Francis A. Schaeffer
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ns CRISTO
A Verdade de
Romanos 1—8A Obra Consumada de Cristo, Francis Schaeffer. Publicada em inglés sob 0
titulo The Finished Work of Christ- Copyright © 1998 by Francis Schaeffer; por
Crossway Books, a division of Good News Publishers. Wheaton, Illinois 60187,
USA. Copyright © 2003 Editora Cultura Crista. Edigéo em portugués autorizada
por Good News Publishers. Todos os direitos sdo reservados.
18 edigao, 2003 - 3.000 exemplares
Tradugao
Gabrielle Greggersen Bretzke
Reviséo
David de Aratijo
Maria Helena Penteado
Editoragdéo
David de Aratijo
Rissato Editoragao
Capa
Bite&Bite Comercio
Publicagao autorizada pelo Conselho Editorial:
Claudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de
Macedo, Fernando Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste,
Sebastiao Bueno Olinto.
EDITORA CULTURA CRISTA
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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Claudio Anténio Batista MarraSumario
Apresentacao.....
1. Introdugio ¢ Objeto de Estudo (1.1-17) ..
Parte Um: Justificacdo (118 —4.25) vases
2. A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 —2.16) .s.ussssssnseuinaeiene 29
3. A Pessoa Com a Biblia: Culpada (2.17 —3.8) vious ST
4, O Mundo Todo: Cullpado (3.9-20) vss oss 69
5, Justificagdo Depois da Cruz (3.21-30)
6. Justificagaio Antes da Cruz (3.31 —4.25) ..
Parte Dois: Santificacao (5.1-8.17) ..
7, O Resultado da Justificagao: Paz com Deus (51-11) sass 121
8, Mortos em Adao, Vivos em Cristo (512-21) ssc
9, A Luta do Cristo Contra 0 Pecado: I (6.1-23) ...
10. A Luta do Cristéo Contra 0 Pecado: II (7.1-25)....
fl VidanoRapinto(@1i7) 195
Parte Trés: Glorificagdo (8.18-39) ...
12. Crentes Ressurretos, Criagéo Restaurada (8.18-25) ..
13, A Vida Eterna E Para Sempre (8.26-39) «.....seon
Indice...
VersiculosAPRESENTACAO
Por Udo W. Middelmann
Fundagdo Francis A. Schaeffer
de Roma que vocé tem em maos faz parle dos primeiros
estudos biblicos sistematicos do Dr. Francis A. Schaeffer. Estes
estudos sao de especial relevancia, pois explicitam a maior parte das
idéias e verdades essenciais que séo fundamentos de toda a obra do
Dr. Schaeffer e do contetido de seus livros posteriores. Estes estudos,
por si s6, permitem obter novos insights de toda a obra de Schaeffer;
porém, mais do que isso, eles nos ajudam_a tornar visivel o sentido
permanente da Palavra de Deus para cada nova geragao
O estudo dos oilo primeiros capitulos da carta de Paulo a igreja
Se o considerarmos mais objetivamente, este estudo foi fruto da
interagao pessoal de Schaeffer com estudantes e de seus debates em
torno de questées polémicas da atualidade. Debates profundos e alta-
mente interativos como estes cram tipicos do método basico que
Schaeffer aplicava em tudo 0 que fazia. Portanto, todos os insights de
Schaeffer aqui apresentados foram cuidadosamente construidos ao lon-
go destes didlogos, muitas vezes fervorosos, nos quais quest6es ho-
nestas ~ nao importando 0 nivel de dificuldade - recebiam respostas
honestas, gentis, baseadas nas verdades imutaveis da Palavra de Deus.
Estes estudos foram ministrados pela primeira vez em um aparta-
mento de estudantes em Lausanne, Suicga, nos anos sessenta. No mes-
mo dia, a cada semana, Schaeffer descia das montanhas para debater
com universitarios que se encontravam para o almogo no “Café Vieux
Lausanne”, a poucos passos de uma catedral do século dozeviii
Ali, por volta de 1526, os reformadores franceses confrontavam as
concepgées da Igreja Catolica Romana com os seus estudos da Biblia,
Em um debate famoso, os cidadaos de Lausanne reuniram-se para
ouvir os dois lados e, em seguida, votaram a favor dos ensinamentos
dos reformadores. As suas concepgdes baseavam-se nas Escrituras,
livres das tradigdes distorcidas de Roma. Logo ao lado da catedral
situava-se a velha academia, onde estes mesmos reformadores fun-
dariam uma Universidade. Esta mesma Universidade ainda se situava
la na época em que Schaeffer dava respostas biblicas 4s perguntas
dos estudantes, nas dependéncias do “Vieux Lausanne”,
Em seguida, a noite ele daria aula sobre Romanos no apartamen-
to de Sandra Ehrlich, antes de correr até a estac&o para o Ultimo trem
e 6nibus de volta para casa, nas montanhas. Harold, um estudante
de economia holandés, e outros estudantes de varias nacionalidades
passavam a tarde toda com eles. Na grava¢ao original pode-se ouvir
Harro, como era chamado, traduzir algo para um estudante suigo e
freqiientemente fazendo perguntas ele mesmo. Mario, de El Salvador,
uma garota sul-africana, um estudante italiano de arte, um tcheco,
um americano e minha esposa, Débora, eram alguns dos que dedi-
cavam pelo menos duas horas por semana, estudando 0 livro de Ro-
manos - versiculo por versiculo. Dr. Schaeffer era mestre em tornar
os estudos interessantes, pois sabia aplicar a carta de Paulo as ques-
tdes intelectuais dos tempos de Paulo e também dos nossos, que,
por sua vez, eram muitas vezes as mesmas que haviam sido discuti-
das poucos momentos antes, no café, junto a estudantes agndsticos
€ ateus. Pois, no fundo dos problemas e quest6es acerca da existén-
cia humana, ha pouca diferenga dos gregos para as pessoas de nos-
so proprio século. Originalmente, estas palestras foram dadas em
um estilo “dar e receber” de leitura e discusséo, método em que o Dr.
Schaeffer sempre se superava. O texto a seguir foi editado a fim de
excluir repetigdes e comentarios da audiéncia, mantendo, ao mesmo
tempo, 0 estilo e contetido das fitas originais.
A carta aos Romanos oferece respostas para todas as questdes
basicas do ser humano de qualquer época quanto a sua origem, ao
problema de um Deus moral e um mundo mau, € as questdes sobre
significado e a verdadeira humanidade. De forma sistematica, Ro-
manos trata daquele tipo de quest6es que qualquer ser pensante
tem num mundo como o nosso, onde os problemas sao freqiien-Apresentagio ix
temente identificados, mas as solugSes propostas raramente vao
ao Amago da doenga.
Schaeffer frisava que, até pouco tempo, o livro de Romanos cra
estudado em escolas de direito americanas, a fim de ensinar aos
estudantes a arte de tecer uma argumenta¢aéo. Um caso verossimil €
formulado para fundamentar uma proposi¢do, Em seguida, cada um
dos contra-argumentos é considerado, um a um, e refutados. Roma-
nos nao é sobre algum salto de fé, mas apresenta uma argumenta-
Ao inteligivel em torno da sua tese central: “Pois nado me envergo-
nho do evangelho, porque é 0 poder de Deus para a salvagao de todo
aquele que cré, primeiro do judeu e também do grego; visto que a
justica de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como esta escri-
to: O justo vivera por fé." (116-17)
Paulo, o autor, sob a diregao e inspiracao do Espirito de Deus, trata
de nosso relacionamento com Deus, dando respostas verdadeiras para
quest6es verdadeiras. Tudo que nés pensamos que sabemos sobre 0
universo, 0 homem, o sentido e a moral, exige constantes manuten-
Gao e corregao. Sem a devida corregao e exortagéo que encontramos
na Palavra de Deus, 0 homem pecador acaba acumulando nada mais
do que bobagens sobre as areas mais importantes da vida. Isto sem-
pre tem sua origem no conceito que o homem tem de Deus.
Schaeffer reconhecia em Romanos um completo sermao de Pau-
lo, muito semelhante a outros sermGes que ministrava por onde quer
que andasse. Logo depois da introdugao vem a proposigao, seguida
pela exposi¢ao da proposigao. Observamos isto em Atos 17, quando
Paulo é impedido de concluir um serm&o bastante semelhante em
Atenas. Ele partiu, entao, dirigindo-se ao sul, rumo a Corinto, onde
escreveria a carta aos Romanos. Em toda cidade por onde andava,
ele ministrava todo um conjunto de verdades capaz de abranger os
principios basicos da doutrina de forma completa e integral.
Romanos é como um estudo sistematico que Paulo enviou a uma
igreja, igreja a qual ele nao havia pessoalmente visitado. A igreja de
Roma teve uma origem muito parecida com a de Antioquia. Ambas
as igrejas surgiram do testemunho de pessoas de fé que estiveram
presentes em Jerusalém por ocasiao dos eventos descritos em Atos 2,
em gue se relata como trés mil pessoas se converteram no dia de
Pentecostes. Em Atos 10, Cornélio havia se tornado alguém temente a
Deus, gracas a conversas mantidas com os que ja abragavam a fé, Emx A Ora Consumapa bE Crist
nenhum destes casos a igreja surge de algum ministério de professo-
res “profissionais’, mas sim de crentes alcangando outras pessoas.
Romanos tem um importante diferencial em relagao as outras car-
tas do Novo Testamento. Nenhum outro texto do Novo Testamento apre-
senta uma sistematizacéo da doutrina do evangelho parecida com esta.
Todas as outras.cartas séo enderecadas a igrejas ou pessoas que ouvi-
ram os sermées ao vivo, por ocasiao da visita pessoal dos apéstolos.
Todas as outras tratam de problemas especificos, necessidades especi-
ais ou praticas duvidosas. Elas remetem os cristéos a ensinamentos
especificos e admoestagGes, que serviam apenas para reforgar coisas
das quais eles certamente ja haviam ouvido falar no corpo da doutrina.
Em Roma, entretanto, ninguém havia pregado o evangelho por com-
pleto. Por isso, a carta aos Romanos pode ser considerada uma decla-
racao integral de tudo 0 que o Antigo € o Novo Testamento dizem acer-
ca da nossa situagdo diante de Deus e do mundo. Toda a verdade esta
resumida nos trechos-chave do capitulo 1, nos versiculos 16 e 17. Todo
© restante da carta é desdobramento destes dois versiculos: por que
eles sao verdadeiros, qual é o dilema, qual a solugéo e como viver da.
qui pra frente. Paulo declara que nao ha raz4o para envergonhar-se do
Cristianismo, quer seja intelectualmente, quer seja na experiéncia coti-
diana de uma vida controlada por Deus.
Ao longo destes anos, desde que o Dr. Schaeffer ministrou estas
palestras/debates, milhares de estudantes ja estudaram as fitas de Ro-
manos, afiando os ouvidos para acompanhar o estudo em uma grava-
cao precaria. E eles n&éo tém conseguido desgrudar os ouvidas por-
que o Dr. Schaeffer aplicou os ensinamentos de Paulo as quest6es
fundamentais do homem em todas as eras. Com grande frequéncia,
Schaeffer mesmo retomava Romanos para discutir 0 vacuo intelec-
tual que vivemos na vida moderna.
Este é um estudo versiculo por versiculo do texto, Intimamente
associados a ele estdo direcionamentos para os problemas centrais
que encaramos em nossa geracao. Todos os que se preocupam sin-
ceramente com a suposta auséncia de Deus, ou com a verdade de
Deus e com a verdade dos seus preceitos morais, acabam descobrin-
do na Biblia um Deus que sofre com os pecados das suas criaturas,
mas que nem por isso é responsavel pelos seus pecados. Vamos es-
lar face a face com a ira de Deus decorrente de nosso pecado, bem
como com sua compaixao ao prover justiga, salvagao e restauragdoApresentacio xi
futura por meio de Cristo, Cada um dos membros da Trindade - lon-
ge de ser um topico de interesse meramente teoldgico ~ esta intima e
poderosamente envolvido com o processo da nossa redeng¢ao ao lon-
go da historia. :
E interessante ver, durante o estudo, quanto peso Schaeffer atribui
a pecaminosidade do homem, a qual provoca a célera de Deus, Mesmo.
assim, nao ha sugestao alguma de que esta pecaminosidade destruiria
a humanidade e a racionalidade do homem criado conforme a imagem
esemelhanga de Deus. Deus nao é 0 autor do mal, e o mal nao diminui
em nada a obrigagado do homem de buscar e escolher Deus. Schaeffer
nao recai na armadilha teolégica dos defensores radicais da reforma,
que dizem que a depravagao privou o homem de sua humanidade, ab-
solvendo-o do seu dever de mostrar arrependimento ou de buscar a
Deus, Da mesma forma que Paulo, a grande briga de Schaeffer é€
fazer com que 0 seu proximo se curve diante do Deus que nds co-
nhecemos e aceite a “obra consumada de Jesus” para a sua salva-
cao, para que possa enfrentar as batalhas atuais contra 0 pecado
na sua vida de cristéo, e ter a esperanga de ressurrei¢do final ¢ jus-
tificagao no Dia do Senhor.
O homem esta cafdo, mas ele nao é um zero, n&o é algo sem
valor. O homem tem imenso valor, por ser criado 4 imagem de Deus.
Ao mesmo tempo, entretanto, todo o nosso ser foi tragicamente afe-
tado pela Queda - inclusive nossa vontade e intelecto.
Aqui esta um Deus que realmente luta por _nés. Nao ha nenhuma
solucao arbitraria ou mistério esotérico nisto, Paulo nao foge de ques-
l6es pesadas ¢ complexas, Ele responde a elas a partir da completude
da obra divina na historia. Convidando as pessoas a crer em Deus (€
nao s6 na “existéncia de Deus”) - na sua existéncia, no seu ser, nas
suas promessas sobre a solugao de Deus para a nossa culpa pelo peca-
do, através da obra consumada de Jesus Cristo - Paulo nos mostra Deus
como sendo aquele que € moralmente justo e aquele que pretende jus-
tificar a todos os que créem.1
INTRODUGAO E
OBJETO DE Estupo
(1.1-17)
#
livro de Romanos divide-se em duas partes distintas: os
capitulos 1 a 8 e os capitulos 9 a 16. Ao longo dos anos, tem
havido um crescente debate entre os cristéos a respeito da
existéncia de uma relagao entre estas duas partes. Pode-se até encon-
trar uma relagao, mas nao é isso 0 que importa. Ambas as partes va-
lem o estudo por si mesmas. Aqui, estaremos tratando somente da
primeira parte, os capitulos 1—8.
Em muitos livros da Biblia existe um ou varios versiculos que for-
mam verdadeiras declaragGes objetivas, e isto é nitidamente verdadei-
ro no caso de Romanos. A chave para compreender esta primeira parte
de Romanos pode ser encontrada em 1.16-17:
Pois ndo me envergonho do evangelho, porque 0 poder de Deus
para a salvacéio de todo aquele que cré, primeiro do judeu e
também do grego; visto que a justiga de Deus se revela no
evangelho, de fé em fé, como esta escrito: O justo vivera por fé.
Com esta declaragéo em mente, iniciaremos nosso estudo de Ro-
manos vendo as observag6es introdutorias de Paulo em 1.1-15.
Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apdstolo, separado
para o evangelho de Deus... (1.1)
Paulo apresenta-se como um servo, ou escravo, de Jesus Cristo. Ele
o declara de forma bastante especifica e com grande cuidado. Ele esta
escrevendo para a igreja de Roma, € Roma sabia muito sobre escravos.14 A Opra ConsUMADA DE CRISTO
A escravatura era permitida no Império Romano. O mundo entendia
© que significava ser um escravo, e Paulo comega declarando-se um
escravo de Cristo
Havia uma grande diferenga, no entanto, entre a escravidao prati-
cada no Império Romano € a escravidao de Paulo a Cristo. Os escravos
do Império Romano eram escravos nao porque eles desejavam ser,
mas porque foram obrigados a isso. Uma pesada argola de ferro era
soldada em volta do pescogo do escravo, algo que ele possivelmente
nao poderia remover por si mesmo. Isto © marcava como escravo en-
quanto ele permanecesse como escravo.
A relagao de escravidao entre Paulo e Cristo, contudo, era algo bem
diferente. Ele nao era escravo porque era obrigado a ser um escravo,
mas porque ele desejava sé-lo. Paulo tinha uma argola de ferro em
volta do seu pescogo nao porque ela tinha de estar ali, mas porque ele
a mantinha ali por vontade propria. Nos devemos assumir esta atitude
se quisermos dar frutos nas coisas que dizem respeito a Deus.
Assim como o escravo tem de “desejar” a vontade do seu mestre,
nossa utilidade para Jesus depende de até onde nds desejamos a von-
tade de Deus, N&o somos robs. Ao contrario, optamos, por amor, por
voltar a assumir uma condigao de dependéncia obediente a Deus, na
qual ele nos criou. Pode parecer uma idéia desagradavel para alguns;
acontece que, como criaturas de Deus, esta “escravatura” é © Unico
estado de alegria verdadeira, a unica maneira de nos tornarmos uteis.
Paulo era humano. Para ele, o fato de ter sido surrado e aprisionado
por causa da fé foi tao doloroso para ele quanto seria para nos. Ele
ficou tao machucado ao ser jogado as feras quanto nos teriamos fica-
do. O seu naufragio foi tao molhado, tao tempestuoso, tao
desconfortavel quanto teria sido para nés. Certamente nao foi nada
bom se imaginar sendo decapitado, E Paulo poderia ter escapado de
tudo isso, simplesmente renunciando a sua servidao. Assim, quando
Paulo se apresenta desta forma, nao € apenas uma express&o pia. Ao
invés disto, sugere o tema central de Romanos: depois de termos acei-
tado Jesus como Salvador, devemos viver para ele.
. separado para 0 evangelho de Deus... (1.1b)
Como servo de Cristo, Paulo encontra-se separado para o evange-
Tho. Separagdes envolvem sempre duas a¢Ges: separacdo de e separa-
Go para. A separagao de é algo facilmente entendido. Existem muitasObjeto de Estudo (11-17) 15
coisas que podem nos manter afastados de Deus ¢ nao é possivel
sermos separados para Deus, a nao ser que sejamos separados destas
coisas. Este 6 um meio para alcangarmos o sermos separados para
Deus, para pregar aos gentios. Paulo foi separado dos confortos nor-
mais da vida, tais como o casamento (1Co 7.8). Isso nao significa
que todo cristéo tenha sido chamado para abrir mao do casamento,
mas todo crist&o deveria estar disposto a fazé-lo. Nem todo cristao
tera de dar a vida por causa do evangelho, mas todo cristaéo deve
estar disposto a morrer. A disposigao é o x da questaéo
Paulo se autodenomina “servo de Jesus Cristo”, para logo em se-
guida falar do "evangelho de Deus”. O evangelho se refere as trés pes-
soas da Trindade. £ a boa nova da Trindade para um mundo perdido e
caido. Jesus é 0 Senhor da nossa redeng¢ao; entretanto, o evangelho
representa a boa nova de toda a Suprema Divindade, a Trindade
© qual foi por Deus outrora prometido por intermédio dos seus
profetas nas Sagradas Escrituras. (1.2)
Na vers&o King James da Biblia, assim como em algumas versdes
em portugués, a frase encontra-se entre parénteses, embora 0 pensa-
mento nao tenha interrupges nos trés primeiros versiculos € o versi-
culo 2 seja tao importante. Ele expressa a unidade entre o Antigo e 0
Novo Testamento, um tema constantemente enfatizado por toda a Bi-
blia. Paulo diz que Deus “outrora" prometeu o evangelho nas Sagradas
Escrituras. Quao “outrora” isso €? Romanos 16.20 nos da uma pista: "E
© Deus da paz em breve esmagara debaixo dos vossos pés a Satanas”
Certamente isso se refere a Génesis 3.15, que declara que o "descen-
dente” da mulher esmagard a cabega da serpente. Jesus Cristo € 0 des-
cendente da mulher (compare Génesis 3.15 com Génesis 22.18 e Gala-
tas 3.16). Foi ele quem esmagou a cabe¢a da serpente. Ainda assim,
pela identificagao que temos com Jesus, ficamos no aguardo da sua
Segunda Vinda, quando estaremos igualmente esmagando Satanas
debaixo de nossos pés. O evangelho remonta, literalmente, as origens
mais remotamente possiveis. Assim que a humanidade pecou no Jar-
dim do Eden, antes mesmo que se passassem vinte e quatro horas,
Deus prometeu enviar o Messias, E esta promessa nos remete a Se-
gunda Vinda, com base'na obra consumada de Cristo.
Frequentemente as pessoas tentam jogar o Antigo € o Novo Testa-
mento um contra 0 outro. Mas a €nfase por todo o Novo Testamento
encontra-se na unidade com o Antigo Testamento. Isso era verdade16 A Opra Consumana DE Cristo
tanto na pregagao de Cristo quanto no livro de Atos, nas epistolas de
Paulo, e em todas as outras epistolas. Nao existem duas mensa-
gens, mas uma sd. O povo de Deus do Antigo Testamento esperava
por um Messias, 0 qual foi totalmente revelado no Novo Testamento
Paulo sabia que a igreja de Roma incluia tanto judeus quanto gentios,
de modo que era importante lembra-los do fato de que existia uma
sé mensagem,
Com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da
descendéncia de Davi, e foi designado Filho de Deus com poder,
segundo 0 espitito de santidade, pela ressurreicdo dos mortos, a
saber, Jesus Cristo, nosso Senhor. (1.3-4)
Paulo mostra ambos 0s lados da encarnacao ~ 0 humano ¢ 0 divino.
Ele certamente acreditava na divindade de Cristo, mas o fato de ele ter
sido verdadeiramente divino nao modifica 0 fato de que Cristo também
foi um ser humano verdadeiro, que descendeu da linha genealégica
natural de Davi. Mais uma vez, é provavel que Paulo estivesse pen-
sando aqui em seus leitores judeus. E extremamente importante
lembra-los do fato de que Cristo é realmente o filho de Davi, porque o
Antigo Testamento profetizava especificamente que 0 Messias viria
através de Abrado e Davi.
.. Segundo a carne, veio da descendéncia de Davi... (1.3b)
E evidente que com “carne” Paulo esta se referindo ao elemento
“humano”. Ele nao esta se referindo a nenhuma conotacao pecami-
nosa da palavra, como fara mais adiante em 7.5.
Paulo nada diz sobre Cristo descender de Salomao, filho de Davi.
A promessa que Deus fez a Davi foi absolutamente incondicional: ele
seria ancestral do Messias (2Sm 7.16). Salomao também deseja ob-
ter uma promessa incondicional, mas a promessa de Deus a ele foi
condicional. Em esséncia, Deus disse 0 seguinte: “Se vocé fizer as-
sim e assim, endo vocé continuara na linhagem do Messias” (1Rs 9.4)
Salomao nado procedeu de acordo com isso, e nem seus descenden-
tes procederam assim, a ponto de Deus ter lhe negado 0 envolvimento
com o cumprimento completo da promessa. Se observarmos que a
genealogia em Mateus refere-se a José e a genealogia em Lucas é
referente a Maria, vamos descobrir que Jesus descendeu de Davi por
ambas as partes, materna e paterna. Da parte de José, sua proce-
déncia situa-se em Salomao, pelo que se estabelece uma continui-
dade legal com Davi. Mas, se levarmos em conta que a sua verdadei-Introdugio ¢ Objeto de Estudo (1.1
17
ra concep¢ao deu-se pelo Espirito Santo, através de Maria, ele proce-
deu de Nata, outro filho de Davi, e nao de Salomao. Tanto a promes-
sa incondicional feita a Davi quanto a promessa condicional, dada a
Salomdo, representaram, assim, 0 cumprimento de promessas, com
um magnifico detalhamento.
Por seu lado humano, entao, Cristo surgiu por meio de Davi. Mas
ha mais do que o lado humano. Ele também havia sido "designado
Filho de Deus com poder” (1.4a). “Designado” poderia ser mais bem
traduzido aqui por “determinado”. E determinado significa defini-
do, certo, Certamente Cristo também é 0 Filho de Deus, Por qué? Em
razio de um “poder” especial (1.4), Para que a divindade de Cristo
possa ser acreditada, é preciso que seja demonstravel. O que nos
demonstra definitivamente que Cristo € Deus € sua “ressurreigaéo
dos mortos” (1.4)
Antes de considerarmos a ressurreigéo em si, é preciso notar que
a ressurreig¢déo deu-se "segundo o espirito de santidade” (1.4). Eo
espirito de santidade pode ser visto aqui como a obra do Espirito
Santo ou como 0 Espirito Santo em pessoa. Por todo 0 Novo Testa-
mento ha muitas passagens que falam do relacionamento de Jesus
Cristo com a terceira pessoa da Trindade. Este relacionamento resul-
tou em santidade de vida da parte de Cristo. Paulo diz em outro lugar
que Cristo foi “justificado em Espirito” (1Tm 3.16). O autor de Hebreus
diz que Cristo “pelo Espirito eterno, a si mesmo se ofereceu sem
macula a Deus ..." (Hb 9.14) e falou de Cristo que “nos dias da sua
carne, tendo oferecido, com forte clamor e lagrimas, oragdes e supli-
cas a quem o podia livrar da morte, ... tendo sido ouvido por causa
da sua piedade” (Hb 5.7). Enquanto esteve na Terra, como um ho-
mem de verdade, Cristo operou por meio do seu compromisso com o
Espirito Santo. Por ter assim agido, Deus 0 ouviu
Jesus foi designado o Filho de Deus “pela ressurreicéo dos mortos”
(1.4), Esta expressdo pode ser traduzida tanto como “dos mortos”
quanto “da morte”. Qual é a diferenga? A "ressurreigaéo da morte”
parece referir-se somente a ressurreigao do proprio Cristo, enquanto
a ressurreigado “dos mortos” parece ter em vista, igualmente, a nossa
ressurrei¢do futura. De uma forma ou de outra, isto basta para pro-
var a divindade de Cristo - ele foi determinado, designado 0 Filho de
Deus, devido ao maravilhoso fato de ter ele sido ressuscitado fisica-
mente dos mortos e de que deverd ocorrer a ressurrei¢do futura dos
cristéos dentre os mortos.18
Por intermédio de quem viemos a receber graga e apostolado por
amor do seu nome, para a obediéncia por fé, entre todos os
gentios, de cujo mimero sois também vés, chamados para serdes
de Jesus Cristo, (1.5-6)
Paulo e seus colegas receberam a grac¢a € 0 apostolado por um
motivo definido; “para a obediéncia por fé, entre todos os gentios”, A
missao de Paulo nao se refere somente aos judeus, mas a “todos os
gentios”. Paulo esta nos levando a 1.7, onde ele declara estar escre-
vendo a Roma, a capital de seu tao conhecido mundo. Ele agora des-
via a ateng&o de si mesmo e do "nds" implicito em 1.5, voltando-se
aqueles para os quais esté escrevendo: “de cujo numero sois tam-
bém vos, chamados para serdes de Jesus Cristo’. Estes séo os cris-
taos, nao importa se judeus ou gentios, que compdem a igreja de
Roma. Todos eles tém um lugar “entre todos" os que Paulo foi cha-
mado para alcangar.
A todos os amados de Deus, que estais em Roma... (1.7a)
Agora somos levados a encarar a igreja de Roma, provavelmente
reunida em uma casa, uma igreja talvez fundada por leigos, ao invés
de um apéstolo. Paulo nao havia visitado Roma, e tampouco o tinha
feito Pedro, apesar da tradicional viséo catdlico-romana, Se Pedro
tivesse estado em Roma, seria absurdo imaginar Paulo nao o citan-
do nesta carta. Assim mesmo Ia estava a igreja, uma igreja unida,
composta de judeus e gentios, no meio da capital mundial que era
Roma. E isso nao deveria nos espantar, pois a igreja de Antioquia na
Siria, provavelmente a maior de todas as igrejas primitivas, a que
enviou os primeiros missionarios, foi igualmente fundada por pesso-
as leigas (At 11.19-20). E razoavel pensar que a mesma coisa possa
ter ocorrido em Roma. Se vocé for a Roma nos dias de hoje, pode
visitar um ponto turistico tradicional ~ 0 lar de Priscila e Aquila, onde
uma igreja se congregou. Para mim, isso € 0 ideal. E nestas condi-
g6es que a igreja teria continuado a funcionar se o Espirito Santo
tivesse tido espago para trabalhar ~ por onde quer que forem os cris-
laos, eles proclamam 0 evangelho e pequenas igrejas germinam.
A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados
santos (1.7a).
Note que eu deixei de fora as palavras “para serdes" na frase “chama-
dos para serdes santos". A verséo King James da Biblia acrescenta
estas palavras em italico, mas elas nao existem no grego; foram acres-Introdugao e Objeto de Estudo (1.1-17) 19
cidas pelos tradutores por uma questao de estilo e linguagem. Entre-
tanto, quando lemos “chamados santos”, somos defrontados com 0
fato de que, em Roma, a capital do mundo, ha pessoas que sao santas
diante dos olhos de Deus. Assim que aceitamos Cristo como nosso
Salvador, somos santos aos olhos de Deus. Isso se baseia antes de
tudo na obra passiva de Jesus, em sua obediéncia passiva em assumir
a punigao pelos nossos pecados. Mas também se baseia na sua obe-
diéncia ativa em guardar perfeitamente a sua lei por nés. A obra medi-
adora de Cristo por nés comegou com o seu batismo, o inicio do seu
ministério publico. Dal para frente, o que ele fez, ndo o fez apenas para
si mesmo, mas para nds. Quando nds 0 aceitamos como nosso Sal-
vador, a sua obediéncia ativa significa que fomos positivamente justi-
ficados diante de Deus. Estamos cobertos pela justiga de Jesus Cristo.
Nossa culpa desapareceu com base em sua obra consumada na cruz,
a sua obediéncia passiva, Mas nés também estamos cobertos por sua
perfeita justiga, com base em sua obediéncia ativa. Sendo assim, nés,
da mesma forma como os romanos, podemos ser chamados de san-
tos agora mesmo.
Paulo se dirige aos cristaos de Efeso e Filipo da mesma forma -
chamando-os de santos (Ef 5.3, Fp 1.1). A passagem de Efésios €
particularmente intrigante: "Mas a impudicicia e toda sorte de impu-
rezas, ou cobiga, nem sequer se nomeie entre vos, como convém a
santos”. O que se diz aqui é bastante diferente da tradicional visdo
cat6lico-romana, para a qual um santo € sempre alguém especial. O
Novo Testamento ensina que vocé passa a ser um santo assim que
aceita Cristo como seu Salvador. Cristo assumiu a sua culpa, e este
é 0 motivo pelo qual vocé esta coberto pela sua perfeigéo. Se uma
crianga veste o sobretudo do proprio pai, abotoando-o por cima da
sua cabega, vocé nao vé qualquer coisa além do sobretudo. Assim,
quando Deus olha para nds, ele nao vé qualquer coisa além da justi-
ga de Jesus Cristo, que nos cobre
Mas, ja que vocé é um santo, diz Paulo em Efésios, deve viver
como um santo. Semelhantemente, ele diz em outro lugar: "Se vive-
mos no Espirito, andemos também no Espirito” (G1 5.25). Seja como
vocé é aos olhos de Deus. Eis ai a antitese direta da salvagdo por
meio das obras. Tudo depende apenas da obra consumada de jesus
Cristo. NOs somos chamados para viver continuamente de acordo
com 0 que nés ja somos aos olhos de Deus - e de acordo com o que
seremos um dia na historia, na Segunda Vinda de Cristo. Esta é a20 A Opra ConsuMADA DE CRISTO
grande licdo do capitulo 6 de Romanos, onde Paulo explica 0 concei-
to de santificagao. Nesse capitulo, estudaremos esta grande verdade
mais a fundo,
graga a vOs Outros e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor
Jesus Cristo, Primeiramente dou gracas a meu Deus mediante
Jesus Cristo, no tocante a todos vés, porque em todo o mundo
é proclamada a vossa fé. (1.7b-8)
Noticias da pequena igreja de Roma e a sua reputacdo de sua fé
tornaram-se conhecidas por todo o mundo cristao. Isto deve ter
sido uma fonte de grande encorajamento, uma vez que se ouvia
dizer que havia em Roma, a capital do mundo, uma igreja fervorosa
de judeus e gentios.
Porque Deus, a quem sirvo em meu espirito, no evangelho de
seu Filho, é minha testernunha de como incessantemente fago
meng¢ao de vds, em todas as minhas oragdes, suplicando que
nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereca boa ocasido
de visitar-vos. (1.9-10)
Ha trés passos na oracgao de Paulo pelos cristaos romanos: pri-
meiro, ele agradece a Deus por eles (1.8), em seguida ora em seu
favor (1.9), e entao faz um pedido especifico quanto a eles: que tives-
se a oportunidade de vé-los em breve (1.10)
Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum
dom espiritual, para que sejais confirmados; isto é, para que,
em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos, por
intermédio da fé mittua, vossa e minha. (1.11-12)
Paulo nao se mostra distante ou indiferente as pessoas a quem
escreve. Pelo contrario, ele quer estar com eles. O seu desejo de que
cles sejam “confirmados” pode ser equiparado com o desejo de Lucas
de que 0 seu amigo Teéfilo tivesse a “plena certeza das verdades em
que foste instruido” (Lc 1.4). Paulo sabe que tal maturidade acabaria
favorecendo um doce e maravilhoso relacionamento entre ele e os
romanos. Ele espera ser por eles abengoado, da mesma forma em
que cle ¢ uma béngao para eles. Isso certamente € verdade entre os
cristéos. Quando os relacionamentos sd aquilo que devem ser, as
béngaos s&o sempre reciprocas.
Porque nao quero, irmaos, que ignoreis que muitas vezes me
propus ir ter convosco, {no que tenho sido até agora impe-
dido)... (1.13a)Introdugioe Objetode Estudo(11-17) 2
Nenhum leitor razoavel tera grandes dificuldades em entender a
versao Revista e Atualizada da Biblia, mas a palavra “impedir" apre-
senta uma dessas raras dificuldades. Aqui, ela significa “desautorizar".
Este sentido de “impedir" sobrevive ainda no futebol: quando 0 joga-
dor avanga além da linha imaginaria formada pela defesa, diz-se que
esta “impedido’, ou desautorizado, a fazer o gol. E nesse sentido que
Paulo estava impedido, ou desautorizado, de atender ao seu desejo de
visitar Roma
.. para conseguir igualmente entre vés algum fruto, como
também entre os outros gentios (1.13b),
Paulo manifestou um desejo expresso de partilhar certos dons es-
pirituais com os romanos (1.11); mas ele esperava deles uma colhei-
ta do fruto espiritual. Séo duas formas de dizer a mesma coisa: 0
dom € a causa, enquanto 0 fruto € 0 efeito.
Pois sou devedor tanto a gregos como a barbaros, tanto a sabios
como a ignorantes. (1.14)
Paulo considera a si mesmo um devedor, tanto para os de boa for-
macaéo quanto para os pouco preparados, para os sabios e para os
ignorantes. Este modo de pensar contrasta com a postura da grande
maioria dos cristéos, A maioria dos cristéos acha que esta fazendo
algo de especial quando fala do evangelho aos outros. Ja Paulo tinha
consciéncia de que este tipo de testemunho nao representa grande coi-
sa, pois ele é devedor (1.14) ou um “servo” (1.1) do evangelho. Nos,
como Paulo, também devemos nos sentir no dever de pregar o evange-
jho a cada um. E um dever do qual jamais poderemos nos esquivar.
Nao existe qualquer neutralidade ou conveniéncia nele, pois temos 0
dever de pregar o evangelho. No final desta sua apresentacao a Roma,
Paulo conclui:
Por isso, quanto est4é em mim, estou pronto a anunciar o
evangelho também a vés outros, em Roma. (1.15)
Ele esta pronto para pregar o evangelho, por onde quer que 0 Se-
nhor o conduza, apesar do custo. Nao ha divida de que Paulo aca-
bou sendo morto em Roma, de mado que o seu desejo de pregar o
evangelho ali, de fato, custou muito a ele, Entretanto, néo ha nenhu-
ma outra forma de pregar 0 evangelho a um mundo perdido, em fase
terminal. Quando vocé entrega a sua vida ao.Senhor, ha sempre um
custo. “Paulo, servo de Jesus Cristo...” (1.1). "Sou devedor.” (1.14)
“... quanto esta em mim...” (1.15). Nao estamos numa brincadeira24 A Opra CONSUMADA DE CRISTO
Pois néo me envergonho do evangelho, porque € 0 poder de Deus
para a salvagao de todo aquele que cré, primeiro do judeue também
do grego; visto que a justica de Deus se revela no evangelho, de fé
em fé, como esta escrito: O justo vivera por fé. (1.16-17)
Com estes versos comegamos a primeira parte central de Roma-
nos 1—8. Estes capitulos representam, na realidade, uma exegese de
1.16-17. Vocé nunca vai além do contetido desses dois versiculos. Os
versiculos 1.1-15 sao a introdugao; 1.16-17, 0 tema; é, finalmente, em
1.18—8.39 temos a exegese deste tema.
Paulo no se envergonha do evangelho. Mais adiante, ele estara
afirmando que “a esperanga nao confunde” (5.5). Ele usa basicamente
a mesma palavra grega em ambos os lugares, ainda que com énfases
diferentes. Depois de aceitar Cristo como nosso Salvador (no capitulo
5) experimentamos uma esperanga que jamais nos desaponta, nem
nos envergonha. Porém, mesmo no inicio, ja ndo havia motivo algum
para estarmos com vergonha intelectual ou desapontados com 0 evan-
gelho como sistema. Paulo nao esta falando a pessoas retrogradas ou
primitivas. Ele esta bem no meio do mundo grego-romano, com toda a
sua forma intelectualizada de pensar, e ainda assim nao tinha vergo-
nha das coisas sobre as quais cle estava se preparando para falar.
Jesus nos advertiu para que nao ficdssemos envergonhados do
contetido intelectual de seus ensinamentos (Lc 9.26). Como que res-
pondendo a Jesus, Paulo afirma: “nado me envergonho do evangelho”.
Paulo nao se sentiu intimidado quando discursou no Areépago
(At 17). Ele nao sentiu vergonha de pregar quando esteve aprisiona-
do em Roma. Da mesma forma, nds, cercados por nosso mundo in-
telectual, nado devemos e nao precisamos nos envergonhar.
Envergonhar-se de Jesus ¢ dos seus ensinamentos (Lc 9.26) € algo
muito sério, Em sua ultima carta a Timdteo, Paulo nos lembra de
que isto inclui nao ficar envergonhados daqueles que verdadeiramente
decidem ficar do lado de Jesus e da sua Palavra: "Nao te envergo-
nhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encar-
cerado, que sou eu” (2Tm 1.8a). Nés deviamos orgulhosamente nos
identificar com todos aqueles que se identificam com Cristo, Paulo
cita o exemplo de Onesfforo, que “muitas vezes me deu animo e nun-
ca se envergonhou das minhas algemas” (2Tm 1.16)
Paulo, contando a Timéteo o seu prdprio sofrimento por causa do
evangelho, conclui que esta "sofrendo estas coisas, todavia nado meerrr SS—S
envergonho; porque sei em quem tenho crido, € estou certo de que ele
é poderoso para guardar o meu deposito até aquele dia” (2Tm 1.12)
“Aquele dia" nada mais é do que a Segunda Vinda de Jesus Cristo. Nao
devemos ter vergonha de Cristo enquanto estivermos vivos (2Tm 4.1)
ou até que ele volte; e ndo apenas enquanto as coisas vao bem, mas
mesmo quando o evangelho nao gozar de boa reputagao. E nao de-
vemos nos envergonhar tampouco da nossa experiéncia. Este certa-
mente foi o caso de Paulo quando escreveu para Timéteo da priséo
Portanto, nao devemos nos envergonhar da pratica do Cristianis-
mo, do mesmo jeito que néo devemos nos envergonhar do seu ensino
por meio dos seus conceitos inteleciuais. Ha um imperativo aqui, enao
apenas um pensamento trivial. O ndo se envergonhar é uma experién~
cia que dura toda uma vida.
0 evangelho... € 0 poder de Deus para a salvacao. (1.16)
Muitas vezes a palavra salva¢do é usada como sé fosse alguma coi-
sa semelhante a justificagdo. Talvez estejamos perguntando "vocé é
salvo?”, quando, na verdade, a pergunta certa seria "vocé ja foi justi-
ficado? A sua culpa ja foi apagada?” ‘Ha razGes biblicas para o uso
da palavra “salvo”, neste sentido, mas, quando Paulo quer ser expli-
cito, ele usa justificagdo para se referir a este conceito. Quando aceita-
mos Cristo como nosso Salvador, somos justificados. Justificagdo diz
respeito a um problema legal. Significa que Deus deciara que a nossa
culpa foi apagada, com base na obra consumada de Jesus Cristo. Mas
nossa salvagaéo € muito mais abrangente do que a justificagao.
A salvacao engloba trés tempos: passado, presente e futuro, Roma-
nos 1—8 cobre todos os trés tempos da salvacao. Os capitulos | a 4 lidam
com a perspectiva passada da salvagao para o cristo, que é a justifica-
Go. Romanos 5.1—8.17 trata do aspecto presente da salvagao, que é a
santificagao. Em seguida, de forma breve mas bastante contundente, 0
capitulo 8.18-39 fala do aspecto futuro da salvacao: a glorificagao.
A salvacao inclui tudo isto com base na obra consumada de Cristo.
porque é o poder de Deus para a salvacao... (1.16b)
Se considerarmos © sentido literal do grego, o evangelho sera
visto como o dynamis de Deus, sua dinamite, pela qual ele nos traz
a salvagao completa, ou seja: justificagdo para remocao da culpa,
santificagaéo na vida presente ¢ glorificagao por ocasiaéo da Segun-
da Vinda24 A Ora CONSUMADA DE CRISTO
..o poder de Deus para a salvagao de todo aquele que cré,
primeiro do judeu € também do grego. (1.16b)
Essas palavras complementares de Paulo ampliam bastante este
conceito de salvagaéo e, ao mesmo tempo, o restringem. A extensao
de: "... de todo aquele... primeiro para o judeu e também para o gre-
go” € enorme. Os judeus pensavam que a salvagao fosse algo que se
aplicasse exclusivamente aos préprios judeus. Paulo deixa claro que
nao é assim. A salvagao, diz ele, aplica-se da mesma forma a genti-
os e a judeus. Mas seria igualmente correto se nds preferissemos
dizer que a salvacao se aplica da mesma forma a judeus e a gentios.
E um limite completamente aberto. Todo o mundo, todas as pessoas
de todas as cores, ragas e nacionalidades, todos tém diante de si
uma porta aberta para a salvag&o. O limite da salvagao vai até onde
quer que vocé esteja. Fle inclui toda a populagdo que ja viveu e viverd
no mundo em todos os tempos. Ele € totalmente universal. Ele € 0
poder de Deus para a salvag&o de todos. Paulo falou anteriormente
dos gregos e dos barbaros (1.14), referindo-se as pessoas com ou
sem educagao formal. O campo da salvagao era tao vasto para ele
quanto € para nds. & 0 mundo todo. Os que tiveram educagao formal,
Os que nao tiveram, os judeus, os gentios; onde quer que vocé encon-
tre uma pessoa perdida, o circulo da salvacao abrange este lugar
Paulo diz que o evangelho vale “primeiro para os judeus” e é claro
que a sua pratica, como vimos por todo o livro de Atos, era de pregar
primeiro nas sinagogas para, depois de por elas ser rejeitado, voltar-
se aos gentios. Hoje, infelizmente, nds, cristdéos, muitas vezes deixa-
mos os judeus abandonados em suas comunidades. Mesmo se naa
seguirmos a pratica de Paulo, de abordar primeiro os judeus, certa-
mente nao devemos deixa-los para o final, nem ignora-!os a todos.
O circulo da salvagao é amplo, mas ao mesmo tempo também €
muito pequeno. Existe um limite bem definido em "... todos aqueles
que créem”. Este limite é do tamanho do mundo todo, mas nele sao
incluidos somente os que créem. Cada individuo tem a possibilidade
de optar pelo evangelho — ou de rejeita-lo
O evangelho € © poder de Deus para a salvacao total de todos
aqueles que acreditam que a sua obediéncia ativa participa da obe-
diéncia passiva de Cristo, Mas é limitada aqueles que créem.___Introdugiioe Objetode Estudo (11-17) 25
Visto que a justica de Deus se revela no evangelho, de fé em fé,
como estd escrito: O justo viverd por fé. (1.17)
Isto nos leva a concluir que a salvacdo envolve mais do que justi-
ficagéo. Somos justificados pela fé, mas também devemos viver de
acordo com a mesma {€é no presente — nao somente no que diz res-
peito a finangas, mas em todas as areas da vida. Lutero defendia a
justificagao exclusivamente pela fé, e é claro que isso € ensinado por
toda a Biblia e se encontra naquilo que Paulo diz aqui. Mas ele vai
mais adiante: depois de termos sido justificados pela fé, devemos
viver pela fé. Este € 0 segundo aspecto da salvacéo, a nossa
santificagaéo, que Paulo explicara em 5.1—8.17.
"O justo vivera por fé" nada mais é do que uma citacao do Antigo
Testamento de Habacuque 2.4 , a qual aparece em dois outros mo-
mentos no Novo Testamento (Gl 3.11; Hb 10.38), Como observamos
em 1.2, ha uma profunda unidade entre as mensagens do Antigo e
do Novo Testamento, Nao ha duas religides na Biblia, nado existem
duas formas de salvagéo, somente uma. Habacuque diz "Eis 0 so-
berbo! Sua alma nao é reta nele; mas o justo vivera pela sua fé" (Hc
2.4). Ele esta confrontando a pessoa, cuja alma “se exalta” com base
nas suas boas agGes, com a pessoa que vive “pela fé”. Paulo esta
apontando para o mesmo contraste. Nao é somente o contraste en-
tre tornar-se um cristao pela fé ou por meio de obras morais ou reli-
giosas; este contraste também se aplica ao aspecto presente da sal-
va¢ao. A pessoa que espera ser salva com base na sua propria retidao
ficaré eternamente a ver navios. Semelhantemente, se esperamos
crescer espiritualmente com base nos nossos proprios esforgos chei-
os de orgulho, nao havera crescimento espiritual algum.
“OQ justo viverd por fé". Comegando em 4.17 e principalmente do
capitulo § em diante, as palavras vida e morte se tornaraéo palavras-
chave. Paulo estara constantemente confrontando 0 estar morto com
o estar vivo, E, embora ele nao tenha entrado neste debate até entao,
é ai que se acha o verdadeiro cerne do que ele esta ensinando nestes
versos introdutérios. Nos ja analisamos a expressao “ressurreigao
dos mortos” anteriormente (1.4), Se, como sugerimos, isto for tradu-
zido como “a ressurreig&éo dentre os mortos", ent&o Paulo ja estaria
falando em termos da nossa salvagdo completa - a vida total que €
nossa em Jesus Cristo. O que se espera de nés é que vivamos “pela26 A Ora Consumana DE Cristo
fé” agora. Nos capitulos 5 e 6, Paulo estara desenvolvendo melhor
este ponto em seu apelo para a plenitude de vida, com base no san-
gue de Cristo, a partir deste exato momento, pela fé. Nao é apenas
ser justificado: é muito mais do que istoPARTE UM
JUSTIFICACAO
(1.18—4.25)
#2
A Pessoa SEM A
Bipiia: CULPADA
(1.18—2.16)
se
4
ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e
An dos homens que detém a verdade pela injusti¢a.
(1.18) :
Quando Paulo diz que 0 evangelho € 0 "poder de Deus para a
salvacao” (1.16), isso poderia muito bem fazer uma pessoa néo salva
perguntar: "Mas por que eu preciso de salvagao?” Lutero destacava que
o evangelho realmente inclui tanto a boa nova quanto a lei: nao adianta
dizer aos homens que eles precisam ser salvos (que € a mensagem da
boa nova) até que sintam a necessidade de ser salvos (uma necessida-
de que a /ei revela). O Cristianismo no ensino do Antigo e do Novo
Testamento é 0 mesmo em sua énfase na salvagao. Outras religides
destacam que é necessario que vocé tenha um guia ou qualquer outro
tipo de auxiliar para ‘ensinar-Ihe a como viver e morrer. Contudo, ne-
nhuma destas outras religides enfatiza a necessidade de salvagdo ou
da remiss&o de culpa. O nosso problema nao é metafisico, mas moral.
Em 1.18 Paulo comega a.explicar por que as pessoas necessitam
um Salvador, Em primeiro lugar, ele explica como a necessidade da
salvagao se aplica aos gentios (1.18—2.16), depois, como ela se aplica
aos judeus (2.17—3.8), para, finalmente, explicar como se ela aplica
a toda a humanidade, tanto a judeus quanto a gentios (3.9-20). Gos-
to de descrevé-lo da seguinte forma: Paulo fala primeiro para as que
nao tém a Biblia, depois para as pessoas que tém a Biblia. Afinal de
contas, nao era precisamente essa a grande diferenca entre judeus €oF A Opra Consumapa pi Cristo
gentios nos dias de Paulo? E essas duas condigGes irao certamente
nos ajudar a aplicar melhor os ensinamentos de Paulo ao nosso mundo
de hoje. Mas por que todo mundo necessita de um Salvador?
O gentio (a pessoa sem a Biblia) pergunta “por que eu preciso de
salvacao?” Paulo responde com determinagao (versiculo 18) que “a ira
de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversao dos ho-
mens que detém a verdade pela injustiga”. Vocé esta sob a ira de Deus
~ eis por que precisa de salvacao. Existe ai uma hecessidade real de
salvagdo para a humanidade. Nao precisamos de nenhum guia espiri-
tual ou do exemplo inspirador de algum martir. Precisamos de um Sal-
vador real, porque estamos sob a ira real de Deus. Ao mencionar a ira
de Deus, Paulo introduz a primeira palavra-chave do vocabulario cris-
tao: culpa. Ele discute esse conceito de culpa em !.18—3.20, Em segui-
da, em 3.21—4.25, ele discutira a segunda palavra-chave do Cristianis-
mo: substituicdo, isto €, a morte substitutiva de Cristo pelos nossos
pecados. As pessoas de outras religides nao tém nenhum conceito equi-
valente ao dos cristaos para estas duas palavras.
Precisamos de salvagdo porque estamos sob a ira de Deus. Precisa-
mos de uma salvagao real porque somos culpados. Esta ira de Deus
vira 4 tona no dia do julgamento, por ocasiao da Segunda Vinda de
Jesus (2.5). Essa segunda vinda no futuro deve ser o centro de nossas
atengdes, da mesma forma como é 0 dia da morte de Jesus no passado.
£ semelhante a ceia do Senhor, com sua énfase na morte de Cristo no
passado, e, ao mesmo tempo, na perspectiva futura, com vistas ao dia
da sua volta.
Ha ainda outra questao que a pessoa nao salva sem a Biblia costu-
ma fazer. Todas as gerag6es a fizeram, mas talvez nunca a tivessem
expressado de forma to explicita quanto hoje: se Deus me fez do jeito
que sou, como ele pode considerar-me culpado? Ele nao é injusto ao
fazer isto? De onde vem 0 mal? Deus € injusto, se ele nos fez deste
jeito para depois nos considerar culpados. Isso nos remete mais uma
vez ao ensinamento biblico que fala da Queda historica. Quando vocé
despreza o relato historico da Queda em Génesis, vocé perde todo o
contato com a mensagem crista. Sem esta resposta para a origem do
mal, 0 livro de Romanos perderia todo o sentido, Por que Deus deveria
manter-nos sob a sua ira, se ele mesmo nos criou do jeito que somos?
Se ele tivesse criado todos nés com um metro e vinte de altura, sera
gue ele nos julgaria por naéo termos um metro e oitenta?A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 — 2.16) 31
Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre
eles [os sem a Biblia], porque Deus lhes manifestou. (1.19)
O que de Deus se pode conhecer é dbvio, mesmo para as pessoas
sem a Biblia - porque Deus 0 manifestou a elas. Ele o manifestou, em
primeiro lugar, através de suas consciéncias, como Paulo explica mais
tarde: “Estes mostram a norma da lei gravada nos seus coragées, tes-
temunhando-lhes também a consciéncia, e os seus pensamentos mu-
tuamente acusando-se ou defendendo-se" (2.15), Cada um tem uma
consciéncia. Paulo falara mais tarde a respeito da Queda de Ado e
Eva, mas ele comega tratando do leitor nao-cristéo e naéo-judeu
individualmente, do homem e da mulher perdidos, Ele esta lidando
com o homem individual como alguém significativo. Ele esta lidan-
do com 0 homem ou mulher que est&o diante dele no mundo roma-
no, ou com o homem ou mulher individuais que estao lendo as suas
palavras no século 20. E ele diz a essa pessoa “vocé pergunta 0
porqué de estar sob a ira de Deus, mas olhe bem para vocé! Sera
que nao tem consciéncia? Sera que vocé nao sabe muito bem que
vocé nao é aquela pessoa que devia ser?” Paulo nao permite qual-
quer atencgdo a argumentos sem fim. Ele sempre mantém tudo no
nivel do homem individual e significativo
Ele diz ao gentio incrédulo: “Mesmo se vocé nunca tenha visto
uma Biblia, tem certamente uma consciéncia e sabe que a, violou
Vocé nfo pode usar a psicologia animal como desculpa. Sabe que
tem consciéncia e sabe quando a viola”.
Porque os atributos invisiveis de Deus, assim o seu eterno poder
como também a sua propria divindade, claramentese reconhecem,
desde o principio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas
que foram criadas. Tais homens sao por isso indesculpaveis. (1.20)
O incrédulo nao sé tem uma consciéncia, como também deve
saber que existe um Deus, simplesmente por observar a maravilho-
sa Criacado ao redor dele. Ele ndo vive numa caverna escura. Ele esta
em condigGes de observar a criagdo em todo seu redor e certamente
sentira a necessidade de se perguntar de onde foi que tudo isso
veio. Ainda assim a humanidade preferiu acreditar na enorme men-
tira de que ela nao é nada a crer na realidade de que existe um
Deus. A Biblia destaca por diversas vezes que a criagao é testemu-
nha de Deus. Mesmo os que nao tém a Biblia estao em condicdes
de concluir, a partir da criagéo, que existe um Deus. Como diz 032,
salmista: "Os céus proclamam a gloria de Deus e€ o firmamento
anuncia as obras das suas maos. Um dia discursa a outro dia, €
uma noite revela conhecimento a outra noite” (SI 19.1-2). Note que
a natureza revela conhecimento, Como nos mostra Paulo, a criagao
revela este conhecimento a qualquer pessoa dotada de razAo - que
ndo pode escapar desta racionalidade, por mais rebelde que seja.
“Nao ha linguagem, nem ha palavras, e deles nao se ouve nenhum
som” (S] 19.3). Ha uma voz que é ouvida onde quer que os seres
humanos vivam, estejam eles com ou sem a Biblia. E a voz da cri-
acao. E a cria¢do nao esta falando com os paus ¢ as pedras, ela nao
esta falando com os animais, nao esta falando com as maquinas; a
criagao esta falando com a criatura racional que € rebelde contra 0
Criador, mesmo porque esta criatura ainda é uma criatura racional
Em sua lingua original, o salmo 19.3 diz que “ndo ha discurso nem
linguagem sem que suas vozes sejam ouvidas”. Esta pode n&o ser uma
formulagao muito boa, mas a idéia aqui € que "vocé pode sentir isso”. E
vocé acabara se conscientizando, com um frio na espinha: "nao ha dis-
curso nem linguagem sem que suas vozes sejam ouvidas”.
Paulo cita este salmo em Romanos 10.18 € expressa pensamen-
tos semelhantes sobre o testemunho da existéncia de Deus contida
na criagdo, quando fala em Listra: "contudo, nao se deixou ficar sem
testemunho de si mesmo, fazendo 0 bem, dando-vos do céu chuvas
estagées frutiferas, enchendo os vossos coragées de fartura e de ale-
gria” (14.17). Aqui Paulo esta focando n@o tanto a criagéo como um
acontecimento passado, mas a criagao como a boa providéncia atual
de Deus. Jesus, semelhantemente, falava da chuva que cai sobre jus-
tos e injustos (Mt 5.45). Paulo esta desafiando os incrédulos, nao
apenas com 0 testemunho da criagéo enquanto fato passado, mas
também com o testemunho da criagéo que os banhava com o sol €
que banhava seus campos com a chuva e 0 orvalho. & muito comum
crist4os argumentarem intelectualmente a existéncia de Deus, usan-
do argumentos como a necessidade de uma causa primaria - o que é
extremamente valido; entretanto, a verdade é muito mais profunda
do que isso. Nao é apenas 0 fato de que 0 nosso mundo tenha neces-
sariamente uma causa primaria, mas de que estamos cercados de
coisas boas provenientes de Deus. Ele preenche cada uma das nos-
sas necessidades humanas, e este deveria ser um testemunho bas-
tante abrangente da sua existéncia.A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18-2.16) 33
Paulo, com todas as letras, declara que, apesar de a humanidade
ter caido, o homem continua sendo um ser moral e racional. Ele nao
foi desumanizado. Ele continua dotado de consciéncia (1.19), e con-
tinua em condi¢ées de apreciar as maravilhas da criagéo a sua volta
(1.20). Ele nao se transformou em alguma maquina, por mais que
ele possa optar por assim imaginar-se, ao invés de reconhecer 0 Cri-
ador. Um livro sobre o pintor holandés van Gogh destaca que, desde
a época da sua chegada a Paris até o dia do seu suicidio, seus retra-
tos foram ficando cada vez menos humanos. Mas a Queda nao im-
pediu Van Gogh, nem qualquer outro, de ser humano
Cada ser humano permanece portador da imagem de Deus, e nés
temos como falar com ele ou ela sobre o evangelho. Ele continua sen-
do uma pessoa, por mais que tenha se desumanizado a si mesmo. Se a
Queda da humanidade tivesse transformado os homens e mulheres
em nada além de maquinas, eles nao seriam culpaveis diante de Deus
Ao contrario, temos de continuar considerando 0 homem um ser raci-
onal, moral, por toda esta vida ou mesmo no inferno. Ele nunca se
transformara em uma maquina.
£ admiravel quantas coisas maravilhosas os seres humanos cai-
dos sao capazes de fazer ~ por meio das artes, da criatividade, da
tecnologia - mesmo tendo se rebelado contra Deus. E, ainda assim,
porque continuam sendo seres humanos e continuam sendo racio-
nais, eles sao condenaveis e estao sob a ira de Deus. Eles poderiam
tirar uma conclusdo do mundo a seu redor, mas nao 0 fazem. Esta é
sua condenagao. Eles nao estao simplesmente sob o desagrado de Deus.
No é apenas um mero nevoeiro separando-os de Deus. Ao contrario,
eles est&o sujeitos a ira de Deus porque sao culpados. O conceito que
nds alimentamos no século 20 é.que as pessoas sao estranhas a Deus...
se € que existe um Deus. Mas 0 ponto de vista de Paulo é bem diferen-
te: por serem culpadas, Deus mantém as pessoas debaixo da sua ira.
Portanto, 0 que os homens precisam é de um Salvador.
Paulo passaré um bom trecho - 1,18—3.20 - explicando ampla e
extensivamente aos gregos € romanos, e em seguida aos judeus ¢ a
toda a humanidade em geral, que eles est&o sob a ira de Deus ¢
precisam ser salvos, para entéo usar alguns poucos versiculos para
lhes dizer como eles podem ser salvos (3.21-30), Depois que uma
pessoa descobre que precisa de um Salvador, nao ha necessidade de
muitas palavras para Ihe dizer que existe um Salvador. A maior difi-34 A Osra ConsumaDA De Cristo.
culdade das pessoas caidas, individualmente fechadas no seu pré-
prio universo, € reconhecer que precisam de um Salvador. Elas reco-
nhecerao imediatamente que necessitam de um guru, que necessi-
tam de ajuda, que necessitam de especializagao técnica. Mas Paulo
quer que elas mesmas reconhegam que necessitam de um Salvador.
Porquanto, tendo conhecimento de Deus nao o glorificaram
como Deus, nem Ihe deram gragas, antes se tornaram nulos
em seus préprios raciocinios, obscurecendo-se-Ihes 0 coragao
insensato, (1.21)
A pessoa sem a Biblia poderia entao perguntar: “Se tudo isso €
verdade, porque entao estamos no caos em que estamos? O que acon-
teceu?” De 1.21 até 1.31, Paulo responde a esta pergunta. Mais tarde
ele falara explicitamente a respeito da Queda histérica de Adao e Eva
(5.12-21), mas em todo este trecho ele tem em vista aquela primeira
Queda, bem como:as muitas "quedas” que se repetem constantemen-
te na historia, na vida dos homens e mulheres individualmente e por
todas as eras.
Na verdade, podemos conceber a Queda de trés formas diferentes
Primeiro, houve a Queda original da humanidade, a qual explica, em
ultima inst&ncia, porque tantas pessoas daqui, bem como de outros
lugares, néo conhecem o verdadeiro Deus. Vocé também podera pen-
sar na Queda em termos de nagGes inteiras através da historia que
ficaram sabendo da verdade, mas depois se desviaram dela. Se ha
sessenta anos vocé estivesse parado no Trafalgar Square ou no
Columbus Circle, na Inglaterra, e indagasse a milhares de pessoas 0
que é 0 evangelho, a maioria estaria em condigdes de Ihe dizer. Talvez
nao 0 tivessem aceitado, mas poderiam dizer o que era. Entretanto,
se hoje vocé ficasse parado no Trafalgar Square, no Columbus Circle,
ou entre os ledes que se encontram em frente ao Art Institute em
Chicago, e perguntasse a mil pessoas 0 que é 0 evangelho, encontra-
ria muito poucos capazes de responder. Havia um conhecimento maior
do Cristianismo nas geragdes passadas, Estamos vivendo hoje em
um mundo pés-cristao.
Em terceiro lugar, € possive] até que alguém passe individualmente
por este ciclo -- conhecer a verdade e depois deliberadamente dar as cos-
tas a ela. Eu sempre fico espantado com a quantidade de pessoas famo-
sas que vém de lares missionarios e pastorais, conhecendo o evangelho,
© nao obstante acabam um dia desviando-se deliberadamente dele.A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 ~ 2.16) _ 35
Logo, o individuo pode se desviar da verdade. Por tras disso ve-
mos culturas inteiras se desviando. No princfpio esta a Queda origi-
nal. Paulo esta considerando todos os trés planos.
Entéo, por que estamos neste caos? O que aconteceu? Paulo co-
mega a sua resposta falando sobre os tempos em que a humanidade
“conhecia a Deus”. Isto, é claro, era absolutamente verdadeiro no
Jardim do Eden. Addo e Eva conheciam a Deus e mantinham certo
nivel de comunica¢ao com ele. Similarmente, j4 houve um tempo em
que se podia dizer que as culluras européia e americana conheciam
a Deus. Se aplicarmos isto ao individuo, ha muitos incrédulos que
foram instruidos a respeito de Deus quando criangas. Entéo, quando
a pessoa sem a Biblia pergunta: “Por que estou sob a ira de Deus?
Como isto aconteceu?” Paulo comega destacando que eles mesmos
ou alguém do passado certamente ja conhecia a Deus. Incrédulos
certamente nao séo um amontoado de pedras espalhadas por todo o
mundo. Todos vieram de alguém que conhecia a Deus e depois
deliberadamente desviou-se - nem que no caso este alguém tenha
sido Adao. Vocé nao comega pela ignorancia. Vocé pode encontrar
ignorancia ao final, mas jamais comecaré com ela. Vocé comega
com homens e mulheres que conheceram a Deus.
Porquanto, tendo conhecimento de Deus nao o glorificaram
como Deus, nem lhe deram gragas... (1.21a)
Todavia, estes conhecedores de Deus - Adao e Eva, ou nossa as-
cendéncia mais préxima, ou até nds mesmos - preferiram nao
glorificd-lo como Deus € nao lhe dar gracas, As filosofias nao-cristas
nao se tornam tao populares por causa de algum tipo de apelo inte-
lectual, mas porque as pessoas escolheram ser rebeldes contra Deus
Elas se rebelam e se recusam a glorificar e dar gracgas a Deus por ser
0 seu Criador. S6 ai buscam, no emaranhado de mistérios e promes-
sas de outras religi6es, uma razdo conveniente para sua rebeliao.
«. antes se tornaram nulos em seus prdprios raciocinios,
obscurecendo-se-Ihes 0 coracdo insensato. (1.21b)
Quando as pessoas se recusam a dar gragas a Deus e a cle dar
gloria, seus coragdes e suas imaginagdes tornam-se escuros e vai-
dosos. Nao é a vaidade de uma garota passando duas horas diante
do espelho penteando o cabelo. f a vaidade da criatura que se recusa
a ser criatura, mas querendo ao invés disso ser o criador, bem no36 A Opra Consumana DE Cristo
centro do universo. Esta vaidade leva os homens a se tornar “loucos”
(1.22). Eles se tornam totalmente loucos, néo compreendendo a si
mesmos ou mesmo 0 universo em que vivem. Esta € a razao por que
vemos tantas pessoas no século 20 que nao parecem diferenciar-se
a si mesmas das maquinas. Elas se consideram sabias (1.22), uma
vez que se colocaram a si mesmas no centro. Nao é a verdadeira
sabedoria do cientista, a habilidade do artista, mas sim aquela vai-
dade do louco que nao sabe se colocar no seu devido lugar,
Segundo as palavras do salmista, "diz o insensato no seu cora
cao: Nao ha Deus” (S1 14.1). Isto € verdade em dois sentidos: Vocé
seria um tolo se dissesse que néo ha Deus; mas uma vez que vocé
tenha dito tal coisa, vocé se torna um louco. A Queda da humanida-
de nao foi como um escorregao na calgada ou qualquer coisa assim.
Os seres humanos est&o no caos em que estdo porque preferiram
rebelar-se contra Deus e, conseqiientemente, tornaram-se inteira-
mente insensatos.
Pelo lado positivo, podemos ler igualmente nos Salmos a respeito
do que acontece quando as pessoas optam por voltar para Deus: “Lem-
brar-se-4o do Senhor ¢ a ele se converterao os confins da terra; peran-
te ele se prostraréo todas as familias das nagées... A posteridade o
servira; falar-se-4 do Senhor a geragao vindoura. Hao de vir anunciar a
justiga dele; ao povo que ha de nascer..." (SI 22.27, 30-31). Aqueles
que retornam para Deus tornam-se aqueles que no sao loucos. Eles
se tormam homens e mulheres de Deus. Eles voltam a colocar-se no
lugar em que a humanidade foi criada para ocupar nas suas origens.
Paulo trata deste mesmo assunto em Efésios 4.17-18: “Isto, por-
tanto, digo, e no Senhor testifico, que néo mais andeis como tam-
bém andam os gentios, na vaidade dos seus proprios pensamentos,
obscurecidos de entendimento, alheios a vida de Deus por causa da
ignorancia em que vivem, pela dureza dos seus coragées”. Quando
aceitamos Cristo como nosso Salvador, nés voltamos a ser a des-
cendéncia de Deus. F aqui Paulo dirige-se novamente aos cristdos e
diz “olhem, vocés estavam nesta vaidade", (esse mesmo termo é
usado em Romanos) “mas agora vocés se tornaram a porgao redimida
da humanidade, a humanidade que esta retomando o verdadeiro pro-
posito da criagao. Por isso, nado caminhem em meio a vaidade - nao
caiam mais naquela forma deste mundo de encarar as coisas. Vocés
nao devem nunca mais se colocar no centro do universo. Antes, mante-A Pessoa Sem a Biblia. Culpada (1.18 ~ 2.16) _ _37
nham Deus no centro do seu universo, tanto na forma de pensar quan-
to no modo de vida, e encontrarao o sentido da vida, estabelecendo a
Deus como referéncia.” Vocé é "“descendente” de Deus no mundo, com
base na obra consumada de Cristo e nao mais “louco” em relagado a
Deus, ao préprio universo e ao sentido da sua propria vida.
Na condigao de pessoas salvas da vaidade desta rebeliao contra Deus,
nds temos uma mensagem para todos aqueles que se mantém rebel-
des: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo nao 0 conheceu por
sua propria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que créem, pela loucu-
ra da pregac&o. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos
buscam sabedoria; mas nés pregamos a Cristo crucificado, escandalo
para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chama-
dos, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e
sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sabia do que os
homens; € a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”
(1Co 1.21-25). Ao tomar conhecimento do Deus verdadeiro e vivo, o
mundo deu as costas de forma deliberada, tornando-se totalmente vao
~ ele assumiu a absoluta vaidade de estar disposto a considerar a si
mesmo semelhante ao animal, & maquina, a um zero a esquerda, ao
invés de reconhecer o Criador, ser-lhe grato e dar-lhe a gloria.
Como alcangaremos este mundo perdido? Paulo nos avisa que, de-
vido a toda sua vaidade, este mundo considera a nossa mensagem
loucura. Ainda assim , ele nos convoca a propagar esta “loucura” no
meio deste mundo. Devemos nos colocar no mundo do século 20, com
toda a sua pressdo, com todo o peso da sua oposigao contra a fé
crista, e proclamar o evangelho. Existe verdade para o universo. O
homem desviou-se dela deliberadamente. Ele ainda € racional, moral
€ tem uma consciéncia. O que precisamos fazer € dar-Ihe a mesma
mensagem que Paulo esta dando nos primeiros oito capitulos de Ro-
manos. E, por mais que nossa mensagem possa parecer loucura para
este mundo que acredita que nao’ ha sentido na vida, nem por isso
Deus deixara de aproveitar a oportunidade para falar a alguns deles. E
esta a mensagem do evangelhe que precisa ser transmitida.
Proclamar este evangelho a humanidade rebelde algumas vezes
pode, é claro, parecer loucura. Podemos até ser derrotados diante da
dificuldade e imensidao desta tarefa, Ainda assim, gragas a Deus,
ele encarregou-nos de apenas trés tarefas, e com isso cumprimos a
nossa responsabilidade. A primeira é pregar o evangelho da forma38 _A.Onra Consumapa De CRISTO _
mais clara possivel, respondendo a todas as quest6es da maneira
mais clara que pudermos, apresentando a verdade sobre © universo,
o homem e o nosso dilema. A segunda é orar por cada individuo que
vier a nos ouvir. E a terceira é, pela graga de Deus, pela fé na obra
consumada de Cristo, viver uma vida que, de alguma forma modes-
ta, represente a melhor referéncia possivel do evangelho que estamos
pregando. Quando tivermos cumprido estas trés coisas com paixdo,
em meio a este mundo que se afastou de Deus e vive na escuridao e
vaidade total, alguns deles responderao.
Inculcando-se por sabios, tornaram-se loucos. (1.22)
Desviando-se deliberadamente de Deus €, por isso, nao tendo como
entender nem a si mesmos nem ao universo, homens e mulheres tor-
naram-se absolutamente loucos. Eles estao tentando viver em um uni-
verso que nao é do jeito que o enxergam - desprovido de Deus, despro-
vido de seres humanos. Isso é total loucura. A Biblia esta retratando a
escuridaéo de um mundo o qual a humanidade caida, em sua rebeliao,
tem escolhido deliberadamente. Isto € 0 que Adao fez originalmente
Ele se afastou da vida e escolheu a morte. Este 6 0 mundo que os
nossos antepassados das ultimas geragdes da cultura norte-européia
e norte-americana escolheram. Esta tragica escolha lalvez seja mais
nitida nos Estados Unidos, pois ocorreu ali mais recentemente, por
volta de 1890. Pode haver até hoje sobreviventes daquela geragéo que
testemunharam todo este processo. E a escuridéo de um mundo o
qual 0 homem nao compreende.
Em Deuteronémio, Moisés fala de como 0 povo de Deus pode manter
viva uma sabedoria divina em um mundo que rejeitou a Deus e, por isso,
tornou-se louco, Quando fala da lei de Deus, Moisés encarrega Israel de
certa responsabilidade: “Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto sera
a vossa sabedoria e 0 vosso entendimento perante os olhos dos povos”
(Dt 4.6). Varios séculos mais tarde, Jeremias ira falar para uma Israel
que desprezou a lei de Deus, com resultados desastrosos: "Os sdbios
serao envergonhados, aterrorizados e presos; eis que rejeitaram a pala-
vra do Senhor; que sabedoria é essa que eles tém?" (ir 8.9).
Quando rejeilamos a revelagdo de Deus, “que sabedoria é essa
(que temos)"? O que nds sabemos? Com base em que poderiamos
ter qualquer conhecimento? O curioso € que esta questao de como
chegamos ao conhecimento tem um papel central na filosofia mo-A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 ~ 2.16) 39
derna. Tendo descartado a revelagdo divina, os filésofos modernos
estdo preocupados agora com o estudo da epistemologia, o estudo
de como conhecemos as coisas que conhecemos. E aqui na Biblia
Deus esta perguntando “que fundamento epistemoldgico lhe resta,
depois de ter rejeitado a minha Palavra?”
E mudaram a gloria do Deus incorruptivel em semelhanca da
imagem de homem corruptivel, bem como de aves, quadrupedes
€ répteis, (1.23)
Uma énfase profunda encontra-se na palavra “imagem. Depois de
terem sido feitos a imagem de Deus (Gn 1.26), homem e mulher rebe-
laram-se €, por quererem ser 0 centro do seu universo, deliberadamente
inverteram o processo e criaram Deus a sua propria imagem! Eles
foram feitos 4 imagem de Deus - racionais, morais e com significado.
Mas, porque se recusaram a perceber-se a si mesmos como criaturas,
consideraram necessario fazer Deus a sua propria imagem.
Os intelectuais de hoje falaréo de pessoas que fizeram Deus a sua
propria imagem, considerando-se a si mesmos muito inteligentes por
terem feito esta observa¢ao. Acontece que Paulo ja havia feito esta ob-
servac¢ao no século 1°. Nao ha nada de novo nisto! Trata-se basicamente
do mesmo problema fundamental, Ou Deus existe e fez 0 homem a sua
imagem e semelhanga, ou o homem saiu do nevoeiro, e fez para si mes-
mo um deus a sua propria imagem. A Biblia diz que Deus estava la. O
Deus infinito e pessoal estava 14, com todos os seus maravilhosos atri-
butos, e 0 homem deliberadamente inverteu tudo isto, tornando Deus
uma imagem corruptivel da humanidade ou das aves ou dos animais
selvagens. Ele trocou 0 infinito pelo finito, Ele trocou a grandiosa prospe-
ridade e a verdade pela pobreza, pelo sofrimento e pela ignorancia.
Lembre-se de que Paulo esta respondendo a pessoa que pergunta
“como nos metemos neste caos?” Paulo diz que a razdo é esta: a
humanidade conhecia a verdade, mas deliberadamente a desprezou
Os seres humanos preferiram manter-se na ignorancia e estar no
centro do universo a ter a resposta € reconhecer a Deus como Criador
e a si mesmo como criatura.
Paulo, vivendo no século 1°, tinha a mesma resposta que devernos
dar hoje. As questdes e as respostas basicas permanecem inalteraveis.
Por isso Deus entregou tais homens a imundicia, pelas
concupiscéncias de seus proprios coragdes, para desonrarem 0
seu corpo entre si. (1.24)A Ona Cons
Observe bem a seqliéncia lgica: a humanidade precisa de sal-
vagdo porque esta sob a ira de Deus (1.18). Ela esta sob a ira de
Deus porque, apesar de sua consciéncia e de estar rodeada pela
criagéo maravilhosa de Deus, ela deliberadamente peca e se afasta
de Deus (1.19-23)
Nossa situag&o, portanto, ndo é o resultado de algum equivoco,
mas de uma genuina rebeliao. As conseqtiéncias sao tristeza, depres-
sao, homens que vivem lutando contra os seus parceiros humanos, O
homem nao necessita so de uma mudanga de direcao - ele é culpado.
Esta compreensao encontra-se na base de toda e qualquer visao dife-
renciada de sociologia, de psicologia e de educac¢ao para cristéos.
E vemos agora a resposta que Deus da a rebeliao dos homens
(1.24). Ele os “entrega” 4 sua propria sorte, Podemos imaginar a hu-
manidade como um animal doméstico indisciplinado. Ele se rebela e
determina o seu proprio caminho, O homem pretende fugir de Deus,
o seu dono. Por isto, Deus simplesmente tira a coleira. Lembro-me
de ver cachorros suigos, treinados para a patrulha de fronteira nas
montanhas. Estes cées eram treinados para desenvolver um carater
terrivel, maldoso, e quando estavam sem coleiras este mesmo cara-
ter determinava seu caminho, e isto é uma coisa horrivel de se ver.
Este € 0 retrato que Paulo pinta da humanidade. Foi isso que aconte-
ceu com 0 nosso pais. As pessoas escolheram abrir mao da verdade,
e Deus abre mao delas.
Paulo reafirma esta terrivel verdade em 1.28: "E, por haverem des-
prezado o conhecimento de Deus, o proprio Deus os entregou a uma
disposigao mental reprovavel, para praticarem coisas inconvenientes”,
A humanidade optou pelo seu caminho, deixando de reconhecer a Deus.
Por isso Deus “os entregou" — ele retirou a coleira - e permitiu que
eles andassem pelos seus proprios caminhos rebeldes ¢ imorais. Isso
nao € apenas dialética, mas uma’ rebelido deliberada.
Deus abriu mao da humanidade, e ela seguiu os seus desejos em
todo tipo de comportamento imoral. Todos os pecados e todos os
problemas humanos procedem da nossa op¢éo de nao colocar Deus
no centro do universo que ele proprio criou. Enquanto crist&os, ja-
mais deverfamos fazer pouco caso dos esforgos dos socidlogos ou
dos criminalistas em denunciar as doengas sociais. Por outro lado, €
preciso entender também que a maioria destes esforcos trata so-
mente dos sintomas, e nado da doenga. Nos dias de hoje, ha muitasA Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1,18 — 2.16) Al
preocupagoes legitimas quanto a crise moral e cultural, e estamos co-
letando todo o tipo de supostas curas. Estas coisas podem ajudar, mas
nao espere que elas curem, Sao como talcos, pomadas, balsamos. Se
uma moga tem uma espinha no rosto, por ter exagerado nos doces, ela
pode até disfarga-la com pé-de-arroz ou passar alguma pomada que
lhe dé um aspecto um pouco melhor, mas a cura sé vird se abrir mao
dos doces. Se a raiz do dilema humano esta na sua rebelido contra
Deus, entao nao ha tratamento de sintomas capaz de trazer a verdadei-
ra cura, E preciso tratar o mal, que é a rebeliao contra Deus, diretamen-
te. Nao ha cosmético capaz de trazer a cura necessaria.
Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando €
servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito
eternamente. Amém! (1,25)
Tendo discutido o motivo da rebeliao da humanidade (1.19-23) e bre-
vemente considerado as suas conseqiiéncias (1,24), Paulo nos lembra
agora da articulacao existente entre a causa (1.25) € seus resultados 16-
gicos (1.26-31). O ser humano “mudou a verdade de Deus em mentira”.
Fazendo assim, ele nao pés a perder somente a verdade sobre a existén-
cia de Deus, mas também a verdade sobre 0 universo e sobre si mesmo.
Quando o homem se rebela e se afasta da sua refer€ncia primeira em
Deus, do relacionamento apropriado com Deus, tudo se torna mentira. O
ser humano néo sabe quem ele é, Toda verdade é negada, Ele passa a
questionar n&o apenas a existéncia de Deus. Ele questiona igualmente a
sua propria existéncia e tudo 0 que provém da existéncia de Deus.
Se o rebelde contra Deus fosse totalmente ldgico, teria de negar
todas as suas aspiragSes humanas - sua pretensdo de encontrar a
verdade e, da mesma forma, todas as suas demais aspira¢Ges.
Jeremias 10.10 diz no hebraico original “O Senior € o Deus da verda-
de”, A humanidade "mudou a verdade de Deus em mentira’, mas “o
Sentior € o Deus da verdade". Nao ha qualquer outra verdade ou for-
ma de compreender o universo, Quando as pessoas jogam fora o
Deus da verdade, a verdade desaparece como um todo. E tudo o que
resta séo conjuntos de opinides, deuses € prazeres pessoais.
e servindo a criatura, em lugar do Criador.., (1.25b)
Na verdade, a vers&o grega diz que eles passaram a adorar a cri-
atura “ao invés" do Criador - nao apenas em lugar de, mas ao invés
de. Eles inverteram tudo. Talvez isso tenha sido mais facil de se ob-42. A Opra CoNSUMADA DE CRISTO
servar nos dias de Paulo, porque eles serviam a idolos de verdade,
fazendo Vénus como se fosse uma mulher e Hércules como se fosse
um homem forte. Mas nada mudou realmente; este tipo de culto a
criatura sO é mais sutil nos nossos dias. A humanidade colocou-se a
si mesma no centro do universo.
Quando incrédulos usam a palavra Deus hoje, normalmente estao
criando o seu proprio deus a imagem do homem, de uma forma tao
radical quanto faziam os gregos. Ha duas formas de fazer um deus &
imagem do homem: uma € esculpindo alguma coisa de pedra ou cri-
ando alguma coisa por meio da pintura. Outra é sentar confortavel-
mente no seu sofa e simplesmente projetar-se a si mesmo, uma sim-
ples criatura, um pouco além do que é, dizendo “£ assim que Deus é!”
N&o € necessério dispor de pedra ou tinta para fazer um deus.
O fato é que muitos de nés adoramos aquela criatura que melhor
conhecemos ~ nds mesmos! Em Isaias lemos sobre as consequéncias
tragicas da idolatria, incluindo o culto a si mesmo. Do idélatra, diz Isaias,
que “tal homem se apascenta de cinza; 0 seu coracdo enganado o ilu-
diu; de maneira que nao pode livrar a sua alma, nem dizer: Nao é
mentira aquilo em que confio?” (Is 44.20) Os povos que nao conse-
guiam reconhecer a mentira nos dias de Isaias eram iguais aqueles
dos tempos de Paulo, que tornavam a verdade de Deus em mentira. E
qual a conseqiiéncia? Eles passaram a se "apascentar de cinza”. Hoje,
semelhantemente, quando nds adoramos e idolatramos a nés mes:
mos, passamos a nos alimentar de cinzas. O ser humano diz “vou
me colocar no centro do universo”, mas acaba se alimentando de
cinzas, pois tudo o que lhe restara serdo cinzas no campo da
moralidade, cinzas de tudo 0 que diz respeito a beleza, cinzas no
ambito do amor, cinzas de tudo 0 que: diz respeito ao sentido.
Qual é a solugao? E esta que Isaias nos fornece: “Lembrai-vos
disto, e tende animo; tomai-o a sério, 6 prevaricadores" (Is 46.8). Em
outras palavras, “Sejam razoaveis!” E se forem razoaveis de verdade,
tero que voltar para Deus, Deus criou seres racionais e morais. Se
vocé seguir a racionalidade verdadeira e a moralidade verdadeira, de
modo a se tornar verdadeiramente humano, voltara para Deus. A
recomendagao de Isaias € precisamente o inverso do que as pessoas
nos dizem no século 20. Elas dizem que ter fé significa dar um salto
no escuro. Mas Isaias e Paulo afirmam que uma busca racional da
verdade nos levara a Deus. Seria uma conversaéo de um ser humanoA Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 — 2.16) 43
descobrindo a verdade acerca do universo para um conhecedor de
Deus. A verdadeira racionalidade acentua o fato de que nem o ho-
mem nem Deus estao mortos!
Jeremias prevé o dia em que muitos incrédulos acabarao, na reali-
dade, por abandonar as mentiras da idolatria e fazer uma opgao raci-
onal por Deus: “O Senuor, forca minha e fortaleza minha, ¢ refiigio meu
no dia da angustia, a ti virao as nagdes desde os fins da terra, e dirao:
Nossos pais herdaram s6 mentiras e coisas vas, em que nao ha pro-
veito. Acaso fara o homem para si deuses que de fato nado sao deuses?
Portanto, eis que lhes farei conhecer, desta vez lhes farei conhecer a
minha forca € o meu poder; e saberao que 0 meu nome € 0 SeNnnor”
Ur 16.19-21). Jeremias, da mesma forma que Paulo, fala das "menti-
ras" da idolatria. Tanto Jeremias quanto Paulo enfatizam que estas
mentiras sao “herdadas" de uma geracao para a geracao seguinte.
Todos os homens e mulheres caidos rejeitam a verdade, mas continu-
am sendo seres humanos com significado e acabam influenciando
todos aqueles que os seguem. E, ainda assim , diz Jeremias, Deus esta
sempre chamando as pessoas de volta para si.
O que tem nossa prépria geragéo herdado dos nossos antepassa-
dos? Ela tem herdado mentiras. Um jovem que estava em minha
aula disse certo dia: "Bem, todos hoje pensam que Deus no existe”,
Ele disse isso naturalmente. Ele nado havia pensado sobre isto. Ele
simplesmente repetiu a mentira que havia herdado, Este mesmo ta-
paz ficou bastante espantado quando eu sugeri que a sua declaragao
era, na verdade, algo que ele havia assumido como verdade, e que
ele precisava examinar. Oséias acrescenta: “Agora pecam mais €
mais, € da sua prata fazem imagens de fundigao, idolos segundo o
seu conceito" (Os 13.2), Nds os fazemos em nossa maneira de ex-
pressar verbalmente como Deus é ou no é. Nao é uma variedade de
sentimento religioso, mas um verdadeiro ato de rebeliao.
Por causa disso os entregou Deus a paixGes infames; porque
até as suas mulheres mudaram o modo natural de suas relagdes
intimas, por outro contrario a natureza. (1.26)
Neste trecho, j4 podemos considerar os resultados da rebeliao da hu-
manidade contra Deus. Paulo falaré do homossexualismo em 1.27, e pode
ser o sentido de 1.26 também, mas eu penso que ele pode estar falando de
algo a mais aqui. Isafas fala das mulheres que "... sdo altivas as filhas
de Sido, e andam de pescocgo emproado, de olhares impudentes, an-44 A Osra ConsuMADA DE CRISTO
dam a passos curtos, fazendo tinir os ornamentos de seus pés”
(Is 3.16), No hebraico, “olhares impudentes” significa na verdade “en-
ganando com os seus olhos", Isaias parece estar descrevendo aquele
tipo de mulher que usa a feminilidade para enganar. E penso que é
isso mesmo que Paulo também esta dizendo. A mulher que se apro-
veita do que ela é enquanto mulher, nao como Deus pretendia, mas
para enganar. Eis ai a mentira em que toda a humanidade acreditou
(1.25). £ uma mentira tao completa que tudo na vida, as coisas mais
belas da vida, acabaram sendo distorcidas por ela. Todas as coisas
na vida que deveriam favorecer uma maior intimidade entre uma per-
sonalidade e outra personalidade no nivel humano foram destrufdas.
Perdemos 0 contato com o ponto de referéncia primario, um Deus
pessoal, Quando fazemos isso, 0 préximo nivel de contato, 0 da per-
sonalidade humana, que deveria ser tao bonito e tao maravilhoso,
acaba se tornando algo igualmente insalubre, Homem e mulher, pos-
tos na presenga de Deus, deveriam ser capazes de relacionar-se, de
personalidade para personalidade, da forma mais profunda possivel
Mas, devido a rebeliaéo da humanidade, aquele relacionamento pas-
sou a ser tratado como uma forma adicional de um bem negociavel.
Semelhantemente, os homens também, deixando o contacto
natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua
sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e
recebendo em si mesmos a merecida punigao do seu erro. (1.27)
Paulo trata da questéo do homossexualismo masculino com 0 mes-
mo realismo que podemos observar por toda a Biblia. Pessoas consi-
deradas religiosas nem sempre gostam de lidar com a realidade dessas
coisas, mas a Biblia jamais encobre qualquer aspecto da realidade.
Ela trata a humanidade como ela é. Paulo fala da "recompensa”, o
resultado automatico, de uma forma de vida como esta. Se vocé for
trabalhar com pessoas assim, quer sejam homossexuais quer sejam
mulheres que usam a sua feminilidade como mercadoria - vera ca-
sos de pessoas que se tornaram absolutamente miserdveis, depois
de uma atragdo inicialmente enganadora. Ainda que possa oferecer
certa satisfagdo em determinado nivel de relacionamento, o
homossexualismo € uma negagao total do mundo real. Ele nega qual-
quer possibilidade de continuidade e ameaga a identidade da pessoa
como fruto do relacionamento de um pai e uma mae. Vidas tristes
terminam com uma mao cheia de cinza espalhada ao vento. £ claro,A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 ~ 2.16) 45
o pecado traz miséria em todos os niveis, mas Paulo destaca aqui as
lamentaveis conseqiiéncias nestas areas em particular.
E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, 0 proprio
Deus os entregou a uma disposigdo mental reprovavel... (1.28)
Possivelmente 0 trecho “por haverem desprezado o conhecimento
de Deus" possa ser mais bem traduzido por “nao consideraram conhe-
cer a Deus como algo digno de aprovagéo". Aqui Paulo enfatiza mais
uma vez a importancia do contetido intelectual das coisas em que acre-
ditamos. Porque preferiram nao reconhecer Deus no campo do co-
nhecimento, Deus os entregou a uma condi¢ao mental “reprovavel” -
uma mente destituida de critérios - em todas as areas da vida. Assim
que vacé se afasta do Deus vivo e coloca outra coisa no centro do
universo, estara abrindo uma enorme porta para uma mente destitui-
da de critérios em todas as areas da vida. O homem do século 20 ja
passou por isso. Por causa disto, ele encara as coisas de forma inteira-
mente diferente. Isso muda toda a forma de ver a moralidade. O casa-
mento passa a ser encarado de outra forma, O relacionamento entre
pais e filhos muda. Nenhuma area da vida esta protegida desta ausén-
cia de critérios.
Deus 0s entregou a uma disposicao mental reprovavel, para
praticarem coisas inconvenientes. (1.28b)
Em uma linguagem mais atual, “para fazer o que nao convém”. Es-
tes rebeldes nao consideram o conhecer Deus como algo digno de apro-
vag&o. Por isso, Deus os entregou a um estado mental completamente
vazio de sentido. E, em decorréncia disso, a sua conduta passa a ser
impropria. Paulo especifica algumas destas condutas improprias:
Cheios de toda injustiga, malicia, avareza e maldade; possuidos de
inveja, homicidio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores,
caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presungosos,
inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos,
sem afeic&o natural e sem misericordia. (1.29-31)
Tendo colocado a si mesmo no lugar de Deus no centro do universo,
esta é a situaco para a qual caminha o homem do século 20 e nao sabe
a causa. A América diz: “O que esta acontecendo com nossos jovens?
Demos tudo a eles ~ € olhe para eles!" O crime esta se alastrando por
toda a sociedade, nao apenas em situagdes em que poderlames explica-
lo com base nas condicSes sociais, mas também entre cidadaos préspe-46 A. Obra Consumapa Dg Cristo
Tos e educados. Pessoas cada vez mais jovens estao optando por este
tipo de vida, e seus pais se limitam a dizer: "O que esta errado? O que
podemos fazer?’ E nao conseguem achar a cura - cura que Paulo ja
havia prescrito em 1.16 — porque desconhecem a natureza da doenga.
Ora, conhecendo eles a sentenga de Deus, de que so passiveis
de morte os que tais coisas praticam, nao somente as fazem,
mas também aprovam os que assim procedem. Portanto és
indesculpavel quando julgas, 6 homem, quem quer que sejas;
porque no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois
praticas as proprias coisas que condenas, (1.32—2.1)
Embora esta passagem inclua uma mudanca de capitulo, ela re-
almente inicia uma nova parte. Paulo agora se dirige diretamente
ao leitor. E possivel ler 1.18-31 com uma mente académica, sem
ser pessoalmente afetado pelas palavras de Paulo. Mas Deus nunca
permite que verdades doutrinais permanegam como meras abstra-
Ges. Elas séo sempre concretizadas, ¢ trazidas para o plano indivi-
dual. A verdade sempre acaba sendo dirigida de volta a pessoa como
individuo. A pessoa sem a Biblia que pergunta: “Como Deus pode
me culpar pelo caos em que 0 mundo esta?” ou “Por que eu preciso
de salvagao?” Paulo diz: "vocés sabem que estas coisas sdo erradas
e ainda assim consentem com todos aqueles que as praticam... €
até as praticam vocés mesmos!”
Deus esta sendo justo quando julga as pessoas sem a Biblia por-
que elas, tendo uma consciéncia (1.19) e estando rodeadas pelas
maravilhas da criagéo que claramente revelam Deus (1.20), rejeita-
ram Deus e sua lei moral. E, além disto, estas pessoas julgam to-
dos aqueles que transgridem a lei de Deus, por mais que estives-
sem praticando as mesmas coisas eles mesmos (1.32—2.1)
Poderiamos até nos perguntar por que Deus haveria de julgar aque-
les que nao aceitaram Cristo, se eles nunca ouviram falar dele, pois
uma condenacao como esta seria injusta. Mas deixar de aceitar Je-
sus nao é a base pela qual tais pessoas serao julgadas. Elas rejeita-
ram Deus ¢€ a Biblia muito antes disso ¢ herdaram todo um legado
de mentiras. Por isso elas serdo julgadas com base no fato de te-
rem violado a sua propria consciéncia.
Quando aqueles sem a Biblia comparecerem diante de Deus, ele
Thes perguntaré uma so coisa: “Vocés foram capazes de seguir os
padrdes morais que vocés usaram para julgar os outros?” Seria como
se cada um de nés nascesse com um pequeno gravador preso aoA Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 — 2.16) : 47
pescogo, e este gravador registrasse todos os nossos juizos morais
contra os outros: "ele esta errado.,, ela esta errada... ele esta erra-
do..." - por toda a nossa vida. Ent&o, no juizo final, Deus simples-
mente voltaria a fita ¢ nds ouvirlamos a nossa propria voz, emitindo
os juizos morais que fizemos e Deus nos perguntaria: "E vocé seguiu
todos estes mesmos padrées morais a risca?" Obviamente, todos nés
teriamos de admitir que nado, Cada um de nds teve muitas ocasides
nas quais deliberadamente optamos por fazer algo que sabiamos mui-
to bem estar errado. Mesmo se Deus apagasse da fita todas aquelas
situagdes em que teriamos alguma desculpa légica para as nossas
ages, ele continuaria tendo toda razao para nos condenar por todas
aquelas vezes em que agimos erroneamente, de forma deliberada.
Portanto és indesculpavel, quando julgas, 6 homem, quem quer
que sejas; porque no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas;
pois praticas as proprias coisas que condenas. Bem sabemos
que o juizo de Deus é segundo a verdade, contra os que praticam
tais coisas. Tu, 6 homem, que condenas aos que praticam tais
coisas € fazes as mesmas, pensas que te livraras do juizo de
Deus? (2.1-3)
Quando Deus diz “Vocé é indesculpavel”, muitas pessoas vao colo-
car uma destas duas objegées. Elas podem dizer "eu posso ser um
pecador, mas ao menos eu sou melhor que a maioria das outras pes-
soas”. Ou elas podem dizer "Posso ser um pecador, mas sou bom o
bastante para me livrar, Certamente Deus néo me condenaria’.
Uma vez, quando estava hospedado em um hotel na Riviera Itali-
ana, eu tive muitas conversas a respeito do Senhor com dois execu-
tivos ingleses, e os dois eram ateus. O primeiro insistia que 0 segun-
do havia sido desonesto em seus negocios. Uma tarde ele disse "bem,
se existe um Deus, ele tem de me aceitar, pois cu sou melhor do que
os outros”, Eu respondi “o que vocé quer dizer com isto?", ¢ ele repli-
cou "bem, olhe para aquele homem ali. Ele € um executivo sujo €
nojento. Eu sou melhor do que ele”.
Cerca de cinco minutos depois, aconteceu de eu estar conversando
com 0 outro executivo, € ele dizia "se existe um Deus, eu vou estar bem"
Eu perguntei por qué, e ele disse "bem, eu sou melhor que os outros. Eu
tenho duas irmas doentes e tenho dado minha vida para cuidar delas’
Quando vocé conversa com descrentes sobre coisas espirituais,
eles freqiientemente vao dizer exatamente isso: “sou melhor que ou-
tras pessoas, cu vou me livrar".48 __AOpra Consumapa pe Cristo
Paulo refuta essas duas objegdes em 2.1-6. Deus diz “vocé ndo vai
se livrar"; vocé nao se livraré “do juizo de Deus” (2.3). Vocé nao vai
se livrar porque Deus julga com base em um padrao de perfeigao.
Nao poderiamos nos livrar mesmo com base em nossos imperfeitos
padrdes humanos, porque quando julgamos a outros nés condena-
mos a nos proprios, tendo feito nds mesmos “as mesmas coisas”. O
executivo que acusou o outro executivo de desonestidade certamente
fez alguns negécios sombrios ele mesmo.
Cada ser humano tem um imperativo moral dentro de si. Cada
ser humano conhece “a sentenga de Deus" (!.32), Assim que uma
crianga sente o peso de sua consciéncia, luta contra ela, e peca,
ela esta concordando que ha uma lei moral significativa no Uni-
verso. Assim que ela diz "eu tenho que fazer isso” mas entao faz
© oposto, ela concorda com a lei moral. Varios pensadores mo-
dernos - psicdlogos, antropdlogos, socidlogos — tém tentado ex-
plicar este imperativo moral. E ainda assim todos eles tém senti-
do o peso de suas préprias consciéncias. Assim como um nervo
inflamado, suas consciéncias os tém avisado para que nao fa-
cam muitas das coisas que tém feito
Baseados neste senso inato de certo e errado, as pessoas sem a
Biblia julgam as outras (2.1) e, neste processo, julgam-se da mesma
forma a si mesmas, porque elas “praticam as mesmas coisas" (2.1).
O julgamento de Deus contra elas é totalmente justo, pois néo se
fundamenta em coisas que eles desconhecem, mas nos padrées de
certo e errado que eles conhecem muito bem e que usam para julgar
os outros. Paralelamente a isto, em Mateus 12.20 somos igualmente
condenados pelas palavras que falamos. Apocalipse 20.12 fala do
julgamento dos incrédulos. Eles seréo julgados de acordo com suas
obras. O julgamento de Deus é um julgamento de acordo com os
padrdes que foram expressos em palavras. Por isso, trata-se de um
julgamento baseado naquilo que a pessoa sabe, nao naquilo que ela
nao sabe. Nao ha nada de arbitrario nisso.
Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerancia, e
longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz
ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e coragao
impenitente acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da
revelacao do justo juizo de Deus, que retribuira a cada um segundo
© seu procedimento. (2.4-6)A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (118-216) 49
O incrédulo, que chegasse a se dar conta do pecado, poderia dizer
“Acabarei me livrando desta. Eu vou conseguir. Afinal, eu fiz tudo
certo até agora”, Mas o Senhor, com toda a sua bondade, replica: “E
somente pela minha bondade que vocé chegou tao longe. E, apesar
disso, vocé dispensou até mesmo esta bondade". Por ocasiao de uma
visita que eu fazia a um lar de criangas deficientes, fiquei olhando para
os seus pobres corpos mal tratados e pensei: "isto é a raga humana”. E
uma viséo muilo mais realista da raga humana do que a bela mulher
indo para a Opera ou 0 atieta no estadio olimpico. Mas a humanidade
ignorou todos esses avisos e preferiu dizer "vou me livrar".
E da natureza humana negar a certeza de que o juizo se aproxima,
como Pedro nos mostra na sua segunda carta (2Pe 3.3-4): "Tendo em
conta, antes de tudo, que, nos ultimos dias, virao escarnecedores com
os seus escarnios, andando segundo as proprias paixGes, e dizendo: Onde
esta a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram, to-
das as coisas permanecem como desde o principio da criagao". Da mes-
ma forma como estes escarnecedores dos ultimos dias, as pessoas olham
a previsibilidade da natureza e se recusam a acreditar que Deus descon-
certaria a uniformidade das causas naturais e traria juizo, Paulo fala so-
bre o ver-se a bondade de Deus por todos os lados, e, baseando-se nisto,
supor que jamais vira 0 dia do julgamento. A bondade de Deus pretende
levar pessoas como estas ao arrependimento, mas por causa da recusa
delas em responder, essa mesma bondade surtira efeito contrario.
Mas, segundo a tua dureza e coragdo impenitente acumulas
contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelacdo do justo
juizo de Deus... (2.5)
O que Deus planejou para bem do homern - coisas como 0 teste-
munho da criagao e o testemunho da consciéncia - sé serve para
afundar mais esses rebeldes em sua rebeliao
Isso nos remete novamente a 1.16-18. O evangelho é “o poder de
Deus para a salvacao” (1.16). Por que precisamos de salvagao? Por-
que estamos sob a “ira de Deus" (1.18), € os que desprezam ou se
aproveitam da paciéncia de Deus nao estado fazendo mais do que
“acumular” mais de sua ira (2.5). Cristo fala de "acumular tesouros
nos céus” (Mt 6.19-20). Quem despreza a paciéncia de Deus tam-
bém esta acumulando algo para si — nao riquezas, mas a ira de Deus.
Tanto 0 que cré quanto o incrédulo precisam dar-se conta de que
tudo 0 que fazem tem conseqiiéncias eternas. Nossas vidas nao se50 A Opra ConsumaDA DE Cristo
limitam ao periodo entre o nascimento fisico e a morte fisica, Tudo
0 que dizemos ou fazemos representa um investimento - para o
bem ou para a perdigao ~ no banco da eternidade. Uma jovem pode
até imaginar todo o seu futuro limitado ao dia do seu casamento,
sem que seja capaz de enxergar nada além deste grande evento.
Mas, se ela se conscientizar do quanto o seu carater afetara o seu
casamento, entéo isso mudara totalmente o modo como vivera sua
adolescéncia. Tanto crentes quanto descrentes precisam conscienti-
zar-se mais das conseqiiéncias sobrenaturais e eternas das suas
acdes. A vida nao se encerra com a morte. Ou estamos “acumulan-
do” bons tesouros no céu, ou estamos “acumulando” o terrivel te-
souro da ira de Deus.
que retribuiré a cada um segundo o seu procedimento. (2.6)
Ninguém esta falando aqui de alguma salvacao por obras. O que
Paulo esta dizendo é que seremos julgados, néo com base no que nés
dizemos que acreditamos, mas a partir de nossas agdes humanas.
Estamos lidando com um Deus que esta ai de fato. Nenhuma
profissaozinha de fé, por mais bela que seja, contara diante dele, O que
importa € 0 que realmente queremos dizer c que atitude de fato toma-
mos. Estamos lidando com o Deus que realmente esta af e que respon-
de aquilo em que acreditamos verdadeiramente.
Dara a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem,
procuram gloria, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignagaéo
aos facciosos que desobedecem a verdade, c obedecem a
injustiga... (2.7-8)
Eis ai a palavra “ira” outra vez. E a ira de Deus contra pessoas que
invariavelmente tém uma consciéncia, que véem a criagéo, que sao
seres racionais, que compreendem os principios morais, ¢ que, ainda
assim, continuam incrédulas e desobedientes a verdade. Como cris-
tdos, devemos estar profundamente preocupados com o fato de o
mundo perdido estar sob a ira do Deus sagrado, Nao devemos ser
capazes de pensar sobre isto sem ter algum tipo de rea¢ga&o emocio-
nal. Precisamos sempre manter algo em mente: as pessoas estado
perdidas. Quando encaramos 0 fato de que o mundo perdido esta
sob a ira de Deus como um conceito meramente intelectual, man-
tendo-nos emocionalmente distantes, j4 estaremos a meio caminho
de uma ortodoxia morta. Estas pessoas sao meus companheiros de
humanidade, e elas est&o sob a ira de Deus.A Pessoa Sem a Biblia; Culpada (118-216) SL
Tente por um s6 momento imaginar-se no lugar de um incrédulo,
ouvindo falar de tudo isto pela primeira vez. Imagine que o Espirito
Santo 0 estivesse tocando profundamente e, de repente, vocé se desse
conta de que esta sob a ira de Deus. Imagine como vocé estaria louco
para ver se Deus tomaria alguma providéncia em relag&o ao seu caso.
E a grande mensagem de Paulo € que Deus jd tomou uma providéncia
quanto ao caso. Ele ja havia tocado nesse assunto anteriormente, em
1.16: a humanidade esta sob a ira de Deus, mas existe salvacdo desta
ira. Ficaremos sabendo mais acerca desta salvacao a partir de 3.21
Todos nds precisamos perceber que estamos sob a ira de Deus.
Todos nés precisamos ansiar por descobrir se ha alguma resposta
para a nossa situag&o desesperadora. E naéo devemos esquecer ja-
mais a maravilha que é aprender que existe uma resposta. Cerla vez
alguém perguntou a um velho evangelista americano: “Por que vocé
€ tao euforico na sua pregacao?” E ele disse: "Bem, Deus 0 abencoe.
Meu filho, cu nunca me esqueco da maravilha que isto tudo é”. Que
Deus tenha misericérdia de nds e nos livre de acabar com uma fé fria,
ortodoxa, esquecendo-nos da maravilha que isto tudo é. Nunca se
esquega da maravilha de quando vocé pessoalmente ouviu falar de
Cristo e creu nele
Ao mesmo tempo, porém, nao se esquega de que a raga humana
esta perdida. Mesmo quando estiver sentindo a maravilha que é a
sua propria salvagdo, nunca se esqueca de que, a semelhanga de
Paulo, vocé é um “devedor” em relagéo Aqueles que ainda estao per-
didos (1.14). Que Deus continue tocando os nossos coragdes, 4 me-
dida que Paulo prossegue descrevendo a situagéo desesperadora em
que eles se encontram.
Tribulacdo e€ anguistia virdo sobre a alma de qualquer homem
que faz o mal, do judeu primeiro, e também do grego; gloria,
porém, e honra € paz a todo aquele que pratica o bem; ao
judeu primeiro, e também ao grego. Porque para com Deus
nao ha acepgao de pessoas. (2.9-11)
Deus nao faz distingéo entre judeus e gentios, entre barbaros €
gregos. Todas as pessoas, sem distingao, teréo que se levantar €
comparecer na presenga de Deus.
Assim, pois, todos os que pecaram sem lei, também sem lei
perecerao; e todos os que com lei pecaram, mediante lei serao
julgados. (2.12)52 ‘A Opra ConsuMADA DE CRISTO
Todas as pessoas sao consideradas condenaveis diante de Deus,
com base no que realmente sabem. A pessoa sem a Biblia esta con-
denada com base no julgamento que faz dos outros. Como vimos em
2.1, 0 ser humano conheceu ¢ falou sobre os padrdes morais, mas
entao falhou em viver, ele mesmo, de acordo com estes principios.
A pessoa com a Biblia, por outro lado, é condenavel com base na Biblia
que possui. Ela “sera julgada mediante a lei” € seus padrées morais.
Porque os simples ouvidores da lei nao sao justos diante de
Deus, mas os que praticam a lei hao de ser justificados. (2.13)
Que beneficio alguém poderia ter em possuir uma Biblia, se ndo
acredita nela? Quando eu era pastor e visitava as pessoas em suas
casas, costumava ler a Biblia antes de ir embora, € perguntava: “Vocés
t@m uma Biblia?” Freqiientemente eles respondiam: “Sim, nos temos
uma Biblia” e iam procurd-la. Vasculhavam todas as estantes, todos os
cantos em busca dela. Se ela fosse uma cobra, certamente os teria
mordido! Sim, cles possufam uma Biblia - para escrever os nomes de
seus filhos e amassar flores. Mas para que se incomodar? Se eles mal
lian a Biblia, poderiam muito bem escrever os nomes de seus filhos
em outro livro qualquer! Nao ha nenhum poder magico na mera posse
de uma Biblia, se vocé nao acredita nem a obedece.
Quando, pois, os gentios que n&o tém lei, procedem por
natureza de conformidade com a lei, nao tendo lei, servem
eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei
gravada nos seus cora¢des, testemunhando-lhes também a
consciéncia, e os seus pensamentos mutuamente acusando-se
ou defendendo-se; no dia em que Deus, por meio de Cristo
Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o
meu evangelho, (2.14-16)
Paulo esta passando para a proxima etapa da sua apresentacado
do plano de salvagao divino. Ele ja falou sobre os nao-judeus, os
gentios, o homem sem a Biblia. Agora ele esta preparando o terreno
para falar sobre o homem judeu —- 0 homem com a Biblia. Lembre-se
novamente do que ele disse acerca dos gentios: "A ira de Deus se
revela” (1.18). E o ouvinte gentio se pergunta: “Por que eu estou sob
a tra de Deus?” E Paulo responde "o que de Deus se pode conhecer é
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” (1.19). Até mes-
mo o homem sem a Biblia tem uma consciéncia. Esta é a primeira
coisa que 0 condena. Esta pessoa é ainda um ser moral.A Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18-2.16) 58
Agora Paulo passa a dizer a mesma coisa sobre os judeus, ou, em
termos equivalentes a realidade de hoje, sobre as pessoas com a
Biblia. Eles tém a Biblia (e, como os gentios, ou as pessoas sem a
Biblia, nado deixam de ter uma consciéncia), mas nao vivem de acor-
do com ela. Realmente, admite Paulo, podemos encontrar muitos
gentios (pessoas sem a Biblia), que vivem bem melhor do que as
pessoas com a Biblia. Ele nao esta dizendo que estes incrédulos pos-
sam viver vidas perfeitas, Nenhum ser humano vive uma vida perfei-
la, Tudo o que ele esta dizendo é que os exemplos relativamente bons
destes incrédulos condenam aqueles que tem a Biblia.
E claro que isto nao representa uma desculpa para o homem
sem a Biblia..Ele nunca estara vivendo totalmente de acordo com
os padrées que Ihe séo conhecidos. Mas esse € um motivo a mais
para condenagao dos judeus, dos homens com a Biblia. Paulo esta
simplesmente cortando pela raiz todo e qualquer fundamento que
nao seja a graga, Vocé pode sentir isso. Ele esta descartando todos
aqueles argumentos que as pessoas de todas as eras costumam
usar para dizer "nao preciso de Salvador algum’, Vocé pode perce-
ber todos estes argumentos sendo demolidos. Alguém poderia di-
zer “olhe sO para aqueles incrédulos ali, vivendo vidas muito mais
adequadas do que as pessoas com a Biblia”. Mas, como Paulo diz,
a bondade dessas pessoas néo podera salva-las, pois elas nunca
estarao vivendo inteiramente de acordo com os principios por elas
mesmas estabelecidos.
os seus pensamentos mutuamente acusando-se ou
defendendo-se. (2.15b)
Esta é a experiéncia de todas as pessoas. Todos nés passamos por
isso, indo e vindo como balango de um péndulo, Perdoamos os outros,
dizendo: "Eu acabarei sendo poupado, sou melhor do que os outros”, €
entdo, puff!, cometemos algo realmente ruim, submergimos no mar
negro da auto-condenagao e passamos a nos “acusar” a nds mesmos.
E em seguida, quem sabe, vamos tomar um pouco de ar fresco ou
uma boa xicara de café ou olhamos para alguém que parece eslar
em situagdo ainda pior do que a nossa, e o péndulo volta para o
extremo oposto € voltamos a nos desculpar: "Nao sou tao mal quan-
to imaginava, Até que estou me comportando muito bem”. E, no
momento seguinte, sem qualquer aviso prévio, voltamos a cair no
mar negro. Todas as pessoas vivem neste vai-e-vem pendular - des-54 A OsraA ConsuMAaDA DE Cristo
culpando-se... acusando-se,.. desculpando-se... acusando-se... En-
caramos a nossa propria consciéncia, sentimo-nos acusados; € en-
tao explicamos nossos motivos, € nos sentimos desculpados.
No dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos
dos homens, de conformidade com 0 meu evangelho. (2.16)
E preciso que encaremos o fato de que chegara o dia, posto na
histéria, em que se dara o julgamento, Ja vimos isto em 2.5 “Mas,
segundo a tua dureza e coragdo impenitente acumulas contra ti mes-
mo ira para o dia da ira e da revelaco do justo juizo de Deus”. Paulo
jamais permite que sua mensagem permanega no plano da abstra-
¢ao; ele apresenta a aplicagao mais concreta e pratica possivel; e 0
fato concreto e inevitavel é que esta chegando o dia, bastante real,
posto no espaco ¢ no tempo, posto na historia, em que Deus ha de
julgar o mundo. Ele esta dizendo “no dia“ ~ 0 que nao significa ne-
cessariamente um dia de vinte e quatro horas - "em que Deus... jul-
gar os segredos dos homens”
“Segredos” devia ser uma palavra assustadora para nds. Deus néo
julgara apenas as coisas abertas, mas também os segredos. A pessoa
sem a Biblia diz “aquela mulher é imoral ... aquele homem € imoral”,
e depois acaba praticando as mesmas coisas, muitas vezes a surdina.
E nao é precisamente assim que as pessoas pensam € vivem? Elas
nao esto se esforgando de fato para serem morais, elas s6 esto ten-
tando manter as coisas equilibradas, apontando o dedo para a pessoa
que chega a um ponto extremo, mesmo que elas estejam praticando
as mesmas coisas secretamente, Elas condenam as outras pelas coi-
sas mais explicitas, as coisas que dio manchete. Mas, nas suas pro-
prias vidas secretas, estéo.vivendo do mesmo jeito.
Deus julgara n&o s6 o que se encontra publicado nas manchetes,
mas todas as mais secretas coisas. Toda aquela boa gente. Todos
aqueles que atiram pedras. Todos aqueles que escrevem os editoriais.
Mais uma vez é preciso recordar © contexto disso tudo. As pesso-
as dizem “Por que eu estou sob a ira de Deus? Sera que Deus € justo
em condenar-me?" E Deus diz: “vocé nao consegue imaginar um bom
motivo para estar sob a minha ira?’ “O homem’, (2.1), olhe bem
para vocé. Sera que isso nao € justo (2.2-16)?
O julgamento sera realizado por Deus, mas ele também serd reali-
zado “por meio de Jesus Cristo” (2.16). Paulo néo mencionava Cristo
desde 1,16, porque ele estava discutindo o problema do pecado, MasA Pessoa Sem a Biblia: Culpada (1.18 ~2.16) 55
agora ele o menciona novamente, como sendo o juiz da humanidade
Isso poderia ser uma surpresa, Vocé certamente ja encontrou pessoas,
tanto judeus quanto gentios, que dizem “Eu acredito em Deus, s6 nao
acredito em Jesus Cristo”. Mas a terrivel verdade.é que, quando ho-
mens e mulheres nao salvos forem chamados para comparecer diante
de Deus pata julgamento € 0 encararem, eles s6 vero uma dentre as
pessoas da Trindade como juiz, e esta sera Jesus Cristo. Uma das ex-
pressdes mais imponentes de toda a Biblia é a "ira do Cordeiro”
(Ap 6.16). Em Romanos, Paulo fala da ira de Deus, mas em Apocalipse
Joao se refere a ira do Cordeiro. A pessoa da Trindade que veio e muito
sofreu para que as pessoas nao tivessem mais de ser julgadas, sera o
seu juiz. A pessoa que tenta chegar-se a Deus sem passar por Jesus
Cristo tera que estar face-a-face com Jesus no dia do julgamento. Cer-
tamente Jesus foi “tentado em todas as coisas, a nossa seme!han
mas sem pecado” (Hb 4.15); portanto, ele sabe muito bem o que € a
tentagao e ele compreende nossa humanidade. Mas isso nao ameniza
em nada a terrivel verdade de que ele nos julgara. Jesus, 0 Salvador do
mundo, sera igualmente o seu juiz. "Ndo me envergonho do evangelho
de Cristo”, diz Paulo. Mas agora ele acrescenta: Cristo é também o
juiz. Nao apenas nao ha outra forma de se chegar a Deus, a nao ser
por mcio de Jesus Cristo, como o préprio Cristo declara (Jo 14.6), mas
também que todos os que tentam, de alguma forma, pular esta etapa,
nao conseguirao, pois Jesus Cristo estara parado bem ali, na condigao
de juiz. Jesus diz "Vinde a mim todos os que estais cansados € sobre-
carregados, € eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Mas quando alguém diz:
“Nao quero ter nada a ver com vocé: posso muito bem comparecer
diante de Deus diretamente, com as minhas proprias pernas, sem me-
diador, sem qualquer Messias sofredor", isso seria como se estivesse
tentando ascender diretamente aos céus, passando por cima desse
Jesus Cristo. Acontece que n&o conseguira fazer isso, porque la esta
Jesus Cristo, o juiz. Ninguém que ja tenha passado por essa vida foi
capaz de escapar do relacionamento com Jesus Cristo. De duas, uma:
ou este relacionamento sera o da salvacdo, conforme descrito por Paulo
em 1.16, ou entao sera 0 relacionamento que ele descreve em 2.16 - 0
relacionamento de uma pessoa condenada e o seu juiz.
Oprofeta Miquéias disse “sofrerei a ira do Senor, porque pequei contra
ele” (Mq 7.9), Jesus suportou a indignagao do nosso pecado na cruz.
Mas, se falhamos em accitar isso, s6 nos resta o outro lado da equagaéo
- teremos de suportar a indignagaéo da Senhor por nos mesmos.56 __AOpra Consumapa pp Cristo
Paulo tem falado de os gentios estarem sob a ira de Deus (1.18—
2.16), e nestes poucos ultimos versiculos ele comega a falar de os
judeus estarem igualmente sob a ira de Deus (2.9-16). Enquanto
ele se prepara para enfocar a ira de Deus contra os judeus {2.17—
3.8), devemos recordar a passagem de Sofonias “naquele dia nao te
envergonharas de nenhuma das tuas obras, com gue te rebelaste
contra mim; entao tirarei do meio de ti os que exultam na sua so-
berba, e tu nunca mais te ensoberbeceras no meu santo monte”
(3:11). Deus, por meio de Sofonias, disse a Israe! que chegaria um
dia em que nao estariam mais orgulhosos simplesmente porque a
sua montanha sagrada, Jerusalém, estava no seu meio. Todos os
que se regozijam por razGes como esta serao julgados do mesmo
jeito que todo mundo. Mas este aviso nado se aplica somente aos
judeus ou as pessoas dos tempos biblicos. Pensando novamente no
paralelo com os nossos tempos modernos ~ as pessoas com a Bi-
blia e as pessoas sem a Biblia - as pessoas com a Biblia e a igreja
nao devem jamais ser arrogantes a ponto de olhar com ar de supe-
rioridade para aqueles que nao tém acesso a estas coisas, Até mes-
mo as pessoas de hoje que se gabam por nao acreditar em absolu-
tamente nada certamente olham para outras pessoas com ar de
superioridade e as condenam. Mas Paulo esta nos mostrando que o
pecado € universal. Todos nds nos apresentamos condenaveis di-
ante de Deus. Nenhum de nos pode ser arrogante por causa de al-
guma “montanha sagrada” que possamos reivindicar. Qualquer
coisa que seja um motivo para nos tornar mais soberbos nao pas-
sara de mais uma razao para julgamento ainda maior.3
A PEssoA CoM A
BiBLIA: CULPADA
(2.17—3.8)
54
4
nquanto Paulo comega 0 versiculo 2.17 falando diretamente
aos judeus, lembre-se de que, hoje em dia, eles representam
um povo com a Biblia. Serd que, no nosso caso, que temos a
Biblia em nossas estantes, nds que contamos com a igreja no nosso
meio, nos que temos uma cultura gerada pela Reforma, temos 0 bas-
tante para a salvacao?
Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, repousas na lei e te
glorias em Deus, (2.17)
“Repousas na Jei” deve nos |lembrar do que acabamos de ler em
Sofonias 3.11, Paulo esla falando ao'povo que se tornou soberbo em
razao de o “santo monte” (Sf 3.11) encontrar-se bem no meio deles. E
eles “repousam" neste fato.
.. que conheces a sua vontade... (2,184)
Mas 0 que os judeus tém? Eles t@m a Biblia, Como diré Paulo mais
tarde, "Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da cir-
cuncisao? Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos ju-
deus foram confiados os oraculos de Deus" (3.1-2). A principal vanta-
gem que os judeus tiveram em relacgao a todas as demais pessoas era
que eles tinham a Biblia. Eles conheciam a vontade de Deus (2.18).
Eles confiavam nisto (2.17). Contudo, havia ai um problema muito sé-
rio: ter esta béngao tao especial os tornou soberbos, E ai é precisamen-
te que muitas pessoas se encontram hoje. Repare em todas aquelas58 A Opra ConsUMADA DE CRISTO_
catedrais da Europa. As pessoas ouvem os sinos da catedral. Nao
basta? Elas tém suas criangas batizadas, crismadas, confirmadas.
Elas realizam seus casamentos na igreja, Nao basta?
E a mesma mentalidade € encontrada nos Estados Unidos. Temos
uma das maiores porcentagens de pessoas freqiientadoras de igrejas
de todos os tempos — maior até do que nos tempos em que as pessoas
realmente acreditayam em alguma coisa! Ainda assim, Deus esta di-
zendo aos judeus 14 do primeiro século, mas igualmente a muitas pes-
soas do nosso proprio tempo, que toda essa heranga judaica (ou crista)
nao representa mais do que um grao de areia. Tudo isso s6 condena
vocé ainda mais!
Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, repousas na lei ¢ te
glorias em Deus; que conheces a sua vontade, e aprovas as coisas
excelentes, sendo instruido na lei; que estas persuadido de que és
guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de
ignorantes, mestre de criancas, tendo na lei a forma da sabedoria
e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, nao te ensinas a ti
mesmo? Tu, que pregas que nao se deve furtar, furtas? Dizes que
nao se deve cometer adultério, e 0 comeles? Abominas os idolos,
¢ Ihes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a
Deus pela transgressao da lei? Pois, como esta escrito, o nome de
Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa. (2.17-24)
Que terrivel! La esto os judeus, que haviam sido destinados a
revelar a imagem do Deus vivo a um mundo perdido (2,19-20), e nao
obstante eles so conseguiam ver a sua miss4o como um motivo para
soberba (2.17, 23). Vemos 0 mesmo problema entre os cristaos de
hoje. O que vocé acha que € para um missiondrio a coisa mais dificil
de encarar no inicio de um ministério novo? Nao conhego um tnico
missionario que discordasse que o maior problema que tem de en-
frentar é 0 dos que estiveram Ia antes deles e que passaram Ser asso-
ciados a palavra crist@o nas mentes das pessoas do local. Quando
Livingston tentou pregar 0 evangelho na Africa, teve de encarar o
fato de que as pessoas relacionavam o Cristianismo aos portugue-
ses, que foram traficantes de escravos naquela parte do mundo. Até
recentemente, 0 maior problema que os missionérios enfrentavam
nas regides muculmanas era que os mucguimanos, que nao devem
beber vinho, associavam os cristéos aos mercadores que lucravam
com a venda daquela mercadoria que eles mesmos nao podiamA Pessoa Com a Biblia: Culpada (2.17 ~ 3.8) 59
comercializar. Quando pessoas com a Biblia - sejam elas judias ou
cristas - tém este tipo de comportamento, ao invés de irradiarem luz
estéo disseminando a escuridao.
Normalmente associamos a palavra missiondrio ao Cristianismo,
mas os judeus dos tempos do Antigo Testamento eram todos, em
certo sentido, chamados para ser missionarios. O livro de Jonas € 0
melhor exemplo disso, Quando pensamos em Jonas, é claro que pen-
samos no grande peixe, mas a historia de Jonas é importante, princi-
palmente, como exemplo do fracasso de Israel em proclamar a sua
mensagem missionaria. Jonas foi chamado a pregar em Ninive, mas
ao invés de aceitar este chamado missionario, ele pegou um barco
que estava zarpando na diregao oposta a Ninive.
Ezequiel também fala do fracasso de Israel em sua missdo: “As-
sim diz 0 Sentor Deus: Esta é Jerusalém; pu-la no meio das nagdes e
terras que estao ao redor dela. Ela, porém, se rebelou contra os meus
juizos, praticando o mal mais do que as nag6es, e transgredindo os
meus estatutos mais do que as terras que estao ao redor dela”
(Ez 5.5-6a). Deus pds Jerusalém no meio das outras nagdes com cer-
to propésito. O propésito de Israel era falar da existéncia de Deus €
de seu carater e chamar as outras nagdes para Deus. Jonas € um
bom exemplo do fracasso de Israel em fazer isso, mas ele nao é, sob
hipdtese alguma, o Unico. Os judeus deviam ser um testemunho de
Deus, mas, ao invés disso, diz Ezequiel, eles representaram exata-
mente o contrario, Desde os tempos do cativeiro na Babilénia, os
judeus foram espalhados pelo mundo conhecido. Se eles apenas ti-
vessem ficado firmes em Deus! Mas, como Jonas ilustra, e Ezequiel
disse, e Paulo esta dizendo em 2.17-24, eles fizeram exatamente 0
oposto. Quando Salomao dedicou o Templo, ele declarou que o mes-
mo se tornaria a “Casa de Oragéo de todos os povos" (veja 2Cr 6.32;
Is 86.7; Mt 21.13). Mas acabou ocorrendo precisamente 0 contrario
O templo devia ser um testemunho ao mundo de que Deus existe,
de que ele realmente esta af, A realidade de Deus deveria ser vista por
meio da retidao de vida das pessoas que ministravam na sua casa.
Também deveria se tornar manifesta pela forma como Deus protegia o
seu povo na batalha. Sendo este um mundo caido, a nagao escolhida
por Deus necessitaria de tempos em tempos da sua protegao na ba-
talha, e sua intengao era oferecer a eles esta protegdo, como teste-
munho para as nagdes. Mas, devido ao seu pecado, Deus parou de60 : AA Opra Consumapa bE Cristo
protegé-los e todas as nagSes podiam agora dizer “o Deus deles é
igualzinho a todos os outros”. A imoralidade de Israel levou todas as
outras nagées a blasfemar (2.24) contra Deus. Israel deveria ser uma
demonstracgéo viva do fato de que Deus esta ai. Ao invés disso, em
raz&o de seu pecado e conseqiiente série de derrotas na batalha, as
outras nagdes diziam que “o Deus de Isracl nao esta al”.
Para aplicar um termo neotestamentario a situagéio de Jonas, por
causa de ele tomar a direcéo oposta, o evangelho nao foi pregado a
Ninive (até que Jonas se arrependesse). Devido ao pecado tao freqtien-
te de Israel, o bom carater de Deus nao era mostrado ao mundo, Como
Isalas expressou, ao invés de trazer a tona algo equiparavel a um nas-
cimento espiritual, Israel so conseguiu constatar que “o que demos a
luz foi vento” (Is 26.18).
Infelizmente, 0 mesmo pode muitas vezes ser aplicado aos cristéos
de hoje. Mais do que freqtientemente as pessoas de outras religides que
vieram a ter contato com cristaos afastaram-se com repulsa. Pratica-
mente todos os lideres de seitas do mundo de hoje foram formados nas
nossas universidades e delas sairam intocados ¢ sentindo repulsa. Ao
mesmo tempo, Deus muitas vezes também retirou a sua mao proteto-
ra, permitindo que os povos pautados pelo Cristianismo caissem sob a
influéncia de ideologias tais como o comunismo ateista ou religides
pags do oriente. Nossa situacao é perfeitamente paralela aquela dos
judeus nos tempos biblicos. Tanto os judeus daquela época quanto os
cristaos de hoje falharam em manifestar para todo 0 mundo o fato de
que Deus realmente existe. Por isso, como Ezequiel prossegue dizendo,
“assim seras objeto de oprébrio e ludibrio, de escarmento e espanto as
nagdes que estao ao redor de ti, quando eu executar em ti juizos com ira
e indignagao, em furiosos castigos. Eu, o Senuor, falei* (Ez 5.15).
Que triste situacdo. La estado as nacées; elas deveriam estar olhan-
do para Israel e vendo que Deus existe. Mas ao invés disso, Deus teve
de juigar Israel. De fato ele usou estas mesmas nacées inimigas para
julgar Israel. Ao invés de olhar para Israel e reconhecer a Deus, eles
destrufram Israel, ao mesmo tempo em que blasfemavam contra o seu
Deus. E € isso precisamente que Paulo esta dizendo em Romanos 2
"Em cada area da vida em que vocé deveria ter sido um testemunho;
ao invés disso, vocé se mostrou pecaminoso e orgulhoso, e por isso
Deus teve que avisd-lo. E isso, por sua vez, levou as outras nacdes a
blasfemar contra 0 seu Deus".61
A Pessoa Com a Bibli
© que nés, que somos parte da cristandade do século 20, pode-
mos fazer, além de nos vestirmos de pano de saco e nos cobrir de
cinzas e dizer "amém. A que ponto foi que chegamos. Somos motivo
de blasfémia. Deus ja nao nos pode proteger’? Até os nossos dias,
todas as maiores nagées “cristas” da histéria ficaram sabendo da
verdade, mas acabaram deliberadamente por dar-lhe as costas. Tudo
© que podia ser dito contra os judeus dos tempos de Paulo pode ser
dito agora contra nds. Ao invés de sermos missionarios, temos dado
motivos de blasfémia aos incrédulos. Nés nao apenas deixamos de
pregar a mensagem positiva da salvacéo, mas estamos pregando,
ao invés disso, uma mensagem contraria, e temos dado motivos aos
incrédulos para se desviarem de um Deus que nés j4 n&éo honramos.
Alguns capitulos adiante, Ezequiel diz o seguinte aos habitantes
de Juda, o reino do extremo sul: "Também Samaria nao cometeu
metade de teus pecados; pois tu multiplicaste as tuas abominagées
mais do que elas, € assim justificaste a tuas irmas, com todas as
abominagoes que fizeste. Tu, pois, leva a tua ignominia, tu que advo-
gaste a causa de tuas irmas, pelos teus pecados, que cometeste mais
abominaveis do que elas; mais justas sao elas do que tu; envergo-
nha-te logo também, e¢ leva a tua ignominia, pois justificaste a tuas
irmas" (Ez 16.51-52). Entao, no versiculo 56: “"Naéo usaste como pro-
vérbio 0 nome Sodoma, nos dias de tua soberba”. E, mais adiante,
no versiculo 61: "Entdo, te lembrards dos teus caminhos e te enver-
gonhards quando receberes as tuas irmas, assim as mais velhas como
as mais novas, e tas darei por filhas”, Em outras palavras, Ezequiel
esta dizendo que os judeus dos seus dias eram piores até mesmo do
que os notérios sodomitas. Jesus mesmo disse algo semelhante dos
judeus do seu préprio tempo, que "se em Sodoma se tivessem opera-
do os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia
de hoje” (Mt 11.23).
E neste ponto em que estamos em nossa propria cullura crista
hoje. Eu nao aprecio 0 comunismo, mas eu acredito que a China co-
munista nao é tao ma aos olhos de Deus quanto a nossa propria
cultura. Nos, que vivemos no norte da Europa e na América do Norte,
desde a Reforma temos sido em muito abencgoados pelas luzes da
verdade. Entretanto, nds nos desviamos deliberadamente dela. Quando
eu ouco Paulo perguntar aos judeus da sua época: "vocés esto achan-
do que serao salvos, sé porque sao judeus, enquanto que, na verda-
de, vocés tém sido um motivo de blasfémia para as nagdes?” Tenhoean A Onra Consumapa pp Cristo
certeza de que Deus est fazendo a mesma pergunta aos que se cha-
mam cristaos no norte da Europa e na América do Norte hoje em dia.
Estamos sendo um motivo de blasfémia. Isso nao é nenhuma des-
culpa para o outro lado, o das pessoas sem a Biblia; como vimos
anteriormente (1.18—2.16), elas seraéo condenadas do mesmo jeito.
Mas nao temos desculpa alguma. Nao podemos dizer “nds é que
estamos certos. Certamente Deus vai nos proteger". Por que ele de-
veria? Somos uma blasfémia contra ele!
Paulo declarou que tanto os gentios quanto os judeus de seus
dias estavam sob a ira de Deus. Em 3.9-20 ele diré a mesma coisa,
em maiores detalhes, chegando ao ponto mais alto com esta con-
clusao tao citada: “pois todos pecaram e carecem da gléria de Deus”
(3.23), que é uma outra forma de dizer que "todos estéo sob a ira de
Deus”. Ou como em Isafas: “Todos nés andavamos desgarrados como
ovelhas” (Is 53.6). Quem precisa de Salvador? O gentio pecou; o ju-
deu pecou. O homem sem a Biblia pecou; 0 homem com a Biblia
pecou. Quem precisa do Salvador? A resposta nos parece agora bas-
tante simples, nao €? Todo mundo, homens e mulheres, precisam do
Salvador! E, se quisermos viver no mundo como ele é, e nao em al-
gum mundo de faz de conta, teremos de viver sob estas condigoes.
Quando as pessoas nos perguntam: “Quem precisa de Salvador?",
devemos responder muito calmamente, muito sobriamente, e com
real compaixao que “todos pecaram e carecem da gloria de Deus",
Quando consideramos que Paulo estava falando de todos os ju-
deus e de todos os gentios como sendo pessoas igualmente pecado-
ras aos olhos de Deus, é importante que nés, os cristéos de hoje, nao
olhemos para tras, para os Ieitores do primeiro século, como se nos
encontrassemos acima deles. Como Paulo nos lembra em Efésios
2.3, nos “éramos por natureza filhos da ira”, nado passavamos do
pior e mais desnorteado tipo de pecador. Todos nés temos estado
sob a ira de Deus, Se tivermos aceitado Cristo como nosso Salvador,
a ira de Deus ja nao estara mais sobre nés. Mas isso nao se deve a
alguma coisa de nds mesmos, alguma coisa que esteja embutida
em nossa heranga genética, ou em nossa cultura cristaé, Se nado
estamos sob a ira de Deus neste preciso momento, isso se deve tao
somente ao fato de que, devido a sua graga, Cristo morreu por nds e,
igualmente pela sua graga, nés 0 aceitamos como Salvador. Nao
podemos supor termos sido resgatados gracas 4 bondade inerente
de qualquer um que ainda se encontra sob a ira de Deus. Sempre queA Pessoa Com a Biblia: Culpada (2.17 -3.8) 63
analisamos a ira de Deus contra 0 mundo pecaminoso, a postura
certa é a que diz: "Eu ja estive nesta posigéo eu mesmo, e la eu me-
receria estar, se nao fosse a obra consumada de Jesus Cristo”. £ so-
mente no espirito desta humilde constatagdéo que ousamos prosse-
guir com nosso estudo de Romanos.
Ha alguns versiculos Paulo perguntava aos seus leitores judeus:
“Abominas os idolos, ¢ Ihes roubas os templos?” (2.22). A melhor
tradugdo do grego seria “Vocés, que abominam a idolatria, séo vocés
culpados das maiores insoléncias?” A semelhanga disso, Joao viria a
se referir alguns anos mais tarde aos que “a si mesmos se declaram
judeus, e ndo sao, sendo antes sinagoga de Satands" (Ap 2.9). Aqui
esto os judeus, o povo que recebeu a Biblia, considerando-se algo
especial, Entretanto, Paulo diz que eles sao culpados das maiores in-
soléncias e Joao se refere a eles como sendo a “sinagoga de Satanas”
E preciso admitir aqui novamente que essa é a forma precisa como
Deus vé boa parte dos cristéos de hoje. Reivindicando estar protegidos
debaixo das asas do Cristianismo, reivindicando estar sob alguma
espécie de bénc&o especial, s6 porque os sinos dobram nas catedrais,
sO porque uma grande parte das pessoas nos Estados Unidos frequen-
ta algum tipo de igreja, o que na verdade estamos fazendo é dar moti-
vos para blasfémias contra Deus, uma vez que nos desviamos dos
ensinamentos da sua Palavra. Esta € uma grande verdade e temos que
encara-la: se temos a Biblia, se podemos usufruir todas as béngaos
que ela nos traz, e ainda assim envergonhamos o nome de Deus com
as nossas vidas, somos culpados da maior de todas as insoléncias.
Entéo, olhe novamente para os versiculos 23 e 24; "Tu, que te
glorias na Jei, desonras a Deus pela transgressdo da lei? Pois, como
esta escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vos-
sa causa”. Se alguém com a Biblia a trata como se ela nao passasse
de uma coisa externa apenas, isso é causa para o homem sem a
Biblia desonrar o Deus da Biblia. Entao, é justo e certo que o homem
com a Biblia esteja sob a ira de Deus.
Porque a circunciséo tem valor se praticares a lei; se és, porém,
transgressor da lei, a tua circunciséio ja se tornou incircuncisao. (2.25)
Os ritos religiosos externos nao bastam por é fora de si mesmos.
Para o judeu, o rito crucial externo era a circunciséo; para o homem
com a Biblia em nossa propria geragao, 0 batismo, confirma¢ao ou
filiag&o a uma igreja. Mas estas coisas, diz Paulo, néo ajudam. Na64
verdade, elas so prejudiciais; nado sao mais do que a “incircuncisao”,
a menos que haja uma certa realidade por tras delas.
Se, pois, a incircunciséo observa os preceitos da lei, nao sera
ela, porventura, considerada como circuncisao? E se aquele que
é incircunciso por natureza, cumpre a lei, certamente ele te julgara
ati, que, nao obstante a letra e a circuncisdo, és transgressor da
lei, (2.26-27)
Esta ultima frase poderia ser mais bem traduzida como “todo aquele
que, sendo versado nas letras e circuncidado, continua transgredindo
a lei". Como notamos anteriormente, Paulo nao esta dizendo, nem por
um minuto, que as pessoas sem a Biblia estao justificadas. Mas, ao
invés disso, devido ao fato de estes gentios néo estarem mantendo os
seus proprios principios, eles sao igualmente condenaveis aos olhos
de Deus (2.1). Paulo esta simplesmente dizendo, aos judeus do seu
tempo eé para os cristéos professos de hoje: “vocés deveriam ter vergo-
nha! Ha pessoas sem a Biblia, pessoas sem tantas vantagens quanto
vocés, que vivem de forma bem mais louvavel do que vocés vivem”
Isso ndo é desculpa alguma para o homem sem a Biblia, mas
como condena o homem com a Biblia! Imagine um judeu dizendo a
sj mesmo: “Sou um judeu. Sou circuncidado. Tenho todos estes atri-
butos”. Deus Ihe diria: “f verdade, mas, veja, com todas as vanta-
gens que vocé tém, volta ¢ meia podemos constatar que pessoas
sem a Biblia, pessoas ao seu redor que nao acreditam, mas que vi-
vem de forma mais louvavel do que vocé. E por isso vocé da motivos
para que o Deus vivo seja blasfemado. Isto o torna duplamente cul-
pavel. Isso nao é desculpa para os outros, mas sem dtivida é conde-
nagao para vocé!”
Porque nao é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é
circuncisdo a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que
o € interiormente, e circuncisdo a que € do coragao, no espirito,
nao segundo a letra, e cujo louvor nao procede dos homens,
mas de Deus. (2.28-29)
Ritos externos, néo importa se do Judaismo ou do Cristianismo, per-
derao todo o sentido se nao houver uma circuncisdo do coracgao, a
menos que Deus tiver tocado o coragao da pessoa e a sua fé seja real.
Viver debaixo das asas do Cristianismo, ndo importa se catélico-roma-
no ou protestante, ent&éo viver uma vida que é um escdndalo aos
olhos dos incrédulos; professar uma f€ que nao tem significado ne-A Pessoa Com a Biblia: Culpada (2.17-3.8) 65
nhum para o nosso eu interior, certamente nos langa sob a ira de
Deus. Se o Cristianismo nao significa nada mais para nés do que
uma béngao que nao revertemos a nosso favor, entéo Deus esta ple-
namente justificado em dizer-nos 0 mesmo que disse ao mundo gen-
tio em 2.1: "és indesculpavel quando julgas, 6 homem’.
Na passagem para 0 capitulo trés, Paulo insiste em frisar quanto
os seus leitores judeus necessitam do Salvador, pelo simples fato de
estarem sob a ira de Deus, por mais espiritualmente vantajosa pu-
desse ser a sua situagao. A béngao espiritual, diz Paulo, ndo é um
resultado automatico da nossa raga ou da nossa capacidade de ade-
sdo externa a uma tradi¢do religiosa. Toda e qualquer experiéncia de
béngéo espiritual que possamos ter deve ser fruto de uma realidade
muito mais profunda. Paulo esta fazendo toda a humanidade passar
como que num desfile diante de nés - primeiro os gentios, depois os
judeus - certo de que, da mesma forma que olhamos para eles, tere-
mos igualmente que olhar para nds mesmos, ¢€ teremos que nos dar
conta de que nada do que existe dentro de nés pode nos salvar da
justa ira de Deus.
Qual é, pois, a vantagem do judeu? ou qual a utilidade da
circuncisao? (3.1)
Evidentemente, Paulo ja sabia que os seus leitores judeus lhe fariam
esta pergunta, nada menos do que um judeu hoje lendo essas mesmas
palavras perguntaria. Se os judeus, da mesma forma que os gentios,
estado sob a ira de Deus, entéo que vantagem pode haver em fazer par-
te daquele povo “eleito” por Deus? Paulo responde a sua prdpria per-
gunta de forma bastante contundente.
Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus
foram confiados os ordculos de Deus. (3.2)
“Oraculos de Deus” refere-se evidentemente, ao que conhecemos
hoje por Antigo Testamento. A principal vantagem dos judeus em
relacdo aos gentios era que eles tinham a Palavra de Deus. Eles devi-
am saber! Paulo tratara da questao dos judeus em maiores detalhes
nos capitulos 9—11 de Romanos. Em 10.19 ele perguntara: “Porventura
nao tera chegado isso ao conhecimento de Israel?” E em todo o déci-
mo capitulo ele indicara mais precisamente de que forma Israel che-
gou ao conhecimento de Deus: eles conheceram a Deus, porque pes-
soas divinamente inspiradas, como Moisés (10.5, 19) e Isaias (10.16,66 A Opra Consumapa DE Cristo
20) Ihes falaram sobre ele. Em outras palavras, eles sabiam porque
tinham os oraculos de Deus, 0 Antigo Testamento.
Assim, a questao nao € se Israel conhecia a Deus ou nao. Israel
conhecia. Eles sabiam coisas acerca de Deus que as pessoas sem a
Biblia nao sabiam. Mas este conhecimento de Deus resolveu seu pro-
blema espiritual? Isso significou que eles nao necessitavam um Sal-
vador? "De jeito nenhum’ diz Deus, “porque, apesar de terem chega-
do a conhecer, nao creram”. E porque nao creram, todo aquele seu
conhecimento de Deus néo |hes serviu de nada; bem pelo contrario,
isso os condenou ainda mais.
Paulo examinou a quest&o de como fica a nagao judaica diante de
Deus, a partir de trés perspectivas diferentes: as vidas que eles levam
s&o menos louvaveis do que a vida das pessoas ao seu redor, que nao
tém a Biblia, por isso eles séo condenaveis (2.17-24); eles preservam
os ritos externos, como Deus prescreveu, mas nao o fazem de coragao,
portanto, sao condenaveis (2.25-29); eles tinham conhecimento de Deus
€ suas coisas, eles dispunham do Antigo Testamento, mas nao creram
nele, daj que sejam condenaveis (3. 1-2).
E daj? Se alguns nao creram, a incredulidade deles vir desfazer
a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma! Seja Deus
verdadero, e mentiroso todo homem, segundo esla escrito: Para
seres justificado nas tuas palavras, e venhas a vencer quando
fores julgado, (3.3-4)
Sera que a descrenga das pessoas eleitas por Deus, a despeito de
todas as vantagens, sugere que Deus agiu de ma fé, ou que ele tenha
quebrado as suas promessas de alianga com Israel? “De maneira ne-
nhuma!” diz Paulo. "De modo algum”. Deus manteve cada um das suas
promessas de aliancga, sem excegao. A falta recai inteiramente sobre
aqueles que deixaram de crer naquelas promessas.
Mas, se a nossa injustica traz a lume a justica de Deus, que
diremos? Porventura sera Deus injusto por aplicar a sua ira? (Falo
como homem.) Certo que nao. Do contrario, como julgaré Deus
© mundo? E, se por causa da minha mentira, fica em relevo a
verdade de Deus para a sua gloria, por que sou eu ainda
condenado como pecador? E por que nao dizemos, como alguns
caluniosamente afirmam que o fazemos: Pratiquemos males para
que venham bens? A condenacgaio destes é justa. (3.5-8)A Pessoa Com a Biblia’ Culpada (2.17-3.8) 67
Paulo antecipa a questao que alguns dos seus leitores poderiam le-
vantar aqui: “Se, por contraste, o nosso pecado torna a retidao de Deus
ainda mais evidente, sera que € realmente justo que ele ainda nos jul-
gue?” Ao que Paulo responde, em suma: “Sim, mas isso néo muda as
coisas. O problema continua sendo a sua propria incredulidade. Deus
continuara sendo justo ao condenar vocé, pois vocé recebeu toda esta
luz da revelagao do Antigo Testamento. Vocé tinha conhecimento de
Deus! Vocé sabia das coisas! Esta foi a sua vantagem. Mas, apesar de
tudo isso, vocé nao creu”. E entdo, precisamos novamente perguntar: se
for isto mesmo o que Deus esta dizendo sobre os judeus da época de
Paulo, acerca do fato de eles terem as Escrituras do Antigo Testamento,
e ainda assim continuarem sendo condenaveis aos olhos dele - e, na
verdade, estando especialmente sob sua ira devido a todas as vanta-
gens que eles tinham — se isso era verdade no mundo judaico dos dias
de Paulo, 0 que Deus diria dos cristéos de hoje?
Pense em todas as vantagens que temos no norte da Europa e
América do Norte, Toda uma cultura solidamente arraigada na Re-
forma. A possibilidade de comprar uma Biblia em qualquer loja da
esquina. Uma literatura cheia de referéncias a Biblia. Se os judeus
foram condenados por no terem crido, apesar de todas suas vanta-
gens, 0 que Deus nao teria a dizer sobre as nagoes “cristas” de hoje?
Se os judeus tiveram alguma vantagem, quanto maior é a nossa! Se
Deus condenou os judeus por sua falta de resposta adequada, que
tenha misericérdia de nds!
NOs que temos a Biblia hoje somos ainda mais condenaveis do
que as pessoas de hoje que nao tém a Biblia - que se limitam ao
testemunho da sua consciéncia. Mas nds também somos mais con-
denaveis do que aqueles que tinham a Biblia nos dias de Paulo, Ter
todas estas vantagens e nao crer, ter estas vantagens e se desviar de
Deus, ter estas vantagens e ainda assim dar motivo para que o nome
do Deus vivo seja blasfemado. Que desculpa podemos ter? De que
jeito imaginamos escapar disso? Se os jovens de qualquer lugar do
mundo visitam um pais como os Estados Unidos para estudar nas
nossas universidades, e s6 0 que aprendem é como serem mais pre-
tensiosos e mais ateistas, deveriamos ficar surpresos quando Deus
olha para nds e diz “Vocés estéo debaixo da minha ira"?
Se ha algum povo por toda a hist6ria que desesperadamente ne-
cessitou do Salvador, este povo somos nos mesmos, a nossa cris-
tandade ocidental dos dias de hoje.4
O Munpo Topo:
CULPADO
(3.9-20)
x
aulo falou dos gentios como pessoas condenaveis aos olhos
de Deus (1.18—2.16); ele falou dos judeus gentios como pes-
soas condenaveis aos olhos de Deus (2.17—3.8). Agora ele re-
tine ambos para mostrar que todas as pessoas de todos os lugares en-
contram-se na mesma condicao diante de Deus:
Que se conclui? Temos nds qualquer vantagem? nao, de forma
nenhuma; pois ja temos demonstrado que todos, tanto judeus
como gregos, estéo debaixo do pecado. (3.9)
Paulo equiparar judeus e gentios dos seus tempos pode ser equiva-
lente a equiparar cristéos professos e ateus hoje em dia. E quando eu
comento esta passagem com as pessoas, elas muitas vezes pergun-
tam: “O que vocé quer dizer com isso? Vocé esta dizendo que um mem-
bro de uma igreja crista € tao culpado aos olhos de Deus quanto aquele
horrivel comunista ou ateu ali?” E Deus esta dizendo através de Paulo
“Sim, ele é1"
Podemos ficar tao irritados, e com justa indignacdo, com as pessoas
que abertamente negam a existéncia de Deus. Nao é dificil para nos
concordarmos que eles precisam desesperadamente de salvacao e nos
consideramos extremamente virtuosos por reconhecer o pecado deles.
Mas quando Paulo se vira para nds e diz que, aos olhos de Deus, nos
também precisamos de salvacdo, ent&o a nossa reagéo emocional é
totalmente diferente. Certamente seria forte a reacdo dos judeus que70
leram Paulo contra a afirmagao de que os judeus nao sao em nada
melhores do que os gentios aos olhos de Deus. Paulo, prevendo essa
reacao forte, p6e um ponto final no assunto, citando um trecho da sua
propria Biblia, o Antigo Testamento
Como esta escrito: Nao ha justo, nem um sequer, nado hé quem
entenda, nao ha quem busque a Deus; todos se extraviaram, a
uma se fizeram intiteis; néo ha quem faga o bem, nao ha nem
um sequer. (3.10-12)
Nao é Paulo que diz serem todos os seres humanos pecadores. Ci-
tando os Salmos 14.1-3 € 53.1-3, ele mostra que o Antigo Testamento,
a Biblia dos seus leitores judeus, diz a mesma coisa. E como vimos
anteriormente, Isafas também 0 diz: “Todos nds andavamos desgarra-
dos como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Sennor
fez cair sobre ele a iniqitidade de nds todos” (Is 53.6). A pessoa sem a
Biblia nado seguiu totalmente seus préprios principios e merece, assim,
aira de Deus, Mas aqueles de nds, que tém a Biblia, a qual estabelece
padrdes morais ainda mais altos, também nao foram capazes de seguir
esses principios. Nao é uma abstragao teolgica vinda de algum estado
de espirito metafisico. A corrupgaéo moral é conseqliéncia de desejos
imorais individuais. Paulo descreve uma tragédia concreta a respeito
de desejos pecaminosos, e nao um estado ou conceito humano.
Esta concepcao da universalidade do pecado é o maior e mais ge-
nuino “nivelador” da humanidade. Jesus a enfatizou mais de uma vez.
Toda vez que as pessoas apontavam para alguém, dizendo "olhe s6
aquele pecador”, Jesus sempre deixava claro que todas as pessoas S40
igualmente pecadoras. Diante de Deus, todas estéo no mesmo nivel.
Essas palavras de Paulo sdéo bastante concretas, e também sao bem
pessoais. Nos ja vimos este seu estilo muito pessoal antes, quando cle
dizia “Por isso és indesculpavel, 6 homem" (2.1). E as suas colocagdes
em 3.10-12 n@o sao menos pessoais. Pois, se “n&o ha justo”, entéo eu
ndo sou justo; se "nao ha quem entenda.., ninguém que busque a Deus”
da forma pela qual se deve buscar a Deus, entéo eu ndo entendo e ndo
busco a Deus, da forma como deveria. Se “todos se extraviaram”, entao
isto inclui a mim - eu me desviei do caminho, Se nao ha absolutamente
quem faga o bem, “nem um sequer”, ent&o eu também nao fago bem
algum. Se todos os humanos sao sem excegao moralmente corruptos,
entdo eu também sou moralmente corrupto, nao interessa quanto eu
me considere bom.O Mundo Todo: Culpado (3.9-20) 7
Mesmo aqueles de nés que aceitamos Cristo como Salvador nado
deveriamos jamais pensar no pecado como uma abstrac¢ao. Todas as
pessoas séo moralmente corruptas. Nenhum de nds esté em condigées
de imaginar o pecado do ponto de vista dos outros. Como vimos em
Efésios, todos nés ja fomos “por natureza filhos da ira” (Ef 2.3) algum
dia, E neste lugar que cada um de nds tem vivido. Este € 0 abismo que
estivemos cavando. isso que nos somos.
Os cristéos muitas vezes comentam 0 quanto ficaram “chocados”
por terem observado este ou aquele comportamento. Nés nunca deve-
riamos hesitar em denunciar algo quando esta errado. Mas como po-
demos ficar “chocados” ou surpresos com os pecados dos outros, se
nés mesmos somos igualmente corruptos aos olhos de Deus? Se real-
mente entendemos o quanto todos nés somos pecaminosos aos olhos
de Deus, ent&o estaremos em condigdes de compreender que estamos
no mesmo nivel que o resto das pessoas. Do ponto de vista da nossa
natureza pecaminosa, estamos todos reduzidos as mesmas propor¢ées.
Paulo fez desta questéo da pecaminosidade humana algo pessoal, in-
cluindo-se na discussao. Ele nao estava dizendo “Serao os judeus melho-
res que os gentios?” Ele estava dizendo “Sera que somos melhores do
que eles?” (3.9). Ele se identifica a si mesmo com os seus companheiros
judeus, "Seria eu, seriamos nés melhores do que eles?" pergunta ele. E a
resposta é: “N&o. Nos, inclusive eu, nao somos melhores do que eles’.
A cilagdo que Paulo faz do Antigo Testamento certamente teria ar~
rasado os seus leitores judeus ~ e, por extensao, também os leitores
cristéos de hoje. Como alguém pode sentir que esté em numa posi¢ao
confortavel diante do Deus santo, s6 pelo fato de ter uma Biblia, se a
Biblia mesmo diz que ninguém é justo? Todo aquele que tentar se
autojustificar acabara levando sé pedradas depois do versiculo 12. Nin-
guém esta a salvo sO porque se escondeu debaixo das asas protetoras
do Judaismo - ninguém esta a salvo s6 por estar debaixo das mesmas
asas do Cristianismo. Ninguém é justo, “nem um sequer”.
Sera que isto significa que estamos todos além da esperanc¢a? Se todos
somos assim tao moralmente corruptos aos olhos de Deus, sera que resta
alguma esperanga para nos? Lembre-se de que neste ponto, em sua carta
aos Romanos, Paulo ainda est pregando “a primeira metade do evange-
tho”; ele continua tentando mostrar que todas as pessoas necessitam de
salvagéo, Nao se esqueca do pressuposto disso tudo: “nao me envergo-
nho do evangelho, porque ¢ 0 poder de Deus para a salvagao” (1.16).72 A Obra CONSUMADA DE CRISTO
“Mas por que eu preciso de salvagao?”
“Porque vacé esta sob a ira de Deus.”
“E por que eu estou sob ira de Deus?”
Paulo esta respondendo a esta questo na primeira metade do
seu comentario ao evangelho (1.18—3,20), e ele prossegue em 3.13,
tragando um quadro assustador da raga humana
A garganta deles é sepulcro aberto; com a lingua urdem engano,
veneno de vibora esta nos seus labios, a boca eles a tém cheia
de maldigéio e de amargura; so os seus pés velozes para
derramar sangue, nos seus caminhos ha destruigao e miséria;
desconheceram o caminho da paz. Nao ha temor de Deus diante
de seus olhos. (3.1318)
Que terrivel quadro Paulo esta apresentando da raga humana dos
seus proprios dias. E poderiamos supor que a humanidade de hoje es-
teja de alguma maneira melhor? Seré que a humanidade “progrediu”
em termos de moralidade — como tantos querem nos fazer acreditar? A
Palavra de Deus certamente diria “N&o, nem um sequer!” Podemos até
estar progredindo em certo sentido, mas néo quanto a nossa postura
moral diante de Deus. Nao devemos ousar tratar 0 assustador quadro
de Paulo como se fosse uma abstragao qualquer. E assim que nds, hu-
manos, somos, € é assim que um Deus santo nos vé.
Ora, sabemos que tudo o que a lei diz aos que vivem na lei o
diz, para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpavel
perante Deus, visto que ninguém sera justificado diante dele
por obras da lei, em razao de que pela lei vem o pleno
conhecimento do pecado. (3.19-20)
Paulo esta agora partindo para a concluséo do seu discurso con-
tra os judeus; mas, da mesma forma como ele tem feito desde o
versiculo 9, ele vai progressivamente estendendo sua andlise para
incluir toda a humanidade. Uma vez que nem um sequer, nao impor-
ta se judeu ou gentio, esta guardando a lei de forma perfeita, a unica
conclusao possivel € que toda a humanidade apresenta-se culpada
diante de Deus € sujeita ao um devido julgamento. “Visto que... por
obras da lei..." Paulo esta se referindo ndo apenas a Lei de Moisés,
mas a boas obras de qualquer tipo: “visto que ninguém sera justifi-
cado diante dele por [boas] obras da lei”. O sentido do grego original
é ainda mais forte: “Nenhuma carne jamais sera... nenhuma carne pode-O Mundo Todo: Culpado (3.9-20) 73
ra jamais ser justificada”. Todos aqueles que nao tém a Biblia serao
julgados de acordo com o padrao perfeito de Deus, com base no juizo
que cada um faz dos outros, como vimos em 2.1. Ninguém jamais
podera dizer “segui completamente 0 padrao, de acordo com 0 qual eu
julguei os outros”. E, em seguida, vem o judeu e diz “esta certo, acon-
tece que nés temos a Biblia”. E Deus responde: "£ verdade, mas tam-
bém € verdade que vocé nao a seguiu”. Portanto, a conclusao a que
chegamos € que a nossa situagao é simplesmente cadtica. "Visto que
ninguém [jamais] sera justificado diante dele [de Deus] por obras da
lei, em raz&o de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”
Chegamos assim ao final da apresentagdo de Paulo da “primeira
metade do evangelho”. Ele levou a maior parte do primeiro capitulo,
todo o segundo capitulo e grande parte do terceiro capitulo para nos
mostrar que precisamos da salvagdo. O que ele ainda nao nos con-
tou foi como ser salvo. A palavra salvagdo ocorreu somente uma vez,
em um dos versiculos-chave: “Pois nao me envergonho do evange-
lho, porque é o poder de Deus para a salvacao” (1.16). Quer seja no
mundo grego e romano humanista, quer no humanismo do século
20, por toda parte ouvimos a mesma queixa: “Por que cu preciso de
salvagéo?” As pessoas podem até ter todo o tipo de opinides sobre
se Deus existe ou como ele é se ele realmente existir, mas quando
elas ouvem falar que Deus diz que devem ser salvas, elas geralmente
tém objecdes.
E interessante notar que as pessoas nao rejeitam o Existencialismo ,
da mesma forma como rejeitam o Cristianismo. O existencialista diz
que todas as pessoas estdo perdidas. O existencialista diz que todas
as pessoas estéo condenadas. O existencialista diz que nao ha espe-
ranga alguma. Cinicos € niilistas de todos os tipos dizem que nao ha
esperanca na vida, a vida é complicada, a vida é imposstvel, 0 ho-
mem é um zero a esquerda. E € ai que o Cristianismo difere radical-
mente do Existencialismo e eis porque as pessoas tém uma reagao
assim tao forte contra 0 Cristianismo, mas nao contra o Existencialis-
mo. O Existencialismo diz que o homem é um zero a esquerda e que
esta irremediavelmente perdido. Ja 0 Cristianismo diz que o homem
esta perdido sim, nao pelo que ele é, mas devido a forma pela qual
ele resolveu agir, por livre e espontanea vontade. Se um homem €
condenado pelo que ele é, vocé nao poderia dizer que ele esta errado
~ ele 6 apenas patético. Mas 0 Cristianismo diz que o homem nao é74
patético. Na verdade, o homem é uma maravilhosa criagao de Deus.
Acontece que ele também € um ser rebelado contra Deus € merece a
ira de Deus. O homem nao é um ser patético, o homem é um ser
rebelde. Nao é como se o homem estivesse desesperadamente preso
em uma rede da qual nao tivesse como escapar; ele esta preso numa
rede, certo, mas ele esta l4 por opgao propria. E se homens e mulhe-
res est4o presos nesta rede por escolha propria, diz a Biblia, entéo ha
algo mais em jogo: eles precisam aceitar a responsabilidade, a culpa
por estar ali.
E isso nos leva & segunda parte do evangelho.5
JUSTIFICACAO DEPOIS
DA CRUZ
(3.21-30)
#
m 3.21, Paulo comega a explanar a solugao para a necessida-
de humana de salvacao. Mas, antes que avancemos, é preciso
observar mais uma vez a quantidade de espago que Paulo re-
serva ao que nds temos chamado “a primeira parte do evangelho" - 0
fato de os seres humanos desesperadamente precisarem de salvagao
Nos somos culpados, ndo temos desculpa, carecemos de salvacao; €
nenhum de nés é capaz de salvar-se com base em qualquer boa obra
que tenha realizado. E por que, alguém poderia nos indagar, a nossa
situa¢ao € assim tao desesperadora? Por que é tao impossfvel para nos
encontrarmos a cura em nds mesmos? O nosso pecado nos coloca num
beco sem saida, em razdo de contra quem pecamos. Nos pecamos
deliberadamente contra o santo Deus, é por isso que a nossa situa¢ao
é desesperadora.
As pessoas tém me dito sempre "mas como € possivel alguém ser
eternamente condenado pelo que tenha cometido em uns poucos se-
tenta anos, mesmo que estes tenham sido setenta anos de total perver-
sidade?” O problema nao esta na quantidade de pecados que pratica-
mos, mas em quem ofendemos. Nos pecamos contra um Deus
infinitamente santo, que realmente existe. E, a partir do momento em
que pecamos contra um Deus infinitamente santo, que realmente exis-
te, nosso pecado € infinito
E como se houvesse ai, abrindo-se diante dos nossos pés, um pogo
sem fundo de culpa. Suponha que vocé trouxesse pequenos baldes76 A. Opra CoNsUMADA DE CRISTO _
cheios de justiga (se pudéssemos achar sequer um pequeno balde!):
quantos baldes finitos de justiga seriam necessarios para enchermos
um pogo infinito de culpa infinita? Seria impossivel! Depois que pecamos
contra um Deus infinito, 0 abismo passou a ser infinito e nado ha nada
que possamos jogar neste abismo para preenché-lo.
Entdo, nao ha esperanga? Neste ponto particular da explanagéo de
Paulo do evangelho, sim, néo ha esperanga. Sempre que estamos ex-
planando o evangelho a alguém, chega uma hora em que temos de
dizer: “Nao, nao ha esperanga para vocé". E nao podemos admitir ne-
nhum desvio desta dura realidade. Nao devemos deixar nenhuma bre-
cha, por minima que seja, para humanismo ou egoismo. Nao pode existir
esperanga, qualquer coisa positiva ou negativa, interna ou externa, boa
obra piedosa ou boa obra moralista. Ndo se deve deixar espago para
nenhum fio de esperanga, se quisermos estar transmitindo o que a Bi-
blia ensina. As pessoas necessitam de salvagdo porque elas estao to-
talmente sob a ira de um Deus santo. Nao ha nada que qualquer ser
humano possa lancar no seu poco pessoal de culpa. Nao ha nada mais
que um profundo buraco sem fim.
Neste aspecto particular, o Cristianismo € o Existencialismo moder:
no convergem, O Existencialismo moderno diz que “o homem esta con-
denado” e a Biblia diz que “o homem esta condenado ao inferno”. A
unica diferenga é que, na condenacao existencialista, nado existe mes-
mo esperanga alguma; mas, gragas a Deus, a Biblia prossegue dai para
frente, dizendo em 3.21—4.25 "Sim, ha uma esperanca abrangente! Ha
uma solucdo!”"
Esta € uma boa oportunidade para recordar mais uma vez nosso
versiculo-chave: "Pois ndo me envergonho do evangelho, porque é o
poder de Deus para a salvacéo” (1.16). Tendo demonstrado a busca
universal pela salvacdo, Paulo passara agora a nos mostrar onde se
pode encontrar tal salvagéo. Em 3.21-30, Paulo iré explicar-nos como
aqueles que viveram a partir dos dias de Cristo podem achar a Salva-
cdo. Em 3.31—4.22, ele mostrara como as pessoas que viveram antes
dos dias de Cristo encontraram a Salvacdo. Entao, em 4.23-25, ele co-
locara estas duas eras da humanidade lado a lado. Da mesma forma
como ele apontou a culpa dos gentios (1.18—2.16), e, em seguida, a
dos judeus (2.17—3.8), € as articulou para mostrar que toda a humani-
dade esta sob a ira de Deus (3.9-20), agora ele mostrara 0 caminho da
salvagao de todos quantos viveram depois de Cristo (3.21-30) e, logo a__Justificagio Depois da Cruz (3.21-30) 7
seguir, de todos aqueles que viveram antes de Cristo (3.31—4.22).
Em seguida, ele colocara estes dois grupos mais uma vez lado a lado
(4.23-25). E uma seqiiéncia légica.
Comecemos por 3.21: se toda a humanidade esta condenada, se
todos se encontram sob a ira de Deus, se néo ha pequenos baldes de
justiga que possam servir para tapar o pogo infinito da culpa, entaéo
como pode alguém ser justificado?
A resposta é simples e maravilhosa.
Mas agora, sem lei, se manifestou a justiga de Deus... (3.21a)
Assim que Paulo comega a fornecer a sua resposta, percebemos um
nitido contraste com o verso anterior: “visto que ninguém sera justifi-
cado diante dele [de Deus] por obras da lei... Mas agora, sem lei, se
manifestou a justiga de Deus..." Vocé esta percebendo a nitida linha de
pensamento que se esta seguindo aqui? Aqui esta um meio de sermos
justificados por Deus, apesar do fato de todos nés termos sido rebel-
des. Aqui esta uma possibilidade de sermos justificados por Deus, nao
importando se fazemos parte das pessoas com ou sem a Biblia. Mesmo
que Os nossos coragées estejam constantemente nos condenando. Mes-
mo que nao tenhamos nada de bom a oferecer.
Mas agora, sem lei, se manifestou a justiga de Deus testemunhada
pela lei e pelos profetas. (3.21)
Lembra-se de como Paulo comega em 1.2, mostrando que o seu
ensinamento nao é exclusivo dele ou do Novo Testamento, mas se
encontra no Antigo Testamento? E de como ele demonstrou, mais
uma vez, em 3,10-12 a continuidade que havia entre os seus ensi-
namentos e€ os do Antigo Testamento? Paulo cita o Antigo Testa-
mento mais uma vez aqui. O Antigo Testamento, da mesma forma
que 0 Novo, mostra a condi¢do perdida da humanidade e os meios
de salvagaéo da humanidade. Néo ha nenhuma linha divisoria a ser
tragada entre o ensino basico do Antigo ¢ do Novo Testamento. A
Biblia representa um todo unificado.
Eis af a razo por que estamos autorizados a referir-nos a “tradi-
co judaico-crista”. Este terminologia é totalmente apropriada. Nos
n&o cremos apenas no Novo Testamento, Nos também cremos no
Antigo Testamento. Um cristéo verdadeiro, que acredita na Biblia,
esta lao interessado em ler o Antigo Testamento quanto esta em ler
o Novo. Os dois encerram uma tinica mensagem, uma completa uni-A Osra CONSUMADA DE CRISTO _
dade. Nao ha duas religides, a religiao do Antigo Testamento e a do
Novo Testamento: ha uma s6. Da mesma forma como o Antigo Tes-
tamento, em consonancia com o Novo, insiste que todas as pessoas
sdo moralmente corruptas, em si mesmas e por si mesmas,
semelhantemente também o Antigo Testamento e 0 Novo Testamen-
to nos dizem que existe uma “justiga de Deus... sem lei”
Justiga de Deus mediante a fé em Jesus Cristo... (3.22a)
Esta, diz Paulo, € a resposta. Ele mostrara o caminho pelo qual
homens e mulheres limitados tém a possibilidade de ser justificados
aos olhos de Deus. A justificagéo se da para homens e mulheres
pecadores, quando Deus deciara que a culpa foi paga por meio da
obra consumada de Jesus Cristo. Por causa do sacrificio de Jesus
Cristo na cruz, Deus declara que nds somos justificados.
Note que eu disse que Deus “declara” que nossa culpa esta extinta.
A palavra declarar € de suma importancia. Ela aparecera muitas vezes
ainda no nosso estudo da justificagao, de 3.21 até 4.25. Deus nado
“infunde” em nds a justicga. Nao se trata de algo forgado para dentro de
nos, Deus faz uma declaragao legal. Nossa culpa diante de Deus é um
caso juridico. Quando alguém que nao foi salvo comparece para jul-
gamento diante de Deus, Deus declara 0 seguinte veredicto: “eu o de-
claro culpado”, Essa é uma declaragdo estritamente judicial. Da mes-
ma forma, a justificagaéo também representa um ato judicial. E
deviamos ser as pessoas mais gratas do mundo, pelo fato de termos a
possibilidade de passar por este ato judicial prévio, antes de termos
de encarar a Deus no dia do jufzo. Jé somos portadores da declaragao
divina de que somos culpados, 0 que nos faz merecedores da sua ira.
Mas, com base na obra consumada de Cristo, Deus pode nos declarar
justificados. Ele pode declarar que a nossa culpa ja foi apagada
© que ocorre quando vocé aceita Jesus como seu Salvador, em
primeira e mais elevada insténcia, € que Deus emite uma declara-
co; e a declaragao € esta "Francis Schaeffer [ou o seu proprio nome],
eu © declaro justificado, Se cu fosse julga-lo com base em vocé ter
quebrado os seus proprios principios morais, vocé seria declarado
culpado, com toda a justiga e adequagao. Mas, baseado na obra de
Jesus Cristo, a sua culpa foi apagada. O prego esta pago”.
A salvagao é, antes de qualquer coisa e acima de tudo, uma ques-
tao de direito, jA que esta relacionada 4 nossa culpa diante de Deus.
Mais adiante, em Romanos 5—7, estaremos aprendendo que a sal-Justificagiio Depois da Cruz (3.21-30) 79
vacgéo assume outro aspecto ainda nesta vida presente. E em segui-
da, no capitulo 8, ficaremos conhecendo as maravilhosas perspecti-
vas futuras da salvacéo. Mas a primeira grande descoberta que faze-
mos é que a salvacgaéo remove nossa culpa. Deus declara que “a sua
culpa ja esta apagada”
“Com base em qué Deus nos declara justos, ou livres de culpa?”
Com base apenas na obra consumada de Jesus Cristo. Deus continua
sendo 0 Deus da justiga. Ele nao diz "nao ligarei para o seu pecado”, ow
“farei vista grossa para o seu pecado”. Este tipo de atitude colocaria
Deus em um nivel inferior a perfeigao. Ele estaria agindo de uma forma
arbitraria e relativista. Mas porque Jesus pagou a penalidade pelo nos-
so pecado, Deus pode nos declarar justos.
Justiga de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre
todos] os que créem... (3.22a)
Isso nos deveria lembrar de algo que jd se encontrava no nosso
versiculo-chave "... 0 evangelho... € 0 poder de Deus para a salva-
Gao de todo aquele que cré” (1.16). © evangelho, como notamos, é
universal; isso nado vale so para Israel, mas igualmente também
para o mundo dos gentios. Ha ai, entretanto, um fator limitador:
isso sO vale para os que créem. Esta justiga de Deus, que nos é
acessivel gragas a Cristo, esta acessivel apenas “para todos [e so-
bre todos] os que créem”.
.. porque nao hd distingdo, pois todos pecaram.., (3.22b-23a)
No meio do que parecia ser 0 ponto alto do seu serm4o evangelistico,
Paulo retoma a crucial “primeira metade" da sua mensagem ~ pois
ele esta se dando conta de que o evangelho nao tem sentido, a néo ser
que a pessoa realmente perceba o tamanho de sua culpa diante de
Deus, de fato e em profundidade. Nao adianta perguntar a alguém
“voc nao deseja ser salvo?”, a menos que aquela pessoa saiba 0 quéo
desesperadamente ele ou ela necessita de salvagdo. Sem esta percep-
gao profunda desta caréncia, todo e qualquer esforgo evangelistico
nao sera mais do que perda de tempo. Se os judeus ou cristéos nomi-
nais comparecem a um encontro evangelistico, convencidos de que
Deus os admitira pelo simples fato de que eles fizeram o melhor que
podiam; se um cientista crist4o comparece pensando que sera ad-
mitido, s6 por causa das boas idéias que teve; se os catélicos-roma-
nos comparecem, achando que poder&o encontrar o seu caminho