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Reflexões sobre o Papel do Terapeuta

Este documento discute o duplo papel do psicoterapeuta ao analisar o caso "Não seja gentil" de Irvin Yalom. Yalom questiona se deveria impor sua vontade ao paciente Dave, com quem se identificou intimamente. O documento explora como as questões existenciais de pacientes podem levar terapeutas à reflexão pessoal, e analisa a construção do espaço e tempo por Dave em torno de cartas de amor do passado como uma negação da mortalidade.
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Reflexões sobre o Papel do Terapeuta

Este documento discute o duplo papel do psicoterapeuta ao analisar o caso "Não seja gentil" de Irvin Yalom. Yalom questiona se deveria impor sua vontade ao paciente Dave, com quem se identificou intimamente. O documento explora como as questões existenciais de pacientes podem levar terapeutas à reflexão pessoal, e analisa a construção do espaço e tempo por Dave em torno de cartas de amor do passado como uma negação da mortalidade.
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1

O DUPLO PAPEL DO PSICOTERAPEUTA

Felipe Arthur
Flaviane Oliveira
Júnio Rezende1

RESUMO

Neste trabalho situamos a questão da dupla função do psicoterapeuta, no momento


do encontro psicoterápico com o cliente. Pensaremos os limites de atuação do
psicoterapeuta frente às questões existenciais suscitadas pelos casos e que muitas
vezes levam – ou deveriam levar – a uma reflexão pessoal do terapeuta. Trataremos
essencialmente o caso intitulado Não seja gentil, apresentado por Irvin D. Yalom em
seu livro O carrasco do amor (2007). O autor assume íntima identificação com o
paciente e as semelhanças levam-no a questionar-se: “(...) Deveria, sob a bandeira
do auto-conhecimento, impor minha vontade a um homem que, incapaz de agir nos
seus melhores interesses, permitiu-se ficar aterrorizado por três cartas fechadas?”
(p.22). Buscaremos estas e outras respostas a partir da apreensão das dimensões
espacial e temporal da vida de Dave, que configuram sua situação no mundo
(AUGRAS, 1978).

PALAVRAS-CHAVE: psicoterapia, espaço, tempo, angústia e morte.

(...) Devo esperar que um paciente que me pediu para ser o guardião de
suas cartas de amor possa lidar com os exatos problemas que eu, na minha
própria vida, evitei? Seria possível ajudá-lo a ir além de onde cheguei?
(YALOM, 2007, p.22)

Iniciaremos nosso trajeto nos aproximando das vicissitudes que constroem o espaço
da relação psicoterápica. À primeira vista, esta situação pode demarcar lugares,
distanciar posições hierarquicamente diferenciadas: paciente e terapeuta. Em O
carrasco do amor, Yalom (2007) situa esta relação descrevendo alguns de seus
casos nos quais as questões existenciais dos pacientes revelaram pontes para a
reflexão pessoal do autor. “Ao escolher entrar completamente na vida de cada
paciente, eu, o terapeuta, não somente fico exposto às suas mesmas questões
existenciais como também devo estar preparado para examiná-las com as mesmas
regras de investigação” (YALOM, 2007, p.22).

Assim, o autor nos convida a refletir sobre esta ilusão de distanciamento que existe
em se tratando de psicoterapia, enunciada, principalmente, numa alardeada

1
Alunos do 9º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. Artigo
apresentado à disciplina Clinica Existencial I, ministrada pela Profª. Raquel Neto Alves. Belo
Horizonte, 24 de abril de 2009.
2

necessidade de cientificidade e objetividade da ciência psicológica. Sem dúvida, é o


paciente quem procura ajuda e para este, muitas vezes, o psicoterapeuta pode
representar alguém que não possui possui seus próprios conflitos ou que os maneja
tranquilamente.

De fato, é a questão trazida pelo paciente que mobiliza e movimenta a psicoterapia,


ou seja, não cabe nesse processo terapêutico o tratamento das questões do
terapeuta. Ainda assim, o que Yalom (2007) nos aponta é a necessidade da
manutenção, por parte do terapeuta, de uma postura de estranhamento e reflexão
pessoal, a partir das questões trazidas pelo atendido. O terapeuta deve estar
disposto a aventurar-se por caminhos que levam a sua própria modificação, afinal de
contas os problemas revelados pelos pacientes remetem a questões existenciais,
aflições às quais os terapeutas não se encontram imunes.

O que representa então esta dupla posição do terapeuta? Trata-se de ao mesmo


tempo ser observador – sendo objetivo e analítico – e participante – no sentido de
que entrar na vida do paciente significa afetar-se ou modificar-se a partir deste
encontro (YALOM, 2007).

Passemos então a indagar sobre os limites deste duplo papel a partir do caso de
Dave, apresentado por Yalom (2007), em Não seja gentil. O caso nos apresenta um
paciente de 69 anos de idade, de aparência jovial para sua idade, alto, magro,
atlético, olhos vivos e travessos, que chegara ao consultório queixando-se de
impotência sexual. Após seis meses de atendimento, o homem pede ao terapeuta
que guarde certas cartas de amor.

Este simplório pedido deixa o terapeuta em conflito. Yalom revela que ele próprio
possuía um maço de cartas de amor que guardara para serem lidas em momentos
derradeiros, assim vislumbra que havia muito dele mesmo no paciente que se
apresentava e passa a refletir sobre os motivos de sua fascinação por Dave: “(...)
minha onda de curiosidade e fascinação, eu sabia de onde vinha: eu estava pedindo
a Dave que fizesse meu trabalho por mim. Ou o nosso trabalho por nós” (YALOM,
2007, p.191, grifos do autor). Esta proximidade, representada na fala do terapeuta,
seria decisiva para as próximas intervenções no processo terapêutico. O autor
3

descreve que sua própria questão ainda era latente e chega a finalizar a escrita do
caso situando que deverá tratar esta questão futuramente, pois sempre que tentava
ler as tais cartas, estas geravam-lhe sentimentos ruins, mas ainda assim não era
incapaz de desfazer-se delas.

O paciente relata que sua amante havia morrido há 30 anos. E naquele momento as
cartas estavam incomodando o cliente de maneira especial, pois temia que sua
empregada ou sua esposa as encontrassem em uma faxina. No passado o romance
havia durado quatro anos, numa época em que ele gerenciava uma filial de uma
companhia americana em Beirute. A amante foi a mulher mais linda que conquistara
na vida e a única para a qual fora capaz de dizer “eu te amo”. Apesar de seus muitos
relacionamentos no decorrer da vida e dos quatro casamentos que acumulara, Dave
deixou-se governar pela questão do destino das cartas dessa mulher.

Neste sentido, podemos pensar que Dave negligenciava o presente, seu casamento
e vida, para viver preso a este estandarte do passado, o amuleto de uma paixão
imune à deteriorização (YALOM, 2007). “Analisar o tempo é observar o homem em
sua maior contradição: uma tensão entre permanência e transitoriedade, poder e
impotência, vida e morte” (AUGRAS, 1978, p. 27). Cada vez que Dave retomava a
questão das cartas e se deixava absorver por elas, era como se quisesse reafirmar
que fora amado e que tinha provas deste amor. As cartas eram, desta forma, um
instrumento de negação da morte. O envelhecimento traduz no corpo marcas da
finitude do ser-no-mundo. Construir sua realidade em torno do tempo passado é
negligenciar este limite da existência.
O exame das diversas dimensões do ser no mundo levou à afirmação de
que o mundo é construído: espaço e tempo são criações do homem, que
dispõe da fala para tentar a superação da estranheza. (...) o mundo é obra
do homem (...) obra implícita de um fazer continuo que nada mais é do que
o próprio processo da vida (AUGRAS, 1978, p. 88).

O espaço é o sítio humano, é constituído a partir de extensões de seu corpo no


mundo e representa seu limite frente à alteridade. “No espaço da coexistência, os
homens tecem redes que os aproximam e os afastam, organizando o mundo de
maneira a assegurar áreas recíprocas de movimentação” (AUGRAS, 1978, p. 39).
Dave funda a construção de seu espaço no segredo, como citado anteriormente, ele
não oferecia “migalhas de informação” a suas parceiras, o que fazia com que elas
4

tentassem a todo preço invadi-lo. O espaço serve para comunicar-se ou isolar-se.


Dave isolou-se do mundo externo concentrando sua energia nas lembranças de seu
tempo imortal no qual amava e sentia-se amado, distanciando-se frente à alteridade.

O tempo e o espaço são construções. Organizações que tem por objetivo tamponar
a realidade da morte. O tempo de Dave está firmado no passado, trata-se de uma
defesa, como forma de firmar-se na eternidade, uma ficção que lhe garante
estabilidade emocional. Segundo Yalom (2007, p.203), “fundir-se com outra pessoa
para sempre é ser imortal e estar protegido da solidão existente no âmago da
existência”. A fusão é uma forma de abrandamento das próprias fronteiras e
dissolução no outro, de maneira a evitar o contato com a angústia, evitar a auto-
reflexão dissolvendo-se no nós (Yalom, 2007).

Feijoo (2000) apresenta o medo da solidão como uma das formas adotadas pela fala
do paciente em psicoterapia. Nesta, o paciente, ao perceber-se como
inevitavelmente lançado na vida, passa a agarrar-se ao outro como se agarra a vida.
Neste caso, além de estar vinculado ao outro, este outro remete ao passado, numa
dupla forma de negação da morte. Esta sensação de sentir-se lançado está no
âmago da angústia da morte. Trata-se de uma angústia frente a este limite que barra
todas as possibilidades.

O ser humano não pode deixar de sê-lo. Seu corpo está determinado por
características hereditárias, bem como, seu momento de nascimento está submetido
a um momento histórico. No entanto, o ser humano possui um potencial de
realizações e é livre para desenvolver-se a partir de suas escolhas. Esta liberdade –
esta ampliação das possibilidades de crescimento – anuncia um limite crucial que é
a restrição de todas as possibilidades. O ser humano é livre e finito, uma dialética
expressa no ser-para-a-morte.

Além disso, o paciente revelara que o romance fora deliciosamente clandestino, fato
intimamente relacionado com sua pretensão ao segredo, traço de sua
personalidade. Muitos de seus relacionamentos posteriores haviam terminado
porque Dave se recusara a compartilhar migalhas de informações pessoais com
suas parceiras. Este fora o principal ponto trabalhado por Yalom no trato da
5

impotência – queixa inicial do paciente. Trabalhando a discórdia e o distanciamento


presentes em seu casamento, Dave pode reconhecer o fundamento de suas
dificuldades sexuais e assim, melhorar sua relação com a esposa.

Após os quatro anos de romance com a amante, Dave foi transferido pela
companhia e se corresponderam quase todos os dias, até que seis meses depois
ela veio a falecer. Ele guardou as cartas dela (centenas) bem escondidas, às vezes
em categorias em um arquivo, tais como C de culpa, ou D de deprimido, isto é, para
serem lidas quando estivesse profundamente deprimido. Esta questão seria
essencialmente tratada com a entrada de Dave no grupo terapêutico do qual
falaremos a seguir.

Quando Dave pede para que Yalom guarde suas cartas, o terapeuta chega a pensar
em aceitá-las, sob a justificativa de ampliar um laço de confiança e estabilidade na
psicoterapia, principalmente pela proximidade da entrada de Dave em um grupo
terapêutico. Mas logo pode perceber que o caminho mais adequado seria recusar-
se, pois ao recebê-las ele poderia estar aliando-se de maneira antiterapêutica à
propensão de Dave ao segredo. Yalom propõe um acordo sobre as cartas, no qual
as guardaria desde que o paciente compartilha-se isso com o grupo terapêutico.
Deste então, Dave não voltou a tocar no assunto. Com a entrada de Dave no grupo,
sua postura inicial de segredo é aos poucos rompida pela própria ação do grupo. Até
que, frente à uma intervenção do terapeuta, após o relato de um sonho que tivera, o
paciente revela seu segredo sobre as cartas para o grupo. Infelizmente, após esta
revelação Dave não mais retornou ao grupo ou à terapia individual.

O recuo do paciente frente à proposta do terapeuta – revelar seu segredo a outrem –


parece ter sido um sinalizador negligenciado pelo terapeuta. Dave jamais falou
novamente das cartas, expressando, sem palavras, seu desejo de deixá-las em
segredo por hora. Neste sentido, podemos indagar sobre o manejo terapêutico
adotado. A urgência colocada pelo terapeuta no processo pareceu refletir um pouco
da inquietação pessoal do terapeuta, fruto de sua identificação com o caso. O autor
chega a dizer que era como se o paciente pudesse encontrar uma resposta que ele
não foi capaz de encontrar. Esta posição parece ter sido crucial no desfecho do
caso, pois mesmo com o “sucesso” da interpretação do sonho, o paciente desligou-
6

se do grupo e da terapia individual, aumentando sua resistência frente à questão da


angustia de morte. Dave estava tendo grandes avanços, sua postura de segredo
inicial no grupo fora rompida e ele começara a assumir suas preocupações com a
morte e com o processo de envelhecimento: “(...) se eu começar a ser sério aqui,
vou falar sobre como tenho medo de envelhecer, como tenho medo da morte. Algum
dia contarei a vocês sobre os meus pesadelos” (YALOM, 2007, p.198).

O sonho foi a tradução da questão central da terapia de Dave, seu segredo:


A morte me cerca completamente. Posso cheirá-la. Tenho um pacote com
um envelope dentro dele, e o envelope contém alguma coisa que é imune à
morte, à decomposição ou à deterioração. Eu o mantenho em segredo. Vou
pegá-lo e senti-lo, e subitamente vejo que ele está vazio. Fico muito
angustiado com isso e percebo que ele foi aberto. Mais tarde, descubro na
rua aquilo que pensava estar dentro do envelope, um sapato velho e sujo
com a sola caindo (YALOM, 2007, p.199).

No grupo, a interpretação do sonho levou Dave a revelar a existência das cartas,


referidas pelo paciente como vindas de um “certo relacionamento”. A inquietação do
grupo levou Dave a aceitá-las como cartas de amor. Mas a seqüência da
intervenção do terapeuta colocou um impasse, pois o terapeuta teria que revelar
partes do que havia conversado com Dave em sua análise individual. Dave consente
na interpretação do terapeuta e na revelação de outros dados de sua história. O
terapeuta interpretou da seguinte forma: Dave se via cercado pela morte e as cartas
seriam um amuleto contra ela, afastando-a e mantendo a paixão de Dave congelada
no tempo. Outro paciente do grupo terapêutico completou a interpretação situando o
sapato como sendo o próprio Dave – o sapato estava perdendo a sola, e em francês
o som da palavra sole é quase igual a soul que significa alma, ou seja, Dave estava
envelhecendo, aproximando-se da morte.

Parece-nos, a esta altura, não ter havido intervenções equivocadas por parte do
terapeuta, mas é possível inferir um erro de cálculo no tempo destas intervenções, a
ponto do paciente reagir dizendo que precisava de um tempo para digerir o que
ouvira. Parece ter havido um pequeno deslize neste tênue limite que separa os
papéis de observador e participante enunciados pelo autor. Yalom (2007) revela que
era como se aquele sonho fosse a resposta “sobre por que as cartas eram um peso
para Dave. E, é claro, por que as minhas cartas eram um peso para mim” (YALOM,
2007, p. 202). O processo parece ter ido além dos limites permitidos por Dave,
7

fomentando uma defesa que o impediu de lidar com esta sua realidade. Sendo
assim,
(...) embora a ilusão seja muitas vezes alegre e confortadora,
ela sempre enfraquece e constrange o espírito. Mas existe o
momento certo e o julgamento adequado. Jamais tire qualquer
coisa se você não tiver nada melhor para oferecer em troca.
Tome cuidado ao desnudar um paciente que não pode suportar
o frio da realidade (YALOM, 2007, p. 190).

REFERÊNCIAS

AUGRAS, Monique. O Ser da Compreensão: fenomenologia da situação de


psicodiagnóstico. Petrópolis: Vozes, 1986. 96p.

FEIJOO, Ana Maria Lopes Calvo de. A escuta e a fala em psicoterapia: uma
proposta fenomenológico-existencial. São Paulo: Vetor, 200. 195p.

Yalom, Irvin D. O carrasco do amor. Tradução Maria Adriana Veríssimo Veronese.


Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 329p.

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