PEREIRA, Rui - Raça, Sangue e Robustez
PEREIRA, Rui - Raça, Sangue e Robustez
Africanos
7/8 (2005)
Varia
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Rui M. Pereira
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Rui M. Pereira, Raa, Sangue e Robustez. Os paradigmas da Antropologia Fsica colonial portuguesa, Cadernos
de Estudos Africanos [Online], 7/8|2005, posto online no dia 03 Junho 2014, consultado o 22 Dezembro 2014.
URL: [Link] DOI: 10.4000/cea.1363
Editor: Centro de Estudos Internacionais
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Este documento o fac-smile da edio em papel.
Centro de Estudos Africanos do ISCTE - Instituto Universitrio de Lisboa
colonial portuguesa
Rui M. Pereira
Por toda a primeira metade do sculo XX a Antropologia colonial portuguesa esteve quase
que totalmente entregue a uma orientao antropobiolgica. A denominada escola do Porto,
na qual pontificava o professor catedrtico de medicina Mendes Corra, assegurou todas as
misses antropolgicas oficialmente institudas para as colnias. A mais sucedida de todas
essas campanhas de investigao foi a dirigida por um seu assistente, Santos Jnior, tambm
ele mdico e professor na Faculdade de Medicina do Porto. Entre 1937 e 1956, a Misso
Antropolgica de Moambique procedeu ao exaustivo levantamento antropomtrico das populaes africanas da colnia. A Etnologia, ou a simples recolha etnogrfica, eram ignoradas, deixadas ao cuidado da curiosidade diletante dos mais diversos agentes da colonizao, missionrios, militares, funcionrios administrativos, comerciantes e fazendeiros.
Porque foi to importante para o desgnio colonial portugus a Antropologia Fsica o que
se procura responder neste artigo. E, em sequncia, tentar perceber porque no incio da segunda metade do sculo XX foi a Antropologia Fsica to subitamente substituda pela Etnologia
colonial.
During the first half of the twentieth century, Portuguese Colonial anthropology was
almost completely centered in biological anthropology. The so called Escola do Porto
(Oporto School) founded by the well reputed Doctor of Medicine, Professor Mendes Correia,
conducted all the Overseas Anthropological Missions, officially institutionalized by the
colonial government. The most well succeeded Research Campaign was coordinated by one of
his disciples, Santos Jnior, who was also a Doctor and Lecturer at the Oporto Faculty of
Medicine. Between 1937 and 1956, Mozambique Anthropological Mission carried out an
extensive anthropometric survey of the African populations from the colony. Ethnology, or
basically ethnographic collection, was disregarded, left in the hands of curious dilettantism of
the several colonial officers, missionaries, soldiers, administrative technicians, merchants and
landowners.
The important role assigned to Biological Anthropology in relation with Portuguese colonial enterprise is the central issue addressed in this paper. And subsequently, trying to understand why, during the second half of the twentieth century, was Biological Anthropology so
suddenly substituted by Colonial Ethnology.
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veio, por exemplo, Joaquim Rodrigues dos Santos Jnior que, no terreno, dirigiu as
seis campanhas (1936, 1937, 1945, 1946, 1948, 1955) da Misso Antropolgica de
Moambique, sem dvida a mais esforada e sucedida das misses antropolgicas
ento criadas. Se bem que o objectivo enunciado no decreto de criao tenha sido
atingido, isto , ao fim das seis campanhas a Misso tinha j elaborado uma carta
etnolgica de Moambique com cerca de 80 designaes etnonmicas, os membros da
equipa estavam sobretudo preocupados no levantamento de dados antropomtricos,
na boa tradio da escola antropolgica do Porto:
Observmos muitos milhares de indgenas [...] e temos em arquivo mais de 12 000
fichas antropolgicas, com uma mdia de 20 medidas cada uma. Num certo nmero de
ndices de maior importncia antropolgica esto j feitas umas 80 000 determinaes,
duma boa parte das quais se fizeram as seriaes e calcularam as mdias, os desvios padres
e seus erros provveis. Estes milhares de nmeros, apreciados estatisticamente, ho-de fornecer elementos para a apreciao somtica das tribos e suas relaes de similitude ou
diversidade (SANTOS JN IOR, 1956a: 7).
Nos vinte e trs anos de aco das Misses Antropolgicas de Moambique2,
entre 1936 e 1959, foram publicados, em resultado e no quadro daquelas misses, 44
trabalhos, dos quais apenas 14 relevam dos desgnios da Etnografia3. Prosperavam
os estudos de antropometria, sobretudo aqueles que diziam respeito ao aproveitamento da fora de trabalho e cujos objectivos so facilmente descortinveis, como,
entre outros (e apenas para o caso de Moambique), Contribuio para o estudo das
relaes entre os grupos sanguneos e os caracteres fsicos dos negros de
Moambique (tribo Tonga-Changane) (ALBERTO, 1954a) e, mais significativamente,
Contribuio para o estudo da robustez da raa Maconde (REIS, 1954) ou
Variaes da robustez dos trabalhadores Macondes (REIS, 1955). A persistncia de
estudos antropolgicos desta natureza em meados da dcada de 50 do sculo passado parece indicar um no alinhamento com o ento propalado novo quadro ideolgico da poltica colonial portuguesa, mas se isso aconteceu foi porque as reformas
constitucionais de 1951 e todas as disposies legislativas que lhes estiveram associadas no tiveram qualquer correspondncia no domnio da realidade social, poltica e
econmica das colnias. Referindo-se reviso constitucional de 1951, particularmente permuta do termo colonial pela designao ultramar, Adriano Moreira
reconheceu explicitamente que tal substituio teve na base mais a preocupao de
tomar uma atitude perante as tendncias internacionais do que exprimir um novo sentido da
poltica consagrada nos textos (MOREIRA, 1960: 318).
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A Misso conheceu vrias refundaes e determinaes legislativas: o Decreto-Lei n. 34 478, de 3 de Abril de 1945;
a Portaria n. 15 240, de 4 de Fevereiro de 1955; e, finalmente, a Portaria n. 16 736, de 19 de Junho de 1958, que, reformulando o prazo de durao da Misso estabelecido na Portaria anterior, a extinguiu.
E mesmo assim, com os sugestivos ttulos de Sobre tatuagens em relevo nos indgenas da Zambzia, Alguns
muzimos da Zambzia e o culto dos mortos, A alma do indgena atravs da etnografia de Moambique. A lista
exaustiva das obras publicadas no quadro das Misses Antropolgicas de Moambique poder ser consultada em
SANTOS JNIOR, 1956a, pp. 23-31.
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2. Aplicabilidade e utilitarismo
No incio dos anos 30, a iniciativa de renascimento do esprito imperial na cincia partiu dos prprios cientistas. Como se pode deduzir dos muitos votos de acadmicos das universidades do Porto, Coimbra, Lisboa e da Escola de Medicina de Goa
no 1. Congresso Nacional de Antropologia Colonial, realizado no Porto em 1934, os
antroplogos fsicos apostavam em colocar a investigao cientfica ao servio da
revalorizao das colnias (CORRA, 1935a: 21). Apesar de todo o entusiasmo pelas
novas possibilidades de investigao e novos domnios de aplicao que ento surgiam para a Antropologia Fsica, atravs da sua aplicao nas colnias, o balano do
interesse manifestado at ento pelo Estado e pela opinio pblica era modesto. No
sem algum sarcasmo, Mendes Corra, principal mentor do congresso, comentava
assim o generalizado desinteresse pelos problemas coloniais nas escolas e universidades portuguesas (CORRA, 1935a: 26):
As nossas Universidades e escolas vivem geralmente num mundo abstracto em
que parecem ignoradas as colnias, a no ser por vezes ao comentarem algumas estrofes dos
Lusadas ou quando se entra em conta com uns pobres mapas, suspensos das paredes e
mais visitados pelas moscas indiscretas do que pelos olhares verdadeiramente interessados
da mocidade dum pas dotado duma conscincia imperial.
Na sesso de encerramento do Congresso os participantes aprovaram um programa detalhado para a criao de institutos cientficos coloniais e misses de pesquisa
no terreno para a investigao sistemtica dos indgenas sob uma perspectiva
antropolgica, psicolgica e lingustica. Supe-se que na sequncia das concluses do
Congresso, a Junta de Educao Nacional do Ministrio da Educao encarregou
Mendes Corra da elaborao de um plano para a ocupao cientfica das colnias.
O plano, apresentado por Mendes Corra em 1935 Junta de Educao Nacional,
previa o envio de misses de investigao cientfica das universidades do Porto,
Coimbra e Lisboa, essencialmente para Angola e Moambique, nas reas da Botnica,
da Zoologia e da Antropologia Fsica (CORRA, 1945: 3-4; SANTOS JNIOR, 1944: 5).
Contudo, ignorando todos esses esforos para colocar as universidades no centro
da investigao colonial, em Janeiro de 1936 o Governo decidiu fundar um organismo autnomo, na dependncia do Ministrio das Colnias, para a coordenao e
promoo das cincias coloniais. A criao da Junta das Misses Geogrficas e de
Investigaes Coloniais (JMGIC) foi includa no decreto de reforma da lei orgnica
do Ministrio das Colnias4. Em 1945 a JMGIC acolheu uma nova lei orgnica, atravs da qual se declarava que a Junta e, em ltima instncia, o Ministrio das Colnias,
passava a ser responsvel pela conduo e coordenao de todas as misses de investigao oficiais nas colnias, bem como por todos os centros de estudos e investiga4
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es na rea das cincias coloniais por iniciativa privada ou de institutos estrangeiros5. A nova lei orgnica da Junta determinava as reas de especializao das cincias
coloniais por ela abrangidas, as quais foram divididas em duas seces: uma seco
geogrfica e uma seco para a Histria Natural. A esta ltima pertenciam a
Geologia, a Zoologia, a Botnica, a Antropologia e a Etnologia. Infelizmente, o decreto no explana mais detalhadamente os contedos dos estudos antropolgicos e
etnolgicos para podermos, por a, aferir dos critrios que presidiram sua distino.
Contudo, como iremos constatar, no se pode inferir de imediato que o estudo da
dimenso social e cultural do Homem mereceria, por parte da Junta, um tratamento
equitativo ao da perspectiva antropobiolgica. As misses antropolgicas e etnolgicas enviadas pela JMGIC para as colnias eram dirigidas por antroplogos fsicos
(Santos Jnior em Moambique, Amlcar Mateus na Guin e Antnio de Almeida em
Angola, Cabo Verde, So Tom e Prncipe e Timor), com formao na rea das cincias naturais e estreitamente ligados ao grupo que temos vindo a designar por
Escola do Porto6, na qual pontificava Mendes Corra. A influncia de Mendes
Corra na JMGIC, cuja seco antropolgica foi por ele conduzida a partir de 1936
(CORRA, 1952b: 29), saiu reforada nessa reforma da lei orgnica de 1945 com a
nomeao do Professor de Antropologia Fsica do Porto, em 1946, para presidente da
Junta das Misses Geogrficas e de Investigaes Coloniais.
Convm neste ponto esclarecer que a designao Escola do Porto que temos vindo a utilizar nesta dissertao e em outros textos nossos j publicados no , de modo algum, uma classificao forada e redutora. O
prprio Mendes Corra assumiu, em 1940, que esse grupo de antroplogos fsicos representava um verdadeiro escol (CORRA, 1940a: 619-636).
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1923, ocupava-se exclusivamente da Antropologia Fsica e era suportado pela disciplina de Antropologia como subrea da Biologia da seco de Histria Natural, bem
como pelo Museu Antropolgico que lhe estava associado e pelo Laboratrio
Antropolgico da Universidade do Porto7. A SPAE, fundada em 1918 com a sua
revista Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia8 , inclua
nas suas reas de estudo, alm da Antropologia Fsica, tambm a Pr-Histria e a
Etnografia de Portugal.
O ncleo duro da Escola do Porto era composto por mdicos e bilogos que se
dedicavam Antropologia Fsica e publicavam regularmente estudos cientficos,
alguns dos quais versando matrias que diziam respeito quer Pr-Histria e
Arqueologia, quer ao Folclore e Etnografia. Mendes Corra era a principal figura em
ambas as instituies: como mdico, assistente de biologia e mdico legista, estava
desde 1912 frente da disciplina de Antropologia, bem como do Museu e do
Laboratrio Antropolgico da Universidade do Porto; em 1921 ascendeu ao lugar de
professor ordinrio da mesma universidade e, a partir de 1923, a director do Instituto
de Antropologia. A Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, que tinha
sido fundada em 1918 por sua iniciativa, foi por ele presidida at 1954 (CORRA,
1940a: 619-636; MONTEIRO, 1959: 296-305; MONTEIRO, 1960: 160-163; SANTOS JNIOR,
1982: 189-209).
O conceito de Antropologia de Mendes Corra e da Escola do Porto englobava,
contudo, dois aspectos contraditrios entre si: por um lado, a Antropologia era entendida como uma cincia de integrao abrangente, incluindo no s a Antropologia
Fsica, mas tambm a Pr-Histria, a Etnografia e a Psicologia. Por outro lado, a
Antropologia Fsica baseava-se na raciologia e na teoria da hereditariedade que, por
natureza, excluam uma perspectiva social e cultural. Dessa forma, a
Antropobiologia, que surgiu a partir dos anos 20 com os novos mtodos da anlise
de grupos sanguneos, partia de uma explicao biolgica da mentalidade das diferentes raas (CORRA, 1933: 18):
A Antropobiologia ocupa-se de investigaes sbre a hereditariedade normal e
patolgica no homem, dos estudos eugnicos, da fisiologia das raas, dos grupos sanguneos e outros assuntos de bioqumica humana, das constituies e temperamentos, da determinao da base biolgica da mentalidade e actividade das diferentes raas.
Convm esclarecer, aqui chegados, a utilizao, muito frequente nos textos de
Antropologia Fsica dos autores da Escola do Porto, dos conceitos de Etnologia e
Etnografia, como se fossem definidos enquanto estudo das raas. Esta aparente confuso pode ser explicada pelo sentido muito amplo que Mendes Corra empres7
A disciplina de Antropologia foi introduzida nas universidades de Lisboa e do Porto com a reforma universitria de 1911 a Universidade de Coimbra j inclua esta disciplina desde 1885. Em 1923 a disciplina foi reconhecida oficialmente ao ser constitudo, pelo Decreto-lei n. 9344 de 29 de Dezembro, o Instituto de
Investigao Cientfica de Antropologia da Faculdade de Cincias da Universidade do Porto, agregando o
Museu e Laboratrio Antropolgico.
Em 1947 a designao da revista foi alterada para Trabalhos de Antropologia e Etnologia.
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Paul Broca (1824-1880) fundou a Socit dAnthropologie de Paris em 1859 e considerado a figura fundadora da Antropologia Fsica francesa. A sua definio do conceito de thnologie como estudo das raas e,
assim, como uma subrea da Antropologia Fsica perdurou em Frana at aos anos 40 do sculo XX, o que
ajuda a compreender o porqu de em Frana se ter utilizado o termo thnographie em substituio de
Ethnologie at altura em que Lvy-Bruhl, Mauss e Rivet se apropriam do conceito. Ver, a este propsito,
SIBEUD, 2002: 266; e STOCKING Jr., 1984.
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Mendes Corra que no estando disponvel, devido a outros compromissos, concedeu ao seu assistente Joaquim Rodrigues dos Santos Jnior uma bolsa para a realizao dessa viagem de estudo (SANTOS JNIOR, 1939b: 170). O programa dessa misso
de estudo que viria a constituir, mais tarde, a primeira campanha da Misso
Antropolgica de Moambique, inclua, alm de uma estadia de vrios meses no distrito do Tete, uma visita s universidades da Unio Sul-Africana. Em 1937 foi aprovada uma segunda campanha da Misso Antropolgica de Moambique em Tete e
na Zambzia e, em seguida, uma viagem de estudo de um ms aos museus coloniais de Paris, Bruxelas, Amesterdo e Berlim12. Esta disposio legislativa no definia
ainda objectivos de investigao concretos, limitando-se a indicar as reas de investigao: Antropologia, Arqueologia e Etnografia.
S em 1945, embora ainda antes da reorganizao acima referida, a Junta das
Misses Geogrficas e de Investigaes Coloniais assumiu a tarefa de elaborar linhas
programticas para a organizao de misses antropolgicas e etnolgicas
enquanto misses de investigao especficas e independentes de outros domnios de
investigao, como a Geografia. Com o envio dessas misses de investigao tambm para outras colnias, almejava efectuar uma comparao sistemtica de resultados. De facto, o Decreto-Lei n. 34 478, de 3 de Abril de 1945, determinava que as
misses antropolgicas e etnolgicas a organizar deveriam ter por finalidade
investigar as populaes das colnias de uma perspectiva bio-tnica e que os objectivos de investigao a cumprir seriam os seguintes:
Os objectivos fundamentais das misses antropolgicas so: 1. O reconhecimento geral dos grupos tnicos de cada colnia, seus indivduos, sua sistematizao e definio das suas condies de vitalidade; 2. O estudo das instituies tradicionais das
populaes indgenas e do seu direito consuetudinrio13.
Apesar de o Decreto no indicar explicitamente reas de especializao especficas, estes objectivos de investigao permitem deduzir que tanto a Antropologia
Fsica como a Etnografia e a Etnologia Jurdica deveriam ser includas nas reas de
investigao das misses antropolgicas e etnolgicas. Para a elaborao do programa de cada campanha, os lderes das misses, nomeados pela Junta das Misses
Geogrficas e de Investigaes Coloniais, deveriam consultar ainda os servios de
sade e a administrao civil da colnia em questo, de modo a orientar os principais objectivos de investigao para as necessidades locais da administrao colonial e
as autoridades das colnias deveriam, por seu lado, prestar s misses de investigao todo o auxlio solicitado e, em caso de necessidade, disponibilizar temporariamente todo o pessoal necessrio. Os programas definitivos, as calendarizaes das
campanhas e o pessoal que participava nas misses de investigao deveriam ser
regulamentados por decreto do Ministro das Colnias.
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acastanhada (mecha X da escala de Fischer-Saller); testa alta, vertical e ligeiramente proeminente (convexa); face de contrno rmbico, nos homens, e elptico, nas mulheres (respectivamente n. 7 e n. 1 da escala de Pch), achatada e com mas de rosto regularmente
salientes; olhos castanhos escuros (n. 2 da escala de Martin); olhos horizontais; nariz de
raiz larga e achatada; dorso do nariz arrendondada; asas do nariz rectilneo (n. 8 da tabela de Martin); ponta do nariz arredondada; asas do nariz finas e com a linha do bordo
ascendente; narinas de forma elptica (n. 4 da tabela de Topinard); lbios grossos (n. 3 da
tabela de Martin), com a parte epidrmica do lbio superior cncava e baixa (n. 10 da tabela de Martin); dentes direitos, de tamanho mdio e, muitas vezes, com mutilaes nos
ngulos internos dos incisivos; orelhas afastadas; tatuagens distribuidas pela face e vrias
regies do corpo, umas em relevo, as mais abundantes, outras por impregnao (SANTOS
JNIOR, 1945: 149).
Santos Jnior demonstrava uma particular apetncia pela descrio exaustiva das
caractersticas fsicas uma vez que, na sua opinio, no existiam sries de medies
que pudessem substituir a impresso visual global das categorias rcicas (SANTOS
JNIOR, 1948: 9). Durante as campanhas de investigao da Misso conseguiu uma
maior preciso das escalas e tabelas utilizadas na poca e acrescentou, por exemplo,
seis categorias tabela de formatos de cabelo de Rudolph Martin14, tendo os seus
resultados merecido alguma divulgao internacional (Santos Jnior, 1951). As caractersticas descritivas a que a Misso Antropolgica de Moambique prestava particular ateno estendia-se tambm s tatuagens e s marcas de ndole cultural nas orelhas e nos dentes, no lxico da Misso designadas por mutilaes tnicas. A descrio dessas particularidades coube, fundamentalmente, ao filho do Chefe da Misso.
Norberto dos Santos Jnior, contudo, viria a confessar algo candidamente que no
tinha a possibilidade de estudar o significado cultural dessas mutilaes tnicas,
prevendo o seu rpido desaparecimento sob a influncia da aco civilizadora dos
portugueses (J. N. SANTOS JNIOR, 1962: 280).
A quantidade das caractersticas fsicas mensuradas por Santos Jnior e os ndices e coeficientes calculados, que produziram um total de 32 valores, to impressionante como a abundncia de caractersticas descritivas acima mencionada. Nas duas
primeiras campanhas foram mensurados no mais de 345 indivduos mas nas terceira, quarta e quinta campanhas o nmero de amostras dos grupos populacionais
investigados foi muito superior um total de 8 000 indivduos (SANTOS JNIOR, 1952a:
625). Apesar disso, de todas essas incontveis descries e mensuraes em milhares
de indgenas, pode-se afirmar que Santos Jnior e a sua Misso Antropolgica de
Moambique no atingiu os objectivos lhe foram previamente traados pela JMGIC,
isto , estabelecer uma base para a racionalizao do aproveitamento da mo-de-obra
14
Rudolph Martin (1864-1926), antroplogo alemo da escola de Eugen Fischer, que inclua, ainda, Otto Aichel,
Egon Frieherr von Eickstadt, Ernest Rudin, entre outros, agrupados no Instituto Kaiser-Wilhelm de
Antropologia, Hereditariedade Humana e Eugenismo de Berlim, pea fundamental no suporte s teorias
racistas do nacional-socialismo alemo do III Reich.
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africana, etnia a etnia, a partir do clculo de ndices de robustez e vitalidade veiculados por todos esses indicadores antropomtricos. As comparaes tnicas limitaramse a alguns, poucos, trabalhos no domnio da serologia, incidindo particularmente
sobre o grau de homogeneidade gentica de algumas etnias (SANTOS JNIOR, 1937;
SANTOS JNIOR & ISIDORO, 1957), no se encontrando um nico texto na rea de uma
almejada e potencialmente necessria Antropologia da fora de trabalho.
Podemos, neste ponto, tentar compreender as razes desse relativo insucesso.
Radicam, em nossa opinio, na dbil percepo que Santos Jnior possua do conceito de grupo cultural. Em boa verdade, Santos Jnior utilizou os conceitos de tribo,
etnia e raa, frequentemente como sinnimos no sentido de um grupo populacional
com laos de sangue. E o principal problema residia a, nessa dificuldade em atribuir um valor taxonmico a cada grupo populacional no mbito de um sistema de
classificao biolgico, uma vez que as opinies dos informadores, bem como as
representaes mais antigas sobre parentesco e origens dos grupos tnicos em
Moambique, no permitiam tirar concluses claras quanto a essa questo.
Se os embaraos e a diversidade de opinies so grandes no que respeita aos parentescos, origens e razo de ser dos nomes dos diferentes grupos tnicos, a confuso no
menor quanto ao valor do grupo taxionmico a atribuir a cada uma dessas designaes
tnicas. O que para uns uma raa, para outros uma sub-raa ou apenas tribo, ou at
nem uma coisa nem outra (SANTOS JNIOR, 1945: 111).
Apesar da confisso de uma certa confuso, Santos Jnior estava armado da inabalvel convico de que um grupo tnico se caracterizava por uma homogeneidade gentica (no sentido de tribo), esperando chegar a concluses definitivas sobre
se um grupo populacional teria, ou no, uma pertena tnica, precisamente atravs
de pesquisas antropolgicas (leia-se antropomtricas) sistemticas. A metodologia
empregue obedecia sempre mesma imutvel sequncia: numa primeira fase, eram
consultados relatos de viagem de sculos anteriores no que se refere a informaes
sobre a distribuio tnica, tentando identificar-se os diversos nomes dos grupos
populacionais como as denominaes de tribos, de cls ou geogrficas; depois, se
necessrio, para esclarecer certas dvidas ou imprecises a esse respeito eram consultadas autoridades africanas da regio em causa, bem como outros informadores;
finalmente, um inqurito tribal dos indivduos a avaliar deveria permitir efectuar
uma seleco no que se refere sua pureza tnica.
Cuidado metodolgico adicional era ainda a preocupao em limitar a investigao a indivduos de etnia pura at segunda gerao, i.e., aos indivduos cujos pais
e avs paternos e maternos pertenciam mesma tribo, excluindo assim os cruzamentos entre tribos diferentes (SANTOS JNIOR, 1940b: 16, 58; SANTOS JNIOR, 1948a:
119; SANTOS JNIOR & ISIDORO, 1957: 407). Contudo, os exemplares de etnia pura
eram frequentemente uma minoria, como revela expressivamente o seguinte exemplo de trabalho de campo da Misso na Circunscrio do Zumbo, no vale do
Zambeze:
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No dia em que estudava os Chicundas, impressionado pela diversidade dos caracteres que notei num grupo de oito homens, que me esparavam para ser medidos, averiguei
que apenas um era filho de pais chicundas. S sse foi medido. Os sete restantes, deram as
seguinte indicaes de progenitura: 1., pai Senga e me Srro; 2., pai Senga e me
Chicunda; 3., pai N`jaua ou N`chaua e me Mulamba; 4. pai Chuabo e me Aluano; 5.
pai Atande e me Chicunda; 6. pai Zimba e me Chicunda; 7. pai Zimba e me Srro.
O ltimo prto desta srie repetidas vezes respondeu que o pai era Macanga e s instado
que terminou por se dizer filho de Zimba (SANTOS JNIOR, 1940b: 58).
Estes inquritos tribais foram um verdadeiro logro, pois Santos Jnior ignorava a extenso cultural dos etnnimos, preso que estava a critrios de natureza rcica. A questo agravou-se quando Santos Jnior, incapaz de registar com preciso os
limites dos grupos tnicos, estendeu os seus inquritos tribais ao parentesco, tentando registar os nomes dos cls mas ignorando completamente se se tratava de sociedades de linhagem matrilinear ou patrilinear. O quebra-cabeas resultante das
denominaes de parentesco levou Santos Jnior a atribuir aos indgenas aquilo
que ele designou de confuso espiritual, no reconhecendo a sua manifesta incapacidade em levantar e analisar sistemas classificatrios de parentesco:
Explicada uma e muitas vezes que pretendamos averiguar a tribo de cada um e a
sua cabila () , verificmos que a cada momento as declaraes eram contraditrias,
confusas ou to dspares que at parecia um propsito fazerem trapalhada.
Independentemente da dificuldade que por vezes h em fazer compreender os pretos, surgem embaraos doutra ordem (). Ao tentar esclarecer uma trapalhada de cabilas de
dois pretos e dos seus ascendentes at segunda gerao, recebi do lngua este esclarecimento, apontando um deles: Este irmo mais velho. Esta afirmao vinha reforar as
dvidas em vez de as esclarecer. S passado um bocado mais que o lngua elucidou suficientemente quando disse: A me deste e deste (e apontou os dois pretos) eram irms da
mesma barriga. Quer dizer: aqueles dois pretos no eram nada irmos mas simplesmente primos. Razo desta trapalhada: consideram as tias, mes (SANTOS JNIOR, 1948a: 74).
Hilariante, no fora o caso de se tratar de um Professor Extraordinrio de
Antropologia da Faculdade de Cincias da Universidade do Porto. Sendo certo que
s no ano seguinte, 1949, Claude Lvi-Strauss publicaria o seu Les Structures lmentaires de la Parent, o evolucionista Lewis Henry Morgan j publicara, em 1870,
Systems of Consaguinity and Affinity of the Human Family, obra fundadora da distino
entre terminologias de parentesco descritivas e classificatrias.
A quase total ignorncia dos conceitos bsicos da Antropologia Cultural sua contempornea levou Santos Jnior a cometer outros erros semelhantes, mesmo quando
parecia reportar-se apenas sua Antropologia Fsica. Por exemplo, os seus estudos
serolgicos concluram que os Nhngus eram geneticamente mais homogneos,
logo etnicamente mais puros, do que os povos vizinhos e apresentou como explicao a ideia de os Nhngus serem possuidores de um sentido de superioridade
muito marcante, sendo por isso mais propensos a casarem entre si (SANTOS JNIOR
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& ISIDORO, 1957: 407, 425). Ora todos os estudos conhecidos sobre os povos do vale e
delta do Zambeze apontam exactamente na direco oposta. Historiadores e etnlogos so unnimes na afirmao de que os povos dessa regio provm de uma mistura secular entre vrios povos matrilineares do sul, povos de linhagem patrilinear do
norte e vrios invasores externos (ISAACMAN, 1972: 443; ISAACMAN, 1976: 20-ss). Por
este motivo, de uma perspectiva etno-histrica, especialmente na regio do vale e do
delta do Zambeze, seria tarefa intil utilizar grupos populacionais definidos geogrfica e geneticamente como ponto de partida para uma investigao sobre os povos
locais.
Esta confuso o resultado lgico do insucesso em examinar adequadamente a
complexa composio tnica e cultural dos povos que vivem ao longo do rio Zambeze, entre
Tete e o Oceano ndico. Existiu a tendncia para designar indiscriminadamente populaes
vivendo em reas geogrficas alargadas como pertencendo a uma mesma tribo, sem levar
em linha de conta os seus ascendentes histricos ou as suas afinidades tnicas e culturais
com outras populaes vizinhas. A classificao dos Cheringoma, Nhngus e Anguru
como grupos tnicos distintos um desses casos (ISAACMAN, 1972: 444).
A confuso presente na investigao de Santos Jnior no vale do Zambeze tambm chamou a ateno de Mendes Corra, mas os pressupostos bsicos da sua
Antropologia Fsica sobreviveram sem dificuldade a essa incoerncia, refugiando-se
na inexistncia de dados sobre o objecto de estudo (os povos da regio): A confuso
etnogrfica na Zambzia () desafia qualquer tentativa de sistematizao segura, com os elementos que dispomos actualmente (CORRA, 1943: 519).
Finalmente, uma pequena nota sobre a forma como a Misso arregimentava
exemplares para as suas mensuraes e descries. Santos Jnior assinala nos seus
textos, por diversas vezes, a relutncia da populao em relao s colheitas de sangue. Os chefes das aldeias ignoravam tambm frequentemente as intimaes de arregimentao de indgenas, para grande contrariedade de Santos Jnior (SANTOS
JNIOR, 1940b: 16, 38, 43). Assim, sobretudo nas duas primeiras campanhas, contou
com a participao activa do chefe de polcia de Tete de modo a no ter de esperar
pacientemente no posto local da administrao colonial at que, por algum acaso,
alguns africanos aparecessem para, voluntariamente, pagar os impostos (SANTOS
JNIOR, 1938: 296; SANTOS JNIOR, 1940b: 70; SANTOS JNIOR, 1948a: 100).
4.2. Estudos psicotcnicos
Nas terceira, quarta e quinta campanhas entrou em aco a brigada de estudo
liderada por Antnio Augusto, a cuja investigao a Junta das Misses Geogrficas e
de Investigaes Coloniais e Santos Jnior atriburam um grande significado:
No me parece que a administrao poltica e a utilizao econmica das populaes ultramarinas possam fazer-se sem orientaes inspiradas nos resultados de trabalhos
desta natureza. Erraria gravemente quem supusesse todas as populaes susceptveis de se
aferirem pelo mesmo padro psicolgico (SANTOS JNIOR, 1950: 423).
RUI M. PEREIRA
Robert Mearns Yerkes (1876-1956), psiclogo, desenvolveu para o exrcito americano uma bateria de testes psicotcnicos para avaliar da inteligncia dos recrutas. A primeira aplicao desses testes decorreu em 1917 e o modelo por
ele desenvolvido rapidamente passou a ser aplicado, at data muito recente, nas incorporaes militares de inmeros pases (incluindo Portugal). A sua principal obra neste domnio Robert Mearns Yerkes (1921), Psychological examining in the United States Army, citada em Stephen Jay GOULD (1981), The Mismeasure of Man, Norton, New York.
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diversos, consoante a srie de testes, pelo que crianas africanas conseguiram, nalguns testes, melhores resultados do que as portuguesas (AUGUSTO, 1950: 425).
Todavia, a ateno de Augusto no se ateve nesses desvios postulada superioridade intelectual dos europeus, confirmando, outrossim, os preconceitos do costume:
O estudo que se fez com os testes de Yerkes mostrou por medida o que apenas se
conhecia por estimativa: que a inteligncia das crianas pretas muito inferior das crianas europeias e que por isso, um ensino primrio simultneo, na mesma escola, prejudicava uns e outros. () A criao e manuteno do ensino primrio rudimentar para indgenas no traduz um preceito de raa ou de cor, mas a necessidade de promover o maior aproveitamento de europeus e indgenas (AUGUSTO, 1950: 427).
Daqui se poder concluir que o nico resultado desses estudos psicotcnicos
desenvolvidos pela brigada especializada de Antnio Augusto foi o de legitimar
cientificamente a ideologia colonial da supremacia civilizacional e justificar a
manuteno do ensino separado.
Finalmente, um dado notvel a propsito dos estudos psicotcnicos e dos seus
testes inspirados no modelo de Yerkes. Em 1924, o lobby do movimento eugnico no
Congresso americano tinha proposto medidas restritivas emigrao (Immigration
Restriction Act), usando como principal argumento em defesa das suas teses os resultados dos Army Tests. Se a lei tivesse sido aprovada foi rejeitada por larga maioria os europeus do Sul, incluindo os portugueses, seriam considerados elementos
indesejveis devido sua alegada m herana gentica, devendo ser definidas para
eles quotas de imigrao reduzidas (GOULD, 1981: 170, 255, 295). Essa leitura inesperada dos testes de Yerkes constituiu para Mendes Corra, o mentor de Santos Jnior
e da Misso Antropolgica de Moambique, razo suficiente para vociferar contra o
falso eugenismo em voga nos Estados Unidos (CORRA, 1933: 6), mas no para
prescindir da convico bsica do valor cientfico dos estudos psicotcnicos (CORRA,
1951: 347; CORRA, 1952b: 45).
4.3. Estudos etnogrficos
Ao longo das primeiras cinco campanhas de investigao, os estudos etnogrficos sofreram essencialmente pela circunstncia de as campanhas de investigao da
Misso Antropolgica de Moambique terem sido concebidas como misses de
esclarecimento e no como pesquisa de campo: a rigorosa calendarizao previa,
para todas as circunscries da administrao civil que atravessariam, apenas um
tempo de estadia de 3 a 6 dias. Assim, a investigao etnogrfica limitava-se sobretudo ao que era possvel observar de imediato: recolher objectos, fotografar e filmar
paisagens exticas e anotar, o mais minuciosamente possvel, observaes diversas.
Os informantes eram os funcionrios coloniais locais, os sipaios, os missionrios,
colonos portugueses desde h muito estabelecidos nesses locais, mas tambm chefes
africanos e intrpretes africanos (os lnguas) recrutados localmente. O levantamento
de dados sobre as formas de habitao e alimentao definido como prioritrio pela
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s almas dos seus mortos, satisfazendo ao mesmo tempo uma necessidade espiritual premente e ansiosa, em face do impenetrvel mistrio do Alm, que impressiona no s o esprito simples dos selvagens e dos homens rudes e ignorantes, mas tambm o esprito vigoroso dos homens cultos do mundo civilizado (SANTOS JNIOR, 1940a: 375).
Alguns anos mais tarde, num outro texto, Santos Jnior afirmar o carcter anormal e perigoso dos feiticeiros e das suas sociedades secretas (SANTOS JNIOR, 1948a:
109).
A dominncia obsessivamente biolgica da Escola do Porto, cujo mais insigne
representante, Mendes Corra, ocupava lugares-chave nos organismos de investigao cientfica colonial portugueses, travou o desenvolvimento de uma perspectiva
cultural e social nas misses antropolgicas e etnolgicas, contribuindo assim para
a cristalizao da imagem dos povos colonizados como raas mental e civilizacionalmente atrasadas. Deste modo, as misses antropolgicas embora nunca
tenham chegado a fornecer, como esperado, conhecimentos relevantes e aplicveis
para a prtica administrativa vieram dotar o regime colonial portugus de, pelo
menos, uma avaliao cientfica para a afirmao de uma espcie de axioma da
diferena relativamente aos povos colonizados a que Salazar se referia repetidamente, nos anos 30 e 40, como raas inferiores. Apesar dessas provas serem fornecidas sobretudo pelos estudos psicotcnicos, eram os pressupostos cientficos fundamentais da Antropologia Fsica que estavam na base desses estudos e os valoravam.
Em primeira instncia, as misses antropolgicas serviam a prpria
Antropologia Fsica: Santos Jnior realizou toda a carreira acadmica, de assistente a
professor catedrtico, com as suas investigaes no mbito da Misso Antropolgica
de Moambique. Tambm outros antroplogos fsicos da Escola do Porto receberam da Junta das Misses Geogrficas e de Investigaes Coloniais, apesar dos escassos incentivos investigao nos anos 30 e 40, um patrocnio de vulto e puderam
entregar-se sem restries s suas actividades de mensurao de indgenas nas
colnias e apresentar os resultados das suas investigaes em congressos internacionais. Assim, em certa medida, as misses antropolgicas serviam igualmente outro
objectivo importante da investigao cientfica colonial e da poltica do Estado Novo:
o aumento do prestgio nacional. que, ao contrrio da Etnologia portuguesa,
fosse ela colonial ou no, a escola portuguesa de Antropologia Fsica gozou de algum
reconhecimento internacional na sua rea.
Devemos acrescentar, todavia, que a orientao colonial da Antropologia Fsica
da Escola do Porto no foi propriamente uma inveno da poltica cientfica do
Estado Novo. Desde os anos 20 que Mendes Corra se encontrava em contacto com
a Socit dAnthropologie de Paris, a mais antiga escola francesa de Antropologia
Fsica, e era amigo pessoal de Henri Vallois, desde 1938 secretrio-geral desta sociedade, e seguia tambm com grande interesse as investigaes antropobiolgicas de
Lon Pals na frica Ocidental Francesa. As semelhanas entre a Mission
Anthropologique organizada pelo Office de la Recherche Scientifique Coloniale
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(O.R.S.C.) entre 1946 e 1948, sob a orientao de Lon Pals, na frica Ocidental
Francesa e a Misso Antropolgica de Moambique so, de facto, evidentes: os domnios de investigao da Mission Anthropologique de Lon Pals tambm incluam,
tal como acontecia com a Misso Antropolgica de Moambique, outras reas para
alm da Antropologia Fsica como a Psicologia, a Etnologia, a Sociologia e estudos
nutricionistas. Mesmo assim, Mendes Corra viria a afirmar que essa convergncia
de orientaes resultava de reflexes independentes (CORRA, 1948-1949: 62-63).
5. A mudana de paradigma
Na srie de colquios organizada em 1949 e 1950 pela Junta das Misses
Geogrficas e de Investigaes Coloniais sobre os problemas da investigao cientfica colonial, a extrema importncia poltica da assimilao cientfica dos territrios
do Ultramar ficou devidamente realada. Nesse evento, Orlando Ribeiro, gegrafo
e Professor da Universidade de Lisboa, criticou o facto de a cincia colonial portuguesa apresentar poucos resultados concretos para alm dos lugares-comuns retricos
recorrentemente citados:
() a tradio cientfica nacional uma destas flores de retrica, vulgares nos
nossos discursos e nos nossos escritos, um destes lugares-comuns com que nos consolamos
do atraso actual, um facto que devia constituir motivo de redobrada responsabilidade e
sobre o qual muitas vezes adormecemos, procurando iludir-nos e imaginando suprir e atenuar com ele as graves deficincias do reconhecimento actual dos territrios que nos pertencem (RIBEIRO, 1950: 4).
A centralizao dos organismos de investigao nos ministrios da Metrpole, o
carcter temporrio das misses enviadas pela Metrpole para as colnias, bem
como o carcter superficial da investigao frequentemente concebida apenas como
tarefa de reconhecimento eram para Orlando Ribeiro caractersticas reveladoras do
gravoso atraso das cincias coloniais portuguesas, cuja recuperao deveria constituir uma prioridade da poltica cientfica do Estado (RIBEIRO, 1950: 6-ss).
A criao de centros de estudos e institutos especializados na Metrpole e nas colnias, prevista nos decretos de reforma da JMGIC de 1945 e da Escola Superior Colonial
de 1946, s foi colocada em prtica na dcada seguinte. Antes foi ainda aplicada aos institutos de cincias coloniais a mudana de terminologia contida na reviso constitucional de 1951: em 1953 a Junta das Misses Geogrficas e de Investigaes Coloniais
mudou o seu nome para Junta de Investigaes do Ultramar e, em 1954, a Escola
Superior Colonial passou a Instituto Superior de Estudos Ultramarinos.
Em meados dos anos 50 verificou-se, finalmente, uma vaga de criao de instituies de investigao sob a gide da Junta de Investigaes do Ultramar, trs das
quais foram relevantes no contexto da Etnologia e da Antropologia Fsica: em 1954,
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Para um historial sinttico destas duas organizaes e sua importncia para a definio da poltica colonial
portuguesa, ver Adriano MOREIRA, 1960: 325-332.
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que as diferenas que ocorrem entre as mdias constatadas para duas ou mais raas ()
(cit. em HARAWAY, 1988: 215).
Apesar deste novo asserto na comunidade cientfica internacional, Mendes
Corra no se inibiu, em 1950, de fazer uma comunicao em colquio realizado em
Washington, na qual lamentava o facto de a Antropologia Fsica, orientada para a
raciologia, ter recebido um estatuto to negativo em consequncia da desvalorizao
do conceito de raa aps o desfecho da Segunda Grande Guerra:
() a raa e a cultura no se sobrepem, mas parece-me terem caminhado demasiado depressa no terreno das negaes todos aqueles que se recusam a reconhecer qualquer
relao entre, dum lado, os factores biolgicos em geral e a biologia tnica em especial, e
doutro lado, os aspectos e processos culturais. () A Cincia no contesta a existncia de
correlaes bio-psquicas. Porque as expulsamos ento do estudo das culturas? Porque as
no procuramos conhecer com preciso? S porque se fez um uso ilegtimo da noo da
raa? (CORRA, 1950-1951: 26).
Mas, poucos anos depois e perante a evoluo dos acontecimentos sociais e polticos em frica, com as primeiros levantamentos nacionalistas como a revolta MauMau no Qunia , comeou a inflectir a sua opinio. Reflectindo sobre as movimentaes proto-nacionalistas que se alinhavam por detrs das chamadas sociedades
secretas africanas, Mendes Corra lembrou que os britnicos, graas utilizao de
etnlogos profissionais no servio colonial, estavam muito melhor equipados contra
esse tipo de ameaas do que os portugueses, acrescentando que a formao desses
especialistas em Portugal era desde h muito necessria para ultrapassar o carcter
de improvisao que tinha dominado essa rea at poca:
() a Cincia Social suscita hoje no mundo civilizado investigaes numerosas e
importantes. Os ingleses () possuem nas suas colnias um corpo de investigadores oficiais, que chamam colonial social scientists (cientistas sociais coloniais), como possuem
antropologistas do governo. Numerosas organizaes existem em vrios pases para o estudo da matria. Encara-se entre ns a formao de investigadores da disciplina em questo.
Ainda bem. necessrio substituir intuio, ao palpite, improvisao, fantasia, a iniciativas isoladas e sem continuidade, a tarefa sistemtica, metdica, contnua, integral, em
suma verdadeiramente cientfica (CORRA, 1954: 232).
Comea ento a desenhar-se, no seio dos institutos de cincias coloniais portugueses, um consenso quanto necessidade de uma nova orientao da Etnologia
como cincia independente da Antropologia Fsica. Como os representantes da at
ento dominante Antropologia Fsica no possuam as bases cientficas para conduzir uma reorganizao da sua prtica cientfica, comearam a ganhar relevo no seio
das instituies cientficas coloniais portuguesas todos aqueles que reivindicavam
uma prtica de Etnologia Cultural. Jorge Dias, pela sua formao acadmica mas
tambm por tudo quanto tinha feito no campo da Etnografia e Etnologia portuguesas, foi o primeiro a ser chamado a assumir responsabilidades de investigao nas
instituies cientficas coloniais.
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seis anos aps o trmino da 5. campanha, at porque nos primeiros anos da dcada
de 50 a Antropologia Fsica ainda gozava de todos os favores institucionais. Depois,
no final de 1958, toda a misso de investigao foi dissolvida, prematura e definitivamente, por ordem superior e sem qualquer explicao, apesar dos protestos de
Santos Jnior que anos mais tarde continuava a lamentar profundamente:
Em 1955 uma Portaria estabeleceu um quinqunio de trabalhos de campo
Misso. () Inesperadamente, e sem que ainda hoje eu saiba porqu, a Misso foi extinta
ex-abrupto em Dezembro de 1958. O corte de um ano ao quinqunio () estabelecido em
portaria prejudicou muito o plano de trabalhos dos muitos materiais colhidos. Pedi por
vrias vezes a recriao dos trabalhos de gabinete mas nada consegui (SANTOS JNIOR,
1973: 125, n. 1).
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