Cadeiras em conselhos de administração não se abrem com processo seletivo. Elas se abrem com confiança. Com rede. Com visibilidade.
E é justamente aí que muitas mulheres continuam esbarrando.
Segundo a pesquisa Women at the Top, apenas 12% das cadeiras em empresas abertas no Brasil são ocupadas por mulheres. O dado é baixo, mas a questão principal está em outro lugar: o primeiro convite.
O primeiro assento muda o jogo
Para muitas executivas, o maior obstáculo não está em se preparar para a função. Está em ser considerada para ela. A ausência de mulheres no board não se explica por falta de qualificação. Na verdade, é o contrário: segundo o estudo, as conselheiras da amostra possuem, em média, mais certificações e mais formação que seus pares homens.
O que falta não é preparo. É visibilidade.
O primeiro assento funciona como uma chancela simbólica. A partir dele, o nome entra no circuito, começa a ser cogitado em outras composições. Começa a ser visto como parte do grupo. Ele muda a percepção do mercado.
“Entrar no primeiro conselho é como conseguir o primeiro emprego. Você precisa furar a bolha.” — Janete Anelli
Quando a visibilidade pesa mais do que currículo
Boa parte dos conselhos ainda funciona com base em indicação informal — muitas vezes restrita a círculos masculinos. O problema não é a ausência de nomes femininos preparados. É que eles simplesmente não são lembrados.
Isso exige uma outra estratégia: não basta estar pronta. É preciso ser vista. Ter posicionamento, articulação e rede. E deixar claro que o conselho é, sim, um objetivo.
Como disse a própria Janete: “Se ninguém souber que você quer estar ali, como vão te indicar?”
Quando a oportunidade chega, vem junto a cobrança
Não é raro que a mulher que entra no primeiro conselho sinta que precisa se provar o tempo todo.
“Preciso falar três coisas muito inteligentes logo no começo da reunião para me levarem a sério.” — Beatriz Amary Faccio
Ela não é só uma conselheira. É, muitas vezes, a única mulher da sala. E isso carrega um peso que vai além da pauta. O que deveria ser um início se transforma, em alguns casos, numa constante necessidade de validação.
Quando a vaga chega, ela ainda não vem inteira
Hoje, o mérito vem depois do convite. E o convite continua sendo distribuído de forma desigual. Esse bloqueio inicial revela mais do que uma dificuldade de carreira. Ele mostra como ainda operam os filtros de entrada nos espaços de decisão.
O mérito importa, claro. Mas não é ele que determina quem recebe o primeiro convite. Quem decide isso é o capital social — e ele ainda circula entre os mesmos nomes.
A pergunta, então, não é se existem mulheres prontas.
É quem está disposto a ser o primeiro a dizer: “é ela.”