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Advertência(s) : Da Utilidade e Dos Inconvenientes Da História para A Vida (1874)

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Advertência(s)

E, se forem necessárias biografias, que não sejam


aquelas que têm por estribilho: “Fulano de tal e
seu tempo”, mas as que deveriam ter por título:
“Um lutador contra seu tempo”.
Friedrich Nietzsche
Da utilidade e dos inconvenientes
da história para a vida (1874)1*

A pequena força feita para empurrar uma jangada


ao rio não deve ser confundida com a força desse
rio, que a partir de então vai conduzi-la: no entanto,
é o que acontece em quase todas as biografias.
Friedrich Nietzsche
Miscelânea de opiniões e sentenças (1879)2

Por maior que seja a evolução do homem e ele


pareça saltar de um contrário a outro, apesar disso
serão descobertas, ao se especificar suas observa-
ções, as articulações pelas quais a nova estrutura
se desprende da antiga. Tal é a tarefa do biógrafo:
deve pensar a vida conforme o princípio de que
nenhuma natureza dá saltos.
Friedrich Nietzsche
O peregrino e sua sombra, § 198 (1880)3

* As notas estão reunidas no final do livro, p. 303. (N.E.)

7
Todo vir a ser se faz da guerra entre os
opostos (1844-1864)

Comecemos com um enigma:

A ventura da minha existência, sua unicidade talvez, repousa


em sua fatalidade: eu estou, para expressá-lo em forma de
enigma, morto na condição de meu pai, ao passo em que na
condição de minha mãe ainda vivo e envelheço.1

Em Ecce homo, escrito em 1888, último ano de sua vida


lúcida e quarenta anos depois da morte do pai, Nietzsche revela
de maneira cifrada o segredo de sua existência. Todo enigma
requer que se proceda com paciência na sua resolução, com essa
ephexis [reserva], essa cautela na interpretação reivindicada
em O anticristo.2 O que diz esse enigma? Que uma identidade
sempre é, no mínimo, dupla. Que uma hereditariedade significa,
de certo ponto de vista, que somos nossos próprios ascenden-
tes. Que uma existência significa estar vivo e morto ao mesmo
tempo. No mínimo três enigmas em um. Retomemos.
Toda identidade é ao menos dupla. Que o Uno nasce do
múltiplo, Nietzsche há muito aprendeu de Heráclito:

Continuamente uma qualidade se desdobra e se divide em


seus contrários: continuamente anseiam esses contrários um
pelo outro. O vulgo acredita reconhecer algo de rígido, ter-
minado, persistente; na verdade, a todo instante luz e trevas,
amargor e doçura estão pegados um ao outro e um pelo outro,
como dois combatentes, dos quais por vezes um, por vezes
o outro obtém vantagem. O mel é, segundo Heráclito, a um
só tempo doce e amargo, e o próprio mundo é um caldeirão
que precisa ser constantemente mexido. Todo vir a ser se faz
da guerra entre os opostos.3

Essa primeira resposta ao enigma não demonstra uma


oposição; ela coloca a oposição no próprio fundamento da

9
existência. A fatalidade de uma vida consiste no que ela tem
de mistura, claro e escuro, doce e amargo. O pai e a mãe já
encarnam a luta das qualidades opostas.
Ser filho é ser ao mesmo tempo seu pai e sua mãe.
Apenas do ponto de vista do indivíduo, ao herdar certas
qualidades similares a de seus pais, um ser constitui, no
entanto, uma individualidade nova. É um ponto de vista
superior em que as qualidades prevalecem sobre o indivíduo
e representam através das gerações uma espécie de conti-
nuidade do ser: “Não é absolutamente possível”, escreve
Nietzsche em Além do bem e do mal, “que um homem não
tenha em seu corpo as qualidades e predileções de seus pais
e ancestrais: não importando o que as aparências digam em
contrário. Este é o problema da raça”.4 Um quarto de século
antes, o estudante do secundário já se confrontava com o
problema da hereditariedade como dimensão supraindividual
da existência:

A atividade do homem não começa com seu nascimento,


mas a partir do embrião e talvez – quem poderia afirmar o
contrário? – já com seus pais e avós. Todos os que acreditam
na imortalidade da alma deveriam acreditar também na pre-
existência dela, se não quiserem deixar o imortal se formar a
partir do mortal [...]. O hinduísmo afirma que o fatum nada
mais é do que os fatos que perpetramos em um estado an-
terior de nosso ser.5

Apenas como indivíduo Nietzsche é diferente de seus


pais – como fatalidade, ainda é um e outro. Por isso, é vida e
morte ao mesmo tempo.
Quando seu pai faleceu aos 36 anos, Friedrich tinha
apenas cinco. Sua mãe morreu aos 71, oito anos depois de o
filho afundar na demência. A morte do pai influenciou a vida
do filho e nele se materializou como um elemento precoce-
mente mórbido de sua existência. Em um texto autobiográfico
escrito aos catorze anos, Friedrich descreve o golpe profundo
ocorrido em sua vida:

10
Meu pai está morto. Ainda hoje esta lembrança me é pro-
fundamente dolorosa; até então, eu ainda não compreendia
o terrível impacto do acontecimento. Quando uma árvore
perde sua folhagem, assume um aspecto triste e desolado.
Seus galhos se arrastam pelo chão, sem força; os passarinhos
a abandonam, toda vida desaparece. Não acontecia o mesmo
com nossa família? Toda a alegria nos fora retirada; a dor e o
luto invadiam tudo.6

Quando a morte se inscreve no próprio coração da vida,


começa o declínio, ou a decadência. Nietzsche não cessará de
perseguir, do começo ao fim de sua obra, as forças declinantes:
Assim falou Zaratustra é a narração de um declínio, o pen-
samento crítico de Nietzsche será de todo um pensamento da
decadência, isto é, tanto na escala do indivíduo quanto dos
povos, do enfraquecimento das forças vitais em determinada
cultura. O declínio não é uma destruição violenta, e sim um
processo sutil, delicado e, no fundo, extremamente civilizado.
A religião cristã, por exemplo, é um caso refinadíssimo
de decadência. Ora, ocorre que a figura do padre, modelo
admirável do pastor protestante, tem para Nietzsche a doçu-
ra religiosa da vida declinante: “Meu pai morreu com trinta
e seis anos: ele era frágil, amável e mórbido, como um ser
destinado apenas à transitoriedade – antes uma lembrança
bondosa da vida do que a vida em si”.7 Muitas vezes Nietzsche
faz menção à metáfora, no entanto rara em sua obra, do anjo:
“Eu considero um grande privilégio ter tido um pai assim: os
camponeses, diante dos quais ele pronunciava seus sermões
– pois, depois de viver alguns anos na corte de Altenburg, ele
foi pregador durante os últimos anos de sua vida –, diziam
que assim como ele era é que, por certo, devia ser um anjo”.8
Na condição de seu pai, o próprio Nietzsche é frágil, amável
e mórbido; e deve ao progenitor até mesmo uma espécie de
benevolência angelical, certa tendência à piedade: “Desde
minha infância, o princípio ‘na piedade residem meus maiores
perigos’ não para de se confirmar (talvez uma consequência
desagradável da natureza extraordinária de meu pai: todos os

11
que o conheceram o contaram entre os ‘anjos’ mais do que
entre os ‘homens’)”.9
A mãe, ao contrário, apresenta um temperamento franco
e tranquilo, com o que isso pode implicar de ingenuidade. Essa
polaridade, presente desde o início, é o segredo do enigma
inicial de Ecce homo:

Essa origem dupla, rebento ao mesmo tempo do mais alto e


do mais baixo degrau na escada da vida, décadent e princípio
a um só golpe – tudo isso, se é que há algo, esclarece aquela
neutralidade, aquela liberdade de partido na relação com o
problema geral da vida, que talvez me distinga dos outros.
Eu tenho um faro mais apurado do que jamais teve homem
algum para os sinais de princípio e de ocaso, eu sou o mestre
par excellence nesse assunto – eu conheço ambos, eu sou
ambos...10

Ser um declínio e um princípio – tal é para Nietzsche,


portanto, a sina fatal de sua existência. Causa surpresa obser-
var que essa expressão enigmática de uma identidade dupla já
foi utilizada por Nietzsche, com a mesma retórica, um quarto
de século antes, em um texto de 1863. Aos dezenove anos, ele
escreve: “Enquanto planta, nasci perto de um cemitério; en-
quanto ser humano, nasci em um presbitério”.11 O presbitério
paternal, em Röcken, era contíguo ao cemitério do vilarejo; a
morada dos mortos vizinhava a dos vivos.

Uma lembrança me ocorre: um dia, eu voltava de Lützen com


meu amado pai; estávamos no meio do caminho quando os
sinos badalaram indicando a Páscoa. Seu carrilhão ressoa ainda
com bastante frequência em minha memória; uma tristeza
me leva então à querida casa, hoje tão distante. O cemitério
está ali, diante de meus olhos. Quantas vezes, vendo a velha
morada dos mortos, não me questionei sobre os catafalcos e
os ornamentos fúnebres, sobre as inscrições e os sepulcros!
Porém, embora seja verdade que minha alma guarde em si
todas essas imagens, é do estimado presbitério que corro
menos risco de esquecer. Um poderoso buril gravou em
mim sua impressão.12

12
Vem-nos à mente o Fausto desalentado com a ciência,
flertando com os demônios e com a morte, reencontrando de
repente o gosto de viver no alvoroço popular de um dia de
Páscoa. Fausto também evoca então a lembrança da bondade
de seu pai. Nietzsche, ao longo de sua existência, celebrou
inúmeras páscoas de espírito, de mortes e de ressurreições.
E o nome do pai está inscrito no coração do filho como no
mármore de um túmulo: “Pai, por que você me abandonou?”,
deve ter se perguntado o autor de Ecce homo.
Karl Ludwig Nietzsche, seu pai, nasceu em 1813.
Último filho de Friedrich August Ludwig Nietzsche, supe-
rintendente de Eilenburg, destaca-se como brilhante aluno de
teologia em Halle. Tornar-se pastor é a perspectiva principal
de um rapaz da pequena burguesia instruída: os estudos de
teologia são menos caros do que os de formações laicas; muitas
bolsas são distribuídas pelo Estado, e os exames são gratuitos.
Quase todos os pastores começam, antes de sua nomeação,
como preceptores. Depois de ter sido professor particular de
um comandante, Karl Ludwig entra para o serviço da corte
ducal de Saxônia-Altenburg como preceptor das princesas
Teresa Elisabeth, futura grão-duquesa de Oldenburg, e Ale-
xandra, que se tornará a grão-duquesa Constance da Rússia.
O ducado de Saxônia-Altenburg, na Turíngia, é um
aliado submisso da vizinha Prússia e representa um palco
memorável do protestantismo alemão. De convicções monár-
quicas notórias, Karl Ludwig é, pois, nomeado pastor pelo rei
da Prússia – Frederico Guilherme IV – e recebe o pastorado
de Röcken, um vilarejo de 170 habitantes situado a sudoeste
de Leipzig, entre Halle e Weimar. Ali se estabelece com a
mãe, Erdmuthe, e as duas irmãs dela, Augusta e Rosalie.
Preocupado em estabelecer boas relações com seus colegas
de comunidades próximas, Karl Ludwig Nietzsche faz uma
visita de apresentação ao pastor David Ernst Oehler em Pobles,
a alguns quilômetros de Röcken.
Oehler é uma personalidade ilustre, mas mesmo assim
fica surpreso com os modos aristocráticos desse jovem pastor
familiarizado com a vida da corte. David Oehler, com a esposa
13
Wilhelmine, esta à frente de uma família de onze descendentes.
Entre eles, a sexta filha, Franziska, nascida em 1826, chama a
atenção de Karl Ludwig. Embora ela tenha apenas dezesseis
anos, Karl a corteja com assiduidade. Visitante habitual, ele
demonstra seus talentos de músico improvisando ao piano na
hora do café. Certo dia, afasta-se com Franziska no jardim e
lhe oferece um buquê de flores de... erva-doce!!
O casamento ocorre em 10 de outubro de 1843. Fran-
ziska junta-se então ao esposo em Röcken, onde ela passa a
viver com a sogra, Erdmuthe, e as tias, Augusta e Rosalie.
Em 15 de outubro de 1844, a própria data do aniversário de
Frederico Guilherme IV, a moça de apenas dezenove anos dá
à luz um primeiro filho, um menino orgulhosamente batizado
com o nome do rei da Prússia: Friedrich Wilhelm.
Se for dado crédito às lembranças de Nietzsche, o vila-
rejo é agradável sem ser encantador: “Por todo redor existem
lagoas de superfície considerável e bosques verdejantes, mas
o lugar não oferece nem beleza de verdade nem maior inte-
resse”.13 A trinta minutos dali se encontra a cidade de Lützen,
mais animada. Como explica o jovem em suas memórias de
adolescente:

A paz e a harmonia reinavam em todas as cabanas, e se ignora-


va a violência. Era raro que os habitantes deixassem o vilarejo,
se desconsiderarmos as feiras que atraíam para Lützen alegres
grupos de rapazes e moças, maravilhados pela agitação da
multidão e pelo esplendor das mercadorias. No restante do
tempo, Lützen era uma cidadezinha simplíssima, e as pessoas
não imaginariam que teve uma grande importância para a
História. Duas enormes batalhas se desenrolaram ali e por sua
terra correu o sangue de quase todas as nações da Europa.14

Em 1632, de fato, Lützen fora o palco de uma das


batalhas mais sangrentas da Guerra dos Trinta Anos, na
qual se distinguiram as tropas de Wallenstein. E, em 1813,
as tropas napoleônicas deixaram no local uma triste lem-
brança durante a tomada de Leipzig, no caminho da terrível
retirada da Rússia.
14

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