TCC - Mafalda Definitivo
TCC - Mafalda Definitivo
CÂMPUS DE AQUIDAUANA
CURSO DE LETRAS PORTUGUÊS/ESPANHOL
AQUIDAUANA – MS
2023
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AQUIDAUANA – MS
2023
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AGRADECIMENTOS
RESUMO
Este trabalho reflete sobre o papel da mulher na sociedade e a construção do humor através dos
HQs da Mafalda. Durante esta pesquisa se observou como o cartunista Quino usou o humor
para, de maneira crítica, fazer uma radiografia social dos anos 60 do século XX na sociedade
argentina. O cartunista se utiliza de um grupo de crianças de classe média para problematizar
temas do cotidiano. Quino não se furta a tratar de temas difíceis como a recessão econômica e
o autoritarismo, apesar de a ditadura em seu país estar em plena ascensão à época. Embora haja
uma diversidade de temas e personagens na obra de Quino, esta pesquisa se concentra no
contraste entre Mafalda e Susanita. Duas crianças que apresentam posicionamentos distintos
sobre o papel da mulher. A postura conservadora de Susanita é contrastada com a conduta mais
democrática e avançada de Mafalda. Quando ambas atuam nos HQs, se observa que a
construção do humor depende da astucia da Mafalda que repele a mentalidade reacionária de
sua amiga.
Palavras-Chave: Feminismo. Mafalda. Humor.
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RESUMEN
Este trabajo reflexiona sobre el papel de la mujer en la sociedad y la construcción del humor a
través de las historietas de Mafalda. Durante esta investigación se observó cómo el caricaturista
Quino utilizó el humor para, de manera crítica, crear una radiografía social de los años 60 del
siglo pasado en la sociedad argentina. El dibujante utiliza un grupo de niños de clase media
para problematizar temas cotidianos. Quino no deja de abordar temas difíciles como la recesión
económica y el autoritarismo, a pesar de que en ese momento la dictadura en su país estaba en
ascenso. Si bien existe diversidad de temas y personajes en la obra de Quino, esta investigación
se centra en el contraste entre Mafalda y Susanita. Dos niñas que presentan posturas diferentes
sobre el papel de la mujer. La postura conservadora de Susanita se contrasta con la conducta
más democrática y avanzada de Mafalda. Cuando ambas dialogan en los HQs, se observa que
la construcción del humor depende de la astucia de Mafalda, que censura la mentalidad
reaccionaria de su amiga.
Palabras clave: Feminismo. Mafalda. Humor.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 7
CAPÍTULO I – Vida, obra e apresentação da Mafalda ............................................................ 8
CAPÍTULO II – O contraste na representação feminina........................................................ 11
CAPÍTULO III – O humor nas tiras de Susanita e Mafalda .................................................. 15
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 23
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 24
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INTRODUÇÃO
Este trabalho analisa o humor na Mafalda, história em quadrinhos (HQ) criada por
Quino em 1964, que conta as aventuras de uma menina sagaz e questionadora de
aproximadamente 6 anos. Com sua turma, a perspicaz Mafalda expõe o comportamento da
sociedade argentina dos anos 60 do século passado. Apesar de o HQ situar as ações dos
personagens no contexto do pós-guerra em um país latino-americano, é possível refletir a
continuidade de algumas contradições da época, como o conservadorismo e o autoritarismo,
que ainda estão presentes na sociedade atual.
A pesquisa se deteve no aspecto humorístico que decorre do comportamento feminino,
tendo como foco duas meninas: Mafalda e Susanita. Neste trabalho, demonstra-se a diferença
entre os papéis femininos de ambas as personagens. Além de observar o contraste de ideias
entre Mafalda e Susanita, se demonstra como esse atrito ideológico pode causar humor, sem
deixar de mencionar mesmo que brevemente, o contexto autoritário e conservador que já estava
em ascensão na Argentina da década de 60 do século XX.
O trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro, descreve-se brevemente a
biografia do escritor argentino, Quino. Neste capítulo, se apresenta ainda a história da criação
da Mafalda e as características dos principais personagens que atuam nas tiras. No segundo
capítulo, se aporta rápidas considerações sobre o surgimento do feminismo e as principais
conquistas desse movimento no contexto mundial. Em seguida, se analisa como Mafalda e
Susanita se posicionam diante das questões do feminino. No terceiro e último capítulo, se
analisam algumas tiras sobre essas personagens, observando as nuanças adotados por Quino
para provocar o surgimento do humor nas tiras.
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Neste capítulo, se fará uma breve apresentação da vida e obra do cartunista argentino
Quino, abordando os principais acontecimentos de sua trajetória até sua morte. Em seguida, se
apresentará o objeto de estudo deste trabalho que são as histórias em quadrinho de Mafalda.
Para fundamentar este capítulo, se utilizará os sites Mackenzie (2020) e Mi Buenos Aires
Querido (2020), além do artigo de Vergueiro (2020).
Com 18 anos, em 1954, mudou-se para Buenos Aires e percorreu jornais e revistas em
busca de emprego. Foi então à revista “Esto Es”, onde publicou sua primeira página de humor
gráfico. Em 1963, lançou seu primeiro livro, que compunha vários quadrinhos humorísticos
mudos, intitulado “Mundo Quino”. Casou-se em 1960, com Alicia Colombo e não tiveram
filhos. Por conta do golpe militar de 1976, isolaram-se na cidade de Milão e passaram grande
parte de suas vidas entre Madri e Buenos Aires.
Vários livros de humor do cartunista foram publicados no Brasil, tais como: “Bem,
obrigado, e você?” (1976), “Deixem-me inventar” (1983), “Quinoterapia” (1985), “Cada um
no seu lugar” (1986), “Sim, amor” (1987), “Potentes, prepotentes e impotentes” (1989),
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“Humanos nascemos” (1991), “Não fui eu!” (1994), “Que gente má!” (1996), “Quanta
bondade!” (1999) e “Que presente inapresentável!” (2005). Em 2014, ao completar 60 anos no
humor gráfico e 50 anos de sua personagem Mafalda, Quino recebeu o prêmio mais importante
do governo francês para estrangeiros, a “Ordre National de la Légion d'Honneur” (Ordem
Oficial da Legião de Honra). E na Espanha, recebeu o Prêmio “Príncipe de Asturias de la
Comunicación y las Humanidades” (Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades).
Nos últimos anos de sua vida, Quino enfrentava dificuldade no desenvolvimento de seu
trabalho, sendo até mesmo obrigado a se aposentar por conta da perda de visão. Em 30 de
setembro de 2020, na cidade de Buenos Aires, Quino veio a falecer.
Apresentação da Mafalda
Uma menininha de seis anos, inteligente, sagaz e contestadora, que ama os Beatles,
defende a democracia, direitos iguais para todos e sonha em mudar o mundo, transformando-o
em algo melhor. Esta é a personagem Mafalda, criada por Quino, inicialmente para uma
campanha de eletrodomésticos em 1964. A campanha não foi publicada, mas a menina sagaz
passou a fazer sucesso em jornais e revistas. Abordando assuntos difíceis, mas de extrema
importância como política, feminismo, desigualdade social e racial, Quino usou do humor para
trazer questões sociais relevantes da sociedade em que vivemos. Apesar de suas questões
complexas, a menina caiu nas graças do público de todas as idades. Para fundamentar
teoricamente este subcapítulo, se recorreu a autores como Crivelente et al. (2017), Fuks (2020)
e Vergueiro (2020).
Mafalda foi desenvolvida em uma época em que a Guerra Fria estava em ascensão. O
conflito travado entre os Estados Unidos e a União Soviética dividia o mundo em dois grandes
partidos, um alinhado ao capitalismo e outro ao socialismo. A Argentina sofria vários golpes
militares que acabaram levando à ditadura militar que foi muito parecida com a do Brasil, ou
seja, havia repressão à sociedade, restrição de liberdade, censura, e muitas mortes como aponta
o projeto “Memória e Resistência” da USP:
Por meio dos quadrinhos da Mafalda, Quino demonstra sua insatisfação com o momento
político-social da Argentina, mas, sem ser muito incisivo, porque sua vida poderia correr riscos.
Não é difícil perceber, pela leitura das tiras, que ele tinha preferência por um governo
democrático e socialmente responsável. No entanto, não restringiu sua produção ao tema da
ditadura militar, tratando sempre de assuntos mais amplos como o direito das crianças e das
mulheres.
desaprova o comportamento submisso da mãe e todo tempo a provoca para que ela não fique
restrita aos afazeres domésticos. Já Susanita deseja seguir os passos de sua mãe, acreditando
que ser mulher é cuidar de filhos, casa e marido. Por outro lado, Libertad não tem esse ideal de
submissão do papel da mulher, pois cresceu em um meio em que a igualdade de gênero é natural
e a mulher tem os mesmos direitos dos homens.
Em resumo, Quino apresenta o feminino de diferentes maneiras em suas tiras. Desde
configurações tradicionais da família até formas mais avançadas. Mas aqui a pesquisa se
concentrará apenas em duas versões que são figuradas por Mafalda e Susanita. Elas figuram o
contraste ideológico entre o tradicional e o moderno. Os embates entre elas são frequentes nas
tiras. Elas permitem as “sacadas” de humor e ironia de Quino, que se dão justamente por essas
personagens terem ideias totalmente opostas sobre o mundo e o papel das mulheres.
Mafalda é uma garota que não aceita e não concorda com o perfil estipulado para as
mulheres na sociedade. Ela é uma menina cheia de sonhos, que quer estudar, ter uma profissão
e estar em uma posição social na qual ela possa fazer a diferença. Mafalda deseja ter o mesmo
espaço que têm os homens. Por isso, nega a posição tradicional da mulher que se restringe a
cuidar de casa, filhos e marido, como já se disse. Tais mulheres aceitariam essa condição social
caladas, além de estarem sempre alienadas dos acontecimentos políticos e sociais. Tudo isso
causa grande revolta na protagonista. Isso a leva a criticar severamente a postura tradicional das
mulheres. É o que aponta Santos e Gomes (2014, p. 6):
O que caracteriza Mafalda como contestadora é o fato dela ser uma criança e,
principalmente, uma mulher. Para ela é muito difícil aceitar os moldes tradicionais
fundamentados pelo patriarcalismo e pela dominação masculina, nos quais as
mulheres têm que ser boas esposas e mães, dedicando-se apenas à família, abdicando
dos seus estudos e profissionalização (SANTOS; GOMES, 2014, p. 6).
[...] representam parte das mulheres que nunca se acomodaram com a realização de
somente os afazeres domésticos, lançando-se para um mundo desconhecido para a
maioria, que era o do questionamento, das discussões sobre o papel da mulher, da
política, da economia, da revolução social [...]. (ARAÚJO, 2013, p. 8)
Por certo, observa-se que Susanita não se importa com a desvalorização da mulher
enquanto ao gênero, pois ela almeja e acredita que atingir o ideário tradicional seria o sucesso
para sua vida. Mas a mulher não recebe reconhecimento social por seguir tais preceitos sociais
da divisão do trabalho. Em nenhum momento, a mulher tem um descanso quando opta por ser
aquilo que a sociedade impõe ao feminino, haja vista o que afirma Araujo (2013, p. 7) sobre a
diferença entre os gêneros:
Por exemplo, o pai de Mafalda trabalha fora de casa, e quando não está trabalhando,
seus passatempos são cuidar de plantas e ler o jornal; a mãe, como só faz o serviço
doméstico, não tem direito a sentar e ler um jornal ou executar outra tarefa que denote
descanso; ao contrário, porque além do serviço da casa deve fazer as compras para o
lar [...]. (ARAUJO, 2013, p. 7)
Fica evidente, portanto, as diferenças entre Mafalda e Susanita. O que acaba refletindo
em diferentes perspectivas diante do papel da mulher na sociedade. Quino apresenta, através
dessas duas personagens, duas tendências em conflito que não se restringem às décadas de 60
e 70 do século XX. Como se nota ainda hoje, as duas perspectivas estão em disputa, pois há
algumas mulheres que lutam para ter mais direitos, mais voz, enquanto outras fecham os olhos
e apenas aceitam a pré-destinação feminina. E é exatamente esse paradoxo que provoca o riso
em muitas tiras, como se demonstrará no capítulo a seguir.
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Com respaldo nos textos de Bergson (1983) e Propp (1992), pode-se definir o humor
com as palavras de Santos (2012, p. 34) “uma narrativa que, determinada por condições sociais,
culturais e históricas, gera um efeito em seu receptor, o riso”. O efeito cômico é reflexo do
exagero, da ironia, da paródia e da sátira, e para isso o humor emprega vários meios para
construir o risível como a fala, a imagem e a expressão.
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A partir de agora serão apresentadas algumas tiras. Na primeira tirinha abaixo, Mafalda
e Susanita aparecem conversando:
O tema dessa tira gira em torno de Susanita e seus planos para o futuro. Ela aparece
contando para Mafalda tudo que almeja para sua vida como se casar, ter filhos, uma grande
casa. Em seguida, ela pergunta para Mafalda o que esta achou de seus planos. Esta, por sua vez,
compara a descrição da amiga como “un escalafón”, que pode ser traduzido como grau,
hierarquia, posição, degrau, entre outros. Nesse caso, Mafalda define o projeto como um
planejamento a ser cumprido de forma escalonada.
Percebe-se que, em toda tirinha, Mafalda permanece imóvel, como se estivesse surpresa
com o que estava ouvindo e acaba ficando sem reação. Nos dois primeiros quadrinhos, nos
quais Susanita descreve suas metas de vida, é possível notar que Mafalda aparece sem boca no
desenho. Nota-se que, neste momento, ela já não concorda com o que a amiga afirma. E quando,
nos dois últimos quadrinhos sua boca é colocada em sua expressão novamente, vê-se que ela
está muito surpresa e enrijecida com o que acabara de ouvir.
Em contrapartida, Susanita aparece em todo o quadrinho gesticulando e se expressando
completamente. Apenas no último, quando Mafalda responde a sua pergunta, é que ela aparece
parada e sem boca, assim como Mafalda, enquanto a ouvia. Mas o desenho deixa bastante
evidente o posicionamento de cada uma em relação ao tema da conversa. Susanita
provavelmente se porta de tal maneira que acaba ficando surpresa ao perceber que Mafalda não
concorda com ela. Ao final, Susanita não percebe que talvez Mafalda tivesse razão.
Observa-se que Susanita procura ser alguém da alta sociedade, com prestígio, dinheiro
e valores, pois inicia dizendo que será uma “señora”. O que caracteriza sua procura por um
marido da alta sociedade. Em seguida, ela diz que comprará uma casa grande e da ênfase
repetindo o adjetivo “grande” por três vezes. Ela pretende ter uma mansão que represente o
quanto ela e seu marido serão bem-sucedidos. Reafirmando sua pretensão burguesa de
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enriquecimento, ela afirma que comprará muitas joias. Fica claro que a personagem dá grande
importância ao status e à riqueza.
Por fim, é possível observar que Mafalda usa da ironia para responder a Susanita, pois,
durante todo quadrinho, como já foi dito, sua postura é de completa surpresa com o que ouve e
quando Susanita pergunta a ela se gostou de seu projeto de vida, a personagem responde que
“sí”, mas em seguida aponta um defeito para tudo o que ouviu. Ela se utiliza de ironia, pois sua
resposta acaba por negar o que afirmou inicialmente, como descreve Bergson (1983):
A mais geral dessas oposições seria talvez a do real com o ideal: do que é com o que
deveria ser. Ainda aqui a transposição poderá ser feita nas duas direções inversas. Ora
se enunciará o que deveria ser fingindo-se acreditar ser precisamente o que é. Nisso
consiste a ironia. (BERGSON, 1983, p. 61)
Mafalda aparece questionando a amiga e seu desejo em ser apenas dona de casa e mãe,
e informa que as mulheres cada vez mais ocupam lugares importantes, de modo que
desempenham papéis, além daquilo que é imposto. Observa-se que, quando Mafalda comenta
o tema, passa pelas garotas uma senhora gorda, bem-vestida e sem o acompanhamento de um
homem, que representa uma mulher demasiadamente independente. Nesse momento, Susanita
diz que começará um regime contra a importância.
Nota-se que, nos dois primeiros quadrinhos, Mafalda se mostra incrédula com os desejos
de sua amiga. Ela abre os braços, aponta o dedo, como forma de mostrar que não concorda com
o posicionamento da companheira. Susanita, por sua vez, aparece pensativa com as indagações.
No terceiro quadrinho, ao passar a mulher, as duas garotas são desenhadas com a mesma
expressão, sem a boca. Percebe-se que este recurso foi usado por Quino para indicar
concordância ou não com o que acontece, perplexidade, surpresa e, no caso das garotas, pode-
se dizer que são mesmas expressões para diferentes reações.
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Mafalda parece surpresa em ver uma mulher como a que ela acabara de descrever,
enquanto Susanita parece não concordar com a amiga e ficar perplexa com significado que a
palavra “importância” significou para ela. No último quadrinho, Mafalda permanece com a
mesma expressão, mas agora sua reação é de perplexidade para com Susanita, que diz que irá
iniciar um regime contra a “importância”, postura que demonstra a falta de interesse da
personagem sobre o tema que traça uma intertextualidade com o assunto do feminismo.
O cômico se apresenta na cena por meio do entendimento do significado do adjetivo
“importante”, que é empregado por ambas as personagens. Mafalda usa esse adjetivo para
defender uma causa, um posicionamento. Já Susanita o usa para, de maneira cômica, reafirmar
sua posição conservadora em relação ao papel da mulher e ainda demonstra certo preconceito
por conta do aspecto físico da mulher. Este conflito de interpretações do adjetivo “importante”,
lembra aquilo que Bergson (1983) afirma sobre o artifício do cômico simultâneo, ou seja,
sentidos diferentes para a mesma ocorrência:
Trata-se de um efeito cômico cuja fórmula é difícil de extrair, por causa da
extraordinária variedade das formas sob as quais se apresenta no teatro. Talvez
pudéssemos defini-la: Uma situação será sempre cômica quando pertencer ao mesmo
tempo a duas séries de fatos absolutamente independentes, e que possa ser interpretada
simultaneamente em dois sentidos inteiramente diversos (BERGSON, 1983, p. 47;
48).
Como último elemento, é utilizada a palavra “regime” pela personagem Susanita, que
visa causar no leitor o riso que advém do cômico, porque se percebe, nesse momento, que de
nada serviu o que Mafalda falou para a amiga. Esse final preconceituoso de Susanita contrasta
com o entendimento sobre o feminino da Mafalda. Essa confusão de ideias e contradições é o
que causa o riso, como aponta Bergson (1983):
A cada instante tudo entrará em confusão, e tudo se ajeita: isso é que faz rir, muito
mais que o vaivém do nosso espírito entre duas afirmações contraditórias. E nos
desperta o riso porque torna manifesto a nossos olhos a interferência de duas séries
independentes, verdadeira fonte do efeito cômico. (BERGSON, 1983, p. 49)
Propp (1992, p. 56) afirma o seguinte, “(...) o riso não nasce apenas da presença de
defeitos, mas de sua repentina e inesperada descoberta.”, ou seja, assim que o leitor descobre
como Susanita interpretou os conselhos de Mafalda, o riso pode ser provocado
instantaneamente.
Na próxima tirinha, fica evidente os posicionamentos das duas mulheres:
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Susanita aparece curiosa para saber o que Mafalda está olhando. Esta, por sua vez,
responde a amiga que é uma foto de um foguete e o mostra para ela, perguntando se Susanita
não acha aquilo emocionante. Ao observar a foto, Susanita responde emocionada que sim. Mas
a sua afirmação se deve ao fato de o foguete parecer um batom. Por isso, ela não veria a hora
de crescer para poder usá-lo a fim de se maquiar como uma mulher. Nesse momento, Mafalda
some do quadrinho e Susanita questiona se ela não vai usar batom quando crescer e a menina
apenas lamenta sem mais aparições.
No primeiro e no segundo quadrinhos, Mafalda aparece encantada com as possibilidades
do futuro em suas mãos. O que se percebe por suas expressões e animação ao mostrar a imagem
do foguete. Susanita aparece no quadrinho curiosa para saber o que está causando tal efeito em
sua amiga. Ainda no segundo quadrinho, nota-se que Mafalda mostra a imagem do foguete para
Susanita e pergunta a ela se aquilo não a emociona, e a resposta dela é positiva, que a emociona
sim. Percebe-se, pela expressão de Mafalda, que ela gosta da resposta que obtém da amiga.
Mafalda conclui então que Susanita estaria tendo a mesma visão e pensamento que o
dela. Ou seja, a evolução do mundo, um futuro com grandes possibilidades como fazer um
foguete funcionar para explorar o universo. Mas no terceiro quadrinho, há uma quebra de
expectativas de Mafalda quando percebe que Susanita compara o formato do foguete ao de um
batom. Na verdade, a emoção que Susanita afirmou sentir se dá pelo fato de quando crescer
poder usar o batom. Ela desconstrói a imagem do foguete e a refaz de acordo com a sua
realidade de mundo, que, como já foi dito, é centrado em ser uma mulher padrão, segundo a
divisão do trabalho tradicional.
Na psicologia tal desconstrução é chamada de pareidolia, que é quando, ao avistar algo
inanimado, o cérebro retrata outro tipo de coisa, que pode ser um animal, um objeto ou até
mesmo um rosto. A Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) realizou uma entrevista com
Fabrizio Veloso, um especialista em neuropsicologia que fez a seguinte afirmação: “Essa
tendência de encontrar padrões com significado em imagens ou sons aleatórios está relacionada
com a capacidade que o nosso cérebro possui de transformar nossas percepções em algo
familiar, ou seja, relaciona-se à forma como construímos o mundo ao nosso redor”.
Então, como Susanita é muito submersa nesse mundo em que a mulher deve apenas
preocupar-se em ter filhos, cuidar da casa e do marido, e não se preocupar com as questões que
assolam o mundo, ela acaba reproduzindo a imagem do foguete conforme a sua realidade
completamente alienada de questões realmente importantes. Assim o que ela enxerga é o batom.
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No quarto quadrinho, percebe-se que a quebra de ânimo agora acontece com Susanita,
quando ela percebe que Mafalda a deixa sozinha e não demonstra o interesse de usar batom
quando crescer. Fica claro o posicionamento moral e social de cada uma, bem como a
insistência de Susanita em cumprir aquilo que determinam socialmente como papel de ser
mulher.
Nesta próxima tirinha, fica claro o egocentrismo de Susanita:
Mafalda aparece informando a Susanita que, dentro de trinta anos, haverá sete milhões
de habitantes no mundo. Susanita aparece preocupada com a informação e indaga Mafalda
sobre seus filhos. Ela parece não entender o que os filhos de Susanita têm a ver com o que
acabara de dizer. Por fim, Susanita questiona se os filhos caberão no mundo.
No primeiro quadrinho, Mafalda aparece preocupada com o grande aumento da
população no mundo, haja vista que, com uma superlotação dos seres humanos, pode acarretar
a falta de recursos indispensáveis para a sobrevivência humana. Susanita aparece sem a boca
no quadrinho, o que indica a surpresa dela com a informação. No segundo quadrinho, Susanita
é desenhada com a mão no rosto, boca triste, olhos arregalados e questionando sobre o futuro
de seus filhos.
Percebe-se, mais uma vez, a diferença entre as duas garotas. Mafalda se mostra
preocupada com o mundo, com as pessoas e com o rumo da humanidade, enquanto Susanita
pensa apenas nela e em seu desejo de ser mãe. O que demonstra o egoísmo e a total alienação
da personagem.
No terceiro quadrinho, diante da pergunta de Susanita, Mafalda busca saber o que os
filhos de Susanita têm a ver com o que ela acabara de dizer, sendo que ela mostra uma
preocupação mundial. Susanita, mais uma vez, é desenhada sem a boca. Isso demonstraria o
desespero da personagem sobre a “falta de espaço” para seus filhos. No último quadrinho,
Susanita questiona Mafalda se os filhos caberão no mundo. Esta percebe, por sua vez, que tal
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indagação não surtiu o efeito esperado em Susanita, ou seja, a preocupação com o todo do
planeta e não apenas consigo mesma.
O cômico na tirinha está presente no último quadrinho quando Susanita diz “¿cabrán?”.
Nesse momento, o leitor compreende o quanto o pensamento da personagem é raso e o quão
superficial ela é. A impaciência de Mafalda com a intervenção de Susanita leva o leitor a
perceber o risível. Bergson (1983, p. 65) afirma que o humor ocorre também diante do
enrijecimento da vida social, ou seja, quando as pessoas deixam de demonstrar a preocupação
com o outro:
Só quando outra pessoa deixa de nos comover, só nesse caso pode começar a comédia.
E ela começa com o que poderíamos chamar de enrijecimento contra a vida social. É
cômico quem siga automaticamente o seu caminho sem se preocupar em fazer contato
com outros. O riso ocorre no caso para corrigir o desvio e tirar a pessoa do seu sonho.
(BERGSON, 1983, p. 65)
Susanita aparece dizendo que Mafalda tem razão em tudo que diz em relação a mulher.
A personagem concorda que elas não devem ser mulheres como suas mães, que não devem se
conformar em aprender corte e costura. Ela afirma que a geração delas é ligada aos avanços
tecnológicos e que ela não vai se limitar a essa mediocridade cinzenta do mundo das costureiras,
pelo contrário, que a ciência a espera, e, para isso, quando crescer irá comprar uma máquina de
costura.
O primeiro quadrinho apresenta Susanita séria, com os olhos bem abertos, como se
tivesse recebido um choque de realidade. Ela dá razão para Mafalda e faz um discurso
condizente com as ideias avançadas da amiga. De modo que parece enxergar que a mulher não
foi feita apenas para lavar, passar, cuidar do marido e filhos. Mafalda é, por sua vez, retratada
com um sorriso no rosto ao ouvir o discurso de Susanita e isso prossegue até o terceiro
quadrinho, quando se muda a postura das duas meninas.
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Em certo momento, o desenho as mostra de baixo para cima, com Susanita parecendo
fazer um discurso em defesa dos direitos da mulher. Até que no último quadrinho, a personagem
retoma sua tradicional aparência. Percebe-se que a autoridade que a menina adquiriu some
instantaneamente com ela dizendo que, como mulher evoluída, comprará uma máquina de corte
e costura. E Mafalda aparece com os olhos arregalados e com a boca triste quando percebe que
Susanita definitivamente não entendeu os direitos das mulheres.
Durante toda a tira, Mafalda não emite nenhuma palavra e fica evidente o
posicionamento de ambas, Susanita conservadora, egoísta, ambiciosa, e Mafalda contestadora,
em busca de seus direitos como mulher. Fica claro que as garotas não conseguem desenvolver
um diálogo nas tiras, pois as divergências de ideias não permitem que o pensamento de uma vá
ao encontro da outra.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
ANTAS, Larissa Zanetti. A mulher nas tirinhas da Mafalda: uma análise discursiva da
construção de humor. 2017. Disponível em: [Link] Acesso
em: 19 out. 2023.
DOS SANTOS, Talita Galvão; DOS SANTOS GOMES, Nataniel. A Identidade Feminina
em Mafalda, de Quino. Disponível em: [Link]
Acesso em: 22 out. 2023.
JUNIOR, A. Gasparetto. Terceira Onda Feminista. Brasil Escola, 2017. Disponível em:
[Link] Acesso em: 28 nov. 2023.
PAREIDOLIA: você já passou por isso. Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), 22 mar.
2016. Disponível em: [Link]
isso. Acesso em: 11 dez. 2023.