lnguas, havendo grandes facilidades para quem deseja estud-los em
traduo ou em fac-smile.
Depois da descoberta destes rolos, que so de grande importncia por ter sido quase
unanimemente reconhecido que pertencem ao ltimo sculo a.C. e ao primeiro sculo
d.C., a regio onde foram achados tem sido sujeitada a explorao sistemtica.
Numerosas cavernas tm sido achadas, e at agora, onze destas cavernas tm oferecido
materiais da mesma poca dos rolos originais. A maior parte destes rolos tem vindo da
quarta caverna a ser explorada (Caverna Quatro, ou 4Q), e outros de grande significado
foram achados nas cavernas 2Q, 5Q, e 5Q. Segundo as ltimas notcias, as descobertas
as mais significativas tm sido as da caverna 11Q.
S da caverna 4Q, os fragmentos achado representam um mnimo de 382 manuscritos
diferentes, e uma centena destes so manuscritos bblicos. Estes incluem fragmentos de
todos os livros da Bblia hebraica menos Ester. Alguns dos livros so representados em
muitas cpias diferentes: h, por exemplo, 14 manuscritos diferentes de Deuteronmio,
12 manuscritos de Isaas, e 10 manuscritos dos Salmos, representados nos fragmentos
achados em 4Q; outros fragmentos destes mesmo livros tm sido achados em 11Q, mas
ainda no foram publicados. Um dos achados significantes, que pode ter grande valor
em avaliar teorias sobre data e autoria, diz respeito ao Livro de Daniel, fragmentos do
qual tm a mudana do hebraico para o aramaico em Dn 2:4, e do aramaico para o
hebraico em Dn 7:28-8:1, exatamente como nos textos de Daniel que se empregam mais
recentemente.
Alm dos achados de Livros bblicos, descobriram-se fragmentos de livros
deuterocannicos, especificamente Tobias e Eclesistico, e tambm de vrios escritos
no cannicos. Alguns destes j eram conhecidos: Jubileus, Enoque, o Testamento de
Levi, etc. Outros foram totalmente desconhecidos, especialmente os documentos que
pertenciam ao grupo de Cunr: Salmos de aes de graas, o Livro da Guerra, os
comentrios sobre trechos das Escrituras, etc~ Estes ltimos nos oferecem uma viso da
natureza e das crenas da comunidade de Cunra.
Perto dos penhascos no planalto aluvial que domina as praias do Mar Morto h os
alicerces de um prdio antigo e complexo, muitas vezes chamado de mosteiro. Este
foi totalmente escavado durante vrias estaes, e isto tem desvendado informaes
importantes quanto natureza, ao tamanho e data da comunidade de Cunr. As
moedas achadas ali, juntamente com outros vestgios, tm oferecido indicaes para
fixar a data da comunidade entre 140 a.C. e 67 d.C. Os membros eram quase todos
masculinos, embora que a literatura regulamente as condies para a admisso de
mulheres e crianas. O nmero de pessoas que viviam ali ao mesmo tempo seria
aproximadamente entre 200 e 400. Uns 2 km ao sul, em Ain Fexca, foram descobertos
remanescentes de outras construes, cuja natureza no tem sido exatamente
esclarecida. A gua doce da fonte provavelmente foi usada para o plantio, e para outras
necessidades da comunidade.
Pela literatura que a seita deixou, sabemos que o povo de Cunr era judaico, um grupo
que se separara da corrente central do judasmo que se situava em Jerusalm, e que at
criticava e mostrava hostilidade aos sacerdotes de Jerusalm. O fato de adotarem o
nome Filhos de Zadoque, levou alguns estudiosos a postular que os sectrios de Cunr
fossem vinculados aos Zadoquitas ou Saduceus; outros estudiosos acreditam que seria
mais correto identific-los com os Essnios, uma terceira seita do judasmo, descrita por
Josefo e Flon. No impossvel que haja elementos de verdade em ambas estas teorias,
e que tenha havido originalmente uma ciso na linhagem sacerdotal ou saducia que
aderiu ao movimento chamado dos hasideanos, os antepassados espirituais dos fariseus,
seguida por outra separao posterior para formar uma seita fechada, separatista, parte
da qual se situou em Cunr. Devemos aguardar mais descobertas antes de procurar dar
uma resposta final a este problemas complexos.
A comunidade dedicava-se ao estudo da Bblia. A vida da comunidade era asctica, na
sua mor parte, e suas prticas incluam o banho ritual, que s vezes tem sido chamado
batismo. Alguns estudiosos tm entendido que esta prtica foi a origem do batismo de
Joo Batista. Uma comparao do batismo de Joo com o dos cunranianos mostra, no
entanto, que as duas prticas eram inteiramente distintas entre si. Isto sendo o caso,
mesmo se Joo tivesse pertencido a esta comunidade (o que no se comprovou, e talvez
nunca venha a ser provado), este deve ter desenvolvido distines importantes na sua
prpria doutrina e prtica do batismo.
Alguns estudiosos acreditam que haja elementos do zoroastrismo nos escritos de Cunr,
especificamente no que diz respeito ao dualismo e angelologia. O problema
extremamente complexo. O dualismo do zoroastrismo desenvolveu-se
consideravelmente na era crist, e por este motivo precrio argumentar que as crenas
do zoroastrismo conforme hoje as conhecemos representem as crenas de um ou dois
sculos antes de Cristo.
As descobertas de Cunr so importantes para estudos bblicos em geral. No se pode
tirar concluses acerca do cnon, sendo que o grupo de Cunr era cismtico desde o
princpio, e alm disto, a ausncia do Livro de Ester no implica necessariamente que
rejeitava este Livro do Cnon. Quanto matria do texto do Antigo Testamento, os rolos
do Mar Morto tm grande importncia. O texto do Antigo Testamento Grego, ou
Septuaginta, e as citaes do Antigo Testamento no Novo, indicam que tenha havido
outros textos alm daquele que veio at ns (o Texto Massortico). O estudo dos rolos
do Mar Morto revela claramente que, na poca de serem produzidos, que seria mais ou
menos na poca da elaborao dos manuscritos bblicos utilizados pelos autores do
Novo Testamento, havia no mnimo trs tipos de textos circulando: um pode ser
chamado o precursor do Texto Massortico; o segundo estava nitidamente relacionado
com aquele utilizado pelos tradutores da Septuaginta; o terceiro era diferente de ambos.
As diferenas no so grandes, e em passagem alguma envolvem assuntos de doutrina;
mas para um estudo textual pormenorizado importante que nos libertemos do conceito
que o Texto Massortico seja o nico texto autntico. A verdade que as citaes do
Antigo Testamento que se acham no Novo, do margem para se compreender que no
foi o Texto Massortico aquele que mais se empregava pelos autores do Novo
Testamento. Precisamos qualificar estas declaraes pela explicao que a qualidade do
texto diferente entre os vrios livros do Antigo Testamento, e que h muito mais
uniformidade no texto do Pentateuco do que em algumas outras pores da Bblia
Hebraica. Os rolos do Mar Morto tm feito uma grande contribuio para, o estudo do
texto dos Livros de Samuel.
No que diz respeito ao Novo Testamento, os rolos do Mar Morto so igualmente de
grande importncia. Obviamente, no existe nenhum texto do Novo Testamento nas
descobertas de Cunr, sendo que o primeiro Livro do Novo Testamento foi escrito muito
pouco tempo antes da destruio da comunidade de Cunr. Alm disto, no h motivo
algum para que alguma escrita neotestamentria tenha sido trazido a Cunr. Por outro
lado, h certas referncias e pressuposies no Novo Testamento, mormente na
pregao de Joo Batista e Jesus Cristo, e nas escritas de Paulo e Joo, que podem ser
colocados contra um pano de fundo reconhecidamente semelhante quele descrito nos
documentos de Cunr. Por exemplo, o pano de fundo gnstico de certas escritas
paulinas que antigamente foi considerado como situao histrica do gnosticismo grego
do segundo sculo d.C. o que implicaria numa data posterior para a composio da
Epstola aos Colossenses reconhecese agora como sendo o gnosticismo judaico do
primeiro sculo d.C. ou ainda antes da era crist. Semelhantemente, o estilo do Quarto
Evangelho revela-se como sendo palestiniano e no helenstico.
Muita coisa tem sido escrito no assunto do relacionamento entre Jesus Cristo e a
comunidade de Cunr. No h evidncia nos documentos de Cunr que Jesus tenha sido
membro da seita, e nada h no Novo Testamento que exija tal ponto de vista. Bem ao
contrrio, a maneira de Jesus encarar o mundo, e mais especialmente, Seu prprio povo,
diametricalmente oposta cosmo viso de Cunr, e podemos declarar, sem medo de
errar, que Jesus no tenha sido membro daquele grupo em tempo algum. Pode ter sido
alguns discpulos que tenham surgido de um passado deste tipo, mais especificamente
os discpulos que antes seguiam a Joo Batista, mas h muita falta de provas neste
assunto. A tentativa de comprovar que o Ensinador da Retido de Cunr tenha servido
como padro da descrio de Jesus que se registra nos Evangelhos no se corrobora pelo
estudo dos rolos do Mar Morto. O Ensina-dor da Retido era um jovem magnfico com
grandes ideais, que morreu cedo demais; no h, no entretanto, nenhuma declarao
clara que tenha sido condenado morte, nem se pode inferir que tenha sido crucificado
para ento ressurgir dentre os mortos, e que os sectrios de Cunr tenham aguardado sua
volta. A diferena entre Jesus e o Ensinador da Retido destaca-se nitidamente em
vrios pormenores: o Ensinador da Retido nunca foi considerado o Filho de Deus ou
Deus Encarnado; sua morte no se revestiu de natureza sacrificial; a refeio
sacramental (se realmente tenha sido isto mesmo), no era considerada como sendo uma
lembrana da sua morte nem como uma promessa da sua volta, e nada tinha que ver
com a remisso dos pecados. t bvio que no caso de Jesus Cristo, todos estes aspectos
so claramente declarados, no s urna vez, mas repetidas vezes no Novo Testamento, e,
afinal, so doutrinas fundamentais sem as quais no poderia existir a f crist.