Em maio de 2022, no âmbito do Pilot 1, a ZERO promoveu, em colaboração direta com o CRIA, um focus group para explorar o temaO papel do turismo na transformação do bairro. Para isso convidou um conjunto de pessoas que representam diferentes relações e vivências com este bairro de Lisboa (Junta de Freguesia de Santo António), numa lógica de continuidade da aprendizagem e do envolvimento em atividades que o projeto tem vindo a proporcionar (ex. entrevistas e passeios locais). Foi criado um momento de escuta mútua, de partilha e de inclusão da diversidade de olhares sobre um mesmo espaço da cidade com a participação de pessoas com ligação direta ao projeto e/ou ligação direta ao bairro (investigadores, ambientalistas, moradores, comerciantes, estudantes).
@Camilo León-Quijano
Para além de identificar aspetos positivos e negativos do bairro e cruzar esses aspetos com o Turismo, esta abordagem inclusiva de metodologias qualitativas promoveu uma dinâmica de grupo que foi reconhecida pelos próprios participantes como uma oportunidade de construção de conhecimento mútuo e de vivenciar comunidade. Comunidade, Comunhão, União e Conhecimento – “estamos a aprender muito uns com os outros” – foram as palavras-chave que definiram, a nível pessoal, o espírito criado neste encontro e são exemplares e inspiradoras para continuar este tipo de abordagem com base num envolvimento orgânico de diferentes partes interessadas, unidas pelo interesse do bem-estar e qualidade de vida local.
As cidades têm merecido uma crescente atenção quando se fala de sustentabilidade, entre outras razões, porque são territórios cujo crescimento, em termos populacionais, se prevê que continue a ser uma tendência. Trabalhar as cidades nas cidades e com quem vive e constrói esses territórios será fundamental para atingirmos objetivos se sustentabilidade.
Em cidades como Lisboa uma das áreas de grande impacto na sustentabilidade é o turismo. Se o olhar se centrar nos aspetos menos positivos podemos sublinhar os impactos decorrentes das infra-estruturas locais necessárias para acolher o fluxo de turistas, ou o consumo direto de recursos (produtos e serviços) pelos turistas durante a estadia, bem como os impactos indiretos associados às emissões de gases com efeito de estufa (a par com muitos outros poluentes e uso de recursos) associados à mobilidade, que, no caso de Lisboa, é muitas vezes suportada em viagens aéreas, mas onde os navios de cruzeiro também já têm um papel.
Num estudo publicado em 2019 Lisboa surge como o porto europeu com maior tráfego de navios de cruzeiro (115), seguido de Barcelona e Palma de Maiorca (em 2017). Os dados indicam que, no que respeita aos óxidos de enxofre, os navios de cruzeiro emitiram 3,5 vezes mais que os automóveis que circulam na cidade. Já no que respeita aos óxidos de azoto, os navios de cruzeiro em Lisboa emitiram quase o equivalente a um quinto dos 374 mil veículos de passageiros que circulam na cidade (link). Este é um impacto sobre o qual poucos pensam, mas que é real (ou era no período estudado, sendo que o mais importante é perceber como será no futuro).
Claro que o boom turístico que a cidade de Lisboa conheceu nos últimos anos também foi o motor de transformações importantes, por exemplo ao nível da reabilitação de edifícios, embora também tenha colocado uma enorme pressão sobre o parque habitacional, em particular em alguns bairros históricos da capital.
O projeto COESO, financiado pelo Horizonte 2020, do qual a ZERO é parceira, tem por objetivo olhar para o fenómeno do turismo através de uma lente diferente, contando, quase desde o primeiro momento, com o envolvimento de quem vive na cidade ou para quem a cidade faz parte da vida.
Foi um projeto pensado num tempo diferente, para uma realidade que foi transformada de forma impensável há apenas dois anos atrás. A Lisboa turística de hoje é ainda a mesma cidade sobre a qual pensávamos quando o projeto foi elaborado? Claramente não. É cedo para se conseguir vislumbrar com clareza o que veio para ficar, o que se perdeu e o que se ganhou com esta experiência em larga escala e em tempo real qua a pandemia veio impor. Mas é também um momento particularmente interessante e relevante. Enquanto sociedade, experienciámos o que, para alguns, já era um excesso, para logo de seguida experienciarmos o seu exato oposto. Até que ponto a confrontação com o inesperado alterou a perspetiva sobre o papel que o turismo desempenhou ontem, desempenha hoje e desempenhará no futuro da cidade de Lisboa?
Neste projeto onde a co-criação da investigação é um dos pressupostos centrais, sempre numa lógica de explorar o potencial de uma ciência cidadã, estamos, de facto, perante um contexto promissor para uma reflexão fundamentada e partilhada sobre o que o turismo representa para a cidade de Lisboa.
Para uma organização não governamental de ambiente como a ZERO esta é, de facto, uma oportunidade única de trazer para o debate as suas preocupações, mas também para ouvir e refletir sobre os diferentes pontos de vista que serão partilhados. Dessas reflexões daremos conta em próximos textos.