Edição Crítica do Cancioneiro da Ajuda
Edição Crítica do Cancioneiro da Ajuda
CANCIONEIRO DA AJUDA
't'
EDIO CRITICA E COl\H\lENTADA
POR
VOLU1viE II
INVESTIGOES BIBLIOGRAPHlCAS, BIOGRAPHICAS E HISTORICO- LITTERARIAS.
HALL~~ A.
S.
l\IAX NIEMEYER
1904.
SlJA 1\IAJESTADE
A R1\INHA DE PORTUGAL,
. SENHORA
D. MARIA AMELIA
A AUTORA.
Resenha Bibliographica.
Suum
cuiq~.
que publico em edio critica, precioso documento da historia social e litteraria da pennsula nos .sec. XIII e XIV, j foi impresso. Coube-lhe at a vantagem de ser o primeiro entre os escriptos medievaes portugueses, tirados a lume na fecunda reTiso das litteraturas romanicas, iniciada no 1o quartel d'este seculo. Da edio feita em 1823, e de outra posterior, occuparam-se numerosos e illustres escriptores, entre nacionaes e estrangeiros, que todos reconheceram nas poesias que encerra, o estylo dos trovadores provenaes. Todos foram tambem unanimes em refer-los primeira poca da litteratura, chamada Era de D. Denis, unico monarca a respeito do qual sempre tinham corrido vagos boatos litterarios. Sobre os limites d'essa era, o auctor ou os auctores do Cancioneiro, suscitou-se todavia longa e douta controversia, de curiosa evoluo, visto que os litigantes tiveram de modificar as suas opinies, medida que foram surgindo, de 1843 para c, noticias pormenorizadas sobre outras colleces de versos gallaico- portugueses, descobertas na Italia e que derramaram luz cada vez mais intensa sobre os textos da compilao anonyma. Cumpre-me por isso principiar, registando as publicaes mais notaveis, relativas a todos esses monumentos, para melhor orientao do leitor, e dar conta, resumidamente, tanto dos servios prestados, como dos pareceres emittidos por mestres como Raynouard e Diez, e eruditos eminentes como Bellermann, Varnhagen, 'Volf, Storck; Joo Pedro Ribeiro, Ribeiro dos Santos, Rivara, Alexandre Herculano, F. Adolpho Coelho, Theophilo Braga; Ernesto 1\Ionaci, Cesare de Lollis; Paui Meyer, Alfred Jeanroy; Henry R. Lang, e varios outros, que se occuparam dos trovadores de c. A fim de no inculcar ideias menos exactas na mente de quem me lr,
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O Cancioneiro
preferi todavia dar a esta exposio caracter no meramente pragmatico. Por conveniencia practica poderamos dividir a historia da explorao em tres perodos. O 1 o abrange quasi meio seculo, de 1800-1849; o 2do alcana at 1875; o 3o dever expirar nu anno em que sahirem estas paginas.
2. Completamente occulto por espao de seculos, e encoberto mesmo depois de haver dado entrada numa bibliotheca official da metropole, a do Real Collegio dos Nobres, o vetusto monumento foi tirado do seu esconderijo no comeo do nosso seculo por um intelligente reitor d' aquella casa, e do Conselho de S. M.
Ao Dr. Ricardo Raymundo Nogueira, lente jubilado na faculdade de leis e homem de grande influencia, por ter sido um dos governadores de Portugal, emquanto D. Joo VI, assustado com a invaso napoleonica, estacionava no Rio de Janeiro, cabe o merito de haver chamado, com fervor desinteressado, a atteno dos crculos mais cultos de Lisboa, i. . da Academia Real das Sciencias, para estes textos de poesia vulgar. Entre os sabios e curiosos que manusearam o volume na livraria do Collegio, graas sua obselj_Uiosa amabilidade, nomearei apenas aquelles dois que confessaram publicamente os favores recebidos, e a elles responderam com factos.
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4 Vol. in 4to. - Cap. II: Da Poesia portuguesa no sec. XIII. Noticia de um Cancioneiro inedito. - Antes do 1818. 1)
Neste estudo o auctor descreve rapidamente o codice, com alguns descuidos que posteriormente teem sido repetidos freqUentes vezes (como_o de chamar maiuscula a lettra). Em seguida d ideia do seu valor litterario, na previso que no seriam im1teis as noticias que fornecia pela primeira vez. Os primeiros ramos de cada trova ou rimance so, segundo elle, menos versos do que prosa, porque no guardam regularidade alguma de medida. Parecem obra muito archaica, pela linguagem, que o dialecto portugus-galliziano, fallado na provincia de Entre Douro e l\Iinho nos primeiros seculos da monarchia. Trazem bastantes termos e modos de dizer, extinctos de ha muito, mas de que ha exemplos no Poema do Cid, nos versos de Berceo e nas Cantigas de Alfonso o Sabio. Cotejada com a do Cancioneiro de Resende, a versificao muito mais irregular e rude. Divisam- se nella os esboos de uma poesia nascente, produco do seculo XII ou XIII. Julga o relator que as canes so todas de um unico poeta., tarn bem a uma s dama que amava extremamente e de quem era mal correspondido. Fallando quasi sempre do mesmo assumpto, varia engenhosamente as suas ideias, com fecundidade de invenes. Para demonstrao, Ribeiro dos Santos aproveita trechos, que parecem relacionar- se com episodios do romance do poeta: a cantiga da monja de Nogueira; as que teem alluses s tres damas de nome J oanna, Sancha ou :Maria; filha de Dom Paay Moniz; a [Link]; sua estada fra de Hespanha, etc. No fim copia as poesias da 1 e da ultima folha. Da Carta-proemio do ~Iarqus de Santilhana ao Condestavel de Portugal, em que pela primeira vez se havia tratado da antiga lyrica peninsular 2) e da preponderancia da Galliza na pennsula at ao sec. XII, j dissera num capitulo anterior. 3)
1) Bibl. Nac.: Obras de Ribeiro dos Santos, Vol. XIX p.178-183. O capitulo que se refere ao segundo Cancioneiro inedito foi por mim publicado recentemente. Vid. Uma Obra Inedita do Condestavel de Portugal, Madrid 1899. - Extracto del Homenaje Menndex, y Pelayo en el afo vigesimo de su profesorado. Estudios de e1udicion espanola.- Cf. Innoc. da Silva, Dicc. Bibliogr., Vol. I p. 254 No. 1384; e 1354. 2) Vid. Cap. II 94 e Cap. V. 3) Memmias de Litteratzera, Vol. VIII p. 246: Da Poesia portuguesa nos sec. XII e XIII. - Contm noes justas, de mistura com apreciaes falsas. 1*
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4. desconhecida a data exacta d' este primeiro ensaio, destinado certamente a sahir nas JJfemorias de LitteratU'ra da Academia, onde Ribeiro dos Santos, um dos socios fundadores, havia publicado varios estudos desde 1779. Ignoro por tanto se anterior ou posterior resoluo d' este estabelecimento scientifico de publicar o Cancioneiro.
Em Junho de 1815 os academicos j tinham incumbido commisso da lngua portuguesa, continuadora eleita do mal fadado Diccionario, a reimpresso do Cancioneiro de Resende, com a clausula estranha de, compilando-o em melhor ordem, ,inserir nos Jogares competentes(!) as poesias do outro, mais antigo, existente na Livraria do Collegio dos Nobres", obtida a auctorizao prvia do Governo. Deu parte d' este singularissimo intento o [Link] da [Link], asseverando: ,que d' estes nossos Cancioneiros e dos Romanceiros de Hespanha se v que nenhum povo na Europa cultivou tanto e to cedo, como o das Hespanhas, esta nova poesia de trovas e romances!" E ainda, ,que D. Denis fra pulidor e enriqnecedor da lngua, C01!11Jondo versos e trovas qt;e emparelham, se no excedem as dos poetas provenaes". Vae sem dizer que o informador nunca lera uma s linha do trovador coroado, repetindo simplesmente os dizeres da fama, - deusa que os academicos de ento acatavam ainda com exagerada boa f.l)
2. Jos Bonifacio de Andrada e Silva, - Discurso contendo n histmia da Academia Real das Sciencins desde 25 de Jzmho de 1814 at 24 de Junho de 1&15; em Histor'ia e .llfemorias da Acad. R. das Sciencias, Vol. IV, Parte 2da p. 14.- Anno 1816. 2)
5. O inexequvel plano gorou-se. verdade que a licena foi concedida. Um anno depois, na sesso publica de 24 de Junho, relatava-se que o reitor do Collegio se havia encarregado de obter a faculdade para entregar o Cancioneiro, e que o Snr. Joo da Cunha Taborda se offerecera para o copiar, ficando com a incumbencia de dirigir os trabalhos Joaquim Jos da Costa de Macedo.
3. Francisco de Mello Franco, - Discurso recitado etc. em Hist. e Mem. da Acad. R., Vol. V, Parte ta p. XXIV.- Anno de 1817. 1) I n p e tt o considemva muito provavelmente como tmbalho individual de D. Denis o Cancioneiro do Collegio dos Nobres. 2) Nos Discursos anteriores no encontrei referencias ao Cancioneiro.
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6. Passados mais dois annos, dava-se a copia como prompta. Louvando os socios, o conferente dizia: ,J colhemos novos fructos d' este seu louvavel zelo, possuindo acabadas as copias do Cancioneiro Velho que existia (sic) na Livraria do Real Collegio dos Nobres e de que j se deu parte em outra sesso publica.''
4. J. B. de Andrada e Silva,- Discurso historico recitado na Sesso publica de 2-1 de Junho de 1818; em Hist. e lllem. da .Acad., Vol. Vl, Parte ta p. V.- Anno 1819.
de casa e vagarosos aprestes perdia no s o tempo, mas ... at o treslado do codice, um nobre estrangeiro, que havia residido muitos annos em Portugal como Embaixador do governo britannico, teve influencia e curiosidade sufficiente para mandar tirar um novo treslado. Pode ser tambern que adquirisse outro, executado a pedido de um seu conterraneo, parente de Herbert Hill, memLro dos mais intelligentes da feitoria inglesa de Lisboa. Fallo de Robert Southey, o notavel poeta e historiador, 1) enthusiasta pelas cousas de Portugal e Hespanha desde a sua viagem atravs da pennsula (175-6). 2) ~las ainda no contente de poder incorporar mn apographo do Cancioneiro na sua opulenta livraria, Lord Charles Stuart de Rothesays) o fez imprimir sua custa cm Paris, na typographia particular da embaixada. Est claro que sem intuito commercial. Os 25 exemplares de que dizem constava a edio, foram distribudos entre outros tantos homens de sciencia, seus amigos de Frana e Portugal. 4)
5. Fragmentos de lntm Cancioneiro lned-ito que se acha na Livrmia do Real Collegio dos Nobres de Lisboa. Impresso custa de Carlos
1) Griizmacher que affirma (Jakrbuch Vl352) ter visto na Bibliotheca de Berlim a cpia de flue Lord Stuart se serviu, tirada por ordem de Southey, ignoro quando. A acquisit,:o foi feita provavelmente em 1855, no leilo da livraria de Lord Stuart.- Cf. Diez, Kwzst- 'ltnd Hofpoesie p. 16. 2) Sobre a descrip:o da sua viagem v. Foulch-Delbosc, Revue hispanique V, No. 208. 3) Rothsoy, Rothsey, Rothsay so formas inexactas, flue occorrem frefJentemente na litteratura fJUe historio aqui. 4) O exemplar de que me servi pertence Bibl. Real da Ajuda. Posteriormente tive outro mo 11ara verifica5es, proveniente do espolio de um bibliO}Jhilo portuense, o Dr. Vieira Pinto, e propriedade do illustre poeta Joaquim de Araujo.
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Stuart Socio da Acad. Real de Lisboa. Em Paris, no Pao de Sua Magestade Britanica. Em 4to gr. - 1823. 1}
8. O rarssimo volume consta de 72 folhas, sendo de preliminares e innumeradas as tres primeiras i. . o frontispicio, uma curta Noticia do lJis., e um imperfeito fac-simile. Encerram o texto as 69 que seguem, numeradas de 41-108, tendo intercalada entre a 102 e 103 outra que no original precedia a primeira, como folha de guarda; com mais uma, innumerada, no fim. A estranha pagina.o representa a que constitua a do Cancioneiro, pr:ecedido (como contar-se-ha) de 39 folhas de um Nobiliario e mais a folha avulsa a que acabo de referir- me. Lord Stuart estava de f que a reproduco manuscripta era no s integral e fidedigna, mas rigorosamente diplomatica, e tinha . dado ordens para a impresso o ser tambem. Infelizmente, a realizao no correspondeu por inteiro ao ideal planeado. O amanuense paleographo, encarregado da cpia (quem quer que fosse) no leu sempre bem, por no comprehender surficientemente os textos, de modo que os crivou de erros. 2) Tampouco imitou com rigor a disposi.o graphica das cantigas de sorte a produzir pelo menos um decalque materialmente fiel do Ms. De genio economico, supprimiu as paginas e meias paginas em branco, assim como os claros entre cantigas e estrophes, e transferiu fragmentos e poesias inteiras de uma columna para outra. D' este modo alterou o aspecto geral e reduziu a paginao em 7 folhas, das 75 de tlue ento constava o velho pergaminho, (numeradas de 41-114, com excluso das duas colladas contra a capa e que hoje esto numeradas 115 e 116). Imprimiu como princpios de cantiga certos remates, originariamente providos de toadilha musical independente, que accompanham algumas composies; no reparou nas vinhetas es1) No catalogo da Livraria de Lord Stuart, rica de 4323 lotes, o apographo (No. 583) tem o titulo Cancioneiro inedito em Portuguex,- Gallix,iano que parece ser obra do sec. XIII, ms., being a faithful transcript from tlte original in the library of the Real Collegio dos Nobres at Lisbon.O exemplar impresso No. 494. - Vid. Catalogue of the valuable library of the late right honourable Lord Stua'rt de Rothesay, including 'mamJ illltminated and important manuscripts, chiefly collected during many years residence as british ambassador at the courts of Lisbon, Nadrid, Tli.e Bague, Paris, Vienna, St. Petersburg and Brax,il, which 'loill be sold by auction .... on thursday the 31Bt day of May 1855. 2) No reproduzo a lista que organizei, mas ponho-a disposio de quem tiver interesse em v -la.
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boadas ou projectadas, que se notam de longe em longe; e dividiu mal os grupos de poesias. D' esta arte illudiu os criticos, que da continuao quasi ininterrupta dos textos tiraram illaes a favor de um s auctor. Confiados na absoluta fidelidade paleographica da reproduco, deixaram tarnbem d' ahi em deante de recorrer ao original! 9. Eis a lista das principaes divergencias na disposio graphica e typographica: F. 48v. - Os cinco versos collocados por Stuart na col. 2.. deviam estar na 1, enchendo ahi as linhas 14- 30, mas com intervallos de tres, reservadas notao musical. F. 53. - Antes das palavras da cantiga 58 Por Deus haviam de estar em branco 17 linhas, destinadas para urna vinheta. O texto principia no original na linha 21. A 1 colurnna termina em desan par. A 2 apresenta por isso um aspecto totalmente diverso: duas estrophes e meia espessas, e no fim a estrophe inicial da cantiga 59 com os intervallos competentes. F. 53v.- Ainda aqui o agrupamento differe; no ha espaos em branco entre as copias. A estrO})he inicial do No. 60 pertence ainda 1.. col. Antes da cantiga 61 h.a um vacuo onde caberia perfeitamente a estrophe supplementar que se encontra em outro cancioneiro portugus (O Cancioneiro Colocci-Brancuti). F. 54.- Falta a indicao do espao reservado para a vinheta. F. 54v.- Esta meia-folha devia estar vazia. De 54v a 64v ternos })Ortanto um adiantamento de meia- folha. F. 55. - No se apontou a existencia da vinheta. De 65 a 7 5 lavra differcna na irnportancia de urna folha inteira, por Lord Stuart no tr deixado em branco o verso da f. 65. De 75 a 78 ha differena na irnportancia de folha e meia pela mesma razo: a f. 76v est em branco no original. De 78v a 81 ha differena de duas folhas, porque 80r est em branco no original. De 81 v a 84 a differen.a de tres, por 83v e 84r estarem em branco no original. De 84v a 85v ella de tres e meia, por 87v estar em branco; na 86v de quattro, por 88v estar em branco; de 86v a 89v de 4 1/ 2 por 90v estar em branco; de 90 a 94 de cinco, por causa de 94v; de 94v a 100 de 5 1/ 2 por causa de 99v; de 100v a 103v de seis por causa de 103; de 104 a 108 de 6 1/ 2 por causa de 109; em
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108v de 7 por 114v estar em branco. A ultima folha innumerada (a 116) foi descollada da pasta direita, qual servira de forro. A 115, pegada na outra metade da pasta, no foi aproveitada para a edio. A lista junta dar ao leitor ideia mais adequada das alteraes numericas:
Num. de Stuart Num. do original Num. de Stuart Num. do original Num. de Stuart Num. do original
41
v
41
v
64
v
42
v
42
v
v 65
66 v
87
v
91V 92
v
65
v
66 v
88
v
43
v
43
v
67
v
89
v
44
v
44
v
67
v
68
v
90
v
93 93T 94 95
v
45
v
45
v
68
v
69
v
91
v
96
v
46
v
46
v
69
v
70
v 71 v
92
v
97
v
47
v
47
v
70
v 71 v
93
v
98
v
48
v
48
v
72
v
94
v
49
v
49
v
72
v
73
v
95
v
99 100
v
101
v
50
v
50
v
73
v
74
v
96
v
102 102n
v v
51
v
51
v
74
v
75
v
97
v
52
v
52
v
75
v
76
77 v
98
v
103
v
53
v
' 53
v
76
v
78
v
99
v
54
v
54 55
v
77
v
79
v
100
v
55
v
78
v
101
v
56
v
56
v
79
v
80 81
v
102
v
107
v
57
v
57
v
80
v
82
v
103
v
58
v
58
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81
v
59
v
59
v
82
v
83 84v 85
v
104
v
105
v
60
v
60
v
61
v
83
v
86
v
106
v
112
v
61
v
62
v
84
v
87 88
v
107
v
113
v
62
v
85
v
108
v
63
v
63
v
86
v
64
89 90 91
109
114 116
10. O prefacio informa incompletamente e nem sempre seguramente sobre o codice, cingindo-se, como o leitor reconhecer, em alguns pontos s opinies de Ribeiro dos Santos, que no nomeia. Diz que o Cancioneiro est interpolado: comeando de apparecer na primeira folha, como parte de obra antecedente (quer dizer que principia com a folha numerada 102a) 1) logo -interrompido por um Nobiliario que se mette de permeio, 2) tornando a apparecer depois de elle acabado. O Cancioneiro talvez do tempo de D. Denis, sendo o Nobiliario mais moderno. A lettra, r1ue maiuscula (sic), parece ser do sec. XIV ou XV. O idioma, mais antigo que os caracteres, do sec. XIII, e decerto anterior ao reinado do monarca-trovador. As primeiras estrophes so prosa; as seguintes so realmente versos com medidas assaz certas e regulares. 11. Em substituio d' esta Noticia (ou como Post-seriptum) costuma accompanhar os exemplares de Stuart uma Advertencia, um pouco mais extensa, impressa em 1824 eu 1825 em folha solta. 3) Ambas so obra de um benemerito luso-francs, intelligente e sympathico industrial, que nas horas vagas se dedicava a assumptos litterarios. 4 ) Socio da Academia, em cuja fundao ajudra ao Duque de Lafes, relacionado com Raynouard, cuja Ode a Cames traduziu, Timotheo Lecussan Verdier viveu expatriado em Paris de 181 n- 182 3' dirigindo ahi edies de livros portugueses.
Na Adve1tencia amplia e detalha um pouco a descripo do codice, emendando tacitamente alguns erros, e repetindo outros. Do_ aggregado ele duas obras to diversas em assumpto e estylo, como o Nobiliario e o Cancioneiro, tira a concluso surprehendente ... que no so coevas, nem mereceram a quem as juntou egual apre.o!
1) Affirma o editor que esta folha de guarda se acha na impresso a foi. 103. Como se v da tabella comparativa, deveria ter dicto ,depois de foi. 102 do original." 2) Diz que o Nobiliario vae de foi. 5-40. Leia-se: de foi. 2-40. 3) A noticia foi distribuida antes da transferencia do Cancioneilo para a Bibliotheca da Ajuda. 4) Vid. Panorama, 2da Serie; Vol. I p. 407; Dicc. Bibliogr. de Inn. da Silva Vol. II p. 317 e Vol. VII p. 370-374; Visconde de Juromenha, Obras de Cames, Vol. I p. 213; e principalmente Actas das Sesses da Academia Real das Sciencias 1849 p. 50. Ahi se affirmou perante a Academia inteira que Lord Stuart aproveitou os talentos e conhecimentos da lingua portuguesa de que dispunha o francs Lecussan Verdier,
10 Algumas poucas canes parecem vertidas de trovas provenaes. Na linguagem encontram-se gallicismos. O metro predominante prova que Faria e Sousa tinha plena razo ao insurgir-se contra os que reivindicavam para o quinhentista Garcilasso a introduco dos hendecasyllabos na peninsula. Aponta para as notas ao Nobiliario do Conde de Barcellos, nas quaes o mesmo polygrapho chamra em 1646 (Madrid) a atteno do publico para seis trovadores, mencionados naquellas prosas antigas ,de quasi 400 annos uns, e de mais de 300 outros".l) Allega que muito mais antigos eram os versos de Gonalo l!ermignes, excellente poeta portugus, que florescia pelos annos de Christo 1090. Infeliz lembrana, porque aquella daninha entidade legendaria (de brao dado com Egas J.l!onix, JJfendo Vasques de Briteims, e mais personagens fabulosas, em cujo nome os falsarios do tempo das mudanas haviam espalhado metros, rimas, vocabulos e pensamentos estupendos) tornou a levantar a cabea com dobrado arrojo, desde que pelo cancioneiro ficou provada a existencia d'aquella antiga poesia gallaico-portuguesa, a cujas invenes subtis e graciosas palavras o Marqus de Santilhana se referira no sec. XV. 2)
guintes:
6. Raynouard no Journal des Savants p. 485-495 domes de Agosto de 1825. 7. Diez na Revista Berliner Jahrbcher fr wissenschaftliclte Kritik. No. 21 e 22.- Fevereim de 1830. 8. Joo Pedro Ribeiro, Reflexes filologicas. No. 2 p. 5. Coimbra 1835; e No. 5 p. 18. 1836. 1) Vid. Cap. V. 2) O principal culpado foi por ventura Ribeiro dos Santos. Tendo se occupado longamente d' estas relquias apocryphas em cuja authenticidade acredita, as cornmentou ,com muita erudio" numa das suas Memorias: Dos mais antigos monumentos da poesia portuguexa nos sec. XII e XIII no Jornal da Sociedade dos ..A:migos das Letras. Vol. 1836, No. 2. Ri vara enalteceu-as, no Panorama, 2da Serie, Vol. I p. 406. Costa e Silva no seu Ensaio tece elogios a algumas, regeitando outras. Th. Braga defendeu-as repetidas vezes de 1867 at hoje, introduzindo- as no seu Cancioneiro popular. E ainda neste anno de Jesu- Christo continuam em Portugal e Galliza a irnpl-as devoo dos leigos, em livros de instruco official e extra-official. A critica illustrada de J. Pedro Ribeiro, Diez e alguns outros sabios ainda no surtiu effeito. Por isso mesmo dever meu tornar sempre de novo ao assumpto.
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9. Joaq. H. da Cunha Rivara, no Panorama, 2da Serie. Vol. I p. 406. Lisboa 1842. 10. J. da Cunha Neves Carvalho Portugal, Noticias de alguns trovadores portugueses e gallegos nos primeiros seculos da monarchia e de suas poesias, considerados como elernentos de progresso, no Panorama, 2da Serie. Vol. III p. 72-78 e 325-340.- Anno 1844. 1 )
13. O precursor de Diez restringiu-se a accentuar a importancia lingistica e litteraria dos novos textos romanicos, considerando-os anteriores ao Conlie de Barcellos, e muito provavelmente da poca de D. Denis. 14. O mestre, a cujo alcance no estava nenhum dos exemplares (a ponto de se vr obrigado a mandar tirar um treslado sobre o de [Link]) baseando-se na notavel monotonia das 260 canes, suppe, como Ribeiro dos Santos~ que todas seriam de um s auctor, cujo nome, inscripto no principio do codice, se perdeu. Se fossem varios os poetas, encontrariamos seus nomes frente do cancioneiro parcial de cada um, tal qual acontece nas compilaes da Provena e Allemanha e nos cancioneiros peninsulares dos seculos XV e XVI. Diez aventa ainda a hypothese que o auctor seria o Joan Coelho, nomeado em uma das trovas; 2) e refere eerta alluso a um Rei de Castella e Leon 3) a Alfonso X., o liberal fautor da musa [Link]. 15. primeira these sobre a unidade das cantigas adheriu o auctor das Dissertaes chrorwlogicas, dirigindo, alm d' isso, observaes sensatas sobre a importancia do cancioneiro aos continuadores do Diccionario da .Academia. Distinguindo entre a idade do pergaminho, que suppe do sec. XIV, e a do auctor, que colloca no sec. XIII, Joo Pedro- Ribeiro fixa as datas 1230-1252, por julgar devam referir-se a Fernando III. as alluses ao soberano de Castella e Leon. Aponta concordancias entre o vocabulario das trovas e os documentos do reinado de Affonso III. e prope uma
1) Desconheo um artigo do grande romancista e diplomata hespanhol D. Juan Valera que dizem escripto em 1827. Tambem no vi outro de Silva Leal, datado de 1843 que encontrei citado. Villemain no Cours de littrature frnnaise, Bruxelles 1840 (p. 677) suppe o Cancioneiro descoberto por Lord Stuart na Bibliotheca de Coimbra! Ainda ha mais vestgios do interesse que a publicao despertou entre os cultores das lettras como p. ex. a Carta do Bispo- Conde Fr. Francisco de S. Luiz ao Dr. Ant. Nunes de Carvalho que transcrevo nos Documentos. 2) CA 89. 3) CA 26.
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serie de emendas. Com todo o direito taxa de mediocre paleographo o que transcreveu o texto a favor de Lord Stuart. Eborense, adopta o mesmo parecer. Conta que houve quem reparasse no titulo Cancioneim, como improprio para obra de um unico auctor. Prova que certas palavras archaicas, como chus (= plus), fre(1entes ainda em escripturas do principio do sec. XIV, no se encontram facilmente depois de 1330. E faz-se eco da opinio geral que lamentava a raridade da edi~o privilegiada e a nimia fidelidade da reproduco, censurando o editor por ter conservado toclas as abbreviaturas e no separar- palavras conjugadas, nem ligar as que andavam repartidas em syllabas, para a solfa, embaraando d' este modo inutilmente a leitura. Finalmente exprimiu o voto que outra edio substituisse de prompto aquella raridade bibliographica.
Biblioth~ca
17. Prestando ouvido attento a estas vozes Joo da Cunha Neves Portugal preparou-se a realizar o justo desejo. Estudou as litteraturas romanicas, com affinco, mas naturalmente sem conhecimento bastante dos problemas l'hilologicos e litterarios. 1) No seu ensaio disserta tanto sobre a origem commum como sobre a admiravel semilhana das linguas neo-latinas. Apresenta amostras poeticas das principaes, comparando-as com algumas das trovas gallaico-portuguesas. Com relac;o idade do Cancioneiro, declarado por Verdier muito anterior ao Conde D. Pedro de Barcellos, tanto pela linguagem como pelo [Link] e metros, conclue que o auctor da colleco, ou ao menos da maior parte d' ella, com bom fundamento se podia suppr do tempo de Sancho I de Portugal.
18. Alm d' estes estudos impressos existe outro inedito que merece registar-se, escripto entre 1825 e 1847, 2) por D..Joo da Ann unciada (t 184 7).
no.
D. Joo da Annunciada, Historia da Litteratura. poetica portuguexa desde as origens at JJii'guel do Couto Guerniro. - Ms. da Bibl. d' Evora, 556 pag. in 4to. Vid. Cap. XXVIII }J. [Link] entre os annos de 1825 e 18-!7.
Conego regrante de sto Agostinho, e depois da extinc-o das ordens monasticas conego da S de Evora, 3) este erudito muito
1) Tambem presta f authenticidadedosversosdeGon ~~alo Hermigues. 2) Devo o conhecimento d' este trabalho ao meu bom amigo o Dr. J. Leite de Vasconcellos que o descobriu na Ribl. de Evora em Maio de 1899. 3) lnn. da ~ilva, Diccionario Bibliograpltico. Vol. III p. 285.
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relacionado com Lord Stuart (que antes de embarcar para o Brasil lhe deu, em mo propria, um exemplar da edio), e tambem com R:'tynouard, o qual lhe enviava as suas obras- escreveu um extenso tratado de litteratura patria. Um dos capitulos uma dissertao sobre o Cancioneiro. Alli discute o titulo, assentando que, visto o gallego e o portugus pouco ou nada terem differido entre si at ao sec. XIV, tanto lhe convinha a epigraphe Cancioneiro portugusgallixiano, como a de Cancioneiro .gallixiano-portugus, mas que o mais apropriado seria: Gaia- Sciencia dos trovadores portugueses. Quanto s obscuridades do texto separa as materiaes (como diviso de conglomerados graphicos de palavras, orthographia, ponctuao, hyphens etc.) das de ordem syntactica, de estylo e de lexico. Offerece em seguida a interpretao de 400 vocabulos e expresses, coordenadas alphabeticamente, acertando umas vezes e outras no. 1) Com relao ao assumpto, caracteriza o cancioneiro num estylo bastante retorcido como pobrissimo de ideias, falto de conhecimentos, quanto pode ser.
Nenhum facto 11/istorico, sagrado ou profano, nem descripilo geographica, nem allusilo mythologica alli se encontra; todo elle consiste num d-iu1 repetido, intimado, paraphraseado de mil formas e manei1as; o desprexo da dama o 'rnaim tormento do amante porque o amor pelo bem . amado cresce no amante medida das suas zrrendas; a desconfiana ou receio de o nlio goxar augmenta a violencia do sentimento. Nilo valem amigos; a existencia tornase du1a, a mmte suave; [Link] :-se ser insensivel, pmm o bom pa1ecer da dama o no pernl'itte, quer-se nwrrer, mas no se }Jode; d' aqui as invectivas contra Amor, as maldies ao dia em que se foi nado, ao dia em que primeiro se viu a dama e ella agradou; d' aqui os desejos de ensandecer, as blasfemias contra Deus que nrio tem poder sobre as vontades; d' aqui finalmente a necessidade de se ter odio a si proprio por se ver desamado.
Suppe que no seriam muitos os auctores do Cancioneiro, mas um s, e natural de Portugal por causa das alluses geographicas a Santa Vaia, a 1\iaia, o Porto, Villa Nova de Gaia. Inclina-se
1) Eis alguns exemplos: beeyga, composto de bem e 'igar = iguala!cha, o mesmo que ca!- endoado, dorido, sentido; usa Jorge Ferreira! fiux, confiana; mui usada! - sentirigo, ou he palavra imaginada ou sinonimo de Santarem t
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a crr que esse .auctor unico fosse o trovador Joo Soares de Paiva, da era de 1230. 19. Devemos um logar parte ao j mencionado Christiano Frederico Bellermann por ter colhido os materiaes para o seu importante estudo sobre os velhos cancioneiros portuguses nos prol>rios manuscriptos e em impresses raras, durante a sua estada em Portugal de 1818-1825.
12. Dr. Christian Friedrich Bellermann, Die alten Liederbcher der Portugiesen oder Beitriige xur Geschichte der portugiesischen Poesie vom 13. bis xum .Anfang des 16. Jahrhunderts nebst Proben aus Handschriften und alten Drucken. - Berlin 1840. 1)
No juizo que formula sobre o valor artistico da obra, preciosa, sim, mas que ainda assim no nos indemniza seno muito imperfeitamente dos Cancioneiros perdidos de D. Denis e seus cortesos, uocumenta tino critico e fervorosa sympathia. E diz: Nestas cantigas no ha vestigio d' aquella lucia entre o raciocinio frio e a paixo amorosa que se nota poste1iormente em tantas poesias peninsulares, lucia na qual o namorado acaba setnpre por sac1i{icar o melhor do seu sentinunto s subtilezas da raxo. Para o nosso poeta o amor o que existe de mais sagrado e sublime; no se revolta contra o seu pode'rio, posto que por elle soffra e morra. Por isso mesmo os seus versos parecem nascer de sentimentos reaes .... Apesa1 de uma g1ande monotonia, ha ahi ve1dadeira e intima poesia affectiva, que brota de um corao commovido, 2) o que lhes d certa vehemencia que se impe, um valor duradouro e a pimaxia sobre as composies lJJricas, recolhidas nos cancioneiros impressos da pennsula. Bellermann reproduz 21 poesias, em lio critica geralmente boa, traduzindo quatro, lindamente.3) Como se v da passagem citada, estava persuadido, como os mais, que um unico poeta foi auctor de todas ou quasi todas as trovas. Em harmonia com Ribeiro dos Santos tenta reconstruir a historia do namorado, juntando todas as alluses e referencias a localidades peninsulares, pondo porm de parte, como no pertencentes ao cyclo principal, i. . ao romance do auctor, alguns versos alegres e os que se referem a certa
1) Vid. p. 8-14; 46-47 e 55. 2) O sublinhado meu. 3) As poesias traduzidas esto na nossa edio numeradas 189, 99, 275 e 91; as simplesmente tmnscriptas: 137, 48, 295, 236, 247, 181, 251, 33, 256, 198, 243, 110, 116, 269, 47, 183, 306.
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D. Leonor. 1) Collocando- o na segunda metade do sec. XIII frisa a imitao provenal de que prova segura o decasyllabo jambico. Fallando do Conde de Barcellos, aventa, mas regeita como indecisa a hypothese, suscitada naturalmente pela junco do Cancioneiro com o Nobiliario e pela meno do logar Barcellos em uma das Cantigas. 2) Recorda tambem o trovador gallego Joo Soares de Pai v a, a cujos amores infelizes com uma infanta de Portugal o Marqus de Santilhana havia alludido; sem comtudo pretender identific-lo com o auctor das cantigas. Na descripo do codice affasta-se um tanto (no muito) de Ribeiro dos Santos e Lecussan Verdier. , por exemplo, o primeiro que menciona as miniaturas e vinhetas. 3) Ao propagar a falsa noticia sobre a lettra maiuscula do codice, fiou- se (supponho eu) mais nas indicaes alheias, impressas, do que na sua memoria e mesmo nos apontamentos por elle proprio colhidos, vinte annos antes. 4) E tal reserva comprehende-se.
20. Sobre este trabalho consciencioso baseia-se um estudo notavel de Fernando Wolf, o prncipe dos hispanizantes de ento, o qual por meio de uma conjectura suggestiva, ahi enunciada, veio a ser o iniciador de um novo periodo de investigaes, muito mais fecundo que o primeiro. 13. Ferdinand Wolf, em Hallische Litteratur-Zeitung No. 87-91 (i. . Vol. II p. 82-86, 89-112, 117-120); e Nachschrift a col. 214-216 da Miscellanea do dito jornal. 6)
Foi no Post-Scriptum que o sabio Viennense, fundando-se nos famigerados dizeres de Duarte Nunes de Leo sobre a actividado litteraria de D. Denise sobre o achado, em Roma, no sec. XVI de um Can~ioneiro com obras do monarca, accentuou a urgencia de se fazerem buscas na Bibliotheca do Vaticano, dizeres aos quaes
1)
C~t
2) CA 236. 3) Vid. von Schack, Geschichte der dramatischen Litteratur und Kunst in Spanien, Vol. I p. 96.
4) Creio que o estudo foi redigido com bastante antecedencia a 1840. Pelo menos Bellermann no estava informado da suppresso do Collegio dos Nobres, nem da transferencia do Codice, nem ainda do achado das folhas soltas em Evora. O projecto da Academia, de publicar o Cancioneiro, a que elle se refere, deve portanto ser o de 1814. 5) O artigo de Wolf foi traduzido por Edelstand du Mril no
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Bellermann havia vagamente alludido na sua memoria, e que terei de transcrever mais tarde. 1)
21. O illustre slavista Kopi ta r encarregou-se, a pedido de Wolf, de promover essas pesquisas, mas como, executadas frouxamente pelos empregados do Vaticano, no surtissem o effeito desejado, fallou do seu proposito e das suas tentativas infructuosas a um franciscano portugus, o Padre J. I. Roquete. Este, valendo-se da influencia de outro Embaixador portugus, o Visconde da Carreira, conseguiu que os Custodes, renovando a campanha com mais interesse, descubrissem o importantssimo eodice 4803, um verdadeiro thesouro, no qual, a par do Cancioneiro J>rocurado de D. Denis, surgia, em torno do monarca, uma [Link] brilhante de mais de 100 poetas, com um peculio de 1200 e tantas poesias gallaico- portuguesas. 2) Parece que \Volf planeou edit-lo. Adolpho Tobler, ento um novel romanista, mas de ha muito uma das glorias mais resplandescentes da nova sciencia, coordenou logo a lista dos trovadmes, a instancias do professor de Vienna, penso que em 184 7.
22. Mas antes que este chegasse a realizar o seu intento, um brasileiro, bem recommendado, conseguiu por empenhos diplomaticos que lhe fossem extractadas as poesias de D. Denis, o melhor e mais fecundo dos poetas ahi representados, e ainda ento, na mente de muitos, o primeiro que em Hespanha metrifi~'[Link] em rima, imitao dos Avernos e Limosinos.
14. Dr. Caetano Lopes de Moura, Cancioneiro d' El-Rei D. Dini-x, pela primeira vex. impresso sobre o manuscripto Vaticano com algumas notas illustrativas e uma prefai'io ltistorico- Ntte'raria. Paris, Aillaud , 1847.
A edio defeitnosissima (in wissensrlta{tliclte1 Ilins:ltt sehr iirmhch), to illegivel como a do Collegio dos Nobres, no s para os menos versados em paleographia. O trabalho de Caetano
1) Vid. 110. 2) Pode ser que a existencia do Codice no fosse absolutamente desconhecida. A copia que possue um mysterioso Grande de Hespanha do sec. XVIII, segundo a unica testemunha que a viu. Mas como esta, o auctor das Trovas e do Cancioneirinlw, se engana freqentemente nos seus calculos e nas suas conjecturas, a deciso resta duvidosa. Vid. Cap. V. Pelo mesmo motivo teremos de pr de remissa o que Varnhagen diz a respeito de Mayans y Siscar (ou outro bibliophilo hespanhol) no opusculo Th. Braga e os antigos Romanceiros de Trovadores p. 22.
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Lopes de Moura, que de modo algum estava preparado para a difficil empresa, restringe-se a um punhado de notas e a uma Introducosinha, na verdade um pouco mais ampla e succulenta do que fra a de Lecussan Verdier. Na impresso do texto tambem foi muito infeliz. Innumeras passagens esto faltas de sentido, de deturpadas que vo. Nem mesmo separou e numerou as r1oesias. A descri po do codice pouco exacta. Sendo a lettra do principio tio sec. XVI ou fins do anterior, data-a dos principias do XV, provocando d' este modo muitas conjecturas erroneas. Comprehende-se que adoptasse a ideia de possuirmos no codice vaticano se no o mesmo volume, pelo menos copia antiga d' aquelle que o Marqus ue Santilhana disse haver visto, sendo moo, em casa de sua av. No leu as trovas todas, mas notou varios nomes de auctores. Communica tambem alguns dados sobre D. Denis, seu pae Affonso III, e varios personagens historicos, que se distinguiram como trovadores (Ferno Fernandes Cogomiuho 1261; Joo Lo beira 1278; Diogo Lopes de Bayo 1264). Folheando o volume, descobriu uma das cantigas do Cancioneiro do Collegio dos Nobres, attribuida a certo poeta, cujo nome lhe parecia ser Joan Vaz (erro por Juan Vaasques).l)
23. natural que a descoberta do Cancioneiro da Vaticana alvoroasse o mundo scientifico e que o. eco se repercutisse no seio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, tanto mais que um renascimento vivaz dos estudos historicos parecia ento querer desabrochar em Portugal, sob o impulso individual mas vigoroso de um verdadeiro cultor da sciencia. Eis os factos relativos aos Cancioneiros, que ahi tinham occorrido desde 1823, e que devo registar aqui, embora o seu verdadeiro logar seja no capitulo seguinte. Pouco depois da publicao de Loru Stuart, o governo mandou transferir o original para a Bibliotheca Real da Ajuda, onde ficou depositado e para onde mandou recolher posteriormente mais onze folhas desmembradas que appareceram em Evora. Naquelle deposito estava por tanto, quando Alexandre Herculano, ao aceitar em 1839 o cargo de Bibliothecario d'El-Rei D. Fernando, ficou incumbido de desempenhar identica funco na Livraria da Ajuda. Debaixo da sua egide
1) CA 2-12.
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comeou para a maltratada reliquia, entrada finalmente em porto de salvao, apos seis seculos de abandono, um periodo de Lonana e ao mesmo tmpo de actividade fecunda, posto que lenta, indirecta, e exercida quasi inteiramente por forasteiros. Alm de prevenir a sua imminente e progressiva deteriorao e de a tornar accessivel aos estudiosos, a medida do Governo surtiu outro efeito ideal, de maior alcance. Desculpe o leitor se abro aqui um parenthese. Sem ella, Portugal talvez no contasse entre as suas obras-primas as Narrativas Historicas, o Eurico e o Monge de Cister. O torso grandioso da Historia de Portugal, porventura no estaria esculpido e neste caso a lingua e a litteratura do pais, vigorosamente retemperadas por essas e outras creaes magistraes, executadas ou promovidas por Herculano, no seriam o que hoje so. De 1832 -1851 o mestre de todos ns, como Oliveira Martins e Anthero de Quental costumavam appellid-lo, teve de folhear innumeras vezes, em leitura assiclua, as laudas elo volume em que esto, par a par, os restos do Livro de Linhagens e o Cancioneiro, obras muito diversas, maR que se completam e explicam ele um modo feliz, com relao historia da civilizao patria. Tanto para poder editar os cadastros da fidalguia nos Monumentos historicos de Portugal, cujo fundador e editor era, como para poder crear o romance, a novella e o conto historico, e ainda para desenhar os quadros de historia nacional at 1279, Herculano teve de arrancar os seus mais intimos arcanos a ambas as obras, compenetrando-se do espirito da Idade Media que nellas respira e falia. Com relao aos trabalhos da Academia e em especial quanto s publiaes da seco de lingua e litteratura, verdade que no conseguiu organiz-las, de modo a logo lhes imprimir direco superior e fundar escola. Nas noticias que seguem neste [Link] e no seguinte, veremos todavia que nunca deixou de interessar- . se pelos que tomavam sobre si o encargo de publicar o Cancioneiro e que os auxiliou sempre generosamente.
24. -Sob a impresso produzida pelo apparecimeuto do codice da Vaticana e o trabalho imperfeito de Lopes de Moura, irritada por ventura tambem por boatos surdos sobre os emprehendimentos indivicluaes de um energico erudito, vindo de fra parte, o qual estava decidido a publicar com o apoio de Herculano
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uma edio critica do Cancioneiro de Lisboa, e em seguida o de R ma, a illustre corporao comeou a agitar-se, cogitando sobre o compromisso mallogrado de 1814. Uma sesso litteraria foi convocada para 25 de Abril de 1849. Neves Portugal formulou ento uma proposta positiva para a impresso official do texto mais valioso da litteratura patria, declarando-a inadiavel.
15. Joo da Cunha Neves e Carvalho Portugal, Proposta pwra a impressiio do antigo Cancioneiro do extincto Collegio dos Nobres, impressa nas Actas das Sesses da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Vol. I p. 48-54. - Lisboa 1849.
Criticando mais uma vez a edio de Lord Stuart de inintelligivel pela sua fidelidade formal, e roando pelas obscuridades do idioma mixto ou artificialmente composto em que, segundo elle, as trovas esto escriptas, asseverou que, tendo continuado a occupar-se da lingua e litteratura provenal e francesa, conseguira dar-lhes sentido corrente. Prometteu um glossario razoado, offerecendo Academia os seus servios para tudo o mais.
25. Esta proposta havia de ser tomada em considerao logo na primeira assemblea de Effectivos. E realmente pouco mais tarde, a 1G de .Maio, discutiram-na, assentando que a Classe de Sciencias moraes e bellas lettras nomeasse uma com misso, entrando o proprio auctor do plano, afim de trat'lrem do modo de a levar a efeito e apresentando mais tarde o seu parecer aos consocios.l)
Em Julho (11), o director podia participar que para membros lia commisso foram [Link], alm de Cunha Neves, Alexandre Herculano e o secretario perpetuo da Academia. 2) Apos ainda meioanuo (em 19 de Dez.)S) ... ficou finalmente decidido ... copiar-se mais uma vez o manuscripto da Ajuda!
26. Quando tornaram a reunir a 1 O de Outubro, alguem teve de confessar [Link] que a receada iniciativa particular havia, ainda d' esta vez, tomado a dianteira ao primeiro instituto [Link] do pais. - O innominado depositou sobre a mesa, entre outros donativos, um livrinho de apparencia muito modesta, dado luz por Francisco Adolfo de Varnhagen, encarregado de negocios
1) Actas das Sesses I p. 91. 2) Ib. 239. 3) Ib. 421. Veja-se a Portaria do Governo, publicada no Diario de 1G de Agosto de 1849 (No. 191 ).
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da legao do Brasil na crte de Madrid. 1) O livrinho, de que logo fallarei, era a ambicionada edio Critica do Cancioneiro.
27. As peripecias posteriores conservaram-se e conservamse encobertas aos olhos dos profanos. Parece todavia que os desejos platonicos e as esperanas bretonicas de verem surgir por entre os confrades um campeo salvador no se extinguiram por completo. Da ordem de tirar copia j disse. 2) Ha quem affirme que entre 1855 e 1865 os Academicos resolveram imprimir no Corpo historico, intitulado Portugalire Monumenta Historica, os antigos Cancioneiros todos, como complemento organico e imprescindivel dos Nobiliarios (publicados de 1859 a 1861),8) ou pelo menos o manuscripto de Roma, mas que no conseguiram obter o treslado. 4) Segundo outros, tratava-se apenas do Cancioneiro da Ajuda, 5) numa edio independente d'aquella magna colleco historica. Um apographo d' st' ultimo, que existe no Arclvo da Academia (de mo e lettra do benemerito paleographo Joo Pedro da Costa Basto) estava, dizem, destinado a este fim. Ignoro todavia, quando se tirou. Talvez perto de 1870, visto que ento constava a Varnhagen 6) haver uma sabia corporao, por todos os titulos habilitada, que se propunha editar o Cancioneiro do Vaticano, e premeditava tambem nova impresso do Cancioneiro da Ajuda.
Seguiu-se um longo silencio, interrompido s nestes ultimos annos, como contarei no fim d' esta Resenha. O que se passou fra do recinto do antigo convento de Jesus explica e justifica at certo ponto a inactividade dos Academicos.
1) ..Actas das Sesses I 297. 2) J. da Cunha Neves Portugal morreu em 1856. 3) Th. Braga numa Proposta para a impresso dos Cancioneiros Trobadorescos Portuguexes (No. 74 d' este elenco) affirma que a copia diplomatica do (~A, existente na Academia, era destinada ao Corpo dos Scriptores. 4) F. A. Coelho assim o imprimiu na Bibliographia Critica (p. 188). 5) Veja-se o parecer de I. F. Silveira da Motta, A. C. Teixeira de Arago, Henrique da Gama Barros sobre a Proposta a que alludo na nota 3. Nelle affirmam a p. 8 que nenhum dos academicos encarregados da publicao dos P. M. H. pensou em incluir os Cancioneiros na colleco, porque nenhum os considerava narrativas historicas. E de facto em 1874, a seco de Historia e Archeologia, tendo de pronunciar-se sobre aquella publica~o, nem sequer fallou dos Cancioneiros. 6) Vid. 38 e 39.
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28. O volume, depositado em 1849 na mesa da Academia, tem o titulo seguinte:
16. Trovas e Cantares de um Codice do XIV seculo ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. Com dois fac-similes. - Mad1id, 339 pag. in 16. 1849.
A Introduco (de XLII pg.) datada de 16 de Julho do mesmo anno. Seguem as Trovas e os Cantares com numerao at 286. Um 1 Supplemento de a-i contm as poesias que ficaram sem collocao, por haver duvidas para esta; ou por parecerem estranhas ao assumpto geral das outras. Um 2do Supplemento, de j-s, encerra OS troos que parecem fragmentos (i. . princpios) de cantares ou que evidentemente o so. Num 3 Suppl. de t -x vo includos troos que manifestamente so os finaes de varios cantares. Um Romance do Conde de Barcellos, da lavra de Varnhagen, forma o po Appendice. O 2do consta da uma Ta- bella comparativa das Cantigas com os logares em que se acham na publicao de Stuart. O 3ro abrange varias composies em dialecto gallego. O 4to um glossario de algumas vozes antiquadas. Uma advertencia final, na qual se emendam varios erros de separao das cantigas, informa que haviam de seguir-se notas elucidativas, mas que o auctor preferia reserv-las para o futuro. Segue finalmente a lista de erratas. Bastara. este indiculo para convencer da somma de trabalho, gasto nesta edio (que Varnhagen ainda assim chama modestamente de ensaio e estudo) e da sua valia superior, comparada com as publicaes de Lord Stuart e Lopes de Moura. s 260 Cantigas da impresso de 1823 juntara mais 42, tiradas das 11 folhas avulsas, vindas de Evora, 1) e copiadas por Herculano. Na leitura do texto no faltam signaes de methodo critico, embora, de modo algum, se possa considerar isento de erros, s vezes bem estranhos. 2) O que embaraou e em parte annullou os esfor,os do editor foi a ideia antiga e preconcebida de o Can1) O trmos por junto um peculio de 312, em Jogar de 302 (260+42) resulta de pequenos erros de calculo de Varnhagen. A cantiga numerada 6 nas trovas , p. ex. a fiinda da antecedente; e o fragmento x. o final da 172. 2) A lista dos erros de leitura, que coordenei em 1877, consta de muitas centenas de exemplos. Os principaes j foram notados por Diez a p. 139-142 da obra registada aqui sob o No. 22. - Cf. Cap. UI.
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cioneiro ser obra de um s auctor, e todas as poesias dirigidas a uma unica dama. Collocando-se neste ponto de vista falso, mas ento geralmente aceite, resolveu dar nova ordem logica e natural s cantigas, a fim de reconstituir o romance do trovador. Para legitimar a ousada tentativa forjou a lenda de estarem baralhadas tumultuariamente as folhas do velho pergaminho. Um simples exame material dos cadernos e do seu nexo, feito conscienciosamente, t-lo-hia desilludido, persuadindo-o do contrario. l\Iais coherente e justificado era o presupposto que equipara o Cancioneiro da Ajuda ao Livro das Cantigas do Conde de Barcellos, visto esse livro ser, alm do Cancioneiro de D. Denis e do de Alfonso o Sabio, o unico de que temos noticia antiga e authcnticada. A conjectura j fra, de resto, formulada por Belleri~lann, com toda a reserva;. e podia-se, e ainda hoje se poderia defender, com lauto (fUe se procure no Livro das Cantigas, no um albmn com versos do Conde, mas antes uma compila.o feita por sua ordem e sob a sua direc~o. 1 ) No sentido em que Varnhagen a tomava, a attribui\o fundamentalmente falsa, sendo tambem mera phantasia a identifica~~o da supposta dama do trovador com a Rainha D. l\Iaria, filha de Affonso IV. de Portugal e esposa do Rei de Castella Alfonso XI. Apesar d' estes e d' outros graves defeitos, o volume de Varnhagen prestou s lettras um servilo deveras valioso, tornando accessivel a muitos os textos de que at_ ento_haviam tido o monopolio smente os 2 5 eleitos de Lord Stuart.
29. Todos os que deram conta das Trovas assim o reconheceram. O primeiro artigo de que tenho noticia, sahiu num jornal pouco conhecido.
17. Revista popular, Vol. II p. 201 No. 25. Lisboa, 1849.
O anonymo auctor concede a Varnhagen largas vantagens sobre o predecessor, por apresentar bastantes versos ineditos, estando todos dispostos em melhor ordem e mais intelligiveis .
1850.
1) Cf. Cap. V.
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Este historiador da litteratura patria aventa algumas duvida::; a respeito dos novos resultados, principalmente quanto attribuio das cantigas a um s poeta e tambem quanto ordem dada s trovas, mas sem bastante conhecimento de causal)
31. Os accrescentos promettidos por Varnhagen foram publicados ao cabo de um anno incompleto no mesmo formato e typo, como continuao do volume, e com a epigraphe seguinte:
19. Post Scriptum: Notas (p. 339-368). Madrid, 1850.
Depois de novo confronto da sua impresso com o original, tendo emprehendido uma excurso Galliza onde estudou a lingua viva, o futuro Visconde de Porto Seguro, j ento socio livre da Academia, 2) encontrava-se habilitado a emendar e explicar varias passagens. Rebate tambem as observaes criticas de contradictores como Costa e Silva, tentando reforar a sua argumentao. Referese inscripo Rei D. Diniz (ou antes Rey Do Denis), na orla inferior do codice,s) que primeiro desprezra ou no vira, opinando que ella inuica, no o auctor, mas o possuidor do volume, o qual portanto julga anterior ao anuo 1325. Falia das 16 vinhetas (a que Bellermmin se referira) sem comtudo comprehender a sua ::;ignificao. E conununica mais escriptos em dialecto gallego.
32. A opinio geral dos Portugueses sobre as publicaes de Varnhagen acha- se condem;ada nos artigos do Dicciounrio Bibliographico. Segundo Innocencio da Silva o estudioso brasileiro conseguiu no s dar s Travas o agrupamento e o nexo que lhes faltam no codice original, mas illustrou este sobre todas as especies que podem interessar-nos, tornando inutil a publicao de Lord Stuart.
20. Innocencio Francisco da Silva, Diccionnrio Bibliographico portuguex, Vol. II p. 320. Lisboa 1859.4 )
33. O que de melhor se escreveu a respeito do Cancioneiro obra de tres sabios estrangeiros: o grande hispanista austraco Fernando Wolf; o fundador da philologia romanica, Frederico Diez; e Mil y Fontanals, o primeiro representante d' esta sciencia
1) Cf. Inn. da Silva, Dicc. Bibl. VII, 389. 2) Actas das Sesses da .Acad. H. das Sc-iencias de Lisboa, Vol. III p. 38, 39, 40. 3) Nos Capp. III e V hei de tratar da inscripo: Rey D Denis. 4) No mesmo vol. ha artigos sobre a ed. de Lord Stuart a p. 25 No. 107 e p. 317 No. 381.
24 na pennsula. Elles resumiram em dissertaes concisas, mas substanciaes, tudo quanto os fragmentos publicados podiam revelar a mestres competentes e persrJicazes sobre a actividade litteraria de Alfonso X, D. Denis e o supposto auctor do Cancioneiro da Ajuda.
21. Ferdinand Wolf, Studien ~ur Geschichte der spanisclten und portugiesischen National-Litteratur. - No. IV. Zur Geschiclde der portugiesischen Litteratur im .!Jlittelalter, especialmente pag. 709-716. - Berlin, 1859. 1) 22. Manuel Mil y Fontanals, De los trovadores en Espana. Parte IV: Influencia provenal en Espana. Capitulo 3: Trovadores gallego-portugueses (p. 492 da ta e p. 521 da 2da edit;o, a qual citarei). - Barcelona 1861.
34. O artigo de Wolf nova edi~o accrescentada do estudo publicado em 1843. O auctor acha quasi indubitaveis os resultados de Varnhagen e dignos de serem expostos detalhadamente ao publico allemo. - Na persuaso erronea que o Cancioneiro da Ajuda era posterior ao Cancioneiro de D. Denis 2) estabelece que a imitao provenalesca predomina ahi, tanto no assumpto exclusivamente palaciano dos poetas que trobam d'amor por sas senhores, como no metro, decasyllabo jambico, faltando os generos semi-populares, com rhytmos de dana briosa e ligeira, que approximam os cantares de amigo de D. Denis poesia da Frana do Norte e documentam ao mesmo tempo certo contacto com a musa do povo. 35. O acume critico do illustre peninsular notavel. Aproveitando, alm do volume de Varnhagen, os escriptos de Bellermann, Diez e 'Volf e uns artigos de Morayta sobre Alfonso o SalJio, 3) traou um quadro exacto, embora incompleto, da evoluo da lyrica gallaico-portuguesa desde a 2a metade do sec. XIII at 1458. Como Wolf, distingue entre os cantares maneira popular, de assumpto e forma pouco grave, com rimas imperfeitas (cuja analogia com a primitiva poesia do Norte da Frana pe em evidencia) e entre os versos palacianos com pretenses cavalheirescas que ostentam estrophes, consonancias e tornadas segundo a moda da Provena, ser1) Cf. Jahrbuch VI p. 99 -100, onde se l um relato rio de F. 'Volf sobre o Historia critica de la literatura espanola de A. de los Rios. Vol. III e IV. 2) D' aqui em deante designarei o Cancioneiro da Ajuda com as siglas CA e o de D. Denis com as siglas CD. 3) Miguel Morayta occupou- se das Cantigas de Maria na revista denominada primeiro: La Discusion e mais tarde La Ra~on, Sept. e Out. de 1856. - Nunca alcancei v-la.
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vindo-se mesmo de vocabulos e modismos limosinos. Quanto aos schemas metricos, chega ao resultado que c e l abundam formas analogas, no sendo facil todavia ach-las completamente iguaes. Nota a gerarchia dos trovadores (na falsa f, de resto, que tambem Affonso IV de Portugal e um seu filho, chamado D. Denis, como o av, haviam poetado). Accentua a ausencia de toda a erudio escolastica. Com respeito ao Conde de Barcellos aceita as razes de Varnhagen por muito boas. Com criterio superior ventila finalmente o duplo problema, quaes seriam as causas que tornaram a lingua gallega vehiculo da lyrica hespanhola? e quaes as causas da existencia de uma escola poetica em [Link], co_m antecedencia castelhana, assim como da sua cultura, no smente por gallegos e portugueses, mas tambem por castelhanos? - problema de que terei de occupar-me mais tarde, voltando ento s theorias de Mil y Fontanals.
36. Segue-se um livro magistral, que todo elle versa sobre a primeira epoca da poesia palaciana em Portugal, admiravel synthese historica sobre as suas origens, sua evoluo e o rasto que deixou. 23. Friedrich Diez, Ueber die erste portugiesische Kunst- und Hofpoesie.
Bonn, E. Weber 1863. 142 pag.
Temos ahi a analyse cuirladosa das formas poeticas; um estudo fundamental sobre a lingua; uma fina caracterizao, tanto das poesias puramente provenalescas como das de feitio popular; contribuies valiosas critica dos textos- tudo elaborado com igual competencia. Diez aponta tambem concordancias com um poeta do Meio-Dia da Frana, I) confessando todavia no haver descoberto nem uma s trova que fosse verso integral ou imitao directa de outra estrangeira. De passagem prope uma excellente explicao da graphia lh, nh, que Portugal, a seu vr, adoptou dos provenaes. Quanto ao nosso Cancioneiro mostra que dois versos, no comprehendidos pelo editor, esto redigidos ou em francs archaico perfeito, ou em provenal. Com relao ao auctor, a argumentao de Varnhagen no o convenceu: Zur Ueberzeugung fhrt seine Hypothese noch nicht. Indicando os lados fracos do systema, a difficuldade de interpretarmos bem essa lyrica essencialmente subjectiva, estabelece que entre as cantigas assignadas pelo Conde, conservadas no codice de Roma (de que mandara formar
1) Uc de Saint-Cire.
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o I ndice para seu uso), no ha nenhuma que se ache no de Lisboa. Aponta tambem para J oo Vaz, compositor de uma dos cantigas do ('1\., segundo Lopes de Moura - circumstancias que, se no destroem, aLalam a construcf;o de Varnhagen. Ao copiar e traduzir em verso uma serie de cantigas, seis das quaes pertencem nossa collec-,o, 1) tem em mira mostrar a pobreza extrema die Gedankenleere - e o convencionalismo incolor dos aulicos portugueses. Se de UHt lado certo que as raizes d' esta poesia esto na outra Ve'rlente dos ryreneus e que a tec/tnica alheia, pos'tivo lambem que os po'rtuguses no fi;::,errtm esforo algum para compenet?ar-se da totalidade das ideias que animam os tmvadares provenaes, nem pma imitar o seu estylo. Fltou -lhes a vontade ou o talento pa'ra competir corn eUes; ou faltaram-lhes as condie.r;; paTt-icularmente propicias da vida no Sul da Frana ... No territorio pmvenalesco a poesia mstica, efflorescencia espontanea da .poesia popular, tinha base nacional. A de rortugal, , pelo cont1ario, urna planta exotica, de estufa. Brotando e crescendo ap'ressadamente, murchou com egual rapidez, sem lanar sementes fecundas no solo. Os seus cultores no desconltCi-iam esta, ci1etmtstancia. Por isso pror:uraram nacionaliz-la, approxirnaudo a nora aTte dos generos e da maneira 'tndigena do povo. D' ahi a pred-ilec~o pelo ref1an, a forma dialogada e, o q'ue de mais peso, a imitao do estylo vulgar. D' ahi tambern a renuncia ~ pensamentos peregrinos e a todas as especies que ncio teriam cmrespondido a nenhurna realidade na vida da nao. Como trao mais saliente nota a esphera limitadissilna das ideias que o poeta portugus percorre; a repeti(;o, at saciedade, dos mesmos dizeres typicos; a falta de imagens e de aclornos rhetoricos; a extrema singeleza da phrase. Escuso analysar aqui o que ha de demasia nestas considera:es. A nossa exposio ir desfazendo-as pouco a pouco, substituindo-as por outras mais idoneas e menos exclusivas.
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um exemplar das Trovas, mas guardando bem fixadas na memoria as observaes criticas de Diez, procurou ahi cantigas identicas s do C.~l, e encontrou quatro, sendo duas de Pero Barrosol) outras tantas de Pedron ou, como eu o chamo, Pedr' Annes Solaz. 2) Alm d' isso transcreveu com varias outras cantigas, uma uo Conde de Barcellos.
24.
-w. Grzmacher, Zur galicisclten Liederpoesie im Jaltrlmch fiir romanische ttnd englische Littemlttr. Band VI p. 351-361. Leipzig, 1865.
38. Varnhagen que sempre procedeu com incontestavel boa f, desinteresse, e verdadeiro talan t ele bien fere, alvoroado com a primeira noticia de 1\ioura sobre Joo Vaz e mais ainda com o achado de Grzmacher, havia entretanto explorado em 1\Iadrid uma copia elo Codice Vatica,no, resguardaua em casa de um Grande, seu amigo, a c1ual mandou tresladar, para no anno seguinte (1858) a collacionar na Bibliotheca do Papa com o codice 4803. Nestes actos descobriu 50 das canes anonymas do CA, assignadas por 13 trovadores diversos, 3) com pequenas variantes de texto, IllE' permittiam restaur-las e complet-las. Em presen~a de factos mo convincentes, renunciou opinio errada de considerar o CA como oLra do Conde de Barcellos, sustentando embora, e com razo, a pm;siLilidacle de o Livro das Cantigas ter sido uma miscellanea de trovas suas e alheias. - O quanto lhe custou largar a ideia antiga, reconhece-se pela nova e injnstificavel hypothese que considera o Conde de Barcellos como plagiario que se houvesse aJlropriado todas
1) CA 222 e 223. 2) CA 282 e 283. 3) lia engano na conta. Na realidade, as cantigas que assignala so apenas 49. Temos 8 de Fernam Velho CA 2[}7-26!. 8. de Joo de Guilhade 229-23-!, 240 e 228. O No. 235 (=Trovas 243) no esta no {~V; No. 240 de Estevam F1oyam. 8. de Vasco Rodrigues de Calvelo 293-301, com excluso da 299. 4. de Joo Vasques 242-245. 5. de Pero da Ponte 288-292. 2. de Pedr' [Annes] Solaz 282-283. 2. de Pero Barroso 222-223. 2. de Affonso Lopes de Bayo 224-225. 2. de Mem Rodrigues Tenoiro 226-227. 3. de Pay Gomes Charinho 246, 248, 255~ 1. de Ayres Vaz 213. 1. de Joo de Aboim 184. 3. de Roy Fernandes 308-310.
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essas cantigas ~lheias, supprimindo os nomes! pura phantasia tambem quanto se diz a respeito da sua qualidade de rirnante d' El-Rei e suas relaes com Alfonso XI. Nem soube abandonar o erro que as poesias se acham no CA numa confuso caotica. Concede apenas que nas partes em commum a ambos os codices, as folhas no soffreram transtorno! To pouco se resolveu a aceitar algumas emendas e apreciaes de todo o ponto seguras do Snr Dietz (sic!), posto que se mostre benevolamente disposto a consider-lo como primeira auctoridade nestas materias. O modo de ver de F. Wolf tambem lhe mereceu reparos.
25. Novas Paginas ele Notas s Trovas e Cantares i. . edio de Madrid do Cancioneiro de Lisboa, attribuido ao Conde de Barcellos. Paginadas de 373-306. - Vienna, impressa de C. Gerold, filho. (s. d. Creio que 1868 ou 1870}. 1 }
3D. Simultaneamente o diplomata brasileiro publicava uma parte das cantigas do CV 2) (50 composies das mais caractersticas, extrahidas do apographo madrileno) numa edio meritoria, ainda que a escolha no satisfizesse plenamente os desejos dos estudiosos, nem a impresso agradasse a todos, pela bizarra esquisitice do typo empregado.
26. Cancioneirinho das Trovas Antigas colligidas de um grande cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano. - Precedido de uma noticia critica ... com uma lista de todos os trovadores que comprehende etc. Vienna, typogr. da Crte 1870 (170 pag.).
Ha nova edio mais correcta de 1872. -O texto de ambas deixa muito a desejar. 3) O que se diz na noticia critica a respeito do CA pouca cousa. O codice-pae do apographo de Roma constava outr' ora de 300 folhas, mas j estava falto das primeiras 102 quando d: elle foi tirada copia, facto que levou ao esprito de Varnhagen a suspeita que poderiam ser d' estas 102 as que no Cancioneiro de Lisboa ainda subsistem. Oppe-se porm, como reconheceu e no sonega, . o argumento de ahi no irem designados
1) Vid. lnnoc. da Silva (Dicc. Bibl., Vol. IX p. 243) que notifica apenas a mudana de opinio de Varnhagen. . 2) D' ora em deante designru:ei tambem o Cahcioneiro da Bibliotheca do Vaticano pela sigla CV. 3) A lio de VarnLagen apresenta variantes to profundas que alguns criticos tiveram melindre de as attribuir a erros de leitura, preferindo acreditar em divergencias fundamentaes entre o codice de Roma e o do Grande hespanhol. V. Zeitschrift I, 185-188. No partilho esta opinio. Vid. Cap. V.
pelos seus nomes os trovadores. Continua jurando no desconjunctamento experimentado por varios cadernos do cancioneiro lisbonense, assim como na eliminao voluntariosa dos nomes dos poetas pelo compilador Conde de Barcellos, que, segundo elle, desejava passar por auctor de todas! Falia agora de 53 Cantigas repetida~ no CA, sem manifestar quaes as tres a accrescentar lista impressa nas Novas Paginas. Pensa tambem que o principesco rhapsodista d' El-Rei D. Denis excluiu propositadamente da sua miscellanea todas as cantigas de maldizer e as que no eram portuguesas pelo assumpto. Transcreve o catalogo dos trovadores do CV, por elle composto segundo os seus proprios extractos, sobre as rubricas do codice, e indica o numero de poesias que competem a cada um. Neste pormenor, e em outros, affasta-se da resenha que fra publicada por F. Wolf. 1) Reduz p. ex. os poetas a 116. 2)
40. No mesmo anno um moo portugus, que mal deixra os bancos da Universidade, iniciava com impeto juvenil os seus estudos sobre a litteratura gallaico-portuguesa, lanando no mercado, com pequenos intervallos, nada menos de quatro escriptos em que expunha theorias geraes e lucubraes engenhosas sobre pontos especiaes. O primeiro intitulado:
27. Theophilo Braga, Introduco historia da litteratura portugue-xa. - Porto, Imprensa portugueza, 1870.
A pag.110-136 encontramos no cap. III, dedicado s Epopeas da Edade Media em Portugal, uma 2d parte sobre a influencia da lingua d'oc, em que se trata: a) Da Escola gallexiana (1112 -1279), b) Da Escola jogralesca (1279 -1357).
Eis o elenco dos capitulos: I. Origem e dif(uso da poesia provenal na Europa moderna. - II. 0.1Jclo italo -provenal ou galexiano. - III. A eschola portuguexa e o Cancioneiro da Ajuda. 1) Um poeta Pereda no existe. erro. Leia-se: Pero da [Ponte]. Os auctores, aos quaes nas tenes cabe o segundo logar, no foram citados. So uns 8 ou 9. 2) Cf. na Romania I, 119 o artigo de Paul Meyer com observaes importantes sobre as poesias de caracter popular; e no Dicc. Bibl. o Vol. IX pag. 15.
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IV. O cyclo dionisio e o Cancioneim da Vaticana. - V. Os bastmdos de D. Dinix.- Iio1mao dos Cancioneims provenaes. - VI. A esclwla jog1alesca e o Cancionei1inho de tmvas antigas. - VII. A eschola historica e a batalha do Balado. - VIII. Decadencia da poesia provenal e intmducclo das fwes b1etcls. - IX. O?igent da Esclwla hespanhola em Pmtugal. _- X. Extinciio e descobe1ta da t1ad,iiio provenal portuguexa. Catalogo dos tmvado1es pmtuguexes do sec. XII a XIV. 42. Em seguida publicou: 29. Theorirt da historia da liUeratura portuguexa. Ibi. 1872. A Seco II trata das formas lyricas. O 1o dedicado escola provenal, que divide em quatro periodos: 1. Cyclo italopmvenal; 2. Cyclo galexiano; 3. Cyclo jog1alesco ou dionisio; 4. Segundo perodo da escola galexiana (sec. XV). 1) 43. Ha 2da edio, um tanto modificada, da Theoria: 30. Ensaio sobre a liUeratura portuguexa, servindo de introduc.o no Diccionario portuguex do ]'rei Domingos Vieira. Vol. I
p. CCIX - CCXLVIII. Porto, 1873. 2)
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a these geral e os exemplos elucidativos; e ainda a franqueza com que regeita opinies menos justificadas, substituindo-as por outras, logo que reconhece o erro. De tudo isto ha nos escriptos citados, difficillimos de analysar e criticar sem injustia, porque nestes primeiros trabalhos pre<lominam as conjecturas e generalizaes prematuras. O tentamen de historiar a primeira epoca da lyrica peninsular, quando mal se ilispunha da quarta parte dos restos conservados (i. . perto de 500 poesias), partindo de mais a mais de quem conhecia imperfeitamente a epoca trovadoresca das litteraturas estrangeiras, devia forosamente falhar, se ainda hoje, depois de vinte annos de trabalho arduo da parte de alguns sabios estrangeiros, tantos problemas principaes aguardam soluo definitiva. A diviso dos poetas em escola gallexiana e escola jogralesca q uasi to arbitraria como a collocao da primeira no reinado de Affonso III e da segunda nos dias de D. Denis. Arbitraria tambem a tentativa de procurar os representantes de uma no CA, e os da outra no (!V, sem mais motivo que no seja a confuso da antiguidade relativa do manuscripto Yaticano e do cancioneiro de Lisboa com a antiguidade das. composies que encerram. Igualmente gratuita era a inveno de um primeiro perodo italo-provenal dentro dos limites da Galliza, com canes artsticas do tempo de Sancho I, quando nada de positivo confirmava esta hypothese em 1870, servindo-lhe de unica base a vinda de uma princesa italiana (leia-se de Saboia) para primeira rainha de Portugal e o nome Podestade, descoberto nos Nobiliarios 1) e aceite como prova de que o esprito municipal da Italia se communicra a Portugal. Injustificada a affirmao que a poesia da Provena, se entrou na pennsula pela Galliza, no veio pelo caminho directo, mas por via da Italia, provando-se a assero unicamente pela viagem, de resto problematica a Portugal de alguns dos primeiros trova<lores provenaes, que haviam passado o melhor da sua vida na Italia, como 1riarcabrun, Gavaudan, Peire Vidal. Outras affirmaes so suggestivas, embora arriscadas. Sabendo que o dialecto de Poitou, de onde irradiou a lyrica me<lieval, era intermediario entre o francs e o provenal, Th. Braga designou a Galliza como regio intermediaria entre as provincias hespauholas,
1) P. M. H., Script. 145 e 260.
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chamando-a a Provena da pennsula, e o galliziano como iniciador da arte aulica, a nos.-;a lingua-d' oc. No dia em que primeiro conheceu as canes de Thibaut de Champagne e Navarra estabelece que devem ser ellas o molde sobre que se acham vasadas as canes de amor dos trovadores portugueses. Ao ler na obra de Herculano o quadro dos graves disturbios que inquietaram o reinado de Sancho II, persuadiu-se que o desenvolvimento da poesia em Portugal fra impossivel at 1245. O casamento de Affonso III com D. Brites do Castella foi sufficiente para concluir que s a dabtr de 1253 a lingua portuguesa se tornou commum poesia das duas crtes. Da fixao dos atmos 1264-1278 para as Cantigas de Santa JJfaria de Alfonso X, proposta em Castella, resultava, a seu ver, que s d' ahi em deante os castelhanos comearam a metrificar em portugus, desligando-se ento os trovadores de c da escola poetica da Galliza. Etymologias impossiveis 1) e uma interpretao phantasiosa de cerbts palavras 2) e poesias servem de ponto de partida para construcl'~es complicadas. A cantiga (de Alfonso X) com o refram non ven al JJfaio! datada de 1212 porque os aprestes para a batalha das Navas se fizeram em Maio! - Toda uma escola historica e maritima foi ideada, unicamente porque Varnhagen, pensando no rio onde se dera em 1340 a gloriosa batalha de Tarifa, imprimira Rio Salado em logar de rio salido. B) Da importancia das cantigas de caracter popular Th. Braga ainda ento no formava ideia clara. Tambem no distinguia entre
1) Vid. p. ex. a explicao do vocabulo segrel (T1ovad. 152); guanJaylt ('l/teoria 57); solao (Trovad. 249); liria (ib. 256); mallada (Titeor. 59). 2) P. ex. a discusso dos nomes de logar Santarem (Trovad. 66-69 e 147); Segovia (lb. 105); Espana (Ib. 129); Gaya (Ib. 226). 3) Ainda hoje Th. Braga sustenta a mesma these (fundada num erro de leitura de Varnhagen) posto que o emendasse na edio restituda. Vid. Oancioneirinlw, Cant. XII= CV 760 de Joan Zorro: Pela ribeira do rio salada. Em consonancia com amigo! - Riosalido um dos hispanismos gallegos por rio sahido, e no nome de logar. Ha urna povoao assim chamada, situada num ribeiro do rnsrno nome, affluente do Henares, na provincia de Guadalajara (bisp. de Siguenza). Vid. D. Juan Manual, El Libro dela Oaxa ed. Baist, p. 88, 4, 5, 16. - Mas a primeira opinio a verdadeira, conforme resulta do ,erso parallelo Pela ribeira do rio levado. Ambos os termos, repetidos varias vezes no Cancioneiro, p. ex. (~V S86, indicam volume de agua fra do comrnurn, na foz do Tejo ou do Douro. Provavelmente qualquer das chamadas mars v,as, de agosto e setembro, tempo dos banhos, ou alguma inundao primaveril.
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a valia verdadeira dos poetas e o brilho nobiliarchico de certos nomes. Censurava p. ex. Varnhagen por nos ter dado uma s poesia de D. Affonso Sanches, bastardo de D. Denis, e muitos versos de jograes ignotos! Aos generos cultivados por estes populares allude vagamente (Trovadores p. 159 e 186), acolhendo da carta do Marqus de Santilhana as designaes serrana (ou menos exactamente serranilha) e dixer, e das obras de alguns quinhentistas o titulo obscuro de solao. Acertada e fecunda era a tentati va de procurar no~ nobiliarios nacionaes e em documentos historicos os nomes, em grande parte aristocraticos, do catalogo de trovadores impresso por Wolf e Yarnhagen, alguns dos qnaes j haviam sido, de resto, identificados por Lopes de Moura. 1) Est claro que tambem nesta parte do seu trabalho Th. Braga nem sempre podia escolher bem entre differentes homonymos, por ainda no conhecer as obras dos poetas e as alluses historicas que nellas se escondem. Com relao ao CA relevarei um unico, alis muito pequeno erro de facto, e esse smente porque o auctor o repete ainda hoje com singular teimosia, 2) illudindo sempre de novo os critics que se inspiram nas suas obras. 3 ) Falia conseqentemente de vinte e quatro folhas soltas, encontradas em Evora, sendo ellas onze. Vinte e quatro eram as poesias, d' ellas extrahidas, e collocadas fl'ente das trovas, 4 ) na edio madrilena.
45. Varnhagen ficou descontente com algumas censuras que o novel e impetuoso escriptor lhe dirigira redonda e resolutamente, a pesar de este se ter visto obrigado a cit-lo continuamente e a construir sohre as bases por elle lanadas. Desafogou num folheto em forma de libello, predizendo a Th. Braga que tambem elle ver-se hia obrigado a rectificar muito erro no decurso da sua carreira litteraria.
31. Th. Braga e os antigos Romanceiros de Trovadores: Provars para se juntarem ao p'rocesso. 24 pag. - Vienna, Gerold, 1872. 1) meritorio o que apurou a respeito de Barroso, Charinho, Aboim, Bayo, Lobeira. 2) Trovadores p. 86, 93 e 225; Theoria 3a ed. p. 198; Era Nova I 613; Zeitschrift I 45 e 188; Gane. Vat. Rest. p. XCV e LXXXI; Rev. de Estudos Livres II 608; Cu1so 87. 3) Menendez Pelayo, Antologia III 47; Marques de Valmar, Cantigas de Maria I 9. 4) Trovas e Cantares p. 15; Diez, Kunst- und Hofpoesie lU. 3
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V arnhagen condemna a faanha de querer formar as biographias dos principaes trovadores sem conhecer as suas obras. Sustenta que sendo de maior antiguidade a escriptura do codice de Lisboa, ainda assim devia ser de data anterior o original do da Vaticana, ou pelo menos partes d' elle, visto trazer nomes de trovadores; e cr que este ultimo foi formado da reunio de varios cancioneiros menores. Acha malaventurada a preteno de datar de 1212 a cantiga non ven al Maio. Censura Braga por citar smente a lista de trovadores de Wolf, uma vez que tirou da sua a indicao das cantigas de cada auctor. E amesquinha de novo a parte que coube ao erudito alie mo na descoberta do cod. 4803, reivindicando a gloria toda para Lopes de Moura. 46. Os volumes de Th. Braga, ricos em boa doutrina historica, apreciaes ingenhosas e affirmaes estimulantes, fructificaram. Temse dito que foi a leitura dos Trovadores galecio-portugueses que interessou um philologo italiano a ponto de se erigir em protector generoso dos estdos luso-provenaes, offertando a esta nao os seus primeiros e mais importantes monumentos poeticos em um magnifico volume. E a affirmao no tem nada de estranho. Fallo de Ernesto Monaci, um dos fundadores da Rivista di filologia mmanxa (1872), chamado nos ultimos dias de 1870 para iniciar a cadeira de litteraturas romanicas na Universidade de Roma. A 11 !le :Maro de 1872 teve pela primeira vez entre mos o Cancioneim portugus da Bibliotheca do Vaticano, tomando a resoluo de lhe dar publicidade. Em principios do anno seguinte o ms. j estava no prlo. 4 7. Durante a execuo apresentou dois pequenos ensaios, como precursores da impresso integral do codice 4803, esperada desde 1843 no mundo scientifico.l)
32. Ernesto Monaci, Ganti antichi portogltesi tratti dal codice vaticano 4803 con [Link] e note, a cura di E. M. XI-32 [Link], Galeti 1873.
Estes cantos antigos so urna d' aquellas lindas plaquettes que os lettrados d' Italia [Link] offerecer aos antigos no dia do noivado. Abrange apenas doze flores extrahidos do CV, sendo ineditos uns
1) No foi, por tanto, o applauso com que foram acolhidas pelos doutos de todos os paises essas primicias do seu trabalho que levou Monaci a realizar a ardua tarefa de 1ep1oduzir em impresso paleographica o Cancioneiro todo.
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oito. Quasi todas (I-IX, e mais duas, intercaladas nas notas) so de feio popular, colhidas entre os cantares de amigo, j reconhecidos com intuio segura como verdadeiros typos da poesia nacional primitiva por Diez que os approximara de algumas canes , introduzidas por Gil Vicente nos seus autos. 1) Na Introduco, Monaci quebra lanas pela origem puramente indgena d' estes versos, differentes das canes palacianas pelo esprito que os anima, pelo metro e rhythmo, as consonancias, a linguagem ingenua, vocabulos archaicos e pelo notavel caracterstico de sempre sahirem da bocca de mulheres-donzellas e namoradas. O italiano insurge-se contra o romanista parisiense Paul ~1ey~r porque, ao dar conta do Canci'.onei-rinlw de Varnhagen 2) havia assentado que esses cantos, feitos sobre typos populares, eram, ainda assim, obra de lettrados, cujos nomes trazem, sendo talvez mais tarde aprendidos e cantados pelo vulgo, pelo motivo de andarem impregnados de verdadeiros sentimentos populares, como aconteceu na Provena s poesias de Guiraldo de Bornelh. Monaci, por no concordar com esta hypothese, adopta e sublinha a opinio de Braga que oR proprios cantos que possumos, foram colhidos, em forma mais rude e agreste, da bocca do povo e retocados pelos trovadores dionysios com tanta fidelidade que at conservaram intactas as assonancias. 3)
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tradicional, comrnum a diversas populaes romanicas, sem que se possa fixar a regio onde nasceram.l)
33. Paul Meyer, Romania II p. 265. Paris, 1873.
49. Nestes princpios de debate sobre um dos problemas mais importantes, ligados lyrica medieval, tornaram parte Th. Braga e F. Ad.- Coelho. O primeiro, nacionalista convicto, continuou firme no seu posto. Partindo da dan.a Bailemos j todas, todas ay amigas, que nos foi conservada em duas redaces muito parecidas, mas com attribuio a dois poetas dinrsos, ambos gallegos, sendo clerigo um e o outro jogral (tV 462 e 761}, contesta o direito de classificarmos qualquer dos dois como plagiario e defende a these que ambos se serviram de uma velha lettra popular, a qual limaram e ensoaram apenas. Aponta mais algumas serranas, de caracter archaico nas obras de Gil Vicente, notando a persistencia do typo, e opina que sendo plebeus os trovadores que assignam as mais ingenuas serranilhas, est proYada a communho directa com o povo. Segundo elle esses jograes cantaram no tempo da floT, sendo por isso aggredidos por D. Denis (CV 127), o que evidentemente erroneo, visto o rei dirigir as suas alis injustificadas censuras contra os provenaes que celebraram com dce jubilo a primavera e os seus encantos:
Proenaes soen mui ben trobar e dixen elles que con amor. 2)
No mesmo artigo Th. Braga adopta para as cantigas archaicas, comeando com um Ay doloroso, o termo cantar guayado, colhido nos autos de Gil Vicente. s)
34. Bibliographia critica de historia e litteratztra. Vol. I p. 248. Porto 1873-1875.
50. O termo canto de ledino foi logo depois proposto po1 F. Ad. Coelho para os canticos de romaria. Funda-se, como sabido, na decantada estrophe do Chrisfal em que o poeta ouve a sua pastora ou serrana entoar os versos:
1) Fa1lando dos poetas que cultivaram o genero popular, dizia: Ils tiennent une place tout- - fait indpendante dans la posie du <tnoyenge. 2) A mesma interpretao arbitraria foi posteriormente repetida no :Manual de litter. port. 43. - Canello emendou-a nos Saggi p. 220 n. 1. 3) Vid. Gil Vicente III, 143 (e na 243, conforme se diz nas obras de Braga).
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Yo me iba, la mi madre, a Santa },faria del Pino.
E entrou em lugar de delledino, na ento nova edio de Braga, onde os versos citados apparecem depois do trecho:
tendo parecer divino, para que melhor lhe quadre, cantou canto de ledino
restaurao feliz, segundo uns, ?U interpretao arbitraria, segundo outros. 1) Alm d' isto, o circumspecto erudito observa judiciosamente que os cantares de amigo de D. Denis e seus cortesos podiam muito bem ter passado para a bocca do povo, mesmo se fossem feitos sobre typos franceses e [Link], logo que no espirito e na forma correspondessem, como effectivamente correspondem, ao ingenuo pensar e sentir das massas; e lembra o exemplo quasi hodierno de Goethe e Heine. Entendia por isso que se tornava necessaria a comparao minuciosa entre as composies de caracter popular do CV e de Gil Vicente, e as lyricas medievaes francesas.
35. Bibliographia critica p. 318-320.
51. Achando digno de louvor o modo de ver do benemerito introcluctor da philologia comparada em Portugal, que lhe ia revendo as provas do Cancioneiro, e fazendo propostas de restituies, Ernesto 1\Ionaci consagrou publicamente o termo canto de ledir10 2) ao publicar um segundo ramilhete de trovas de amigo, composto de 17 canticos de romaria (CV 734:-748, 750 e em nota o No. 74:9).
36. E. Monaci, Cantos de ledw tratti dal grande [Link] portoghese delta Biblioteca Vaticana. Halle a. S., Typ. Karras, 1875. 3)
Nada posso dizer a respeito da restituio do texto nestas poesias, porque, apesar de esforos reiterados, no consegui vr nenhum exemplar d' esta raridade bibliographica. Nos Canticos
I) Romania II, 152; Revue critique II, 136 e 137. 2) Vid. Revista lusitana, III, 353 e V. 55.- Groeber's Grund1iss II h 149 e 152 e K1itischer Jahresbericht IV, 2, 218. O termo propagado por Braga no Nanual p. 45 e nas Questes p. 30 foi adoptado por Canello, Saggi 217, e por Menendez y Pelayo nos Prologos Antologia Lirica. 3) Desconheo o artigo que Th. Braga dedicou em 1875 aos Cantos de ledino no diario portuense a Actualidade; julgo todavia que o possumos reimpresso na miscellanea intitulada Questes de litteratura e arte portuguexa p. 29- 39.
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.Ant'(gos _ geralmente bor, muito superior que o diplomata. bra-
sileiro havia apresentado. 1) Ficou assim dada a prova incontestavel de que :Monaci estava preparado a dotar este pais com a edic.;o critica do cancionc::iro todo.
52. Ponco depois elle sahiu luz.
37. Il Canxoniere Portoghese delta Biblioteca J'aticana. messo a stampa da E. l\fonaci con una prefazione, con fac-sim. e con altre Illustrazioni. Halle a. S., Max Niemeyer Editore, 1875.~)
Se Monaci preferiu todavia dar edio rigorosamente diplomatica, reproduzindo o codice pagina a pagina, linha a linha, com representao de to_das as siglas, escripturas diversas, nnmerao e paginao antiga, foi porque este, unico e insubstituvel, corno ento se pensava, est escripto em papel inferior e com tinta corrosiva, exposto por tanto a [Link] destruio. Em vista da copia, escripta em fins do sec. XV ou principio do sec. X VI (quando o original j estava incompleto) por mo de um italiano, cnidafloso sim, mas pouco atilado, que o deturpou a ponto de resistir freqUentes vezes a toda a tentativa de restaurao e interpreta;o, ::\Ionaci pensou tambem que uma edio critic.a, definitiva, era empresa para o futuro. Empresa de tal ordem que smente se poderia realizar ao cabo de longos e variadssimos estudos, tendo os doutos deante de si o edificio em runas, sem que o trabalho cntteo tivesse apagado vestgio algum das vicissitudas por que o codice passou. A meu ver procedeu bem, urna vez que a reprod uco heliotypica ultrapassa as posses de um particular. No se contentou, porm, com a reimpresso paleographica. Prestou aos deturpados textos os primeiros soccOITOS de que careciam. Escreveu
1) Hoje facil restabelecer algumas leituras, ento duvidosas, dando aos vocabulos a boa orthographia e orthoepia, e s estrophes a sua verdadeira forma: I, 8 leia-se comigo - Entre 12 e 13 introduza-se: Vos preguntades polo voss' amigo I E eu bem vos digo que san' e vivo - II, 1 Amad' e meu amigo - 5 .Amigo' e meu amado - 11 e 17 baiosinlw. Depois de 20 Selad' o bel ca-valo, Valha Deus! 'J'reide vos, ay muado E guisade d' andar - III 3, 9 e 15 quen - 9 louana, louanas - V l 1 endado -- VI 11 dona ?rirgo ---:- VII 7 e miier (manere) - IX 6, 12 e 18 este cantar. -XI 9 pe1 - 15 dig' - XII 4 falas8e - 7 poucela 23 tenzi - 34 do Sar. Algwnas rectificaes como XI, 2 pelo caminho {rances j tem sido propostas por l\fonaci nas Notas ed. integral. 2) o vol. I da colleco: Communicaxioni dalle Bibliotcche di Roma e da altre bibl-ioteche per lo studio delle lingue e delle letterature romanxe, a cura di Ernesto Monaci.
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notas que contem numerosas propostas de restituio, um catalogo dos principaes erros do copista, uma tabella das abbreviaturas, e um indice onomastico,t) no s dos trovadores, mas tambem dos nomes proprios de pessoas e Jogares que occorrem nas cantigas. 2) Numa concisa introduco esboa a historia da litteratura [Link] em Portugal, fallando da voga que a poesia teve nos paos regios; o rapido declinar logo que lhe faltou o favor dos grandes; o esquecimento em que cahiu durante a epoca hespanhola e a da Renascen~a italiana, restando apenas a vaga tradio do talento de D. Denis, fixada pelo l\larqus de Santilhana no sec. XV, e renovada no XVII por Duarte Nunes de Leo. Faz a resenha dos auctores que o precederam na publicao de alguns textos do CV; descreve o codice e expe os resultados das importantes investigaes sobre as fontes e sua historia, a que procedeu. Notando que outra mo, diversa da dos amanuenses, escrevera algnmaH rubricas, introduzindt> uma pagina(;o remissiva a outro codice, assim com? notas marginaes, que so testemunho de conhecimentos pouco vulgares de lnguas e litteraturas neo-latinas, examinou os caracteres e reconheceu a lettra do grande humanista Angelo Colocci. procura de manuscriptos seus teve a boa fortuna de encontmr no Cod. Vat. 3217 um autographo precioso que, repreHentando um catalogo de auctores portugueses, inclua todos os nomes do tV, accompanhados de algarismos de 1-1675, e era evidentemente o indice de outro cancioneiro mais completo, muito semelhante, embora apparentemente diverso em algumas attribnies. Concluiu ento que tambem o {1, . fora copiado (com destino s suas colleces) por ordem do erudito italiano (t 1549), o qual havia reunido antes de 1527 uma magnifica livraria, e sempre documentou vi vo interesse pela poesia italiana e as suas relaes com a da Provena, Catalunha e Hespanha. 3 ) Embora vandalizadas no saque de Roma, as suas colleces abrangiam ainda mais de 500 codices quando Fulvio Orsini as comprou aos herdeiros ~o humanista (em
1) Note p. 427 -4.40; .AbbTeviatU?e 441-448; Indice onomastico 449-456. 2) evidente que, derivado de textos ainda no passados pela craveira da critica, este Onornastico, devia encerrar muitos nomes pbantasticos: SogaT, Teleuco, Lei-ia-DouTa, Dona Ugo, Vella, !Jlacoli, Jlorax,, Novel, Gonis etc. 3) Existe p. ex. uma carta de Colocci que manifesta com quanta diligencia procurava um manuscripto das rimas de Folquet de Marselha.
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1555 ou 1558), conforme consta do inventario ento elaborado (Cod. Vat. 3958). e tambem quando, depois da morte d' este possuidor (t 1600), passaram, como legado, para a Bibliotheca do Vaticano. Indagando neste inventario quaes ttulos se podiam referir aos cancioneiros portugueses, Monaci achou duas vezes indicado um libra spagnuolo di romanxe (Caixa 6 No. 18 e 41 ). O titulo assaz vago, na verdade; spagnuolo pde porm entenderse como portugus, segundo um uso muito vulgarizado no sec. XVI; 1) e romanxe podia designar poesias em vulgar. 2 ) 1\Ias ainda que um dos dois fosse realmente o cod. 4803, o segundo no apparecia. Por isso 1\lonaci opinava ento que um dos codices no escapou soldadesca infrene do condestavel de Bonrbon, sendo queimado ou, mais provavelmente, levado como presa por algum amigo de antigualhas patrias. Quanto identidade do CV com o volume visto por Santilhana perto de 1400 em casa de sua av; sobre a hypothese aventuradissima, ideada por Braga, segundo a qual o Cardeal de Albornoz teria doado um livro gallaico- portugus ao collegio hispanico, por elle fundado em Bolonha; e sobre a identidade de ambos os volumes com o Cancioneiro de D. Denis, achado em Roma em vida de D. Joo III, o sabio professor italiano no se pronunciou. Apenas reflexiona: que maravilha seria, se Duarte Nunes de Leo visse depois do saque, em Portugal, o codice achado em Roma! -conjectura de que terei de tratar em captulos posteriores. Na falta do segundo codice, ~Imaci d-nos, como appenso valioso, o Indice, marcando por meio da apposio de numeros seguidos, todas as partes que se acham no ('Y. 3 ) Com relao s cantigas em commum ao CA e t'Y no vae alm do que j fra estabelecido por Varnhagen. Remettendo 48
1) V8rdade que em outro autographo de Colocci (Vaticana 4817) ha um apontamento em que se emprega a designao portoghesi. E diz: ltlesser Octaviano di 1llesser Barberino lta il libro di portoghesi, que/ da Hibera l' ha lassato - alluso escma, cuja Hignificao ainda nenhum achado feliz nos tem revelado. 2) O cod. 3793, que primeiro fm do Cardeal Bembo e depois de Colocci, um cancioneiro italiano, intitulado simplesmente: De varie 1ornanxe volgare. R) Catalogo di autori portoghesi compato da A11gelo Colocci sopra. un anfico camroniere lwggi ignoto, e 1ip1odotto secondo l' autografo esistente nell cod. vat. 3217.
1
vezes s Trovas d' este editor extracta as variantes das cantigas seguintes:
CV CA Tr 2- 3 222-223 231-232 de Pero Barroso 5- 6 224-~25 233-234 D. Affonso Lopes de Bayo 11-12 226-2~7 235-236 Mem Rodrigues Tonoiro 29 e 38 228 Y} J - d G "lh d 30--36 229-234 230-242 oao e UI a e (os Nos 31 e 32 so uma s composio) 40 240 248 de [Estvam Froyam] 42-45 242-245 272-275 Joo Vasques 46-53 257-264 92-99 Fernam Velho 279 184 271 D. Joo de Aboim 395 246 276} 400 248 278 Pay Gomes Charinho 428 255 285 485-487 308-310 m. n. o. Roy Fernandes de Santiago 566-570 288-29~ 112-116 Pero da Ponte 579 300 580 298 581 301 582-586 293-2 97 824-825 282-283
a 265 b 117 _ 118
(2)
(2)
(~)
(7) (1)
(4)
(8) (1)
(3)
(3) (5)
(8)
262~264
123-124
(2)
(48) 1 )
53. A obra foi acolhida com os devidos louvores. Mas naturalmente o estudo aprofundado de um livro que fazia resurgir uma litteratura inteira, deturpadissima~ no podia fructificar sem grandes delongas. Os que fallaram d' ella sem tardana restringiram-se a annunci-la. Gabando o methodo, lastimando o mau estado do texto, no deixaram de acentuar o diminuto valor poetico da parte provenalesca, parando, pelo contrario, com certo prazer, em face das composies de caracter popular.
~ 54-. Neste sentido no faz excepo um compatriota de Monaci que dedicou ao Cancioneiro uma dissertao um pouco mais extensa,
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dando especimens dos tres generos piincipaes, cantigas de amor, de amigo e de escarnho ,t) em lio regularizada, e tentou resolver o problema lingistico, j ventilado por Mil y Jfontanals.
38. U. A. Canello, Il Canxonime pmtughese delta Vaticana, p-ublicato da E. lllonaci. - Pag. 213-244 do vol. Sag!Ji di Critica Littemria. - Bologna, 1880.
Segundo Canello a razo porque Galliza (ou a Portugal) coube na creaf;o de uma lyrica hispanica o papel repr~sentado na Italia pela Siclia foi que ambos os pases (quero dizer a Galliza e a Siclia) se achavam muito affastados fla Provena, fallanllo uma lingua diversa em demasia para que os seus habitantes pode~:;sem aprender a poetar em proven\al, como a(;()nteceu na Catalunha e Italia do Norte. No duvida que antes de um impulso partir da crte, i. . (a seu ver) antes que Alfonso X de Castella e Bonifacio Calvo de Genova se lembrassem de metrificar em gallego, uma florescente poeRa popular mesmo uma escola de dexidores nacionaes j preexistia no Occidente, em dias de Affonso III, ideia justa e digna de louvor. No proposito de assignalar os precursores aponta para um velho segrel Bernaldo de Bona vai, mencionado pelo Rei de Castella eLeon, como objecto de censuras(t'V70) e que, segundo elle, fra tratado por Colocci, no Indice, de primei'ro tmvador. 2) Em Lu~:;ca de traos caPRcteristicos nos ver::;os d' este poeta releva alguns de medida grande (7 5 syl.), que lhe parecem rhythmicamente diversos dos da lyrica proven\al e da gallaico- portuguesa do tempo de D. Denis, notando que elles se assemelham ao antigo verso epico francs, com accento na Gta, e cesura depois da 7ma, supra-numeraria. Tal anomalia leva- o a crr que temos ahi ensaios primitivos de um
1) Nas palavras que dedica aos generos principaes esconde-se um equivoco, que no deixa de ter a sua graa. Na rbrica das cantigas C\'90~ e 10!1 acha-se empregada a formula: esta cautiga de cima, o quo quer dizer: sztp1adicta. O critico italiano, porm, explica cima por monte, comparando taes versos de maldizer, que attribue a rusticos serranos de Portugal, com as satyrns primitivas do mundo latino, reconhecendo nellas invenes de saty1os = rusticos boaes (1oxxi abitatori dei bosclti)! Escuso dizer que a expresso cantiga de cima empregada a miudo, com relao a generos variados, embora todos faam parte do Cancioneiro de burlas. 2) Para a 1espectiva rbrica: en esta folha adeante se comeran as cantigas de amor pa myta t1obado1 Bernal de Bonaval Canello prope a leitura pm o m:uyto nnt'.go t?obndm. Cf. Parte III, Biogr. XXXV, 01ide exponho as minhas ideias.
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jogral gallego que procurava crear alguma consa no,a como os sapphicos dos hymnos latinos, pela juxtaposio de versos curtos populares. Em seu tempo voltarei a fallar d' esta hypothese. 1)
Neste livro 'l'heophiloBraga emprega arbitrariamente uma terminologia em parte boa, em parte muitssimo discutvel, colhida nos cancioneiros, em Gil Vicente, no Chrisfal, nas poeticas provenaes, ou na litteratnra castelhana, sem definio segura e clara dos generos e das especies. 4)
2) Sobre a poesia popular da Gallixa em Riv. fil. 'l"om. II, J29- 143 (1876). Este artigo teve segunda edio ampliada como cap. III de um tradado da Poes-ia 'lttOde'IYta portugttexa, que serve de introduo ao Parnaso portuguex, Lisboa, 1877; e terceira edi~o nas Questes de littmatura e arte port., [Link], 1881, sob o titulo: Fontes poei'icas gnllegas. 3) No. 3, 5-40 e 42-64. Cf. \V. Storck em Zeitsch1ijl 1, 453. 4) Canto de ledino, altorada, cantar guayado, dixe1, praga, sirvente, salutx, barcarola, pastoreia, seguidilha, devinalh, noellaire, planh, jocs partitx, jocs enamo'latx, bailada., bailatn, descorts, cano francexa, donaire, lira, solao, cobla 'lttO'Itorima, ref'len, teno, fado, chacota de ter1eiro 1 cha(;()ula, aravia, areyto.
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40. O Cancioneiro da Vaticana e suas relaes com outros cancioneiros dos sec. XIII e XIV. Em Zeitschrift Vol. I p. 41- 57 e 179-190. Datado: 23 de Septembro de 1876.
apenas um capitulo de um trabalho mais extenso, destinado a substituir o primeiro livro sobre os Trovadores e a accompanhar o texto completo do cancioneiro restaurado, j ento prompto em manuscripto.
Impellia-o o duplo desejo, desinteressado, de ser o primeiro a desvendar a riqueza dos files entreabertos da nova mina, assim como a fertilidade das theorias turanianas, e de se mostrar grato aos desejos de Monaci, expressos nas palavras: Voglia il cielo eh~, toTnato il lib'ro in P01togallo, diventi p'resto oggetto di studj novelli! No se recordava que uma 2a edio popularizada ou de texto legvel, seguindo to de perto a impresso diplomatica 1), devia necessariamente prejudicar a sua venda. Esquecia que Monaci dissera tambem : una edixione critica definitiva di questo rrnonumeuto impresa di tal natura, che., a mio ~Tedere, soltanto i dotti del paese pot'rartno dopo lunghi e rnoltepb:Ci studj porta're a compimento! 2 ) Esquecia
1) Possuo as provas de que este receio incommodou no pouco o illustre italiano e tambem o editor allemo, o qual no se poupara a sacrificios importantes. Sem razo! porque apesar dos servios que a redaco restabelecida de Th. Braga prestou, o texto diplomatico continua sendo a base indispensavel dos estudos scientificos e da futura edio definitiva. 2) Como no posso deixar de fazer opposio a miudo s doutrinas e ao methodo do sabio professor, que me honra com a sua amizade e confiana, seja-me licito fazer uma vez a sua apologia, applicando-lhe as palavras que Scherer dedicou um dia a Jakob Grimm: Quem no ousou no ganhou nem perdeu.- preciso que tenha a coragem de errar quem cultiva terrenos virgens. Trabalhos esmerados e circumspectos, acabados em todas as minucias, at aos ultimos pontinhos sobre os ii, to perfeitos que seja preciso medi -los pela bitola mais alta, mostram as culminancias a que se pode e deve elevar o trabalho do investigador. Mas ao mesmo tempo, obras assim feitas teem um caracter severo de intangibilidade que repelle. descora, humilha e abate. Outras ha, pelo contrario, e das mais bellas que existem, cheias de imperfeies. lacunas e temeridades, porque deixam livre a escolha entre varios pareceres sobro o mesmo assumpto, Jll!lS q_ue irradiam um fluido suggestivo e estimulante, provocando-nos a
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que ao clamar por esta collaborao, estava persuadido que muitos annos se gastariam no apparelhar de materiaes, a elaborao da grammatica archaica, o glossario, estudos biographicos, a reviso parcial da obra dos melhores trovadores, como D. Denis, Joo de Guilhade, Joo Ayres de Santiago, Pero da Ponte, Martim Soares, tudo isso depois que fosse impressa a edio critica do pergaminho do sec. XIV, cuja linguagem e orthographia havia de dar ideia exacta do que fra o manuscripto-pae dos apographos italianos, e servir de padro aos restituidoret:!. O plano ideal de Th. Braga, que se abalanara ao commettimento sem delongas, as quaes na sua mente sempre prejudicam a sciencia, era, de resto, excellente - abstraco feita da preparao philologicamente insnfficiente a que j me referi. No Prolog~ que um libello vehemente contra a inercia da Academia e ao mesmo tempo documenta o seu proprio enthusiasmo, o auctor expe o que a sua edio havia de contr.
1a. Uma longa introduco sobre a historia da poesia provenal portuguesa, deduzida do texto do cancioneiro; e um estudo da historia externa sobre a filiao dos differentes cancioneiros dos sec. XIII e XIV, com os quaes o ev tem intima rela~~o.
2. O texto das 1205 Canes, restitudo, emquanto lingua, da epoca em que foi escripto o cancioneiro, pelos processos crticos mais rigorosos; emquanto poetica, fixando-lhe a sua justa metrificao e a forma estrophica segundo os dados comparativos da poetica provenal.
3. Um glossario de todas as palaYras archa'icas, empregadas no Cancioneiro; e noticias biographicas dos trovadores portugueses.
Seria bello, se a excecuo correspondesse ao plano promettido. A Introduc~o ( Llual pertencem, como natural, as biographias, nomeadas no elencho em ultimo logar; ou antes algumas simples notas biographicas) compe-se de seis captulos: I. Ori![Link] e diffuso da poesia provenal na Europa moderna. - II. Periodo italoprovenal (1114(!)-1245). - III. A poe._ia provenal na crte de D. Affonso III: Periodo limosino (1246--1279). - IV. A poesia
continuar na explorao, convencidos que a abundancia dos veios nem de longe ficou exhaurida. - Os trabalhos de Th. Braga (embora no attinjam o vasto alcance dos de Jakob Grimm) so d'estes ~germinaes fecundos que evocam o poder critico e creador de outros, diversamente dotados.
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provenal na crte de Dinix: periodo limosino 1) (1279-1325). -V. O CV e suas relaes com oubos cancioneiros dos sec. XIII e XIV. VI. O elemento tradicional no CV. As linhas geraes constructivas so, bem se v, as mesmas do estudo anterior. Apenas ha accrescentos numerosos, trechos extrahidos das poesias do CV, e notas historicas que servem de subsidio util para a illustrao de differentes alluses e referencias. A identificao dos poetas falha muitas vezes. Os reis Affonso III e IV so aprensentados corno poetas. Os versos do Sabio de Castella so attribuidos, metade ao Leons Affonso IX, e metade a Alfonso XI. 2) Nos estudos comparativos, os modelos directos, franceses e provenaes, e as concordancias de forma e fundo teern parte muito diminuta, emquanto analogias no s com hynmos accadicos, mas ainda com dsticos chineses (realmente notaveis e de indubitavel interesse) alargam o horizonte e do prova da fina intuio com que Th. Braga anticipa factos que carecem ainda de demonstrao scientifica. Hypotheses e [Link] arriscadas alternam com observaes excellentes. 3) Na critica do texto a genialidade do seu esprito serviu no sei se direi de auxilio, se de estorvo, uma vez que lhe produziu a illuso de que nem uma s cantiga, por mais deturpada que fosse, resistiu aos processos a que a sugeiton, sendo positivo, que uifficilmente se encontrar uma duzia que satisfa~a em absoluto. Basta apontar os numeros 19, 63, 74, 208, 215, 261, 387, 410, 460, 461 e 770 para indicar quo longe ficou do desideratum. 4 )
1) Julgo que ha aqui um erro e que o auctor queria dizer perodo gallego. A p. LXIV l-se: por isso que primeira influencia por via da Galliza sobre o gosto poetico, chamamos escola limo sina e influencia communicada pela crte de D. Diniz chamamos escola g(tllega. No Curso de litteratura, que de 1885, a tri- parti~~o do perodo provenal em tl"es escolas permanece, sendo a primeira italo- provenal. A segunda todavia, denomina- se ahi afrancexada, e a terceira limosina. Esta fluctuao constante mo"stra quo pouco solida era a base sobre a qual a dieta periodizao foi construda. 2) Digo: do Sabio, mas no estou certa, se todos so obra sua, ou se a parte cynegetica foi composta pelo av - A:ffonso IX. O que evidentemente falso nas affirmaes de Theophilo negar a parte de Alfonso X, e sustentar lf de Alfonso XI. 3) Muitas das que dizem respeito a poetas e poesias sero discutidas nos capitulos seguintes. assim como nas Notas finaes do vol. I. 4) Encontram-se algumas emendas relativas aos textos impressos na .[Link]'la , na Ze'schn:{t I, 453 em um artigo de 'V. Storck. - Sobre
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O glossario, muito incompleto, sem indicao- das cantigas a que as explicaes se referem, inado -de palavras que nunca existiram e de tradues phantasticas, , de todo o ponto, insuf- ficiente. 1) Com relao ao CA ha alguma novidade nas paginas que lhe dedica 2), embora, fiado nos dizeres de Varnhagen e em uma copia !la Academia, Braga nunca recorresse ao original! Aos poetas, anteriormente identificados, junta mais qn~tro, cujos nomes apurou. Todos os 1 7 3) eram, - segu,ndo erradamente i-magina, fidalgos e grandes privados de D. Denis, comquanto no possa negar que alguns figurem em doaes de Affonso III. Assenta que dois, Joo de Gaia e 1\'Iem Rodrigues Tenoiro 4 ) (p. XLIV e LXXXIV), viviam ainda no tempo de Affonso IV. 5) Na parte no assignada, que ento constava de 244 composies. julga reconhecer um corpo de poesias nascidas na crte do Bolonhs. Com fundamento. Smente a hypothetica attribuio de parte d' ellas ao proprio monarca, no tem o menor fundamento. Por causa das 16 vinhetas, a que allndiram Bellcrmann e Varnhagen, e que, por um mero acaso, correspondem (quasi) aos 17 trovadores ento descobertos, entende que o volume todo fra compilado de 16 ou 17 cancioneirinhos, sem neste calculo fazer caso das 244 manifestaes anonymas! Confundindo o estado actual do pergaminho com o primitivo, conclue que no o acabaram, porque o estylo limosino em c1ne est escripto passo_u de moda, sendo substitudo no reinado de D. Denis pelo gosto das serranilhas gallegas, e tambem porque a musica antiga foi abandonada, cedendo
outras, propostas por Epiphanio Dias na mesma tevista XI, 42- 5fi vid. o nosso No. 57. - Cf. Lang CD p. VII e VIII.
1) As palavms: abaco, affamado, alvo, aval, avindador, no existem no Cancioneiro. Vid. ainda lex (por ler) explicada como se fosse lado; me.r;ela = maschnlah = o que Deus quixer; pediolo = peditorio; alacr = tecido antigo; coteife = capa de pesponto; garceiras = roupas de moa. 2) Vid. p. LVII, LXXXI e LXXXIX e Zeitscln-ift I, 45 e 180. .. 3) Vid. p. XCII. - Cf. p. 74b. 4) No Capitulo VI hei-de provar que ste Tenor-io no o justiado por Pedro o Cruel. mas antes seu av. 5) A. p. XCVIII Joan de Gaia. designao como escudeiro de D. Denis; mas a. p. LXXXIX Th. Braga conclue que o CV deriva de cancioneirinhos diversos, posteriores ao CA, exactamente por ter uma parte relativa a successos da crte :le Affonso IV.
o logar a toadilhas e instrumentos bretonicos. Das variantes entre os textos communs ao CA e C\- deduz, categoricamente (depois de analysar 28 entre 56), que os dois codices provem de fontes distinctas, no tendo servido o C..\. para a colleco de Roma. Dois levssimos indcios persuadiram-no, pelo contrario, da identidade do Cancioneiro, cujo Indice foi elaborado por Angelo Colocci, com o Livro do Conde de Barcellos. Ei-los aqui: 1. O cancioneiro desconhecido principia com lais de gosto breto, e no Nobiliario do Conde ha tambem referencias a tradies bretonicas! 2. Extraviado em Castella em conseqencia da morte de Alfonso XI (opina elle), a eompila\o do filho de D. Denis veio parar, em copia, nas mos dos l\Iendozas, da qual o (:y um dos apographos. As consideraes sobre os mais cancioneiros, positivamente existentes on puramente hypotheticos, e o quadro geral da sua filiac,:o so calculos sem base solida. 1)
58. Ao passo que esta edi\o, posta ao alcance dos curiosos, se ia imprimindo em Portugal, uma feliz descoberta realizou-se na ltalia. ~urgiu o ignorado volume intimamente relacionado com o codice vaticano 4803, que pertencera tambem a Colocci, e servira apparentemente para a confeco d' aquelle catalogo de nomes, junto por l\Ionaci ao CY como subsidio precioso. Procurado em vo em Roma, appareceu inesperadamente na l\Iarca de Ancona, a. pequena distancia de Jesi, isto do ber\'O do illustre humanista. Deve-se o achado ao professor de historia patria Costantino Corvisieri, o qual, trabalhando em Cagli na livraria do Conde Paolo Antonio Brancuti, reconheceu o texto portugus e chamou para elle a atteno de um seu conhecido, Enrico Molteni, novel estudante de philologia romanica. Foi este discpulo de ~Ionaci quem o explorou com ardente enthusiasmo. Logo em 1878 publicava uma succinta noticia, preparando sem demora a impresso das partes ineditas do volume a que, com justo motivo, se deu o titulo de Can-cioneiro Colorei- Brancuti.
42. ll secondo Canxoniere Portoghese di Angelo Colocci, artigo impresso
no Giornale di filologia romanxa Vol. I, p. 190-191. Roma, 1878. ~') 1) Conheo alguma.<; referencias ao Gane. Vat. Rest. em revistas como Romania VII, 479 e Zeilschr'ift III, 113, mas nenhum c01npte-rendu extenso. 2) Cf. [Link] I, 200; Ronwnia VII, 478 e 628.
49 Ahi J,folteni informa apenas sobre os factos principaes, e descreve o volume cartaceo, comprado pelo pae do actual Conde, infelizmente sem nada indagar das vicissitudes por que passara de 1500 em deante. De formato um pouco mais pequeno que o de Roma, muito mais copioso, tendo 355 folhas, contra as 210 ou 220 do outro. Os materiaes importantes que fornece preenchem as lacunas principaes d' aquelle. Mas ainda assim, no est intacto. S subsistem 1567 (segundo os primitivos calculos), das 1675 poesias, registadas na Tavola Colocciana. Por mutilao carece das restantes. As divergencias do CV so menores do que a Tavola fazia suppr. Das que dizem respeito ao numero de composies que competem a [Link] poeta e tambem aos nomes d' elles, varias so illusorias, - filhas de erros de Angelo Colocci. Subsis~ein ainda assim particularidades, notaYeis, como p. ex. a falta no CB de quatro composies do CV em Jogares onde no ha mutilao. I) D' ahi conclua Molteni que ambos os cancioneiros so independentes, embora derivem da mesma fonte primordial, hoje perdida; e tambem, que esta no devia estar occulta a Colocci, visto que d' ella tirou materia para alguns accrescentos (aggiunte). frente das poesias apparecem fragmentos de um tratado archaico de poetica portuguesa, muito deteriorados, mas "\"aliosos, ainda assim. 2)
59. O joven italiano falleceu a 13 de Maro de 1880 com apenas 24 annos quando, j impresso o texto todo, ia dar forma definitiva s notas com que desejava accompanhar o volume segundo da colleco iniciada por seu mestre ( Comr:nunicaxiont):
43. Il Oanxoniere Portoghese Oolocci-Brancuti, pubblieato nelle parti che eompletano il codice vaticano 4803 da Enrico Molteni, con un fac- simile in eliotipia. Halle a. S. Max Niemeyer editore 1880.
Para esta impresso paleographica das partes ineditas do ~B Monaci escreveu a advertencia preliminar, dedicando palavras de saudade ao seu rnallogrado discipulo. Nella repete, ampliadas, as communicaes sobre o ms., assentando que possuimos nelle se no o mesmo, pelo menos a copia fiel d'aquelle grande cancioneiro, do qual o humanista deixou o Indice. Explica o que ha do punho de
1) Vid. Giornale I, 191.- CY36f, 3S7, 410,668. Emquanto ao primeiro entendo que ha engano: o que falta apenas a terceira estrophe do No. 363. Com relao aos mais, tambem haveria que dizer. E' preciso reverificar estas asseres, e numerar as cantigas do CV em harmonia com o CB. 2) Mais tarde se ver que no partilho essa opinio.
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50 Colocci. Alm de numerar as poesias e de muitas vezes as encimar com o nome do auctor, o humanista juntou apostillas marginaes, ora para confrontar vocabulos portugueses com formas italianas, ora para fixar o schema metrico, e preencheu tambem algumas lacunas - tarefas, preciso lembr-lo, que no executara no CV, ligando portanto maior importancia ao CB. Fundando-se principalmente nessas addies, Monaci adopta o parecer de Molteni, segundo o qual o antigo possuidor conheceu e explorou ainda um terceiro codice lusitanico. Prornetteu tambem o exame critico das partes communs aos dois, na convico pa'rtilltada de todos os investigadores que smente sobre a base de tal estudo, incluindo a lista das variantes, se poderia organizar a explorao sr~a e a edio definitiva das cantigas. Infelizmente, at hoje no pde cumprir a promessa. Auctorizanos porm a alentar a esperana que brevemente a realizar, o facto de haver adquirido ha annos o precioso thesouro, e de no o facultar mais aos que desejariam v-lo. 1) Oxal, a minha interpretao seja boa! muito e muito para desejar que as variantes em globo appaream, e que um novo lndice completo, comparativo e critico, accompanhe esse trabalho, anciosamente esperado pelos verdadeiros philo-lusitanoa. A questo das fontes e das mutuas relaes dos dois cancioneiros entre si, com a Tavola Colocciana [e tambem com o CA] s ento poder ser resolvida plena e satisfactoriamente, ficando demonstrado se sustentavel, ou no, a hypothese dos tres originaes differentes, e de' qual d' elles o Indice synthese. 2)
1) Litteraturblatt XVI, 273. Em 1894 Monaci ainda extrahiu manu propria as variants do CD, em favor de um joven professor americano. Depois facultou- o a Cesare de Lollis. Vid. Studj Vol. VIII, p. 52. 2) Parece que a este respeito as opinies esto divididas. Eis as palavras textuaes de Monaci, relativas ao CB : questo e se non l' istesso, almeno '11/na copia fedele di quel grande Canxoniere del quale Angelo Colocci lasci il catalogo ... egli dovette avere avuto per le mani un terxo codice del quale si giov per fare le sue addixioni in questo e nel codice Vaticano. Molteni dissera apenas, com menos preciso: Queste poche notixie, tuttoch insufficienti a dare del nuovo Canxoniere una compiuta idea, basteranno tuttavia a mostrare come malgrado le relaxioni sempre piu strette che si rivelano fra le due raccolte, esse restino pur sempre indipendenti fra loro, ma insieme accennando di derivare da una unica fonte alla quale ambedue convergono. E quella fonte non dovette esse'lfe sconosciuta pel Colocci, il qual non pot se non da essa avere attinto le aggtnte clte di suo proprio pugno tro_viamo cosi nel cod. Vat. come
51 O pouco que por ora sabemos no basta para qualquer das convices crear raizes. s vezes parece mais provavel houvesse apenas dois codices, ambos maltratados, a ponto de qualquer benemerito, que quisesse salv-los em 1500, se ver materialmente obrigado a mandar tirar treslados, havendo neste caso poucas probabilidades de os taes originaes se terem conservado at hoje. Os trechos que Angelo Colocci escreveu de seu proprio punho, considerados pelos criticos italianos como prova da existencia de um terceiro ms., podem muito bem ser emendas de saltos e de erros dos escribas, cujo trabalho fiscalizava e, em parte, copia directa de paginas mais sensivelmente deterioradqs. 1) Quem houver visto as folhas soltas doCA que lhe serviram de guardas comprehender que tambern os originaes, existentes no sec. XVI em Italia, podessem offerecer paginas soltas to rotas e de lettra to apagada que s um apaixonado e experto entendedor, da raa do grande humanista, seria capaz de decifr-las. Com relao aos destroos que restam do tratado poetico, esta supposio parece-me quasi segura. Est claro que se realmente se encontrasse nas bibliothecas italianas mais algum cancioneiro, que fosse o supposto terceiro codice, quer o original do CB do quer o do CV ou outro diverso, muito lucrariamos, em vista da infinidade de erros, commettidos pelos amanuenses do erudito de Jesi! A.s poesias impressas por Molteni, e classificadas de ineditas com relao ao CV, esto numeradas de 1-442. Na verdade
nel Brancuti. - De Lollis, de parecer diverso, emprega as phrases seguintes: il ms. padre cioe da cui il Ood. Vat. e CB furono esemplati (p. 62) - e il Ood. Vat. e da ritenere como un apografo dallo stesso esemplare che servi pel CB (p. 64) e ainda il Catalogo degli .Autori Portoghesi che il Oolocci compilO sul ms. esemplare delle copie a noi pervenutec (p. 69), como se acreditasse num s original. - Mario Pelaez aceita a theoria dos tres codices, entendendo que o cancioneiro hoje perdido foi o texto sobre o qual Colocci compilou o seu Indice, e ao mesmo tempo lhe ajudou a completar o CB. - Vid. Giornale Storico, vol. XIV, p. 43 e 44, e o meu extracto sob No. 77 d' esta Resenha. - Pelo texto se conhece que eu propendo at hoje a ver no lndice antes a synthese do CB, feita com algum desleixo, do que copia de um lndice mais antigo que accompanhava o ms. pae. 1) O que falia a favor do terceiro codice, so certas divergencias entre o CB e o lndice, principalmente quanto s rubricas das primeiras poesias. Confira-se o Capitulo IV d' este livro. 4*
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dispomos comtuclo, ele quantia mais reduzida.t) No so apenas 420, (avaliao primeira ele l\Iolteni), nem to pouco chegam a 4 70, como haviam calculado os criticos, antes da descoberta, conferindo a somma das impressas no CV com as registadas no lnd-ice. obvi.o que o processo no podia dar resultado seguro, em vista elos freqentes eiTos de numerao que se notam, tanto nos dois Cancioneiros, como na Tavol.a. 2) A razo principal 'porque temos versos a menos elos que figuram na Tavola est todavia na mutilao do codice. 3) Faltam -lhe folhas em varios si tios: entre 12 e 13; 6 9 e 70; 326 e 330 e tambem no fim elo volume 4), o que nos priva ele 150 poesias, sendo 50 em commum aos dois cancioneiros 5) e perto de 100 privativas do [Link] relao ao codice ele Lisboa, os ineditos, publicados por Molteni, merecem este qualificativo s em pequena parte. Os encontros so muito freqentes. Dos 442 apenas 245 faltam no CA; 6) 189 estavam portanto divulgados desde 1823 ou, respecti1) Os Nos. 3!4:, 3!5 do CB so ignaes a CV 8-60; o 391 completa apenas CY 1. O 117 no devia ter numerao, por ser um fragmento deslocado e cancellado de CV 79. Os Nos. 331 e 335 so o mesmo texto; 195 e 196 fmmam uma s poesia; e igualmente 200 e 200a. Dos Nos. 2;)9. 435, 478 existe um unico verso. A duas cantigas do Codice faltava a numerao (238h e 47th= CB 22! e 36!). Em 17 cantigas encontramos os algarismos 1epetidos.- A numerao original ia de 1-391 (com lacunas de 9-36; 138 e 139; 273-316)~ de 446-478; 1500-1561 e 1572-1578. Quanto nova, omittiu-se o algarismo 139; 209 e 210 so uma s poesia; e igualmente 214 e 215. 2) No cancioneirinho individual rle D. Denis, o Indice regista p. ex. os Nos. 497-606, ou seja 110 composies, sendo ellas na realidade 129. Deve haver portanto algarismos repetidos em 19 casos, ou em 18, se realmente faltar uma das cantigas do CV (188). Na ed. critica, que devemos a Lang, no se demonsha, quaes os erros. Talvez o amanuense, em logar de principiar com No 497, escrevesse erradamente 479? 3) As margens esto um pouco aparadas, o que prejudica o texto de longe em longe. 4) So esses os crtes de folhas, mencionados por Molteni, visto dizerem respeito aos fragmentos por elle publicados. Mas devem existir mais dois, na parte ainda inexplorada, conforme resulta da nota seguinte. 5) As privativas do CB so: Nos. 9-36 (foi. 12-13); 273-316 (foi. 69 -70); 1562-1;)71 (fol. 327-329) e 1665-1675, no fim do volume, i. . 28 44 11 11 = 94. Faltam os Nos. 138 e 139, como j se disse. Em compensao havia numeros repetidos nos seguintes casos: 8", 39\ 167\ 181\ 181-189\ 317\ 368h e 474h. - Molteni falia de 1567 composies, como da totalidade de que hoje consta o {~B 6) So 190, a contarmos um numero repetido que a critica j havia reconhecido CD 181 bis = CV 1061 ou CA 68.
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'vamente, desde 1849. Receberam todavia nova luz com o feliz achado. facto que o subsidio de variantes no abundante e que essas ajudam pouco a melhorar e esclarecer textos to bem conservados como os do antigo pergaminho da Ajuda. Mas de valia superior foi a fixao dos nomes de quasi todos os auctores, at ento anonymos. Aos 16 (respectivamente 17) j apurados juntaram-se outros tantos. A theoria de Varnhagen, abalada desde as primeiras investidas ao CV, cahiu por terra. Como num capitulo especial exponho as relaes entre o CA. e os apographos italianos, omitto aqui pormenores, dando ape~as um elenco dos nomes que fixei em 1880 pelo confronto dos texts, tendo a vantagem de ser elucidada sobre alguns pontos duvidosos por informao directa do professor Monaci:
CB igual a CA ou Tr. 65- 77 1- 13 65-79 e j Si- 97 14- 30 255-258 e 80-91, e q 119-123 31- 35 v e 151-154 124-146 40- 61 t, 49-64, k t 148-149 62- 63 h e 148 151-154 64- 67 249-252 157-158 68- 69 253-254 159-170 70- 81 149-150 e 102-111 172-184 82- 94 190-202\ 186-204 95-110 202-217J 209-211 111-113 259-261 114--128 u 129-142 215-229 236-250 129-143 170-172 218-224; e 143-147 253-258 144-149 157-162 163-179 259-274 8-24 186-198 281-293 37-48 e i 199-209 294--304 173-183 341-342 265-266 100-101
Vaasco Pmga, de Sandim (13) Joo Soares, Somesso (17) Paay Soares, de Taveiroos (5) Martim Soares (22) Desconhecido i (2) Ayras Corpancho (4) Nuno Rodrigues, Candarey (?) (2) Nuno Fernandes Torneol (13) Pero Garcia Em-gals H~~ Joo Nunes, Camans (3) [Link] Garcia, Esgaravunha(15) (15) Roy Queim~do (6) Vaasco Gil ; !: Joo Coelho {17) Roy Paes, de Ribela (13) Joo Lopes, de Ulhoa (11 ou 10) Bonifacio , de Genova (2) 189
Nella avultam 22 poesias archaicas, em lio apurada, embora propositadamente no a expurgassem de todos os erros a fim de acostumar o principiante a mover-se com precauo. Entre as 19 cujo texto, tirado do cl, foi collacionado com a parte inedita do
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CB, ha uma notavel divergencia entre os dois apographos. No CV falta o principio ou thema da cantiga de maldizer contra os que deron os castellos como non devim~ al rey D. Affonso:
A lealdade de Bexerra pela Beira muito anda ben que a nostra vendamos pois que no -lo papa 'ltwndrt. 1)
Essa amostra aviva o nosso desejo de breve recebermos da mo lle Monaci a lista das variantes todas e o ndice comparado dos dois codices. 2) Um s dos textos copiados pertence ao nosso cancioneiro: o No. 265, de Bonifacio Calvo.
60. Como deixei transparecer, foi neste estadio que principiei a tomar parte na explorao dos codices. Favorecida tanto por Ernesto Monaci como por Max Niemeyer, o desinteressado editor dos cancioneiros, recebi as folhas de impresso do CB, medida que iam sahindo do prlo, explorando-as sem tardar a bem do CA, cuja preparao estava em andamento. Na persuaso illusoria de estar habilitada para o encargo, combin~i com os dois benemeritos a sua publicao nas Comrnunicaxioni, para que assim ficassem juntos, num s corpo tres obras intimamente relacionadas e que se completam mutuamente. Na advertencia preliminar ao CB annunciava-se o nosso plano e num Prospecto, distribudo por occasio do Centenario de Cames, em nome do editor de Halle, divulguei-o, chamando a atteno dos portugueses para aquella colleco de monumentos provenalescos, e advertindo em poucas palavras das importantes revelaes sobre os auctores do CA que emanavam do CB.
44. Tribztto ao Centenario de Lui-x- de Cames -
IL 8) Cancioneiros Portugztexes: L ll Canxoniere Portoghese clella Bibl. Vatic. IL ll Canxoniere Portoghese Colocci- Brancuti. ll1. O Cancioneiro da Ajuda, ed. critica por Carolina Michaelis de Vasconcellos,
1) Na impresso de Monaci l-se denhamus e ztolo; vendamos e nolo so conjecturas minhas. 2) Dos algarismos no Indice de Colocci no resalta como p. ex. possa ter a numerao 74.9 a cantiga Amigas que dezts V'ltS valha (71 ?) ; 879 Bailemos (876?); 872 Que muyto m' eu pago (870?) e 14.77 a satira contra os traidores (14.76 ?) 3) O primeiro tributo eram as Poesias de Francisco de S de Miranda, cujo texto se achava impresso, posto que sahisse luz smente annos depois.
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accompanhada de variantes, uma introduco, notas, glossario, ndices e um fac-sim. Porto, 1880.
61. Enthusiasmada tambem com a nova luz que a descoberta da cano Leonoreta fin roseta, conhecida pela novella de cavallaria de Montalvo (Liv. I c. 40) e que surgia agora no CB 244, com assignao ao trovador Joan Lobeira, me parecia derramar sobre a questo do Amadis, publiquei-a em lia reconstituda, dizendo duas palavrus sobre o problema e sobre o auctor, que floresceu de 1258 a 1278. 2)
45. Et1cas Neues xur .Amadis- Frage; em Zeitschrift IV, 347- 351. (18 de Maio de 1880).
62. Fui seguida de perto, ou talvez precedida por Monaci, o qual ventilou o mesmo assumpto num artigo da Rassegna settimanale que no cheguei a ver, e por Th. Braga, que a desenvolveu numa Revista do movimento contemporaneo, por elle dirigida.
46. A cano ele .Amadis ele Gaula em Era Nova I, 184-187. (1880-1881).
63. Pouco depois o mesmo letrado occupou- se de varias outras novidades, colhidas no Cancioneiro, como p. ex. da unica ou quasi unica cano religiosa que encerra: a Salve-Rainha (CB 39 = Ind. 467) de Alfonse de Castella.
47. Uma salva no sec. XIV em Era Nova I, 187.
J ento no era difficil reconh-la como obra de Alfonso X, em vista de citaes em livros to manuseados como a Historia da l-itteratura hespanhola de Amador de los Rios. 3) Th. Braga todavia no a identificou, como prova o titulo. Continuando a acreditar na redaco de poesias gallaicas no s6 da parte de Alfonso IX de Leon e Alfons<? XI de Castella, mas ainda de dois homonymos de Portugal (Affonso III e IV) nega, no sei por que razo, que o poeta das 400 Cantigas de Santa lrlaria figure nos cancioneiros profanos.
1) Na sua Theoria da Historia da Litteratura portugue7,a (38 ed.) pag. 200-201 Th. Braga allude ao Prospecto. 2) Vid. Cap. VI, 39. 3) Vol. ID, 513. - a 30ma do Codice Toletano e a 40ma do Cod. Escur. j- b-2, faltando no Escur. T-j -1.
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65. Intemerato empolgou igualmente o tratado doutrinal acephalo em. que um escolar de sec. XIII ou XIV havia catalogado e definido os generos poeticos, de origem erudita e semi- popular. Elucidou muitas passagens; mas no querendo restringir-se s partes legveis, interpretou outras arbitrariamente, conservando palavras adulteradas, como: cantigas a teh~tdas em vez de c. de atafiinda; e lendo jog~rete ce'rtei'ro, em vez de jogltete d' a'rtei'ro.
49. Monumentos da litteratu,ra portuguex,a: fragmentos de uma poetica
1881. 8)
66. A tentativa passou quasi desapercebida, sendo renovada alguns annos mais tarde por Ernesto Monaci, que procedeu com criterio mais atilado. Pondo de parte fragmentos demasiadamente deturpados, commenta algumas das theses que transcreve com exemplos colhidos nos cancioneiros. l\fas no nos demonstra como a theoria est muitas vezes em contradio aberta com a practica, o que no indifferente para a formao de um juizo critico cerca da data; nem compara a terminologia com a dos outros paises romanicos.
50. Il trattato di poetica portoghese esistente nel Canx,oniere ColocciBranczdi, publicado na Miscellanea di Filologia e Lingustica Caix- Canello, p. 417-423. - Firenze, 1885-1886. 67. Voltando s contribuies de Th. Braga, tenho de citar um estudo em que trata mais uma vez do caracter e das formas da poesia popular gallega. Ao comparar as rmi'inhei'l"as, as ntadas ou cantares de pandeiro d' aquella provncia com os archaicos canta'res de amigo, pde
1) CV ~30, 1007 e 11!0. Na cantiga CV 1170, que cita tambem, o adjectivo francs lay (= laid feio) nada tem com o genero poetico do lais. Cf. Curso de litter. p. 77. 2) Sahiram na Era Nova I p. 320 e 467. Conheo apenas a reimpresso na miscellanea: Qztestes de litteratura e arte po'rtuguex,a, Lisb. 1881, onde se acham os artigos 44- 4 7 e outros, mais antigos. 3) Cf. Curso, p. 77.
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agora introduzir na discusso um elemento novo, ele importancia superior: versos vulgares, ainda hoje cantados em Portugal pelos agricultores ele Tras-os-Montes, 1) nas segaclas e mondas elo trigo, e ahi mesmo colhidos ela tradio m.-al pelo notavel philologo e folklorista Dr. Jos Leite de Vasconcellos. Eis o tlterna resumido ele cada um cl' estes quatro cantares, acompanhados elo refram:
1. Pela manhanina de o Abril ... pela manhanina de o Natal R.: Pela manhanina manh pela manh (bis). 2. Anda l um peixinho vivo ... anda l um peixinho bravo R.: Na ribeirinha ribeira naquella ribeira (bis) 3. Ferrungando se vae pela vila ... ferrungando se vae pela praa R.: ferrungando se vae a raposa ora vae ferrungando (bis) 4. Santo Antonio aqui d' esta villa ... Santo .Antonio aqui d' esta praa R.: Santo Antonio quero te eu adorar pois os meus amores querem- me deixar.
Vasados, embora com algumas alteraes que deterioram o typo puro, nos mesmos moldes dos cantares primevos ele estylo mais genuinamente popular, que os cancioneiros encerram, estas quatro composies vulgares 2) so, mais pela forma elo que pelo fundo, ele importancia capital, porque provam a continuidade de uma tradio secular e demonstram que houve ~ositivamente relaes entre os escriptores elos cancioneiros e o povo. A forma original, tal como o povo as canta hoje, acha-se registada num escripto de J. Leite ele Vasconcellos:
51. .Antiga poesia popular portuguexa no .Annuario para o estudo das tmdies populares portuguexas. Porto, 1882.
A forma reconstituicla, i. . alterada por Th. Braga, segundo a doutrina abstralcla elos archa'icos cantares, acha-se no Prologo
1) Em Reborda'inhos de Moncrvo. 2) Na Parte IV veremos quaes so. A tradio popular do Norte de Portugal ainda conserva mais alguma, e vae continuameute creando imitaes novas.
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ao Cancionei'lo popular gallcgo de Jos Perez Ballesteros cujo titulo registo apenas:
52. Sobre a poesia popular da Gallixa. Madrid, 1885. de las tradiciones populares. Tomo VII. Na Biblioteca
Abstrahindo aqui das theorias etlmographicas, definies inadequadas s quaes no corresponde a realidade que resalta dos exemplos allegados, affirmaes inexactas e erros de detalhe, a importante these, defendida nesse estudo, parece- me ser esta. Graas tanto sua situao geographica como sua constituio etlmica, de misturas relativamente poucas, e com preponderancia dos elementos celticos e suevicos (sobre um fundo turaniano, bem se v), sendo nos seculos da conquista e reconquista pouco perturbada por invases arabes, a Galliza foi o foco da civilizao peninsular e o bero da elaborao lyrica. Graas ao abandono e atonia e passividade provincial em que cahiu posteriormente, submettida a Castella, depois da fatal desmembrao da parte sul, no smente um fundo valioso de tradies e costumeiras mas tambem typos de poesias archaica se conservaram no canto nordoeste da pennsula em relativa pureza, embora em forma reduzida e baralhada e mal comprehendida at hoje. Com auxilio dos cantares trovadorescos que melhor representam o genero popular, i. . dos versos que Braga chama serran-ilhas, possvel e preciso comprehender e recompr a estructura primitiva no s das mu~nheiras mas tambem das trovas descobertas por Leite de Vasconcellos e tudo o mais que for apparecendo em dsticos asonantados, de parelhas perfeita ou imperfeitamente desdobradas, com ou sem estribilho, em monologo ou dialogo. Esses dsticos das serranilhas e m'liinhei'las so o verdadeiro genero nacional e tradicional que chegou a penetrar nas litteraturas palacianas de Portugal e Hespanha: no cancioneiro individual de D. Denis e seus proceres, nas poesias do Arcipreste de Hita e Marqus de Santilhana, nos dramas de Gil Vicente, na lyrica de quinhentistas como Castillejo e S. Juan de la Cruz; e como motes de voltas e glosas ou como centes nas obras de Cames e de Camonistas.
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do-se com o treslado que tinha mo. Quer fosse o que se conserva na livraria da Academia, ou outro que adquirira, o ms. que utilizou como base de operaes deve ter sido mera cpia da edio Stuart com todas as imperfeies que a desdouram. pelo menos o que indicam os defeitos do artigo intitulado: 53. O Cancioneiro da Ajuda em Revista de Estudos livres, Vol. II, 607-611. - Feve~eho de 1885. A descripo uo codice continua inexacta, insistindo o auctor em dissertar sobre a falta de 41 folhas no principio, de paginas interpoladas, de vinte e q'uatro laudas, descobertas em Evora, da proveniencia do codice da Bibliotheca de D. Denis, etc. A numerao das folhas sahiu -lhe necessariamente incorrecta, por no serem mettidas em conta as paginas em branco do original, desprezadas por Stuart. Ha lacunas no confronto, que feito por folhas, com indicao dos nomes de auctor e da numerao do CB, pelo modello seguinte: fol.41 doCA, Vasco Praga de Sandim=CB6:),66,67,68. Indicam-se 227 Trovas de 28 auctores (com incluso dos 16 ou 17 do CV) na ordem em que realmente se succedem, de Vaasco Praga at Roy Fernandes. Dois apparecem sem direito, faltando quatro 1), por se haver saltado folhas inteiras, e omittido os fragmentos todos. A somma das can~es ineditas, ou com mais exaco privativas do CA, avalia-se em 86, sendo ellas na realidade 64. Na lista que Braga organizou, o leitor encontra porm apenas 35. A affirmao que o CB o comeo e o CV o fim .de um grande Cancioneiro, de que o CA a parte mdia, justa at certo ponto, mas no espelha fielmente a realidade. 2)
69. Indicarei ainda uma remodelao _do ltfanu;(J,l, em que Braga condensou os factos, apurados desde 1875, no sem os
1) E so: Ayras Corpancho 1 Nuno [Link] de Candmey 1 Joan Nunes Camans e Bonifacio de Genova.
2) Conside1ando os tres como troos do um Cancioneiro Geral, a ordem a seguinte, abstrahindo-se aqui de todas as lacunas e pequenas divergencias. CB 1-00 C!. e CB 91-391 CA e CV o CB 392-4!2 CA e CB 4:43- 450 [CA 267 -284:] CB [Link]-4:78 CB e CV 4:79-1500, apparecendo no CA apenas os Nos 811, 812, 816, 991-997. CB 1501-1578 CB e CV 1579-1670. Confira-se o Cap. ID.
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bordar de copiosas hypotheses arrojadas. No paragrapho sobre o CA. figuram d' esta vez 27 auctores, entrando de contrabando o clerigo Ayras Nunes, e deturpando-se o nome a Fernam Gonalves de Seabra, que ahi chamado de Sousa.
54. Ou1so de Historia da litteratura portuguexa. Porto, 1886.
70. Do estrangeiro vieram de 1880 em deante varios trabalhos crticos e artsticos. Wilhelm Storck, de :M:nster na Westphalia, o distincto camonista, escolheu nos cancioneiros uma centena de cantigas, que verteu para allemo, magistralmente, juntando em notas finaes propostas de emendas para os textos deturpados quanto lingua e ao schema estrophico. Naturalmente favoreceu os poeticos cantares de amigo. Entre os de amor do CA colheu apenas dois: o nosso No. 295: Por vos veer vin eu, senhor (de Calvelo) e 229: Amigos non poss' eu negar (de Guilhade), numerados por Storck 3 e 30.
55. Hundert altportugiesische Lieder. Zum ersten 1llale deu-tsch von ,V. Storck. - Paderborn und Mnster, 1885.
71. Estes ecos ingenuos da alma popular inspit:aram um compositor acreditado P. E. Wagner, o qual ideou melodias muito cantaveis para uma mo-cheia de versos, del rei D. Denis (CV lU Po,is ante vs estou aqui); do aristocrata Joan Me e n de s de Beesteiros (CV 450 Amigo, ben sei que non ); dos jograes Joan Zorro (CV 75 El Rei de Portugale); Loureno (CV 867 Tres 'JIW(l$ cantavan d'amor); Pero M~ogo (CV 793 Levou-se nnti cedo); Juio Bolseiro (CV 77! Nas barcas novas foi-se); e do clerigo Ayras Nunes (CV 761 Bailemos j todas, todas ay amigas). 1)
56. .Altpmtugiesische Lieder xum ersten ltlale deutsch ~on Professor Dr. W. Storck fr vier Solo-Stimmen mit Klavierbegleitung, componirt von P. E. Wagner. Paderborn, 1885.
72. De Portugal sahiu, para ser publicada na Allemanha, uma serie de correces, na maioria acertadas, aos textos do CV. Apontarei um s erro de interpretao porque capital e passou para o CD, na edio Lang. O emprego de h, seguindo consoante, mas antes de vogal atona, no foi bem explicado. Generalizando a graphia provenalesca nh, lh, explicada por Diez, 2)
1) Num concerto musical de 27 de Dezembro de 1886, oito d' estas cantigas foram executadas em Paderborn, com muito applauso. - Em Portugal ainda no foram cantadas nem em publico, nem nos paos regios! ~) Kunst- zmd Hofpoesie, p. 35-36 e 111.
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que os portugueses escreviam bh, vh, mh etc., servindo a ultima letra de representante de i atono. Sejam exemplos o pronome poss. f. mha =mia> mea, empregado como prefixo monosyllabico, e tambem palavras conjugadas como mha =mi-a > m'lh:i illam, ouvha = oi'tvi-a > habui lam ad (CV 17, 16 etc.); os nomes proprios Simhon = Simm, hoje Sima; Net'ha = Nevia (hoje Neiva); Limita= Limw, hoje Lima, Pavlta = Pavia (hoje Paiva); e o verbo dmmlw = dormio, hoje durmo. De modo algum este h faz as vezes de apostrophe, como indicam. Epiphanio Diaz e Henry R .. Lang. 1)
57. Beit1age ~ur einer kritischen Ausgabe des vatieanitwhen portugiesischen Liederbuches. Von Epiphanio Diaz.- Zeitschrift XI, p. 42-55. 1887.
73. Em Roma, no gabinete de estudo de um adepto de Monaci _elaborou-se a primeira dissertao critica pormenorizada sobre um grupo de cantigas, pertencentes a um s poeta, mas intimamente ligadas por via directa e indirecta aos versos de outros muitos, sobre os quaes tambem derrama luz. Era de suppr comeassem com as figuras mais proeminentes na gerarquia social. A escolher o Rei de Castella e de Leon levava uma these erronea de Braga que, por muito repetida, corria risco de se propagar. Em .opposio a Wolf, Mil e Diez, o historiador da litteratura portuguesa, assentra apodcticamente, conforme indiquei, que nenhuma cano de Alfonso o Sabio apparece como excerpto nos Cancioneiros, sustentando-a ainda depois de haver lido no CB o cantar sacro: Deus te salve, reynha Maria. Cesare de LoUis analysa cuidadosamente as poesias principaes, assignadas pelo Rei de Castella e de Leon, interpretando as alluses historicas. E apura o facto que nas cantigas CB 359-4:78 (= Indice 467-4 78) e CV 61-79 (Indice 4 79 -496), que juntas constituem uma serie no- interrupta, possumos restos da actividade poetica profana do Rei Sabio. Alm d' isso estabelece que ao cyclo de homens de crte e de jograes que o secundaram nas suas empresas satricas, pertencem Pero Gomes Barroso, Pero da Ponte, Bernaldo de Bonaval, Affons' Eannes do Cotom,
1) O primeiro diz na Zeitschrift XI, 44: nDas handschriftliche ouuha leuar (d. h. houv' a levar) ist fehlerfrei. Das h steht fr den heutigen .Apostroph. " - Lang (CD, p. CXLVII) fallando da orthographia que adoptou, explica: nh ist gefallen, ~vo es blos elJJmologischen wert hat, beibehalten nur im tonlosen prmwmen, mh=me vor vokalen, wo es offenbar die stelle des apostrophes vertritt."
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Joam Baveca, Pero d' Ambroa e Pedr' Amigo. De passagem toca tambem nos versos de outros auctores 1) cuja chronologia tenta. fixar, e fixa em muitos casos satisfactoriamente. 2)
58. Cantigas de Amor e de Maldixer di Alfonso el Sabio R di Castiglia em Studj di Filologia Romanxa. Vol. I, 31-66. 1887.
74. Pouco mais tarde as noes dos estudiosos sobre o espirito poetico e a admiravel actividade litteraria do egregio monarca foram efficazmente integradas por uma publicao de vasto alcance: o quarto canioneiro gallaico-portugus, longamente esperado e com impaciencia. Fallo do Livro do.s canticos sacros de Alfonso X. Annunciado ao mundo pelo monarca em pessoa no seu testamento e ainda por um seu coevo, o minorita Fray Juan Gil de Zamora, o qual escrevera: more quoque Davidico etimn ad praeconiurn Virginis gloriosae 'Jnultas et perpulchras composuit cantinelas lWn: convenientibus et proportionibus nwdulatas, o livro nunca mais fra inteiramente esquecido desde ento. Quem promoveu a magnifica edio, digna de um rei, foi a Academia hespanhola, a instancias do Marqus de Molins, custeando-a o governo, e collaborando varios sabios nacionaes e estrangeiros nos commen?rios scientificos que accompanham o texto.
59. Cantigas de Santa Maria de Don Alfonso el Sabio. Las publica la Real Academia Espaiola. 2 Vol. in foi. Madrid 1889.
Durante tres seculos, desde que Argote de Molina puhlicra na Noblexa de Andalucia a lstoria do milagre de Chincoya (Cl\118) 3)
1) Joo Soares de Paiva, Ruy Gomes de Briteiros, Ayras Peres Vuiturom, Joo Soares Coelho, Joo d' Aboim, Rodrigu' Eannes Redondo. 2) Os erros de alguma importancia que noto nas explicaes historicas so os seguintos. O rei Fernando, cuja faverita fra Ma1ia Annes Batisella (p. 35), no o de Portugal, mas sim o conquistador da Andaluzia. Pag. 36: a lide de Moron teve lugar no anno de 1259, e no em 1289. Pag. 37: o Monon, mencionado na cantiga CV llS, no pode ser o de Arago; o jantar no nenhum bovage; nem o rei, a que allude Paay Gomes Charinho D. Jayme de Arago. - Pag. 39 e 41, no ha prova de que Ayras Peres Vuiturom ainda vivesse no reinado de D. Denis.- Pag. 47, na cantiga CV 7! o Guadalquevir no designa a regio onde se desenrolra a campanha descripta. - LoUis copia numerosos trechos illustrativos, mas no nos d textos completos, restaurados; nem recorreu, para este fim, s variantes do CB; sobre as difficillimas poesias que precedem no CB as d' El-rei Sabio (assignadas por el-rei D. Affonso de Leon) no se pronuncia. 3) Livro II, e a p. 16.
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apenas haviam sido divulgados magrissimos ~xcerptos do Cancioneiro real, patente agora na integra. Nas 1150 paginas de primorosa impresso temos 40 a 50 lyricas sacras: hymnos para as principaes festas religiosas do anno; oraes, e louvores da Virgem que D. Alfonso, transformado em t1ovador ou galan de Santa Maria (seu entendedor, como se expressa candidamente, na cantiga 130)1) destinava a serem cantados por jograes nas igrejas de Hespanha, em substituio das seqencias, ladainhas e prosas latinas; e 360 pias narraes epico-lyricas sobre casos milagrosos que ora redigia pessoalmente, ora mandava redigir, 2) seguindo o impulso hagiographico do sec. Xill a que j cedera em. Frana Gautier de Coincy (1177 -1236), e na propria pennsula aquelle Gonalo de Berceo (c. 1180-1246) que se apellidou mais modestamente jogral da Virgem e dos Santos. Contados os prologos, que abrem a vasta colleco, e tambem o epilogo e a petio que a fecham, e descontados os textos repetidos, temos por junto umas 420 composies em metros variadssimos, de valor mui desigal, mas todas preciosas, comquanto o interesse material, de historia, linguagem, rnetrica, pintura e musica exceda (e de muito) o valor puramente ideal das cantigas, como obras de arte. Todos os quatro codices membranaceos, que ainda subsistem, foram explorados cuidadosamente. O Escurialense (j- b- 2), como mais completo e correcto, serviu de texto-princeps. Forneceram accrescentos e variantes, outro da mesma bibliotheca (T- j -1), in1) No Prologo das Cantigas, D. Alfonso, alludindo aos seus versos de amor profanos, expressa-se do modo seguinte: Rogolle que me queira por seu trobador e que queira meu trobar reeber; ca per el quer' eu mosttar dos miragres que ela {ex, e ar querrei- me leixar de trobar des i por outra dona ... 2) Na maioria dos casos El-Rei quem falia. Em algumas faliam d' elle e no de muito perto; p. ex. logo a ptincipio, na Cant. 18, onde se diz, com relao a umas toucas de seda~ milagrosamente fabricadas em Segovia pelo sirgo (as babous): Porem Don .Affons' el Rei Trage, - per quant' apres' ei Na sa capela Ji)nd' a mais bela!
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completo, mas riqussimo; 1) e o de Toledo, sendo este o mais antigo, redigido entre 1257 e 1275, quando Alfonso ia usando o titulo: Rey dos Romos. Este contm apenas 100 cantares e ses, aos quaes foi juntado mais tarde um appenso de 27 poesias. Dois cantares de supplemento provem de um codice descoberto ha pouco na Universidade de Florena, por acabar, como o segundo 2) escurialense e o CA, e mutilado, como este. As colleces do Escurial encerram versos com referencias aos acontecimentos de 1279 e 1280 (a rebellio dos ricos-homens 3) devendo, portanto, datar-se dos ultimas e be~ tristes annos do seu reinado." Escriptos e illuminados com luxo surprehendente, todavia verosmil fossem, como o de Toledo, executados por ordem e em vida do monarca 4) e por elle legados igreja em que sua filha, a [Link] de Portugal D. Brites e os mais testamenteiros houvessem por bem sepult-lo.5) As 212 estampas do codice incompleto, com 1200 e tantas miniaturas, obra de pintores patrios, embora o seu estylo atteste a influencia da arte francesa, encerr~m abundantes revelaes sobre a civilizao, os costumes, as artes, os trages e as alfaias do sec. XIII. 6) Dez chromo-lithographias, introduzidas na edio academica, do ideia aproximada d' essas illustraes, assim como da calligraphia e da musica.
1) o que foi utilizado em 1588 por Argote de Molina. Parece que falta o 2do vol. 2) Fundo jfagliabecchiano. Vid. p. 52- 56 da Introduco e na Zeitschrift XI, 301-304 um artigo de E. Teza, o erudito Pisano. 3) CM 235. 4) Ha quem pense que os successores de Alfonso X (at Alfonso XI) continuaram a obra por elle iniciada. 5) Otrosi mandamos que todos los libros de los Cantares de loor de Santa Maria sean todos en aquella iglesia do nuestro cuerpo se enterrare e que los fagan cantar en las fiestas de Santa Mwria. Vid. Memorial historico espaiiol, Tomo II. - Surge a ideia se haveria copias, contendo unicamente os hymnos e louvores? - Estraviaram-se varios codices, authenticados por assentos fidedignos. Houve p. ex. um codice ricamente guarnecido de miniaturas, aproveitado por Zufiga, Nicolas Antonio e ainda por Mondejar, o qual fra propriedade, primeiro de Alfonso Siliceo e, em fins do sec. XVII, do sevilhano D. Lucas Corts. Houve outro, que se regista no inventario da livraria da rainha D. Isabel a Catholica. E talvez mais um se guardava em 1438 entre os livros Rei D. Duarte de Portugal, identico, por ventura, a um que foi visto no sec. XVII na Torre do Tombo.- Cf. Cap. II e IV.- O problematico Cancioneiro Marialva, que incluia, dizem, uma das Cantigas de Alfonso X, era, apparentemente, se existiu, uma Miscellanea de versos authenticos e apocryphos. 6) Na Cant. C]l377 o trovador coroado nomeia um dos seus illuminadores.
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A lio dos textos, transcriptos com criterio atilado, satisfaz em geral, ainda que naturalmente se possam levantar pequenas objeces, tanto contra o lavor critico, como contra a fidelidade, nimia umas vezes, e outras deficiente. No. 1o volume a redaco parece mais cuidada, havendo no 2do no poucos desvios e erros evidentes de copistas antigos que no mereciam ser conservados no texto. As variantes introduzidas, segundo o principal redactor, com prolixo esmero, so na maioria dos casos meras graphias diversas. Creio que algumas derivam do processo, segundo o qual eram organizados os borres para ulterior execuo calligraphica. Uma miniatura, mostrando o trovador coroado no acto de dictar e ensaiar os seus canticos, . rodeado de jograes que empunham a viola, e de juglaresas a danar 1), assistindo os amanuenses, de penna na mo, com os rlos de pergaminho estendidos sobre os joelhos, bem pode ser representao veridica do que se passra na realidade. O glossario incompleto, cheio de apreciaes e traduces erradas, e no satisfaz.
75. Numa extensa e substanciosa lnt1'9duco (226 pag.) o Marqus de Valmar D. Leopoldo Cueto d amplas e seguras informaes sobre os codices; historia a civilizao hispanica e o seu contacto, tanto com a Frana meridional e a do Norte, como com esta praia occidental; discursa com respeito arte metrica; trata a lngua de gal/ego erudito sobre o qual actuaram os dois dialectos franceses; e occupa-se de um modo exhaustivo dos ~ssumptos, em parte universaes, em parte locaes, e em parte familiaes, assim como das fontes, em latim e romance, de que emanaram as lendas de indole cosmopolita. 2) Para a comparao das redaces gallaico-portuguesas com estes originaes e com outras adaptaes contriburam sabios de
1) Um inedito do Cod. Flor. principia: Cantando et con dana seia por nos loada a virgem corada que nossa asperana. 2) Entre ellas avulta o Speculum historiale de Vincentius Bellovacensis que mandou fazer el Rei Luis de Frana, e o Liber Mariae de Frei Juan Gil de Zamora, biographo de Alfonso e preceptor de Sancho IV. Vid. Oincoenta leyendas por Gil de Zamora, ed. pe. Fidel Fita, no Boletin de la Academia de la Historia. 5
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renome europeo, como Adolpho Mussafia, de Vienna d' Austria, Paulo Meyer de Paris, e outros. Ao tratar do esprito poetico do dynasta castelhano, o Marqus, livre de preconceitos, accenta que Alfonso no inventou cousa alguma. Os themas recolhidos de manuscriptos ou da tradio oral so poucas vezes phantasticos ou delicados; freqentemente triviaes e mesmo anti-poeticos, no faltando alguns de uma irreverencia escabrosa e lascvia singular, triste documento da excessiva indulgencia moral d' aquelle tempo. O desnudo naturalismo da narrao (isenta de resto de palavras baixas) ainda , segundo elle, realado pela linguagem procaz de algumas pinturas. Embora avalie muito mais alto o merito litterario do rei castelhano do que o de seu neto D. Denis, no deixa de notar o muito maior recato e pudor do portugus. 1) Sem arranques lyricos, nem rasgos insolitos, as Cantigas de Santa :Maria agradam pela sinceridade primitiva e a devoo ingenua do sentir, encantando o especialista pelo admiravel desembarao com que Alfonso X narra, discursa e versifica em gallego. Mal se pode duvidar que manejasse este idioma familiarmente desde a sua infancia. Com relao a Portugal e Galliza notavel a intimidade das suas relaes com Castella e Leon que as cantigas manifestam. Grande numero dos milagres foram colhidos num grosso volume guardado em Evora (Cl\1338); muitos so localizados em terra lusitana, 2) avultando os que a tradio liga ao sanctuario antiqussimo de Terena, celebre pelo culto do Deus Endovellico. B) Outros referemse a Santiago de Compostella. 4) A tragica sorte de Sancho II arranca gritos de revolta a Alfonso X. No fim da vida, abandonado pelo povo e destronado pelo proprio filho, exclama, sem consideraes por D. Affonso ITI, seu genro que recolheu o premio da traio:
nunca assi foi vendudo rey Don Sanclw en Port~tgal! (Cl\1235).
I) Cf. p. 152: El monarca de Portugal Don Dionisio entro en la corriente reformadora y no dei en sus trovas, como su ilustre abuelo, ejemplo alguno de impiedad moral y de lubrica. audacia que pudiese desdmar el decoro del escritor e la majestad de la realexa. 2) Vid. por. ex. as Cll "5, 222, 237, 238, 245, 267, 271, 275, 277, 291, 322, 338, 369, 373. 3) Vid. Leite de Vasconcellos, Religies dos Lusitanos, Lisboa 1898. 4) Vid. C:l\1 218.
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Aos dizeres de escarnho de um clerigo de Alemquer, Martim Alvites, e sua converso dedica um cantar.l) Um dos poetas do {'V e CB, Ayras Nunes, oriundo de Santiago, tal~ez lhe prestasse servios na elaborao das Cantigas. Seu nome, pelo menos, apparece lanado margem exactamente d' essa Cantiga 235! No que o Marqus de Valmar relata sobre o CA e sobre os Cancioneiros profanos em geral, cinge-se, como devia ser, s informaes de Th. Braga, seu collaborador nas Notas, no lhe cabendo por isso a responsabilidade de algumas inexactides em que incorre. 2)
7 6. O mesmo devo dizer com relao ao fecundo <?Rthedratico de Madrid, cujos prologos ao bello florilegio que vae publicando constituem uma amenissima historia documentada de toda a lyrica castelhana.
00. Marcelino Menendez y Pelayo, .Antologia de poetas liricos castellanos. Tomo III, vol. CLX da Biblioteca clasica, 1892.
Para caracterizar o periodo gallaico escolheu, com tacto seguro e criterio superior, no fundo importante de ideias variegadas, dispersas nas differentes publicaes do seu collega lisbonense, o que encontrou mais comprovado e digno de ser divulgado, condensando a materia num rapido resumo, illustrado pelas mais vistosas e aromaticas flores silvestres que se podem colher nos cancioneiros profanos. 8) Tres consideraes suas, proprias, significam um novo e importante passo vante, na justa avaliao da lyrica gallaico-portuguesa. 1. A perfeio da linguagem e do rhytmo que se observa nas Cantigas de Maria indicio certo de uma evoluo anterior, talvez muito longa, cujos monumentos pereceram.
1) CM 316. A valentia do ricohomem Alfonso Telles tambem lhe mereceu louvores: CM 205. muito natural que entre os seus ajudantes e tambem entre os copistas houvesse clerigos e musicos de origem gallega. 2) Esta Introduco appareceu tambem em ed. separada: Don Leopoldo Augusto de Cueto, Marques de Valmar, Estudio historico, critico y filol-. gico sob're las Cantigas d' El Rey Don .Alfonso el Sabio, Madrid 1897. Cf. Rev. Crit. de Hist. y Lit. II, 294. 3) Do CA falia a pag. X VII e XLVI- L. Em vista da larga circulao que todos os volumes de Menendez y Pelayo alcanam felizmente, para sentir que os textos- colhidos naturalmente na ed. restaurada de Th. Bragano estejam to correctos, como seria para desejar. 5*
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2. O despertar poetico da Galliza houve de coincidir com aquelle breve periodo de esplendor que desde os fins do sec. XI at ao meado do XII parecia dar ao Noroeste o predomnio e a hegemonia sobre as demais gentes da peninsla. 3. Foram as incessantes ondas de peregrinos transpyrenaicos que levaram a Santiago, ao som do canto de Ultreia, os germens da nova poesia que ia desabrochando viosamente no meio-dia da Frana. Outras theses apresenta que no so igualmente persuasivas. Eu tambem me inclino a ter em conta de genuinamente populares algumas poesias do cancioneiro, como p. ex. a dana duplamente representada, comeando uma vez:
Bailemos agora por Deus, ay velidas!
({~V
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e a outra:
Bailemos j todas, todas, ay irmanas! (CV 462)
mas ha quem nos contradiga. Considerar o idioma gallaicoportugus de Alfonso X como um dialecto convencional, sem offerecer explicaes ulteriores sobre a maneira de entender essa doutrina, abrir a porta a apreciaes falsas. Aceitar para os canticos de romaria o nome cantos de ledino, distrinar no Romance de D. Fernando (CV 455) um fragmento de cantar de gesta, transumpto do castelhano, 1) so maneiras de vr muito controvertveis e j combatidas por mim em outro logar.
77. Num elegante artigo, o mesmo l\fenendez Pelayo delineou para o grande publico o que de interesse geral no Cancioneiro sacro do monarca castelhano.
61. Las cantigas dei Rey Sabio na revista La Ilustracion de 28 de Fevereiro de 1895. 2)
78. Emquanto assim se ia erguendo a complexa construco, para a poesia sacra, palaciana e popular - castello feudal, egreja annexa e o burgo em volta - um sabio francs tentou cimentar os alicerces no s do edificio peninsular mas da totalidade das creaes trovadorescas. As origens da lyrica moderna, eis o assumpto da obra
1) A este respeito vid. C. :M. de V asconcellos, Randglosse XIL 2) De um artigo de E. Monaci, relativo ao mesmo assumpto, sei apenas
que appareceu nos Rendiconti delta R. Accad. dei Lincei, smie V, vol. I, fase. I.
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de Alfred J eanroy que fez epoca, dando novo impulso actividade de muitos obreiros da philologia neo-latina.
62. Alfred Jeanroy, Les origines de la posie ly'rique en France au, moyen-ge. Paris 1889, 523 pag.
Principio copiando a definio do que poesia popular, em cont.!Rdicta de uma concepo mystica e supersticiosa, ainda em voga neste pais e alhures, e que, vinclicando para o vulgo inculto as creaes mais bellas da litteratura, levou a apreciaes injustas. Frisando que at ao fim do sec. XII todos os generos poeticos se dirigiam nao inteira, sem distinco alguma de classe, o auctor explica que a poesia popular abrangia produces de poetas determinados, de certa educao e cultura, os quaes reflectidamente iam compondo obras litterarias, sustentando embora com o povo um contacto intimo a ponto de poder traduzir fielmente o seu pensar e fazer pulsar o seu corao ... poesias compostas no pelo povo mas pma o povo, i. pma. a nao inteira: des pTOductions manant de poetes dtennins, pourvus d'une ceTtaine cultU're, faisant muvre 'rflchie et litt-raire, mm".s qui sont rests avec le peuple dans une union assez intime pour tTaduire fidclement sa pense et faire battre son cmur . .. des pieces composes non par le peuple, mais pour le peuple et pour le peuple tout entier. O empenho de apurar entre os generos aristocraticos, cultivados por troveiros e trovadores, os de origem popular, levou Jeanroy a recolher com paciencia e a coordenar systematicamente os destroos d' essa lyrica perdida, assim como todos os indcios que para ella apontam. Sem isso, o intento de mostrar o que nas imitaes palacianas podia ser eco e reflexo, mais ou menos vago da archaica forma primitiva, no teria tido base segura. O processo foi fertil em resultados, tambem para Portugal, cujos archaicos cantares de amigo, de forma e fundo apparentemente indgena, haviam suscitado desde 1835 o interesse de Diez e :[Link], e depois o de :[Link], Paul :[Link], Coelho, Leite de Vasconcellos, Menendez y Pelayo e principalmente o de Th. Braga. Examinando em uma Primeira Pmte os generos que a critica designra at' ento n!l lyrica da Frana do Norte como mais ou menos genuinamente populares - as pastoreias, os debates de amor, as albas, as canes dTamaticas com personagens fallantes, e tambem os rondeis - demonstra a inanidacle d' esta affinnao, assignalando os traos salientes que lhes imprimiu o ambiente corteso. Prova
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que todas elles ...vieram do Sul e foram usados no Norte pelos mesmos auctores a que se devem as canes de amor plenamente palacianas. Na Parte II, dedicada poesia francesa no estrangeiro, expe que, ainda assim, esses generos artisticos derivam de antigos themas populares. Numerosissimos fragmentos de cantigas de dana (chansons de carole) a?ham-se conservados sem altera-o em alguns romances em prosa e verso, sobresahindo em numero e valia os que se encontram no de Guillaume de Dole (escripto de 1210 a 1215) e transpostos ao divino em sermes e tratados religiosos (motetes). So os refrains, especie de passe-pa'rtout poetico, quer constem de um unico verso solto, quer de disticos, ou de pequenas copias (roondets) e apparecem intercalados a capricho. Nessas pequenas maravilhas de poesia primaveril, de um vago mysticismo que inquieta, adjudicadas em geral a paetores e pastoras, julga que possuimos, no a verdadeira poesia popular medieva, mas os seus primeiros e mais genuinos reflexos, tanto nos themas, como na _ forma. Na lyrica trecentista e quatrocentista dos paises estrangeiros que imitavam a poesia trovadoresca - Italia, Allemanha e Portugal-procura e~ seguida [Link] inteiras, narrativas ou dramaticas, cujos themas se parecem com aquelles restos e com as poesias que na Frana desabrocharam nos sec. XV e XVI (como p. ex o da JJialMaridada, da Freira namorada, do Velho mau) concluindo que esses generos e outros, considerados pela critica como creaes espontaneas e privativas do genio nacional (italiano, allemo e portugus), existiram na Frana, no s coevas, mas anteriormente, no sec. XII, e que de Frana os haviam pedido de emprestimo, sendo ella me e iniciadora seno de toda, pelo menos de uma parte consideravel da lyrica moderna. 2) Na Terceira Parte em que trata das formas poeticas, uma analyse minuciosa dos rhytmos, das rimas e das estrophes conduz ao mesmo resultado. Quanto a Portugal, o intelligente professor de Toulouse, que . ajudado por A: Morel-Fatio explorou cuidadosamente os cancioneiros
1) Cf. Gaston Paris, La littrature franaise au JJfoyen-ge, 51, 67, e 133. Ha-os tambem no romance do Chtelain de Coucy, Mliacin, Violette, Poire, Pan ther~ etc. e no famoso auto de Robin et Marion de Adam de la Rale. 2) Parte II, c.1, p. l30-170 e cap. V. p.308-338: La posie franaise en Portugal.
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palacianos, alguns cancioneiros e romanceiros populares e as obras de Gil Vicente, elucida muitos pontos escuros. Mas no chega a concluses que se possam adoptar seni discusso.!) Reconhecendo que a poesia d' esta terra se presta difficilmente tentativa de deriv-la dos mananciaes franceses, por ser quasi exempta de in- filtraes palacianas, e que a ultima impresso no bem definida, resume- a ainda assim na phrase seguinte: a maior parte dos themas populares do Cancioneiro do Vaticano passou de Frana a Portugal. A poesia portuguesa nada mais fez do que modificar alguns pormenores. A imitao evidente. Aceitando naturalmente como verdadeiro o parecer dos que datam a nossa lyrica trovadoresca da 2de metade (respectivamente do 2do tero) do sec. XIII, mas no desconhecendo o feitio peculiarmente archaico e os traos divergentes de uma parte dos caniaTes de amigo, imagina que os seus cultores se affeioaram a certas formas j ento antiquadas em Frana. 2) Esta these no se pode sustentar, como resultar da continuao d'este estudo. A lyrica trovadoresca de Portugal e da Galliza j contava cultores no ultimo quartel do sec. XII. E a supposio que os cantaTes de amigo tenham origens nacionaes dever continuar valida emquanto no fr documentada na antiga lyrica francesa ou provenal a existencia de poesias com os caracteristicos dos cantares gallaico-portugueses, i. sendo a protagonista a nina em cabello, dona-:-viTgo ou mulher-donxella e servindo de scenario s suas entrevistas e aos seus desabafos a capellinha beira-mar ou o adro da egreja, por occasio de romarias prima1) Eis algumas das theses pnnCipaes: La posie populaire actuelle en Portugal ne doit pas tre sensiblement diffrente de ce qu'elle tait au moyen- ge . . . Com me le fond de la population galicienne est celtique, on pourrait admettre qu'il y a l un antique hritage de la race celtique: c'est une hypotlu~se (1ue nous ne nous chargeons ni d'attaquer, ni de dfendre ... Mais ce qui nous parait certain c'est que cette posie galicienne (a moderna) est trop pauvre, trop seche pour avoir pu servir de modele aux muvres si varies et si vivantes de la cour du Roi Denis. . . Les poetes de la cour du Roi Denis ont pu retrouver avec plaisir dans la posie populaire de leur pays certains themes qu'ils avaient pris la France; ils lu i ont fait quelques emprunts de dtail, mais ce n'est pas lle qui a t la source premiere et unique de leur inspiration.c 2) Il nous semble donc que les traits archa'iques que l'on trouve en grand nombre dans la posie portugaise sont dus non la persistance d'une posie tt-es anciennement importe en Pol'tugal mais une imitation rflchie et assez tardive de themes qui avaient continu jusque l vivre en France.c
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veris, para onde as mes levam as filhas a implorar ora os santos casamenteiros, ora a Virgem, ora santas que haviam tomado o logar da Venus pagan- poesias populares numa palavra, cujo distinctivo de factura seja a repetio systematica de palavras e ideias, sendo o espirita que as anima um vago e casto sentimentalismo virginal que se contenta platonicamente de vr e fallar ao namorado.
79. Um estudo complementar de Gaston Paris, cuja importancia superior o nome do auctor affiana, desenvolve algumas ideias ferteis, apenas levemente esboadas por Jeanroy, tirando illaes surprehendentes e empolgantes sobre a indole verdadeira e as circumstancias do nascimento das antigas canes de dana, de que os refrains so fragmentos, assim como do logar onde a transformao dos generos populares em poesia aristocratica se effectuou.
63. Les origines de la Posie lyrique en France au moyen-ge par M. Gaston Paris, Membre de l'lnstitut. - Extrait du Journal des Savants. Nov. et Dc. 1891; Mars et Juillet 1892.
De um modo muito engenhoso deriva todas essas canes das tradicionaes festas de :Maio (JJiaieroles, J(alendas lrlaias) e das suas danas dramaticas ao ar livre, em que vo foliando ranchos de mulheres namoradas, capitaneadas pela 'regina avrillosa, com excluso tias que no amam e principalmente do marido, o ciumento (jelos), o vilo (vilain). Felizmente, possui mos um exemplar genuino 1) dos cantos com que as danantes acompanhavam as evolues do pequeno drama. E diz:
Na entrada do tempo claro - eya! A l'entrada del tems clar-eya! para recomear o jubilo per joia recomenar- eya! e para irritar o ciumento e per jelos- irritar quer a rainha mostrar vol la regina mostrar que to amorosa. qu' el' est si amorosa. rua, rua ciumento ! A la vi', a la via, jelos! deixa- [Link], deixa- nos, leissax nos, leissax nos, bailar entre nos, entre nos. balar entre ns, entre ns! 1) Esta bailada provenal, conservada num cancioneiro francs e reimpresRa innumeras vezes, quasi desconhecida em Portugal, o que me leva a transcrev -la !lO texto.
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Outra, composta em lingua d'oc por um francs, tem o teor seguinte:
Todos os que esto namorados Tout cil qui sont enamourat venham danar; os outros no! viegnent danar, li autre non! a rainha o deixou recommendado. la regine le comendat. Todos os que esto namorados! Tout cil qui sont enamourat. Os ciumentos sejam espancados Que li jalous soient fustat para fora da dana, com um basto! fors de la dance d' un baston! Todos os que esto namorados Tout cil qui sont enamourat venham danar; os outros no! viegnent danar, li autre non! 1 )
E estas maias pela sua vez, considera-as como detivaes dos jogos floraes (flm-aUa) da antiguidade, dedicados a Venus. Tal origem explica por qu as bailatas (raveTdies, reverdies, renveTd-ies) e os refo-ains e rondeis em que se celebra a juventude, a belleza, o amor e a primavera, so tantas vezes picarescas e at lubricas, de modo a terem provocado providencias dos ecclesiasticos, muito antes do desabrochar da poesia palaciana. Passageira e carnavalescamente emancipadas da tutela da me ou do marido, casadas e solteiras bravateavam nesses dias com impudencia e impudor, numa especie de saturnaes femins. A liberdade extreme d' essas Teverduras convencional, ou antes ritual. As mesmas costumeiras existiam em toda a Frana. l\Ias em um s ponto central, collocado pelo illustre academico entre a Loire e a Dordogne, no Poitou e_ Limousin, bero tambem da lngua litteraria do Sul e patria da Rainha D. Elionor, que liga o Norte ao Sul, que comeou a transformao das cantigas populares em poesia trovadoresca. Estabelecendo que as maias se celebravam tambem nos outros pases neo-latinos e especialmente na Galliza e em Portugal, mas de modo variado, em harmonia com a cultura e o meio peninsular, parece achada a razo porque, sahindo do mesmo ponto de parti<la, o cantar da dona-vi?go evolucionou no occidente de um modo muito
1) Vid. Raynaud, Motets I, 151. O afamado Pervigilium Veneris: Oras amet qui nunquam amavit quique amavit eras amet! passa por ser uma imitao artistica do mesmo thema.
74 diverso e perfeitamente nacional. Mas isso ser assumpto de um capitulo independente. Aqui accrescentarei unicamente que, segundo Gastou Paris, uma das modificaes primeiras da chanson de cmole, nas mos dos palacianos, foi a incorporao do refram (com que o cro danante respondia ao P're-cantor), nas estrophes originariamente compostas de poucas linhas, que assim avultavam e complicavam o seu singelo rimario.
80. s sollicitaes de sabios estrangeiros que me foram dirigidas deve-se o primeiro resumo methodicamente ordenado dos factos historicamente mais importantes da litteratura portuguesa, apurados at 1892. Escripto em allemo, forma parte da grande Encyclopedia de philologia romanica, organizada com destino aos estudantes d' aquella especialidade, em Strassburg pelo Professor Gustavo Groeber.
64. Geschichte der portugiesisclten Lteratur von Carolina Michaelis de Vasconcellos und Th. Braga im G1undriss der romanischen Philologie unter Mitwirkung von Fachgenossen herausgegeben von G. Groeber; Strassburg, 1892-1893. Vol. Ilb pag.129-382.
Doente e no me considerando ainda sufficientemente preparada, instei primeiro com Th. Braga, como auctor ela maioria dos trabalhos aqui resumidos, 1) para redigir, em meu logar, um escoro intitulado: T'raos geraes de litte'rafU'ra po'rtuguesa, sendo attendida. Mas achando- o impropriamente curto, vago e escasso para o fim e destino da obra allem, e no podendo cingir-me a muitas das opinies nella expendidas, refundi-o completamente quando vi que a impresso progredia com vagar. Os dados que condensei em alguns paragraphos sobre a poesia popular ( 19 e 20) e no capitulo sobre a primeira epoca da litteratura portuguesa ( 26 -48) eram o fructo de investigaes j longas e conscienciosas, mas que no estavam, nem esto hoje terminadas. Rectificando tacitamente muita asseverao erronea e muita data inexacta do meu predecessor e amigo, com o fim de consolidar as bases da construco, fui levada, de vez em quando, a repetir algumas affirmaes suas que no sujeitra ainda a analyse especial. Dando soluo aceitavel a varios problemas, relativos s origens e aos princpios da poesia trovadoresca, embora sem demonstrao explicita por falta de espao, tive de apresentar outras, ainda duvidosas ou provisorias. Acertei, datando as poesias mais
1) No. 26-30, 35, 39-41, 46-49 e 52-54.
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antigas que hoje possumos de crca de 1200. Foi util o agrupamento chronologico dos poetas em quatro series principaes: i'rovadores pre-alfonsinos 1200-1245; trovadores alfonsinos 1245--1284, distribudos em duas ordens, as da: crte portuguesa e as de Castella; l'rovadores dionysios 1284-1325; e post-dionysios 1325-1354. A ideia de fazer da crte de Leon o Poitou da Pennsula, isto o primeiro centro da poesia palaciana, de onde ella teria irradiado sobre a peninsula toda, tem um fundo de verdade, sem talvez ser completa, nem textualmente exacta. - As noticias sobre os cancioneiros so fidedignas, sendo o CA. descripto de visu e avaliado com justia.l)
82. Logo depois um philologo gerruano-ameri~"lno, desde 1894 professor da Harvard- University de New-Haven, excellentemente preparado, deu-nos em restituio critica, muito apurada, as poesias de D. Denis, trovador que, sendo de categoria to elevada como Alfonso X, foi ao mesmo tempo o que contribiu com o peculio mais rico para a construco do Cancioneiro geral profano. Ha duas edies.
66. Cancioneiro d' El Rei Dom Denis. Zum ersten :Mal vollstiindig herausgegeben. - Dissertation zur Erlangung der Doctorwrde, eingereicht hei der philosopbischen Fakultt der Kaiserlichen WilhelmsUniversitt Strassburg, von Henry R. Lang. Halle a. S. 1892.
e
67. Das Liederbuch des Konigs Denis 'lJon Portugal. Zum ersten Mal vollstiindig lwrausgegeben 'ltnd mit Einleitung, .Anmerkungen und Glossar versehen von Henry R. Lang. Halle a. S., Niemeyer, 1894. 1) Calculei a primeira poca de 1200-1385, posto que a lyrica no produzisse quasi nada de1)ois de 1350, tendo em mira tambem a prosa que se desenvolveu mais tarde e mais devagar, e tambem para ir de accrdo com a primeira epoca da historia nacional. 2) Os No. 80, 81 e 84 foram tirados do livrinho que registei sob o No. 55. 3) Por descuido escapou indicao erronea a p. 253 do Vol.l d' esta obr&.
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Na primeira impresso Henry R. La ng offerecia apenas o texto restaurado do CV, seguido das variantes do CB, proporcionadas por E. Monaci, e de Notas compactas. Nellas trata de interpretar passagens difficeis. Aponta concordancias de pensamento e de phraseologia entre D. Denis, os mais poetas gallaico-portugueses e a lyrica dos troveiros do Norte da Frana, e a dos trovadores provenaes. E resolve muitos problemas de syntaxe, estylo e lingistica. Na segunda impresso, Lang addicionou um glossario conciso, mas completo; e como Introduco um estudo precioso sobre a lyrica gallaico-portuguesa. Animado por uma viva sympathia pelo seu assumpto, e compenetrado do melhor methoclo scientifico, conserva sempre o sangue frio e a lucidez objectiva do verdadeiro critico. Mesmo ao discutir a questo das origens, ventilada por Jeanroy, cuja doutrina no aceita integralmente, pondera repetidas vezes os prs e contras com escrupulo tal que chega a desconcertar o leitor leigo, deixando-o a principio em duvida sobre a sua verdadeira opinio. Quanto chronologia assenta, como eu, a data crca de 1200 para as poesias mais antigas que possumos; e para as pre-historicas que se perderam, o ultimo quartel do sec. XII, visto que nenhuma litteratura principia com os documentos que d' elJa persistem, e tamhem porque a perfeio do trabalho poetico e de linguagem que as distingue obriga a postular um longo tempo de iniciao, conforme j fora observado por Menendez y Pelayo. No agrupamento dos poetas notam-se vestgios do antigo preconceito que considera a poca de D. Denis, como a da principal florescencia. Lang designa p. ex., tal qual Th. Braga, como poetas dionysios alguns dos principaes vates alfonsinos, unicamente porque ainda apparecem vivos nos primeiros annos do novo reinado, sexagenarios ou septuagenarios, creio que litterariamente emeritos. 1) Quanto fili~o mostra que nem as rbricas originaes que accompanham os textos, nem o fragmento de poetica que os precede, nem os parcos dizeres do Marqus de Santilhana, na Carta ao Condestavel, nos esclarecem sobre as relaes dos poetas peninsulares com a poesia francesa.
1) E so: D. Joo de Aboim, Joo Soares Coelho; Gonal' Eannes do Vinhal, Pedr' Amigo de Sevilha, Ruy Queimado, Ayras Peres Vuiturom, Rodrigu' Eannes Redondo, Juio, que eu considero poetas alfonsinos, como mais tarde ficar demonstrado (Cap. VI).
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Apura o que a historia de Portugal e a litteratura da Provena ensinam sobre o contacto directo e indirecto entre representantes dos dois paises, para em seguida consultar como fonte principal as proprias obras dos trovadores. Aproveitando os dizeres de D. Denis sobre a maneira provenal, por elle escolhida para modelo, aponta as concordancias reconhecidas como imitao por Diez e Jeanroy, e collecciona pacientemente, em um confronto laborioso, outras muitas, estabelecendo sobre esta base segura a these que as cantigas palacianas, de amor, de caracter subjectivo (incluindo a pastorela, o pranto, a teno, o lais, o sirvents moral e o descordo) so na essencia e na forma um eco, mas srnente pallido, da litteratura dos troveiros e trovadores, da qual se eliminou em Portugal tudo quanto era technicamente difficil e complicado, e na esphera ideal, o alto sentido de honra cavalheiresca, a alacridade jubilosa do servidor de ricas- donas formosas, e mais alguns dos traos tradicionaes, caractersticos. Quanto aos cantares objectivos, em que o poeta no falla em seu proprio nome, mas no de um personagem alheio (monologo), ou de varios personagens alheios (dialogo), Lang segue o mesmo systema. Separa e analysa as tres especies principaes: cantmes de mestria; balletas de refram; serranas (em distwos de 'refrant} ; approxima todas as tres dos generos parecidos (chansons d~ fennnes) cultivados em Frana, na Provena, Italia e Allemanha, e assignala os traos que marcam influencia estrangeira e palaciana. Assim chega concluso que ainda aqui a maioria no se differenceia essencialmente das cantigas de amor quanto ao espirito poetico, muito convencional, nem quanto arte metrica (rhytmos, estrophes, systemas de rimar etc.). S depois de, como Jeanroy, haver provado d' este modo que balletas e serranas, compostas em grande parte pelos mesmos poetas aulicos que assignam cantigas de amor, so poesia culta, e no genuina poesia popular ( Kunstgedichte im vollsten Sinne des Wortes), embora relativamente livres de elementos cortesos, passa a inventariar os distinctivos que apesar de todas essas apparencias em contrario, provam a independencia original e o indigenismo da lyrica portuguesa. A questo se a balleta, evidentemente aparentada com a francesa, e os typos archaicos do cantar de amigo j vieram para a peninsula com os condes borgonhses discutida, para ser logo abandonada
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como incongruente. Entre os caracteristicos privativos, nacionaes e populares, avultam os tres que j deixei indicados: quanto ao assumpto, o predominio da solteirinha (que chamo dona-~i?go) e das romarias, com as suas supersties pags e as suas pias costumeiras sacras e profanas; quanto forma, a typica repetio da mesma ideia; e quanto ao espirito, o caracter vagamente ideal, sem objecto definido (gegenstandslos), apesar do determinismo positivo de algumas situaes. Nesta apreciao est de accordo com Jeanroy, como se v.l) Passando minoria, escolhe e junta analogias tanto nas obras de Gil Vicente como na moderna poesia popular de Portugal, copiando tam bem os versos recolhidos por Leite de Vasconcellos. E persuadido de que houve continuidade, procura vestigios e indicios historicos que tornem provavel a existencia do uma archaica poesia popular, anterior lyrica palaciana. Com este fim explora as Constituies dos Bispados, os Canones das Conclios, as Ordenaes do Reino e os h'isto'riadores pTimitivos. A trechos que j haviam sido colhidos, embora para efeito diverso, por Adolfo Frederico vou Schack na Ilistoria do drama hespanlwl, 2) e por Leite de Vasconcellos nas suas Tradies populares, junta varios, dos seculos VI a XII (563 -1116), relativos uns a espectaculos nupciaes e fuuebres com prantos, psalmos, hymnos e cauticos sacros em vulgar, 3) outros ao gosto dos Compostellanos pela musica e o cauto. Entre elles ha alguns que se referem a cros de mulheres, cantantes e danantes clwTeas psallentiurn mulierum e combinam com testemunhos posteriores sobre a parte preponderante da mulher gallega e minhota no cultivo das artes da dana, da poesia e do bel-canto. Accentua ento, como Menendez y Pelayo, a importaucia superior de Santiago, a influencia incisiva que as festas de egreja teem para as poYoaes ruraes; a necessidade de presupprmos a existencia de uma poesia sacra, typica, em vulgar, irradiando de Santiago, anteriormente a Alfonso X, e a probabilidade de que d' ella se desaggregasse, cedo, uma poesia popular profana, tam bem de frma typica. Quanto aos cauticos lyrico-narrativos do castelhano lembra que no derivam da poesia artistica provenal.
1) Lang, p. LXXXVII e Jeanroy, p. 282. 2) Gesclticltte der dramatischen Litteratur und Kunst in Spanien, I, 74. 3) Volksmiissige Kirchenlieder.
79 Em opposio a uma das theses de Gaston Paris ainda sublinha que o cantar de amigo gallaico-portugus, muito menos alegre, primaveril, folgazo e picaresco do que o da Frana, no tem signaes de derivar das festas de Maio, 1) e explica o seu caracter vago e convencional, como reminiscencia liturgiea. Finalmente, as causas, quer vantajosas quer no, porque a influencia da lyrica francesa e da Provena foi superficial, conservando-se a portuguesa relativamente independente, so tres, como Lang expe claramente: o contacto entre portuguses e provenaes, passageiro e pouco intimo por causa das circumstancias precarias do novo reino; 2) o nivel baixo da cultura dos peninsulares que os constrangeu a pr de parte o que era culto, difficil e complicado; e last, not least, a existencia de uma poesia popular indigena, muito desenvolvida, sacra e profana, que actuou sobre a lyrica cortesan, impondo p. ex., em opposico directa poesia da Provena, o culto da dona-virgo; o espirito ritualmente idealista das cantigas de amor; e ainda a excepcional economia ou parcimonia, que preside elaborao poetica, contentando-se o trovador, em geral, em cada pea, com uma unica situao ou ideia.
83. O mesmo erudito tratou posteriormente com ainda maior exaco das relaes de portugueses com provenaes e franceses, num artigo de revista americana, desejoso de apurar at que ponto chegam as concordancias de pensamento, dico e construces metricas e se realmente a arte provenal no sazonou nenhuma reproduco exacta, nem imitaes fieis de poesias inteiras.
68. H. R. Lang. Relations of the earliest portuguese lyric school with the troubadours and trouveres. Em },fodern Language Notes. Vol. X, 207-231. Abril de 1895.
Cingindo-se em certos pormenores minha exposio ( 84), oppe rplica a varias affirmaes que, com effeito, no se podem manter, 3) para em seguida alinhar as principaes passagens por1) Pag. LXXXIII. 2) Cf. Jahresbericht III, 121. 3) Martim de Moxa, por Martim Moxa ( Grundriss 190) erro. Di,.,edor tanto significava maldizente, como homem fertil em dictos engraados. - erto que Aimeric de Pegulhan no assistiu na crte de Alfonso VII, nem to pouco na de Alfonso IX. Confira-se todavia, para comprehenso da minha eiTonea hypothese, o que Mil expe a pag. 287 e 289 dos seus Trovadores. - Sordello no falla directamente do Rei de Leon, mas Peire Bremon e Johanet de Albusson, seus adversarios, alludem sua estada na-
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tugnsas que julga espelharem modelos estrangeiros. Sl1o 22, colhidas em 1633 composies. Numero diminutissimo que, na verdade, confirma a regra.I)
Quanto ao caracter, aos motivos e comeos da lyrica rustica, 3) julguei poder combinar a opinio de Gaston Paris sobre as antiqussimas Festas-Maias como fco de onde irradiou a moderna poesia, com a opinio de Lang e Pelayo sobre Santiago de Comquelle reino; quanto data, veja-se a Biogr. XV do Cap. VI.- Com relao a Bonifacio Calvo e s lendas propagadas por Nostradamus, veja o leitor a Biogr. XXIX do mesmo Cap. Da lista dos poetas que tiveram relaes mais ou menos intimas com Alfonso X, visitando- o, dedicando -lhe versos, ou citando- o simplesmente, preciso riscar Bertrand de Born (filho), Feire Vidal, Uc de Escaura. - Citei Faulet de Marselha por causa da Cano: ..Ab marrimen (Bartsch, Grundriss, 319, 1) e Bartolorneo Zorgi por causa da cano: Sil monsfondes a maravilha gran (Ib 74~ 16). Com razo, visto ambos se referirem a Alfonso, como irmo de Don Anigo, o Senador de Roma e poeta italiano. 1) Os provenaes imitados que nos revela, so: Uc de S. Circ, Feire Cardinal, A1bertet, Gaucelm Faidit, Guilherme de Montagnagout, Guiraut de Bornelh, Arnaut de Maruel, Uc de Brunet, Richard de Berbezill, Ferdigon. Os troveiros: Mathieu de Gand, Thibaut de Champagne, Quenes de Bethune, Baudoin de Cond, Gauthier d'Espinaus. Alm d' isso, alguns rnotetes anonymos, recolhidos por Bartsch, J eanroy, Raynaud etc. 2) Nas notas de Lang sobre trovadores portugueses ha naturalmente algumas inexactides. No ha prova de que D. Gil Sanches vivesse em Leon de 1211-1219. D. Joam Garcia e Fernam Garcia so filhos de D. Garcia Mendes, e no irmos. O companheiro de Affonso III, chamado Estevam Annes no pertenceu familia dos Valladares, nem era pota. 3) As analogias com a poesia popu1ar da Frana e mais territorios neo-latinos constituem um capitulo parte, de interesse mais palpitante ainda que a imitao dos productos palacianos.
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postell~ como alrbre onde germinaram os cantares sacro-profanos de romaria. Uma das principaes festas annuaes do antigo Portugal e da Galliza era e a de Santiago (lllinor) e S. Felipe, celebrada no primeiro de Maio, coincidindo, por tanto, com as l\Iaias. 1 ) Prematura era, segundo me parece agora, a tentativa de responder ao quesito, qual das duas correntes foi cultivada primeiramente na crte por vates aulicos: se as cantigas de amor em moldes de mestria, vindos de fra- parte, ou se os archaicos rhytmos de dana, usados pelas mulheres do povo, na rua, na praa e na igreja, por occasio das peregrinaes aos sanctuarios, ou bailando diante do altar, em honra primeiro de Santiago, e depois de outros santos e santas, oragos e padroeiras locaes. 2_)
69. Carolina Michaelis de Vasconcellos, Zum Liederbuclt des Konigs Denis von Portugal; em Zeitschrift XIX, 513--541 e 578-615. - Anno de 1894-1895. 8)
e\"identemente defeituosos nos apographos italianos e insufficientemente corrigidos por Th. Braga, haviam entretanto sido aproximados da forma primitiva pelo descubridor dos modernos cantares transmontanos em disticos encadeados.
70. J. Leite de Vasconcellos, Notas ao Cancioneiro de El-Rei D. Dinix. Barcellos 1894; e em 2da edio melhorada: Novas Notas ao Cancioneiro de El-Rei D. Dinix. Ib. (extractos do jornal .Aurora do Cvado No. 1378 e 1379).
O expediente de escrever loua, pinho e so, em logar de [Link], pino e sano, substituindo por til ou, depois de i, por nh, cada intervocal, parece-me muito duvidoso, em vista dos freqentes castelhanismos irrefragaveis dos cancioneiros, e porque na Galliza (e tambem em Portugal) houve e ha muitas palavras que conservaram ou reintegraram muito cedo n entre vogaes, p. ex. pena, menina, pino, e em geral os diminutivos em ino. 5) Considero egualmente controvertvel o remodelar da versificao dos antigos, torr~.ando a introduzir certas vogaes supprimidas por eliso, como se devessemos
1) A festa de Santiago-Maior veranil e celebra-se a 25 de Julho. 2) Varias das correces de texto, que proponho, haviam sido lembradas tambem por Ad. Tobler num artigo critico, publicado em Hcrn"g's ..Archi1.:, Vol. XCIV, pag. 470, o que lhes serve de valiosa confirmao. 3) No Litteratut-blatt XVI, 271-276 (anno de 1895) ha outro artigo meu sobre o CD. 4) cv 168, 171, 173, 186. ) Cf. Zeitschrift XIX, 515-517. E vide Grundriss I, 125. 6
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lr: mandado hey por mandad' ei, rogo en por rogu' en, migo. hey por migu' ei; ou mesmo amigo meu amad.o por amigu'e meu amado.- Bom seria marcar, mesmo em textos destinados maioria, o accrescentamento de estrophes, palavras e letras, incluindo-as entre [], em harmonia com a praxe scientifica. Alis succeder tomarmos em conta de legitimos originaes o que conjectura nossa, conforme aconteceu ao proprio Leite na 2<~"' edio do seu opusculo (No. 168 estr. 6). Para essa, o auctor recorreu s emendas criticas de Storck e a algumas observaes minhas. Ainda assim deixou subsistir varias incorreces da especie a que me referi, e outras como bayoninho por baiosinho; mha 11wd'ie velida por m'a mad'l"e velida. 1) Ao Dr. H. Lang offertava Leite de Vasconcellos estas contribuies, tarde de mais para que elle as podesse utilizar, o que de resto no se teria dado, visto no haver no seu folheto rectificao alguma a mais das que Lang j havia apurado.
86. Ha ainda um estudo meu, o primeiro de uma longa serie que deve encher um volume, sobre um dos assumptos ntimos e caseiros que originaram cantigas de amor e dizeres de escarnho, e ao mesmo tempo sobre as mutuas relaes dos trovadores entre si, das quaes Diez no encontrra vestigios nos fragmentos publicados em sua vida. Intitulei- o ,Der Ammenst'ieit", o Processo da Ama. Formam sen contendo encomios dirigidos por um veterano a uma me, criadeira de filhos e dona de casa, contra o costume palaciano que mandava celebrar smente meninas-donzellas, encomios que motivaram varias manifestaes de agrado e desagrado. As cantigas coordenadas, restituidas e commentadas, so duas do CA (166 e 170)~ duas do CB (101 e lnll) e seis do CV {1186, 10"~2-102 e 1092).
71. Carolina Michaelis de Vasconcellos, Zum alt-portugiesisclten Liederbuch: I. Der .Ammenstreit. - Separata de Zeitschrift XX, Halle 1896.
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72. Ad. Mussafia, Bull' antica metrica portoghese, -osservax-ioni. Sitx-ungsberichte der Kaiserlichen .Academie der TVissensclmften, Band CXXXIII. Wien, 1895.
a dupla lei da isometria das estrophes, fundada nas exigencias da melodia, e a da mistura de versos graves e agudos, arithmeticamente eguaes, mas rhytmicamente differentes, dentro da mesma estancia (i. de versos contados e acentuados, 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8 e dos que se contam 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8) que forma o assumpto do subtil estudo. Promoveu outra manifestao complementar da minha parte.
73. Carolina Michaelis de Vasconcellos~ em Litteraturblatt fr germanische und romanische Philologie, Bd. XVII, 308-318. Heidelberg, 1896. 1)
88. Dois romanistas italianos tiveram que referir-se lyrica peninsular, ao tratar dos poetas italo- provenaes: Sordello de Mantova e Bon~faxio Calvo de Genova, porque ambos haviam emprehendido o tour d' Espagne do artista, to usual no seculo de Alfonso o Sabio.
74. Cesare de J.. ollis, Vita e Poesie di Sordello di Goito. 1896. Halle,
No 15 do Cap. VI, i. na biographia do poota Joan Coelho, terei occasio de mostrar que no desattendi este importante trabalho. 2) 75. Mario Pelaez, Bonifax-io Calvo, trovatore del sec. XIIL - Em
Giornale storico della litteratura italiana. Vol. XXVIII e XXIX ; e em separata. Torino, H. Loescher, 1896 e 1897.
No ensaio consagrado ao trovador genovs ( 29 do Cap. VI) fao a devida justia a esta obra. - No querendo omittir os versos portugueses do biographado, Mario Pelaez sollicitou de Th. Braga copia paleographica, e juntamente a lio critica de duas poesias conservadas no CA (26 e 266).
89. Finalmente, um sabio portugus, dos paleographos mais activos que exploram o Archivo Nacional, na sua qualidade de socio da Academia Real das sciencias de Lisboa e continuador dos Portugale Monumenta historica, incluiu num opulento estudo historico sobre Frei Gonalo Velho, as obras poeticas de tres personagens, em que distrinara antepassados do descubridor da Terra Alta
1) Cf. Kritischer Jahresbericht IV, 380-381; e Fede rico Hanssen, Miscellanea de versificacion castellana, Santiago de Chile 1897. 2) A elle me refiro repetidas vezes nas Randglossen II e XV.
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84 e dos Aores: Pero Velho de Taveirs, Joo Velho de [Link] e Fernam Velho, o qual tenta identificar com o pae do descubridor. Mais tarde 1) o leitor ver que no me conformo com esta interpretao, e o que penso dos outros dois. 2)
76. Ayres de S, Frey Gonalo Velho. - Quarto Centenario do Descobrimento da India. - Contribuio da Sociedade de Geographia de Lisboa. Vol. 1. Lisboa, 1899. 8 )
Quanto aos textos, Ayres de S reproduz as poesias do. primeiro dos Velhos, imprimindo (a pag. 51) a lio diplomatica de E. Monaci (CV lUl e 1142), mas no sem desenvolver as abreviaturas principaes e juntar as letras dispersas. No fim da pagina accrescenta as modificaes de Th. Braga, sem observao alguma, critica, apesar de nem todas merecerem o titulo de emendas. Haja vista na Cantiga 1141, 14 a formula: a ju.r; i maao (cujo sentido no sou capaz de adivinhar) em substituio do bello e transparente modismo archaico aviximao ( = avice mala, de avix por avis} o qual designa o infeliz, a que um passaro de mau agouro significou acontecimentos desastrosos. Quanto s poesias do segundo dos Velhos (p. 53) aproveita a impresso de Molteni, rectificando-a 4) e dando a leitura original em Nota (CB 112 e 114). Nem todas as correces so boas: d' eito p. ex. no de esto, mas inqestionavelmente de're-ito; depen-istes devia ser depmtistes; ta est por ca; e syso por vyso. Confiramse os nossos No. 392 - 39!. De Fernam Velho imprime primeiro as trovas, segundo o
CV (46-54 e 403-40!} e CB (377), dando no fim da pagina as variantes do CA, para depois imprimir novamente as cantigas CV 46-53, na lio do CA (257-264 e 48); e no fim CV 1176 e CB 419.
digno de louvor o esmero com que d conta de todas as minucias graphicas que occorrem no trabalho do antigo escriba: caracteres
1) Cf. Cap. VI, Biogr. XXVIII. 2) lb. Biogr. III, XXVIII e LI. 3) Durante a impresso d' estas folhas sahiu o vol. II que completa a obra. 4) Accentua vogaes p. ex. em , d etc; e colloca o til onde devia estar, segundo a graphia moderna. Com esta inteno briga, porm , a sua maneira de escrever u, em logar de ua (= uma). Tambem colloca indevidamente o til sobre y em :ralavras, como ya, ey, 'fnayor, reeey, unicamente porque os antigos costumavam guarnecer de pontos essa lettra, a fim de a differenciar dos ii, que nunca tinham ponto.
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pontuados e riscados, ou escriptos sobre pergaminho respanado, iniciaes omissas (ou melhor, no executadas a cres, estando apenas indicadas com uma minuscula microscopica para uso do illuminaclor), assim como notas marginaes. O que no satisfaz o systema de reintroduzir as vogaes supprimidas por eliso, maneira de Leite de Vasconcellos. No estragando o verso, do ideia inadequada dos antigos processos de metrificao. De resto, Ayres de S engana-se differentes vezes nas suas modificaes; p. ex. nu, 10, onde imprime sanhud(e) e braue cuid(e) eu a la f; ib. 12 del(e); ib. 13 el(e); 1176, 4 tenn(h)o.
90. Nas paginas que dedica aos tres poetas ha algumas notas criticas, dirigidas contra Monaci, que devemos considerar como um eco do que se diz e se pensa no seio das duas doutas corporaes a que Ayres de S pertence. A ellas devemos voltar. Reconhecendo sinceramente o altssimo servio que Monaci prestou nossa litteratura, opina ainda assim que o texto da edio de Halle no precisamente o que se encontra na Bibliotheca do Vaticano (pag. 133 nota 6), e que por estar eivado de erros, no dispensa nova copia do manuscripto.l) A deturpao positiva. E positivo tambem que hoje, quem depois de estudar a fundo a lingua e litteratura archaica, graas s publicaes de Monaci e 1\Iolteni, investigasse os manuscriptos guardados na Italia, havia de lr melhor algumas palavras, ou
1) especialmente com relao a dois vocabulos que Ayres de S affirma a necessidade de se consultar de novo os apographos italianos: [Link].r (p. 53, 1); [Link] 130, 4; e puguer (p. 126, 7, 127,2 e 128, 3). As observaes dedicadas a elles surprehendem- me. Basta olhar para os varios exemplos de ajuda.r e prouguer no CA e para os fac-similes que accompanham as Cantigas de Maria, para comprehender os erros dos copistas italianos o as duvidas de Varnhagen. Os ii nunca teem ponto, como j disse na Nota anterior; as lettras u e n semelham-se muito, apesar do illustre paleographo affirmar que nunca se confundem; o o tracinho obliquo que s vezes carrega o i para o destacar do u seguinte, est de longe em longe um tanto deslocado, recahindo sobre ou. Em vez de aiudar surge ento audar, lido a:uida.r e transcripto [Link], palavra que no existia no sec. XIII. Quanto a prouguer, o p traado por linha curva (p), que equivale a pro, foi confundido com p, traado por linha horizontal (p) que significa per. Ap. 126 No. 51, verso 5 e nota 7, Ayres de S resolveu puar em priva.r, o que , de toda a maneira, inadmissvel. Pelo seu systema, era perua..r; mas na realidade p est por p, de sorte que a palavra significa prova.r. Assim se l no CA, reproduzido a p. 136. - Priva.r escrevia-se p 1ua..r. Vid. na Parte II, Cap. III, os paragraphos relativos a .[Link] e Notas Marginaes.
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mesmo muitas. Mas o prestantissimo paleographo, que talvez mudasse de opinio em face dos codices, esqueceu varias circumstancias ao proferir as suas querelas. Primeiro: os fac-similes provam que os deturpadores foram os copistas italianos de 1500, e no E. Monaci. Segundo: no o perito, incumbido de tirar copia diplomatica, quem deve emendar os erros, mas unicamente o editor critico. Terceiro: Monaci reconheceu e rectificou nas suas listas numerosissimos enganos de escripta. Quarto: Fosse quem fosse o sabio que tirasse nova copia, teramos de contar tambem com novos erros de leitura e interpretao. O proprio Herculano no tresladou bem todos os archaismos dos documentos que compulsou. 1) E mesmo as leituras do auctor de Frei Gonalo Velho no satisfazem sempre em absoluto. Os preciosos monumentos em prosa do seu volume brilham pela pureza da reprocluco; mas nos versos extrahidos do CA ha, conforme j disse, alguns (pequenos) descuidos.
91. Ignoro, se com a critica de Ayres de S est ligada a proposta de que passo a fallar, antes de pr ponto a esta longa resenha bibliographica (15 de Junho de 1899) -- proposta que, de resto, representa uma ideia bem antiga de algunsAcademicos, advogada desde longos annos por Th. Braga, 2) sem que da sua parte houvesse o mais leve prurido de menoscabar o seu collega de Roma, cujos servios constantemente glorificou, 8 ) ou de invejosa irritao por vr o estrangeiro cumprir o que era um dever da nao:
. 77. Proposta para a impresso dos Cancioneiros trobadoresco:J portuguexes, apresentada na sesso da 2da Classe da Academia Real das Sciencias em 24 de Fevereiro de 1898.
Pugnando pela ideia que os Cancioneiros so o complemento organico dos Nobiliarios, porque na litteratura poetica se encontram reflexos directos de capitalissimos successos historicos, e na litteratura historica alluses a poetas; ajudando-se mesmo com o facto de alguem ter por intuio reunido num s volume o Nobiliario do Conde D. Pedro de Barcellos e o supposto livro das Cantigas do mesmo; persuadido de mais o mais de que a copia, com visos de
1) Seve (seduit) apparece constantemente escripto se v. 2) Zeitschrift I, 41 ; Oanx. Vat. Rest. III; Bibliographia critica 188. 3) Questies de Litteratura e arte port. pag. 35- 39.
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ser diplomatica, existente no archivo da Ac,ademia, era destinada por Herculano a entrar no Corpo dos Sm-iptores (como signalizei), Th. Braga requer que se execute agora esse plano. Do modo como deseja vr realizada a empresa, nada diz. Apenas indica que, nomeandose um director especial, se anteponha a impresso dos Cancioneiros de todas as fontes de historia patria, e que os incorporem na colleco dos ]!,fonumentos historicos.
Sr. Theophilo Braga, apresentada na Sesso da 2da classe da Academia Real das Sciencias em 24 de Fevereiro de 1898. Datado 11 de Abril do mesmo anno.
93. Ignoro se a Seco de Litteratura j disse da necessidade ou opportunidade da nova edio dos Cancioneiros. Se me chamassem a enunciar a minha opinio, iria propr que a douta corporao, para remir peccados antigos e sem ferir justas susceptibilidades dos que trabalharam e trabalham em pr da poesia galla'ico-portuguesa, cuidasse de dar-nos, independente dos ]!,Jonumentos Historicos, a reproduco inteira heliotypica, se no dos tres Cancioneiros, pelo menos do -codice membranaceo da Ajuda, como base inattacavel de todo o trabalho futuro; e que em seguida posesse a concurso a edio critica definitiva e completa dos tres
1) I. F. Silveira da Motta, A. C. Teixeira de Arago e H. da Gama Barros.
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livros de trovas archaicas, destinando um premio condigno a quem a realizasse dentro de um prazo determinado.
94. Post-Scriptum.
70. H. R. Lang, 'l'he Descort in old portuguese and Spanish Poetry. Halle a. S., Max Niemeyer, 1899, 23 pp. 1)
Completando um trabalho do provenalista Appel sobre o Desco'rdo na Proven~a, Lang trata dos unicos exemplos d' este genero artstico que se encontram nos archaicos Cancioneiros peninsulares 2): o nosso No. 389 ( = CB 13;>), de Nun' Eannes Cerzeo, designado pelo proprio auctor com aquelle termo estrangeiro; CB 4:70 del-rey D. Alfonso X, reconhecido como especimen caracteristico por Colocci; . e CV 163 de D. Lopo Diaz, composto, segundo a rubrica explicativa, en son d'un descor. 8) Todos os tres constam de [Link] mais ou menos d~siguaes, quanto estructura metrica, ordem e classe das rimas. Os primeiros dois so de amor; s o ultimo de escarnho. Entre os de amor, o do monarca castelhano uma lamentao sobre affectos no correspondidos. Em vista d'isso Lang assenta que, em accordo substancial com a practica e os preceitos da Provena, os trovadores de c consideravam o descordo como um cantico triste e apaixonado em que se d expresso formal discordancia de sentimentos por meio da desigualdade, maior ou menor, das suas partes constructivas: a love-poem singing of unrequited affection and giving fo1"'mal expression to this descord of sentirnent by the more or less unequal structU're of its composing parts. E considera o descordo satyrico como uma das excepes regra em que o genio misologo dos Portugueses se expandeu. Esta feio em si, o facto de os schemas metricos divergirem de todos quantos descordos provenaes se conservaram, e em terceiro logar o refram com que o Sabio remata o seu canto, so outros tantos testemunhos
1) Separata de uma Miscellanea offerecida ao Cathedralico de Strassburg, Gustav Groeber por alguns seus discpulos, sob o titulo Beitriige ?;Ur roman'ischen Philologie, Festgabe fr Gusta?J Grober. 2) Zeitschrift XIX, 212. 3) O erudito investigador no tentou ou no alcanou descobrir, qual o poema imitado. Quanto interpretao a dar formula en son de creio que levanta inutilmente questo onde no ha motivo para dvidas. En son (de) significa segundo a melodia (de) em todos os casos que conheo. E a adaptao da musica implicava a do metro e da estructura estrophica, e talvez das rimas. Cf. 367.
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da liberdade ou arbitrariedade com que na peninsula imitaram os modelos estrangeiros. Lang examina ainda outra poesia: um sirvents moral de Martim :Moxa (CV 481), que fra por mim apontado como quarto descordo gallaico-portugus. Elimina-o todavia da classe, porque a symmetria das quatro estrophes que a compem quasi completa, e tambem por ser identica na forma a uma cantiga d' escarnho de Coelho 1), a qual no fra at hoje reconhecida como descordo. l\Ias esta ultima razo no decisiva. Ignoramos qual das duas original 1) e qual apenas um seguir. E que fosse! por ser mera imitao, um descordo no deixa de ser descordo.
96. Da America do Sul veio uma contribuio, intimamente ligada s duas que rubriquei sob No. 72 e 73 3), de grande interesse, embora trate apenas de alguns pontos de metrica.
81. P1of. Dr. F ri e dr i c h H a n s se n, Zum Spanischen und Portugiesischen. Separatabzug aus den V erhandlungen des deutschen wissenschaftlichen Vereins in Santiago, Bd. IV; Val1mraiso 1900, 64 pp.
O auctor, um germano- chileno, erudito em philologia classica, mas que uns seis annos para c, se dedica com energica laboriosidade, methodo bem cimentado e independencia rara ventilao
1) veja-se 2) 3)
Quanto a Noxa e suas relaes com D. Joo Soares Coelho o Cap. VI, Biogr. XXXV. Cf. llomania fase. 116, p. 633. Veja-se a Nota 152.
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de problemas de archeologia liugistica e prosodica 1), disserta nella sobre o verso de arte maior, ultimamente to discutido. 2) Os seus materiaes foram colhidos nos mais antigos textos lyricos castelhanos, 3) ainda no aproveitados para este fim nos cancioneiros trovadorescos, incluindo o sacro de Alfonso X, e na poesia popular gallega. 4) O exame dos exemplos palacianos (Rimado de Palacio5) e Canc. Baena) leva-o a aceitar a definio dada antigamente, ainda que com pouca clareza, por Juan dei Encina. 6) Em harmonia com esse mais prospicuo entre os prosodistas do sec. XV, e contra 1\Iorel-Fatio (que encaraudo-a do ponto de vista frances, a regeitara como inaceitavel) formula urna lei que chamarei da pro-catalexe, empregando essa palavra grega, por ora desusada na terminologia portuguesa, para designar a eliminao facultativa de uma syllaba atona em principio de verso: o inverso portanto e, segundo H a n s se n, deriva~o directa da paragoge rhytmica, ou seja da faculdade antiga dos poetas i talos e hispanicos de fazerem alternar, no fim de versos e hemistichios, vocabulos graves com agudos e esdruxulos. Gra~as a esta lei, combinada com outra, no menos desusada nos territorios romanicos, a qual admitte (mas no manda) compensar tal falha de syllaba pelo accrescento de outra a principio do segundo hemistichio, e ainda com a liberdade de substituir o hiato entre os dois (que regra) pela suppresso de vogaes por synalephe, graas a esta lei, digo, o verso de arte maior - na praxe de poetas rigoristas e por isso no dictame de muitos criticos, de mua monotonia fatigante - 7),
1) Nos numerosos opusculos que publicou nos Annaes da Universidade de Santiago e nas Memorias da Sociedade Alleman cientifica, ha muita coisa util para os estudos portugueses. 2) Vid. Grundriss na, pag. 36; Romania XXIII; Jahresbericht III, 11. 3) At hoje fra costume recorrer principalmente poca aurea do verso (i. s Trecientas de Mena). 4) Mil y Fontanals na Romania, vol. VI. 5) Uma poesia lyrica do Arcipreste de Fita na qual Menendez y Pelayo quis reconhecer os primeiros versos de arte maior, e Baist versos de redondilha menor, consta, como Hanssen expe, de versos de 6 syllabas grammaticaes, com acento ora na 58 , ora na 68 (ababab xO). 6) .Arte de Trobar, Cap. V : Mas porque en el arte mayor los pies son intercisos que se pueden partir por medio no solamente puede passar una silaba por dos quando la prostrera, es luenga. Mas tambiem si la primera ... fztere luenga, assi del un mediopie como del otro, que cada una valdr por dos. 7) Houve quem o designasse com o nome: verso de taratantara por causa do rhytmo pronunciado que recorda o rustico toque de caixa. Eu
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apparece nos textos explorados estranhamente variavel. Ao lado de versos de medida normal com 12 syllabas e pausa no meio, ha outros que constam de 9 a 13. Entre versos pelo typo regular: temi ta tormenta, deZ mar alterado (6 + 6), encontra-se uma longa serie de excepes que no ficam sufficientemente caracterizadas pelos algarismos 5 + 6, 6 + 5, 7 + 5, 5 + 7 e mesmo 5 + 5, 4+7, 4 + 5, 4 + 6. 1) Temos no s o 1 o hemistichio com desinencia aguda (doled vos de m~), ou esdruxula (no curen los principes); mas tambem com pro-catalexe, sendo grave a desinencia (rei excellente), ou aguda (cuesta sufrr), ou esdruxula (todos los principes). E temos o segundo igualmente com rima, ora aguda (rogando a dios), ora esdruxula, 2) ou com syllaba de compensao, havendo pro-catalexe na 1a metade. Neste caso a rima aguda (por su santa pasion), sendo grave o 1o hemistichio; ou viceversa (que me deu calentura). Quanto ao andamento, naturalmente variado em versos to desiguaes (e por isso mesmo avaliado de modos muito differentes,3) os resultados so de somenos novidade e preciso. Sem dizer, se acredita num rhytmo descen~ente ou ascendente, e evitando fallar de jambos, trocheos, dactylos, anapestos e amphibrachios, Hanssen estabelece mais uma vez que os versos correctos tem quatro altas ('ictos, ou arses) nas syllabas 2. 5. 8. 11, ou pelo menos em 5 e 11; emquanto que nos hemistichios reduzidos por pro-catalexe a cadencia fundamental ....,_....,....,_...., na beira do 'rio - ternbrando de frio - nos [Link] letrados- fuese fenecida; (respectivamente......, __ ......,_...., cantd msa ma; ....,_......,_....,......, muy lto prncipe ....,......,_....,_......,, ....,....,....,....,_....,; _....,_....,_......, ou _......,....,....,_..._..), se transforma em _......,....,_......, (anos pe1didos - aya sos-iego - cando te 'l:exo) ou ....,_......,_......, (en pocos dias - a grandes voxes); mas no 1 o hemistichio tambem em ...... .....,_...., (cavaleiro), _......,_......, (della fixe) . . . , __ . . . , (aqui luego), e no 2 em ......,......,_......,......,_ (por su snta pasin) e ......,....,_......,......,_......, (en questin declarda - que me du calentra) pronuncio tartantar. Mas quem o applicou ao seu equivalente francs pronunciava certamente taratantar. 1) Morel-Fatio considera os bipartidos em 4 5, 4 6 como errados, e tenta emend -los. 2) Hanssen no regista nenhum exemp1o de rima esdruxula, o que signal certo de que nem os primeiros cultores palacianos, nem os poetas populares a conheceram. 3) Houve quem o chamasse decasyllabo anapestico; outros chamam- no anfibraquio dodecasyllabo; outros faliam de quinarios duplos; ou versos duplos de redondilha menor. E nem mesmo falta quem o considere como
alexandrino!
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hemistichios que outros crticos consideram como radicalmente falsos, monstruosos, e a negao de todo o rhytmo. Do exame das poesias gallego-portuguesas que constam de 12 (respectivamente de 11 syllabas) e de algumas, em que versos de e 5 syllabas apparecem combinados de modo artistico,l) apura o seguinte. 1. No ha razo para distinguir entre dodecasyllabos maneira limosina e dodecasyllabos maneira gallega. 2. Sem os identificar com os de arte maior, nota em todos elles a tendencia de acentuarem a syllaba quinta. 3. Os trovadores desconheceram a lei da pro-catalexe, ou antes desprezaram-na, por influencia da rnetrica provenalesca. Ha todavia cantigas, em que versos de dimenses diversas, mas com differena de s uma syllaba (de 5 e 6 at 11 e 12), constituem um caso analogo. 4. As cantigas em versos de doze syllabas so na maioria de feitio popular: cantares de amigo e canticos sacros. Quanto mu''inheira, Hanssen estabelec-e a identidade theorica dos seus versos com os de arte maior. E sendo improvavel que o verso favorito de dana dos aldeos da provncia gallega seja de origem erudita e relativamente tardia, o contrario, isto a introducc,~o do metro popular na poesia artstica, parece -lhe verosmil. Apontando alguns ver::;os de hymnos mozarabes (em que descobre casos de pro-catalexe) e versos saphicos, ainda assim no acredita na continuidade de uma tradic,~o. Nem to pouco cr que o verso de arte maior seja uma creao peninsular. Inclina pelo contrario, em conformidade com Stengel, Morel-Fatio e -Baist, a deriv-lo do dodecasyllabo francs com pausa depois da 5a syllaba, transformado por causa da anti pathia dos peninsulares contra versos e hemistichios agudos, e tambem por causa da pouca aceitac,~o de uma medida de onxe avos. Agora algumas notulas criticas. Em geral sou de opinio que prematuro decidirmos sobre qualquer problema de metrica peninsular, antes de o canon tanto das poesias archaicas de factura palaciana como das de caracter popular estar elaborado. Para este fim, em cujo alcance Henry R. Lang est a trabalhar assiduamente, contribuo no Cap. IX d' este volume com os materiaes fornecidos pelo CA.. Aqui direi apenas o seguinte. Embora no seja uso, ou uso malvisto, o fal]ar de rhytmos jambicos ou trochaicos, com
1) Hanssen caracteriza-os como hypermetrisclte Weiterbildungen.
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respeito a composies romanicas, creio que, collocando-nos immoveis no ponto de vista francs da simples contagem das syllabas, nunca conseguiremos resultados satisfactorios a respeito da parte popular da poesia hispanica, e peculiarmente do verso de arte maior. Quanto mais vejo e ouo das danas e da musica peninsular em que o rhytmo . tudo, - tanto mais me persuado que os gallaicos, astures, cantabros e lusitanos de hontem e de hoje, no contavam as syllabas, contentando-se com um numero fixo de altas on levas (4 no verso de arte maior). - Neste ponto estou de accordo com G. Baist. O trstalastrs das castanhetas, o trntrintrn dos ferrinhos, o cluscarraschs das cnchegas, o dn_qolodrn dos pandeiros, o rpinicr das guitarras, o birbirinchn da gaita, ruidos que pelo rhytmo e som se afastam completamente do li ail al ail da flauta, recordam a miudo o verso de arte maior, lembrando a necessidade de estudarmos as cantigas choreographicas do pvo. Se nem mesmo dos compassos e das evolues da muinheira formamos ideia cabal! - No (olklore de Portugal ha entre as rimas e os jogos infantis numerosos disticos, a come\\ar com o
Arre burr'inlto, a Siio Martinho carregado de po e vinho
que recitamos ou cantamos com variantes a capricho, balouando ou fazendo cavalgar em saltos cadenciados nos nossos joelhos pequeninos cavalleiros. Esses talvez contenham preciosas revelaes. A predileco dos portuguses pelas estrophes sapphicas tambem merece atteno. Mesmo nos Cancioneiros ba composies ainda no utilizadas, como p. ex. o fragmento deturpado de serrana que principia
Na serra de Sintra a par d' esta terra vi a serrana_ que braadava guerra ({~V 410)
Em vista de decasyllabos e dodecasyllabos de rhytmo perfeitamente pronunciado, e outros in-egularmente construidos que mal podem ser escandidos, creio devermos distinguir entre duas qualidades differentes de versos de 12 syllabas grammaticaes. - No creio que as poesias de Alfonso X. e outros trovadores, em que versos de dois metros de quasi egual extenso, mas prosodia differente, alternam com regularidade e proposito, caiam sob a lei da pro-catalexe, nem to pouco sob a lei Mussafia. Considero- os como francamente heterometricos. - Algumas outras theses precisavam pelo menos de mais ampla demonstrao, p. ex. as que se referem s cantigas lyricas
94do Cancioneiro Musical. E ao contrario de Hanssen espero que na hymnologia latina encontraremos os modelos para as estrophes e para os rhytmos da poesia popular, isto para canticos liturgicos em romano, bailada~ sacras e profanas, cantos de romaria, serranas, chacotas.
9 7. Registarei ainda um primeiro esboo de grammatica archaica, se bem que o auctor no se refira aos cancioneiros profanos, mas apenas aos canticos de Alfonso X., e a alguns documentos em prosa (de 1295 a 1374). Assim procede com justo motivo, visto que o seu trabalho illustra uma edio critica das poesias attribuidas ao trovador mais nomeado da epoca de transio, Macias o Namorado.
82. Hugo Albert Renne1t, Macias, O Namorado, a GalicianTrobador. Philadelphia 1900. - Privately printed.
Quanto introduco litteraria, no entra no plano d' esta obra. Por isso relatarei apenas que o auctor, em hannonia com G. Baist,t) ampliando as indicaes do Marqus de Santilhana, colloca o poeta entre 1340 e 70, no reinado do Jm;ticeiro de Castella; e no em principios do sec. XV, como fra costume desde Argote de 1\iolina. 2) E procede assim, no tanto por achar digna de credito a epigraphe do Canqioneiro de Baena, segundo a qual alguns coevos do colleccionador imaginaram lanadas sub rosa contra o rei D. Pedro certas suas queixas amargas, dirigidas paladinamente contra o Amor, 3) mas por causa da ordem em que o Marqus cita o Namorado, juntamente com Vasco Pires de Cames (c. 1361-86), Casquicio (c. 1354), D. Juan de Lacerda (t 1357), e Pero Gonzalez de Mendoza (t 1385), continuando com a proposio: Despues destos, en tiempo deZ rey Don Johan (i. 1379 --1390) fue el Arediano de Toro. Podia responder que a chronologia do Marqus nem sempre inattacavel - como mostrarei mais tarde - ; que exactamente o unico paragrapho dedicado aos poetas gallizianos (XV) muito vago, abrangendo dois secnlos; que despues destos (XVII) se refere em rigor s aos luso-castelhanos Alfonso X, La-Cerda (?), Mendoza, e Alfonso Gonalez de Castro (?) mencionados no XVI; que a rubrica alludida nem mesmo a Baena mereceu f 4) e foi desatten1) Grundriss Ilb, 426ss. 2) Ib. Ilb, 239s. 3) Baena No. 308: Amor cruel e brioso. 4) Elle declara terminantemente: esta cantiga [Link] Macias contra el amor~ accrescentando empero algunos trobadores disen que la fiso cont1a el rrey don Pedro.
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dida por Santilhana; que no se deviam basear nella os que rege;am como pura fico todos os dizeres do Condestavel D. Pedro de Portugal e do Commendador Griego sobre os amores de :Macias e sobre a estrophe Aquesta lana sem falha. 1) Mas como reconheo que as linhas geraes da Carta- Proemio so acertadas, e estando perdidas as suas canes, menos quatro -ou cinco, j em 144~, inclino-me tambem de ha muito a adoptar para o lendario poeta uma data bastante afastada de Baena e Santilhana, a qual dever recahir na segunda metade io sec. XIV. O espirito das cantigas, as formas estrophicas, a metrificao, o rimario, a linguagem no se oppoern de modo algum. Distanciando-o dos poetas dionysios e post-dionysios 2), todos os indicios de fundo e de forma aproximam-no de Alfonso XI, o Arcipreste de Fita e Pero Lopes de Ayala, chanceler e chronista do Justiceiro, dando-lhe uma posi-o interrnedia entre estes e o Arcediano de Toro e Villasandino. 3) Quanto restituio dos textos, hybridamente gallego-castelhanos e em parte deturpados e fragmentarios, attribuidos com mais ou menos fundamento ao Namorado, Rennert que separa conscienciosa e correctamente os que so gallegos dos castelhanos, ainda assim deixou subsistir inalteradas e introduziu at de novo formas espurias. Ponctnando s vezes pouco satisfactoriamente, no d a perceber, qual o sentido que liga s ideias dos auctores. 4)
97b. Num relatorio dedicado obra supracitada de Jeanroy, Eduardo Wechssler, que se occupa de uma edio do Graal portugus, reconhece o servio que o erudito francs prestou sciencia, combatendo e desaroando a usual concepo romanticamente mystica da poesia popular. No se conforma todavia com a nova interpretao, por elle proposta. A seu vr, poesia popular, se no poesia ideada pelo povo, to pouco- poesia composta para a nao
1) A meu vr, foi apenas a allocuo ao Amo1: Rey eres sobre los Reyes, coronado emperador, assim como a repetio da palavra cruel e muex-a na cantiga indigitada que originou essa parte da lenda. 2) S de longe em ]onge Rennert remette, com relao a uma ou outra phrase feita, s cantigas dos coevos e antecessores. - Tambem este problema ser brevemente resolvido por Henry R. I~ang num Canrioneirinho gallego- castelhano que est elaborando. 3) Alguns versos tem sido attribuidos a Macias e a Villasandino (vid. No. VII, X e XVII). 4) Conto occupar-me do assumpto em outro logar.
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inteira. Assentando a these suprehendente que poesia popular uma concepo phantasmagorica, sem realidade nem corpo, explica que toda a poesia originariamente e na sua essencia poesia de classe (Standes-poesie), porque desde o momento em que ha separao de classes sociaes, no pode haver creaes litterarias, destinadas para todos e a todos comprehensiveis. Artistas de profisso, superiormente dotados, escrevem para um determinado circulo culto, bomogeneo, mais ou menos restricto, em que nasceram, se criaram e vivem. Ha poesia sacra, i. da classe ecclesiastica; poesia aristocratica i . de nobres; poesia cavalheiresca, para cavalleiros; poesia burguesa. Progredindo sem cessar na sua cultura mental, as camadas superiores requerem sempre, e sempre produzem novidades, abandonando ento os generos antiquados s camadas inferiores. Jeanroy teria por isso feito melhor se fallasse apenas de generos archaicos, omittindo completamente o ambiguo termo popula1. A poesia das camadas inferiores e infimas, o peculio que at hoje foi costume designar como poesia popular compe-se portanto em primeiro Jogar e principalmente de obras archaicas, abandonadas e em decomposio, porque o povo as modifica, segundo o seu espirito e limitado saber. Em segundo Jogar abrange imitaes d' essas mesmas obras, feitas por individuas de talento, sabidos do vulgo, os quaes se servem dos moldes promptos e da technica, vinda de cima. Em terceiro logar acontece que algumas obras bem feitas d' esses taes poetas populares so acolhidas por gente da alta sociedade, que as aperfeioa. - Ao primeiro e principal grupo pertencem, de entre os generos da lyrica provenal e francesa, a pastorela, o debate de mnor, a alba, a cano dramatica. Mas \Vechssler pra, chegado burguesia, e evita descer aos rusticos villes - lavradores, mesteiraes, pastores, pees etc., -como se a these que tenciona demonstrar, de a falta de illustrao intellectual d' esses humildes servos _qlebae adseriptos ser equivalente a uma absoluta incapacidade poetica, estivesse provada. Nem diz, qual a classe social que considera creadora primordial dos generos indicados e dos refrains; 1) nem to pouco qual das tres especies de poesia popular ou popularizada pertencem os exemplos que subsistem. E referindo-se apenas Frana e aos trovadores germanicos
1) provavel que a respeito dos primeiros pense na ordem dos cavalleiros e com relao aos refrains, na burguesia.
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deixa de expr como pensa applicar as suas theses poesia galaicoportuguesa, isto s singelissimas produces em dsticos de refram, com ou sem parallelismo parcial ou completo de duas variaes diversamente rimadas, que constituem bailadas, cantos de romaria, cantigas de villo e mais especies de poesias com personagens femininos, cultivads nas crtes de Portugal, Castella e Leon.
83. Edu a r d W e c h s sI e r, Einflsse der altfranxosischen Litteratur auf die altdeutsche (1891-1896) em Kritischer Jahresbericht ber
97. O professor Hanssen que j ouvimos ventilar queRtes de metrica portuguesa, dedicou um ligeiro esboo _: talvez uma conferencia - arte dos trovadores em geral, e em especial aos da pennsula, resumindo e combinando engenhosamente ideias expendidas por Diez, Storck, Lang, Jeanroy, G. Paris e Carolina M. de Vasconcellos.
84. Dr. Fr. Hanssen, Tfeber die portugiesischen Minnesiinger. paraso 1899, 8 pag. Vai-
Fiel s ideias sustentadas pelos precessores explica como a lyrica amorosa da idade media se manifestou no mundo romanico em tres formaes. diversas: como poesia popular; como arte palaciana ou cavalheiresca; e como genero erudito em linguagem latina, dos escolares goliardos (Carm-ina Bm-a-na). Os ultimos dois ramos derivam do primeiro, e este da poesia sacra da christandade, que se tornara verdadeiramente vulgar e internacional. O culto da Virgem influiu evidente e poderosamente no culto profano da mulher. O que d interesse e importancia arte palaciana dos gallegoportugueses - imitao da arte provenalesca, aguada a ponto de no enthusiasmar nenhum leitor moderno - o curiosssimo influxo, exercido quanto forma e ao esprito, pela preexistente lyrica popular, mesmo sobre as [Link] artsticas. Entre as duas categorias que preciso distinguir (canes de homens e cantigas de mulheres) a primeira tem cunho artstico. O auctor acredita no contacto d'ella com a poesia de amor dos arabes. Da segunda, uma parte consideravel tem feitio popular, e transformao litteraria de generos populares - littera'risch weite:rgebildete Volkspoesie- excepo feita de alguns cantares que talvez sejam verdadeiras poesias do povo -so weit sie nicht wirldich aus dem Volke stanzmen. Mas naquellas mesmo que foram construdas sobre modelos e em harmonia com a technica estrangeira, notam-se numerosos traos que so distinc
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tivos da musa popular. Os enxertos exoticos, inoculados em typos indigenas da flora nacional, murcharam rapidamente, emquanto que a planta-me continuou viosa e vive ainda hoje. Caracterizando-a, apresenta cinco amostras, colhidas no cancioneiro, em verso alleman. Rhytmicamente reflexos exactos, essas traduces ainda assim no reproduzem, como as adaptaes de Storck, o parallelismo das rimas. O tradnctor no designou os originaes. Reconheci comtudo os Nos 8S.f., 002, 797 e 81 do CV.
PARTE II.
INVESTIGAES A RESPEITO DO CODICE DA AJUDA.
l-Iistoria do Codice.
I. De 1800 a 1000.
99. Quando, no primeiro quartel do seculo que vae findar, varios academicos portugueses e alguns forasteiros illustres o examinaram, o truncadissimo codice encontrava-se na capital, num edificio que ia servindo de collegio aos moos nobres do reino, na Rua do Monte Olivete. Ahi teria provavelmente permanecido at essa escola, Real e privilegiada, ser abolida em 1837 {visto o governo constitucional a achar em desharmonia com a nova organizao politica), se Lord Stuart no tivesse chamado a atteno do munclo culto para to precioso monumento litterario, patenteando pelo mesmo acto o vergonhoso estado de ruina a que havia chegado. 100. Posto ao facto da existencia e valia superior do codice,
e dos perigos que o ameaavam, entregue como estava aos maus tratos de rapazes, e, no melhor caso, accessivel s com [Link] aos externos estudiosos, o governo resolveu transfer-lo para a Bibliotheca Real, installada a curta distancia de Lisboa, numa casa contigua ao pao da Ajuda. Costuma- se dizer que o volume entrou miquelle deposito pelos annos de 1825. O proprio Herculano assim o affirmou, 2) e as pala1) Passageiramente o codice foi tambem chamado Cancioneiro de Lisboa, por alguns informadores. 2) P. M. H.: Script. I, 140.- Cf. Th. Braga, Trovadores 86; Theoria, 3a ed. p. 196. 7*
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vras do mestre foram naturalmente acatadas e repetidas. Do recibo original que vi, passado por qnem ento regia a bibliotheca, resulta comtudo que a entrega se realizou muito mais tarde, no dia 5 de Maio de 1832. 1) Teremos de presumir que a execuo de ordens, dadas em 1825, soffreu demora ... como acontece s vezes neste pas ... e em outros? Decorrido um decennio, soube-se que em Evora se guardavam, na Bibliotheca Publica, onze folhas desmembradas do Cancioneiro.2) Requisitadas, foram, por imposio superior, entregues na livraria, a 27 de Junho de 1843, intervindo o Vedor da casa real, D. Manoel de Portugal e Castro. O officio do bibliothecario-mr de Evora que accompanhava a remessa, era dirigido a Herculano S), o qual, encarregado desde 1839 das colleces particulares dei rei D. Fernando, e juntamente dos livros da Ajuda, comeara a interessarse vivamente tanto pelo Nobiliario como pelo Cancioneiro, conforme j contei. 4)
101. Sentir viver os seculos XI a XIV, ouvir a anecdota cortesan de amor, de vingana ou de dissoluo, como a contavam escudeiros e pagens por salas d' armas, e as lendas que corriam de boca em boca, narradas pela velha cuvilheira, junto ao lar no inverno; assistir s faanhas dos cavalleiros em desagravo da propria honra, aos feitos de lealdade, s covardias dos fracos, s insolencias dos fortes, e emfim a grande parte da vida intima do solar do infan.o, do ricohomem e do pao real, que as chronicas vetustas raro nos revelam e que a historia (como o seculo XVI a reformou e puliu) achou indigna de occupar os seus periodos classicos, moldados pelos de Sallustio e de Tito Livio, tal foi, explicado
I) Foi o director da bibliotheca, Padre Jos Manuel Abreu de Lima, quem accusou a recepo do volume ao Reitor do Collegio dos Nobres, Jos Freire de Andrade. 2) Outro boato, relativo a folhas avulsas do codice, as quaes diziam andar em Coimbra entre mos de um particular, apaixonado colleccionador de antigualhas, no se condensou at agora em factos que fossem do dominio publico. 3) Entre os documentos que publico no fim d' este capitulo o leitor achar a carta deRivara. O original conserva-se na Bibl. da Ajuda. Parece que primeiramente houve o plano de depositar as folhas na Torre do Tombo; e tambem que o illustre eborense mostrou pouca vontade de se desprender d' aquellas _reliquias. - Cf. .Actas das Sesses da .Academia, 1849. No. 2, p. 53; e Panorama de 1842, p. 406. 4) Vid. Cap. I, 14.
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com as suas proprias palavras, o empenho de Herculano ao lr e relr as prosas e os versos medievaes do in-folio carcomido, vindo do Collegio dos Nobres. Alguns troos e duas cantigas inteiras do CA, engastadas no .1llon,qe de Cistr 1), do prova da curiosidade com que manuseou a parte lyrica. Quanto s prosas, embora naturalmente no as podesse aceitar como pura fonte historica, hauriu nellas uma infinidade de especies preciosas, conforme se pode verificar tanto na sua obra principal, como nos Opusculos, nas Narrativas e nos Romances. 2) Pena foi que os apographos italianos no se publicassem a tempo para os sirventeses moraes e historicos e os cantares de escarnho e maldizer lhe ministrarem quadros burlescos e tragicos, e illustraes incomparaveis da civilizao peninsular. S) Alm d' isso, Herculano entrou na conunisso encaiTegada de preparar criticamente a edio do CA. Depois, quando Varnhagen resolveu tomar sobre si este trabalho, tirou manu propria o trcslado das folhas ineditas eborenses, e discutiu com elle e outros, em cartas e verbalmente, na livraria e no seu gabinete particular, (centro do movimento litterario de ento) a questo da lingua e das origens. Foi ainda Herculano quem, no ultimo anno da sua vida, desde o seu eremiterio em V alie de Lobos, me facilitou o trabalho a que procedi. 4) Na sua propria morada, junto ~ibliotheca da Ajuda, que me cedeu gentilmente para todo o vero de 1877, que, mal chegada da Allemanha e ainda pouco acclimada nesta viosa terra gensor, 5) estudei as trovas contidas no pergaminho, juntamente com
1) Vid. C.l 2S3, 292 e 295. 2) No ser inutil lembrar que o Panorama onde appareceram os primeiros romances historicos do fundador, comeou a sahir em 1837. A edio primeira do Eurico de 1844-48. Um volum~ da Historia de Pmtugal appareceu em 1846; o 4 e ultimo de 1853. O corpo dos Monumentos historicos, principiando pelos Se1iptmes, foi dado ao prelo em 1855. 3) Convm allegar aqui a passagem em que chama o Livro das Linhagens muito mais historico que boa meia duzia d' escriptos dos nossos historiadores. Opusculos V, 123. 4) Apraz- me deixar consignada aqui a expresso do meu vivo mconhecimento e de verdadeira admirao pelo grande historiador, exactamente porque terei de regeitar e combater no decurso d' estes estudos, algumas das suas opinies sobre a lingna, a epoca, os auctores, e a importancia dos Cancioneiros. 5) Nos mais antigos poemas castelhanos encontram-se formulas, cheias de admirao pelas bellezas naturaes de Portugal. A que empreguei, ~n contra-se na Cronica timada v. 762. - Gmzsor comparativo provenal
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as do cancioneiro da V aticana, construindo os alicerces d' este lavor {maio a setembro).
102. Quando em 1890 l voltei, a fim de cotejaT novamente a minha restituio da copia diplomatica que tirara, - esta vez no proprio pao Real, para cujo rez de cho a livraria fora mudada havia um decennio - achei o volumoso codice no mesmo estado como em 1877. Notei porm, que a inscripo Rey D Denis, 1) traada com tinta no corte inferior das folhas, se havia tornado illegivel para c1uem no a conhecesse de antigo. 103. Posteriormente, o novo director da bibliotheca lembrouse de melhorar no que fosse possivel o tesouro por cuja conservao est obrigado a velar.- Tomei nesse ensejo (18D5) a liberdade de instar para que o deixassem intacto no triste staht quo historico em que nos foi legado, mandando apromptar apenas um involucro conveniente em que o custodiassem, porque, juntando as parcellas, substituindo a encadernao antiga por outra moderna, e cerceando as margens deterioradas, com suas notas manuscriptas apagavam os tenues mas ainda assim valiosos vestigios da historia externa do codice que hoje servem de guia ao investigador. Desfiz tambem a lenda das folhas baralhadas, creada por Varnhagen a bem do seu systema de interpretao, e dei explicaes minuciosas sobre a ordem original das folhas, incluindo as de Evora. 2) Pelo que sei, o diligente official Rodrigo Vicente de Almeida tomou a peito vigiar pela escrupulosa execuo de algumas das lembranas de quem entre os vivos, certamente, havia estudado com mais afinco e fervor esses singelos e desbotados cantares de amor dos trovadores portugueses. Ao recoser das folhas utilizaram p. ex. os furos antigos, conservaram as capas antigas, deixando a lombada descoberta. Mas, como julgaram necessario juntar as parcellas, tiveram de substituir os cordes primitivos, retalhados pelos saqueadores, por outros novos, de sorte que j no possivel reconhecer hoje os troos em que o volume andara dividido! 8)
de gents < genitus, no sentido de gentil.- No Livro do .Abbade D. Joo, que provalmente deriva de um cantar de gesta antigo, chamam tambem a Portugal em linguagem modernizada: tierra muy viosa. 1) Vid. Cap. I, 31 e 68. 2) Vid. Cap. I, 28. 3) Vid. Cap. III. - Na primavera do anno corrente (1901) verifiquei ser exacta esta descripo.
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104. De 1819 a 1849 e posteriormente tiraram-se algumas copias do codice. J fallei das que me so conhecidas: uma, destinada a Robert Southey, a qual hoje se guarda na bibliotheca regia de Berlim; a de Lord Stuart Rothesay, annunciada no Catalogo dos seus livros e vendida. em leilo, mas cuja paragem actual ignoro; outra, executada para o Morgado Matheus que actualmente propriedade de Th. Braga (segundo informao pessoal); mais uma que pertenceu casa de Villareal; 1) e ainda outra, em papel de linho filigrana, tirada pelo paleographo J. P. da Costa Bastos, a instancias da Academia das Sciencias, quando planeavam editar as Trovas, perto de 1870. 2)
II. Antes de 1800.
Do que me dado expr com relao historia do codice antes de 1800 entra em larga dose o elemente conjectural, sendo naturalmente mais vagas e controvertveis as hypotheses que se referem a tempos mais remotos. Caminhando lentamente, do conhecido ao desconhecido, <Oio que tentarei no me desnortear em absoluto.
105. O edificio onde o governo installara o Real Collegio dos Nobres, logo no acto da sua crea.o, em 1761, era o mesmo que durante longos annos havia servido de Seminario aos novios da Companhia de Jesus. A bibliotheca com que dotaram o novo estabelecimento,s) compunha-se [Link] de livros, encontrados no espolio dos Jesutas na sua recente expulso pelo ministro de D. Jos, e servira at, durante algum tempo, de deposito geral para todos os impressos e papeis seqestrados. Ignora-se todavia ignoro eu pelo menos - se foi no proprio seminario lisbonense, ou em qual outro dos numerosos institutos da Ordem, que o codice estivera arrecadado antes de 1759. S depois de achadas, na antiga e gloriosa cidade alemtejana, as onze folhas avulsas, que foi aventada a sospeita de o Cancioneiro todo ter vindo de ahi, ficando retidos como lembrana aquelles
1) Th. Braga, Theoria 3a. ed. p. 196.
2) Ha quem lho assigna a data de 1850.
3) Silvestre Ribeiro esbo~:ou a historia d' esse instituto. Segundo elle, a carta de lei, pela qual foi eteado, datada de 7 de Maro de 1761. A abertura solemne, porm , s teve logar ao cabo de cinco annos (maio de 1766). - Vid. Historia dos Estabelecimentos Scientificos I, 282; II, 97; III, 120; Y, 2-!2; VI, 25, 320 e 530.
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ominosos destroos. 1) Vejamos se ha indcios que indirectamente a tornem verosmil. Todos sabem que a residencia favorita do Cardeal-Infante D. Henrique, que regeu Evora duas vezes como Arcebispo (primeiro em 1540, e depois em 1575), fra no seculo XVI um centro notavel de estudos archeologicos e litterarios. 2) Sabios estrangeiros e nacionaes de alto conceito, como o humanista flamengo Nicolau Clenardo, Mestre Andr de Resende~ Joo Vaseu, Aires Barbosa, Jean Petit ( = Parvus) e muitos outros, ensinaram ahi linguas classicas, de 1533 em deante, no pao e em aulas propriamente suas, tendo por discipulos, juntamente com fidalgos e titulares, os filhos mais novos del rei D. 1\Ianoel. Alguns entre elles como o Infant~ D. Fernando (t 1534)8), esposo da riqussima herdeira da casa 1\Iarialva, 4) e o Duque de Aveiro, neto de D. Joo II, documentaram predileco pronunciada por sciencias, artes e assumptos de archeologia patria, mandando escrever tratados genealogicos, livros illuminados, e colleccionando moedas, inscripes , antigualhas etc~ 5) Esta actividade precedeu a anti-reforma jesutica e tridentina. Depois de o Cardeal- Infante ter meado o Collegio do Esprito Sancto (1551}, que a breve prazo se transformou em Universidade, Evora, patria de tres eruditos cujos nomes veremos intimamente ligados historia dos cancioneiros gallaico- portugueses - 1\Iestre Andr de Resende, Severim de Faria, e o licenciado Duarte Nunes de Leo - ficou sendo o arraial mais activo dos discpulos de Loyola. Juntaram-se ento no cartorio da nova Univer1) Th. Braga defendeu esta opinio na Theoria, 3"" ed. p. 193. Ahi affirma positivamente que o Cancioneiro se guardm esquecido no fundo da bibliotheca dos Jesuitas d' aquella cidade. 2) Continuou a s-lo nos seculos postetiores. Bastar lembrar aqui os nomes de Cenaculo, Conego Mira, Rivara, e Gabriel Pereira. 3) A actividade litteraria e artistica do Infante D. Fernando (protector de Damio de Goes) e do Cardeal-Infante D. Affonso (fautor de Francisco de Hollanda) merece atteno. Veja- se a este respeito a nova edio germano-lusitana dos Dialogos da Pintura, por Joaquim de Vasconcellos, Wien, 1899. 4) Mais tarde terei de referir-me a um Cancioneiro ~Marialva, propliedade do 4. Conde, D. Francisco Coutinho, . do sogro do Infante D. Fernando, o qual herdou os seus bens. - J o deixei mencionauo na nota relativa ao 74. 5) Vae apparecer brevemente a reproduco heliographica de preciosas Genealogias portuguesas, illuminadas pm mandado do Infante pelo artista flamengo Simo Beninc.
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sidade verdadeiras preciosidades litterarias (como o Esmmaldo de Duarte Pacheco, o Rotei1o de D. Joo de Castro, a Cosmog'rafia do mesmo) algumas das quaes haviam sido outr'ora propriedade dos Infantes manoelinos, D. Affonso, D. Fernando, D. Henrique e D. Luis 1) e foram pelos ultimos doados Ordem que protegiam. No admiraria portanto se tambem o Cancione-iro, sahindo das mos de um principe meticuloso, fosse aambarcado pelos zeladores da f, 2) espontaneamente ou porque a mesa censoria o tivesse declarado perigoso e digno de [Link] recluso, por cansa de certas heresias de amor dos velhos trovadores. 3) Neste caso s resta estranhar que os mais rnanuscriptos da mesma e de proveniencia diversa permanecessem em 1759 e ainda permaneam hoje em Evora, onde figuram na bibliotheca publica, sendo posteriormente requisitados por portaria especial a bem da Academia, quando um ou outro socio os desejava consultar, e que aparecesse em Lisboa unicamente o nosso Cancioneiro. Mas emfim, possivel que, sem previa reclamao, para ahi fosse, de mistura com os papeis da Companhia. Fao votos que se consiga documentar a veracidade da dupla supposio. Para tornar plausivel a sua primeira parte, bastaria a
1) Vid. Catalogo da Bibliotheca Eborense, passim. 2) Recordarei a grande e escrupulosa orthodoxia, documentada por escriptores portugueses, de 1560 em deante. Cingindo-se decima regra do catalogo tridentino, elles iam depr na mesa censoria manuscriptos que desejavam mostrar aos amigos, requerendo a nota: pode-se communicar; pode-se divulgar; pode correr. Pedro de Andrade Caminha, o correcto camareiro-mr do mais pio e devoto entre os netos de D. Manoel, apresentou os fascculos soltos do seu Cancioneiro de mo, medida que os ia compondo, a Frei Bartholomeu Ferreira. O doutor Francisco Lopes. medico da rainha D. Catharina, requereu o attestado de f e bons costumes para os seus Versos devotos en loor de la Virgen (1573); D. 1\Ianoel de Portugal, o servidor de D. Francisca de Arago, para um seu Tratado breve da orao; Francisco de Hollanda (1576) quando ia mandar a Madrid treslados dos escriptos sobre a Fabrica que fallece cidade de Lisboa e Da sciencia do desenho (1576). Mesmo a Infanta D. Catharina de Bragana no quis mostrar um seu Livro de Evangelhos a ninguem, sem elle fornecido da cbancella da Inquisio. - Vid. Sousa Viterbo, Frei Bartholomeu Ferreira, o primeiro censor dos Lusiadas, Lisboa 1891, p. 16, 55, 201; J. Priebsch, Poesias de P. Andrade Caminha, Halle, 1898, e um artigo meu na Revue Hispanique VII. 3) Conforme resulta dos captulos seguintes, a ideia de attribuir os crtes de paginas no volume da Ajuda, tesoura do censor. que teria aniquilado grosseiros cantos de escarnho e maldizer, no viavel. - Da hypothese, se essas satyras encheriam outro volume que foi destruido, no tenho de tratar por ora.
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prova que o Cancioneiro fra positivamente at 1550 propriedade de um dos Infantes da casa real. Pela minha parte, tambem no estou habilitada a fornec' -la. Posso assignalar todavia indcios de bastante peso, ignorados dos estuuiosos, e que demonstram pelo menos que houve 'realniente no sec. ""YVI, na cidade de Sertor-io, no o proprio CA , mas um ()ancionei~o ou partes de um Cancioneiro do tempo de D. Denis.
106. Eis o caso. Entre os papeis de um dos tres acreditados e eruditos quinhentistas que nomeei, mestre principal dos dictos Infantes e mais proceres do reino que desejavam humanizar-se, e collector indefesso de raridades, achou- se uma poesia trovadoresca, de cuja authenticidade impossvel duvidar, (quer fosse em folha original membranacea, quer em copia). E de outro seu patrcio, seiscentista, de igual nomeada, tanto por causa da sua sciencia e applicao como pela sua opulenta livraria de manuscriptos e incunabulos, se tem asseverado que teve em seu poder no uma unica poesia, mas nada menos que o livro inteiro e original das Cantigas do Cbnde D. Pedro de Ba'rcellos, o bastardo de D. Denis. Refiro- me aos j citados Andr de Resende, e ao conego e chantre Manoel Severim de Faria, homens ambos de saber realmente abalizado, escriptores scientificos dos melhores que o Portugal Antigo produziu, relacionados de mais a mais com eruditos nacionaes e estrangeiros e - importante salient' -lo - nada hostis companhia de Jesus. 1) De Duarte Nunes fallarei depois. 107. Severim, 2) o Argote de }lolina ou o Colocci de Portugal
(1583 -1655), a cuja doutrina recorriam todos os coevos quando precisavam de informaes historicas e litterarias, 3) era possuidor de
1) Resende deixou os seus livros de theologia aos Dominicanos de Evora, a cuja ordem pertencia, legando todavia varios volumes ao collegio de Jesus e mandando que o resto se vendesse em pr dos hereiros. 2) Severim que nascera em Lisboa, onde seu pae era executor-mr e escrivo da fazenda 1eal, passou ainda na meninice a Evora, para casa de seu tio Baltasar de Faria. 3) Vid. p. ex. Brando, ltfon. Lus., vol. II, 393v; vol. III, Prologo; vol. IV Prologo e Livro X c. 7; XI c.10 e 35 etc.; Brito, ltlon. Lus. VI c. 27; Faria e Sousa tanto nos Commentarios aos [Link]<5 e s Rimas de Cames, como no Nobilimio ed. Lavanha; Rodr. da Cunha, Catalogo dos Bispos de Lisboa e Cat. Bisp. do Porto; C. de Sousa, IIist. Gen. I, p. CI, No. 102; Barbosa Machado vol. III p. 369; Cardoso .Agiologio passim.
107 centenas de obras raras, espalhadas depois da sua morte. Boas partes foram transferidas capital, onde entraram, por compra, na bibliotheca dos Condes de Vimieiro, sendo reduzidas a cinzas no incendio subseqente ao terremoto de 17 55. 1) Felizmente no sem que o Conde de Ericeira tivesse elaborado (em 1 724) um catalogo selecto, 2) nem to pouco sem que outros auctores amigos como Brando, Faria e Sousa e Brito tivessem incidentalmente dado conta de uma e outra das preciosidades, explorando algumas. Nomearei apenas entre as obras por elles descriptas, uma Chronica Gotltmum, reimpressa por Brando 3), outra Chronica de D. Alfonso Henriques, 4) e um exemplar do Nobiliario do Conde, antigo e authentico, porque mostrava provir do espolio de um primo-coirmo do filho de D. Denis, o D. Prior de Alcobaa Garcia 1\Iendes. 5) Ambas tinham, de resto, sido propriedade e eram copias autographas de Andr de Resende. 6) Possuindo assim a prova de como algumas raridades da livraria d' este foram adquiridas, indirectamente embora, 7) pelo seu digno successor, teramos jus a suppr que tanto o Nobiliario como o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos - que o que mais nos importa - fossem da mesma proveniencia, se estivesse provado que estes existiram positivamente no museu de Severim.
I) Cf. Ineditos de Hist. Port. III. 389. - Subsistem todavia varios mss. autographos de Severim de Faria. Na Torre do Tombo e na Bibl. Nac. ha alguns com apontamentos genealogicos. Na Bibl. da Academia conserva- se uma Chronica Geral de Alfonso o Sabio que foi sua (vid. Bibliographia Critica p. 144). Caetano de Sousa possua mais de um livro de notas de Manoel de Severim e seu sobrinho Gaspar. (Hist. Gen. I, 383; Provas II, 352). Outros esto hoje na Bibliotheca de Evora. 2) .Acad. Hist., Coll. Doe. e [Link]., Anno 1724, Nos [Link] dar conta das investigaes feitas na livraria do 3 Conde de Vimieiro, D. Diogo de Faro (1705-1741), o illustre academico dizia: "compoem-se de 400 manuscritos e livros raros, a ma-ior pmte do erudito e illustre chantre de Evora [Link] de Severim de Faria. - Vejam-se especialmente os Nos 58, 76, 85, 90, 93, 94, 102, 154, 160. 3) Barbosa Machado III, 369. 4) Mon. Lus. XVII cap. 5 (p. 162 e 184). 5) .Appenso ao Livro XI da Mon. Lus. 6) Mon. Lus., vol. III, p. 271, onde Brando diz: o [exemplar daChron. G o t h.] que aqui vay impresso foy do [Link] Andr de Resende &; o tem em seu poder o Chantre de Evora, Manoel Severim de Faria. 7) Resende morreu em 1573. Severim nasceu em 1583. Mas seu tio Baltasar de Faria, em cuja casa foi criado, era colleccionador curioso, que pode ter adquirido volumes do humanista, quando o herdeiro vendeu as colleces historicas e archeologicas.
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Ha todavia um s auctor que assim o assevera. E este, muito tardio e muitas vezes incorrecto, d a noticia de forma to vaga que impossivel conceder-lhe credito, apesar da boa fama de que geza, e muito embora elle se tenha servido de varios autographos provenientes elo espolio de Severim e dos seus descendentes e agnatos. Ao esboar a vida do bastardo de D. Denis (em 1735), o laborioso auctor da Histmia Genealogica da casa 'real menciona o Cancioneiro como uma das joias conservadas da bibliotheca do primeiro e prestimoso biographo de Cames. 1) Para o provar remettenos a uma memoria de cousas raras que Severim possuia, sem declarao ulterior. l\Ias no ser essa memoria o relatorio academico do Conde de Ericeira? Penso assim por no conhecer mais nenhuma. E sou de opinio que Sousa confundiu as obras poeticas do trecentista Conde D. Pedro de Barcellos com as do quatrocentista Infante D. Pedro, 2) a quem o relator academico attribuia o Poema do lrlenosp1exo do J,[unrlo, ideado, como hoje se sabe, por seu filho, o Condestavel. S) Pelo menos, exactamente este cancioneiro que o chantre guardava, com effeito, no seu estudo como cousa summamente rara. 4) !Iludido, Caetano de Sousa illudiu-nos, sem querer.
108. Desvanecida esta esperana, viremo-nos para l\Iestre Andr. No seu bem fornecido gabinete resguardava-se a Chronica do J,Joum Rasis,5) um exemplar fidedigno do Limo de Linhagens que b~ pode ser o mesmo de Severim, e alm dos dois volumes j citados, que este douto adc1uiriu 6), uma folha, contendo uma poesia trovadoresca authentica. a teno entre D. Affonso Sanches, filho predilecto do Rei Trovador, e um seu vassallo, chamado D. Vasco Martins na propria poesia indigitada, - poesia em que este com suave ingenuidade na expresso dos seus afectos
1) Hist. Gen. I, 265. Depois de fallar do testamento do Conde e do Cancioneiro accrescenta: o Chantre M. S. de F. em hu:ma memoria de cousas raras, que tinlta, fax meno de ter o dito livro. 2) Esta confuso de resto vulgar, como a do Condestavel com seu pae, o Regente. 3) Vid. C. M. de Vasconcellos, Uma Obra Inedita do Condestavel de Portugal, Madrid 1899. 4) Vid. a Conferencia de 23 de Ag. de 1724, onde o Conde de Ericeira communica pormenores (No. XXIII, p. 7) sobre a primeira e rarssima edio do Poema, attribuido erroneamente ao Infante D. Pedro, sendo elle obra de seu filho. 5) Vid. Antiguidades de Evora, cap. XI e XIII. 6) Cf. p. 106 Nota 1.
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e com depurado idealismo, analogo ao de Petrarca, trova por uma morta, prototypo de perleies. 1) Digo que authentica por ser a propria que conhecemos pelo CV, onde occupa o 27 logar, e figura ainda no CB. 2) Tiro a importante noticia, nunca divulgada, 3) de uma miscellanea manuscripta do sec. XVII. Hoje em posse da bibliotheca municipal d' esta cidade, 4) procede das colleces de um desembargador e bibliophilo portuense, Christvam Alo de Moraes (t 1693). O treslado - unico de uma trova do sec. XIV que descobri 5) muito razoavel. Encimado do titulo: Trovas de D. A Sanches filho del Rei D. Dionix a Vasco M1~. de Resende e resposta do mesmo, vae accompanhado da nota: Ach1ose ent1e os papeis do g1ande Mest1e And1 de Resende e estavo postas em solfa. Quatro factos importantes so nos ahi revelados: 1) a existencia de um cancioneiro, (respectivamente de partes de um cancioneiro, ou mesmo de uma folha de um cancioneiro) na posse de Resende; 2) andar esta parte accompanhada de notao musical, o que a ditferena dos cancioneiros conhecidos; 3) haver nella indicaes assaz exactas sobre os auctores; 4} a identidade do camarada do bastardo regio com um ascendente do prestante antiquario eborense. Mesmo se por acaso esta identidade de D. Vasco Martins como bisdono de Mestre Andr fosse illusoria -. o que no creio ficava estabelecido que um quinhentista nacional conheceu versos authenticos de trovadores patrios, em bom estado de conservao. Curioso, e decisivo, no verdade? Mas de onde obteve Mestre Andr esse papel? Teria realmente ao seu dispr um cancioneiro inteiro, pertencente aos Infantes seus discpulos? Ou tratarse-hia apenas de uma folha, avulsa de ab-initio? Um dos rot~os
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1) D' estes termos se serviu Menendez y Pelayo. - Antologia III, [Link]. 2) No. 416 do ms-pae. 3) Sobre ella versa a minha Randglosse XV, redigida ha bastante tempo, mas que no vir luz, na Zeitsch1i{t e em Separata, supponho eu, anteriormente a este estudo. 4) Signada: MS. 419 (No. 72 do fundo .Axevedo). 5) Ouvi dizer que o meu amigo Dr. Jos Leite de Vasconcellos descobriu, mcentemente, em uma sua viagem a Madrid, o treslado de uma poesia [Link]- portuguesa. No o querendo privar do gosto de publicar a sua talvez valiosa descoberta, deixei de o interrogar, ignorando por isso, se se trata da mesma teno, ou de outra composio differente.
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ongmaes de pergaminho que foram evidentemente as fontes das compilaes? Talvez uma reliquia de familia (familia em que a paixo das antigualhas era hereditaria) passada de pae a filho, desde que, antes de 1329, o quarto-av de Mestre Andr a comps?l) Esta explicao parece plausivel, se considerarmos de um lado que nenhum dos cancioneiros subsistintes tem notao musical, nem to pouco indicao do nome completo D. Vasco Martins de Resende; 2) e do outro lado que nem Resende, nem Sevelim, nem amigo algum dos que exploraram os livros dos dois eruditos, chegou a conhecer, de facto ou de fama, mais obras ou mais nomes de trovadores antigos que no sejam D. Denis, o Conde de Barcellos, D. Affonso Sanches e exactamente este D. Vasco Martins de Resende. Ao tratar das relaes entre o pergaminho e os apographos italianos e os mais cancioneiros de que temos noticia, terei de voltar ao assumpto, examinando ento novamente a que Cancioneiro a folha de Resende pode ter pertencido. Aqui baste estabelecer que em caso algum esse cancioneiro era o da Ajuda. O valioso indicio que primeira vista parecia fallar, de modo irrespondvel, a favor da existencia do nosso codice membranaceo em Evora, annulla-a afinal. Mesmo nas partes que hoje lhe faltam e podemos reconstituir com alguma segurana, a teno de Affonso Sanches e Vasco Martins no tinha cabimento - e se coubesse, ... era sem nomes, sem rubrica e sem musica!
109. Resta portanto em p, alm das consideraes geraes, apenas a descoberta das onze folhas avulsas. E quanto a estas, o acto vandalico de as cortarem com muitas outras que ainda no tornaram a apparecer, tanto pode ter sido praticado entre 1759 e 1819 no Collegio dos Nobres - indo as folhas, em seguida, da capital para Evora- como antes de 1759, num qualquer seminario da companhia de Jesus. A mocidade sempre a mesma, c e l. O 'resultado negativo a que chegamos at aqui : no constar onde o CA se guardou antes de 1759, sendo prova'L'el estivesse em qualquer casa de educao da Ordem.
1) O leitor encontra a genealogia dos Resendes, e mais pormenores sobre o caso, no estudo a que me referi na nota 3 da pagina anterior. Aqui baste assentar que numa Carta a Jorge Coelho, o antiquario falia dos seus ascendentes, e menciona Vasco Martins, mas sem nada dizer da sua veia poetica. 2) Est claro que no nego a existencia de um Cancioneiro completo, com notao musical e nomes de auctor.
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III. De lOO a 1600.
110. Passo a ventilar a questo da existencia do CA. em Roma em tempo de D. Joo ID. A ideia de uma transferencia directa e violenta do codice, da Italia para Portugal, foi lanada pelo illustre Monaci, e repetida por seus discpulos. Tendendo a crr que o volume de trovas, avistado por Duarte Nunes de Leo, no o que hoje subsiste na bibliotheca do Vaticano, nem o do Conde Brancuti, nem to pouco o ms. pae de que Angelo Colocci extrahiu o Indice e que por ventura ainda se occulte em qualquer livraria italiana, Monaci, Lollis e Mario Pelaez opinam, pelo contrario, que elle foi roubado (Tubato) por occasio do saque de Roma, e levado (levato) pennsula por qualquer antiquaria! .. verdade que no apontam claramente para o CA. Mas como na pennsula no se conhece outro codice, foroso 1) interpretar d' esse modo a proposio: Che meraviglia se qualche tempo dopo quell' anno (1527j Nunes de Leo avesse veduto proprio in Portogallo il canxonieTe que em Roma se achou? Ben poteva avedo po'rtato col un antiquaria di JJfadrid. 2) De Resende nada dizem, por ignorar a noticia que revelei. Alias, teria surgido talvez a hypothese que este antiquario, relacionado com Italianos como Antonio Pucci, Cardeal de Santiquattro e com Portugueses que haviam residido longamente em Roma, como D. Miguel da Silva e Pero de Mascarenhas, fra remettedor, portador, ou ladro do presumido texto. Hypothese que considero inadmissvel. Resende, embora passasse por Bologna em 1533, no consta estivesse nas margens do Tibre. E a sua vida, escripta por um seu coevo e conterraneo, 3) bem conhecida. Alm d' isso, se Resende, Mascarenhas, o cardeal D. Miguel da Silva, Gaspar Barreiros, Goes, Hollanda, ou algum outro ignoto [Link] que esteve na Italia, tivesse documentado a Slk'l. paixo por essas antigualhas de poesia patria, adquirindo-as~ fosse de que modo fosse, tal acontecimento, exactamente no tempo da reforma de S de
1) Se tal no for a \deia dos tres italianos, ento pensaram em um Cancioneiro s de D. Denis que, surgindo em Roma e de ahi levado para a peninsula, se sumiu sem deixar rasto, depois de ter sido avistado por Duarte Nunes. 2) De Madrid, porque o saque no foi obra de portugueses. 3) O conego de Evora, e continuador das .Antiguidades, Diogo Mendes de Vasconcellos (1523-1599). Nas cartas e obras de Resende que encerram freqentes alluses a acontecimentos pessoaes, no ha referencia alguma a Roma.
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1\Iiranda, que iniciou a idade aurea da litteratura, teria naturalmente levantado brado, perdurando o seu eco at hoje, como perdura o de outros acontecimentos parecidos.
110. Partindo d' esta supposio estenderei a vista, procura de vestgios dos cancioneiros - avanando desde a data da decantada noticia de Duarte Nunes de Leo at 1759, para em seguida recuar em direco inversa. Dando por ordem chronologica a lista dos nacionaes que fallaram de qualquer forma de vates da primeira poca da lyrica peninsular, e tresladando os seus dictos, creio agradar ao leitor, que estimar conhecer cedo este material comprovativo, complemento necessario da resenha bibliographica do Capitulo I. Duarte Nunes de Leo 1) fallou do cancioneiro do monarca no s no trecho (3) que costume allegar, mas em quattro obras diversas. Primeiro: num pamphleto de critica historica, publicado no anno 1585, juntamente com uma segunda parte pragmatica, que a que nos interessa:
D u ardi No n i i L e o n is jmisconsulti lusitani Censu1m in libellum de regum Portugalim origine qui fratres Josephi Teixerm nomine circumfetur, 2) et De vera Regum Portugali(lJ Genealogia, ad seren:issimum principem Albertum archiducem Austrice S. R. E. Cardinalcm.
A f. 14 8) (f. 163 da impresso de 1791; ou f. 1260, 39 do vol. II da Hispania Illustrata) lemos o seguinte:
Fuit Dionysius rex humanissimus, amoenissimi ingenii, et a litteranun studs non abhorrens eo rudi saeculo. Poetices autem studium maxime dilexit et fere primus in Portugalia carmina lingua vulgari scripsit, nata non ita pridcm huiusmodi poesi versuum similiter cadentium apud Siculos e quibus ad Lemovices Arvernos et Provinciales et inde ad !talos et Hispanos eibanavit. 4) Extant lwdie eius carmina varia mensura tam de pro1) Cf. 20, 52.
2) Cf. Grundriss Ilb, 168, nota 3 e 186, nota 4. - Sousa Viterbo deu, no ja citado estudo sobre a actividade inquisitorial de Frei Ba rtho lo meu Ferreira (Lisboa 1891), pormenores curiosos a 1espeito do opusculo, em que o futuro chronista com bateu como defensor dos direitos de Felipe II de Portugal, as doutrinas do petulante e atrabiliario frade portugfies, o qual, como partidario do Prior do Crato, havia publicado em Paris um escripto tendencioso e inexacto sobre os dynastas portugueses. 3) A 1" parte tem 64 folhas, numeradas sob1e si; a ~.. , 49. - Um exemplar, existente na Torre do Tombo, pertenceu outrora Casa de S. Vicente. 4) Ao designar a antiga poesia provenalesca da Italia como escola siciliana, Dumte Nunes lembrava-se provavelmente das opinies dantescas,
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{anis amoribus quam de laudibus beatissimae Yirginis Deiparae ex quibus apparet imitatum fuisse Lemovices et .Arvernos poetas. 2. Idem, Genealogia verdadera de los Reyes de Portugal con sus elogios y summario de sus vidas, Lisboa 1590.
A. f. 24v d' esta rara vulgarizao do tratado latino, cujo auctor, j ento do Desembargo de sua Magestade, a dedicava ao serenissimo Prncipe dellas Espanas don Philippe Nuestro Seiwr, lemos:
Fue el Rey Don Dionis humanissimo, y de jngenio ledo y ameQo, y muy afficionado ai estudio de las letras. Sobre todo se dio mucho a la poesia, y quasi fue de los primeros que en lengua vulgar escrivieron metros, baviendo poco que se usava aquella manera de componer por consonantes acerca de los Sicilianos, donde vino a los Lemosines, Alvernos y Provenales, y de ahi a los Italianos y [Link]. Y aun oy se_ hallan muchos sonettos1) suyos de varia medida, assi de amores y cosas profanas, como de loores dela Virgen Nuestra Seiora: en que se vee luego que imit a los Poetas Lemosines y .Alvernos.
3. Idem, Chronica dos Reys de Portugal, 1600, vol. II, 76; ou f. 113v da edio de 1677: Sobre estas grandes vertndes tinha el rey D. Diniz outra, pela qual era dos seus muy amado, que foi ser muy humano e conversavel sem perder nada da sua majestade, e grande poeta, e. quasi o primeiro que na lingna portugueza sabemos escreveo versos, o que elle e os d' aquelle tempo comearam a fazer imitao dos Arvernos et Proyenaes, segundo vimos per hum Cancioneiro seu que em Roma se achou em tempo del rey D. Joam III. et per outro quest na Tmre do Tombo, de louvores da Virgem lllaria Nossa Senhora. 4. Idem, Origem e Ortlwgraphia da Lngua Portuguesa, 1606.- Vid. cap. 6; p. 21 da ed. de 1866: 2) As lingoas de Galliza e Portugal ambas eram antigamente quasi hiia mesma nas palavras e nos diphtongos e pronunciao que as outras partes de Hespanha no tem. Da qual lingoa Gallega a Portuguesa se aventajou tanto quanto na copia e na elegancia della vemos. O que se causou por em Portugal h~ver Reis e corte que he a officina onde os vocabulos se f01jo e pulem e donde mano pera os outros homens, o que nunqua houve em Galliza. Era a lingoa Portugueza na saida daquelle captiveiro dos Mouros mui rude e mui cmt.a e falta de palavras e cousas por o misero estado em
e petrarquescas, sustentadas por Colocci, Bembo e seus successores. Escuso expr aqui, quo vagas e inexactas eram essas noes de uma irradiao da poesia lyrica, da Siclia para a Provena, e d' ahi para a Italia continental e para a pennsula iberica. Mas devo frisar o facto que o sabio legista enalteceu mais de uma vez o elegante secretario de Leo X, p. ex. na sua Orthographia, p. 100. 1) Sonetos, no sentido provenal e francs de son = melodia, W eis e; e no no posterior sentido derivado, universalizado pelos Italianos. Vid. Grundriss na, p. 76 e 88. 2) Copio o trecho inteiro para o leitor formar ideia da san e sensata doutrina de Duarte Nunes de Leo.
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que a terra estivera: o que lhe conveo tomar de outras gentes como fez. Polo que sua meninice foi no tempo dei Roi dom Afonso VI de Castella e no do Conde dom Henrique at o del Rei dom Dinis de Portugal que teve alga policia e foi o primeiro que pos as leis em ordem e mandou fazer copilao dellas e compos muitas cousas em metro aa imitao dos Poetas Provenaes, como se melhorou a lingoa castelhana em tempo del Rei dom Affonso o sabio seu av que mandou screver a Chronica Geral de Hespanha e copilar as Sete Partidas das leis de Castella, obra grave e mui honrada postoque rude nas palavras etc. 5. Pedro de Mariz, Dialogos de Varia Historia, 1594.- Vid. p. 128 da edio 1672: E para que em tudo fosse perfeito no lhe faltou um amenissimo ingenho muito atraioado a letras e sciencias, das quaes, exercitando-se muito na poesia, foy havido naquelle tempo por excellente poeta e o primeiro que em Hespanha e na vulgar lingoa portuguex compox versos e rhimas, como se v em alguns poemas que em louvor de Nossa Senltora ainda hoje permanecem. 6. Frei Bernardo de Brido, Elogios dos Reys, 1603.- Vid. p. 33: Teve muito conhecimento de lingoas e lia com muita considerao os poeta~ latinos como aquelle que tinha inclinao poesia, em que fez grandes obras pello tempo adiante. 7. Padre Antonio de VascQncellos, .Anacephalaeoses, 1621. - Vid. vol. I, 7; p. 127 da edio 1793: 1) Peregrinum sermonem ita avide arripuit ut externos libros summa cum voluptate lectitaret; Latinre poeseos (!) adeo studiosus ut propensionem a natura ipsa congenitam facile inspiceres quam mira arte et industria cum excolumit, nihil ex iis, qure poetm omnibus numeris absolvunt, in summo Rege desideratum est. Lusitanas porro Musas illo tempore rudes et 'incultas ab agresti inconcinnitate ad floridos ac lepidos rythmos vendicare tentabit, 2) neque coeptis ingenium abfuit, _aut eventus: plura edidit limatiori stylo perpolita, qme tum Regiam eruditionem attestarentur, tum posteris ad remulandum forent incitamento; hac tamen nobis obliviosa praripuit vetustas. 8) 8. Manoel de Faria e Sousa, Epitome de las Historias Portuguesas, 1628.- Livro IV, cap. 18, III; isto : Vol. I, p. 69 e 109 dn ed. 1674:
I) Nesta altura podiam entrar os castelhanos com algumas repeties. Citarei apenas o Phenix dos ingenios que affirmou no Guante de D. Blanca, Jornada ll, ,que es el rey Dionis - el primeto- que en Espana - en lengua propria hixo versos" e o extravagante auctor do Panegirico de la Poesia, 1627. Depois de fallar do Sabio de Castella, apresenta o seguinte amalgama: D. .Alonso Enriquex, Conde de Coimbra, y primero Rey de Portugal, eleto por un Crucifixo, fue muy gran poeta del uso de aquel tiempo, (I) y el Rey D. Dionis de la mistna suerte, y eran las copias como las de Egas Munix que se hallaran en el archivo del Duque de Betgana. (!) 2) Cf. p. 125, Nota 1. 3) Parece que em 1621 j no se encontravam accessiveis na Torre do Tombo, nem os cancioneiros alfonsinos nem o cancioneiro de D. Denis,
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Era inclinado a la Poesia. En Espaiia i aun en Italia por ventura fueron primeros sus versos a imitacion de los ProYenales i Alvernos. Permanecen sus obras ..
Na lista dos Poetas surge: El Rei D. Dionis 7 (Poesia) e D. Pedrv Infante 7 hijo del Rei Don Dionis (Genealogias).
9'. Idem, Eu1opa Portuguesa, impressa decennios depois da morte doauctor (fali. 1649); o tomo I em 1667 e novamente 1678; tomo II em 1679; tomo III em 1680.- Vid. vol. II, p.145 e vol. III, p. 354 e 360~ Como tomava ora la espada, ora la pluma, assi docto en esta como valeroso en aquella, hizo de la ciudad de Coimbra una nueva Atenas con florente academia, ilustrada de varones clarissimos en todas faculdades, conduzidas a su corte de varias partes. A imitacion desta tuvieron principioalgunas. Bien se dexa ver que no tenia poco conocimiento de las letras quien assi las favorecia. Fue versado en differentes lenguas y era inclinado a la poesia. En Espaiia y aun en Italia por ventura fueron prime1os sus versos a imitacion de los Provenales y Alvernos. Permanecen obras suyas. Un libro deltas se hall en Roma reynando Juan III; otro permanece en la Torre del Tombo o .Archivo Real de Lisboa.
E novamente na lista dos poetas: Afonso Sanchez (Poesia); Rey D. Dionix, (Poesia); 1) D. Pedro Infante 7 hijo del Rei Dom Dionix., (Genealogias); Vasco Martins de Resende7 El Rey D. Pedro 7 (Poesias); D. Pedro Infante, (Poesias).
10. Dr. Joo Soares de Brito, Theatrum Lusitania.- Ms. de 1635 s. v. Dionysius: Scripsit aliquot poemata et in suo revo venustissima et elegantssima qureque e primis apud Hispanos editis enumerantur. 11. Rodrigo Mendes da Silva, Catalogo Real de Espana, 1637, s. v. D. Diniz: Este rey compuso los primeros versos en lengua portuguesa. 12. Frei Francisco Brando, Monarchia Lusitana, Parte V, 1650. - Vid. Livro XVI, cap. 3: Do que elle aproveitou nos estudos no se alcano outros vestgios mais que algiias poesias a que se inclinou com maior affecto; e alem de outras he de maior estima hum cancioneiro que escreveo em louvor de Nossa Senhora, melhorando neste assumpto o talento que em outros empregos tinha divertido. Pode sem falta ter competencia com o cancioneiro de Nossa Senhora, composto por el rey D. Alfonso o Sabio, o qual se guarda na livraria do Escurial. O Conde D. Pedro de Barcellos que escreveo o livro das linhagens, no testamento que fez, enterrando-se no nosso mosteiro de S. Joo de Tarouca, entre outras mandas deixa o seu livro das cantigas a el rey de Castella que ento era D. Affonso XI seu sobrinho pelos annos 1350. Estas canes presumem alguns que devio ser delrey apesar das affirmaes, naturalmente derivadas, de Faria e Sousa e Francisco da Fonseca. Note-se que Pedro de Mariz no os menciona. 1) No Commentario ao Canto III 97 dos Lusiadas (1639) encontro uma phrase, relativa a D. Denis: fue sciente, elegante e poeta. Nada mais. 8*
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D. Denis seu pay, mas tenho por mais certo serem do mesmo conde. Por respeito do nosso Rey D. Dinis se presume que introduziro em Castella -escrever os versos em lingoa portugueza; o discreto proceder que os Castelhanos viro neste Prindpe nas occnrrentes em que tocou aquelle reyno, soccorrendo-o, guerreando-o e pacificando-o, e a generosa liberalidade com -que soube grangear as vontades de todos, acompanhada da chanesa e cortesia com que encobria toda a sagacidade, serio a causa de se lhe sogeitarem a -esta imitao.(!) O certo he que durou o uso das copias portuguezas em astella at o tempo de Henrique III, segundo escreve Argote de Molina.t)
13) D. Francisco Manoel de Mello, Obras J.;Jetricas, 1665. - Vid. vol. I, Dedicatoria: Dei seiior D. Dinis se lee que fue poeta celebre en sus tiempos. 14. Francisco da Fonseca, Evora Gloriosa, 1728. - Vid. p. 43: s musas e as lettras que andavo como fugitivas e desterradas da Lusitania levantou regio domicilio e sumptuoso palacio nas frescas margens do Mondego, fundando a universidade de Coimbra e foy o primeiro que em aquellas reaes mos com que empunhava o cetro, tomou a penna para .authorizar as musas. 15; Caetano de Sousa, Historia Genealogica da Casa Real, [Link]. vol. I, p. 196: . Foy dignissimo da coroa, ditoso, valeroso, entendido, de animo grande, liberal, amigo da verdade e da justia, favorecedor das sciencias e das boas lettras, a que teve natural propenso, o que lhe facilitava o sublime do seu -engenho, especialmente na poesia em que compos com primor, sendo naquelle tempo excellente poeta; e foy o primeiro que em Hespanha e na lngua portugueza compoz versos em rimas, e nella fez traduzir alguns livros. No reynado del Rey D. Joo III appareeeo em Roma hum livro de obras suas; no .Archivo Real da Torre do Tombo se conservava outro em que oom singular estylo e methodo tratou dos officios principaes da milcia e de outras muitas cousas pertencentes a ella. 2) 16. Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, 1731-1759. - Vid. vol. I, p. 627: Cultivou desde os primeiros annos com tanta afluencia a poesia vulgar -que nelle foy natureza e no a arte os versos que compoz, sendo o primeiro que em Hespanha imitao dos poetas provenaes metrificou em rimas, deixando para immortal documento do familiar commercio que sempre ~onservara com as musas, assim sagradas como profanas, [1 um] Cancioneiro -de N. S. de cuja obra fazem memoria Duarte Nunes de Leo ... e Brando [2 um] Cancioneiro de varias obras o qual appareceo em Roma quando reynava em Portugal D. Joo III, como affirmo os dous referidos authores nos lugares allegados. 17. Francisco de Pina e Mello, Triumpho da Religio, Coimbra 1756. - Vid. Prologo p. III: 1) Vid. Nobl . .And. II, cap. 145. 2) Sousa allega Mariz e Brando; e menciona com relao ao ignoto tratado de milicia, a um certo Dr. Pedro Barbosa que escrevera em 1626; .ajunta todavia que no achou noticia do opusculo no Archivo Nacional.
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Em toda a Hespanha o primeiro que conheceu a Poesia foi o noss& Rei D. Diniz. Hoje existe na livraria do Escurial hum livro de versos seus. que elle mandou a seu av D. Alfonso X de Castella a quem chamaro o Sabio. 1) Seu filho o Infante D. Pedro, Conde de Barcellos, a quem deve tanto a Nobreza de Portugal pelas suas genealogias, deixou em testamento outro livro tambem de versos a seu sobrinho D. Affonso XI. Seu neto o Rei D. Pedro I foi tambem Poeta. Do Infante D. Pedro, filho do Rei D. Joo L se acho alguns versos em louvor da cidade de Lisboa.
111. Dezasete trechos de uma boa duzia de escriptores afamados! 2) Mas no fundo um s. Todos formulam os seus dizeres categoricamente como que fossem resultantes de investigaes pessoaes. Mas todos repetem apenas, na parte relativa -a D. DenisJ textualmente, ou condensando-as, ou paraphraseando-as com alguma liberdade, as affirmaes do que primeiramente enalteceu, em prosa chan e com conhecimento de causa, os meritos do rei trovador. Verdade que Pina e Mello propagou uma novidade: a existencia do cancioneiro dionysio no Escorial, em meados do sec. XVIII; respectivamente: a sua transferencia de Portugal para Hespanha. 3} Mas ns estamos no nosso direito se posermos de remissa a observao do gongorico poeta, 4) presumindo que baralhou inconscientemente as noticias de Duarte Nunes sobre o cancioneiro sacro do [Link] com as de Brando, relativas s Cantigas de S. Maria de Alfonso X - uma vez que entre os eruditos que catalogaram os tesouros guardados na livraria de S. Loureno 5) no ha quem mencione obra alguma de D. Denis. 6) Faria e Sousa, Brito, Brando e Barbosa Machado, esses, juntaram de facto aos dizeres de Duarte Nunes certas informaes sobre dois ou tres poetas da epoca trovadoresca. Todavia no as hauriram em bancioneiros. Suas fontes eram evidentemente o testamento do
1) Quando o av morreu, o neto contava vinte e tres annos. 2) No Cap. V seguem mais algumas passagens relativas ao Conde de Barcellos. . 3) Th. Braga acha plausvel a hypothese da transferencia de volumes dionysios ao Escorial, em tempo e por ordem de Felipe IL - Vid. Historia da Universidade I, 208. 4) Do seu problematico saber em assumptos litterarios d ideia a sentena que segue immediata s que copiei. E diz: Os poetas mais antigos de Castella so Fernando del Pulgar e Joo de Mena. 5j Nem Bayer, nem o investigador moderno Hermano Knust; nem to pouco o portuglies Monsenhor Ferreira Gordo, o qual procurava systematicamente e ex officio manuscriptos em lngua patria. 6) Pelo que sei, Pina e Mello vivia quasi enclausurado, ora em Coimbra, ora em Montemr, e nunca foi a Madrid.
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Conde de Barcellos com a manda do seu Livro das Cantigas, descoberto pelos auctores da J[onarchia Lusitana, e a Teno de D. Affonso Sanches e Vasco Martins , achada no espolio de Resende, -e communicada por ventura por Severim ao seu laboriosissimo .amigo Faria e Sousa. 1) Esses dois accrescentos, com mais outro postio, 2) longe de in-validarem, confirmam portanto a these que afra Duarte Nunes, nenhum dos historiadores citados viu o cancioneiro profano, nem to pouco o sacro com louvores Virgem. 8) Se, sciente da actividade poetica do rei de Portugal, de seus bastardos e do senhor de Resende, nem mesmo um curioso e incansavel manuseador e excerptador de manuscriptos poeticos e genealogicos como Faria e Sousa- um dos primeiros que planearam uma historia da litteratura portuguesa 4) e a quem de mais a mais nem falta a circumstancia de ter visitado Roma 5) - chegou a conhecer os volumes mencionados pelo seu coevo 6), esses tesouros estavam realmente bem escondidos, totalmente inaccessiveis, talqual o CV, desde que entrara perto de 1600 na bibliotheca do Vaticano, e o CA, desde que a nimia escrupulosidade de alguns crentes o havia entregue aos censores de Lisboa ou de Evora, como nos convm postular.
1) Duarte Nunes, que no se occupava de litteraturas, podia ignorar essas noticias. 2) Barbosa Machado I, 52 considera Affonso IV de Portugal como trovador, estribando- se em dictos de Frei Bernardo de Brito que no me foi dado apurar. Mas a assero, parta de quem partir, no tem fundamento solido. Creio at que ella deriva exclusivamente dos Sonetos de .Amadis em linguagem antiga, dos quaes logo terei de dizer alguma cousa. 3) Verdade, verdade: tambem nenhum d' elles affirma t-los visto. 4) Alm das magras listas de auctores, insertas no Epitome e na Europa, o polygrapho deixou inedito um Catalogo de los Escritores Portugueses, muito copioso, pois constava de 823 verbetes, ~egundo Barbosa Machado, por cujas mos passou o original. 5) De 1632 a 34. 6) O grande e legitimo enthusiasmo, manifestado por Faria e Sousa ao descobrir no Livro de Linhagens (c. 1646) os nomes descarnados de meiaduzia de antigos trovadores, prova evidencia que nunca vira, nem fallou com quem tivera entre mos demoradamente qualquer exemplar de um cancioneiro geral gallai:co-portugus. - Apesar de muito lido e instruido, o editor das Rimas de Cames sabia, de resto, pouco ou nada, dos cimelios da lyrica moderna. Ao fallar dos Provenaes cita alguns nomes, deturpandoos, e de modo to vago que bem se conhece foram colhidos em fontes derivadas e pouco puras. - Vid. p. ex. Rimas de Cames I, c. 139.
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112. Duarte Nunes de Leo . pois o unico referente cujos informes merecem exame. E exame attento~ visto que, sendo no s contemporaneo de Resende e Severim (um pouco mais novo que o primeiro, e um pouco mais velho que o segundo) mas tambem conterraneo d' elles, e douto e honesto como ambos, tanto a hypothese de este Eborense tr visto depois de 1557, em Portugal na bibliotheca de qualquer dos dois mestres, o codice roubado, como a outra de elle o ter levado de Roma a Evora, no seria aventurada em demasia, com tanto que constasse a sua viagem, ou sendo provada pelo menos a possibilidade de tal viagem. Note-se o modo como falia do cancioneiro que em Roma se achou, pondo em contraste esse que surgira ao longe, no estrangeiro, e fra avistado decennios antes (entre 1527 e 57), talvez de relance, com o outro sacro que st na Torre do Tombo (1600). Isso e a referencia, embora vaga, a outros poetas d' aquelle tempo, representados no mesmo volume, e ao caracter dos versos de D. Denis que encerrava: carmina de profanis amoribus, exactamente como as canes e os cantares de D. Denis no cancioneiro do Vaticano e no do Conde Brancuti, torna possvel que elle se referisse a um dos dois apographos utilizados por Angelo Colocci, vindos positivamente a lume emquanto reinava D. Joo III, quer fosse em vida do grande humanista que os salvara (entre 1509 e 1549), quer depois do seu fallecimento (entre 1549 e 1557); ou ento aos occultos ongmaes. Quanto ao resto, Duarte Nunes assegura formalmente na alludida proposio que tivera ensejo de olhar para as laudas do notavel monumento - hum cancioneiro seu que vimos 1) - mas no affirma que isso se deu em Roma, no prazo indicado, como entenderam alguns crticos, suscitando assim, da parte de outros, duvidas na veracidade do auctor e na possibilidade de tal viagem sua. A este respeito tenho a dizer que tal scepticismo seguramente injustificado. 2) Duarte Nunes de Leo morreu tarde, em 1608. Temos porm a prova de que alcan~ara idade muito provecta.
1) Aos meticulosos dou parte que Duarte Nunes falla geralmente no plural majestatico. Eis um exemplo, tirado do Prologo das Ohronicas: E para que nos no attribuam a arrogancia contarmos o nosso por verdadeiro, deixando o antigo esquecido, referiremos primeiro o que 'reprovamos ... despois contaremos o que damos por verdadeiro. 2) Seria facil organizar uma lista de homens notaveis do tempo de D. Joo III cuja vida se prolongou at 1600 e tantos. Baste o nome do poeta-fidalgo D. Manoel de Portugal, nascido cerca de 1525 e fallecido em 1006.
120 Gil Nunes de Leo, seu sobrinho, a cujas diligencias se deve a publicao posthuma (1610) de uma das melhores obras do actiYo jurisconsulto, falia da sua longa senilidade, cheia de achaques. 1) Dando luz em 1606 a sua Origem da lingua portuguesa, o auctor narra como alguns seus invidos antagonistas haviam, interesseiros, propagado o boato da sua morte, 2) illudindo o monarca que o protegi~. 8) Ha mais porm: o proprio Duarte que, de resto, por conveniencia ou graas ao stoicismo judaico, nunca se queixava das suas doenas, trabalhando indefesso at aos altimos arrancos, j se havia chamado velho, trinta e dois annos antes. 4 ) Desde 1560, a mais tardar, o licenciado 5) occupava em Lisboa, no supremo tribunal,
1) Vid. Descripo do Reino de Portugal, com Dedicatoria a D. Diogo da Sylva e Prologo ao Lector. - Nest' ultimo l-se que as obras que deixou seriam , sem duvida em tudo mais perfectas, se as occupaes quotidianas que teve alguns annos com o desembargo da ca.<:a da Supplicao lhe no tomaram muito tempo, e a senilidade que passou toda quasi chea de infirrnidades lhe no impedira poer nellas a ultima mo" 2) Vid. a Dedicatoria ao Invictissimo e Catholico Rei Dom Philippe II de Portugal que accompanha o trabalho indicado, e especialmente a phrase: e porque homens invidos e contrarios ao bem commum me fiuro morto ante V~ Jl,f. com maa teno, procurando goxar de meus suores e aproveitarem-se de meu silencio, eu o romperei, com novas obras que cedo sahiro a lux etc. - Ao compor a Descripo, o auctor achava-se recolhido na villa de Alverca por causa do mal de que nos Deos livre, que ento houve neste 1eino. Pode ser que essa villeggiatma, prolongada, (at 1606?) provocasse os boatos. 3) Acerrimo defensor do direito dos Felipes, Duarte Nunes fora protegido e occupado pelo primeiro do nome, desdo tempo que a este rno veo at que Deos o levou ao ceo. No tempo do segundo, a mingua d' esse favor fez diminuir a sua alacridade. 4) Na Orthographia da Lingoa Portuguesa, offerecida em 1576 ao Regedor das Justias Loureno da Silva, o auctor, contando que a obm fra composta na sua mocidade, diz textualmente: ,Polo que vendo eu em minha mocidade o descuido e falta dos homens de Hespanha em seu escrever, e a diligencia que alguns estrangeiros nisto mostrro em suas lingoas, com o desejo que sempre tive de illustrar as cousas da nao portuguesa tentei ensinar a meus naturaes o que eu de outrem no pude apprender. E em alguns dias feriados e ocio ... 1eduzi a regras e preceptos a Orthographia de nossa linguagem. Mas porque nestes tempos a mais certa paga destas empresas ingratido e murmuraes, e a novidade d' esta inveno necessariamente havia de ter muitos contradictores, 1eceei na mocidade o que me agora V~ S. obriga faxer na minha velhice etc. De passagem direi que segundo el rei D. Duarte, a velhice se contava dos 50 a 70; a senectude at 80; e d' alli at o fim da vida s havia decrepitude. 5) Como Resende, Duarte Nunes usou sempre do titulo de Licenciado. Seu sobrinho ttata-o repetidas vezes de Dr., cingindo-se ao uso vulgar, que no gosta dos meios-termos.
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logar conspcuo, 1) gozando da confiana do supremo Regedor das Justias, 2 ) que o encarregou de importantes trabalhos officiaes. Mas j ento guardava do seu tempo de estudante outras tentativas que no manifestava, com receio que os zoilos dirigissem ao legista, hostilmente, o proloquio ne sutor '[Link] crepidarn. B) sua estreia de 1560 fez seguir outras obras de jnrisprudencia em 1564, 1566, 1568-1569, e, s depois de ver solidamente fundado o seu credito, lanou em 1576, 1585, 150, 1600 e 1606 (e 1610) memorias \ e estudos lingisticos e historicos. 4) Como n illo ternpore se estudava devagar, comeando- se por via de regra aos vinte, e acabando-se pouco antes dos trinta5) licito collocar o nascimento de Duarte Nunes perto de 1530 e ~o perto de 1540, como costume 6), mesmo dando por averiguado o facto muito pouco provavel que o habil licenciado encontrasse logo proteco sufficiente para ser aggregado em Lisboa Casa da Supplicao. 7)
1) Procurador na crte e na casa da supplicao. Em 1590 era do Desembargo del Rei, ignoro desde quando. 2) Francisco Coutinho, Conde de Redondo, de 1557 a 1561 (cf. Inn. da Silva, Dicc. Bibl. II, 210 e Couto, Decada VII, 10, 1), e posteriormente Loureno da Silva. Cf. Reflexes Historicas II, 124-130; Zeitschrift VIII, 12, e Revista de Guimares XIV, p. 69. 3) Vid. o trecho copiado mais acima a pag. 120, Nota 4. Em 1606 chamava minha verde idade o tempo em que composera a Orthographia. 4) 1560. Repertorio dos cinco livros das Ordenaes (cf. Barb. Mach. e Innocencio II, 210). 1564. ArUgos das Sisas. Cf. De sI andes~ Documentos para a Historia da Typographia II, 27 s. 1566. Livro das Estravogantes, I a colleco nunca impressa. Cf. J. P. Ribeiro, Reflexes Historieas II, 124 ss. 1568-69. Leis Estravagantes, 2a colleco (cf. Deslandes II, 27 s.). 1576. Ortlwgrapht. 1585. Censurae e Genealog'ia (cf. Sousa Viterbo L c.). 1590. Genealogia (trad.) 1600. Chronicas. 1606. 01igem da lingua. 1610. Descripam de Portugal. 5) Antonio Ferreira, nascido em 1528, acabou os seus estudos em 1555. Tendo-se conseguido fixar datas seguras a respeito do auctor dos Poemas Lusitanos e deBernardimRibeiro, no. ser imposivel apur-las tambern para o nosso desembargador. S de llfiranda nascido cerca de 1485, era doutor em 1516. 6) No Grundriss II b, 168, Nota 3 ainda segui a opinio commum. 7) Ferreira que tinha a proteco dos Duques de Aveiro, foi chamado a Lisboa cm 1567, aos 39. Os dez annos de estudante, mencionados com respeito ao supposto auctor da Celestina, no so to anormaes como os modernos julgam.
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Da circumstancia de elle fallar da sua Orthographia como de um tratado sem precedentes, ignorando ou fingindo ignorar completamente as grammaticas de Ferno d' Oliveira (1536) e Joo de Barros (1539 e 40), no devemos tirar a illao de o suppr litterariamente activo em 1535. Nem merecem registadas, visto andarem faltas de documentao, as minhas suspeitas sobre se Nunes de Leo, ortu judao, de urna familia que teve de soffrer crudelissimas perseguies 1), seria um dos Duartes, encarregados pelos seus antigos correligionarios de misses secretas a favor da gente da nao junto curia romana, e que apparecem envoltos em mysterios nas eartas do Corpo Diplomatico. 2) Contento-me com o resultado que a ida Italia antes de 1557, da parte de quem em 1560 era um homem feito - talvez depois de ter concludo os actos em Coimbra e antes de se estabelecer na capital - no materialmente impossivel. 8) Era mesmo vulgar entre os quinhentistas4) portugueses que aos estudos de direito canonico e civil juntavam pretenses a humanistas de elegante estylo classico. 5)
113. Da vinda de preciosidades de Roma a Portugal em tempo de Hespanhoes e de Franceses no duvido. Pelo contrario,
1) Quem apupou o douto desembargador por causa da sua origem foi o frade dominicano Jos Teixeira, cujas doutrinas politicas e bistoricas combatera. Na replica Confutatio nugarum Duarti Nonii Leonis (1594), dirigida ao censor da inquisio Frei Bartholomeu Ferreira, ha vilissimas e violentssimas objurgatorias: Seitis quceso, Dom. Inq. - lhe diz - [Link] historico tanta provincia commissa sit? homini iterum, iterum, iterumque dico infami, ortu Judao; ea propter ad omnes gradus, honores, dignitates, et prcerogativas in Reip. Portugallensi, per patrias leges penitus inhabili: cujus mater ob fidei catholicce perfidiam si non igne combusta, igni dnata fuit; ejusque avos, agnatos, patrueles, consobrinos et affines ob ipsummet errorem cremari perpetuoque carceri mancipari vidimus. Quorum effigies lwdierna die extant Ulyssippone in templo monasterii nostri divi DorrtiniC'i, Ord. Prced., quasque nos scepe aspeximus. - Cf. Sousa Vite1bo na obra. acima citada p. 101. 2) Entre esses Duartes ha um christo-novo_, antesemita, ao servio de D. Joo III, que bem conhecido, e outros cuja identidade no est fixada. - (Duarte da Paz.) 3) De pouco vale assentarmos que Duarte Nunes mostra conhecimentos razoaveis de ]ingua italiana nos seus opusculos grammaticaes. 4) Francisco de Hollanda l foi como artista, aos vinte annos (1537); S de Miranda, como poeta, bastante tarde, aos trinta e tantos (1521); Damio de Goes igualmente, como humanista. Cf. Cap. V. 5) Todos os portugueses que foram a Roma depois de 1513 aproximaram-se de Sadoleto e Bembo, os mais elegantes latinistas d' aquelle tempo.
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sei de uma, embora de caracter nada litterario: o brao de S. Sebastio que um devoto se lembrou de roubar em :Milo e de levar ao Emperador, o qual o deu de presente a D. Joo III,- desacato pio, cantado por S de Miranda e Luis de Cames, depois de o Papa o tr sanccionado. 1) De manuscriptos portugueses, trazidos por antiquarios, no ha memoria. Posso apontar apenas uma impresso, offertada pelo Cardeal Sadoleto a um embaixador portugus que a admirara, cheio de cobia desculpavel. E essa ficou registada, com gratido pela gentileza do prelado. 2) Se Duarte Nunes soubesse algo de positivo sobre a deslocao do codice, por acquisio legitima ou illegitima, o consciensioso escriptor, cuja critica em geral bastante esclarecida 8), teria, penso, escolhido mais adequado modo de dizer. Eis os motivos porque at aqui no posso advogar a ideia que o muito problematico cancioneiro original, to imperfeitamente explorado por Andr de Resende, viesse de fra parte por interveno de Duarte Nunes. 4) Nem to pouco dou seguimento conjectura de Monaci, se bem que o estylo-renascena da encadernao do pergaminho da Ajuda e a inscripo Rey D Denis, no corte das folhas, a apoia apparentemente. . Entre as duas possibilidades: achado do CA em Roma por volta de 1527 e transferencia do mesmo para Portugal, onde Duarte Nunes o viu, julgando encarar um Cancioneiro de Dom Denis, ou assistencia do historiador e-m Roma, onde teve opportunidade de folhear, no espolio de Colocci, o CY e CB, ou no de Bem bo outro
1) Cf. S de Miranda, Poesias 148, 100 ss. - Zeitschrift VIII, 8-10 e Francisco de Hollanda, Dialogos da Pintura, ed. 1899 p. LVIII. 2) Gaspar Barreiros recebeu um exemplar do Discurso De Obedientia, de Garcia de Menezes, o qual foi 1eimpresso juntamente com a sua Choro-
graphia.
S) Isso no quer dizer que no haja muita inadvertencia nas obras de Duarte Nunes. A este respeito vid. Mem. Litt. I, 294. - Mesmo na attribuio do Cancione'iro da. Virgem a D. Denis bem possivel que se enganasse. 4) A vida de Duarte Nunes est por escrever. Nicolas Antonio e Barbosa Machado sabiam apenas que, oriundo de Evora, e filho do medico Joo Nunez, elle vivera e morrera em Lisboa como desembargador. Nem mesmo est apurado, se aquelle Ferno Nunes de Leon, que deu ou mostrou em Evora perto de 1540 a Joo Vaseu uma velha Chronica dos Reis de Castella, era seu parente (irmo? e pae de Gil Nunes?). - Cf. Vaseo, Chronicas, ed. Salamanca 1552 cap. IV, No. 25, ou Hispania lllustrata I, 580. - No Instituto XI, p. 165 ss. ha materiaes para a vida do historiador.
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terceiro manuscripto com versos do rei e os d' aquelle tempo, s a segunda parece- me viavel.
114. Consultemos agora os auctores que antes de 1585 souberam do talento poetico de D. Denis ou da poca provenalesca em geral. costume apontar tres alluses nos versos lyi'icos dos quinhentistas Miranda, Cames e Ferreira. D' esta parqussima lista talvez convenha riscar o primeiro nome. O grande homem e introductor do dolce stil nuovo enalteceu varias vezes o rei-lavrador e a sua politica, 1) e conhecia os provenaes 2) como modelos e inspiradores de Dante e Petrarca e toda a lyrica moderna; mas nunca se refere expressamente a trovas dionysias. 8) Tambem o cantor dos Lusadas citado com bem pouca razo. Sem mencionar cantares da lavra regia, falia da proteco dispensada pelo monarca s sciencias, mas tambem s artes, nos conhecidos versos da sua epopeia:
{ex primeiro em Coimbra exercitar- se o valeroso officio de Minerva, e de Helicona as musas {ex passar- se a pisar do .J.l!ondego a fertil her1:a. (Lus. III, 17.)
Portanto teve alguma noo das poesias dionysias, embora no saibamos at onde chegou. Com o Dr. Antonio Ferreira o caso outro. Este grande patriota e cultor desvelado da lngua materna, quasi o unico que a empregou propositadamente, com excluso inteira da falia castelhana, o primeiro tambem que dramatizou um dos mais romanticos episodios da historia
1) Vid. Poesias, 104, 181; 108, 249. 2) A fabula da Chuva de Maio (103, 261) pode ser fosse imitada directamente de. Peire Cardinal. 3) Miranda diz, depois de se referir quella gente, de que o Petrarca {ex to 1ico ordume: Eu digo os Pro1Jenaes, de que ao presente inda rythmos ouvimos, que entoaram as musas delicadas brandamente (109, 161 ss). Em tempos referi estas palavras a versos de um cancioneiro galla!coportugus, cujo estylo provenalesco o refonnador teria reconhecido. Abandono agora, hesitando, esta interpretao; mas no sei se ser melhor a que ponho no seu logar. Porque, se entendeu caracterizar toda a lyrica artistica dos povos romanicos como eco da arte dos trovadores, s pode ter colhido esta justa comprehenso na Italia, em trato com humanistas como Bembo e Colocci. Cf. mais acima p.l12 Nota 4. E neste caso, difficil admittir que os dois no conferissem com o douto parente de Vittoria Colonna cerca das reliquias portuguesas que possuiam - nota- bene, se j as possuiam no 3 decennio do sec. XVI, como a lettra parece indicar.
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nacional, sabia positivamente da obra poetica de D. Denis. E tentou caracteriz-lo no s como trovador mas talvez at como protector da poesia popular. Temos na Carta X os proloquios:
da patria pae, da sua lingua amigo, das nossas musa.<J rusticas amparo. 1 )
E se ainda assim, para no incorrer na fama de leviana e phantasiosa, quero taxar mesmo esses assertos de extremamente vagos, concedendo que podiam muito bem ser colhidos em tradies registadas pelos primeiros chronistas do reino - p. ex. naquella historia hoje perdida de Fernam Lopes, a qual conhecemos pelas refundies de Ruy de Pina e Duarte Nunes de Leo 2) - l esto os dois Sonetos de Ferreira na antiga lingoa portuguesa, ou a fallarmos com Miguel Leite Ferreira seu filho, que os publicou em 1598, ,na linguagem que se costumava neste reino no tempo del rei Dom Denix." S) Esses sonetos, mal lidos, mal impressos, mal interpretados, censurados por uns com azedume como contrafaces fraudulentas la Chatterton, fmjadas com o intuito de reclamar ou usurpar injustamente em nome de Portugal, o direito de posse ao romance de Amadis, attribuiclos por alguns a Affonso IV de Portugal e por outros ao vencido de Alfarrobeira, so, a meu vr, innocentes devaneios ou exercicios uteis de quem estudava com afinco e intelligencia tanto a lingua como a arte metrica dos velhos portugueses. Todos os vocabulos dos Sonetos so authenticos e bem escolhidos2 como o leitor poder verificar, procurando no Glossario
1) possvel que rusticas no tenha outro sentido que rudes et incultas no trecho do Pad1o Antonio de Vasconcellos. 2) Se no os derivo da Carta-Proemio do Marqus de Santilhana porque no encontrei signal de que alguem em Portugal ou HespanLa a conhecesse antes de Argote de Molina. Da bibliotheca do Condestavel, onde certamente figurava, como introduco do Cancioneiro que recebera a pedido do Regente, nada voltou a Portugal. Cf. mais abaixo algumas Notas do Cap. V. 3) Vid. Randglosse XXXI.- Neste logar recordarei unicamente que o primeiro Soneto (Livro I No. 34), ideado em nome do Infante D. Affonso, e dirigido a Vasco de Lobeira, supposto auctor do .Amadis, se refere ao episodio de Briolanja (Montalvo I, c. 40). O segundo (li, 35) um joguete anacreontico entre Amor e a mesma Briolanja, com reminiscencias do Trionfo della Castit de Petrarca (146).
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atan-ca-des-i- ende-endado -er- falir- {ilhar- fremoso -ledice -madre-mente-pran-quedar-'ren-vendita etc. So legitimas as formas grammaticaes avedes- seredes - cambhade - sa. Abstrahindo da forma estrophica e metrica (14 hendecasyllabos maneira italiana, i. com acento nas syllabas 2. 6. 10, 1) descontando a falta graphica de til na palavra endado, e o anachronismo de o poeta empregar formas contrahidas como rindo sestra sia vendo por riindo seestra siia veend.o 2) mais vezes do que era uso nos sec. XIII e XIV, um philologo moderno no faria melhor. S)
Algumas particularidades na metrificao geral de Ferreira, a qual merec~ um estudo especial, - o contraste entre um abuso excessivo do hiato e o extremo opposto, i. a mistura de hendecasyllabos pobrissimos, repletos de hiatos no estylo de D. Denis, como p. ex.
moveste me a alma e os olhos
ou
gloriosos [e]spritos coroados
talvez se expliquem pela occupao temporaria de Ferreira com os textos archaicos de algum cancioneiro de D. Denis.
1) Mesmo em Portugal sabe-se boje que no foram os provenaes quem fixou a forma do soneto, mas os toscanos Dante da Majano (c. 1290) e Paulo Lanfranc de Pistoja. 2) Essas formas abreviadas ja existiam em tempo de D. Denis, e anteriormente, mas ainda occorriam 'raras vezes. 3) Muito menos bem sucedidos so os dois sonetos, insertos nas obras de Cames, em que se pretende imitar o gallego vulgar de 1550. Dos apocryphos fabricados entre 1580 e 1640 no fallo seno para emittir a opinio que, se historiadores artistas to malleaveis como Brito, auctor do Segundo Orisfal (e do Romance dos Figueiredos?) e Faria e Sousa, refundidor das Rimas de Cames, tivessem tido vista poesias legitimas portuguesas, sempre teriam composto contrafaces superiores s inqualificaveis Cartas de lt'gas Monix, nas quaes ha de lingisticamente authentico pouco mais do que a palavra moiro e (talvez!) o corpo d' oiro. Rythmicamente, cousa algun1a. Encontrando na Torre do Tombo, ou alhures, os cancioneiros [Link], no os publicariam, de certo, numa epoca em que tanta obra classica se conservava inedita, e em que a posse de um cancioneiro de mo era considerado como titulo de nobreza; mas cedendo sua expansibilidade innata teriam apregoado aos quatro ventos a gloriosa descoberta, intercalando qualquer amostra nas suas publicaes - em logar ou ao lado das reliquias apocryphas.
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Temos de pergunt-lo novamente. O occulto e problematico original, patente a Resende, o qual, absorvido pelos seus estudos de historia e archeologia e empregando o romanQ patrio s por excepo, desprezava no fundo a poesia vulgar e utilizou o peregrino manuscripto apenas para dar vaso a sua vaidaclezinha pessoal , mostrando um seu ascendente em relaes intimas com um infante? O codice achado em Roma antes de 1557 e avistado algures por Duarte Nunes? Ou, porventura entre mos do Duque de Aveiro, os fragmentos do CA que ainda hoje subsistem? Voto d' esta vez decididamente por este tiltimo, bem se v, sem com isso negar que Ferreira soubesse tambem do talento poetico do rei-trovador pelas novas vindas de longe. 1) Eis em que me estribo, infelizmente com pouca firmeza. Entre as numerosas notas marginaes do CA, no ha uma unica italiana. Todas esto em portugus. Uma, que acompanha o nosso No. 130 uma curiosa tentativa, de resto mal sucedida, de transpr em decasyllabos maneira provenal, ou seja em hendecasyllabos segundo a maneira italiana, alguns dos archaicos, asperos e rebeldes versos de nove syllabas. E a letra, de meados do sec. XVI, apresenta semelhanas que cautela chamarei ligeiras com a do Dr. Ferreira. Esta observao, casualmente feita, foi-me communicada, com as reservas que todas as comparaes graphicas exigem, por um illustre paleographo lisbonense, o qual nada sabia das minhas combinaes, nem as podia adivinhar. Em seguida verifiquei a semelhana, - vista de uma carta photographada de Ferreira que o mesmo amigo das lettras, o Ex mo Snr general Brito Rebello, me franqueou.
116. M:as vamos vante. Essa nota manuscripta, mesmo se no fosse de Ferreira, documentava algum trato de pelo menos um quinhentista portugus com o Cancioneiro da Ajuda e portanto a assistencia do volume neste reino no sec. XVI, que o que urgia estabelecer. E no s no sec. XVI. A sua permanencia em Portugal tambem nos seculos XV e XIV attestada de modo identico por uma longa serie de notas, lanadas margem, umas no seculo manoelino,
1) Feneira no esteve em Roma e morreu antes de Duarte Nunes ter publicado a sua Genealogia. Mas de 1567 a 69, durante a sua curta actividade em Lisboa como desembargador da Casa do Civel, deve ter estado em relaes com seu collega da Casa da Supplicao.
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outras no joannino, e algumas ainda durante os derradeiros reinados da primeira dynastia, sendo chronologicamente a ultima aquella que eu desejaria attribuir ao auctor dos Sonetos de Amadis e da Castm. Tendo de occupar-me das notas marginaes no capitulo seguinte, chamarei aqui a atteno apenas para uma do sec. XV que diz com referencia nossa cantiga 232, do trovador Joo de Guilhade: deste aprendeo Joam de ]Jfena. Quem entre os portugueses reconheceu primeiramente a valia superior do poeta das Trezentas foi o vencido de Alfarrobeira. De regresso da sua excurso pelas quattro partidas do mundo, depois de estacionar em Paris, Oxford, Londres e Flandres, na crte do emperador Segismundo, no seu marquesado de Treviso, em Veneza, Padua, Roma, em Arago e Castella, o Infante D. Pedro comeou a viajar (de ~428 a 1438) pelas remotas paragens do pensamento (no dizer do seu mais artistico biographo), redigindo tratados de ph!losophia moral, traduzindo latinos, classicos e medievaes, a pedido do irmo, e poetando de vez em quando. Chegou ento, depois de 1428, a inteirar-se das reformas de l\Iena e a trocar versos com esse subtil poeta aulico de D. Juan II. Smia curioso, se o exame comparativo das notas alludidas e dos autographos do Regente, que devem subsistir tanto na Torre do Tombo como no Archivo de Coimbra, levasse a reconhecer aquellas como suas - obra port:[Link] do principe portugus que, sollicitando do Marqus de Santilhana copia de seus versos, promoveu a Cwrta-Proem-io em que ficaram enunciadas as mais antigas noticias de um cancioneiro dionysio. 1) - Curioso, se o auctor fosse o proprio Condestavel, a quem o douto castelhano fallou com tanta insistencia na lyrica gallaico-portuguesa, e em especial das invenes subtis e das graciosas e doces palavras de D. Denis, se~1 antepassado. Curioso e importante, como o achado da teno de Resende. Mas, infelizmente, d' esta vez, no havendo eu tido opportuniclade de realizar o confronto das lettras, trata-se de meras hypotheses, que nada obriga a aceitar, visto que a admirao pelos poemas de Juan de Mena perdurou durante todo o seculo XV, 2) e que a nota est redigida de forma tal que ainda hoje e sempre poderia ser
1) Cf. Cap. V, 3. 2) Ou mesmo at 1550, como resulta das obras de Barros, Jorge Ferreira de Vasconcellos, S de Miranda e outros seus coe vos.
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lanada. Nada ... a no ser a considerao que obra to rara e palaciana como o Cancioneiro devia forosamente fazer parte de uma bibliotheca regia, ou principesca.
117. Na livraria do Condestavel, cujo catalogo possuimos e consultei, na esperana de ahi descobrir reliquias da primeira epoca, no havia cancioneiros antigos. Do Regente, seu pae, apenas sei que, alm de alguns volumes com as suas armas, que passaram para a colleco do filho, teve em seu poder e leu o poema epico de Affonso Giraldes sobre a batalha do Salado, isto uma obra do sec. XIV que faltava, parece, na livraria propriamente regia de D. Duarte. 1) Nessa (augmentada mais tarde consideravelmente pelo successor, mas no sentido classico), que um e outro teriam tido ensejo de lr trovas gallaico-portuguesas, e onde devemos procurar, entre os tesouros legados pela primeira dynastia, um cancioneiro como o da Ajuda. O catalogo dos livros de uso do primogenito do Mestre de Avis e de D. Felipa de Lencastre subsiste feliz~nente. De passagem seja dicto que tambem essa preciosidade foi parar, na era dos Jesuitas, com muitos originaes de D. Duarte, num estabelecimento religioso de Evora. 2) Por elle vemos que o prudente e douto monarca, apologista das boas e sdias leituras, 3) e no menos fervoroso
1) Eis o remate de uma carta sua, de felicitaes a seu irmo D. Duarte, escripta em 1433: E porm, Senhor, vs trabalhay quanto podenles como as primicias de tosso [Link] sejam praxiveis a Deus e p1oveosas a vossos sogeitos, e [como] crecendo em melhor por muitos annos, acabeis em seu serm~o e leixeis vossos reynos ao lfante meu senhor e vosso filho em aquelle ponto que Alfonso Gyraldes escreve que o deixou el Rey D. Denis ao seu. 2) O catalogo fazia parte de uma compilao de obras miudas do reinante, doada em 1508, com muitos oub-os volumes, ao boje extincto mosteiro da Cartuxa pelo seu fundador, o arcebispo de Evora D. Theotonio de Bragana (1530-1602), um dos primeiros que em Pm-tugal haviam vestido a roupeta da Companhia. - Aproveitado primeiramente por Joo Franco Baneto, ao colligir memorias para a sua Bibliotheca Portuguesa, foi varias vezes copiado no sec. XVIII. O conde de Ericeira communicou um traslado a Caetano de Sousa. Este imprimiu- o na Hist. Gen., Provas I, 529- 548. Cf. Silvestre Ribeiro, Estabelecimentos Scientificos I, 38; Panorama IV, 6 e XI 315; Pinheiro Chaga8, Historia de Portugal li, 161; Th. Braga, Introduco, 203 - 262 e Historia da Universidade I, 204 ss. ; Gabriel Pereira, Documentos historicos Eborenses, No. 23, p. 30-40. - Alm d' isso correm varios transumptos antigos e modernos, um dos quaes possuo. 3) Veja- se o prologo do Leal Conselheiro, esse ABC da lealdade, escripto a requerimento de sua mulher. Alm de oubas cousas sensatas, 9
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instigador de traduces do que o fra um seculo antes D. Denis, seu tresav, juntou a par de s vinte obras em latim, sessenta e quatro em vernaculo, ou de Zingoagem, como ento se dezia. Entre ellas ba tres cancioneiros portugueses, chamados Zivro. das trovas, maneira antiga: O Livro das Trovas deZ Rey Dom Dinis (No. 38), O Livro das 'ProvM deZ Rey Dom Affonso (No. 63), encadernado em como, o qual compilou F. de Montemr o Novo. O Livro das TrovM deZ Rcy (No. 78).
de crr que a casa reinante possuisse exemplares das obras escriptas por ascendentes seus. Seria de estranhar se no tivessem tido ao seu dispr pelo menos as de D. Denis e as gallego- portuguesas de Alfonso o Sabio.. Ainda assim, arriscado querer adivinhar o que significam indicaes to vagas e incompletas. l\Iesmo o titulo Livro das Trovas dei Rey Dom Denis, que primeira vista parece claro, pode suscitar duvidas. muito provavel fosse um cancioneiro individual e avulso do monarca-trovador, independente das compilaes em que foi includo: isto , o original sumptuoso que se guardra na crte desde o dia em que fra executado, herana portanto de D. Joo I, 1) que o achara na recamara regia de D. Fernando, no sendo provavel que o bastardo o herdasse directamente do amante apaixonado de D. Ins de Castro. Mas tambem no impossvel fosse uma miscellanea (como o CA, CV, CD e o Cancioneiro do marqus de Santilhana), a qual recebera o titulo, do poeta que nella mais se salientava, ou a mandara colligir.
O segundo passa por ser o cancioneiro sagrado do Sabio de Castella. 2) J'.Ias a omisso da alcunha distinctiva, j consagrada
attesta que o leer dos bons livros ... fax acrecentar o saber e virtudes ... ; do simprex fax sabedor, do que bem nom vive, temperado e virtuoso. 1) Th. Braga~ Hist. Universidade I, 208 (cf. 220) affirma que esse codice era com certeza proveniente da herana de seu pae: ,deposito precioso que andava na casa real". provavel que assim seja. Devo observar todavia que no pertence ao numero dos codices que no catalogo de D. Duarte so designados como sabidos da livraria de D. Joo I. Notas sobre essa proveniencia acompanham apenas um Livro de Cetrar-ia que foi del Rey D. Jotio (No. 58); outro de Agricultura que foi del Rey D. Joo (No. 60); e indiiectamente o Livro de .llfonteria que copou o victorioso Rey D. Joo ao qual Deos de eternal gloria (No. 32). 2) Vid. Th. Braga, Introduco, p. 244; id. Hist. Universidade, p. 224, e Grundriss, p. 244, nota 7; assim como o Cap. IV d' este livro.
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de havia muito; 1) o titulo Livro das trovas que no era muito adequado ao assumpto sacro, e mais ainda o facto singular de a compilao ser attribuida a um portugus de Montemor, sabendo ns que o proprio Alfonso X fizera escrever, em varios exemplares, as Cantigas de S. Maria, faz surgir duvidas graves. Quem nos diz que o volume, mandado antes de 1284, Rainha de Portugal, 2) sua filha, ou a seu neto e admirador, no andava na capella, entre os objectos do culto? 8) Quem sabe ao certo que o Affonso do titulo realmente o Sabio, e no o Bolonhs que, vista do Cancioneiro sacro, ou por outros impulsos se lembrou de mandar colligir os versos profanos dos seus cortesos, nucleo de todas as colleces posteriores, como mais tarde demonstrarei? 4) E o terceiro Livro, chamado das Trovas del Rei, sem mais nada? Se o nome falta por lapso, corno restitu-lo? E no faltando, tratando-se do que vivia e cujos codices se catalogavam, que especie de livro era ento esse cancioneiro de D. Duarte, perdido sem deixar mais vestigios? O rei era, de facto, escriptor. D' elle existem mesmo uns versos. Mas esses versos 5), emphaticamente proclamados uma poesia espiritual digna do i'rmo do Pritwipe na f constante, 6) so mera traduco de uma reza latina, e foram redigidos com um fim practico, para exemplificao das theorias regias sobre a util arte de tornar em lingoagem. Como toda a inclyta gerao, D. Duarte tinha pendor pronunciado s para as prosas eruditas. Quasi todos os seus escriptos subsistem. Mas entre elles no ha mais nenhuma
1) Vid. Cronica de .Alfonso XI, cap. LII. - D. Duarte no Leal Conselheiro (cap. XXVII) d -lhe o sobrenome de Estrologo. 2) Vid. Cap. III, p. 154, Nota 154. 3) Na recamara do Condestavel, os objectos do culto andavam nas mesmas arcas onde se arrecadavam os livros de estudo. Mas na crte bem ordenada dos filhos de D. Felipa provavel estivessem apartadas. Quanta atteno o governo da sua capella merecia a D. Duarte, reconhece-se em varios escriptos d' elle, por exemplo no cap. 96 e 97 do Leal Conselheiro, e em certa carta inedita ao Rei de Castella. 4) Vid. Cap. V. 5) A orao Jusie Judex, nacionalizada a instancias da rainha, sua mulher - Leal Conselheiro cap. 91 - em 12 estrophes, de tres Langxeilen ou seis septenarios, sendo os versos mpares, sem rima - acha-se na obra citada, no cap. 99 - e reproduzido no Cancioneiro Popular de Th. Braga (No. 11). 6) Vid. Mil y Fontanals, Trovadores p. 534. 9*
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composio metrificada. 1) Nem alluso alguma a seu talento poetico. 2) No Catalogo temos, de mais a mais, a formula que el rei D. Duarte compilou ou que el rei D. Duarte {ex, sempre que se trata realmente de trabalhos d' elle, como o Livro de cavalgar (84) e os Capitulos que escreveu quando em boa hora foi rei (67) 3). A formula restricta del rei, pelo contrario, significa simples posse. A no ser assim, o Livro de rezar del rei (7 7) devia ser tam bem obra d' elle? Mais acertado ser suppr no Livro das Trovas del rPi uma obra executada por sua ordem : Cancioneiro de D. Duarte s na accepo lata, em que o CV e CB so Cancioneiros de D. Deni, o Livro das cantigas um Cancioneiro de Conde de Ba'lcellos 4 ), e o Cancioneiro Geral da segunda poca nm Cancioneim de f![Link]. Um Albmn portanto, em que o reinante mandara colligir, com suas proprias produces e as do Regente, os versos dos epigonos gallaicos, de 1350 em deante - como Juda Negro, Vasco Pires de Cames, Fernam Casquicio, Gomes Ayres da Silva, Macias, Villasandino, Pero Gonzalez de Mendoza.5) Uma miscellanea afinal que, preenchendo o enorme hiato entre o Cancioneiro gallaico-portugus e o de Resende, irmanaria com o de Baena, apresentando-nos, se ainda existisse, aquellas trovas dos nossos passados, cuja perda Garcia de Resende lamentava em principios do seculo XVI. 6)
118. Para, favorecendo a ideia da om1ssao de um nome depois de Rei, aventurar o de Affonso o Bravo, bisav de D. Duarte,
1) Entre os tratados perdidos h a um s que tal vez fosse versificado: Padre Nosso glosado. 2) Cf. Grundr-iss II b, p. 244, No ta 6. 3) Temos ainda No. 32 L-ivro de [Link] que comp'l~lou o vitorioso Rei D. Joo; No. 51 Marco Tullio o qual tirou em linguagem o Infante D. Pedro; No. 4 .As Oollaes que escreveu (=copiou) Joo Rodrigues; No. 20 Os Cadernos da Confisso que escreveu Joo Galado. 4) Th. Braga de outra opinio Vid. Manual, p. 135; Hist. Urtiv., 227; e Grundn~ss II b, 244. - Gama Barros, H'l~st. da .Administrao I, 423, adopta o parecer de Braga, suppondo tambem o Livro das Trovas del rei obra do proprio D. Duarte. 5) A minha explicao seria mais persuasiva (em todos os tres casos), se os titulos dizessem Litro de Trovas. Mas ta:t;nbem a compila:o do Conde se chama Livro das Cantigas e a do Infante D. Juan Manuel El Libro de los Cantares ou de las Cantigas. 6) Ou sero meras phrases, sem relao com os cancioneiros, as palavras que sobre as cousas de folgar e gentilexas perdidas, Resende ptofere no preambulo do grande inventario lyrico de 1449 a 1516, por clle organizado. - Vid. Grund-riss Ilh, p. 231.
o
133
a quem seu meio-irmo o Conde de Barcellos teria offerecido, em meados dos sec. XIV, um exemplar do Livro das Cantigas; ou tambem para conjecturar que, sendo relativamente escassa a colheita de 1354 a 1438, e continuao natural da anterior, o monarca arranjara copia do Livro do Conde de Barcellos, juntando-lhe as produces dos epigonos, 1) o unico motivo que posso imaginar seria o desejo de descobrir na livraria dos reis de Portugal todas as colleces tle versos archaicos nacionaes cuja existencia indubitavel.
119. l'rlas fosse um, fosse outro, haja ou no identidade entre o Cancioneiro da Ajuda e No. 38, 63 ou 78 do catalogo de D. Duarte, devo dizer aqui antecipadamente que em uma das laudas do pergaminho apparecem duas notulas que se referem a D. Duarte. A p1imeira diz: Dom Ed~tafrte pela graa de Deus rei de Partugal e dalgarue. 2) O teor da segunda : este liuro he do colao do
imfiit.
Assim no fossem meros exercicios de qualquer novato em calligraphia archaica! 3)
120. Da recamara dos ultimos reinantes da dynastia borgonhesa para a posse de D. Joo I, seu filho D. Duarte, e o neto D. A:ffonso V, 4) servindo perto de 1449 ao Regente e ao Condestavel; de l para as mos dos successores, 5) at ser piamente depositado como suspeito de heresias, por algum dos filhos ou sobrinhos de D. Manoel, depois do concilio de Trento, na mesa censoria da Inquisio 6) que o
1) Vid. Cap. V. 2) D. Duarte usava d' essa assignatura- Dom Eduarte pella graa de deos Rey de portugal e do algarue - com o accrescento e senhor de Oepta. Vid. Leal Oons., Prologo c cap. 108; Ensynana de bem cavalgar, cap. 1. 3) Mas como no provavel serem inveno do imitador, avento a pregunta se seriam calcados sobre dizeres de uma folha hoje estraviada? Pregunta sem soluo. 4) sabido que foi este rei quem installou primeiramente a bibliotheca regia em salas apropriadas, augmentando- a consideravelmente. 5) Dos volumes com que o Infante D. Pedro emiquecera a livraria regia, alguns ainda existiam no pao, em tempo de D. Joo III, sendo ento manuseados pelo auctor das Decadas. - Vid. Joo de Barros, Panegyrico de D. Maria 38. 6) Entre os filhos [Link],os [Link], D. Hemique e [Link], eram poetas. Se fosse provado ser do Dr. Ferreira a letra da nota, a que acima me referi, no deixaria de surgir a conjectura de o CA ter sido prop1iedade do Duque de Aveito, (c. 1500-1571) a cuja casa pertencia o pae do poeta. Este neto de D. Joo II - em cuja livraria se achava um .Amadis, segundo Miguel Leite - era grande collector de antigualhas, discipulo de Andr de Resende
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guardou, fechado a sete chaves, em Lisboa ou em Evora at 1759; depois da expulso dos Jesutas para o Collegio dos Nobres, e finalmente de volta para a bibliotheca regia: eis o caminho mais directo, sempre ,dentro das fronteiras de Portugal, que me dado imaginar. Mas quem se atreve a d-lo por bem traado? Habent sua {ata . .. 1) E para que renasam duvidas, bastar olharmos para o misero estado do codice, no s truncadissimo quando o encadernaram no sec. XVI, mas ... nunca acabado, quer fosse porque o mandante falleceu antes de ver realizado o seu intento, quer por falta de um pintor que o illuminasse? Um exemplar estragado e engeitado? cedido por um dos reis ou pelo Conde a algum curioso da sua crte? (o ignoto collao do infante?) como indigno de figurar nas estantes do pao, as quaes devemos suppr povoadas de codices sumptuosos, ricamente illuminados, como as Cantigas de JJiaria, o Libro de los J~tegos, o Leal Conselheiro ?
121. Concluo com a summula seguinte. O fragmentario codice da Ajuda sempre permaneceu em Portugal. Se, contra todas as apparencias, foi achado em Roma entre 1521 e 1557, sendo ahi adquirido e encadernado por quem sabia (prematuramente), dos boatos sobre o Conde de Barcellos, a sua permanencia na cidade eterna no havia durado muito tempo. Calculando largamente, s pode ter permanecido l, de fins do sec. XV a 15 2 7. E, notabene, sem que lhe imprimissem marca alguma. -Mas neste caso - que julgo inverosmil - a informao de Duarte Nunes sobre o achado de poesias de D. Denis, torno a repet-lo, seria fundamentalmente falsa, visto que o CA no contm verso algum do rei-trovador.
que legou ao filho d' elle uma sua Julia e moedas raras; poeta distincto, cujos ve1sos andam nas obras de Cames; e protector de Miranda, Ferreira e Cames, dos quaes recebeu homenagens poeticas. Implicado no processo de Damio de Goes, sob pretexto de ser possuidor de livros hereticos, teve de entregar alguns ao tribunal ecclesiastico. Na falta e prova, e tambem porque 110 processo de Goes entre os livros entregues no se menciona nenhum de versos, ser melhor no darmos seguimento a esta ideia. 1) O Livro de Monteria de D. ;Joo I, que occupava um logar de honra no gabinete de D. Duarte, veio parar num collegio da Companhia, em Monforte de Lemos. Ahi se tirou um treslado que hoje se conse1va na Bibliotheca Nacional de Lisboa.- Vid. Hist. Univ. p. 206; Gama Barros I,
p. 425.
Descripo do Codice.
122. um grosso e pesado in-folio, no qual, conforme j se indicou, andam juntas duas obras, ou antes fragmentos de duas obras diversas, um Nobiliario em prosa e o Cancionei'ro. O primeiro occupa 39 folhas, 1) o segundo 88. li. affirmao, repetida at hoje em todas as descripes, que o Cancioneiro comea com a lauda 41, longe de estabelecer que lhe faltam as quarenta do principio, significa apenas que vae precedido de quarenta que lhe so alheias. 2) Mas nem mesmo isso rigorosamente exacto. Das quarenta que lhe vemos antepostas, a folha do inicio pertence ao Cancioneiro. Achando-a desmembrada de um dos fasciculos, o encadernador collocou-a testa do volume como custode, por no saber qual logar assignar-lhe. Pelos mesmos motivos, a capricho, ou por ordem do mandatario, utilizou ou inutilizou outras duas folhas, collando-as contra as taboas da pasta. 86 uma d' ellas, que andava avulsa, est coberta de escripta e foi por isso despegada pelo segundo editor das trovas, 3) continuando solta at 1894. 4 ) Incluida na integra nesta edio, entrou naturalmente nas minhas contagens, como tambem a folha branca do fim e as onze addicionadas ao volume em 1835. 5)
1) Reservo p~ra as minhas Notas Jl,farginaes- Randglosse XXIXo estudo pormenorizado que elaborei sobre o Nobiliar'o. 2) Como se dir mais abaixo faltam-lhe, a meu vr, as primeiras 32 folhas, ou quatro cadernos, com as 92 poesias que se acham inventariadas a principio da Tavola Colocciana. 3) Lord Stuart imprimiu na ultima folha, innumerada, da sua edio o que soube descifrar das poesias inscriptas na face: muito deteriorada da dieta lauda. 4) No sendo avulsa, nem tendo nada escripto, a do fim permaneceu collada contra a taboa. 5) Para comprehender a differena entre as 88 que registo e as 74 ou 75 de que fallaram Lecussan Verdier, Bellermann e os que repetiram
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A que de 1500 e tantos at 1849, forrava o interior da capa de cima, seguia provavelmente, na ordem primordial, depois da ultima, com a qual haviam revestido a taboa de baixo. No querendo deslocar esta, collocaram-na modernamente, antes d' ella, como se deprehende da tabella que junto. 1) A immediata, isto a folha de guarda, contada como primeira do volume por Lord Stuart, Varnhagen e Herculano, vinha na primitiva apos a 102a, cotno foi reconhecido por todos os editores. Hoje est reintegrada no seu logar. 2) As folhas 2 a 40 perfazem seis fasciculos incompletos do Nobiliario. De 41 a 108 seguem, sem interpolao de materias alheias, 74 folhas do Cancioneiro. A do fim (75), numerada 115, e unida pasta, conforme j se disse, forma parte integrante do ultimo caderno. s 11 folhas descobertas na capital do Alemtejo, numeradas por Herculano de I a XI, dei eu, ao comear os meus estudos, a numerao 117 a 127, indevidamente. Dos sitios que realmente lhes competem, como reconheci pouco depois - IV entre f. 43 e 44; I e II entre 54 e 55; XI entre 65 e 66; III entre 71 e 72; V --X entre 74 e 75(?)- d ideia o quadro dos cadernos.s) Nem o grande historiador nem Varnhagen trataram de verificar este ponto, porque na mente de ambos a ordem em que encontraram as cantigas, era, como o leitor sabe, completa desordem. Se este preconceito no os tivesse cegado, chegavam por fora a resultados iguaes aos meus, pelo exame material do pergaminho. Para isso bastava, aproximarem as laudas, muito irregularmente cortadas, s rebarbas das meias-folhas correspondentes que os saqueadores deixaram subsistir no volume. 4) A ordem que por este simples processo apurei em
os seus dizeres, basta que o leitor se recorde que, ilm de descurarem as paginas estragadas pelo encadernador, elles no conheceram as relquias vindas de Evora. Na realidade temos 74 1 2 11 = 88. 1) Vid. p. 139, Nota 2. 2) Por isso tem na tabella a marca 102a (147 e 225). 3) Aqui e sempre sirvo-me nas minhas citaes dos algarismos da antiga paginao, tal como a deixei regularizada em 1877, isto dos numeros que occupam a casa III da minha lista, e andam entre parentheses no quadro dos cadernos. 4) Subsistem rebarbas, pestanas ou carcelas naturaes, espera das partes roubadas, nas folhas 58, 75, 93, 98, 100, 105, 108, 109, 112, 113.
+ + +
137 1877, foi tres annos mais tarde plenamente confirmada pelo confronto com as partes analogas do apographo italiano CB. S num caso, em que as folhas (V a X), cortadas direitinhas, exactamente pela dobra, formam um caderno coherente no fundo e na forma, o expediente no podia surtir efeito.
123. O codice foi paginado neste seculo por mos diversas: primeiro por folhas, e depois por paginas.
A primeira numerao do volume - IV na tabella - inscripta no centro da margem inferior, de Lord Stuart. Saltando por cima das paginas brancas, marcou apenas 68 folhas do cancioneiro com algarismos de 41 a 108v. Posteriormente, alguem accrescentou 109 na que estivera collada contra a capa de cima. A segunda, 1) feita por mim a lapis, de 41 a 127 (102 6 a 1a de Lord Stuart), no canto de fra da mesma margem, segue identico systema, incluindo todavia as folhas em branco, a de guarda, as que estiveram colladas contra a capa, e as de Evora. a Illa da tabella. Ultimamente, no acto de restaurao do vetusto monumento, a que os empregados da bibliotheca procederam, 2} o digno e zeloso official Sr. Rodrigo Vicente de Almeida, collocando as folhas soltas no logar competente, as paginou de novo, no centro da margem superior, de 1 a 174 - isto excluindo o Nobiliario (I). - No canto de dentro accrescentou ainda outra numerao geral (V), cabendo s genealogias os algarismos 1 a 78, e s trovas, 79 a 250 (respectivamente 254). Eis a tabella comparada, completa, no s de todas essas quatro paginaes, mas ainda da marcao romana das reliquias eborenses (VI} e da mais racional de 1 a 88 (II). Como foi essa a que introduzi no texto, e emprego no Indice do Capitulo IV, juntamente com a nr, saliento ambas typographicamente para commodidade do leitor.
1) Varnhagen, resolvido a modificar arbitrariamente a disposio das cantigas, no ligou importancia paginao, adoptando a do predecessor. 2) Para poder introduzir novamente no seu logar as folhas cortadas, tiveram de lhes soprepr umas tiras, a modo de carcellas ou pestauas. Ha-as nas folhas 1~0, 51, 56, 117, 118, 61, 127, 119, 121-126, 102&, 104, 114. - Cf. Cap. ll.
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1) Esta tabella pode servir de complemento que vae impressa mais acima na Parte I, a pag. 8 d' este volume. 2) O asterisco indica que a pagina est em branco.
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I I I II I III
p.139 f.70 140 v 141 71 142 v 143 72 144 v 145 73 146 v 147 74 148 v 149 75 150 v 151 76 152 v 153 77 154 v 155 ~ 156 v 157 79 158 v 1591 80 160 v 161 S1 162 v 163 82 164 v 165 83 166 v 167 8! 168 v 169 85 170 v 171 86 172 v 173 87* 174 v 175 88 176 v f.99 v* 100 v 101 v 102 v 102& v 103 v 104 v 105* v 106 v 107 v 108 v 109* v 110 v 111 v 112 113 v 114 v* 115 v* 116 v
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VI
IVI
103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138
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79 v 80 v 81 v 82 v 83 v [Link] v S v
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181 182 183 184 185 186 187 188 189 190 191 192 193 194 195 196 197 198 199 200 201 202 203 204 205 206 207 208 209 210
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98 v
f.9! p.217 218 v 219 1) 95 220 221 v 96 222 v 223 97 224 v 225 9S 226 v 227 99 228 229 v 100 230 231 232 v 101 233 234 v 102 235 236 v 103 237 238 v 239 [Link] :240 241 v 10;) 242 243 v 244 lOf~ 245 v 246 247 v 248 lOS 249 v 250 251 252 [109J 253 254 2)
124. A Encadernao. - As censuras dirigidas por Varnhagen contra o encadernador so injustas e exageradas. verdade que cerceou as margens de modo lamentavel, aniquilando marcas de registo, a velha paginao (se existiu), e partes importantes das notas marginaes, chegando s vezes a damnificar o texto. facto tambem que mandou collar uma folha solta, com texto em ambos os lados, contra a taboa, occultando assim algumas cantigas. Facto
1) Ayres de S (no Frei Gonalo Velho, p. 132-139) serviu -se da paginao moderna. 2) Como a folha 87 (= 115) no foi descollada, no poderam dar 88& (= 116) o logar que lhe cop1pete. Por isso deixaram de inscrever a paginao.
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ainda (comquanto no fosse apontado por Varnhagen e imperfeitamente sanado por Herculano) que no soube dar a devida disposio s paginas do Nobiliario, que esto effectivamente baralhadas. Pode mesmo ser que a ordem dos cadernos que compem o cancioneiro, no seja a legitima em todos os casos. Mas o estado do pergaminho obrigaria provavelmente a amputa.r algo das margens. E se falta de indicios externos e intrinsecos, no havia ento (nem ha hoje) meio de estabelecer a verdadeira successo dos cadernos, no merece os epithetos de boal e barbaro quem no a realizou. Dentro de cada fasciculo a successo das folhas perfeita, apesar das affirmaes em contrario do obcecado editor. Metade das culpas que por ventura haja, cabe de resto, no meu sentir, a quem, no muito louvavel empenho de salvar da deteriorao progressiva a que estavam expostas, duas preciosas reliquias, as entregou ao artista sem indicaes precisas. O trabalho d' este no se affasta do usual. As pontas do barbante fino com que cada um dos cadernos ficou cosido - e notabene cosido uma unica vez, e no repetidamente- foram atadas, entrelaadas e em seguida envolvidas em tiras de pellica branca, formando grossos e solidos cordes. As extremidades d' estes cordes, que so quatro como os pontos de costura, e attravessam a lombada, foram entaladas cunha nas taboas que formam a capa. No conseguindo arranc-los, to solidos esto, os saqueadores cortaramnos faca, soltando assim os barbantes finos, mesmo em alguns dos cadernos de que no se apossaram. Escuso assegurar que o couro que formava a lombada desappareceu. As solidas taboas de carvalho, revestidas de bezerro castanhoescuro lavrado, estiveram outr' ora guarnecidas de fechos. Na de cima ainda esto fixos os dois colchetes fem_eas, de bronze, faltando na de baixo os machos, o que obsta a que se possa calcular ao certo a grossura que o volume teve no acto de ser encadernado. 1) A ornamentao da sola de estylo renascena. Compe-se de faixas, formando tres tarjas rectangulares. A do centro dividida por cinco faixas longitudina~s. Em todas, palmetas alternam com medalhes. Nestes, v-se sempre a mesma cabea, tosquissima, de guerreiro barbudo, microcephalo. O nariz e o queixo, pronunciadamente agudos, assemelham-na de certos medalhes de pedra,
1) Hoje elle tem 6 cm. de alto, cabendo 2 ~ capas.
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incrustados em edificios de Coimbra, como o palacio de SubRipas, e nos tumulos de S. Cruz. No sou competente para decidir, se se trata de um trabalho feito l fra, ou no paiz. Inclino todavia a crr que a execu.o nacional. Como os typos para as imprensas e os clichs para os xylographos e gravadores, os ferros para os trabalhos em couro eram e so muitas vezes artigo de importao. Em abono d' esta hypothese posso citar a circumstancia de entre os volumes que compulsei na capital, haver, na propria Bibliotheca da Ajuda, um in- folio pequeno cuja encadernao parecida do Caneioneiro, pois apresenta a mesma faixa, em disposio diversa: duas tarjas, ligadas de canto a canto por outras obliquas de desenho igual. 1)
126. Dimenses.- As taboas da encadernao medem 460 por 348 millimetros. As folhas membranaceas tem de comprimento 443 e de largura 334; e teriam originariamente pelo menos mais quatro cm. 8) ao alto e dois ao larg. Isto , pouco menos do que o
1) um volume impresso em Veneza, no anno 1523: Augustini Nyphi Medic. Suessani De Intellectu libri sex. Eiusdem De Demonibus libri tres. - Venetijs mandato & expensis heredum qudam nobilis viri Octauiani Scoti. - Anno 1523. - Signado B - 6-9. 2) PS. Em Maio de 1901 verifiquei que no o conseguiram. 3) Na folha 119, cuja margem inferior ainda assim no estreita, permaneceu, revirado, um bocado de pergaminho que tem 1 cm de altum.
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mais sumptuoso entre os codices escorialenses das Cantigas de S. 1Jfaria. 1) A medida do texto de 380 x 240. Cada pagina compese de duas columnas, separadas e limitadas por senhos dois traos longitudinaes. Ha nel1as 48 (s vezes s 4 7) linhas pautadas. As duas extremas esto em geral vazias. O numero de lettras varia naturalmente, conforme a medida dos versos. Termo-medio, avalio-as em 20 a 30.
127. Diviso dos textos.- De quando em quando se topa com uma folha, ou meia-folha, inteiramente ou parcialmente em branco. 2) A que segue, distingue-se neste caso por um caracterstico notavel que : principiar com letra capital de dimenses maximas, ricamente ornamentada e precedida por uma miniatura que occupa quatro vezes tanto espao como a maiuscula, ou por espao reservado para ellas. A ideia que um novo grupo de canes comea com taes ornatos, terminando onde o escriba deixou em branco uma pagina inteira, ou o resto de uma pagina, impe-se com tal evidencia, essas figuras e esses claros destacam-se de modo tal, que admira no ter ella sido aventada pelos primeiros exploradores do volume. Mais abaixo tratarei das vinhetas. 128. Disposio das estrophes.- A primeira estrophe de cada poesia est escripta como prosa, apparecendo as palavras de longe em longe syllabadas, como para solfa: en ve ia por enveja; per der ei por perderei. E entre esses versos iniciaes, lanados pelo systema indicado, ficam sempre, sem excepo, espaos de tres linhas em branco, reservadas evidentemente para notao musical. 8) O mesmo caso d-se a miudo com curtas estrophes ou meias-estrophes finaes,
1) Eis as propores dos tres pergaminhos alfonsinos: Toledo, 315 por 217, com 225 x 151 de texto em 27 linhas; Escorial. j-b-2, 402 por 274 com 303 a 309 por 198 de texto, em 40 linhas; Escorial. T- j -1, 485 por 326 (texto em 44 linhas). -O formato dos codices cartaceos naturalmente reduzido. O CV conta 300 x 220; o CB 284 x 315. 2) Tem o verso em branco as folhas 54, 57, 65, 76, 83, 84, 87, 89, 90, 94, 99, 127, conforme se v na tabella supra; a face, apenas a f. 84; algum espao, as folhas 105, 109, 114, 118, 119, 126. 3) Nos codices alfonsinos temos o pentagramma; no de Floren~a o tetragamma. Mas em numerosos missaes e antiphonarios dos sec. XIII e XIV, os escribas serviam-se de menos linhas: tres, duas, ou mesmo uma s. Em todo o caso, ha ahi uma di vergencia entre o cancioneiro portugus e os alfousinos, hoje conhecidos.
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designadas pelos criticos modernos como tornada, cabo, volta, ( Geleit), mas que na terminologia dos trovadores portugueses se chamavam fiindas.
129. Os caracteres. - A letra, muito regularmente traada por um unico artista, gotbico-francesa. O grosso do texto est a preto, como de costume. O luxo de alternar o negro regularmente com outra cr, escrevendo p. ex. o refram com tinta encarnada, conforme se v nos codices alfonsinos, no entrava no plano mais modesto do empreiteiro portugus. J deixei emendado o lapso de Ribeiro elos Santos, Lecussan V erdier, Varnhagen e Bellermann que chamaram maiuseula a letra, mau grado os fac-similes que apresentavam e os desmentiam. Temos maiusculas, de diversos tamanhos graduados, 1) apenas no principio dos cyclos, das cantigas, das estrophes, do refram e da finda: e estas, pintadas alternadamente, mas sem regularidade, a vermelho com singelos ornatos azues, ou a azul com ornatos vermelhos. As capitaes de primeira grandeza, com que abre cada cyclo novo, ostentam, sem serem litteralmente historiadas, no mio de arabescos, de vez em quando, uma figura grotesca, humana ou de animal. Occupando em geral oito linhas e tendo de largo outrotanto, ou mais, conforme o debuxo da letra precisava, traos caprichosos espalham- se sobre a margem, descendo s vezes at quasi ao fundo da pagina. A meu vr, haviam de levar cres muito variegadas (como o s da Cantiga 69 de Alfonso X no Codice Escorialense T- j -1) e toques de ouro, como os mostra o bello e rico D da primeira cantiga do outro codice escorialense, reproduzida por Amador de los Rios. 2)
130. O cancioneiro no foi acabado. - Ha paginas em que todas ou quasi todas as maiusculas apparecem pintadas. 3) Outras em que nem uma s foi executada. 4 ) Na maioria dos casos faltam
1) De quasi todas as letras maiusculas do alphabeto ha sete, oito ou nove tamanhos diversos, sendo as mais pequenas, de 5 millimetros, i. da altura das minusculas, para o principio das estrophes. Vem depois as do refmm, da finda e da cantiga- mas sem rigor mathematico, com numerosas variantes a que a abundancia ou falta de espao e o capricho do escrevente convidavam. Veja-se o nosso fac-simile. 2) Vol. III. 3) Especializo as folhas 41, 44, 46, 48 a 53, e 90. 4) P. ex. nas folhas 55, 63 a 67, 72 a 74, 76 a 83, 89, 94 a 96, 105 a 116. - Todavia no faltam (nestes e nos mais casos) to inteiramente
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varias, 1) principalmente as de maiores dimenses, sendo de estranhar a arbitrariedade com que o pintor procedeu. 2) Das vinhetas e das capitaes grandes que as accompanham, dezaseis esto esboadas, mas apenas quatro teem principias de colorido. Em outros tantos casos, nem mesmo o esboo penna foi delineado. 3) A notao musical falta por completo. _Nenhum nome de auctor, ne!ll uma s ap~~tilla, elucida as 38 series de canes de que est composto -o livro das cantigas no seu estado actual. Numerosas correces, lanadas margem no acto da reviso, no chegaram a ser attendidas. Subsistem tambem lacunas, no poucas, no meio do texto, por falta de trechos. errados que alguem safou raspadeira, mas no reintegrou em conformidade com emendas que se acham indicadas, ora entre linhas, ora na margem com abreviaturas, em cursivo \ microscopico. No ha que duvidar, esse codice ficou por concluir. S o escrevente, encarregado do treslado dos originaes, pat:ec;-t;r acabado o servio de primeira mo, assim como o revisor o confronto dos textos. O pintor, a cujas mos passaria logo depois, parou muito antes de chegar a meio da tarefa. O musico nem mesmo iniciou a sua. No paragrapho anterior e no Capitulo II j toquei de passagem na causa ignota d' essa interrupo, preguntando se seria motivada pela falta de um pintor habilitado? ou por ventura pelo fallecimento ( do rei, a cujas instancias se procedia transcripo das canes ... trovadorescas? Ou por ordem do mesmo (quando no do successor), que no ficou satisfeito com a execuo, encommendando outra mais completa e de maior luxo. Deixando a resposta- isto a apresentao de hypotheses - para mais tarde, sem mesmo apontar novamente os nomes dos reis que tenho em mente, juntarei aqui uma s reflexo. No provavel que uma mudana de gosto,
que seja preciso subentend -las, adivinhando, e omitt -las numa impresso paleographica, segundo parece vista dos excerptos do Sr. Ayres de S (No. 76 daRes. [Link]). O escrevente traou quasi sempre a respecti,a letra em cu'rsivo, verdade que to minusculo e fino que a proprio illuminador se enganou com freqencia, executando c por e, c por t, e viceversa. No nosso fac- simile ha quatro exemplos. 1) Faltam poucas a f. 42, 43, 120, 44v, 47; muitas a f. 117, 118, 119, 121 a 127; 54 a 62; 67v a 71; 74v; 121 a 126; 75; 84 a 88. 2) Ainda assim, posso constatar que nos primeiros cademos o trabalho do illuminador ficou muito mais adiantado do que nos ultimos. 3) Tambem as vinhetas esboadas pertencem primeira metade do volume, como o leitor pode verificar, olhando para as tabellas.
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invadindo repentinamente a crte, sustasse a concluso (como aconteceu com tantas e tantas empresas architectonicas), uma vez que o minusculo gothico dominou sem divergencias notaveis de 1279 (pelo menos) at 1379.
131. O Cancioneim foi destroado, duas vexes: antes de algum bem intencionado colleccionador do sec. XVI se ter lembrado de salvaguardar essa herana dos antepassados que j andara exposta, em qualquer livraria publica ou particular, aos caprichos irreverentes dos leitores. E posteriormente, pelos reaccionarios dos secnlos XVII e XVIII que, tencionando fech-la a sete chaves, a collocaram em sitio ainda assim accessivel a mos profanas que a malbarataram. As folhas soltas, utilizadas pelo encadernador, confmme ja expus, as outras, cerceadas s vezes at rente ao texto, e o facto de o texto comear no meio de urna cantiga, attestam claramente a mutilao primeira. 1) Das partes salvas no sec. XVI roubaram mais tarde varios cadernos, e vinte e tantas folhas soltas. Umas, segundo licito imaginar, por inclurem muito pergaminho branco; 2) outras, como as que reappareceram na bibliotheca eborense, por causa das vinhetas e letras historiadas; outras por encerrarem um pequeno cyclo fechado de versos; outras . . . :Mas quem sabe l as ideias cerebrinas a que cedem colleccionadores maniacos? 132. Estado do codice de 1820 at 1894. - Passo a descrever o estado em que vi o Cancioneiro em 1877 e 1890. O volume todo andava retalhado em seis parcellas. A 1 compunhase apenas da taboa de cima. Consideremos como 2 as tres meias folhas soltas que forma'\"am o introito: a que fra descollada (116), a folha de guarda (102 8 ) e uma de prosa. A parce11a seguinte abrangia dois fasciculos do Nobiliario. A 4 os tres restantes, e o primeiro do Livro das Cantigas (f. 41 a 46). A 5 constava de cinco cadernos com versos (f. 47 a 74). A 6 de seis (f. 75 a 110).
1) Alm da falha a principio do Cancioneiro, julgo reconhecer outras antigas entre f. 95 e 96; 99 e 100; 106 e 107; 112 e 113; 114 e 115 e muito ptovavelmente no fim. - Talvez ainda entre 83 e 84; 89 e 90; 90 e 91. - So as Lacunas 18, 19, 22, 26, 27, e 14, 15, 16. 2) As folhas que faltam p. ex. depois da 43"' e 53 deviam levar poucos verHos. Vid. Capitulo IV Miscella 12, 24, 31. 10
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Entre esta e a seguinte arrancaram um caderno completo que tentei reconstituir (parcialmente) com seis das folhas vindas de Evora (f. 121 a 126). 1) A 7a e derradeira apresentava um s caderno incompleto, ligado capa de baixo (f. 111 a 115). J sabemos que os catorze cadernos que hoje subsistem, no esto de modo algum integros, nem mesmo depois de completados com as cinco folhas soltas que cresciam das reconquistadas (11 7-120 e 127). Como praxe, quatro folhas inteiras- de duas laudas, quatro paginas ou oito columnas - constituem um caderno. Possuindo ns 88 meias-folhas, parece devem faltar-nos ainda umas 24. Julgo todavia que carecemos de mais cinco, porque dois cadernos se affastam da norma commum. Um (X) constava de cinco folhas; outro do mesmo numero, ou, talvez de quatro e meia (XIV). Alm d' isso duas laudas andam desgarradas, sem sabermos a razo (f. 75 e 116). Por um lado, o exame material dos cadernos e pelo outro o estado fragmentaria de varias canes indica em geral, se bem que nem sempre com a desejavel clareza, onde que nos faltam versos, e quantos, pouco mais ou menos. Alm das lacunas no fim e no principio do Cancioneiro cheguei a apontar mais vinte e sete. Tudo isso antes de conhecer o CB que mais ta1de confirmou os meus calculos. D' este exame deprehende-se tambem :com seguran.a a boa coordenao da materia, havendo duvidas apenas a respeito da collocao do caderno arrancado (a que ja me referi), 2) e sobre a folha 75 que o encadernador havia intercalado entre os cadernos VII e VIII. 3) O texto passa com freqencia no s de folha a folha, mas de caderno a caderno, sendo portanto um guia certeiro. So inseparaveis, porque a cantiga, comeada num, continua no seguinte, o caderno que est testa do cancioneiro e aquelle que o precedia; o r e o immediato, que nos falta; esse mesmo e o Iro dos que possumos; o no e o IIIO cuja meia folha inicial foi roubada; o nr e o IVO; o IVO e o vo; e ainda o IXo e o xo, embora esse carea da ultima folha.
133. Ordem dos cadernos. - Creio tr figurado adequadamente, nos apontamentos marginaes que accompanham o texto, e
1) No ba duvida sobre t;e essas folhas perfazem um cademo (incompleto). O que resta incerto, apenas a collocao. 2) Vid. a No ta antecedente. 3) Vid. Capitulo IV, Miscella 51.
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nas notas que rematam as 38 series, a estructura do codice. Por isso junto agora apenas um quadro dos cadernos, como modo mais claro e expedito de expr deante da vista do leitor a seriao das folhas, o logar das lacunas 1) e a reintegrao das folhas arrancadas. A principio falta um caderno, pelo menos: Lacuna I. 2) Caderno I. Lacuna II 4(120)
..._I
1 (41)
2(42)
3 (43)
Entre este e o que segue o cordo est partido. Falta um caderno. Lacuna III. Caderno II. Lacuna 8(47) 9(48) ll(O) 12(61) 13(62) 14(63) IV 10(49)
I I
----J~
.I
5(44)
6(45)
7 (46)
I
I I
I I I
Lacuna
V
15(64)
A folha 51 ainda ficou segura, porque da sua primeira metade, cortada s tesouradas, deixaram subsistir as rebarbas.
Lacuna
VI
17 (118)
VII
18 (66) 19(66)
I J
I
7~
1) Repito que em ambas as partes emprego a dupla paginao de 1 a 88 e (entre parenthese) a antiga de 41 a 127. Alm d' isso, marquei no texto a segunda metade das folhas com " e {J grego, differenciando tambem as quatro columnas de cada lauda pelas letras a b c d. - P. ex.
Caderno I.
1~ 2~ 3~ 4~~ 5~ 6~
lal
2"L.3_"__.....__,___ 1
~_'4{J-'3_{J__.rp
rp
Alguns erros escaparam. A palavra Vinheta falta a p. 33, 369, 387, 411. A p. 33 leia-se: 4{J em logar de 1{J. A p. 41: 3{J, em logar de 2{J; A p. 361: 75d, em logar de 45d. 2) O signal ;::J indica que a pagina principia com uma Vinheta; 1, que ha espao reservado para a mesma. 10*
148
A folha 56 ainda se conserva presa, pelo mesmo motivo mdicado com relao f. 51.
(~aderno
IV.
23(60)
22(59)
Lacuna IX 24(61)
25(62)
I
27 (64)
..___r
'-~I I
30CG6>
1...___~___I
1
31 !67)
32(68)
33(69) 34 (70)
[ I
35 (71)
39(74!
Aqui os cordes estavam novamente cortados. :Foram roubados apparenternente dois cadernos, um dos quaes se acha reintegrado conjecturalrnente pela introduco de seis das folhas eborenses, as quaes constituem um conjuncto coherente.
Caderno VII.
Lacuna XII 40(121) 1)
41(122) 42(123) 43(124) 44(125) 45(126)
Lacuna XIII
. lJ-,____'-J-'_.I -
Segue uma folha avulsa, 46(75), cosida pelo encadernador. A rebarba saliente foi bem aparada pelo proprio artista. A pesar d' isso propendo a crr que o seu logar no era aq_ui, sendo ella o unico resto de um caderno perdido, collocado aqui t9a. 2)
1) Neste caso. a Vinheta acha-se no verso da folha. U mesmo acontece 77 {10), 81 (109)). 2) Vid. Capitulo IV, Miscella 51.
a f.
51 (80), 55 (84),
149
Caderno VIII.
47(76) 48 (77) 49 (78) 50(79) 51 (80) 52(81) 53(82) 54(83)
r I
56(85)
Caderno IX.
Lacuna XIV 55<84>
57(86)
I I I
60(89)
58t87) 59(88)
Lacuna XV
r
Lacuna 61(90J XVI 62(91)
1I
66(95)
Caderno X.
63(92) 64(93)
l_l.....__lI_~'_I1___.1
Catlerno XI.
68 (97) 69 (98}
71(100) 72(101)
I'...._______,1
Catlerno XII.
I I
r
79(107)
~-r_.I
As folhas 104 e 105 conservaram-se presas pelas rebarbas das folhas cortadas. O leitor sabe que 102 8 a que servira de custode do volume. Caderno XIII.
Lacuna XXIII
80(108)
82(110>