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Bibliotecas a Sul: apresentação do livro

A obra foi apresentada por Teresa Calçada e Ana Paula Gordo a 5 de março 2024, pelas 15h, na Biblioteca da Escola Secundária Gabriel Pereira, Évora.

Guerreiro, Dália, e Maria Isabel Roque, editors. Bibliotecas a Sul. Publicações do Cidehus, 2023, https://doi.org/10.4000/books.cidehus.21573.

Capa do livro Bibliotecas a Sul: pontos de encontro. Pequenas figuras em mosaico.
Composição elaborada por Mário Rita a partir dos seus desenhos (série “Alices”, 2007-2022), 2023.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto proferido por Ana Paula Gordo

Gostaríamos de agradecer à Isabel Roque e à Dália Guerreiro, responsáveis por este trabalho editorial, o  convite para estarmos aqui, a apresentar esta edição digital Bibliotecas a Sul. É sempre muito grato constatar que as Bibliotecas e, lato sensu o património bibliográfico, são reconhecidas pela Academia, como um tema importante e susceptível de reflexão no âmbito académico.

Um particular reconhecimento ao CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades pelo impulso, importância e empenho postos nas suas áreas de investigação, ás bibliotecas e ao património bibliográfico.

Estamos em presença de 10 autores, 8 dos quais ligados ao CIDEHUS. Saliento que os 10 são, simultaneamente, profissionais na área das Ciências da Informação e, todos eles, investigadores (profissionais ou não), nesta área. O traço comum é a preocupação de todos no combate à iliteracia e a assumpção da importância das Bibliotecas e arquivos na difusão democrática do conhecimento.

A obra foi organizada em três partes distintas, estudos , redes e uma homenagem a Maria José Moura. Cabe-me refletir sobre a primeira parte, os Estudos, cabendo à Teresa as Redes de Bibliotecas a Sul e os testemunhos sobre  Maria José Moura.

Na primeira parte, os Estudos, são apresentados 6 estudos, inéditos, em torno de temas relacionados com as bibliotecas do sul de Portugal continental, sejam da área estrita da biblioteconomia ou, de uma forma mais abrangente, questionando a função cultural das bibliotecas e o valor patrimonial de algumas das suas coleções.

A 2ª parte reflete sobre o trabalho de cooperação e de rede que as bibliotecas desta zona têm vindo a desenvolver. Esta cooperação faz-se entre as bibliotecas municipais e entre elas e as escolares e ainda lateralmente, com outras tipologias de bibliotecas.

A 3ª parte pode dizer-se que é um corolário natural às duas anteriores. São apresentados testemunhos referentes a uma profissional de excelência cujo trabalho revolucionou completamente a profissão e as bibliotecas. A sua intervenção mais visível diz respeito ao incremento da Rede de Bibliotecas Públicas  mas, não temos dúvidas, que a sua ação talvez ainda mais importante, centra-se na luta pelo reconhecimento oficial dos profissionais desta área e da própria profissão como garante da qualidade e desenvolvimento dos projectos nesta área. Igualmente não podemos deixar de referir o grande contributo no desenvolvimento da formação profissional o que, nesta sessão, é de primordial importância. Claro que me estou a referir a Maria José Moura.

Iniciando a análise mais detalhada, e referindo a área dos estudos, o primeiro, da autoria de Teresa Costa e de Maria Margarida Vargues, “Investigação em Ciência da Informação a Sul: análise bibliométrica”, pretende efetuar uma análise da investigação e produção académica e científica em Ciências da Informação, sobre o sul de Portugal continental, ao nível das teses e dissertações produzidas.

A grande inovação deste trabalho centra-se na metodologia, cada vez mais presente na investigação na área das ciências sociais e humanas, que utiliza a bibliometria para analisar quantitativamente a produção científica, socorrendo-se de métodos estatísticos e matemáticos. Esta metodologia esteve, durante muito tempo, arredada da investigação nesta área, provavelmente pela tradicional formação dos bibliotecários, na área das humanidades, e pela falha, sentida desde sempre, da falta de cooperação entre diferentes áreas do conhecimento. Hoje, é com gosto que podemos constatar que, cada vez mais, a cooperação e interligação de saberes se faz sentir, com os resultados que já podemos apresentar.

Genericamente começaram por identificar as instituições que deveriam ser preferencialmente estudadas pelo que se consideraram os trabalhos desenvolvidos em cinco instituições: Institutos Politécnicos de Setúbal,  Beja, Portalegre, Universidades de Évora e do Algarve.

No entanto, sentiram necessidade de alargar a investigação a outras instituições académicas nacionais uma vez que, alguns dos trabalhos aí realizados, versavam temas relacionados com o estudo em causa.

Atendendo a que o universo recolhido foi de 713 trabalhos (669 dissertações de mestrado e 44 teses de doutoramento) apercebemo-nos desde logo que se tratou de um levantamento, moroso e muito trabalhoso uma vez que implicou a pesquisa em todos os repositórios, em acesso aberto, das 15 instituições que oferecem (ou já ofereceram) cursos de mestrado e /ou doutoramento na área da Ciência da Informação (com as suas várias denominações), num período de tempo de 15 anos (2005 a 2020). Para além do levantamento e recolha de dados, houve ainda necessidade de uniformizar a informação contida nos dados, nomeadamente a uniformização de terminologia.

O acesso a esta informação foi dificultado pelo acesso aos próprios  trabalhos. Apesar de se ter centrado nos repositórios institucionais, ligados ao movimento do Acesso Aberto, a verdade é que uma percentagem razoável tem o acesso embargado, não estando identificadas as razões, não se conseguindo aceder ao texto integral o que dificultou a análise.

A apresentação dos resultados é exaustiva e permite retirar algumas conclusões, sendo a primeira e talvez a mais importante, a que se relaciona com o tipo de oferta formativa: pouca ( vindo mesmo a decrescer, revelando um desinvestimento na área) e essencialmente ao nível dos mestrados.

As áreas temáticas são preferencialmente duas: arquivos históricos (descrição arquivística) e bibliotecas públicas (literacia da informação, dinamização da leitura, gestão de fundos documentais, marketing, cooperação e bibliotecas itinerantes).

Como já referi, no decurso da investigação realizada, constaram a existência de  trabalhos efectuados noutras instituições universitárias e em cursos que não as Ciências de Informação mas tendo como objecto de estudo bibliotecas e arquivos do sul do país o que levou as autoras a debruçarem-se e analisarem os mesmos. Destaque para os trabalhos efectuados em áreas ligadas à Educação (pré escolar e 1º ciclo do ensino básico, formação de adultos e promoção e mediação de leitura) e até à Higiene e Segurança no Trabalho (planos de emergência em bibliotecas, riscos internos e externos em edifícios das bibliotecas). Neste ponto, uma vez mais, de notar a crescente  importância da interdisciplinaridade possibilitando uma visão mais alargada e, como corolário de todo os trabalho, as amplas e diversificadas  possibilidades de investigação, tendo por base as bibliotecas a sul.

O trabalho está bem documentado, com uma extensa e atual bibliografia e com um valioso anexo que nos proporciona acesso ao nome do autor de cada um dos trabalhos estudados bem como o título e a instituição onde o mesmo foi apresentado.

O segundo estudo, da autoria de Maria Isabel Roque e Dália Guerreiro, intitula-se “Biblioturismo: uma nova rota para as bibliotecas do Sul”.

Trata-se de um tema de reflexão recente pelo que as autoras iniciam o trabalho com uma valiosa visão dos conceitos utilizados. Primeiro que tudo, o conceito de biblioturismo como um sub grupo do turismo cultural colocando as bibliotecas e o trabalho por elas desenvolvido como fator decisivo para a escolha de um destino turístico ou para elaboração de um roteiro de viagem (citação).

Tradicionalmente este papel poderia ser concretizado pelo valor patrimonial do seu edifício ou dos seus acervos mas, agora, poderemos (ou deveremos) juntar a estes atributos uma nova vertente, ou seja, prestando serviços que permitam a divulgação e conhecimento do território, cultura e tradições. Segundo as autoras, a biblioteca, ao preservar e divulgar o conhecimento da região, assume um papel crucial em oposição aos processos de homogeneização e estandardização das ofertas nos destinos turísticos (citação).

Recentemente este tema tem vindo, cada vez mais, a ser estudado e as autoras elencam vários desses estudos, demonstrando que  o tema turismo cabe dentro de um mais genérico ou seja, as bibliotecas instituições fundamentais nas aprendizagens ao longo da vida.

Agora, a biblioteca, continuando centrada na comunidade local, não pode esquecer os utilizadores ocasionais e mutantes, e heterogéneos.

Assim, abre-se uma nova oportunidade de repensar a programação das bibliotecas, ao longo do ano e ainda uma dinamização e cooperação entre bibliotecas e outros, tais como museus, arquivos, galerias, monumentos.

Como corolário destes pressupostos, inevitavelmente chegamos à necessidade de reconfigurar as bibliotecas e as fontes de informação usadas e/ou criadas nas diversas plataformas digitais permitindo chegar a todos e, consequentemente, ao turismo. Este novo serviço obriga a uma particular preocupação nos padrões de qualidade e normalização, áreas em que é consensual o papel dos bibliotecários ou seja, fornecimento de serviços de digitalização e edição digital, gestão e preservação de dados, produção de conteúdos e auxílio na pesquisa, transformando este profissional, para além de profissional da informação, também em mediador cultural.

Tradicionalmente as bibliotecas são as instituições que melhor cumprem a função de ligação à comunidade local, não só pelo desenvolvimento das coleções relativas ao local onde se inserem mas também pelo desenvolvimento de serviços que apoiem essa mesma comunidade, sempre na óptica de residentes. O alargamento do conceito ao apoio aos passantes, esse sim é um conceito que se encontra ainda numa fase incipiente e muito há a fazer para incluir as bibliotecas nos roteiros turísticos e, elas próprias desenvolverem acções no sentido de serem inseridas como património cultural da cidade, valorizando, além da literatura, as demais atividades de cultura, (citação)

Apesar do grande incremento turístico da última década, em Portugal as bibliotecas e os arquivos não têm vindo a desempenhar ativamente nenhum papel e também não são incluídas , nem se incluem, nos roteiros, conduzindo a um individualismo institucional que cinge as bibliotecas à preservação do património documental e fomenta o seu esquecimento por parte dos agentes da indústria do turismo.

Nos guias turísticos só aparecem bibliotecas se as mesmas apresentarem um notório interesse arquitectónico e patrimonial (há muitos casos na Europa, destaco só as portuguesas do Convento de  Mafra e a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e ainda, um pouco enviesado, o Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro) ou por se destacarem, enquanto projecto de arquitectura, concebidas por grandes nomes da arquitectura mundial como Norman Foster ou Zaha Hadid.

E as bibliotecas a sul, serão capazes de acolher este novo desafio?

Destaca-se a importância do turismo na região sul, só suplantado pelo norte  no índice de dormidas e questiona-se o inevitável: a cooperação entre os diversos atores, sejam públicos, privados ou associativos, e onde as bibliotecas se incluem é não só inevitável como desejável. Nesse sentido, são apresentados os esforços e iniciativas das diferentes bibliotecas da região, com particular destaque para a Biblioteca Pública de Évora que consegue reunir as três valências: edifício patrimonial, acervo de uma importância nacional quer no que toca a manuscritos, livro antigo, iconografia e cartografia e programação diversificada. São elencadas as bibliotecas instaladas em edificios patrimoniais, quer a nível nacional quer de interesse público, num total de 8, descrevendo-se cada um deles com rigor.

Em conclusão, o biblioturismo, segundo as autoras, envolve dois aspectos complementares, mas não necessariamente simultâneos: o carácter determinante da biblioteca na escolha do destino pelo reconhecimento do valor patrimonial e cultural do edifício onde se encontra e dos acervos que possui; a prestação de serviços de apoio ao turista para o conhecimento e interpretação do lugar, incluindo a integração das memórias e das narrativas dos residentes (citação).

O trabalho é sustentado por uma extensa e actualizada bibliografia e abre pistas para trabalhos futuros com novas reflexões sobre o tema e estudos de caso susceptíveis de existir na região.

Os três estudos que se seguem apresentam um traço comum: dar a conhecer, em mais profundidade, os acervos de três excelentes bibliotecas patrimoniais, a Biblioteca Pública de Évora, Arquivo e Biblioteca Museu da Casa de Bragança, em Vila Viçosa e o fundo antigo da Biblioteca Municipal de Elvas.

Trata-se de fundos com proveniências distintas mas todos eles ricos em incunábulos, manuscritos e ricos exemplares de livro antigo.

Por curiosidade, as três bibliotecas formaram-se por desejo expresso de personalidades reconhecidas, seja  Frei Manuel do Cenáculo, no caso de Évora, d’el rei D. Manuel II no caso da Casa de Bragança e, no caso de Elvas, as bibliotecas dos conventos extintos ter-se-iam perdido sem a intervenção de diversos vigários capitulares, nomeadamente António Joaquim Epifânio de Andrade. Ainda como curiosidade, as três  nascem ou contêm uma outra característica comum: serem Bibliotecas Museu uma vez que existe a noção da associação de objectos à documentação.

Entremos então na especificidade de cada um deles.

Dos três, o primeiro é da autoria de Francisco António Lourenço Vaz versa “A Biblioteca Pública de Évora (1805-2005) – 200 anos de património bibliográfico e serviço público”

Estamos perante um estudo que, na sequência de muitos realizados  ao longo de todo o séc. XX e XXI o que só por si testemunha a importância desta biblioteca, visa responder a 3 questões:

– Como evoluiu a coleção da biblioteca e que novos fundos foram integrados?

– Como cumpriu as principais funções sociais: salvaguardar a coleção e promover a leitura pública?

– Quais os desafios que se colocam na era da informação em que vivemos?

A resposta à primeira questão está expressa, de uma forma clara, detalhada e bem organizada pelo que convido todos a lerem e alguns de vós  a utilizarem como fonte documental para futuros trabalhos. Da riqueza do acervo da Biblioteca Pública de Évora bastará referir que, em 1834 era a  fiel depositária das bibliotecas de 10 dos mais importantes conventos extintos estimando-se um total de 19 508 exemplares a que se veio a juntar obras de outros conventos como o caso da Cartuxa. Para além, obviamente dos estimados 50 000 volumes existentes em 1814, à morte de Frei Manuel do Cenáculo.

As contingências da vida da Biblioteca levaram a que nem todo este espólio se mantivesse na instituição, havendo menções escritas sobre obras que não se encontram. A título de exemplo refiro uma Bíblia de Gutenberg.

No entanto, a Biblioteca Pública de Évora continua como uma das mais importantes de Portugal (nalguns casos rivalizando com a Biblioteca Nacional de Portugal) nas suas coleções de manuscritos, iluminuras, incunábulos, cartografia, de especial importância no que respeita ao séc. XVI.

-Como cumpriu as principais funções sociais: salvaguardar a coleção e promover a leitura pública?

É também relatada a forma como, desde sempre, se fizeram os maiores esforços para preservar as coleções e, sobretudo para permitir a utilização e fruição das mesmas, quer por estudantes e investigadores mas, desde o início também por alguns ditos curiosos. Destaca-se, com a maior justiça, o trabalho desenvolvido por Cunha Rivara, a partir de 1838 e até 1879, sobretudo no seu papel de ampliar a coleção mas também permitir um melhor e mais amplo acesso.

Foi após 1887 com a criação da Direcção Geral de Instrução Pública, de quem a Biblioteca dependia, que o acesso mais aberto se faz sentir.

Outro marco importante foi, em 1931, a BPE passar a ser beneficiária do Depósito Legal o que se mantem até hoje e, como referido, à época, no Decreto Lei, pretendia-se transformar as bibliotecas e arquivos em organismos vivos de erudição e cultura.

Por não ser normal nas nossas bibliotecas na época do estado novo, gostaria de realçar o facto de existir a possibilidade de leitura noturna já em 1938 bem como bibliotecas sazonais, no espaço público (jardins) e a abrir-se à comunidade oferecendo espaços para iniciativas culturais diversas.

Em 2005, nas comemorações do bicentenário foi feito um enorme esforço para alertar a opinião pública e os decisores, no sentido de dotar a biblioteca de espaços que albergassem pelo menos a parte contemporânea do acervo, permitindo a existência de uma biblioteca pública nos moldes modernos e ainda o Arquivo Distrital, cuja existência está muito ligada à biblioteca. Na ausência desse projecto, a biblioteca, após algumas obras de melhoramento, iniciou o empréstimo domiciliário e criou vários serviços de apoio à comunidade.

Muitos desafios se apresentam a esta instituição que luta por se modernizar sem perder o seu carácter patrimonial, erudito mas também espaço de socialização e serviços à comunidade.

O segundo, da autoria de Maria de Jesus Monge e Carlos Saramago intitula-se “O acervo das bibliotecas patrimoniais”.

Desde o séc. XV que a casa de Bragança, a par da casa real, se desloca para sul devido à centralidade conferida a Évora. Desde então, e uma vez que o ducado de Bragança, em terras do sul, se fixa em Vila Viçosa, e sobretudo no séc. XVI com D. Teodósio I, “nasce” uma valiosa biblioteca, ligada ao projecto de instalação de uma universidade associada ao Mosteiro dos Agostinhos. Esse projecto, abandonado para dar lugar à Universidade de Évora, deixa de se revestir da sua importância maior mas é testemunho hereditário do interesse dos duques em estudar e, portanto, reunir numa biblioteca o conhecimento da época, de que há vestígio desde o primeiro Duque.

No entanto, é com D. Manuel II, rei deposto e já no exílio que se reúne, na Casa de Bragança uma coleção de livros e documentos de uma incomensurável riqueza e importância nacional.

No início deste estudo é feita uma resenha muito exaustiva e documentada sobre a evolução da coleção desde os primórdios até ao séc. XX, com a incorporação de obras provenientes do Palácio das Necessidades, pertença dos últimos membros da família real. Convido-vos a ler por se tratar de um  optimo documento de estudo, bem como a descrição do arquivo, igualmente importante, com destaque para o Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Arquivo Musical, e o Arquivo Fotográfico.

Mas, como já referi, a Biblioteca motivo maior deste estudo é a do rei D. Manuel II, na sua larga maioria uma coleção proveniente de aquisições no mercado livreiro internacional, em pouco mais de 10 anos.

Com a morte de D. Manuel II, em 1932, em Londres, o testamento é claro: “todas as minhas coleções constituam um museu para utilidade de Portugal, minha bem amada Pátria”.

A coleção, depositada em Vila Viçosa, foi paulatinamente estudada pelos vários diretores e/ou bibliotecários arquivistas e existem muitas obras impressas susceptíveis  de estudo mas, uma vez que o rei não se limitou a comprar as edições mas a estudá-las, documentá-las e escrever sobre elas, é de relevante interesse o catálogo, em dois volumes, onde descreve cada uma das espécies.

Postumamente é publicado o 3º volume, por iniciativa da viúva do rei.

Segundo estes catálogos a coleção compunha-se de 2 manuscritos,6 incunábulos e 306 obras impressas do séc. XVI.

O estudo realça a forma de trabalho do rei, as vicissitudes até à publicação dos catálogos e como tem sido feitas as novas aquisições no sentido de enriquecer o conjunto real.

Neste estudo encontram-se também elencados os mais relevantes documentos manuscritos e impressos com destaque para a valiosa e única camoneana, alvo de algumas exposições sendo a mais recente de 2015/2016 onde foram mostradas obras que nunca tinham saído de Vila Viçosa.

Relembro que estamos em presença de um vasto conjunto documental, com espécies desde o séc. XV até hoje, bem conservado e aberta ao público, que este artigo convida a conhecer e estudar.

Uma vez mais de realçar a vasta e exaustiva bibliografia que acompanha este estudo.

O terceiro estudo  referente a bibliotecas patrimoniais é da autoria de Maria Filomena Gonçalves e Tânia Morais Rico, com o título “A Biblioteca Municipal de Elvas: arqueologia bibliográfica de uma valiosa coleção patrimonial”.

Neste estudo, que não pretende cobrir toda a coleção pois seria um trabalho ciclópico, é primeiramente contextualizada a coleção referindo-se minuciosamente e com muito rigor a génese e o desenvolvimento da sua constituição de que vos proponho uma leitura. Tal como já referi anteriormente, esta coleção nasce com a extinção das ordens religiosas  e conta, no que toca a Livro Antigo, com espécies repartidas em manuscritos, incunábulos, impressos dos sec. XVI e XVII, cartografia e cerca de 67 000 títulos impressos a partir de 1701.

A Biblioteca, denominada de Biblioteca Pública desde 1880,  mantem essa função até hoje, em instalações renovadas e apresentando novos e modernizados serviços, conservando esta dupla função de biblioteca patrimonial e de biblioteca ligada à comunidade, para além dos investigadores.

Como será fácil perceber, a riqueza deste acervo é muito grande e variado, pelo que as autoras optaram por nos apresentar, como exemplo, 3 tipos de obras, descritas uma a uma apresentando importantes referências bibliográficas. São elas:

Dois manuscritos – Cancioneiro de Elvas do século XVI e o Livro que trata das cousas da Índia e do Japão também do sec. XVI

1 obra científica impressa – 1ª edição dos Colóquios dos Simples e outras Drogas da India de Garcia da Orta, de 1563

1 mostra de obras didáticas relativas ás línguas – obras monolíngues, bilingues e multilingues que “ traduzem quer a diversidade linguística, quer a variedade de textos em que o português é confrontado com idiomas europeus e extraeuropeus” (citação).

Esta temática é verdadeiramente uma curiosidade desta coleção o que tornou possível efectuar uma exposição no Ano Europeu do Património Cultural.

Com os exemplos enumerados os quais, para além da sua importância no que toca ao conteúdo, é igualmente importante numa outra vertente: a representação das maiores tipografias europeias, conferindo aos exemplares por si só, uma importante valia. Trata-se de um elenco de 25 títulos todos eles dedicados à temática do ensino das línguas e/ou da importância das línguas como instrumentos da comunicação humana.

Também neste trabalho se apontam pistas de investigação que a academia deveria agarrar desenvolvendo estudos sistemáticos  que conduzissem a uma maior divulgação deste rico e pouco conhecido património.

Tal como nos casos anteriores, também este trabalho se faz acompanhar de uma extensa e atualizada bibliografia.

O tempo já vai longo mas a culpa não é minha. É sim do muito que há para dizer e, não quero deixar de me focar no último estudo desta 1ª parte da edição.

Refiro-me ao trabalho” Biblioteca digital do sul: passado e futuro”, da autoria de Dália Guerreiro

Quem conhece a Dália sabe da sua luta e persistência no sentido de conseguir que as bibliotecas digitais assumam um maior papel na sociedade, não só no apoio à investigação mas também para a fruição por parte do público em geral. A existência destas instituições online permitem, a todos, usufruir da informação 24 horas por dia, 7 dias por semana. Este é o pressuposto desta cruzada que todos reconhecemos que a Dália leva a cabo.

Depois de apresentar um conjunto de directrizes internacionais que respaldam a ideia da urgência de bibliotecas digitais, aponta as vantagens das mesmas (funcionamento sem restrição de tempo, acesso à distância, acesso simultâneo por vários utilizadores, acesso a pessoas com deficiência, aumento da visibilidade das coleções e permitir  preservar os documentos) e os limites e constrangimentos que se colocam quando se avança para um projecto deste tipo: caro, exige conhecimentos específicos no âmbito da digitalização, de utilização de metadados e das novas tecnologias da informação e comunicação. Para além destes pressupostos, implica um minucioso trabalho prévio definindo parâmetros relativos a utilizadores e conteúdos a disponibilizar.

Na impossibilidade de cada biblioteca desenvolver um projecto deste tipo seria desejável que várias instituições acordassem entre si estabelecer uma parceria que permitisse levar a bom porto todas estas exigências.

É então apresentado o projecto Biblioteca Digital do Alentejo, que se iniciou em 2007, e desenvolvido pela Fundação Alentejo – Terra mãe. Este projecto teve vida curta (cerca de 2 anos) com a morte do fundador e a extinção da Fundação, tendo estado ainda em linha, através do site da Biblioteca Pública de Évora mas sem adição de novos conteúdos e hoje descontinuada.

Segundo o documento que o criou, este projecto visava ser “um suporte documental regional em suporte electrónico, propondo a conversão a formato electrónico de obras, quer impressas quer manuscritas, relativas à região do Alentejo”.

A ele juntaram-se 19 instituições que pretendiam desenvolver a ideia, em regime de cooperação e, neste trabalho é apresentado com detalhe, a concepção do site e os resultados já visíveis e pesquisáveis.

E o futuro deste trabalho iniciado em 2007?

Segundo a autora, o projecto deveria, antes de tudo, estar ancorado numa instituição ou conjunto de instituições que assegurassem conteúdos e financiamento. Aponta ainda as várias Redes Intermunicipais de Bibliotecas como as interlocutoras preferenciais uma vez que são as bibliotecas que detêm os conteúdos e o pessoal técnico capaz de desenvolver este projecto. E as Câmaras, terão o dinheiro….

Dando suporte a esta ideia, a autora aponta outras valências desta biblioteca digital, para além da área patrimonial e que poderiam ser uma mais valia importante para as bibliotecas públicas: (divulgação e promoção de obras, hora do conto, leitura de jornais e revistas, encontros e conferências e esclarecimento de dúvidas).

Hoje falámos de 3 casos singulares, a sul, cujos acervos mereciam que um  projecto desta envergadura se desenvolvesse.

Resta-me desejar a todos, a Sul, que os vossos esforços alcancem bom termo, pois, sem dúvida o futuro passa por este tipo de iniciativas, única forma de potenciar o trabalho desenvolvido por cada uma das instituições.

Obrigada pela paciência

Fotos do evento:

Dalia Guerreiro
Dalia Guerreiro
Doutoranda em Ciências da Informação e da Documentação pela Universidade de Évora. É membro integrado do CIDEHUS e bolseira da… Ler mais

OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
Dalia Guerreiro (16 de Maio de 2024). Bibliotecas a Sul: apresentação do livro. Bibliotecas e humanidades digitais. Recuperado em 26 de Julho de 2026 de https://doi.org/10.58079/11ogs


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