Revista Eletrônica de Divulgação Observação: compilação da
Observação
do Ensino de Biologia e Ciências
obra de Edgar Morin Os sete
saberes necessários à
futuro.
educação do futuro
As cegueiras do conhecimento:
o erro e a ilusão
Edgar Morin* Objetivoss: texto indicado
Objetivo
como leitura complementar
Todo conhecimento comporta o risco do erro e da da disciplina O que é
ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema de Ciências do curso de Pós
dupla face do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar Graduação Lato Sensu em
o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o Ensino e Aprendizagem das
problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é Ciências Naturais-
ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se modalidade EAD -
Universidade Católica de
reconhecem, em absoluto, como tais.
Brasília.
Erro e ilusão parasitam a mente humana desde o
aparecimento do Homo sapiens. Quando consideramos o
passado, inclusive o recente, sentimos que foi dominado por
inúmeros erros e ilusões. Marx e Engels enunciaram
justamente em A ideologia alemã que os homens sempre
elaboraram falsas concepções de si próprios, do que fazem,
do que devem fazer, do mundo onde vivem. Mas nem Marx
nem Engels escaparam destes erros.
1. O calcanhar-
calcanhar-de-
de-aquiles do conhecimento
Biografia:: Edgar Morin,
Biografia
A educação deve mostrar que não ha conhecimento
antropólogo, sociólogo e
que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela filósofo, nasceu em 1921, na
ilusão. A teoria da informação mostra que existe o risco do França. Autor de mais de 30
erro sob o efeito de perturbações aleatórias ou de ruídos livros. É considerado um dos
(noise), em qualquer transmissão de informação, em principais pensadores
qualquer comunicação de mensagem. contemporâneos e um dos
principais teóricos da
O conhecimento não e um espelho das coisas ou do complexidade.
complexidade
mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo,
traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos
ou sinais captados e codificados pelos sentidos. Dai
resultam, sabemos bem, os inúmeros erros de percepção
que nos vem de nosso sentido mais confiável, o da visão. Ao [Link]
erro de percepção acrescenta-se o erro intelectual. O
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conhecimento, sob forma de palavra, de ideia, de teoria, e o fruto de uma
tradução/reconstrução por meio da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, esta
sujeito ao erro. Este conhecimento, ao mesmo tempo tradução e reconstrução, comporta a
interpretação, o que introduz o risco do erro na subjetividade do conhecedor, de sua visão
do mundo e de seus princípios de conhecimento. Dai os numerosos erros de concepção e
de ideias que sobrevêm a despeito de nossos controles racionais. A projeção de nossos
desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções
multiplicam os riscos de erro.
Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda
afetividade. De fato, o sentimento, a raiva, o amor e a amizade podem-nos cegar. Mas e
preciso dizer que já no mundo mamífero e, sobretudo, no mundo humano, o
desenvolvimento da inteligência e inseparável do mundo da afetividade, isto e, da
curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou cientifica. A
afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo. Ha estreita relação
entre inteligência e afetividade: a faculdade de raciocinar pode ser diminuída, ou mesmo
destruída, pelo déficit de emoção; o enfraquecimento da capacidade de reagir
emocionalmente pode mesmo estar na raiz de comportamentos irracionais.
Portanto, não ha um estagio superior da razão dominante da emoção, mas um eixo intelecto-
afeto e, de certa maneira, a capacidade de emoções e indispensável ao estabelecimento de
comportamentos racionais.
O desenvolvimento do conhecimento cientifico e poderoso meio de detecção dos erros e de
luta contra as ilusões. Entretanto, os paradigmas que controlam a ciência podem desenvolver
ilusões, e nenhuma teoria cientifica esta imune para sempre contra o erro. Além disso, o
conhecimento científico não pode tratar sozinho dos problemas epistemológicos, filosóficos
e éticos.
A educação deve-se dedicar, por conseguinte, a identificação da origem de erros,
ilusões e cegueiras.
1.1 Os erros mentais
Nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a alucinação da percepção, o sonho
da vigília, o imaginário do real, o subjetivo do objetivo. A importância da fantasia e do
imaginário no ser humano e inimaginável; dado que as vias de entrada e de saída do sistema
neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam
apenas 2% do conjunto, enquanto 98% se referem ao funcionamento interno, constituiu-se
um mundo psíquico relativamente independente, em que fermentam necessidades, sonhos,
desejos, ideias, imagens, fantasias, e este mundo infiltra-se em nossa visão ou concepção do
mundo exterior.
Cada mente e dotada também de potencial de mentira para si próprio (self-
deception), que e fonte permanente de erros e de ilusões. O egocentrismo, a necessidade de
autojustificativa, a tendência a projetar sobre o outro a causa do mal fazem com que cada um
minta para si próprio, sem detectar esta mentira da qual, contudo, e o autor.
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A própria memória e também fonte de erros inúmeros. A memória, não-regenerada
pela rememoração, tende a degradar se, mas cada rememoração pode embelezá-la ou
desfigurá-la. Nossa mente, inconscientemente, tende a selecionar as lembranças que nos
convém e a recalcar, ou mesmo apagar, aquelas desfavoráveis, e cada qual pode atribuir-se
um papel vantajoso. Tende a deformar as recordações por projeções ou confusões
inconscientes. Existem, às vezes, falsas lembranças que julgamos ter vivido, assim como
recordações recalcadas a tal ponto que acreditamos jamais as ter vivido. Assim, a memória,
fonte insubstituível de verdade, pode ela própria estar sujeita aos erros e as ilusões.
1.2 Os erros intelectuais
Nossos sistemas de ideias (teorias, doutrinas, ideologias) estão não apenas sujeitos ao
erro, mas também protegem os erros e ilusões neles inscritos. Esta na lógica organizadora de
qualquer sistema de ideias resistir à informação que não lhe convém ou que não pode
assimilar. As teorias resistem a agressão das teorias inimigas ou dos argumentos contrários.
Ainda que as teorias científicas sejam as únicas a aceitar a possibilidade de serem refutadas,
tendem a manifestar esta resistência. Quanto às doutrinas, que são teorias fechadas sobre elas
mesmas e absolutamente convencidas de sua verdade, são invulneráveis a qualquer critica
que denuncie seus erros.
1.3 Os erros da razão
O que permite a distinção entre vigília e sonho, imaginário e real, subjetivo e objetivo
e a atividade racional da mente, que apela para o controle do ambiente (resistência física do
meio ao desejo e ao imaginário), para o controle da pratica (atividade verificadora), para o
controle da cultura (referencia ao saber comum), para o controle do próximo (será que você
vê o mesmo que eu?), para o controle cortical (memória, operações lógicas). Dito de outra
maneira, é a racionalidade que é corretiva.
A racionalidade e a melhor proteção contra o erro e a ilusão. Por um lado, existe a
racionalidade construtiva que elabora teorias coerentes, verificando o caráter lógico da
organização teórica, a compatibilidade entre as ideias que compõem a teoria, a concordância
entre suas asserções e os dados empíricos aos quais se aplica: tal racionalidade deve
permanecer aberta ao que a contesta para evitar que se feche em doutrina e se converta em
racionalização; por outro lado, ha a racionalidade critica exercida particularmente sobre os
erros e ilusões das crenças, doutrinas e teorias.
Mas a racionalidade traz também em seu seio uma possibilidade de erro e de ilusão
quando se perverte, como acabamos de indicar, em racionalização. A racionalização se crê
racional porque constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou na
indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e nega-se a contestação de
argumentos e a verificação empírica. A racionalização e fechada, a racionalidade e aberta. A
racionalização nutre-se nas mesmas fontes que a racionalidade, mas constitui uma das fontes
mais poderosas de erros e ilusões. Dessa maneira, uma doutrina que obedece a um modelo
mecanicista e determinista para considerar o mundo não e racional, mas racionalizadora.
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A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que lhe resiste.
Opera o ir e vir incessante entre a instância lógica e a instância empírica; e o fruto do debate
argumentado das ideias, e não a propriedade de um sistema de ideias. O racionalismo que
ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida e irracional. A racionalidade deve
reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade
conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana
não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a
irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. E não só critica, mas autocrítica. Reconhece-se
a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências.
A racionalidade não e uma qualidade da qual são dotadas as mentes dos cientistas e
técnicos e de que são desprovidos os demais. Os sábios atomistas, racionais em sua área de
competência e sob a coação do laboratório, podem ser completamente irracionais em
política ou na vida privada.
Da mesma forma, a racionalidade não e uma qualidade da qual a civilização ocidental
teria o monopólio. O ocidente europeu acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da
racionalidade, vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava qualquer
cultura sob a medida do seu desempenho tecnológico. Entretanto, devemos saber que em
qualquer sociedade, mesmo arcaica, ha racionalidade na elaboração de ferramentas, na
estratégia da caca, no conhecimento das plantas, dos animais, do solo, ao mesmo tempo em
que ha mitos, magia e religião. Em nossas sociedades ocidentais estão também presentes
mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso.
Começamos a nos tornar verdadeiramente racionais quando reconhecemos a
racionalização ate em nossa racionalidade e reconhecemos os próprios mitos, entre os quais
o mito de nossa razão toda-poderosa e do progresso garantido.
Daí decorre a necessidade de reconhecer na educação do futuro um principio de
incerteza racional: a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante
autocrítica quanto a cair na ilusão racionaliza Dora. Isso significa que a verdadeira
racionalidade não e apenas teórica, apenas critica, mas também autocrítica.
1.4 As cegueiras paradigmáticas
Não se joga o jogo da verdade e do erro somente na verificação empírica e na
coerência lógica das teorias. Joga-se também, profundamente, na zona invisível dos
paradigmas. A educação deve levar isso em consideração.
Um paradigma pode ser definido por:
• Promoção/seleção dos conceitos-mestres da inteligibilidade. Assim, a Ordem, nas
concepções deterministas, a Matéria, nas concepções materialistas, o Espírito, nas
concepções espiritualistas, a Estrutura, nas concepções estruturalistas, são os conceitos-
mestres selecionados/selecionadores, que excluem ou subordinam os conceitos que lhes
são antinômicos (a desordem, o espírito, a matéria, o acontecimento). Desse modo, o
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nível paradigmático e o do principio de seleção das ideias que estão integradas no
discurso ou na teoria, ou postas de lado e rejeitadas.
• Determinação das operações logicas-mestras. O paradigma esta oculto sob a lógica e
seleciona as operações lógicas que se tornam ao mesmo tempo preponderantes,
pertinentes e evidentes sob seu domínio (exclusão-inclusão, disjunção-conjuncão,
implicação-negação). E ele quem privilegia determinadas operações lógicas em
detrimento de outras, como a disjunção em detrimento da conjunção; e o que atribui
validade e universalidade a lógica que elegeu. Por isso mesmo, da aos discursos e as
teorias que controla as características da necessidade e da verdade. Por sua prescrição e
proscrição, o paradigma funda o axioma e se expressa em axioma (“todo fenômeno
natural obedece ao determinismo”, “todo fenômeno propriamente humano se define por
oposição a natureza...”).
Portanto, o paradigma efetua a seleção e a determinação da conceptualização e das
operações lógicas. Designa as categorias fundamentais da inteligibilidade e opera o controle
de seu emprego. Assim, os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo paradigmas
inscritos culturalmente neles.
Tomemos um exemplo: ha dois paradigmas opostos acerca da relação homem/natureza.
O primeiro inclui o humano na natureza, e qualquer discurso que obedeça a esse paradigma
faz do homem um ser natural e reconhece a ”natureza humana”. O segundo paradigma
prescreve a disjunção entre estes dois termos e determina o que ha de especifico no homem
por exclusão da ideia de natureza. Estes dois paradigmas opostos tem em comum a
obediência de ambos a um paradigma mais profundo ainda, que e o paradigma de
simplificação, que, diante de qualquer complexidade conceptual, prescreve seja a redução
(neste caso, do humano ao natural), seja a disjunção (neste caso, entre o humano e o natural).
Um e outro paradigmas impedem que se conceba a unidualidade (natural . cultural, cerebral,
psíquica) da realidade humana e impedem, igualmente, que se conceba a relação ao mesmo
tempo de implicação e de separação entre o homem e a natureza. Somente o paradigma
complexo de implicação/distinção/conjunção permitira tal concepção, mas este ainda não
esta inscrito na cultura cientifica.
O paradigma desempenha um papel ao mesmo tempo subterrâneo e soberano em
qualquer teoria, doutrina ou ideologia. O paradigma e inconsciente, mas irriga o pensamento
consciente, controla-o e, neste sentido, e também supraconsciente.
Em resumo, o paradigma instaura relações primordiais que constituem axiomas, determina
conceitos, comanda discursos e/ou teorias. Organiza a organização deles e gera a geração ou
a regeneração.
Deve-se evocar aqui o ”grande paradigma do Ocidente”, formulado por Descartes e
imposto pelo desdobramento da história européia a partir do século XVII. O paradigma
cartesiano separa o sujeito e o objeto, cada qual na esfera própria: a filosofia e a pesquisa
reflexiva, de um lado, a ciência e a pesquisa objetiva, de outro. Esta dissociação atravessa o
universo de um extremo ao outro:
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Sujeito/Objeto
Alma/Corpo
Espírito/Matéria
Qualidade/Quantidade
Finalidade/Causalidade
Sentimento/Razão
Liberdade/Determinismo
Existência/Essência
Trata-se certamente de um paradigma: determina os conceitos soberanos e prescreve
a relação lógica: a disjunção. A não obediência a esta disjunção somente pode ser
clandestina, marginal, desviante. Este paradigma determina dupla visão do mundo - de fato, o
desdobramento do mesmo mundo: de um lado, o mundo de objetos submetidos a
observações, experimentações, manipulações; de outro lado, o mundo de sujeitos que se
questionam sobre problemas de existência, de comunicação, de consciência, de destino.
Assim, um paradigma pode ao mesmo tempo elucidar e cegar, revelar e ocultar. E no seu
seio que se esconde o problema-chave do jogo da verdade e do erro.
*Fonte: Morim, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro.
futuro Tradução de
Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya ; revisão técnica de Edgard de Assis Carvalho.
– 2. ed. – São Paulo : Cortez ; Brasília, DF : UNESCO, 2000.