CAPTULO
o trabalho
Camponeses plantando
batatas (c. 1885) Vincent van Gogh.
Pela ao coordenada,
as pessoas buscam
alcanar um objetivo
comparti Ihado.
Continuando
o ser humano e sua relao com o mundo,
focalizaremos
6.2
nossa investigao sobre
agora o trabalho - essa
atividade bsica e essencial, que coloca
nossa espcie, de maneira clara e definida ,
no universo da sociedade e da cultura.
Questes filosficas
O que o trabalho?
O que alienao?
O trabalho dignifica ou escraviza o ser humano?
Conceitos-chave
trabalho, natureza, cultura, explorao do
trabalhador, alienao, trabalho alienado,
consumo alienado, lazer alienado, status,
fetiche, neofilia, sociedade do tempo livre,
sociedade do desemprego, cio criativo
Unidade 2 Ns e o mundo
1142
Uma aranha executa operaes semelhantes s do tecelo, e a abelha supera mais
de um arquiteto ao construir sua colmeia.
Mas o que distingue o pior arquiteto da
melhor abelha que ele figura na mente
sua construo antes de transform-Ia em
realidade. No fim do processo do trabalho
aparece um resultado que j existia antes
idealmente na imaginao do trabalhador.
Ele no transforma apenas o material sobre o q ua I opera; ele im pri me ao mate ria I
o projeto que tinha conscientemente em
mira, o qual constitui a lei determinante do
seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinao
no um ato fortuito. Alm do esforo dos
rgos que trabalham, mister a vontade adequada que se manifesta atravs da
ateno durante todo o curso do trabalho.
(MARx,'O capital, seo 111,capoV).
TRABALHO
Caractersticas e
histria
Marx diz, em O capital, que o ser humano no apenas
transforma o material em que trabalha, mas tambm realiza,
nesse material, o projeto que trazia em sua conscincia. Ser
isso o que nos diferencia dos outros animais?
Todo O mundo trabalha, trabalhou ou vai trabalhar um dia. Portanto, o trabalho mais uma dessas
coisas banais, que todos conhecemos. Geralmente o
relacionamos com emprego e remunerao (dinheiro). Mas voc j parou alguma vez para compreender o que essencialmente o trabalho e sua funo?
Iniciemos nossa investigao a esse respeito com
uma definio genrica. Podemos dizer que trabalho toda atividade na qual o ser humano utiliza
sua energia para satisfazer necessidades ou atingir
determinado objetivo. A palavra energia utilizada,
aqui, como a capacidade para realizar uma obra, um
trabalho. Energia vem do grego en, que significa
"dentro", e rgon, "obra, trabalho".
Como vimos antes (no captulo 6), por intermdio do trabalho, o ser humano acrescenta um mundo novo - a cultura - ao mundo natural j existente.
Por isso, o trabalho elemento essencial da relao
dialtica entre ser humano e natureza, saber e fazer,
teoria e prtica, conforme ficar mais claro adiante.
Um dos principais tericos a respeito do trabalho foi o filsofo alemo Karl Marx (1818-1883).
De acordo com sua interpretao, o trabalho uma
atividade tipicamente humana, porque implica a
existncia de um projeto mental que modela uma
conduta a ser desenvolvida para se alcanar um
objetivo.
Papis do trabalho
Pensemos agora sobre o papel do trabalho. Para
que serve o trabalho? Qual sua funo? Vejamos a
seguinte interpretao, que aborda essa questo a
partir de duas perspectivas:
em termos individuais, o trabalho permite ao ser
humano expandir suas energias, desenvolver sua
criatividade e realizar suas potencialidades. Pelo
trabalho o indivduo capaz de moldar e mudar a realidade sociocultural e, ao mesmo tempo,
transformar a si prprio. Ou seja, trabalhando
podemos modificar o mundo e a ns mesmos;
em termos sociais - isto , como esforo conjunto dos membros de uma comunidade -, o
trabalho tem como objetivos ltimos a manuteno e satisfao da vida e o desenvolvimento da
sociedade.
Em resumo, o trabalho teria esse poder de promover a realizao do indivduo, a edificao da
cultura e a solidariedade entre os seres humanos.
Essa nos parece uma boa definio, com uma viso
positiva e ideal do trabalho, o que significa que
nem sempre ele cumpre esse papel na vida das pessoas. Apesar de se constituir em uma categoria central da existncia para a expresso de nossas potencialidades, o trabalho pode muitas vezes perder sua
funo libertadora, como apontaram vrios filsofos
e de acordo com o que podemos observar com Irequncia em nosso cotidiano. Por que isso ocorre?
1431
Captulo 8 O trabalho
-Na interpretao de Marx, ao longo da histria, a
dominao de uma classe social sobre outra desviou
o trabalho de sua funo positiva. Em vez de servir
ao bem comum, passou a ser utilizado para o enriquecimento de alguns. De ato de criao virou rotina de reproduo. De recompensa pela liberdade
transformou-se em castigo. Enfim, em vez de constituir um elemento de realizao de nossas potencialidades, converteu-se em instrumento de alienao
(conceito que estudaremos neste captulo).
interessante ressaltar que, etimologicamente, o
termo trabalho teria vindo do latim tripalium, nome
de um instrumento de tortura feito de trs paus.
Como veremos mais adiante, no h exagero em
afirmar que, em diversas situaes sociais, o trabalho atuou e atua de maneira semelhante, servindo
para torturar e triturar o trabalhador.
Trabalho na histria
No decorrer da histria das diferentes sociedades, muitas foram as maneiras de organizar e conceber o trabalho. Vejamos algumas delas.
Pr-histria
De acordo com antroplogos, a primeira diviso de trabalho teria se dado entre homens e
mulheres. Determinadas
tarefas, como caar,
guerrear, garantir a proteo do grupo, eram reservadas aos homens, enquanto os trabalhos domsticos e os cuidados com os filhos destinavam-se s mulheres. Alm do gnero, levava-se em
conta tambm a idade e a fora fsica de cada indivduo.
Nas comunidades em que a sobrevivncia dependia da caa e da coleta, ocorriam migraes
quando as reservas naturais de uma regio
tornavam-se insuficientes para o grupo. Por isso essas comunidades
eram nmades (sem habitao
fixa).
Quando os grupos humanos desenvolveram a
criao de animais e a
agricultura, no perodo
neoltico, surgiram as
comunidades
sedentrias (que tm habitaes fixas). Sua capacidade de produzir
alimentos em quantidade maior do que a
necessria para o con- .
sumo imediato possibilitava a troca de produtos com as aldeias vizinhas.
Antiguidade
Detalhe de Trabalhadores do palcio do rei assrio
Assurbanipal (e. 865-860 a.C).
Desde a Antiguidade oriental, as atividades de um grupo
social j eram divididas por especialidades: metalrgicos,
ceramistas, vidraceiros, agricultores, pastores, sacerdotes,
soldados ete.
Durante a Antiguidade, o trabalho manual era considerado, em vrias
sociedades, como uma atividade menor,
desprezvel, que em pouco se diferenciava da
atividade animal. Valorizava-se o trabalho intelectual, prprio dos homens que podiam se dedicar
cidadania, ao cio, contemplao e teoria. Nesse
sentido, o filsofo grego Aristteles (384-322 a.C)
dizia:
1144
Unidade 2 Ns e o mundo
A utilidade do escravo semelhante do
animal. Ambos prestam servios corporais
para atender s necessidades da vida. A natureza faz o corpo do escravo e do homem
livre de forma diferente. O escravo tem corpo forte, adaptado naturalmente ao trabalho servil. J o homem livre tem corpo ereto,
inadequado ao trabalho braal, porm apto
para a vida do cidado.
[...]
Os cidados no devem viver uma vida de
trabalho trivial ou de negcios (estes tipos de
vida so ignbeis e incompatveis com as qualidades morais); tampouco devem ser agricultores os aspirantes cidadania, pois o lazer
(cio) indispensvel ao desenvolvimento das
qualidades morais e prtica das atividades
polticas. (ARISTTELES,
Poltica, capo11, 1254Gb,e
capoVIII, 1329a).
Idade Mdia
Em muitas sociedades da Europa ocidental, a
concepo anterior de trabalho no se alterou substancialmente durante a Idade Mdia. Santo Toms
de Aquino (1221-1274), telogo e filsofo cristo,
referia-se ao trabalho como um "bem rduo", por
meio do qual cada indivduo se tornaria um ser humano melhor. No entanto, o trabalho intelectual
ainda era o mais valorizado. A novidade estava em
que, de acordo com o cristianismo medieval, o trabalho passou a ser visto como uma forma de sofrimento que serviria de provao e fortalecimento
do esprito para alcanar o reino celestial.
Idade Moderna
A concepo catlica sobre o trabalho sofreu
contestao significativa a partir da ascenso social
da burguesia, na Europa ocidental, a partir do sculo XVI. Nesse perodo, desenvolveu-se, no campo
religioso, o protestantismo. O trabalho foi revalorzado e enfatizava-se o sucesso econmico, interpretado como um sinal da bno de Deus. De acordo com certa tica protestante '(as vertentes calvinistas), o ser humano deveria viver uma vida ativa
e lucrativa, pautada pelo trabalho.
Como analisou o socilogo alemo Max Weber
(1864-1920) em sua obra A tica protestante e o esprito
do capitalismo, haveria inclusive uma relao entre essa
tica - que valoriza o trabalho e a busca da riqueza -,
e o desenvolvimento do capitalismo nos pases onde
predominava o protestantismo. Mas esse sentido de
trabalho ficou restrito s classes que conseguiram acumular capital e investir nas atividades produtivas.
Idade Contempornea
No sculo XIX, o filsofo alemo Friedrich Hegel
definiria o trabalho como elemento de autoconstruo do ser humano. Ele destaca, assim, o aspecto
positivo do trabalho que mencionamos antes, isto ,
o fato de o indivduo no apenas se formar e se aperfeioar atravs do trabalho, mas tambm se libertar,
pelo domnio que exerce sobre a natureza.
Karl Marx, embora igualmente enfatize esse aspecto fundamental do trabalho, analisou o papel negativo
que ele adquiriu nas sociedades capitalistas. Para
Marx, a suposta liberdade do' trabalhador assalariado
se v abalada quando, sem outra opo para sobreviver, ele obrigado a vender sua fora de trabalho para
quem detm os meios de explor-Ia.
Marx destacou tambm as condies degradantes
a que os trabalhadores teriam de se submeter no processo de produo capitalista, apontando seus efeitos
danosos sobre os indivduos. Entre outros, distinguese o processo de alienao, nosso tpico seguinte.
Anlise e entendimento
1. O que significa dizer que o trabalho uma "atividade tipicamente humana"? Argumente.
ou manual ao longo da histria? Justifique.
2. Como tem sido valorizado o trabalho braal
3. Comente as diferenas entre a interpretao
de Hegel e a de Marx a respeito do trabalho.
Conversa filosfica
1. Trabalho e dignidade
"O trabalho dignifica o ser humano"
colegas essa contradio.
versus "O trabalho escraviza as pessoas". Interprete e discuta com
1451
ALIENAO
A pessoa alheia a
si mesma
A palavra alienao vem do latim alienare, "tornar algo alheio a algum", isto , "tornar algo pertencente a outro". Hoje, esse termo usado em diferentes contextos com significaes distintas:
em direito, designa a transferncia da propriedade
de um bem a outra pessoa. Nesse sentido, costumase dizer que "os bens do devedor foram alienados";
em psicologia, refere-se ao estado patolgico do
indivduo que se tornou alheio a si prprio, sentindo-se como um estranho, sem contato consigo mesmo ou com o meio social em que vive;
na linguagem filosfica contempornea, corresponde ao processo pelo qual os atos de uma pessoa so
dirigidos ou influenciados por outros e se transformam em uma fora estranha colocada em posio
superior e contrria a quem a produziu. Nesta acepo, a palavra deve muito de seu uso a Karl Marx.
Captulo
8 O trabalho
o termo alienao foi utilizado inicialmente
por Hegel para designar o processo pelo qual os
indivduos colocam suas potencialidades nos objetos por eles criados. Significaria, assim, uma exteriorizao da criatividade humana, de sua capacidade de construir obras no mundo. Nesse sentido, o mundo da cultura seria uma alienao do
esprito humano, uma criao do indivduo, que
nela se reconheceria.
Diferentemente de Hegel, Marx identificou, nesse processo de exteriorizao da criatividade, dois
momentos distintos. O primeiro seria o da objetivao, que se refere especificamente capacidade da
pessoa de se objetivar, de se exteriorizar nos objetos
e nas coisas que cria, o que algo prprio do saber-fazer humano.
O segundo momento, para o qual Marx reserva o
termo alienao, seria aquele em que o indivduo,
principalmente no capitalismo, aps transferir suas
potencialidades para seus produtos, deixa de identific-Ias como obra sua. Os produtos "no pertencem" mais a quem os produziu. Com isso, so "estranhos" a ele, seja no plano econmico, psicolgico, seja no plano social.
Na sociedade contempornea, o processo de
alienao atinge mltiplos campos da vida humana,
impregnando as relaes das pessoas com o trabalho, o consumo, o lazer, seus semelhantes e consigo
mesmas. Vejamos alguns aspectos dessas relaes
alienadas, seguindo, em linhas gerais, a anlise do
psicanalista alemo Erich Fromm (1900-1980) em
Psicanlise da sociedade contempornea (p. 128-147).
Trabalho alienado
A pessoa alienada perde contato consigo mesma, com sua
identidade e valor. S lhe resta a angstia, definida pelo
filsofo contemporneo
Heidegger como uma situao
afetiva fundamental que nos coloca diante do nada.
Observa-se nas sociedades de hoje que a produo econmica transformou-se no objetivo imposto
s pessoas, isto , no so as pessoas o objetivo da
produo, mas a produo em si.
Esse processo acentuou-se no sculo XIX, quando o trabalho na maioria das indstrias tornou-se
cada vez mais rotineiro, automatizado e especializado, subdividido em mltiplas operaes. Os empresrios industriais visavam, com isso, economizar
tempo e aumentar a produtividade.
Como exemplificou o economista escocs Adam
Smith (1723-1790), na fabricao de alfinetes, um
operrio puxava o arame, outro o endireitava, um
terceiro o cortava, um quarto o afiava, um quinto o
esmerilhava na outra extremidade para a colocao
da cabea, um sexto colocava a cabea e um stimo
dava o polimento final.
Unidade 2 Ns e o mundo
1146
Essa forma de organizao do trabalho em linhas
de operao e montagem foi, posteriormente, aperfeioada pelo engenheiro e economista estado-unidense
Frederick Taylor (1856-1915), cujo mtodo ficou conhecido como taylorismo. A principal consequncia
do taylorismo que a fragmentao do trabalho conduz a uma fragmentao do saber, pois o trabalhador
perde a noo de conjunto do processo produtivo.
Mulheres trabalham em linha de produo de fbrica na
Indonsia. A rotina e a taylorizao podem empobrecer o
envolvimento afetivo e intelectual do indivduo com seu
trabalho.
Essa forma de organizao do trabalho - que
conduz ao trabalho alienado - ainda pode ser observada atualmente em muitas indstrias, onde a
funo do operrio se restringe ao cumprimento de
ordens relativas qualidade e quantidade da produo. Tudo transcorre sem que o trabalhador possa
decidir sobre o resultado final de seu trabalho e sem
que tenha controle algum sobre a finalidade do que
produz. Sempre repetindo as mesmas operaes
mecnicas, ele produz bens estranhos sua pessoa,
aos seus desejos e s suas necessidades.
Ao executar a rotina do trabalho alienado, o trabalhador submete-se a um sistema que, em grande parte, no lhe permite desfrutar financeiramente dos
benefcios de sua prpria atividade. Assim, no plano
econmico, a meta produzir para satisfazer as necessidades do mercado e no propriamente do trabalhador. Fabricam-se, por exemplo, coisas maravilhosas para uma elite econmica, enquanto o trabalhador mantm-se modesta ou miseravelmente. Erguem-se manses para os mais abastados, enquanto grande
nmero de trabalhadores mora em condies prec-
rias. Produz-se "inteligncia", mas tambm a estupidez e o bitolamento nos trabalhadores.
Enfim, o trabalho alienado costuma ser marcado
pelo desprazer, pelo embrutecimento e pela explorao do trabalhador. Vejamos como Marx, em Manuscritos econmico-filosficos descreveu esse processo:
Primeiramente, o trabalho alienado se apresenta como algo externo ao trabalhador,
algo que no faz parte de sua personalidade.
Assim, o trabalhador no se realiza em seu
trabalho, mas nega-se a si mesmo. Permanece no local de trabalho com uma sensao
de sofrimento em vez de bem-estar, com um
sentimento de bloqueio de suas energias fsicas e mentais que provoca cansao fsico
e depresso. Nessa situao, o trabalhador
s se sente feliz em seus dias de folga enquanto no trabalho permanece aborrecido.
Seu trabalho no voluntrio, mas imposto
e forado.
O carter alienado desse trabalho facilmente atestado pelo fato de ser evitado
como uma praga; s realizado base de
imposio. Afinal, o trabalho alienado
um trabalho de sacrifcio, de mortificao.
um trabalho que no pertence ao trabalhador mas sim outra pessoa que dirige a produo. (Primeiro manuscrito, XXIII).
Atingido pela alienao; o ser humano perde
contato com seu eu genuno, com sua individualidade. Transformado em mercadoria - como observou Fromm -, sente-se como uma "coisa" que precisa alcanar sucesso no "mercado das personalidades": sucesso financeiro, profissional, intelectual,
social, sexual, poltico, esportivo etc. O tipo de sucesso perseguido depende do mercado em que a
pessoa quer "vender" sua personalidade.
Como o homem moderno se sente ao mesmo tempo como o vendedor e a mercadoria
a ser vendida no mercado, sua autoestima
depende de condies que escapam a seu
controle. Se ele tiver sucesso, ser "valioso";
se no, imprestvel. grau de insegurana
da resultante dificilmente poder ser exagerado. (FROMM, Anlise do homem, p. 73).
Dominado por essa orientao mercantil alienante, conforme definio de Fromm, o indivduo no
mais se identifica com o que , sabe ou faz. Para ele,
no conta sua realizao ntima e pessoal, apenas o
sucesso em vender socialmente suas qualidades.
1471
Tanto suas foras quanto o que elas criam
se afastam, tornam-se algo diferente de
si, algo para os outros julgarem e usarem;
assim, sua sensao de identidade torna-se to frgil quanto sua autoestima, sendo
constituda do total de papis que ele pode
desempenhar: "Eu sou como voc quer que
eu seja': (FROMM, Anlise do homem, p. 74).
As relaes sociais tambm ficam seriamente
comprometidas.
Cada pessoa v a outra segundo
critrios e valores definidos pelo "mercado de personalidades". O outro passa a valer tambm como um
objeto, uma mercadoria.
Um dos princpios que orientam as relaes alienadas nas sociedades contemporneas
pode ser traduzido nestas palavras: "No se envolva com a vida
interior de ningum". Esse no envolvimento
pode
levar a situaes extremas de ausncia de solidariedade social.
CONEXES
1. Voc consegue observar o processo de alienao em sua vida? H em voc ou em outros conhecidos uma busca desenfreada de
sucesso no "mercado de personalidades"?
Em que situaes concretas? Comente cada
uma delas.
Consumo alienado
Como podemos definir o termo consumo? Consumir significa utilizar, gastar, dar fim a algo, para
alcanar determinado
objetivo.
O ser humano necessita de objetos exteriores
para a sua sobrevivncia
e realizao. Por isso, os
indivduos
produzem,
em sociedade,
os objetos
para seu consumo.
E o que seria consumo alienado? Antes de refletirmos sobre esse conceito, consideremos
primeiramente o brutal abismo socioeconmico
que separa
ricos e pobres no mundo inteiro.
Os 2,5 bilhes de indivduos mais pobres ou seja, 40% da populao mundial - detm 5% da renda global, ao passo que os
10% mais ricos controlam 54%. Um a cada
dois indivduos vive com menos de 2 dlares por dia (patamar de pobreza) e um a
cada cinco, com menos de 1 dlar por dia
(patamar de pobreza absoluta). (DURAND e
outros, Atlas da mundializao, p. 32).
Captulo 8 O trabalho
Enquanto boa parte da humanidade
enfrenta o
drama agudo da fome, da falta de moradia, do desamparo sade e educao, sem o mnimo necessrio para sobreviver, uma minoria pode se dar o
luxo de consumir quase tudo e esbanjar o suprfluo
- e a que entra o conceito de consumo alienado,
como veremos adiante.
Assim, principalmente
entre a parcela da populao de bom poder aquisitivo que ocorre esse fenmeno, j que no tem muito sentido falarmos em
consumo alienado entre a multido de famintos, esmagada pela misria.
Relao produo-consumo
Karl Marx observou que produo ao mesmo
tempo consumo, pois quando o trabalhador produz algo, alm de consumir matria-prima
e os prprios instrumentos
de produo, que se desgastam
ao serem utilizados, ele tambm consome suas foras vitais nesse trabalho.
Por outro lado, completa Marx, consumo tambm produo, pois os homens se produzem atravs do consumo. Isso se verifica de forma mais imediata na nutrio, processo vital pelo qual consumimos alimentos para "produzir" nosso corpo. Porm,
o consumo nos produz no apenas no plano fsico,
mas tambm nos aspectos intelectual e emocional,
como ser total.
H, portanto, uma relao dialtica entre consumo e produo. A produo cria no s bens materiais e no materiais, mas tambm o consumidor
para esses bens. Se no fosse assim, a produo no
teria sentido. Ou seja, quando se produz algo, preciso que algum consuma essa produo.
Por isso, a publicidade (divulgao de produtos
nas diversas mdias, como jornal, Tv, volantes etc.)
elemento fundamental das sociedades capitalistas, uma
vez que por meio delas que se impulsiona nos indivduos a necessidade de consumir mercadorias. E a comea uma "roda-viva": a produo cria o consumo, o
consumo cria a necessidade de uma nova produo, e
assim por diante. Essa dupla criao de necessidades (a
produo criando o consumo e o consumo criando a
produo) gera a "reproduo" do sistema capitalista.
Mas onde est a alienao no consumo?
Se entendemos que os homens se formam interagindo com o mundo objetivo, consumir significa
participar de um patrimnio construdo pela sociedade. Assim, alm de atender s necessidades individuais, o consumo expressaria tambm a forma
pela qual o indivduo est integrado sociedade.
Unidade 2 Ns e o mundo
1148
No entanto, nas sociedades contemporneas, observamos a excluso da maior parte das pessoas do
consumo efetivo do patrimnio produzido, em vista
das desigualdades econmicas e sociais. Alm disso,
possvel constatar que o circuito produo-consumo no visa atender prioritariamente as necessidades individuais, mas sim as necessidades de expanso do sistema capitalista, de busca permanente de
lucratividade, o que levou mercantilizao de todas as coisas.
Nesse sistema, como aponta o historiador contemporneo Immanuel Wallerstein em O capitalismo
histrico, h algo de absurdo na "lgica capitalista":
em meio multido. como se a posse de um objeto satisfizesse a perda da prpria identidade.
Os mestres da propaganda sabem disso e se empenham em oferecer produtos que se sucedem em
uma rapidez impressionante, como substitutos para
essa insatisfao que o individuo sente em relao a
si prprio. Isso se traduz na busca ansiosa por adquirir o que se deseja; ignora-se a possibilidade de
se desejar o que j se adquiriu.
[...] acumula-se capital a fim de se acumular
mais capital. Os capitalistas so como camundongos numa roda, correndo sempre mais depressa a fim de correrem ainda mais depressa.
Nesse processo, algumas pessoas sem dvida
vivem bem, mas outras vivem miseravelmente, e mesmo as que vivem bem pagam um
preo por isso. (p. 34).
Cultura do consumo
Esses dois aspectos - a excluso da maior parte
das pessoas da possibilidade de consumir e a permanente busca por mais lucro - esto entrelaados
a tal ponto que o filsofo francs contemporneo
Jean Baudrillard considera que a lgica do consumo
baseia-se exatamente na impossibilidade
de que
todos consumam.
De acordo com sua anlise, o consumo funciona
como uma forma de afirmar a diferena entre os individuos. Veja um exemplo simples: o fato de que
algum possuir um automvel de luxo s tem sentido se poucos individuos o puderem ter. O objeto
adquirido funciona, assim, como um signo da diferena de status. Nas palavras do filsofo, "o prazer
de mudar de vesturio, de objetos, de carro, vem
sancionar psicologicamente constrangimentos de
diferenciao social e de prestgio" (Para uma crtica
da economia poltica do signo, p. 38).
A propaganda trata de assegurar essa distino
ao associar marcas e grifes a comportamentos e padres inacessveis maioria da populao e, mais
que isso, impossveis de serem alcanados em escala
mundial, devido ao impacto que isso significaria em
termos do meio ambiente. Essa impossibilidade ,
evidentemente, escamoteada.
Esse tipo de consumo alienado movido pelo
desejo do consumidor de sentir-se uma "exceo"
CONEXES
2. Analise e interprete a charge acima. Seu personagem feliz? O que mais importante, o
ter ou o ser? Por qu? Que elementos pictricos indicam isso?
Em outras palavras, o consumidor alienado age
como se a felicidade consistisse, apenas, em uma
questo de poder sobre as coisas, ignorando o prazer obtido com aquilo que verdadeiramente ama.
Como afirmou o filsofo alemo Max Horkheimer
(1885-1973), "quanto mais intensa a preocupao
do individuo com o poder sobre as coisas, mais as
coisas o dominaro, mais lhe faltaro os traos individuais genunos" (Eclipse da razo, p. 141).
Assim, no consumo alienado no existe uma relao direta e real entre o consumidor e o verdadeiro
prazer da coisa adquirida. O consumidor compra
rtulos e grifes. Escova os dentes com a pasta que
lhe garante a certeza de eliminar todas as causas dos
problemas que podem afetar sua sade bucal. Usa o
xampu que promete cabelos hidratados e saudveis.
Induzidos pela propaganda que promove o fetiche das mercadorias, os consumidores acabam por
se transformar em seres passveis, cujo gosto condicionado pela rotina de produo daquilo que tm.
1491
o consumo deixa de ser um meio de expresso do
prazer pessoal e transforma-se em um fim em si
mesmo. Torna-se um ato obsessivo alimentado pelo
apetite de novidade e de distino social.
Fetiche - objeto a que se presta culto ou adorao ou que causa
fascinao em um indivduo.
Para o consumidor alienado, comprar a coleo
de roupa recm-lanada, as inovaes em informtica, os eletrodomsticos de ltima gerao e o mais
novo modelo de carro representa um sinal infalvel
de status, correspondendo ao desejo de projetar o
"ter" para substituir o vazio do "ser". Assim, multides frequentam avidamente os grandes shoppings
das cidades para contemplar as novidades das vitrines e, se possvel, adquiri-Ias de imediato.
Esse desesperado neofilismo (amor obsessivo pelas novidades) afeta praticamente todas as relaes de
que o ser humano capaz com o mundo exterior.
Para as pessoas contaminadas
por essa doena cultural, um par de sapatos, uma roupa, um carro perdem o encanto com pouco
tempo de uso, exatamente como a pessoa
amada, o amigo ou at mesmo a ptria. (LoRENZ, Civilizao e pecado, p. 60).
Captulo
nais e revistas como qualquer outra mercadoria. E o
consumidor alienado compra seu lazer da mesma maneira como compra sua pasta dental ou seu xampu.
Consome os "filmes da moda" e frequenta os "lugares
badalados", sem um envolvimento autntico com o
que faz.
'
Agindo desse modo, muitos se esforam e at
pensam que esto se divertindo, querem acreditar
que esto se divertindo. No entanto, "atravs da
mscara da alegria se esconde uma crescente incapacidade para o verdadeiro prazer" (LOBSENZ, citado
em LOWEN, Prazer, p. 13-14).
Isso quer dizer que a lgica capitalista afeta at
mesmo a relao do indivduo com as obras de arte.
Reduzidas ao nvel de mercadorias, estas passam a
obedecer lei da oferta e da procura. Tornam-se puros "negcios" fabricados pela indstria cultural,
expresso criada por Horkheimer e Theodor Adorno (1906-1969), pensadores da Escola de Frankfurt. E o que era fruto da espontaneidade criativa do
sujeito transforma-se em produo padronizada de
objetos de consumo com vistas obteno de lucros
econmicos.
A tcnica da indstria cultural levou apenas
padronizao e produo em srie, sacrificando o que fazia a diferena entre a lgica
da obra [de arte] e a do sistema social. (ADOR-
Evidentemente, o neofilismo desenfreado corresponde aos interesses dos grandes produtores
econmicos. Produzir objetos que logo se tornam obsoletos um princpio fundamental da indstria capitalista.
Escapar a essa armadilha
do consumo no um problema a ser resolvido apenas
pela conscincia e pela vontade individuais. uma tarefa
ampla que envolve a transformao dos valores dominantes em toda a sociedade.
NO
HORKHEIMER,
Dialtica do esclarecimento,
p. 114).
o lazer alienado
E o que dizer do nosso
lazer? Ser que o processo de
alienao na sociedade industrial afeta tambm a utilizao de nosso tempo livre?
Vejamos.
A indstria cultural e de
diverso vende peas de teatro, filmes, livros, shows, jor-
Miragem (1998) - Antnio
8 O trabalho
Gaudrio.
Muitas vezes, o lazer no passa mesmo de uma miragem,
uma iluso.
Unidade 2 Ns e o mundo
1150
Anlise e entendimento
4. Explique a diferena entre objetivao e alienao.
7. Considerando exemplos da sua vida cotidiana,
explique como o processo de alienao afeta
o indivduo:
5. "O trabalhador s se sente feliz em seus dias
de folga, enquanto no trabalho permanece
aborrecido." Interprete essa frase de Marx,
citada no captulo.
a) em sua relao consigo mesmo;
b) em sua maneira de relacionar-se com
outras pessoas;
c) em sua forma de consumir;
6. Que papel tem a propaganda no processo de
alienao? Justifique sua resposta.
d) em suas opes de lazer e entretenimento.
2. Grifes e alienao
Rena-se com colegas para interpretar e discutir esta charge.
3. Fetiche e neofilia
Rena-se com colegas para trocar ideias e opinar sobre os temas fetiche e neofilia. O que os estimula?
Quem ganha com eles? Quem perde?
PERSPECTIVAS
Tempo livre ou
desemprego'?
Na anlise do processo histrico-social que acabamos de fazer, vimos que o trabalho quase se transformou no oposto daquilo que poderia ser para um
indivduo. Ou seja, o trabalho - possibilidade de liberdade e realizao - tornou-se sinnimo de frustrao, submisso e sofrimento.
Essa a ideia que grande parte das pessoas tem
acerca do trabalho, porque, de fato, dessa forma
que ele se apresenta para determinadas classes sociais. O trabalho tido unicamente como um meio
de sobrevivncia, como algo penoso pelo qual todos
tm de passar, pois "quem no trabalha no come".
Em vista do que vimos at aqui, podemos nos
questionar: realmente o trabalho uma categoria
fundamental para ser humanotOu seja, por meio
do trabalho que o ser humano se autoconstri?
No h como responder negativamente a essa
questo. Mas ento voltamos nossa pergunta inicial: o que o trabalho? Ser apenas o que uma ordem econmica exploradora reconhece como trabalho? Se o que recusamos a forma como ele se apresenta - o trabalho forado, aquele que significa privao e no realizao das nossas capacidades -,
ser possvel alcanarmos uma forma mais livre de
trabalho?
Sociedade do tempo livre
Essas questes nos levam ao tema do desenvolvimento tecnolgico atual. Como voc deve ter sabido, a mecanizao e a automatizao da produo
vm suprimindo diversas tarefas rotineiras, que
eram antes desempenhadas
por trabalhadores.
Como resultado dessa automatizao, possvel
1511
imaginar que um dia viveremos em uma sociedade
na qual as pessoas possam dispor de maior tempo
livre. a perspectiva, como diversos tericos denominam, da sociedade do tempo livre.
Em cerca de um sculo e meio - de 1850 ao final
do sculo XX -, um trabalhador em pases como
Inglaterra e Frana vivia, em mdia, de 45 a 50 anos
e trabalhava, aproximadamente, 120 mil horas ao
longo de sua vida. Hoje, nos pases desenvolvidos, o
trabalhador vive cerca de 75 a 80 anos e trabalha,
aproximadamente, 80 mil horas ao longo da vida.
Na interpretao do socilogo italiano contemporneo Domenico de Masi, poderemos ter no futuro
mais espao para o cio criativo:
Tudo leva a crer que o processo tecnolgico
eliminar cada vez mais o trabalho humano,
que todo o esforo fsico e intelectual podero
ser delegados a mquinas e que ao homem
restar s o monoplio das atividades criativas. ("Em busca do cio", Veja 25 anos, p. 48).
Sociedade do desemprego
A dificuldade est em que a simples automatizao, por si s, no garante esse efeito, pois dela pode
surgir uma realidade opressiva e antissocial: uma
sociedade do desemprego.
Isso se comprova com o aumento do nmero de
pessoas sem trabalho fixo nesses mesmos pases em
que a carga horria diminuiu, sem falar naqueles da
Amrica Latina nos quais os ndices de desemprego
so preocupantes e onde ainda subsistem situaes
de trabalho infantil e escravo.
Captulo
8 O trabalho
Para evitar o desemprego em massa, uma alternativa seria a reduo do tempo de trabalho, pretendida pelas organizaes de trabalhadores, o que
conduziria tambm construo de uma sociedade
de maior tempo livre.
[...] o trabalho socialmente til, distribudo
entre todos os que desejam trabalhar, deixa
de ser a ocupao exclusiva ou principal de
cada um: a ocupao principal pode ser uma
atividade ou conjunto de atividades autodeterminadas levada a efeito no por dinheiro,
mas em razo do interesse, do prazer ou da
vantagem que nela se possa encontrar. A maneira de se gerir a abolio do trabalho e o
controle social desse processo sero questes
polticas fundamentais dos prximos decnios. (GORZ, Adeus ao proletariado, p. 12).
possvel que estejamos caminhando para essa
sociedade do tempo livre. No entanto, diversos autores questionam os fundamentos e o alcance dessa
perspectiva. Consideram que existe potencialmente
essa hiptese, mas no como fruto automtico do
modelo econmico atual, globalizado, imposto
maioria das pessoas nos pases em desenvolvimento.
Enfim, ainda vivemos em um mundo paradoxal,
marcado por imensos contrastes. De um lado, percebemos realidades socioeconmicas homogneas,
desfrutadas por um restrito conjunto de pessoas, os
includos.
shoppings, os produtos de grife, os aeroportos, os computadores tornam-se padronizados
pela globalizao. De outro lado, percebemos inmeros problemas e mazelas, atingindo milhes de
seres humanos, os excludos.
Os
1152
Unidade 2 Ns e o mundo
Nesse contexto, como na Grcia antiga, o "cio
criativo" parece ser a condio de apenas uns poucos, no da maioria. Que mudanas socioeconmicas e de mentalidade poderiam ser promovidas para
que isso se transforme e o trabalho possa cumprir
sua funo libertadora? Pense nisso.
CONEXES
4. Analise detalhadamente a foto da pgina anterior. O que ela retrata para voc? Como ela
se relaciona com o que acabamos de estudar?
Anlise e entendimento
8. De acordo com o texto do filsofo austraco
Andr Gorz (1923-2007), estamos caminhando para um tipo de sociedade em que "o
trabalho socialmente til [...] deixa de ser a
ocupao exclusiva ou principal de cada um".
Explique e comente essa afirmao.
9. Defina quem so os includos e os excludos
de nosso sistema socioeconmico.
Conversa filosfica
4.
Sonho e realidade
artes ['trabalhos manuais'] e do trabalho assalariado, o Deus que lhe conceder os lazeres
e a liberdade."
"Aristteles previa que: 'Se cada instrumento
pudesse executar sua funo prpria sem ser
mandado, ou por si mesmo [...]; se, por exemplo, as rocas das fiandeiras fiassem por si ss,
o dono da oficina no precisaria mais de auxiliares, nem o senhor, de escravos'.
O sonho de Aristteles nossa realidade. Nossas mquinas de hlito de fogo, membros de
ao, infatigveis, de uma fecundidade maravilhosa e inesgotvel, realizam docilmente, por
si ss, seu santo trabalho; no entanto, a mente
dos grandes filsofos do capitalismo continua
dominada pelo preconceito do assalariado,
a pior das escravides. Ainda no entendem
que a mquina : o redentor da humanidade,
o Deus que resgatar o homem das sordidae
LAFARGUE, O direito
preguia, p 118-119.
Analise a reflexo do escritor e ativista poltico
francs Paul Lafargue (1842-1911). Voc concorda com ela? Depois rena-se com colegas
para discutir as consideraes de cada um.
s.
Meu trabalho
Que profisso voc gostaria de ter? Esse trabalho daria a voc uma perspectiva de autoconstruo, alegria e liberdade? Como? O
que voc precisa fazer para realizar esse projeto? Rena-se com colegas para trocar ideias
e compartilhar a reflexo de cada um.
Sugestes de filmes
Tempos modernos (1936, EUA, direo de Charles Chaplin)
Obra em que, de uma forma ao mesmo tempo satrica e potica, Chaplin "passeia" pela paisagem moderna, a paisagem da indstria moderna. Mostra-nos a submisso do ser humano
mquina e a substituio do trabalho humano pelo trabalho mecnico, o que leva ao desemprego e misria. Mas mostra-nos tambm a solidariedade e a capacidade de gentileza
e alegria que resiste opresso do trabalho .
Germinal (1993, Blgica/Frana/Itlia,
direo de Claude Berri)
Adaptao para o cinema de romance homnimo do escritor francs mile Zola, publicado
em 1885. Retrata as condies de trabalho e vida dos trabalhadores das minas de carvo na
segunda metade do sculo XIX, bem como a emergncia dos movimentos, greves e revoltas
operrias.
1531
Captulo
8 O trabalho
Eles no usam black-tie (1981, Brasil, direo de Leon Hirszman)
Filme que retrata as dificuldades de organizao dos trabalhadores na poca da ditadura
brasileira, tendo como foco uma famlia de operrios e seus dilemas .
O show de Truman (1998, EUA, direo de Peter Weir)
Histria que se passa em uma pequena comunidade racionalizada a partir da mais avanada
tecnologia. Truman tem sua vida exposta a milhes de telespectadores, tendo sua imagem
vinculada propaganda de produtos diversos.
Temos em seguida dois textos que representam momentos histrico-sociais separados por quase trs
sculos. O primeiro um dilogo entre um ndio tupinamb (grupo indgena que povoava grande parte
do litoral brasileiro nos sculos XVI e XVII) e Jean de Lry (pastor protestante e escritor francs que
viveu no Brasil entre 1556 e 1558). O segundo texto, elaborado em 1848, parte de uma reflexo
de Karl Marx e Friedrich Engels sobre o desenvolvimento da burguesia e do modo de produo capitalista. Leia os dois textos e responda s questes que seguem.
1 . Dilogo [Link]: produo:
.;..- .
""_
de bens: :
...
"Uma vez um velho perguntou-me:
- Por que vindes vs outros, mairs e pers [franceses e portugueses], buscar lenha de to longe
para vos aquecer? No tendes madeira em vossa terra?
(
Respondi que tnhamos muita, mas no daquela qualidade, e que no a queimvamos, como
ele supunha, mas dela extraamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordes
de algodo e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente:
- E porventura precisais de muito?
- Sim - respondi-lhe - pois no nosso pas existem negociantes que possuem mais panos, facas,
tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um s deles compra todo o
pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.
- Ah! - retrucou o selvagem - tu me contas maravilhas - acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: - Mas esse homem to rico de que me falas no morre?
--
- Sim - disse eu - morre como os outros.
Mas os selvagens so grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto at o fim, por
isso perguntou-me de novo:
- E quando morre, para quem fica o que deixa?
- Para os filhos se os tm - respondi. - Na falta destes, para os irmos ou parentes mais prximos.
- Na verdade - continuou o velho, que, como vereis, no era nenhum tolo - agora vejo que,
vs mairs, sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incmodos, como dizeis
quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para
aqueles que vos sobrevivem! No ser a terra que vos nutriu suficiente para aliment-Ios tambm? Temos pais, mes e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa
morte a terra que nos nutriu tambm os nutrir, por isso descansamos sem maiores cuidados."
LRY, Viagem
terra do Brasil, p. 169-170.
Unidade 2 Ns e o mundo
1154
2. Reflexo sobre o modo de produo capitalista
Luta de classes
"A histria de todas as sociedades que existiram at nossos dias tem sido a histria das lutas
de classes.
Homem livre e escravo, patrcio e plebeu, baro e servo, mestre de corporao e companheiro,
numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposio, tm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarada. Uma guerra que terminou sempre ou por uma transformao
revolucionria da sociedade inteira ou pela destruio das duas classes em luta.
[...]
A sociedade burguesa moderna, que brotou das runas da sociedade feudal, no aboliu os
antagonistas de classe. No fez seno substituir velhas classes, velhas condies de opresso,
velhas formas de luta por outras novas. [...]
Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia calcou aos ps as relaes feudais, patriarcais e idlicas. Todos os complexos e variados laos que prendiam o homem feudal a seus
superiores naturais ela os despedaou sem piedade, para s deixar subsistir, de homem para
homem, o lao do frio interesse, as duras exigncias do 'pagamento vista'. [...]
A burguesia despojou de sua aurola todas as atividades at ento reputadas venerveis e encaradas com piedoso respeito. Do mdico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sbio fez seus
servidores assalariados. [...l"
Explorao do mercado mundial
Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vnculos em toda parte.
Pela explorao do mercado mundial a burguesia imprime um carter cosmopolita produo e
ao consumo em todos os pases. As velhas indstrias nacionais foram destruds e continuam a
s-Io diariamente. So suplantadas por novas indstrias, cuja introduo se torna uma questo
vital para todas as naes civilizadas, indstrias que no empregam mais matrias-primas autctones, mas sim matrias-primas vindas de regies mais distantes, e cujos produtos se consomem
no somente no prprio pas, mas em todas as partes do globo.
Em lugar das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, nascem novas necessidades, que reclamam para sua satisfao os produtos das regies mais longnquas e dos climas
mais diversos. Em lugar do antigo isolamento de regies e naes que se bastavam a si prprias,
desenvolvem-se um intercmbio universal, uma universal interdependncia das naes."
MARX
ENGELs,
Manifesto comunista, p 365-375).
1. De acordo com a informao contida no texto de Jean de Lry, o que voc pode deduzir sobre o modo de produo dos tupinarnbs? Fundamente sua resposta.
2. Qual a principal crtica do velho tupinamb viso europeia sobre o trabalho e a riqueza?
Comente.
3. "Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo."
Existe semelhana entre o processo descrito nessa afirmao e o atual processo de globalizao da economia? Justifique sua resposta.
4. Que ponto ou pontos em comum voc pode estabelecer nas crticas expressadas nesses
dois textos?