Contato e Saúde na Gestalt-Terapia
Contato e Saúde na Gestalt-Terapia
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio
Ps-graduanda em Desenvolvimento e Gesto de Pessoas pela Fundao Getlio Vargas, atua em consultrio com psicoterapia, presta consultoria na rea de psicologia organizacional, ex-monitora da disciplina Tcnicas de Exame e Aconselhamento Psicolgico, orientada pela psicloga Edilza de Aguiar Lobato, especialista em psicologia clnica e psicologia organizacional, professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade da Amaznia. Lato & Sensu, Belm, v. 5, n. 1, p. 136-141, jun, 2004.
Jos Paiva
Fenomenologia, Taosmo e Zenbudismo que Friedrich Perls, juntamente com o grupo dos sete, fundou a Gestalt-terapia, a qual tem como fim ltimo a mudana a partir da awareness. Segundo Zinker (1977), isso significa que a partir de um maior contato com as reais necessidades e sensaes (figura), o homem, aqui entendido como um ser holstico relacional, deve desenvolver a capacidade de satisfaz-las de forma criativa e em harmonia com o meio. Quando isso no acontece e o indivduo se mostra incapaz de lidar com as figuras simultneas (gestalten inacabadas) que surgem ou responde a elas de forma anacrnica ou cristalizada desenvolvem-se os bloqueios ou distrbios de contato, fruto de relaes insatisfatrias com o meio. O ser humano concebido como o resultado da interao organismo/meio dentro de um campo mutvel, s pode ser compreendido nesse contexto. Isto quer dizer que indivduo e meio se constituem num todo, cuja fronteira estabelecida pela pele e cujo contato ocorre por meio das sete funes de contato: o olhar, o escutar, o tocar, o falar, o movimento, o cheiro e o gosto. a partir destas relaes estabelecidas com o meio que o indivduo se constitui enquanto essncia , sendo estas mesmas relaes que propiciaro ou no o processo de mudana; tem-se ento, o contato como sendo um dos conceitos-
... um processo especificamente pessoal e caracterstico de sua maneira prpria de reagir, num dado momento e num dado campo, em funo de estilo pessoal. No o seu ser, mas seu ser no mundo varivel conforme as situaes. (GINGER; GINGER, 1995, p. 125).
Ou seja, contato maneira como o indivduo experiencia e expressa sua realidade, j que a partir disso que ele contatar com o meio. Nesse sentido, quando entro em contato comigo, e me percebo na minha relao com o outro e com o mundo, tenho um contato de melhor qualidade com o outro. Mas para que este encontro seja considerado pleno, e portanto possa ser denominado contato, necessrio que ambas as partes estejam abertas e disponveis mudana e ao crescimento. Mudar, de acordo com Ribeiro (1997), representa dar novo significado a coisas, pessoas e, principalmente, a si mesmo; sendo que essa re-significao deve pressupor a tomada de conscincia nos trs nveis: sensrio, cognitivo e motor, caracterizando a conscincia emocionada ou awareness. Esse processo de adaptao do homem ao seu meio, uma vez que essa re-significao se d com esse objetivo, chama-se de self, entendido como
E, por ser um ser no mundo o self holstico relacional, caracterizado pela forma como o indivduo (totalidade) entra em contato com seus sentimentos, emoes ou pensamentos acerca do mundo e de si mesmo, sendo a ao uma funo do eu. Ao sistema self eu mundo denomina-se Ciclo do contato forma de contato - , que pode ser saudvel ou no, dependendo da relao estabelecida com o meio. Para ser considerado saudvel o indivduo/self deve ser capaz de pensar, sentir e agir de maneira satisfatria, ou seja, o self deve estar atento s transformaes e/ou novas necessidades para atend-las adequadamente. Na neurose, em contrapartida, o self se torna rgido, inflexvel, incapaz de perceber e/ou responder adequadamente s figuras que se formam. Partindo dessas concepes, Perls identificou inicialmente no ciclo do contato cinco mecanismos de defesa, os quais com a contribuio de outros tericos atualmente se constituem em nove: fixao, dessensibilizao, deflexo, introjeo, projeo, proflexo,
retroflexo, egotismo e confluncia, os quais apresentam como fatores de cura correspondente, respectivamen-te: fluidez, sensao, conscincia, mobilizao, ao, interao, contato final, satisfao e retirada. Estes mecanismos, entretanto, no se caracterizam como patolgicos ou de cura por sua simples forma, mas quando promovem o contato de uma maneira cristalizada e ultrapassada. A fixao se constitui no mecanismo em que o indivduo se apega de forma excessiva a idias, pessoas ou coisas, sem conseguir identificar o que est sendo vivenciado. A fluidez, por outro lado, se caracteriza pela mobilizao e renovao, tendo a espontaneidade como marco, j que vivencia a relao consigo e com outro no presente. A dessensibilizao o mecanismo pelo qual o indivduo se sente anestesiado, incapaz de ter sensaes de qualquer natureza. A sensao, como mecanismo de cura, o processo pelo qual sinto a mim e ao mundo. A deflexo consiste na ausncia ou evitao de contato direto comigo mesmo e com o mundo ou a sua presena de forma superficial, desviando a energia do objeto de ao. A conscincia se caracteriza pela forma satisfatria com que dou conta de minhas sensaes e do que me rodeia. A introjeo o mecanismo pelo qual engulo idi-
as, valores, opinies sem tritur-los, ou seja, aceito o que o meio me proporciona de forma passiva sem questionamentos e as incorporo personalidade, favorecendo segundo Perls (1988) a incapacidade de expresso e a desintegrao da personalidade, j que ela se torna um campo de batalha . Essas introjees criam uma barreira entre o indivduo e o mundo, tornando o encontro verdadeiro algo impossvel. A mobilizao, ao contrrio, permite que o indivduo critique e seja capaz de expressar o que sente, desenvolvendo caractersticas como a independncia e a responsabilidade. A projeo o mecanismo no qual o indivduo no se sente capaz de identificar e se responsabilizar pelo que lhe pertence, negando partes da sua prpria personalidade e (PERLS, 1988) atribuindo ao meio o que lhe acontece. O projetivo considerado um ser passivo de sua prpria vida. A ao o processo pelo qual o indivduo, tendo conscincia do que seu e o que do meio, responsabiliza-se pelos seus atos. A proflexo consiste no desejo que o indivduo possui de que os outros sejam ou ajam de acordo com seus anseios, chegando a manipul-los para obter o que precisa. A interao o mecanismo pelo qual o indivduo se relaciona com o outro sem esperar algo em troca. A retroflexo consiste no
mecanismo pelo qual o indivduo faz a si mesmo o que gostaria de fazer ao meio (ativa) ou faz a si o que gostaria que os outros fizessem (passiva). Segundo Perls (1988, p. 54) quando age desta forma ... cinde sua personalidade em agente e paciente da ao. ... O contato final o processo pelo qual o indivduo dirige ao meio sua energia, de forma clara e direta. O egotismo consiste, de acordo com Perls (1988) numa hipertrofia do ego, na dificuldade de enxergar o outro, tendo-se como o centro do universo e sendo incapaz de atender s exigncias do meio. A satisfao caracteriza-se pelo contato satisfatrio com o meio, este sendo encarado com fonte de contato nutritivo. A confluncia o mecanismo pelo qual o eu e o tu no existem, somente o ns, ou seja, um processo de indiferenciao, cujas diferenas no so aceitas e a fronteira de contato se encontra diluda. A retirada o mecanismo pelo qual o indivduo capaz de diferenciar-se e sentir-se singular, saindo quando necessrio, vendo-se como diferente do outro. Esses nove mecanismos podem ser interrompidos a qualquer momento do ciclo, porm o processo de interveno dos mesmos deve ocorrer seguindo a ordem em que foram aqui dispostos: da fixao/fluidez confluncia/retirada, isto porque se um determinado mecanismo
est bloqueado significa que o mecanismo anterior precisa ser trabalhado para ento poder ser completado o ciclo. Aps os ciclos serem trabalhados o indivduo conseguir interagir com o meio harmoniosamente, sem invadi-lo e sem se permitir invadir haver o contato pleno. Pois, de acordo com Ribeiro (1997, p. 36):
Contato sade. Sade contato em ao. Qualquer interrupo do contato implica uma perda na sade. Contato o processo de auto-regulao organsmica. Doena significa interrupo do contato em um dos (...) campos que compe o espao vital da pessoa...
Assim, tem-se que a sade preconiza pela flexibilidade diante da vida (contato pleno), pois como coloca Spangenberg (1996): o mal representado por mecanismos habituais e estereotipados.
de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. RIBEIRO, J. P. O ciclo do contato: temas bsicos na abordagem gestltica. 2. ed. So Paulo: Summus, 1997. SPANGENBERG, A. Terapia gestltica e a inverso da queda. Traduo Magda Furtado de Queiroz. So Paulo: Paulinas, 1996. ZINKER, J. Objetivos e aspiraes. In: El processo creativo en la terapia guestaltica. Traduo Edilza Lobato. Buenos Aires: Paidos, 1977.
REFERNCIAS:
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato. Traduo Sonia de Souza Rangel. So Paulo: Summus, 1995. PERLS, F. A abordagem gestltica e testemunha ocular da terapia. Traduo Science and Behavior Books. 2. ed. Rio