Bocage - Odes
Bocage - Odes
I OS AMORES Dos malignos Amores Girava os ares o voltil bando. Seus ureos passadores Dos ebrneos carcases semeando. O mais destro frecheiro, O chefe da invencvel companhia, Que tem do mundo inteiro A seus ps o destino e monarquia; Aquele, que em desmaio Muda ao tigre o furor, se a dextra move, Que at, sem medo ao mio, Sacrlego farpo cravara em Jove, Do azul campo sereno Desce, enfim, coos irmos a frtil prado, Vizinho ao Tejo ameno, E diz turma, de que vem cercado: Eu, que no satisfeito De combater, de triunfar na Terra, Convosco tenho feito Aos prprios Cus inevitvel guerra; Eu, que prazer sentia Em forjar aos mortais mortais pesares, Que ufano, alegre, via O sangue borbulhar nos meus altares; Eu, que em mavrcia lida Tomei purpreo o lmpido Scamandro, Eu, cruento homicida De Hero gentil, do nadador Leandro; Neste dia de gosto, Em que brotou de generosa planta Aquela, cujo rosto
Almas cativa, coraes encanta; Neste bom dia, em que ela, Em que Marlia, nossa glria, Amores, Apareceu mais bela Que a flor de Vnus na estao das flores; Do que fiz mie arrependo, Quero afamar-me por mais alta empresa; Eternizar pretendo A melhor produo da Natureza. Um de vs, sem demora, Procure o Velho, que em perptua fome Rijos troncos devora, O ferro, o bronze, o mrmore consome; V dizer-lhe que parta Logo o instrumento sanguinoso e duro, A fouce, nunca farta De mandar os mortais ao reino escuro; Que respeite, rendido, Um dia to sagrado e to jucundo, Em que deixa Cupido Pela primeira vez em paz o mundo. E se o monstro faminto No dobrar a cerviz no mesmo instante, Mostrarei que me sinto Para a vingana com valor bastante; Farei que saiba o quanto Pode o fervor de um amoroso afecto; Farei que lave em pranto As cs espessas do medonho aspecto. O mundo no tem visto Obrar Amor prodgios cento e cento? Pois veja agora nisto De meus portentos o maior portento. Disse, e depois que soa Tnue sussurro, a ordem se executa: Um deles parte, e voa Do Tempo carcomida, horrvel gruta. O Velho, injusto e forte Consumidor das cousas, encostado No regao da Morte,
Fouce na mo, cadveres ao lado, Vendo entrar de repente O belo infante, o nncio de Cupido, Ala a rugosa frente, Em tom lhe diz soberbo e desabrido: Infeliz! Que arrogncia, Que imprudncia, que fado ou que desdita Te guia negra estncia, Aonde o Tempo com a Morte habita? No pasmas, no tens susto De olhar-me? de me ouvir? Pois eu te ensino Com meu brao robusto A acatar-me, a temer-me, audaz menino. Disse e, vermelho o gesto, Torcendo os olhos, que chamejam ira, Move o brao funesto, E coa sangunea fouce ao Deus atira; O ferro os ares mede, Obedecendo fria que o sacode; Mas eis que retrocede Fugindo ao nume, que ferir no pode. Ele ento com um sorriso, De altivez desdenhosa acompanhado, Volve os olhos ao liso, Curvo instrumento, que lhe foi lanado; E ao monstro, que veneno Vomita da nojosa boca escura, Cessa (diz), eu to ordeno Em nome de Marlia bela e pura. Ele prosseguiria; Mas os dois feros scios, escutando Pela voz da Alegria O nome encantador, suave e brando, Quais os deuses do Inferno, Que a fronte, ouvindo Orfeu, desenrugaram, E o frreo ceptro eterno Das inflexveis mos cair deixaram, O furor impaciente, Que as entranhas lhe ri, sbito amansam; Erguem-se, e de repente
Da mimosa deidade aos ps se lanam. Adorvel menino (Clamam tremendo os dois), tu nos domaste, Quando o nome divino Da singular Marlia articulaste. Dize, dize o que intentas, Que j qualquer de ns te est sujeito, E as nossas mos cruentas Trmulas vs de afecto e de respeito. Quero j destrudo (Torna o menino), em honra deste dia, Esse ferro budo, Que com vipreo sangue a Morte afia. Marlia, cujo agrado Desencrespa e serena o mar e o vento, Hoje v renovado Seu natalcio festival momento. A destra Natureza De regozijo, de altivez se cobre Por criar tal beleza, Alma to pura, corao to nobre. At Vnus benigna A disputar-lhe os cultos no se atreve; A louva, a julga digna Dos cisnes e da concha cor de neve Eia, pois, humilhados De Marlia ante os olhos vencedores, Ante os dois adorados Ninhos das Graas, ninhos dos Amores, Sacrificai-lhe as frias, As frias que defesa no consentem; Nunca, nunca as injrias Do Tempo ou Morte profan-la intentem. Com isto os lbios cerra, E logo o Tempo dos nervosos braos Arroja sobre a terra A fouce, que entre as mos fez em pedaos; Depois, inda curvado, Diz: Est transgredida a lei da Sorte; Amor, vai descansado,
Que a Marlia veneram Tempo e Morte. Ao seu gentil monarca Torna o menino algero e lhe conta Que o Tempo achou, e a Para Pronto a seu mando, a seus desejos pronta. Juntos ento revoam, E, de Marlia prximos aos lares, Os Amores entoam Hinos canoros nos cerleos ares.
A ESPERANA Oferecida em Macau Excelentssima Senhora D. Maria de Saldanha Noronha e Meneses Musa, no gemas; ergue, desgraada, O rosto macilento, Da vista a frouxa luz quase apagada Nas lgrimas que vertes. Musa, alento! Move a trmula planta, Pisa os receios e a Marlia canta. Canta da ilustre dama a gentileza, A prole esclarecida, Os dons da sorte, os dons da Natureza, As prendas com que a vs enriquecida, E, depois de a louvares, Torna a teus choros, torna a teus pesares. Ah!, que j sinto, milagroso objecto, Quanto pode o teu rosto! Da malfadada Musa o torvo aspecto J cora, j se vai do meu desgosto Sumindo a nvoa densa, Que desfaz, com o sol, tua presena. Inclina pois, magnnima Senhora, Os dementes ouvidos voz que no profere, aduladora, Altos encmios de razo despidos: A verdade celeste Com seu cndido manto os orna e veste. A ti, dignos de ti, Manha, voam; A ti, bela herona, Cujas mil graas mil virtudes croam; A ti, que enches de glria a frtil China, Enquanto a que te adora, Msera Ptria, tua ausncia chora. As deidades, criando-te, exauriram O seu cofre divino; A teus encantos para sempre uniram Em ureo lao o mais feliz destino; E eis os dons com que brilhas Reproduzidos nas mimosas filhas. Esses tenros, lindssimos pedaos Da tua alma preciosa,
O ledo par gentil, que nos teus braos Das doces, maternais carcias goza, Teus dias felicita, E nas amveis perfeies te imita. Com meiga voz, com eficaz exemplo, Com saudveis doutrinas Ao que habita a Virtude, eterno templo, O caminho estelfero lhe ensinas, A mim, mortal profano, A mim to rduo, para ti to plano. J do etreo vestbulo te acena Almo esquadro radioso; J na celeste regio serena Gnios sem mancha em hino harmonioso Te nomeiam... L brada De ilesas virgens multido sagrada. No ouves, Marlia, as vozes delas? Repara como ofrecem Do teu pudico amor as prendas belas A glria sem limites, que merecem... No me engano, em vs chove O fragrante licor, que liba Jove. Vs sois... Porm no mais, Musa inerte! Basta, cesse o teu canto; As vozes de prazer em ais converte, Nadem teus olhos outra vez em pranto, Que as almas compassivas Atendem mais s lgrimas que aos vivas. Com suspiros, triste, implora, implora De Marlia a piedade; Ela justa, ela sente, ela deplora Os erros da infeliz Humanidade; Contra o Fado inimigo Na sua compaixo procura abrigo. Roga, roga-lhe enfim, que te destrua As nsias, os temeres; Que Ptria, ao prprio lar te restitua. Ah!, j te diz que sim; no mais clamores; Musa! Musa! descansa, Cantemos o triunfo, Esperana! Olha como a tirana, a m Desgraa As cobras arrepela, E as sanguinosas vestes despedaa!...
Zombemos, corao, zombemos dela. Monstro, j no me espantas, L cai, l freme, de Marlia s plantas.
III A GRATIDO Ao Senhor Lzaro da Silva Ferreira, Desembargador da Casa da Suplicao e Governador Interino de Macau Ode sfica Ao som confuso da celeuma, os nautas, s duras barras animando os peitos, O cabrestante, que emperrado geme, Rgidos volvem. Galerno as asas transparentes bate Nos azuis prados onde o sol passeia; Iam-se gveas, e do fundo a curva ncora sobe. Amenos campos, agradvel clima Onde o meu Tejo por areias de oiro, Por entre flores murmurando e rindo, Lmpido corre; Paternos lares, que saudoso anelo, Sacros Penates, que de longe adoro, Suave asilo, que perdi vertendo Lgrimas ternas; Eu torno, eu torno por Amor guiado, Exposto fria dos tufes, dos mares; Eu torno, eu torno para vs; ouviu-me Jpiter alto. Do formidvel tribunal supremo, Ante quem pasma a Natureza e donde Os nossos crimes, as virtudes nossas Integro julga; Do trono eterno, que as estrelas calca, Trono adorvel, cuja luz divina Os prprios olhos imortais, que o cercam, Trmulos sofrem; s mestas preces da minha alma aflita O Deus dos deuses anuiu, clemente, E em rsea nuvem pelos ares desce Ntido Gnio.
Purificando coum sorriso o dia, Afveis olhos para mim volvendo, Me diz: No chores, mortal, no chores; Msero, basta! Dos orbes de oiro inumerveis baixo A sufocar-te as clamorosas queixas; Teus bruscos dias vo trocar-se em ledos, Prsperos dias. Disse o brilhante corteso de Jove (Era a Piedade), que na rubra nuvem Abrindo os ares, mais veloz que os ventos Sbito foge. Varo sublime, tu, ouvindo os ecos Do mensageiro do inefvel Nmen, Ardes em glria; para mim teu rosto Plcido voltas. Eis os sorrisos, que a Tristeza amarga De vs banira com decreto horrendo, Ei-los de novo sobre vs, minhas Plidas faces! Clama, no cesses, Gratido, no cesses; S minha musa, Gratido, virtude Que desconhecem, desacatam, mancham Srdidas almas. Lembrem-te as feias, ululantes Frias, Postas em torno de meu bero infausto, Das gneas fauces contra mim vibrando Hrrido agoiro. Lembrem-te os males, as terrveis nsias Que este sensvel corao farparam; De frreos peitos, que sem d me ouviram, Lembra-te, deusa! Se eu vou nas aras dos Penates caros Pendurar votos, consumir incensos, Depositando sobre a lsia praia sculo grato; Se as inocentes, fraternais carcias Vou, cobioso, recobrar na Ptria, Em cuja ausncia fugitivas horas Sculos julgo;
Se as cs honradas vou molhar de pranto Ao sbio velho, que me deu coa vida Os seus desastres, por fatal, por negra, Lgubre sina; Se estou j livre da cruel Desgraa, Que nas entranhas me enterrava os dentes, Bem como a Tcio nos infernos morde Sfrego abutre, Tudo a ti devo, benfeitor, grande, Que a roagante, venervel toga Mais venervel pelos teus preclaros Mritos fazes. Tudo te devo: a gratido no sofre Que teus favores generosos cale; Julga tu mesmo se o silncio crime, Arbitro excelso. Aos estrelados, aos cerleos globos Sempre em meus hinos subir teu nome, Enquanto o golpe me no der no fio tropos crua. Cus! Fados! conservai Ferreira; So necessrios os heris no mundo: E tu, ferrolha os procelosos monstros, Eolo amigo.
IV Excelentssima Senhora D. Catarina Micaela de Sonsa Csar e Lencastre, depois Viscondessa de Balsemo Ode sfica Consoladora de meus negros males, Musa, que sombra dos ferais ciprestes Comigo entoas lacrimosas nnias, Lgubres cantos; Eia, deixemos uma vez, deixemos O horrvel ermo, que arremeda o caos, E em cujas trevas apinhados guincham Fnebres mochos; Eia, saiamos uma vez, saiamos Desta medonha habitao da Noite; Vamos um dia respirar serenos Lmpidos ares. Mas no arranques da mirrada fronte, No, no arranques a funrea croa, Nem dispas essa lastimosa, antiga, Rstica veste. Vamos carpindo, soluando, Musa, Aos venerandos, majestosos lares, Que o rubro Febo coas irms e as Graas Cndidas pisa. Segue meus passos; em lugar das campas, Em vez das portas do silncio eterno, Hoje de ilustre pavimento os lisos Mrmores toca. Mas no te esquea a lutuosa ofrenda, Que envolta em pranto consagraste s cinzas, E s mil virtudes imortais do luso Prncipe excelso. Alta herona, singular Lencastre, Da rida planta no rebentam flores, Nem mestas aves agoureiras sabem Cntico alegre. Outros nas asas de melfluos hinos Doces prazeres pelos ares soltem;
Brandos Amores, deleitosas Graas, Cantem-vos outros. A luz primeira, que meus olhos viram, Foi de fantasmas infernais turbada; Eles o bero me embalaram, dando Hrridos gritos. As torvas Parcas me fadaram logo, Negros agouros sobre mim caram, E de meu lado em terror voaram Jbilo e riso. Tu, pois, matrona, que no grau sublime, Em que a Fortuna com seus dons te croa, Mais da fecunda Natureza as grandes Ddivas prezas: Tu, que passeias o Pirio Cume, Onde entre flores, que no murcha o tempo, Aromatiza, coos eflvios delas, Zfiro, os ares: Ouve, propcias dissonantes versos, Nas mudas trevas pela dor criados; Mais nada quero do favor celeste; Ouve-me, e basta. Se te deverem compassivo agrado Os acres frutos da roaz Tristeza, Que no chagado corao me crava Lvidos dentes; Embora as bocas do profundo Averno Milhes de Frias contra mim vomitem; Embora porta de meu pobre asilo Crbero ladre; Peito de bronze, corao de ferro, Sempre Desgraa mostrarei constante; Nunca meu sangue gelaro teus sopros, Frgido susto!
V Ao Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Lus de Vasconcelos Sousa Veiga Caminha e Faro, etc. Musa de Elmano, que giraste aflita Por inspitos mares, Onde curtiste os sopros, que de Eolo Os rpidos ministros Vibram das frias procelosas fauces; fiel companheira De meus prazeres vos, meus longos males, Afinemos a lira De lgrimas inteis orvalhada; A lira maviosa Que as roucas tempestades, cor do Inferno, E o raio pavoroso Para longe de ns afugentava. Se da trrida zona Os brbaros e adustos moradores Surdos, frreos ouvidos Para teus sons harmnicos tiveram; Se a loquaz Ignorncia Sobre as margens aurferas do Ganges Coum sorriso afrontoso As vis espaldas te voltou mil vezes; Se a vasta, a frtil China, Fofa de imaginria antiguidade, Pelo seu pingue seio Te viu com lasso vagar mendiga; Se a mirrada Avareza, Aferrolhando os cofres prenhes de oiro L onde o sol o gera, Foi mais dura que mrmore a teus versos; Se at agora a Desgraa De espessa nvoa carregou teus dias, E qual a inseparvel, Contnua sombra, perseguiu teu passo: Eis a hora, eis a hora Que o gro Jove remiu da turva srie Dos teus lgubres anos Para princpio da feliz mudana Que destina a teu fado. Tu, pois, de rubra cor tingindo a face Que as mgoas desbotaram, Tacteia, Musa minha, as tnues cordas. Olha a leda Esperana, Universal tesouro; ei-la apontando Para a pomposa estncia
Do singular varo, do heri sublime Que as virtudes laureiam. Entremos pelo prtico espaoso, Onde jaz a Piedade Pronta a dar acolheita aos infelices. Eia, Musa, tentemos Os marmreos degraus... eia, subamos Ao brilhante aposento Do ilustre Vasconcelos, cujo nome De clima em clima a Fama Por cem bocas, algera, semeia. Vasconcelos, que ainda Na dilatada Amrica opulenta Pela intacta Justia, Pela terna Saudade suspirado; Vasconcelos, aquele Que de um sorriso, Musa, honrou teu canto L na tpida margem Do lmpido Janeiro, que a cerlea Gotejante cabea Tantas vezes alou da vtrea gruta Para urdir-lhe altos hinos Entre o coro das mdidas Nereidas; Vasconcelos, o grande, O sbio, o justo, o benfeitor, o amigo Dos que a cega Fortuna Com desptica mo na roda errante A seu capricho agita, A seu... Porm, que vejo! Excelso objecto, Venervel semblante, Heri, prole de heris, eu te sado, Como o plido nauta Que, descalos os ps, as mos erguidas, Curvados os joelhos, Perante o Rei dos reis, o Deus dos deuses, Crebras graas lhe envia, E sobre os sacros mrmores do templo O roto pano estende, Salvo das frias do terrvel Breas! Eu te sado, alma Que brilhas entre as mais, qual entre os astros A nocturna Diana, Quando com plena luz o argnteo rosto Aos mortais apresenta! Senhor, teus olhos, compassivo, abaixa Para o lnguido objecto, Que a m ventura te arremessa s plantas. Em vo cansei 't'gora Com ais o Cu, com lgrimas a Terra: O almo calor divino,
O milagroso dom, que a raros cabe, Que do lbrego Inferno As frreas portas hrridas arromba, E que das mos a Dite Rouba as tenreas chaves, o gneo ceptro, Enternecendo as Frias, Adormentando o co de trs gargantas, J seu mgico efeito No produz nos mortais; de todos eles S tu, s tu me restas. Ah!, punjam-te meus ais, meus ais te firam; Doira, doira a pesada Negra cadeia de meus tristes dias Condenados ao pranto, Que poder contra ti no tem meu Fado. Em magnficas mesas Lautos festins o paladar cobice Do voraz parasito; A precisa, a saudvel temperana Sacrificar deseje A perniciosa gula; ande embora ureas taas fragrantes Do itlico falerno e cprio nctar; Embora o bruto avaro Vele junto do cheio, intil cofre, Do crcere precioso, Onde tem sepultada a v riqueza; Nutra-lhe a fome insana, Ceve-lhe os olhos o reflexo do oiro, Seu dolo, seu tudo; Que eu s quero, Senhor, obter o asilo Que ds aos desgraados, Que me deves tambm, pois tal me observas. Do teu favor o escudo Rechace os golpes que me vibra o Fado; Com fora mais que humana, Qual de Palas a gide impenetrvel, Petrifique as sanhudas, Horrendas mos da acrrima Desgraa, Contra mim prontas sempre. Das garras da Penria desarreiga O infeliz, que te invoca: Se possvel crescer teu vasto nome, S assim o acrescentas.
VI improvisa morte do Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Principal Mascarenhas e oferecida ao Ilustrssimo Senhor Jos Pedro Hasse de Belm, do Conselho de Sua Majestade e Prelado da Santa Igreja Patriarcal Ode alcaica
...Tuum Poenos etiam ingemuisse Leones Interitum, montesque feri, Sylvaeque loquuntur. Virglio, cloga V
Canora Musa do culto Pndaro, Que remontavas seu estro frvido Sobre as purpreas asas De almos, fogosos xtases: Longe os aromas com que teu hlito Fecunda as mentes dos vates nclitos, Que em altssono metro Vo arrostar com Jpiter. Desce a meus gritos s tu, Melpmene, S tu, que envolta no manto lgubre A lastimosas cenas Ds suspiros, ds lgrimas! Desce a meus rogos, traze-me, inspira-me Nnias queixosas, fnebres cnticos, Que, desgrenhada, entoas Sobre os medonhos tmulos. Negra falange de pragas hrridas Assalte o monstro voraz e indmito, Que restitui ao nada Os humanos misrrimos. Eia, imprequemos a morte lvida, Que nos abismos em trono de vano Preside chusma enorme Das Frias, Hidras, Grgonas. Ela, a tirana, de estragos vida, Cujas melenas so cruis spides, Qual Crbero, ululando Surge do ardente bratro; De estgios monstros maldito squito
Une-se a ela; da terra as hmidas Pedregosas entranhas Fende a caterva rbida. Eis aparecem no mundo, e sbito Murcham-se as flores, secam-se as rvores; O Sol pra enfiado, Coalham-se as fontes lbricas. Das gneas fauces maligno txico Solta nos ares o tropel mprobo: Caem por terra, arquejando, Envenenadas vtimas. Em torno os olhos a Morte plida Mil e mil vezes volve, frentica, E aniquilar deseja A Natureza pvida. Por entre alegres e fiis sbditos Que o acompanham, descobre a brbara Excelso heri, munido De fresca idade flrida; Varo sublime, pio, magnfico, Ramo de antiga planta frutfera, Sempre, alma Virtude, Com teus orvalhos mdida; Varo exmio, que honrava a prpura, Que as fofas asas do orgulho tmido Prendia, cerceava Com gesto brando e plcido. Cincia augusta, dos deuses ddiva, Tu exornavas sua alma cndida; Tu jamais o cegaste V grandeza fantstica. A vil, bilingue lisonja prfida A seus ouvidos sempre foi spera; S lhe inflamava o peito A s verdade lcida. De avs egrgios o vasto nmero S recordava, para ser mulo Da brilhante virtude, Que os fez na Ptria clebres. macilenta pobreza lnguida
Sempre incansvel sua mo prvida Arrancava as mordazes, As esfaimadas vboras. Bom Mascarenhas! A morte horrfica, Como invejando teu alto mrito, Corre e crava em teu peito A garra curva e rspida. Com riso horrvel, com mpio jbilo O Monstro escuta suspiros trmulos, Que de mil almas voam Aos grossos ares trbidos. E coos sequazes no fundo Trtaro Cai de repente, do baque horrssono Espantadas as Frias, Tremem no eterno Crcere. Mas tu, ditoso, plcido esprito, Entre os risonhos coros anglicos Num turbilho de luzes Sobes aos astros ntidos. Eu, eu penetro coa mente algera Os sacros muros do Cu difano! L vejo, sim, l vejo ureo diadema ornando-te. E inda carpimos, Hasse magnnimo! Ah!, no reguemos o surdo mrmore Do heri, que em paz perptua Logra a viso beatfica. Troquem-se os choros em hinos mlicos, Em ledos cantos as nnias fnebres; Desarreiguemos da alma A seva dor angufera. Sim, adoremos, tcitos, tmidos, O Deus terrvel, dos homens rbitro, Que empunha, que arremessa O raio horrendo e rpido. Tu, que professas virtudes slidas, Ah!, no consintas, Cristo Filsofo, Que abale intil mgoa Tua constncia rgida.
VII FORTUNA Cega Fortuna, embora a teus altares Curve o profano avaro seus joelhos, Queime o rico os incensos, que da Arbia O luxo conduzira; Um insensato amante te respeite, Por frustrar os cuidados dum pai cauto, E talvez, com horror da Natureza, Cevar vis apetites, E quantos sem justia conseguiram As bandas, os bastes, as brancas varas, Sem varrer muitas vezes podres bancos De soberbos ministros; Chamem-te uns Nmen grato, outros benigno, Este luz dos mortais, divina aquele, maneira da cega Antiguidade Outros te rendam cultos; Talvez... Eu tremo!... Cus! Que horrendo crime! Tu vs, em teu obsquio, adoradores Sacrlegos voltando as mpias costas sbia Providncia. Eu no pendo de ti, eu no conheo Outras leis, que as do Nmen que governa De cima das estrelas todo o orbe, Omnipotente e sbio. Se a pobreza importuna me persegue Desde o bero talvez sepultura; Se a feia enfermidade estende as asas E em mim o golpe acerta; Se a Morte, a negra Morte, vem roubar-me A minha proteco e o meu asilo; Ou arranca da terra os pais mais ternos, Primor da natureza A fome, a orfandade, os mais trabalhos Reconheo por dons da divindade; Beijo a sagrada mo que assim .me fere, Respeito seus decretos.
Imprecaes no tenho, nem queixumes Contra quem como pai, quando castiga, Deixa logo entrever terna bondade Que o pranto nos enxuga. Quando tens inspirado tal constncia A esses teus heris, heris fingidos, Que tremem de pavor ao fraco voo Duma ave carniceira? Das teses as entranhas denegridas, Dum galo a forte voz, o menor caso, Inda o mais natural, os amedronta; isto heroicidade? O crime lhes dirige ousados passos, Lhes inspira as empresas atrevidas, Que fizeram calar a terra toda sua feroz vista. Frentica ambio devora Csar, Um amor sensual o grande Antnio, Importuna cobia um Alexandre, Eis teus favoritos. Foge, foge, Fortuna; deixa embora Coa msera indigncia ande lutando; Essas tuas vantagens no as quero, No quero teus favores. Procura adoradores; eu no rendo A Nmens estrangeiros culto impuro; santa Providncia a cerviz curvo Com humilde respeito. Se ela pobre me quer, eu me conformo Com o santo querer, que assim o manda: Da amvel pacincia revestido Os seus golpes recebo. Por isto no trocara palmas, louros, Que os campees adornam triunfantes; Triunfo de mim mesmo: esta a vitria Que a fama cantar deve.
VIII Excelentssima Senhora D. Maria de Guadalupe Topete Ulhoa Galfim Enquanto mos servis o altar incensam Da Fortuna inconstante; Enquanto as almas cobiosas pensaria No metal coruscante; Enquanto alerta, circulando os ares, O fatal cabo montas, tu, que os raios, os tufes, os mares Audaz e insano afrontas! Enquanto no teatro de Mavorte Traa astuto guerreiro s opostas falanges cruel morte, Ou duro cativeiro; Enquanto sobre o trono o rei potente, Da lisonja adorado, Inda assim mesmo no est contente, E acha o ceptro pesado: Servindo-me de blsamo teu riso, Eu, com nimo forte ( Paz amiga), os golpes cicatrizo Que me tem dado a Sorte. ruiva margem do aprazvel Tejo, No meu tugrio pobre, Claras virtudes so os bens que invejo, Rico de uma alma nobre. Aqui meus hinos a verdade entoa, Aqui sobre mil flores Aos atractivos da preclara Ulhoa Forjo eternos louvores. No vos invoco, Musas, no preciso Vossa mo protectora; Amores, que podeis, trazei-me um riso De Armia encantadora: Por vs com moles sculos furtado, Minha ideia avigore, E dos vis zoilos o tropel malvado Em meus versos o adore...
Porm, que ignoto lume, o Cu dourando, Aviva a luz do dia! Ah!, que l vem nos ares cintilando Um sorriso de Armia! A tropa de Citera o traz cativo, E em torno dela adeja O transparente Zfiro lascivo A murmurar de inveja. Prazeres do suave paraso, Resumidos no encanto De um deleitoso e cndido sorriso, Com que Amor pode tanto: A vs, a vs consagro a minha lira, E nas asas do vento Alm do espao azul, que Apolo gira. Voa o meu pensamento. ptimo fruto de alterosa planta, Vnus s na beleza, Semideusa gentil, que enches de tanta Vanglria a Natureza: Menos brilhante do que as graas tuas, Danam entre os Amores, L nos cprios jardins, as Graas nuas, Calcando as tenras flores. No era, Ninfa, como tu formosa A bela desgraada Que o lcteo seio penetrou saudosa Com a troiana espada Se de Frgia te visse o pastor loiro, Que s divinas porfias Ps termo, teu seria o pomo de oiro, Ou seu prmio serias. De teus esclarecidos ascendentes A veneranda histria Impressa vive, em lminas pendentes Das aras da Memria. O fresco Tejo, o fresco Mananares L noutra idade os viram Obrar altas proezas singulares, E por eles suspiram.
Que direi da tua alma? Inda mais bela Que teu belo semblante; Anglicas virtudes formam dela O retrato brilhante. Mas teus celestes dons sero manchados Com meu tosco elogio; Com versos, que talvez sejam lanados No sonolento rio! Indesculpvel, perigosa audcia Teus louvores me inspira; Que mais fizera, se o cantor de Trcia Me confiasse a lira? Novo Atlante, o sidreo firmamento Quero manter nos ombros, Se da tua alma debuxar intento As graas e os assombros. Foge-me a lira pvida; receia O assunto majestoso; E j meus lbios trmulos enfreia Silncio respeitoso.
IX A Andr da Ponte de Quental e Cmara O Tirano de Roma empunha o raio, Despede-o contra Sneca inocente; Ao sbio perceptor fulmina a morte O discpulo ingrato. De Nero dura voz se amorna o banho, As veias se retalham, corre o sangue, Avermelham-se as guas, folga o monstro, O Filsofo expira. Scrates imortal, que um Deus proclama, O mestre de Plato, l comparece, De acusadores vis enegrecido, No corrupto Arepago. De altas meditaes, de altas virtudes. Colhe... (que fruto!) a glida cicuta; Cai em silncio eterno, eterno sono O orculo de Atenas. No abismo do infortnio, da indigncia Agonizam Cames, Pachecos morrem; Mendigo e cego, pela inqua Ptria Erra o gro Belisrio. De atros vapores, de tartreas sombras Nomes augustos a calnia abafa, 'T que rebente um sol da noite do Erro, A Razo justiosa. Os Homens no so maus por natureza; Atractivo interesse os falsifica, A utilidade ao mal, e ao bem o instinto Guia estes frgeis entes. Enquanto das paixes activo enxame Ferve no corao, revolve o peito, Perde o carcter, o equilbrio perde A Rectido sisuda. Eis surge imparcial Posteridade Na dextra sopesando etreo facho. Tu, cndido, gentil Desinteresse, Tu lhe espertas a flama.
O critrio sagaz, frente de ambos, Aparncias descr, razes combina, Esmia, deslinda, observa, apura, . E depois sentenceia. J .sem ndoa a virtude ento rutila, J sem mscara o vcio ento negreja, Desce ao tmulo a Glria, heris arranca Aos domnios da Morte. Se no somos heris, se em ns, Ponte, Afoiteza no h, no h constncia, Para com frrea mo suster da Ptria A nutante ventura; Se em til, em moral filosofia No damos aos mortais a lei, o exemplo; Se dos luzeiros sete clara Grcia O grau no disputamos; Nossos nomes, amigo, alados vemos Acima dos comuns: ama-nos Febo, As Musas nos enlouram; cultos nossos Mansa Virtude acolhe. Em tenebrosos crceres jazemos; Falaz acusao nos agrilhoa; De opresses, de ameaos nos carrega O rigor carrancudo; Mas puro dom dos cus, alva inocncia Esta afronta, este horror nos atavia; ntima candidez compensa as manchas Da superfcie escura. Males com a existncia andam cosidos; Desde o primrio ponto do Universo Esta amarga semente sobre a Terra Caiu da mo dos Fados. Em tanto que a raiz tenaz, fecunda, Infecta o corao da natureza, Os tugrios sufoca, assombra os tronos A venenosa rama. Que muito que empeonhe os nossos dias O que os sculos todos envenena! No merecer-se o mal jus, parte Para sentir-se menos.
Deixemos a perversos delatores Os filhos do terror, fantasmas negros, Que o medonho claro da luz interna Assopram sobre os crimes. Se a verdade entre sombras esmorece, Se das eras tardias pendo e pendes, Para o so tribunal, que ao longe assoma, Eia, amigo, apelemos. Tambm h para ns posteridade: Quando l no sepulcro em cinzas soltos No pudermos cevar faminta inveja, Calnia devorante, Os vindouros mortais iro piedosos Ler-nos na triste campa a histria triste; Daro flores, Ponte, s liras nossas, Pranto a nossos desastres.
X A INSTABILIDADE DA FORTUNA Versos epdicos De serenos Favnios bafejada Alveja no horizonte Mansa Aurora, afagando a Natureza; Das libertas madeixas Destila sobre a Terra humor benigno, A planta vivifica, Despe o tenro jasmim do clix tenro, Ao Zfiro anelante De espinhoso boto desprende a rosa. ureas guias sustendo Aos activos ginetes, Febo assoma, Bate a crula estrada, E estende pelos cus brilhante dia. Eis terrenos vapores Em midas pores, que atrai, que eleva, Aos puros ares sobem, Unem-se pouco a pouco, avultam, giram, A grata luz sufocam, E em rpidos chuveiros se derretem. Por entre vrzeas ledas, Verdes colinas, florescentes prados, O claro, o doce Tejo Sussurra, ufano das areias de oiro, De alta veia abundosa; Mas quando mais audaz, mais amplo corre, No salgado Oceano Perde o sabor, o cabedal e o nome. Sobrepujando s nuvens, Torre alterosa os sculos afronta; Com rgido alicerce Carrega, escora no profundo Averno, Qual do opresso Gigante Pesa nos ombros o estrelado Olimpo: Sbito brama, estoira Ar comprimido no interior da Terra; Desordena-se a base, A assombrosa Babel se desconjunta, Soa a terrvel queda, Num baque se desfaz o ingente orgulho. Crespo, enorme rochedo Rebate as vagas, que a trag-lo investem; Ronca de injuriado O Plago arrogante, as frias dobra,
Multiplica os assaltos, Recrescem ondas, e o penedo ileso; Nisto do seio escuro Da procelosa nuvem rebentando, gnea frecha, seguida Do horrssono trovo, d sobre a rocha, Em pedaos a espalha: O que no pde o mar l pode o raio. temerosa fronte De bravos esquadres, ardendo cm sanha, Qual tu, Nmen da guerra, Frentico mortal insulta a monte; Por entre espessa chuva De frvidos peloiros, que sibilam, Corre, vozeia, ataca, Rompe, abate, destri, e enfim triunfa. Ei-lo em carro pomposo, Tirado por misrrimos despojos Da sanguenta Vitria, Por seus iguais, que aflitos, presos, curvos Ao jugo vergonhoso, No p, no pejo envoltos, suam, gemem. L volve ao duro ofcio O flagelo, o terror da Humanidade; De antemo se gloria Dos novos loiros, que j cr que apalpa; Engana-se o perverso; A Ventura cansou de honrar-lhe os crimes. L se ateia o conflito, O brbaro guerreiro arqueja e ferve, Contra as armas adversas; Punge o bruto veloz, que ardido escuma. Assassino adornado Do titulo de heri, no vs, no sentes Os ministros da Morte, Os hrridos fantasmas que te seguem? L o assaltou, o rodeia Raivosa turba hostil; pesados golpes Chovem sobre o tirano; Lida em vo, perde o ferro, em rubro lago Se revolve na terra: Exulta, Natureza, o monstro expira! Nada tem permanncia, Caprichos da Fortuna alteram tudo. Musas inspiradoras, Graas mimosas, cndidos Amores, Almo prazer me deram; Fitos em Nise o corao e os olhos, Num xtasis suave, Pus em doce aliana a voz e a lira;
Da famosa Ulisseia Os corvos aterrei, fui grato aos cisnes. Hoje, sumido gente, A luz vedado, em crcere medonho, Nem parece que existo. Ru me publica opinio potente, Triste labu me afeia; Perdi a minha Nise, a glria minha, A minha liberdade. Remotos estes bens, que bem me resta? O maior: a constncia!
XI Ao Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Jos de Seabra da Silva, Ministro e Secretrio de Estado dos Negcios do Reino
Seigneur, si jusquici, par un trait de prudence, J'ai demeur pour toi dans un humble silence, Ce nest pas que mon coeur, vainement suspendu, Balance pour toffrir un encens qui test d.
Boileau, Discours au Roi A sria, imparcial Filosofia Tambm louvores tece, Tambm canta de heris, Musa, o nome. Se com ar carrancudo, Se com terrvel cenho os olhos lanas Ao monstro fraudulento, Ao segundo Proteu que se insinua Nos sumptuosos paos, Que mil figuras faz, mil cores toma, Do Tempo e da Fortuna Os erros abrilhanta, os vcios doira; trgida Opulncia Queima em profano altar venais aromas, E adora, aplaude os crimes, Quando os crimes protege a vria deusa, Enquanto mngua morre No vil tugrio o mrito esquecido; Se a lisonja abominas, A lisonja falaz, abjecta escrava; Se maldies tremendas Sobre a curva cerviz lhe descarregas; Se invocas em seu dano O Mar, a Terra, os Cus, o Inferno, o raio, Hoje, no grmio puro De sos prazeres, desenruga a testa, Rende culto verdade, De sublime varo remonta os vivas Ao plo rutilante. Poltica feroz, que sempre armada De brbaros pretextos, morte horrenda em lgubre teatro Ds vitimas sem conto, Apoucas e destris a Humanidade, Afectando mant-la; Negro, voraz drago, que as honras tragas, Herana da virtude,
Do gro saber, dos nclitos suores Do heri laborioso; E tu, Fria pior que as Frias todas, Surda, imota, insensvel Do assanhado Remorso voz e s ganas, Que o digno, o sbio, o justo Defraudas a sabor de vos caprichos, E os teus dons amontoas No ocioso, no mau, no vil, no inerte; Paixes abominosas, Fonte da corrupo na espcie humana, Vos nunca envenenastes O corao do heri, que me afogueia, Que me estimula a mente, A mente, onde revolvo altos mistrios, Transcendentes ao vulgo; O corao do heri que entrego fama, o altar da Virtude. Vs, serpes, com medroso acatamento, Vs lhe fugis de rojo, E enroscadas no cho silvais ao longe; Ao longe alaga a terra Peonha que das fauces vos transborda; Em tanto que assombradas Do padro que Virtude em verso erijo, Este clima, estes ares Danais, enegreceis com torpe alento, A Verdade os serene, A Verdade os apure, em hinos solta. Sim, tu, filha do Olimpo, De meus cultos fiis dolo augusto, No doirado momento Em que alto dom dos Cus a Terra obteve, Em que Seabra excelso Honrou com seu natal a Humanidade, Voa, voa, exultante leda habitao do heri benigno; Vai rever-te em seu rosto, E audaz, e tal como s, sem vu, sem arte, Nas mos lhe deposita, Nas mos propcias o espontneo voto. Tu, perspicaz Astcia, S do baixo interesse a lngua sabes, Dizes o que no sentes: As vozes, que o filsofo profere, S a Razo dirige.
XII Ao Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Jos de Seabra da Silva Do Lcio portentoso e da alta Grcia, Tenaz memria minha, Os fastos, os anais em vo revolves. Em vo me representas Scrates devorando entre os alunos A venfica planta Com repousado aspecto imperturbvel; Alm, Rgulo, entregue A raivas brutas da feroz Cartago, Dando em longos tormentos A natureza horror, trabalho morte; Aqui o estico invicto, O rspido Cato brandindo o ferro, Lacerando as entranhas, Na glria abstracto de morrer com Roma. Que presta ao mal o exemplo? Reflectir e sofrer, quanto difere! Por haver desgraados Sou menos infeliz, sou menos triste? E se o sbio de Atenas, O orculo moral, ao termo infausto Volveu olhos tranquilos; Se, avesso a Csar, o Uticense austero Sufocou agras dores No ardor, na fria, na averso, no orgulho, Ou talvez na virtude; Se em garras de lees com visos de homens Transps a Humanidade O aprisionado heri no atroz suplcio, Todos, ah!, todos viam Dentre o ponto mortal surgir-lhe a fama, Em padro venerando Dar-lhe eterno carcter, nome eterno; A s posteridade Ouviam de antemo denomin-los Mrtires da calnia, Alvos da inveja, vtimas da Ptria. A mim, desventurado, Num crcere cruel envolto em sombras; A mim, curvo, abatido Ao peso do grilho, da injria ao peso, Ente vulgar, intil, De mil tribulaes, que recompensa Que futuro me resta? A desesperao meus fados cinge
A meu peito afanoso; Eis frvido tio, roubado s Frias, Arremessa ululando; Eis... Mas Cus!, que viso!, que luz!, que assombro! Cndida imagem leda Me abala o corao, me encanta os olhos! s quimera ou deidade, Scia dos Numes ou fico da ideia, Tu, que benigno raio Derramas neste honor, neste amargoso Domiclio dos males?... Ah!, tens etreo ser, em ti rutila O reflexo de Jove! Mas dignas-te de vir ao triste seio De medrosa masmorra?!... Habitante do Cu brilhar no abismo?!... Atraiu, porventura, Encaminhou talvez aqui teu voo O no raro acidente De estar sem crime habitao de crimes? Tu vs, ente celeste, Tu vs meu corao: no perjuro, No cruel, no ingrato, Ama o dever, a probidade, a honra, D hinos virtude, Aos altares incenso, aos slios culto... Ah!, que doces lembranas Teu ar aprovador me acorda na alma? Das trevas o costume Quanto me confundia a vista escassa! J outrora a meus olhos Tua face luziu, j foste outrora Meu refgio, meu Nume. Santa Beneficncia! s tu que afagas A desventura minha, Da desesperao tu vens salvar-me Coa ridente esperana, Tesouro de infelizes, dom do Eterno? Ah!, tu, que em mim restauras A macia constncia, o frreo escudo Contra os golpes do Fado, Meu Nmen tutelar, no ds ao Tempo, Azo no ds aos males De aviltar-me outra vez, de unir-me terra A descada fronte; Em benefcio meu de mim te aparta, Grato lugar demanda, Lugar digno de ti, sagrada estncia Do perfeito herosmo, Da glria, que no romper muralhas,
Tragar a natureza, Ou nutrir iluses, dar vulto ao nada, Mas em jugo macio Docemente prender geral vontade; Idear que prospere Mais o pblico bem, que o bem privado; De ureo, sacro volume, Volume da Razo, que luz no trono, Transcrever puramente Leis amigas do Cu, do Mundo amigas. No lugar, que te aponto, Conheces, Deusa, de Seabra os lares; Seu louvor, no seu nome, Na glria, que descrevo, a glria sua. Ao penetral brilhante, Onde os influxos teus dos astros descem, Leva o quadro funesto Das minhas opresses, dos meus desastres; Roa com ele o peito Do preclaro varo, que aflito invoco: Deplorveis objectos Na alma piedosa o sentimento apuram. Sejam, sejam remidos, Pela dextra eficaz do heri prestante, Meu prazer, meu repouso, A mente, a liberdade, a luz e a vida Neste horror sufocadas.
XIII Aos felicssimos anos da Ilustrssima e Excelentssima Senhora D. Ana Felcia Coutinho Pereira de Sousa Tavares de Horta Amado e Cerveira, etc., etc. Sculos de oiro, luminosa idade, De inculpveis costumes, Eras em que a folgada Humanidade Apenas tinha que invejar aos Numes; poca da inocncia e da alegria, Oh tempo augusto e santo! De vs ao menos inda existe um dia, Dia adorvel, que em meus versos canto. Quando recente o Sol caiu na esfera Cristalina e serena, Bordou coa mo subtil da primavera Ao tenro mundo a superfcie amena, Do grmio criador surgiram flores, Flores que no murchavam, E incessantes Favnios brincadores Algeros perfumes lhe roubavam. O dom da grata Ceres, tremulando, Sem arte enlourecia; As ondas preguiosas desdobrando Sobre a declive areia o mar se ria: De aprazvel matiz at viosos Eram penedos broncos, E estavam dos carvalhos alterosos Mel espontneo destilando os troncos. Delcias da primeva natureza, Hoje volveis terra; O riso, a glria, o jbilo, a pureza De tantos dias um s dia encerra. Mas em honra de quem, mas por que indulto Gozam dele os humanos? Que deus, Musas, lhe baldou o insulto Do monstro enorme, tragador dos anos? Jove lanando a vista ilimitada Ao globo pervertido, A terra por mil vcios profanada, Se esquece de que Deus, solta um gemido: Turvam-se os astros, mas enfim serenos Lhe ouvem com ar jucundo: Um dia venturoso, um dia ao menos Dos dias que perdeu console o mundo.
Eis nos arquivos, que resguarda o Fado Coa chave diamantina, ureos futuros em monto sagrado Revolve providente a mo divina: Um deles, que transcende a luz febeia, Dos mais desembaraa, E grande, ilustre e majestosa ideia Da alta herona alto destino enlaa. A ti, clara poro do etreo lume, Esprito formoso, A ti se deve (pronuncia o Nume) Depsito condigno, excelso, honroso. Nas plumas de alvos gnios fulgurantes Risonho ao mundo voa; S prole exmia de vares prestantes, Onde o vtreo Mondego alegre soa. Esmalte dos magnnimos Coutinhos, Dos teus progenitores, Hs-de atrair os paternais carinhos Ao man de teus dons encantadores. Uma alma, como tu, cndida e bela, Devo aliar contigo; E o mundo gozar por ti, por ela, A virtude exemplar do tempo antigo. Aquele a que te unir propcia estrela, Ser da Ptria Atlante; Ir suster-lhe o peso, ir mant-la No ombro jamais cansado ou vacilante; Ele origem ser, ser o exemplo, A luz de heris preclaros; Seu nome se ouvir no eterno templo, Templo difcil, a que sobem raros. Asilo do infortnio e da inocncia, Seabra generoso, Requintando eficaz beneficncia, O mais triste mortal far ditoso: A vate opresso da calnia infida Dar pronta vitria; H-de restitui-lo ao mundo, vida, Ao gosto, liberdade, paz, glria. Gnios brilhantes, que cingis meu slio, Velai no par sublime; Virtude, qual no vira o Capitlio, Frouxas virtudes pelo exemplo anime:
Alm dos ptrios cus abra caminho O esplendor, que derrama; Do gro Seabra, da imortal Coutinho Sejam cantores a Verdade e a Fama. Assim vociferou na estncia augusta O Monarca superno, E entretanto do Fado a mo robusta O decreto lavrou no livro eterno. Eis que dos tempos de oiro adormecidos Pura extraco desvia, E os Cus se ensoberbecem, guarnecidos Do ameno, desusado, amvel dia. Um vate que dir, depois de um nume? De ti qual digno canto? Grande, extremado objecto, em vo presume Voz, que no for celeste, honrar-se tanto. Temor, que a lira audaz de mim remove, respeito, decoro: Intrprete fiel da voz de Jove, Tuas virtudes em silncio adoro.
XIV Ao Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Jos de Seabra da Silva Fantasmas do Terror, scios funestos Do queixoso Infortnio, Tristes combinaes, verdugos da alma, J no sois meus tiranos. Descei, filhas do Cu, tomai-me a lira, Tomai-me o dom sagrado; Meus dedos, quase inertes de ociosos, Pelos canoros fios Coos apolneos sons de novo atinem, Achem de novo a glria. Celeste virao, que a mente humana Fecunda, purifica; Estro brilhante, criador dos hinos, Dissipa imagens turvas, De agra tristeza desvanece o rasto No esprito do vate, sombra dos altares acolhido. A estrdula corrente, O peso infamador aqui no soa; Aqui no soam mgoas Da vexada Inocncia lamentosa, Nem do Crime oprimido Atroz blasfmia desafia o raio. Aqui reina a Virtude, A fagueira Piedade acode ao pranto, Tempera a desventura. Mais do que em todos, neste asilo augusto, Como que ests soprando, Oh pura, salutar, vivificante Respirao de Jove! J da semente, que afogavam medos, Surgem frutos viosos, Em que os heris a Eternidade gostam; Da alma rebentam versos, Versos, que vo luzir, votiva ofrenda, Da Gratido nas aras. Tu, Seabra imortal, meu canto acolhe, Como os ais me acolheste; Constrangendo a modstia, anui ao voto. No idioma de Febo D que em teus vivas minha voz se inflame; Que das Musas o aluno Grato aos influxos da demncia tua, A teu carcter grande Padres erija, que no ri a idade.
Horas h portentosas, Em que da vil matria desatado, Sem que o desligue a morte, Alm da natureza adeja o vate; De encarar no vindoiro O dom foi agregado ao estro santo; Para os filhos de Apoio Privilgios no tem, nem vus, nem sombras O imutvel Destino. Num gneo turbilho correndo a mente Aos Penetrais eternos, Em lminas de bronze olhei teus Fados Com mudo acatamento. Dado me foi tambm colher futuros Para amveis penhores De que o doce Himeneu te fez mimoso: da Sorte decreto Que as vergnteas gentis vicejem tanto, Como a planta que as nutre; Em no remota idade ornando a Ptria, Na Fama reluzindo, Heris produziro, que heris produzam. No se alucinam vates; Mil glrias te hei previsto clara estirpe! Brilhar, como brilhas, E de igual permanncia esto fadados O Universo e teu nome.
XV Ao Senhor Jos Bersane Leite Euro, batendo as asas procelosas, O Plago entumece Medonhos Escarcus de fofa espuma s nuvens se arremessam. Do trovo, do fuzil o estrondo, o lume Atroa e cresta os ares, Hrrido aos olhos, hrrido aos ouvidos. Lutam coa Vaga enorme Afrontados Baixis, no Tejo arfando. Ao repelo frequente Resiste apenas a robusta amarra. Oh, que terror semeia O tumulto que o Mar e o Cu revolve! L negreja no Ocaso, De Espectros ladeada, a Noite horrenda! L desce, l caminha, E envolve manso e manso a Natureza No vu caliginoso. O Crime velador, a audaz Ternura A sadam, risonhos; vida Turba com silncio cauto Meios e ardis traando, Lhe espreita os passos, lhe calcula as horas; A frgil posse anela Desses dolos vos Oiro, Beleza To fatais, to queridos! venturoso, tu que, rodeado De cndidos prazeres, Nos lares teus, nos lares da Virtude, Ora em xtasis doce Pendes do Cisne, que as Mendrias guas Ao sacro Tibre invejam; Ora todo te ds ao som divino, s liras milagrosas Do meu Tinio, do atilado Eurindo, De Leuccio fecundo, Que, acesos despregando ao Estro as asas Pelo cerleo Vcuo, O Sol transcendem, somem-se nos Astros, Do Fado a nvoa rompem, Mistrios sondam, maravilhas palpam, Enquanto o Zoilo inerte, Cego ao rasto, ao fulgor, que pelos ares O rduo voo assinala, Morde e remorde as vboras do seio,
Pragueja, brama, escuma; A clera de Jove antes quisera, E ir, despojo do Raio, Arder coas Frias, ulular no Inferno, Ouvir troar Sumano, Que sofrer o claro da glria alheia. Feliz, feliz mil vezes Tu, meu Josino, que verdade afeito, Nunca do exmio Vate, Do Heri, do Sbio o crdito escasseias! No figuras, no sonhas No mrito dos mais o teu desdoiro; s paixes sobranceiro, Ao jugo da Razo vontade presa, Do Autor distingues o Homem; Se Esprito falaz coa vil Calnia Enevoar teus dias; E se as Musas de si lhe derem tanto, Que emboque pica Tuba, Que o som da eterna Ilada renove, Dirs, dirs absorto: Na voz, que me feriu, revive Homero! Exemplo venerando! Raros o seguem, se o proclamam todos. Mas vive tu, Josino, Vive coa glria, coa perptua glria, Que ao grave exemplo quadra. S com ela, porm, medrar teu nome No deve entre os famosos. Teu gnio lide, esmere-se a tua alma Na prvida cultura. Do Monte Augusto; admirem-te os que admiras; S mais fiel, mais grato s Musas, que te querem, que te acenam, Que os loiros te cultivam; No temas, no fraquejes; voa e canta Alm do Vulgo insano. Esttuas e Padres consome o Tempo, Desaba o cerro anoso, Perece o feno, o bronze, e versos vivem. Para cantar de amores Suave inspirao l tens nos olhos, Nas ondadas madeixas, No riso ingnuo da lou Ritlia, De Anarda encantadora. Para cantar de Heris, que Ptria deram No cuidadas vitrias, De sangue, de suor, de p manchados, Forando o Mar e a Terra, L Cames, l Cames, com ele a mente
Fertiliza, afervora, Povoa, fortalece, apura, eleva; Que o malfadado Elmano Em tosco domiclio, onde o sopeiam Carrancudas Tristezas, Afaz o lutuoso pensamento Ao fantasma da Morte; Mantm na solido, no honor das trevas Reflexes amargosas, E v na confuso da Natureza O quadro da sua alma.
XVI O QUADRO DA VIDA HUMANA Alegrica De Porto mal seguro a turvo Pego Sai mesquinho baixel com raras velas, Vai crespas ondas, pvido, talhando discrio dos ventos. Nauta inexperto lhe dirige o leme, Chusma bisonha lhe mareia o pano; Dum lado fervem Sirtes, doutro lado Navfragos penedos. Sussurrante chuveiro os ares cena, Luz sulfreo claro de quando em quando, De iminente procela os negros vultos Fero estrago ameaam. J bravos escarcus, que se amontoam, Por cima do convs soberbos saltam. Prossegue na derrota o dbil pinho, Das vagas quase absorto. Depois de longamente haver corrido A estrada desigual com cus adversos, Em lugar de colh-lo, o pano aumenta, Desafia o naufrgio. Imaginria terra se lhe antolha, De mil e mil venturas semeada: Anelas por surgir no porto amigo, Cobiosa Esperana. Para cevar o horror mais campo havendo, A tona tempestade ento mais zune; Em raios, em tufes todo o ar converte, Todo o plago em serras. O msero baixei desmantelado Aos duros encontres do mar, do vento, Sobe s estrelas, aos abismos desce Entre o pavor e a morte. Sbito acode prvido piloto, Que, oprimido at ali, jazera em ferros,
Num vil crcere escuro, onde rebeldes O tinham sopeado. Estende a mo forosa, aferra o leme, O lenho desafronta, o rumo escolhe; Com saber eficaz, com alta indstria Vai sustendo a tormenta. J volumosas nuvens se adelgaam, O vento se amacia, o mar se aplana: Do benigno Santelmo o tnue lume Reluz no areo tope. Reina um pouco a suave, azul bonana; Mas eis se tolda o cu de novas sombras; Mais negra, mais feroz, mais horrorosa Ressurge a tempestade. O sbio director, que todo ufano Da recente vitria inda folgava, A repetido assalto ope debalde Arte, vigor, constncia. Tremendo aos furaces impetuosos J descoroa, enfim, j desalenta; Coa mquina infeliz, que j no rege, Misrrimo soobra. ente racional! ente frgil! Escravo das paixes que te arrebatam! Olhos sisudos neste quadro emprega: Eis o quadro da vida.
XVII Ao Senhor Incio Quintela, Oficial de Marinha e excelente poeta Impvido outra vez, Quintela egrgio, Vs pr freio aos tufes, dar leis aos mares, Do grande gnio teu dobrar ao jugo Carrancudas procelas. Ruem por terra as empenadas portas Das elias, horrssonas masmorras, Que de um fero encontro, rugindo, arromba A caterva dos Euros, Soa o duro estridor das asas negras, Nuvens a nuvens sbito se agregam; O pego se revolve, o cu goteia Tinto da cor do Inferno. Eis arde, serpeando entre os horrores Da basta cerrao, fulmneo lume; Eis pesados troves o plo atroam, Os nautas ensurdecem. Nos crespos escarcus l surge a morte, Em montanhas de espuma o lenho afronta; Rasga celestes vus o areo tope, Roa no Averno a quilha. Aos bravos furaces que no fraquejem Grita o Deus cio tridente e o Deus do raio; Nos eixos nuta o Mundo voz dos torvos Irmos omnipotentes. Medrosa palidez destinge as faces, Sopeia as foras, enregela o sangue; J sobre as asas do Terror convulso Foge a murcha Esperana. Em choroso fragor mil preces tentam, Voando, amolecer de Jove as iras: Sanhudos turbilhes coas amplas fauces Os votos extraviam. Sobranceiro ao pavor, Quintela em tanto, Contrastando os revoltos elementos, Depois que exaure, arte, em vs indstrias Teus prvidos tesoiros,
Pela undosa braveza ao ver sem fruto Subtis combinaes, subtis segredos, Recorre sacra lira, ao dom divino, Dom fecundo de assombros. Rebentam dentre as ondas marulhosas Namorados delfins; os ventos dormem, Desassombra-se o Plo, o mar se encurva potente harmonia. Ante o novo Aron, como encantados, Surdem verdes trites do equreo seio; Assoma de Nereu a ingnua prole, Nos monstros escamosos. ddiva dos Cus! lira augusta! Para o digno cantor, o exmio vate, No corre o tempo, no dimana o Letes, No h segunda morte.
XVIII Aos Amigos (imitada de uns versos de Monsieur Parny) Jazem desfeitos meus penosos ferros, Scios fiis; eis volto Liberto de aflies aos vossos braos, serena amizade! Tu prestas mais que Amor: seus vos favores So caros, so custosos. j, j lhes disse adeus, e lhes prefiro O nctar, que roxeia Em honra de Lieu nos vtreos copos; Ele me extrai, me apaga A memria tenaz de acerbos males. Eia, amigos, libemos Almo, rubro licor que gera os risos, Os festivais gracejos, Que espanca o frouxo medo, o pejo inerte, E as Musas desafia, E esperta o sangue ao ancio rugoso. Dos prazeres da terra este o s prazer extreme e puro, de todos os tempos. Ele da perda de gentis ingratas Nos consola e nos vinga. Ele... Ah! Triste de mim! Como difcil Afectar alegria No seio da aflio! Como forado E sensabor o riso, Se o pranto da tristeza acode aos olhos! No mais, taa intil, Licor infrutuoso, ah!, longe, longe! E tu, sria Amizade, So, divino prazer, tu s no podes Contentar meus desejos. Ao tropel das paixes, que lutam na alma, Debalde impem silncio As vozes da Razo e as vozes tuas. Ai de mim! Tu lamentas, Choras os males meus, e a ti cumpria Acautelar meus males. Quando me vs cado, a mo me ofreces, A mo, que funda chaga, Em vez de ma curar tonteia, assanha. Vai-te, no me alumies; As luzes da Verdade Amor no sofre.
Quer Amor que eu me iluda, Que, surdo voz do desengano austero, Que, desmentindo os olhos, Engane o pensamento em mil quimeras, Que, dos fenos curvado, Cante os prazeres, cante a liberdade; Que, em suave transporte, Mil sombras vs na fantasia abrace; Que imagine venturas Entre as garras de asprrimos desgostos. Viro, viro remir-me Do cativeiro antigo esses momentos Em que os mortais acordam De um profundo letargo, em que, severa, Na escurido do engano, A prvida Razo meneia o facho, E em que aos olhos j claros Voa, desaparece o falso encanto, O sonho dos amores. Tu, Tempo estragador, batendo as asas, Arrebatas contigo As nossas propenses, os gostos nossos; Tu hs-de melhorar-me, Tu hs-de rematar minhas cegueiras. Ento, fiis amigos, Rotos os ferros, sacudido o jugo, O corao de Elmano Tornar para vs, ser qual fora, Se o permitisse Armia. Sobre a vossa experincia ento firmada, Minha usual fraqueza Talvez cobre vigor, talvez evite O regresso danoso, A fatal sensao de vos prazeres. Vs me vereis, contudo, Volver para as paixes da fresca idade Olhos humedecidos; Gemer a meu pesar, corar de pejo Coa teimosa lembrana Dos delrios de Amor e, envergonhado, Ter-lhe ainda saudades.
XIX O DESENGANO Versas epdicos Assaz temos cantado, assaz carpido, lira, doce lira, Os bens e os males do comum tirano, Que nas almas derrama A dor e o riso, o nctar e o veneno. Longe a brilhante ideia De olhos fagueiros, de aneladas tranas, De anglicos sorrisos, De momentneos amorosos furtos; Longe a amarga lembrana De vis perjrios, de cruis enganos, De traies estudadas; Longe as memrias da infiel Marlia. Feitios perigosos, Verdugos da alterosa Liberdade, Tu, dom da formosura, Fatal aos coraes, suave aos olhos, Tu, que em meus pensamentos No arbtrio meu, desptico, imperavas, Tirano, impe teu jugo, Teu frreo jugo na cerviz daqueles Que a sisuda Experincia Por entre pavorosos precipcios Inda ao templo remoto No guiou do profcuo Desengano. Vencida a longa estrada, Onde o Erro elevou montes e montes Para estorvar ao homem Sagaz instinto que Verdade o guia, Vejo, sado os Lares, Lares augustos do terrvel Nume, Atento voz do aflito Que ingnuas preces lhe dirige s aras, Surdo a rogos falazes Do cego escravo, que idolatra os ferros, Liberdade implorando... Que solido, que plcida tristeza, Que profundo silncio Reina em torno do alcar venerando! sacro domiclio Da Verdade imortal! Qu! Tu num ermo! Os teus trios desertos,
Sem culto, sem ministro os teus altares, Enquanto v grandeza Servil caterva prostitui incensos, E a curvada Lisonja Os crimes doira, os vcios abrilhanta! Ah!, eu te vingo, deusa! Eu entro o franco prtico espaoso E s aras... Mas que sinto! Que gelo, que tremor, que sobressalto Me prende a voz e a planta, Me abate as foras, me arrepia as carnes! Corao, que te assombra? Que temes, corao? Perder Marlia?! Manha acaso tua? No maculou, traidora, os puros votos, Os ternos juramentos? No viste a desleal sem dor, sem pejo, Cevar-se nos teus males, Coos lindos olhos em Fileno absortos? Que importa que em seus lbios, Seu ledo rosto, seu virgneo seio, Os Amores e as Graas Pressentem mil imagens deleitosas, Onde os sentidos pascem. Que importa, se a traio surgiu do Averno A corromper-lhe o peito? Que vale sem virtude a formosura? Cede ao tempo, desgraa; Do esprito a beleza sempre nova. Corao, triunfemos, Triunfemos da prfida Marlia, E se a razo no basta, Vena a vaidade o que a razo no vence. Envergonha-te ao menos De seres s feliz, quando o permite O teu rival soberbo, Que, enjoando os afagos importunos Da perjura que adoras, s vezes com desprezo em cio os deixa, E se a ti se dirigem, No vm do corao, vm do costume. Eia, msero escravo, Sacode o jugo, despedaa os ferros, A vaidade te anime. Quase tudo o que raro, estranho, ilustre, Da vaidade procede, Mvel primeiro das aces pasmosas. Tente-se a grande empresa, Forcem-se os Fados... Ai de mim! Palpitas? E em frequentes arrancos
Como que exprimes o pavor da morte! Corao, no! desmaies, Alenta-te, infeliz... Porm, que escuto? Que rudo, que assombro! Que resplendor me cerca e me deslumbra?! Torvos drages, batendo Asas de negra cor, com duro estrondo, Se encontram, se atropelam, E, quais nocturnas aves, que amedrenta O claro matutino, Espavoridos pelos ares fogem Ao fulgor cintilante De rubro facho, que na dextra empunha Venervel matrona, Librada sobre os Zfiros plumosos! Ah!, quem s? Vens do Olimpo, Portentosa viso? Vens socorrer-me? Ou s areo fruto Da enferma, delirante fantasia, Que entre iluses vagueia?... No, j me iluminaste a mente cega, Reconheo-te, Deusa, s a prole dos Cus, s a Virtude, Que no benigno seio Acolhes os meus ais, os meus remorsos, Indulgente demora Que tive em demandar teu santo asilo. Esses monstros, voando Ante o celeste resplendor que espraias, So pungentes saudades, Feias traies, frenticos cimes, Que invisveis tgora As clidas entranhas me ralavam. Graas, divindade, Que do sbio varo mantns o esforo, Quando a volvel Sorte, Inimiga do mrito, o sepulta Nas solitrias sombras De profunda masmorra aferrolhada, Onde por mos infames De asprrimas correntes o carrega. Munido da inocncia, Contigo ri o Heri no cadafalso; Contigo alegre observa Do carrancudo algoz na mo terrvel O amolado cutelo, Executor de brbara sentena, E contigo, deidade, alta benfeitora, encaro as portas Do formidvel templo.
Teu sagrado fervor de veia em veia Me agita, me transporta; Eu te sigo, eu te sigo... Cus! Deuses! J sou meu, j sou livre. dolo falso, que de altar profano Davas leis minha alma, Recebias meus votos, meus incensos, Tributos da fraqueza; Aleivosa Marlia, horror e afronta 'T do tropel de ingratas, De astutas, de infiis, que o mundo infamam, O escravo de teus olhos, A vtima infeliz de teus enganos J tem rotos os ferros, Solta a vontade, o corao tranquilo. Como o Sol, quando vibra Na cristalina esfera os raios de oiro, Gasta, desfaz, consome Vapores, que exalou do seio a Terra, Tambm, falaz Manha, As luzes, que a verdade em mim dardeja, Absorvem, desvanecem A funesta iluso, que na minha alma Te assemelhava aos deuses. Ingrata, consumiram-se os incensos, Retractaram-se os votos, Foram-se as oblaes e os sacrifcios, Caiu o altar e o nume!
XX Ao Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Lus Pinto de Sonsa Coutinho, Ministro e Secretrio de Estado dos Negcios Estrangeiros e da Guerra, etc. Inculto habitador das agras serras, Que mal de avena humilde Sabe os sons extrair, insinuados Da simples Natureza; Voz apenas capaz de urdir louvores Aos olhos, s madeixas De cndida pastora inculta e bela, Hoje, alteando o voo, Ousar dos heris tentar o aplauso? Lanarei destemido A lira do Tebano a dextra inerte? Onde o fogo divino? Onde a frase dos deuses? Onde a fora, A mente, a melodia? Da temerria empresa, vasta ideia, No me retns o impulso? No; dois numes em mim, dois numes fervem, Me inspiram, me arrebatam, Santo Amor da Verdade, Amor da Ptria! Vs sereis minhas Musas, Vs estro me dareis, que eleve aos astros De Sousa o grande nome! Seus mritos sublimes, portentosos, Na acesa fantasia Em confuso brilhante me flamejam, Como no Plo imenso De ureos luzeiros multido lustrosa. Qual cantarei primeiro? Qual deve preceder aos mil que o cercam? Vs Artes, vs Cincias, Que a subtil percepo lhe alumiastes Nos florescentes dias, Em que a chusma dos frvolos prazeres Distrai almas vulgares Da sisuda ateno que exige Atenas, Quando o Liceu franqueia? Mas no: bem que vos amo, a vs prefiro Mais atractivo objecto. Alta fidelidade s leis, ao trono, Majestosas virtudes, Que do meu claro heri fulgis no peito, Vs acolhei meus hinos. Nobre corporao, profcua turma, Coraes denodados,
Viventes muros da benigna Ptria, Que arrostais invencveis O horror, a chama, o ferro, a morte, a glria. Vs ajudai meus vivas, Honrada gratido vos dobre a fama! O esprito fulgente, O gnio tutelar que em Lsia vela, Que insignes dons confere, Gro ministro de Jove, a povos gratos, Com celestes influxos, Invisvel reside a par de Sousa; A mente lhe bafeja, rduas combinaes lhe induz, lhe aplana; Poltica suprema, Onde a sagacidade abrange a honra, Lhe ministra, lhe apura: Num quadro luminoso o bem da Ptria Lhe conserva ante os olhos, Olhos, que travam do futuro esquivo: De horrssonas procelas De rijos aquiles, que perto assomam, Que rugem, que ameaam, Comuns estragos, pblicos desastres, Contra a temvel sanha Lhe inspira as artes, o vigor que a domam. J do fatal negrume O cu de Lusitnia as sombras despe; Limpo de atros vapores Vem apontando o Sol no carro ardente; Torna ao uso prestante Nos frteis campos o ocioso arado; Reinam serenos gostos, Na fausta Lsia se renova o Mundo. Respeitvel ministro, Tesouro dos polticos mistrios, A Ptria, a que s to caro, Grata e ditosa em teu louvor se inflama, Tuas aces pregoa! De legtimo heri o egrgio nome Tu granjeaste e gozas. Dos preclaros avs coa srie extensa, E imortal entre os Lusos, Grande, excelso te fez Fortuna amiga; Porm em ureos dotes Mais grandeza te deu, te deu mais lustre A amiga Natureza; Bastas a ti, Senhor, contigo brilhas; Tua glria s tu mesmo, E etreo resplendor teus anos croa!
XXI SANTSSIMA VIRGEM A SENHORA DA ENCARNAO Acatamento em si e audcia unindo, Sobre o jus de imortal firmando os voos, A impvida Razo, celeste eflvio, Se eleva, se arrebata. Por entre imensa noite e dia imenso (Merc do Condutor, da F, que a anima) Sobe de cus em cus, alcana ao longe O gro Princpio dos Princpios todos. Alm do Firmamento, alm do espao Que, por lei suma, franqueara o seio A mundos sem medida, a sis sem conto, Imvel trono assoma: De um lado e de outro lado todo estrelas; Vence ao diamante a consistncia, o lume; Absortos cortesos o incensam, curvos; Tem por base e dossel a Eternidade. Luz, de reflexos trs, inextinguvel, Luz que existe de si, luz de que emanam A Natureza, a Vida, o Fado, a Glria, Dali reparte aos entes Altas virtudes, sentimento augusto; Aos entes que na terra extraviados, Das rebeldes paixes entre o tumulto, Ao grito do remorso param, tremem. Filho do Nada! Um Deus te v, te escuta. Seus olhos imortais do empreo cume (Aos teus imensidade, aos dEle um ponto) Atentaram teus dias, Teus dias cor da Morte ou cor do Inferno. Da alma em alma grassando a peste avita, Hlito de serpente enorme, infesta, Da primeva inocncia a flor crestara. Aos dois (como Ele) do Universo origem Diz o Nume em si mesmo: O prazo vindo; Cumpra-se quanto em ns disposto havemos. Eis o Esprito excelso, Radiosa emanao do Pai, do Filho, Mstica pomba de pureza etrea, donzela idumeia inclina os voos, Pousa, bafeja e diviniza o puro.
Tu, Verbo, sobrevns, area flama Com tanta rapidez no sulca o Plo. Eis alteado o grau da humanidade; Eis fecunda uma virgem; A redeno comea, o Deus homem. Da graa, da inocncia, oh paz, oh risos, Do Cu vos deslizais, volveis ao Mundo. Ca, torres de horror, trofus do Averno! Que estrondo!... Que tropel!... Ao negro abismo Que desesperao revolve o bojo!... Para aqui, para ali, por entre Frias O sacrlego monstro, O rbido Sat em vo blasfema. L quer de novo arremeter ao mundo, Mas v rapidamente aferrolhado O tartreo porto com chave eterna. Enquanto brama, arqueja, enquanto o Fero Morde, remorde as mos, e a boca horrenda (As espumas veneno, os olhos brasas), Mulher divina exulta; Celestial penhor, que os anjos cantam, Que as estrelas, que o Sol, que os Cus adoram, Virgem submissa, mereceu na Terra Circunscrever em si do Empreo a glria. Salv, oh!, salv, imortal, serena diva, Do Nume oculto incombustvel sara, Rosa de Jeric por Deus disposta! Flor, ante quem se humilham Os cedros de que o Lbano alardeia! Ah!, no teu grmio puro amima os votos Aos mortais de que s me: seu pranto enxugue, Seus males abonance um teu sorriso.
Vs, que o campo sulcais das nveas Ursas, Vs, ncolas da Aurora, Moradores das plagas de Colombo, Moradores da Lbia, Voai, voai do Luso ao vasto emprio, E aos ps de Gafforini Derramai de Pancaia essncias pias. Nessa torreada estncia Das vagas adriticas cingida, Onde Eridano rende Humilde vassalagem ao deus equreo, Desde os primeiros dias Talia lhe embalou o tenro bero, E nas mimosas plantas Benigna lhe ajustou cmicos socos. As seminuas Graas, Os Prazeres, os Risos, os Amores Por ordem de Ericina Foram de sua infncia os scios fidos; E no bicrneo monte O dulcssono filho de Latona Entre as celsas Camenas Um troam lhe prepara aurifulgente, Onde esta semideusa, Deixando a terra, colocar-se deve. Mas aos aplausos nossos No roubes, Gafforini, teus encantos, E desdenhando altiva O que te aguarda laureado slio, Aos teus flgidos olhos Sejam mais grato slio os nossos peitos. Manda neste planeta; Tu podes com teu canto endeus-lo, E o solo, que trilhares, Ser rival do bipartido cume. Satlite de Marte, Que desolando o globo, o globo cruzas, Ante a recente Musa Depe curvado o crepitante raio, E, sua voz ouvindo, Derrama o pranto, que arrancaste ousado Dos rendidos castelos.
A nfale imitando, nfale nova, Rebata Gafforini Do hercleo punho a formidvel dava, Que das alvas paredes Do templo do Renome suspendida, Deve atestar aos evos Que uma ninfa pisou os frreos dardos Da pnica Belona. Viro Alunos da piria Escola Que em grandloquo metro Difundiro no mundo estupefacto: Uma rival do Pindo, Pisando os pavimentos de Talia, Encheu de assombro outrora No Olimpo os imortais, na Terra os homens. Com seu mole sorriso O brnzeo misantropo exulte e ria, Com seus mestos suspiros No peito os coraes se espedaavam; E os ditosos, que a viam, Do resto do Universo se esqueciam. Ela manejou destra As dos afectos complicadas molas, E, sem que vacilasse, Largando as serpes da sanguenta Alecto, Nos vergis de Citera Coas aljavas do amor meiga brincava. Diro; e os meus vindouros Lhe ho-de erigir altares sobre altares. Dizes, inflado Argivo, Que o Hemo se abalava voz do Trcio, E no sabes que o Hemo, E a massa ingente do soberbo Atlante, Se Gafforini vissem Extticos seus passos seguiriam? Ah!, ouve, ouve a sentena Que roubei dos arquivos do Destino: Morrero teus heris, Tu mesma morrers, vaidosa Grcia; Mas esta italiana, Seus fogos e seu nome eternizando, H-de embotar o gume Da cortadora fouce das idades.
J meu estro, Moniz, apenas solta Desmaiadas fascas, Em que as frouxas ideias mal se aquecem; Elmano do que h sido Qual no gesto desdiz, desdiz na mente: Distole tardia J da fonte vital me esparge a custo O licor circulante, Que rosa entre os jasmins de virgem face; Que outrora, esperto, aceso De santa agitao, de ardor sagrado, No crebro em tumulto (Estncia ento de um deus!) me borbulhava. Respirao divina, Entusiasmo augusto, alma do vate! Que rpidos portentos, Portentos em tropel, no deste Fama, No deste Natureza, Ptria, ao Mundo, a Amor na voz de Elmano! Ora, aplanando os sulcos Com que a satrnia mo semblantes lavra, A Razo pensadora Erguia aos graves sons o grave aspecto; Ora, ao ver-se anteposto, Por deleitosa insnia, a ela, a tudo, O grato, cprio Nmen Fadava docemente o doce canto No corao de Anlia. Oh, xtase, oh, relmpagos da glria! Faustos momentos de oiro, Com que meu grau comprei na Eternidade! Do tempo meu voando, Do tempo, que anuviam negros males, Brilhais ainda em minha alma, Entre sombrias, ridas ideias, Qual entre aves escuras (rgos do agouro, intrpretes da morte) Requebros arrulhando, Das aves de Citera o coro alveja!... Mas ah, saudosos dias, Vs sois memria s, no sois influxo!
No me reluz convosco O esprito, abismado em fundas trevas, Com gasto, dbil fio Preso matria vil, que ralam dores! Ante meus olhos tristes (Que j da amiga luz se despediram) Sai da eterna voragem Vapor funreo, que exalais, Fados! Eis meu termo negreja, Eis no marco fatal meu fim terreno!... Mas surgirei nos astros Para nunca morrer; com riso impune L zombarei da Sorte. Moniz, puro amigo! scio, parte Do j ditoso Elmano! s Musas, como a mim suave e caro! De lgrimas e flores Honra-me a cinza, o tmulo me adorna. No s longa amizade, Novo, sacro dever te exige extremos: Da lira minha herdeiro Meu nume Febo, e teu te constitui; Febo aps mim te augura Vasto renome, que sobeje aos evos ( dos anos vantagem, No vantagem do engenho a precedncia). Teu metro majestoso Que, j todo fulgor zoilos deslumbra, Teu metro cintilante, Das Virtudes mimoso, aceito s Graas, Turvem saudades; canta Alguma vez de Elmano, e chora-o sempre, E Amor e Anlia o chorem; Amor e Anlia, meus piedosos numes, Sem mim, por mim suspirem.
XXIV A Francisco Manuel do Nascimento (Filinto Elsio) Zoilos, estremecei, rugi, mordei-vos: Filinto, o gro cantor, prezou meus verses. Sobre a margem feliz do rio ovante, Donde, arrancando omnipotncia aos Fados, Universal terror vibrando em raios, Imps tropel de heris silncio ao globo, O imortal corifeu dos cisnes lusos Na voz da lira eterna alou meu nome. Adejai, versos meus, ao Sena ufano De altos, fastosos, marciais portentos: E ganhando amplo voo aps Filinto, Pousai na eternidade em torno a Jove. Eis os tempos, a inveja, a morte, o Lotes Da mente, que os temeu, desaparecem: Fadou-me o gro Filinto um vate, um nmen; Zoilos! Tremei! Posteridade s minha.
XXV (FRAGMENTO) De viprea melena, e torvos olhos Corre por toda a Terra Fria tremenda, que estourou do Averno L na infncia do mundo; Puxa de rojo asprrima corrente De amplos anis composta, Forjada de metal, mais negro e duro Que o duro e negro ferro; Preso em cada fuzil suspira um ente, Um racional padece, Do horrvel monstro miserando esplio: Ali freme o guerreiro, Que a Fama carregou de hercleos gestos; Que, atraindo-a mil vezes, Uma vez contra si viu a Fortuna: O grande ali se humilha, Inda de queda enorme atordoado; Mortal, que o era apenas, Que do humano poder ao grau supremo Pela sorte exaltado Punha arbitrrias leis a curvos povos; .
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