Maria do Carmo tem uma voz que atravessa fronteiras. Das casas de Alfama aos grandes palcos do mundo, tem levado o fado para além da saudade, renovando-o sem lhe retirar a alma. Filha da fadista Teresa Siqueira, cresceu rodeada de música, mas foi depois de viajar que assumiu o fado como destino. Desde o álbum de estreia, em 2009, construiu um percurso entre tradição e experimentação, colaborando com artistas de referência e afirmando uma identidade singular. A Entrevista a Carminho decorreu no estúdio Namouche, em Lisboa, onde gravou Eu vou morrer de amor ou resistir, o seu mais recente disco.
Obrigada por nos receberes neste estúdio. Que lugar é este?
É um espaço muito especial para mim. Foi aqui que gravei com o Carlos do Carmo e que a minha mãe gravou um dos seus primeiros ep com o António Chainho. É um lugar cheio de história e de energia e, mais do que isso, é um lugar que continua vivo porque é sempre muito inspirador entrar aqui.
Pode dizer-se que filha de cantora…
Claro que sim. Há uma espécie de predisposição. Uma pessoa, quando nasce, tem à sua volta uma data de portas que se abrem e outras a que não consegue chegar. E das várias portas que estavam ao meu alcance, uma era a música: as noites de fado em casa dos meus pais, no Algarve, depois mais tarde o Embuçado, que é a casa de fados que os meus pais abriram em Alfama… Agora, sou a última de quatro irmãos e todos cantam, mas nem todos fazem disto a sua profissão. Por isso, acho que existe algo mais para além da predisposição cultural que nos rodeia.
Que recordações guardas da infância?
A minha casa estava sempre cheia de gente e de músicos. Dávamos muitas festas. A minha mãe trazia músicos e havia noites de fado. Essa experiência teve em mim um impacto imenso. Não era só a música ou por ter curiosidade pelos instrumentos e pelas conversas, era todo o ambiente e a própria socialização que tornava aquilo muito atrativo e viciante. E depois, as viagens de carro. Morávamos no Algarve, mas a família era toda de Lisboa, então fazíamos muitas viagens…
Viviam em que zona do algarve?
Morámos dois ou três anos em Vilamoura, depois fomos para Paderne, no sopé da serra, em Boliqueime. Guardo memórias de passeios de bicicleta intermináveis e de uma liberdade e solidão – solidão não necessariamente má – eu era muito independente como criança, tinha espaço para me poder sentir totalmente livre e isso foi muito importante para mim. Depois viemos para Lisboa, para a minha mãe concretizar o sonho de ter uma casa de fados. Aqui, já foi uma experiência diferente…
Ouça abaixo a entrevista na íntegra

Com que idade vieste para Lisboa?
Tinha 12 anos. Uma idade difícil para perder amigos e ter de recomeçar tudo de novo. Mas, de alguma maneira, o fado era o meu lugar, o meu sentido de pertença. Foi onde encontrei pessoas que me receberam. Eu já cantava. Tinha quatro anos quando cantei um fado inteiro ensinado pelos meus pais.
Lembras-te da primeira vez que subiste a um palco?
Foi com 11 anos. A minha mãe ia cantar num concerto de beneficência para o Jardim Zoológico, no Coliseu. Alguns artistas iam levar os filhos ao palco. A minha mãe perguntou–nos se queríamos ir. Os meus irmãos disseram que não. Eu disse que queria. Mas era um fado inteiro e não sabiam se eu conseguiria cantar. Então ela disse: ‘Tens a certeza de que queres ir? Isto é a sério, não é uma brincadeira; portanto, vamos ao Embuçado, está lá o Paquito [guitarrista de fado] e os outros músicos e fazemos uma audição.’ Eu nunca tinha cantado com músicos a acompanhar. Mas ouvia muita música e tinha noção do lugar das guitarras e da voz. Estava tranquila. O Paquito disse à minha mãe, num tom de gozo: ‘Ó Teresa, ela canta melhor do que muitos a ganhar cachet.’ Era uma brincadeira, eu tinha só 11 anos, mas são coisas que marcam, não é?
Sim…
Foi a minha primeira experiência, eu a cantar no Coliseu dos Recreios, cheio, e a única coisa de que me lembro é sentir os pés apertados por usar sabrinas um número e meio abaixo, e que queria ter ido de saltos altos mas a minha mãe não deixou.
Que conselhos te deu a tua mãe?
Aprendi imenso, e ainda aprendo: a escolher os poemas, a perceber que o que cantamos tem de vir de um lugar de verdade. Não precisa de ser autobiográfico. Hoje em dia, cada vez mais experimento temáticas e caminhos que não são necessariamente os meus. A minha mãe aconselhava-me a ouvir aquilo que eu queria cantar, porque nós replicamos muito os fados antigos e a cultura do standard, do clássico – e cantar, reinventar ou reinterpretar os fados dos outros fadistas é a única maneira de começar.
Numa entrevista disseste que não eras fadista nem cantora, mas intérprete. O que queres dizer com isso?
Isso é uma coisa muito íntima, mas quando digo que sou intérprete é porque me sinto fadista, claro, o fado é a minha linguagem, só que vejo-o como um instrumento e não como uma peça acabada. É um instrumento do que penso, do que sinto e do que quero fazer para a frente. E o fado, na sua genética, são poemas musicados. O poema e a música estão par a par, por isso há que interpretar o que se está a cantar. Portanto, uma fadista é uma intérprete também.
Apesar de o fado sempre ter estado presente, o teu percurso não foi linear. Como nasceu a ideia daquela viagem à volta do mundo durante um ano?
Vem de estar infeliz com o curso de Marketing e Publicidade e de pensar: ‘não vou poder viver assim’. E naquela idade, com 21 anos, tendo acabado o curso superior, mas sentindo-me totalmente vazia, foi um impulso. Um que pude suportar porque durante a faculdade juntei dinheiro, de ter andado a cantar em casas de fado. E com essas poupanças comecei a sonhar: ‘vou viajar, dar a volta ao mundo’.
Houve algum lugar ou experiência que te tenha marcado mais?
Só o simples facto de poder sonhar sem limites… Eu abria o mapa-múndi e dizia: ‘quero ir para aqui’.
Por onde passaste nessa viagem?
Era um programa de volta ao mundo de um ano em que tinha de viajar no sentido dos ponteiros do relógio. Ia para a Índia, e, passados dois meses, tinha uma viagem marcada a partir da China. E para lá chegar tinha de ir de boleia, de autocarro, de…
“Lembro-me de ter uma conversa com o meu pai e de lhe dizer que não achava justo fazer da música a minha profissão porque não me dava trabalho nenhum.”
E fizeste voluntariado.
Fiz, na Madre Teresa de Calcutá, na Índia, onde conheci imensa gente com vocações diferentes. Uma das coisas mais marcantes é exatamente esse lidar com a diferença no mundo, porque saí de Portugal a achar que éramos todos mais ou menos parecidos, só mudava um bocadinho a língua, os costumes.
Foi a tua primeira grande viagem?
A primeira vez que andei de avião foi com oito anos, para os Açores. E depois, com 21, para o mundo inteiro. Ter esse choque cultural foi uma experiência importante também para a descoberta da minha própria vocação. Cantar era algo muito natural. Lembro-me de ter uma conversa com o meu pai e de lhe dizer que não achava justo fazer da música a minha profissão porque não me dava trabalho nenhum.
Que sorte a tua.
Ele respondeu-me que fazer o que gosto era um grande privilégio, que isso não podia ser ignorado, e, por outro lado, que eu não pensasse que não ia dar trabalho, porque fazer bem feito ia dar muito trabalho.
A Carminho de 21 anos imaginava a Carminho de hoje? O que achas que ela te diria?
Olho para ela e sinto imensa alegria pela sua coragem e intuição. Antes de ter ido nessa viagem, tive vários convites para gravar um disco. E esse é um detalhe importante, porque já tinha ali à minha disposição um caminho que parecia inevitável. Diziam-me que cantava muito bem e que aquilo seria o passo seguinte e pronto. Mas eu tinha a certeza de que não tinha maturidade, conhecimento e mundo… Até podia gravar um disco de fados tradicionais, mas eu não poderia assumir um pensamento, uma estética e uma idealização de vontades. Tive essa intuição e coragem de dizer que não. Rejeitei propostas para gravar um disco da Sony, da EMI, da Universal e da Valentim de Carvalho. E diziam que era muito burra, que o comboio não passa duas vezes.
Fazes parte de uma geração que vem reinventando o fado. Há pouco, dizias que, quando eras mais jovem, o fado não era particularmente interessante. Manténs essa ideia?
Acho que isso mudou muito, não é? Graças, em parte, a esta nova geração. O fado já teve muitos movimentos. Não se pode dizer que se muda o fado. É um instrumento vivo, que muda segundo o seu contexto social, político, económico, tudo. É uma espécie de língua do coração das pessoas que vivem.
Bonito.
E, nesse sentido, eu não acredito num fado novo. Usaste uma palavra em que me revejo, que é a reinvenção. Mesmo assim, acho arriscada, porque ninguém inventa o que já está feito, e sinto que deve haver um olhar crítico e bastante prático sobre o género que nos representa, que não seja um olhar passivo, de comodidade. Por outro lado, também não tenho a pretensão de mudar todo o género de fado. Interessa-me mais uma revitalização do fado e não reinventá-lo, como dizes. Mas, sinceramente, o que eu procuro é estar viva e no ambiente do fado, e que o fado me faça ser curiosa. Quero continuar a fazer coisas diferentes e, por outro lado, assistir a artistas pulsantes, que querem falar sobre si e sobre o que os rodeia ou os inquieta. Isso é o que mais me atrai.
É isso que te faz ir buscar novas sonoridades? Se a guitarra elétrica já estava presente no teu fado, agora introduziste instrumentos ainda mais arrojados.
Sabes, produzir é um projeto contínuo. Não conseguiria fazer este disco sem ter feito o anterior. Este é o resultado desses caminhos e dessa exploração anterior iniciada sobretudo no Maria, em que a guitarra, o pedal steel, foi introduzido como uma espécie de ambiente, uma profundidade que eu procurava também no sentido sónico da palavra. E depois os músicos, alguns são muito criativos e trazem aquilo em que estiverem a trabalhar. Neste caso, o Cristal Baschet e o Ondas Martenot são dois instrumentos com que o João Penta Gomes estava a trabalhar e que fizeram sentido incluir.

O fado é a tua espinha dorsal, mas isso não te impede de colaborar com artistas muito diferentes. Como é que essas colaborações se integram no teu universo? Mesmo agora, no álbum da Rosalía: ela canta em português, não és tu a cantar em espanhol.
Aí é que está. Sim, isso foi fantástico. O facto de ela ter recebido um fado tradicional, composto pelo Manuel Machado e escrito por mim, e o cantar em português, isso é marcante para o próprio género, não é? Colaborar com artistas de outros géneros é um prazer porque é uma aprendizagem, é um mundo novo que se abre sempre. Também não quero impor uma linguagem, porque há canções que não são fados.
Claro…
Mas tudo é música e tudo é possível de ser interpretado. Não sei responder a essa pergunta sem ser dizer que tento ser o mais intuitiva possível, respondendo ao meu coração, respondendo ao que acredito a cada vez que vou interpretar uma canção, seja ela qual for.
E a colaboração com a Rosalía, como é que surgiu?
Foi quando ela veio a Portugal com a Motomami World Tour, em 2022. Por coincidência, tinha lido que ela cantava os meus fados nos bares em Barcelona, quando estava a começar. Achei aquilo surpreendente. Ou seja, ela mostrou interesse pelo fado. E ela é doutorada em flamenco. É uma expert. Essa ligação é forte e é o ponto de partida para o resto que ela vai fazendo. Bem, ela convidou-me para assistir ao concerto e contou-me isso em voz própria. Como sabia que gostava muito de fado e como já tinha esta proximidade, enviei-lhe este fado e convidei-a para o cantar no meu disco. Mas ela pediu-me o fado para o disco dela. Dei-lhe canção e, passadas duas ou três semanas, ligou-me a convidar-me para a cantar com ela. Isso foi bonito porque ela devolveu-me a canção. Tive de saber largá-la para perceber que voltaria.
Foi um gesto de generosidade. E isso é um traço da tua personalidade. Por falar nisso, queria agradecer-te uma vez mais: quando o meu avô partiu, a 19 de março de 2023, quisemos ter uma cerimónia de despedida simples e simbólica. E lembro-me de que estava tudo em silêncio para ouvir “Estrela”, só com a tua voz e guitarra elétrica. Ainda hoje me emociono quando a oiço. Voltaste a cantá-la nas jornadas mundiais da juventude. Ela fala-nos de quê?
A canção tem para mim imensos momentos especiais. Esse é um deles. Não tens nada de agradecer… Ela fala de pessoas que nos são fundamentais para ultrapassarmos momentos mais duros. Os nossos amigos, as pessoas que nos guiam, não decidem a nossa vida por nós, mas acabam por iluminar o caminho. Acredito que o teu avô tenha sido isso para ti, não é? É uma pessoa que foi uma estrela para ti e para muita gente e que trouxe ao mundo a sua visão – sendo ele um empresário super bem-sucedido e com tantas vitórias – de humanidade e respeito pelo outro e com uma vontade de ajudar a que os outros também vençam, cresçam e sejam eles próprios estrelas para outros. Essa ideia de generosidade está muito associada a pessoas como o teu avô e é disso que fala esta canção. Compus a canção com a ajuda da Sara Tavares, numa digressão que fizemos nos Estados Unidos. Essa música está muito marcada por ela.
“Há muitas maneiras bonitas de amar, de dar um caminho a um filho. Em lugares mais tradicionais, pode ser difícil entender que eu posso educar o meu filho e continuar a ser uma mulher bem-sucedida, viajar, e produzir a minha música.”
Quem te ilumina na tua vida?
O meu filho é um foco de luz. Às vezes, até decido mal por causa disso. É tanta emoção que até ficamos parvos. Acho que a maternidade me trouxe maior maturidade. Trouxe-me também a possibilidade de sentir coisas que antes eram impossíveis. Microssensações e macrossensações a que eu não podia ter acesso sem esta fonte de amor. É outra maneira de amar.
Como se gerem essas saudades de casa e da família, quando estás em digressão? Passas muito tempo fora?
É mais de metade do ano.
A sério?
Sim. Agora, ele vem muitas vezes comigo. Por enquanto, ainda é pequenino. Quer dizer, tudo se faz. Sinto que uma das grandes vantagens de se conhecer o mundo e a diferença é aprender a ser mais tolerante e respeitar formas diferentes de fazer as coisas. Há muitas maneiras bonitas de amar, de dar um caminho a um filho. Em lugares mais tradicionais, pode ser difícil entender que eu posso educar o meu filho e continuar a ser uma mulher bem-sucedida, viajar, e produzir a minha música, percebes? Às vezes, sinto esse preconceito.
Que idade tem ele?
Tem cinco. Depois, tenho uma rede muito forte à minha volta, que o ama imenso e trata muito bem dele. Vou confiante e não fico muito tempo afastada. O máximo foram 15 dias.
Qual foi o sítio mais interessante aonde já o levaste?
Japão. Los Angeles. México. Oslo. Sem contar com outros países aqui na Europa, aonde já fui várias vezes. Ele já viajou muito.
Lembro-me de ir ao Japão e de estar num bar com senhores bastante mais velhos, que tinham visto a Amália cantar lá há muitos anos. Sentes que ainda há essa ligação emocional ao fado, mesmo de quem não percebe a língua?
O fado é uma música que tem uma cor muito específica. Quando falo em cor, é como uma ideia de identidade. Tem características singulares. Uma delas é ser muito emocionante, sobretudo ao vivo, porque a performance cria uma ligação única de quem está a ouvir com os músicos e o intérprete. As pessoas sentem-se ligadas à palavra, mesmo sem perceberem o seu significado. Ficam curiosas. No outro dia, estava no México e um rapaz veio ter comigo e disse que aprendeu a falar português por causa da minha música e que hoje era professor de português. Senti-me honrada. Ele sentiu-se atraído pela língua através da música, ao ponto de agora ensinar português. Esse é o poder da música.
O título do teu último álbum, Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, é muito bonito. Como surgiu?
Surge de dois caminhos fundamentais. O primeiro, quando descobri este poema original do Carlos Varela, numa caixa que me foi oferecida pela Beatriz da Conceição, que foi uma pessoa muito importante na minha vida. É um poema não editado, que nem sequer estava registado, e que dizia ‘Eu vou morrer de amor ou resistir’. E daí vem o outro lado, dessa ideia de que no fado se fala muito de amor, que é muito fatalista, aquela ideia de que tudo está um bocadinho consumado. É preciso cantar essa emoção de morrer de amor. Nós temos de poder ir a algum lado quando estamos a morrer de amor, não é? Não querendo generalizar, mas a ideia de morrer de amor é muito relacionada com a mulher.
Os homens também morrem de amor.
Falei de não generalizar exatamente porque não gosto dessa forma de ver as coisas, mas há uma tendência, e sobretudo num género musical um bocadinho machista, como o fado. As letras eram escritas por homens para as mulheres cantarem, tinham uma carga, essa fatalidade irreversível de que me mataste de amor. E a ideia de poder resistir é muito cativante. É uma subversão da temática.
Também tens temas bastante alegres neste álbum.
Sim. E não é só alegria e tristeza. Tem que ver com atitude, com controlares a tua própria vida e seres independente, vivendo relações de afetos, de amor, até de perda. Tem que ver também com essa emancipação de podermos ter algo a dizer perante a morte.
Numa entrevista, disseste que se aprende muito a viver. Qual foi uma das aprendizagens mais importantes para ti?
Tanta coisa… Olha, a ideia de aprender a respeitar o fluxo da vida e saber perder, saber largar. Isso pode desdobrar-se em milhares de coisas. Pode desdobrar-se na capacidade de ser empático com o outro. Enfim, algo que está a faltar nos dias que correm.
Para terminar: sentes que estás mais a levar o fado ao mundo ou a trazer mundos ao fado?
Olha, que pergunta complexa. Acho que é nos dois sentidos. A primeira coisa que me ocorreu foi que existe realmente uma certa predisposição para a contenção. Nem tudo cabe no fado, falando formalmente. Depois, filosoficamente ou poeticamente falando, muito disso do que eu trago ao fado é fruto de conhecer música de outros cantos do mundo, experiências, artistas… Acho que é muito bilateral.
E, para 2026, há algum desejo especial?
Continuar a cantar este disco. Ter a oportunidade de ter uma digressão e ir a outros lugares, poder apresentá-lo a outras pessoas, é sem dúvida um dos meus desejos – um que eu faço todos os anos.




